Blog do André Rocha

Grêmio campeão! A agonia de 15 anos chega ao fim com Renato e Roger
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André Rocha

O Grêmio teve todos os méritos nos 3 a 1 no Mineirão, aproveitando os muitos erros do adversário. Mas que fique a lição para o Atlético Mineiro – e parece já ter aprendido ao contratar Roger: se o time tivesse a organização que apresentou na Arena do Grêmio no jogo em casa, muito provavelmente a decisão da Copa do Brasil teria sido mais parelha.

Renato Gaúcho não tem nada a ver com isso e pode comemorar. Até porque o time tenso da grande final carregou o peso dos 15 anos sem títulos nacionais e se valeu muito da coordenação defensiva no próprio campo que o técnico trabalhou e aprimorou na equipe comandada por Roger.

Duas linhas de quatro, mais Douglas e Luan voltando para fechar no próprio campo. Muita tensão na Arena. Absolutamente compreensível por tudo que estava em jogo. Mistura de emoções também pelas homenagens tocantes às vítimas do desastre na Colômbia.

O Galo tentou no primeiro tempo com três volantes liberando Fabio Santos para aproveitar o corredor pela esquerda e Robinho e Luan se aproximando de Pratto. Mais trocas de passes, linhas próximas e mobilidade no ataque. Faltou o capricho na finalização.

Assim como Everton perdeu gol feito no contragolpe com passe genial de Douglas.  Victor salvou. E praticamente não teve jogo na segunda etapa. O Atlético tentando já um tanto desanimado e até sem propósito com a vaga na fase de grupos na Libertadores garantida pela exclusão dos mexicanos.

Tentou e lutou. Faltou também a eletricidade da torcida no estádio lotado que garantiu o time mineiro tantas vezes em seus domínios. No final, o contragolpe bem engendrado que terminou na assistência de Everton e gol de Miller Bolaños, a grande contratação da temporada.

Para fechar a noite, um golaço do meio-campo de Cazares. Muito mais como homenagem ao futebol e à Chapecoense do que qualquer chance real de reação. A catimba de Bolaños acabou com o jogo. E depois do apito, o sangue quente fez os jogadores se perderem. Ainda precisamos amadurecer.

Apesar de tudo, a conquista do tricolor gaúcho para o Brasil ver. Simbólico. Do carisma de Renato Gaúcho, que joga tudo para cima e ajuda a dar certo. Também de Roger, especialmente pela sólida atuação coletiva na ida com jogo apoiado e movimentos memorizados no trabalho anterior.

Lágrimas de dor e consternação no início, de alegria e alívio no final. Uma conquista emblemática do novo Rei das Copas do Brasil com cinco conquistas. Ainda um pouco triste pela cicatriz no país que não fecha, mas digna da celebração da massa em transe.


Real 2×2 Dortmund – Mais um jogaço didático para técnicos brasileiros
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André Rocha

O colega Mauro Cezar Pereira levantou a bola na ESPN Brasil e Tostão reforçou em sua coluna na Folha de São Paulo. Na entressafra de treinadores no Brasil é salutar para jovens e experientes a atenção ao que acontece nos principais centros do planeta.

Como os 3 a 1 do Chelsea sobre o City em Manchester no sábado pela Premier League. Mais interessante tática e até tecnicamente que o superclássico na Espanha entre Barcelona e Real Madrid.

No encerramento da fase de grupos da melhor competição de clubes do mundo, o empate entre Real Madrid e Borussia Dortmund no Santiago Bernabéu foi mais um bom exemplo de uma disputa em alta velocidade, muita intensidade e variações táticas.

A começar pelo avanço do lateral Schemlzer como ala pela esquerda e deixando Bartra aberto na cobertura e Piszczek mais plantado à direita, quase como um terceiro zagueiro. A ideia era aproveitar a organização defensiva do Real em duas linhas de quatro para criar superioridade numérica no meio com Schurrle, em tese o meia aberto à esquerda, centralizando para junto com Gonzalo Castro e Weigl fazer três contra dois diante de Casemiro e Modric. Criar o ''homem livre''.

Mas havia um efeito colateral: Schmelzer avançava, não era tão efetivo na frente e na transição defensiva do time alemão abria um buraco pela esquerda que Bartra chegava tarde na cobertura e por ali passavam Lucas Vázquez ou James Rodríguez, Cristiano Ronaldo e Carvajal, que serviu Benzema no primeiro gol do jogo.

Equipes pressionando a saída de bola, jogando com setores próximos e acelerando para surpreender. Jogo aberto no primeiro tempo com posse de bola dividida e cinco finalizações para cada lado, mas quatro na direção da meta de Weindenfeller e apenas duas no alvo do Dortmund.

