Blog do André Rocha

A Copa não vai dar outra chance para o Brasil perder tantos gols
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André Rocha

O primeiro tempo foi de tensão e dificuldades diante do 5-4-1 da Costa Rica que lembrou 2014 contra Itália, Uruguai e Inglaterra. Muita pressão no adversário com a bola, última linha de defesa bem coordenada e saída rápida, especialmente pela direita nas costas de Marcelo.

O Brasil podia ter sofrido mais nos primeiros 45 minutos, não fosse a ineficiência ofensiva do adversário. Simplesmente nenhuma finalização na direção da meta de Alisson. Incluindo o chute de Borges pra fora na jogada mais bem concatenada. Exatamente o que faltou à seleção de Tite. Sem infiltração, sem abrir o jogo. A destacar apenas o passe em profundidade de Casemiro para a única diagonal de Neymar, mas Keylor Navas chegou antes.

Tudo mudou na volta do intervalo, não só pela entrada de Douglas Costa. Mas intensidade e mobilidade. Paulinho passou a encontrar espaços para infiltrar, Fagner chegou bem à frente e centrou para Gabriel Jesus cabecear no travessão. A primeira de uma série de chances que se convertidas descomplicariam o jogo.

Com Firmino no lugar de Paulinho, o desespero em busca do gol salvador. Número absurdo de cruzamentos: 42. O cenário ficou ainda mais complexo com o pênalti bem anulado pelo árbitro Bjorn Kuipers. Neymar, mais uma vez, tentou trocar a sequência do lance por uma falta. Houve toque de Gonzalez, sim, mas o camisa dez ao notar o braço no peito joga o corpo para trás. Se tentasse seguir haveria a chance de finalização. A confusão só aumentou a tensão, inclusive de Neymar, que levou amarelo.

Quando parecia que o Brasil repetiria 1978 com dois empates nas duas primeiras partidas e correria um sério risco de eliminação na fase de grupos como em 1966, valeu a presença na área dos dois centroavantes. Centro de Marcelo, Firmino ajeitou, a bola passou por Jesus e Coutinho acabou com a agonia. O gol de Neymar nos acréscimos completando assistência de Douglas Costa foi mera consequência do alívio.

Vitória fundamental. Mas é bem provável que a Copa do Mundo não dê outra chance de perder tantos gols. 23 finalizações. Nove no alvo, melhorando o aproveitamento em relação à estreia. Mas foram duas finalizações de Neymar à frente de Navas com liberdade. Uma de Coutinho.

Em um torneio marcado até aqui pelo equilíbrio e pela solidez defensiva das ''zebras'' é obrigatório ser mais preciso. No desempenho já há duas referências: os primeiros 20 minutos contra a Suíça e o início do segundo tempo contra a Costa Rica. Falta o acabamento.

Sem comparações técnicas e históricas, mas Peru e Marrocos já estão eliminados por conta dos ataques ''arame liso''. É preciso fazer o ajuste fino. Com a primeira vitória, a ansiedade pode atrapalhar menos contra a Sérvia.

(Estatísticas: FIFA)


Croácia sobra contra a loucura de Sampaoli. Messi desta vez foi vítima
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André Rocha

A chance da Argentina ser competitiva era, ou ainda é, o pragmatismo de Jorge Sampaoli emulando uma equipe aos moldes de Alejandro Sabella. Duas linhas de quatro compactas, organização, simplicidade e liberdade para Messi potencializar seu talento.

Mas o treinador, mesmo com pouco tempo de trabalho, muita instabilidade e um grupo, digamos, heterogêneo de jogadores, não abriu mão de suas convicções. Na estreia até tentou algo próximo da ideia de Sabella. Como não foi bem nem venceu, resolveu fazer do seu jeito.

E mandou a campo os três zagueiros adiantados, alas bem abertos e um trio ofensivo formado por Messi, Aguero e Meza. O 3-4-3 preferido pelo treinador, discípulo de Marcelo Bielsa, em seus outros trabalhos. Nunca sequer treinado com esta formação neste ciclo de um ano.

Logo contra a Croácia de Rakitic, Perisic, Modric e Mandzukic. Líder do grupo, sem tensão de estreia. Respeitando a camisa albiceleste e Messi. Por isso a escalação de Brozovic para ser o volante do 4-1-4-1 e negar os espaços entre defesa e meio-campo a Messi.

Saída rápida pelos flancos com toques rápidos buscando Mandzukic. Teve algum problema para adaptar o sistema à proposta argentina. Podia ter sucumbido no incrível gol perdido por Enzo Pérez, o meio-campista escalado com Mascherano para proteger a retaguarda cada vez mais exposta.

Mas controlou o jogo e esperou o erro. Veio do goleiro Caballero, titular por ser considerado pelo treinador o melhor a jogar com os pés. Mas vacilou na reposição após o recuo e entregou nos pés de Ante Rebic, que acertou linda finalização, ainda mais por não esperar o ''presente''.

A Argentina desmoronou emocionalmente. Porque não há nenhuma segurança do que se pode fazer em campo. Um barco à deriva. Com espaços, Modric e Rakitic desfilaram a classe e os recursos técnicos que o planeta conhece. Dois belos gols para dimensionar a distância atual entre as equipes. 3 a o para garantir a classificação e dar moral aos croatas para as oitavas.

Moral. Confiança. Tudo que a Argentina não tem para jogar a sua história contra a Nigéria. Adversário sempre duro, que pode chegar ainda vivo. Que curiosamente estava no ''grupo da morte'' em 2002 que mandou os favoritos argentinos para casa. Também os nigerianos. Eliminados por dois europeus, Inglaterra e Suécia. Se a Islândia vencer amanhã a história pode se repetir.

Porque Sampaoli foi mais insano que ''El Loco'' Bielsa ao mudar sistema, modelo e plano de jogo dentro da Copa do Mundo sem nada para construir sua convicção. Por isto desta vez o contexto não permite condenar Messi. De novo passivo e desanimado depois de sofrer um gol. Mas a combinação do nível do adversário e da desorganização e mediocridade dos companheiros transforma o camisa dez em vítima. Mesmo considerando que é a última chance de vencer como protagonista por seu país.

Simplesmente não havia o que fazer. Haverá ainda algo para salvar a Argentina de um vexame histórico na Rússia?


Peru eliminado jogando bem de novo, mas França parece encontrar o time
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André Rocha

O Peru de Ricardo Gareca não repetiu o domínio na estreia contra a Dinamarca, nem teve a bola do jogo como no pênalti desperdiçado por Cueva. Mas jogou bem novamente. 56% de posse, boas oportunidades, chute no travessão. Força pela direita com Advíncula e Carrillo. Mas das dez finalizações acertou apenas duas na direção da meta de Lloris.

É o problema de ter Paolo Guerrero. Artilheiro da seleção peruana, mas repete uma dificuldade que sempre o acompanhou na carreira: precisa finalizar muito para fazer gol. Em um jogo mais parelho complica. Pior foi perder a bola na pressão francesa logo após a perda. Pogba roubou, acionou Giroud e, no rebote de Gallese, gol de Mbappé.

Para consolidar o bom primeiro tempo francês. Ganhou consistência com as mudanças. Didier Deschamps desfez o 4-3-3 da estreia e montou um 4-2-3-1 com Giroud na referência e Matuidi executando uma função importante pelo posicionamento. ''O ponta-volante''. Ou seja, o que Ramiro executa no Grêmio. Joga pelo lado, mas atua mais próximo da dupla de meio-campistas que dos seus companheiros do quarteto ofensivo.

A entrada deu o corredor para o lateral Hernández, que apareceu bem na frente em alguns momentos e desperdiçou boa oportunidade aparecendo no ataque. Também liberou a mobilidade de Mbappé e Griezmann em torno de Giroud. Arredondou o modelo de jogo com mais solidez atrás e verticalidade na frente. Com 44% de posse finalizou 12 vezes, metade no alvo. Destaque para os cinco desarmes, as duas interceptações e apenas dois passes errados em 46 de Kanté.

Sofreu na segunda etapa e não conseguiu melhorar a transição ofensiva com Dembelé e Fekir, que substituíram Mbappé e Griezmann. Mas passa também pelo volume de jogo do adversário. Algo a ser ajustado contra a Dinamarca já pensando nas oitavas de final. Ainda assim, fica a impressão de que Deschamps encontrou uma formação que pode e deve ser repetida mais vezes. Para enfim confirmar no campo a força da França no papel.

França no 4-2-3-1 com Giroud na frente e Matuidi como ''ponta-volante'' pela esquerda dando liberdade para Griezmann e Mbappé, abrindo o corredor para Hernández e fechando o setor forte do Peru com Advíncula e Carrillo. A seleção de Gareca novamente teve volume de jogo, mas perdeu chances e falhou atrás (Tactical Pad).

(Estatísticas: FIFA)

 


As diferenças entre ferrolho, catenaccio, retranca e linha de handebol
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André Rocha

Como previsto neste blog antes mesmo da bola rolar na Rússia, a Copa do Mundo de 2018 vem trazendo nesta primeira rodada da fase de grupos e especialmente nas atuações da Islândia no empate com a Argentina por 1 a 1 e na do Irã, derrotada pela Espanha por 1 a 0, a marca de sistemas defensivos sólidos e organizados numa linha que costuma proteger a área com cinco, seis ou até sete jogadores.

Nas redes sociais e nos debates em TV, internet, rádio e na mesa de bar surge logo o termo ''retranca'', normalmente reduzindo a estratégia das seleções que se fecham como um amontoado de jogadores guardando ''covardemente'' a própria meta.

Muito comum também recorrem a termos que orbitam o ''glossário'' habitual do futebol como ''ferrolho'' e ''catenaccio'' como sinônimos de estilos que privilegiam o trabalho defensivo. Como se fosse tudo a mesma coisa.

Não é. Até porque são práticas de épocas diferentes, com todas as suas particularidades. Seu ''zeitgeist'', ou espírito do tempo. São de uma época que não volta mais, ainda que o legado de todos os eles sempre ajude a construir o que se pratica hoje.

Tudo começa no reconhecimento de que se um time tentar encarar o adversário de frente sendo inferior tecnicamente as chances de ser derrotado e até goleado aumentam exponencialmente. Jogar mal e deixa o oponente à vontade é um convite ao fracasso.

Não foi exatamente o que pensou Karl Rappan ao chegar ao Servette no final dos anos 1920 para ser jogador-técnico. Sua preocupação maior era a questão física, já que seu time era semiprofissional e iria enfrentar adversários totalmente dedicados ao esporte. Mas a questão técnica também era importante.

Por isso criou o ''verrou'', ou ''ferrolho''. Nada mais era que uma evolução diferente do 2-3-5 para o WM (3-2-2-3). Um defensor protegendo a linha de três zagueiros, um centro-médio à frente de dois meias, dois pontas e um centroavante. Uma espécie de 4-3-3 com líbero. Encaixando no sistema rival. Cada um marca o seu e um homem sobra. Com o olhar de hoje, nada demais.

O ''ferrolho'' da Suíça em 1938 que chamou atenção pela solidez defensiva. Basicamente um 4-3-3 com líbero (Tactical Pad).

Mas chamou atenção na época especialmente na Copa do Mundo de 1938, a última antes da Segunda Guerra Mundial. A Suíça de Rappan venceu a Inglaterra em um amistoso pré-Copa e na estreia superou os alemães. Acabou vencido pelos húngaros e voltaram para casa. Marcaram época, porém.

E o que marcaria o conceito de ''retranca'' também estava lá na Suíça. Não exatamente com quantos se defende, mas como se ataca. O time poderia jogar em qualquer sistema, mas se atacasse apenas em velocidade com bolas longas para seus atacantes, chegando com apenas três ou quatro na área adversária e marcasse poucos gols já era chamado de time ''covarde''.

Como o Fluminense nos anos 1950, cujo grande destaque era o goleiro Castilho e vencia seus jogos por placares magros em tempos de gols em profusão. Por isso ganhou o apelido de ''timinho''. Mas vencia.

Multicampeão foi Helenio Herrera, argentino que comandou a Internazionale de 1960 a 1968, mas com passagens pelas seleções de Espanha e Itália. O treinador que atualizou o ''catenaccio'', a porta trancada. Estratégia que teve seu primeiro ensaio no ''Método'' de Vittorio Pozzo, bicampeão mundial de 1934 e 1938 pela Itália e a consolidação com Nereo Rocco, vice-campeão italiano de 1948 com o Triestina e que depois se consagraria no Milan dos anos 1960.

Herrera contestava o rótulo defensivista para sua estratégia que adaptou o volante Picchi como líbero para que Fachetti tivesse liberdade para atacar pela esquerda como o ''terzino fluidificante''. O armador espanhol Luís Suárez, chamado de ''regista'', acionava o trio de ataque em contragolpes. O conceito ofensivo de Herrera não podia ser mais atual: poucos toques na bola e velocidade. ''Se você toca verticalmente e perde a bola, o prejuízo é pequeno. Mas se perder tocando horizontalmente pode levar um gol'', explicava.

Helenio Herrera armou o ''catenaccio'' na Internazionale com líbero para permitir que Facchetti tivesse liberdade para apoiar pela esquerda. Time de toques rápidos e velocidade no ritmo do ''regista'' Luis Suárez (Tactical Pad).

A estratégia da Itália campeã mundial em 1982 que eliminou o lendário Brasil de Telê Santana até hoje é chamada erroneamente de ''catenaccio''. A seleção do treinador Enzo Bearzot praticava mesmo o ''gioco''. Com o líbero Scirea, o ''terzino'' Cabrini, o ''regista'' Antognoni e Bruno Conti, o ''ala tornante'', ou o ponta que retorna para transformar o 4-3-3 em 4-4-2. A proposta, porém, embora reativa contra equipes superiores tecnicamente, valorizava mais a bola e tinha alguma preocupação estética, com o jogar. A marcação era mista, por zona ou encaixe para a maioria dos jogadores e individual com o grande talento do adversário. Quem não lembra de Gentile perseguindo Zico e Maradona por todo o campo?

No Brasil, as retrancas sempre foram tratadas como o único recurso para o time inferior. Algo inconcebível para times grandes. Os quatro da defesa mais o volante, o meia-armador e o ''falso ponta'' recuados para que a equipe atacasse apenas com três homens. Viviam de uma ''bola vadia'' para vencer. Era o que faziam os times médios e pequenos contra esquadrões como o Santos de Pelé, o Botafogo de Garrincha, a Academia do Palmeiras, o Cruzeiro de Tostão, o Flamengo de Zico, entre outros tantos.

Milton Buzzeto, Paulinho de Almeida e Pinheiro foram ''retranqueiros'' célebres, comandando times pequenos que se fechavam e tomavam pontos dos grandes. Muitas vezes apelando para faltas violentas e esburacando os gramados para dificultar a vida das equipes mais técnicas.

Há, porém, uma diferença clara entre os métodos citados e as atuais linhas ''de handebol''. Enquanto o ''ferrolho'', o ''catenaccio'' e a retranca tinham o jogador adversário como referência com perseguições individuais, o trabalho sem a bola na atualidade, na grande maioria dos casos, procura fechar espaços de acordo com a região em que está a bola. Marcação por zona.

O ''marco zero'' surgiu por necessidade. José Mourinho perdeu Thiago Motta expulso no Camp Nou contra o Barcelona de Pep Guardiola na semifinal da Liga dos Campeões 2009/10 precisando administrar uma vantagem de dois gols, mas que pela vitória por 3 a 1 da Internazionale em Milão podia escapar com uma derrota por 2 a 0.

Com a desvantagem numérica, Mourinho abriu mão totalmente da posse de bola e da possibilidade de contra-atacar e plantou seu time na frente da área. Mas não de forma desordenada. Criou uma linha de seis ou sete jogadores para ao mesmo tempo negar espaços para as arrancadas de Lionel Messi e também as infiltrações por dentro, mas sem deixar de cuidar dos jogadores abertos que eram um dos segredos do esquadrão blaugrana para abrir as defesas adversárias.

José Mourinho armou a ''linha de handebol'' com sete homens, inclusive Samuel Eto'o protegendo a própria área do Barcelona de Guardiola. E o futebol começou a mudar. (Reprodução ESPN)

Sofreu apenas um gol e ainda viu o Barça apelar para Piqué como centroavante nos minutos finais. Já que não havia como infiltrar, a saída foi levantar bolas na área. Mourinho tirou o Barça de seu conforto, alcançou uma classificação heroica para a final da Liga dos Campeões que terminaria em título. O último da Champions do clube e do treinador. Mais que isto, sua resposta a Guardiola mudou o futebol mundial.

Alguns treinadores tentaram copiar os conceitos do catalão, mas a maioria, quando necessário, assimilou mesmo o ''ônibus'' de Mourinho. Já que o jogo passou a ser feito em 20, 30 metros, o time concentra o maior número de corpos nos espaços certos perto da própria área para impedir que o adversário entre. Como no handebol.

O desenho tático pode variar. Uma linha de quatro defensores pode ganhar mais dois pelos lados e passar a ser formada, na prática, por seis homens. Ou sete, se a linha for de cinco ganhando mais um zagueiro. Mas dois jogadores para impedir os chutes de fora da área com liberdade e um único atacante.

Mourinho tirou a vergonha e colocou a inteligência na retranca. Junto com outros treinadores foram aprimorando os conceitos ao longo do tempo. Sem deslealdade ou jogo sujo, apenas posicionamento e concentração. É claro que no mais alto nível fica difícil competir com equipes mais versáteis e talentosas – e Mourinho vem sofrendo com isso nos últimos anos.

Mas para confrontos como o dos iranianos comandados por Carlos Queiroz diante dos favoritos espanhois é uma estratégia legítima e até lógica. Embora não agrade as retinas deste que escreve, muitos conseguem até enxergar beleza na prática.

Irã com seis jogadores protegendo a própria área: quatro defensores e os dois pontas voltando como laterais para conter a Espanha (reprodução TV Globo).

Só não é tudo igual. As linhas de handebol podem até ser consideradas uma evolução de ''ferrolho'', ''catenaccio'' e ''retranca''. Mas as práticas e os princípios são bem distintos. Basta ter olhos de ver.

 

 


A “retranca handebol” do Irã que exigiu da Espanha a força de Diego Costa
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André Rocha

Pelo histórico recente de Espanha e Irã e o que aconteceu na primeira rodada era esperado o maior duelo ataque x defesa da Copa do Mundo até agora. E o jogo confirmou a previsão, especialmente pela postura do Irã.

Uma estratégia que não é novidade há tempos no futebol mundial. Vem de José Mourinho na classificação da Internazionale para a final da Liga dos Campeões de 2009/10 segurando com um homem a menos o Barcelona de Pep Guardiola ao alinhar em vários momentos sete jogadores na última linha de defesa impedindo as infiltrações.

O próprio Irã resistiu a Argentina de Messi o quanto pôde na Copa de 2014 no Brasil trabalhando da mesma forma. Aproxima bastante os quatro defensores da última linha fechando as infiltrações pelo centro e recuando os dois meias pelos flancos negando a chegada ao fundo dos laterais adversários. Ou seja, formando uma linha de seis homens e mais três à frente deixando apenas um atacante. Ou seja, a ''retranca handebol''.

A Espanha respondeu como sabe: com posse de bola, invertendo o lado do campo, criando espaços com a movimentação e a inteligência de Iniesta, David Silva e Isco, abrindo o campo com Carvajal e Jordi Alba. O ''corpo estranho'' era Lucas Vázquez, que no Real Madrid atua como ponta, mas no jogo circulou tentando se associar com os meias. Para isto seria melhor manter Koke ou encaixar Thiago Alcântara.

Foram 69% de posse, 89% de efetividade nos passes. 17 finalizações, mas apenas três na direção da meta de Beiranvand. Um tanto pela imprecisão espanhola, mas muito pela competência da seleção de Carlos Queiroz, no comando desde 2011. Movimentos perfeitos no bloqueio de passes, cruzamentos e chutes. Um muro ou ônibus guardando a própria meta.

Quem resolveu? Diego Costa, à sua maneira. Enrosco, disputa física, dividida e bola na rede. A sofisticação espanhola ganhou um toque ''ogro'' no ataque para arrancar um gol à forceps. Talvez a Espanha campeã mundial em 2010 achasse o gol num passe genial de Xavi para David Villa ou na cabeçada de Puyol, mas alguns problemas poderiam ter sido resolvidos pelo típico centroavante que tem força física, posicionamento e qualidade suficiente para dialogar com os meias talentosos.

Mas não há nada resolvido no Grupo B. Porque a Espanha provavelmente terá mais espaços contra Marrocos, mas também sofrerá mais na defesa, ainda que o adversário da última rodada seja ''arame liso''. Porque Hierro conta com Carvajal e Alba como laterais ofensivos, mas Piqué e Sergio Ramos não são tão rápidos na cobertura e Sergio Busquets é lento na proteção da retaguarda. Mesmo tão fechado, o Irã criou problemas e poderia ter empatado. Mas num universo de seis finalizações não acertou nenhuma no alvo. Ou apenas o gol bem anulado de Saeid Ezatolahi.

Se melhorar este desempenho ofensivo pode criar problemas para Portugal, que sofre bem mais na construção que a Espanha. Missão novamente para Cristiano Ronaldo. Este problema ao menos os espanhois tiraram do caminho.

(Estatísticas: FIFA)


Marrocos “arame liso”, Cristiano Ronaldo, gol de bola parada. Mais do mesmo
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André Rocha

Talvez a vantagem no placar logo aos quatro minutos tenha feito mal a Portugal e condicionado a atuação com baixa concentração. Aliás, tem sido uma tônica nesta Copa do Mundo uma queda de produção depois de marcar o gol, como se fosse uma espécie de garantia de vitória, ainda mais contra seleções que atuam mais fechadas.

Não é o caso do Marrocos do treinador Herve Renard. Equipe que pressiona a saída de bola, trabalha com bola no chão triangulando pelos flancos, com destaque para Amrabat pela direita, e constroi bom volume de jogo, terminando com 53% de posse de bola. Mas está fora da Copa do Mundo com duas derrotas.

Basicamente porque foi ''arame liso''. Cercou, mas não furou. E como tentou! Foram 13 finalizações na estreia contra o Irã e mais 16 diante dos campeões europeus. 29 no total, mas apenas sete no alvo. 25% de efetividade. Nenhum gol.

E o pior: sem transformar domínio em oportunidades e gols, qualquer vacilo atrás é fatal. Gol contra a favor do Irã e Manuel da Costa aceitando com facilidade o desmarque de Cristiano Ronaldo na cobrança de escanteio da direita. O quarto do gênio da grande área no Mundial.

Luta solitária do goleador por conta do desempenho paupérrimo de Bernardo Silva, Gonçalo Guedes e João Mário, que ganhou a vaga de Bruno Fernandes, os companheiros no quarteto ofensivo do 4-4-2. Inviabilizando qualquer tentativa da seleção de Fernando Santos de aproveitar os espaços cedidos pelo adversário.

Mas foi o suficiente. Na bola parada. O 23º gol dos 43 até aqui. Incrível média de 53%. Resultado da dificuldade de se construir diante de bloqueios tão organizados e com tantos jogadores. Por ser um momento especial do jogo é mais fácil se concentrar na execução e complicar o trabalho dos defensores.

Vitória do favorito confirmando tendências. Ou mais do mesmo no Mundial na Rússia.

(Estatísticas: FIFA)


Colômbia paga por erros, mas não tira méritos do Japão da posse de bola
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André Rocha

Escalar Carlos Sanchez, volante essencialmente marcador, violento e um tanto atabalhoado é ir contra as tendências do futebol atual. Ainda mais com Barrios no banco. E Cuéllar no Brasil…Pelas características é difícil entender a opção de José Pekerman no meio-campo colombiano. Independentemente de qualquer questão extra-campo ou de liderança.

O Japão tinha Hasebe e o ótimo Shibasaki ditando o ritmo entre as intermediárias com passes curtos e longos, se apresentando sempre como opção para fluir as ações ofensivas da equipe de Akira Nishino. Baseada em posse de bola, só acelerando os ataques mais próximo da área adversária.

Com inteligência para mudar a dinâmica. Inicialmente com Sakai mais fixo pela direita e Nagatomo saindo para o jogo do lado oposto. Depois invertendo a lógica, até pela movimentação de Haraguchi, ponteiro pela direita no 4-2-3-1 dos asiáticos, saindo do flanco para dentro e abrindo o corredor para Sakai. Pela esquerda, Inui era mais incisivo, infiltrando em diagonal buscando as finalizações. Também se aproximando para tabelas com Kagawa e Osako, o centroavante que deixou no banco a estrela Okazaki do Leicester City, ainda se recuperando de fadiga muscular.

O jogo na Arena Mordovia foi condicionado pelo pênalti com expulsão de Carlos Sanchez logo aos cinco minutos de jogo. O primeiro erro grave da Colômbia em sua estreia. Kagawa cobrou no centro do gol e o Japão, mesmo com a vantagem no placar, continuou executando seu modelo de jogo. Rodando a bola com paciência tentando cansar o adversário.

Pekerman reorganizou seu time em um 4-4-1 básico, mas precisou trocar Cuadrado por Barrios para não perder o meio-campo de vez. Quintero, meia do River Plate, foi ocupar o lado direito da segunda linha de quatro. Mais organizada, a seleção sul-americana teve chance com Falcao García e empatou na cobrança de falta à la Ronaldinho Gaúcho, por baixo da barreira, de Quintero.

Jogo equilibrado até que no segundo tempo Pekerman tirou Quintero e colocou James Rodríguez. Craque do país, artilheiro do último Mundial, mas que ainda não está 100% fisicamente. Substituição até óbvia, mas que na prática desestruturou a Colômbia taticamente.

Porque James, que até já cumpriu função pelo lado na própria seleção e também no Bayern de Munique, passou a jogar centralizado, deixando o lateral Arias solitário no trabalho defensivo pela direita. Os japoneses fizeram a leitura correta e passaram a atacar mais pela esquerda. Por este lado saiu o escanteio que encontrou a cabeça de Osako. 2 a 1.

Sim, a Colômbia sofreu um gol de cabeça na bola parada dos japoneses. E James Rodríguez perdeu a chance de empate em ótima chance dentro da área. Equívocos cruciais: escalação inicial, alteração tática, erros técnicos. Em uma Copa do Mundo não se pode vacilar tanto.

O Japão aproveitou e fez história, em sua primeira vitória em Mundiais sobre sul-americanos. Não sem méritos. 59% de posse de bola, 86% de efetividade nos passes, 14 finalizações – seis na direção da meta de Ospina. No ritmo de seus bons meio-campistas.

O Grupo H que já parecia o mais equilibrado da Copa agora fica ainda mais imprevisível. E interessante.

(Estatísticas: FIFA)

 


Bélgica vence fácil, mas só com o alívio do primeiro gol contra a retranca
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André Rocha

Bélgica na estreia do Mundial jogando num 3-4-3 ofensivo com Meunier e Carrasco abrindo o campo, De Bruyne organizando e ponteiros Mertens e Hazard mais próximo de Lukaku. Panamá no 4-1-4-1, mas fechando espaços com uma linha de seis jogadores guardando a própria área (Tactical Pad).

Para encaixar o máximo de individualidades dentro de uma geração talentosa, o treinador espanhol Roberto Martínez armou a Bélgica num 3-4-3 que lembra o Chelsea de Hazard comandado por Antonio Conte no posicionamento. Um 5-4-1 sem a bola e na transição ofensiva os ponteiros Mertens e Hazard se juntam ao centroavante Lukaku e os alas Meunier e Carrasco são os responsáveis por abrir o campo e espaçar a marcação adversária.

Na dinâmica ofensiva, um ataque posicional construindo volume através da posse e da retomada pela pressão logo após a perda da bola. Em alguns momentos com Vertonghen atacando como lateral e empurrando Carrasco como ponteiro à esquerda.

Só que é cada vez mais desconfortável jogar como favorito. Antes o futebol era um grande tabuleiro de duelos individuais em que o melhor, se jogasse bem, vencia com naturalidade. Hoje há uma disputa por espaços no qual os corpos precisam estar bem posicionados e se movimentar corretamente para fazer um bom trabalho defensivo e dar trabalho como ''zebra'', sempre à espera de um contragolpe.

Foi o que fez o Panamá do colombiano Hernan Gomez. Um 4-1-4-1 que, na prática, recuava os ponteiros Barcenas e Rodríguez como alas formando uma linha de seis homens guardando a própria área. Recurso inspirado no handebol para impedir as infiltrações. Complicou o jogo belga.

A tensão da estreia em uma Copa do Mundo novamente com pressão por bom desempenho e resultados condizentes com a expectativa também contribuiu para a inconstância de atuações de Hazard e De Bruyne. Algumas jogadas construídas e mal acabadas. Ou bloqueadas pelo muro defensivo do Panamá.

Até o alívio do primeiro gol, logo no início da segunda etapa. Lindo chute de Mertens. Não é apenas uma questão de ganhar espaços, mas também confiança e desanimar o adversário fechado que sabe que terá que subir uma montanha para buscar uma reação.

Os gols de Lukaku, o segundo concluindo linda assistência de três dedos do De Bruyne e o terceiro completando passe de Hazard num contragolpe, saíram naturalmente e cabia até mais que os 3 a 0. 61% de posse, 88% de efetividade nos passes e 15 finalizações contra seis – meia dúzia no alvo contra duas.

Vitória fácil no saldo dos 90 minutos, mas com o incômodo até abrir o placar e a retranca que perdeu a vergonha e ganhou inteligência ao longo do tempo para negar espaços. Nada raro no futebol atual e a Copa do Mundo não seria exceção.

(Estatísticas: FIFA)


Brasil empata na estreia como em 1978. Mas só não venceu sofrendo em 1994
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André Rocha

A primeira observação sobre o empate por 1 a 1 na estreia da Copa do Mundo 2018 é que havia um adversário do outro lado. Algo óbvio, mas que no Brasil costuma ser desprezado. Empatamos ou perdemos sempre para nós mesmos, nunca há mérito do adversário.

A Suíça tem base consolidada, entrosamento e jogadores interessantes como os laterais Lichtsteiner e Rodríguez, o meio-campista Xhaka e Shaqiri, ponta canhoto cortando da direta para dentro que criou problemas para Marcelo, Casemiro e Miranda com sua movimentação. Fez atuação correta e aproveitou os erros brasileiros.

Equívocos técnicos provocados nitidamente por ansiedade, pressão por vitória. Inevitável depois de um 7 a 1 em casa. Mesmo com a transformação sob o comando de Tite. A Copa muda os parâmetros e a seleção sentiu.

Mesmo com um bom começo, de volume de jogo interessante e o lado esquerdo forte ofensivamente. Como no gol de Philippe Coutinho, com a bola indo e voltando ao setor até a bela finalização do camisa 11, o meia por dentro ao lado de Paulinho no 4-1-4-1.

Mas surpreendentemente oscilou no segundo tempo em um mantra de Tite desde o Corinthians: concentração. Inclusive no gol da Suíça. A disputa entre Zuber e Miranda era passível de falta. Este que escreve não marcaria, mas a reclamação é aceitável. Houve, porém, um descuido geral. Mais uma vez na bola aérea.

Depois foi ansiedade. Melhorou a produção no meio com Renato Augusto no lugar de Paulinho. Casemiro vinha bem, mas saiu por conta do amarelo e do risco de vermelho na cobertura de Marcelo contra Shaqiri. Fernandinho, outro personagem dos 7 a 1, foi outro a demonstrar nítida ansiedade. Firmino que entrou no lugar de Gabriel Jesus foi mais um a esbarrar na afobação. Péssimo aproveitamento coletivo nas finalizações: quatro no alvo de 20.

E Neymar foi um contraponto a esta eletricidade. Por isso a incógnita sobre sua condição física na primeira partida oficial depois de três meses. Em seu estado normal, Neymar partiria para cima, talvez até atrapalhasse o time com individualismo e irritação. Ainda mais sofrendo dez das 19 faltas cometidas pelos suíços. Mas pareceu um tanto passivo e preocupado. Ora com mão na panturrilha, ora fazendo cara feia como se sentisse o pé. Estranho…

É a primeira vez que várias gerações veem o Brasil não vencer em uma estreia de Mundial. A última foi em 1978, o famoso jogo em que o árbitro encerrou a partida quando Zico completou uma cobrança de escanteio. Também 1 a 1 com a Suécia. Depois só vitórias. Mas quase todas com sofrimento.

Em 1982, 1986 e 2002 precisou do ''apito amigo''. Pênaltis não marcados contra a União Soviética na Espanha, gol mal anulado da Espanha no México e pênalti ''maroto'' em Luisão diante da Turquia no início da trajetória do penta na Ásia. Contra a Suécia em 1990, o Brasil de Lazaroni abriu 2 a 0, mas não foi bem nos 2 a 1. Assim como contra a Coréia do Norte em 2010.

Em 1998, a Escócia deu trabalho nos 2 a 1 do time de Zagallo e o desempenho do ''quadrado mágico'' formado por Kaká, Ronaldinho, Adriano e Ronaldo contra a Croácia na Alemanha em 2006 foi sofrível na vitória por 1 a 0. O mesmo adversário na abertura da Copa no Brasil com o susto no início com o gol contra de Marcelo e dependendo de Neymar para construir a virada por 3 a 1.

Resultado e desempenho sólido apenas no tetra em 1994 nos Estados Unidos: 2 a 0 com autoridade sobre a Rússia, gols de Romário e Raí. Na maioria dessas vitórias sofridas, atuações piores que a da estreia na Rússia. Mas o desespero resultadista de torcida e imprensa vai criar um ambiente de pressão e cobrança desproporcional para a segunda rodada da fase de grupos. Por causa de um empate que, mesmo com todos os problemas, tivesse se transformado em três pontos seria tratado com alívio como ''vitória sofrida''. Chances não faltaram.

É do jogo. Cabe ao Brasil de Tite tirar a pressão do primeiro jogo e vencer Costa Rica e Sérvia. Para manter a tradição de passar da fase de grupos desde 1966. Mas principalmente evoluir o desempenho para chegar forte na hora de decidir.

(Estatísticas: FIFA)


O futebol não perdoa o “sono”, nem dos campeões mundiais. México histórico
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André Rocha

Juan Carlos Osorio, sempre inventivo, adepto do uso de três zagueiros  e que arma seu time de acordo com o adversário, surpreendeu ao ser pragmático e optar pelo simples na montagem do México para a estreia contra a Alemanha no Estádio Luzhniki.

Um 4-2-3-1 compactando duas linhas de quatro sem a bola e aproximando Carlos Vela de Chicharito Hernández. Pressão no homem da bola, intensidade e muita rapidez nas transições ofensivas, especialmente pelos flancos com Layun e Lozano, autor do gol único em contragolpe bem engendrado, de manual.

Muito mérito do México na vitória histórica. Até pelas muitas cobranças antes da Copa do Mundo. Ainda mais para o contestado e controverso Osorio.

Mas o resultado também passa muito pela baixa intensidade da Alemanha campeã mundial. Especialmente no início da partida. E o futebol atual não perdoa o ''sono'' em disputas de alto nível.  Low mandou a campo uma equipe naturalmente lenta, também no 4-2-3-1. Muller e Draxler nas pontas, Ozil atrás de Werner, o único com um pouco mais de velocidade, mas sem espaços para acelerar contra Ayala e Moreno.

Para piorar, os zagueiros Boateng e Hummels, sempre participativos na construção do jogo desde a defesa, não conseguiam acelerar o jogo através de passes verticais que ultrapassassem linhas de marcação do oponente. Nem Kroos, já que Khedira era o volante responsável pela aproximação com o quarteto ofensivo.

Força pela direita com Kimmich, mas do lado oposto Plattenhardt não compensou a ausência de Hector, vetado por forte gripe. No ''abafa'' da reta final, com Mario Gómez no centro do ataque, a bola rodava até os seguidos cruzamentos. Previsíveis. Faltou a jogada diferente pela ponta. Faltou Leroy Sané.

Linhas avançadas, baixa intensidade, pouca força na pressão após a perda da bola. Sem criatividade. A Alemanha foi um convite para a velocidade mexicana. Se Ochoa salvou sua seleção com boas defesas nos momentos de maior pressão, a retaguarda alemã se safou pelos equívocos do adversário no acabamento das jogadas.

Ainda assim, um jogaço quase do mesmo nível de Portugal 3×3 Espanha. Alemanha com 61% de posse de bola e 25 finalizações contra 12 – nove a quatro no alvo. Mas pagou pela dispersão e uma certa letargia no primeiro tempo, só acordando depois de sofrer um gol. Fatal. Melhor para o México de Osorio.

(Estatísticas: FIFA)