Mesma toada na volta do intervalo, com o time merengue pressionando o jovem Julian Weigl, que qualifica os passes na saída da defesa. Ora com Modric, ora com James.

O Dortmund minimizou os danos na retaguarda definindo uma linha de quatro com Schmelzer mais fixo. O Real respondeu mais forte pela esquerda, com as descidas de Marcelo e as trocas dos ponteiros. Jogada pelo setor, outro gol de Benzema. Jogo definido? Nem tanto.

Porque Zidane trocou o esgotado Modric por Toni Kroos, vindo de longa inatividade e sobrecarregando Casemiro, um dos melhores em campo. Thomas Tuchel melhorou a produção na frente com Emre More no lugar de Schurrle e Marco Reus na vaga de Pulisic. Dembélé foi para o lado direito, onde rende mais que centralizado. Depois Sebastian Rode substituiu Castro e reoxigenou o meio.

Mas o grande acréscimo na frente foi Reus, que seria titular absoluto não fosse a infelicidade de lesões seguidas. Um dos mais talentosos atacantes da Europa. Pelo centro, passou a dividir as atenções da marcação com Aubameyang e o Dortmund cresceu, mesmo correndo riscos. Inclusive um incrível gol perdido por Cristiano Ronaldo, que não consegue chegar aos 96 gols na Champions.

Gol de Aubameyang, empate no final com Reus. O Real tentou um abafa com Morata, que entrou no lugar de Benzema, e Cristiano Ronaldo na área rival. Jogaço de quinze finalizações contra doze, equilíbrio na posse. Grandes defesas de Weindenfeller e Keylor Navas.

Os times fazem história. O Real Madrid de Zidane aumenta a invencibilidade para 34 partidas e iguala a marca da temporada 1988/89. Com a segunda colocação, foge de Bayern de Munique e Manchester City. As bolinhas do sorteio costumam ser generosas com o time de Madrid.

Já o Dortmund alcança o recorde de gols numa fase de grupos da Liga dos Campeões: 21 gols em seis partidas, média superior a três por partida. Ajudaram a construir a liderança do grupo.

Sanha ofensiva, variações táticas, dois grandes times do continente e do planeta. Material obrigatório para observação e estudo. Para seguir antenado, sem ''vanguarda'' apenas no discurso.

(Estatísticas: UEFA)


É hora da Chape aceitar a imunidade e continuar sendo grande pela humildade
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André Rocha

A dor ainda vai durar muito tempo, as cicatrizes serão eternas. Mas a vida da Chapecoense precisa seguir com o início do processo de reconstrução do futebol do clube.

Difícil, pois a tarefa de refazer o elenco é complexa. Mais ainda sem um treinador que já conheça o clube. Muito pior com a ausência de presidente e diretores que deram o suporte para a incrível ascensão recente.

Começar quase do zero. Sim, com auxílio, ao menos neste primeiro momento, de muitos clubes e federações além da tocante fraternidade do Atlético Nacional e da Colômbia. Com boas perspectivas de receitas e visibilidade para 2017 com a participação na Libertadores e na Copa Suruga.

Mas, na prática, quando entrar em campo para o primeiro compromisso do ano que vem a Chape será outra. Pode ressurgir mais forte, obviamente. Até porque a saga viraria filme com final feliz. Mas por enquanto é uma enorme incógnita.

Por isso é importante a proteção ao rebaixamento. Se o período de três anos inicialmente aventado agora parece exagerado, que seja apenas em 2017. Para não correr riscos. É compreensível a postura do presidente em exercício, Ivan Tozzo, ao descartar no discurso a ajuda e não querer que o clube seja tratado como ''coitadinho'' no âmbito esportivo.

A realidade, porém, sugere cautela. Já vimos emergentes desaparecerem por muito menos. A diretoria que assumirá naturalmente não terá o domínio de todos os processos e das etapas do planejamento a médio prazo. São 19 peças para repor no elenco. Os que ficaram não têm como formar uma base minimamente sólida.

É dolorido, mas impossível negar: a situação pede cuidado para o futuro imediato. O momento é de continuar sendo grande pela humildade, pelos pés no chão. Aceitando ou mesmo pleiteando a imunidade para que o esforço dos que se foram não seja em vão.

Quando a roda começar a girar, a história mostra que a piedade da maioria agora tende a se transformar na competição tantas vezes cruel. Já tivemos uma prévia com as declarações infelizes dos dirigentes do Internacional tratando a tragédia primeiro como um problema, depois como uma possível solução. Com cada um cuidando do seu, a Chapecoense pode se ver isolada, como um ''pato novo'' que acaba de subir e sofre para se manter na Série A.

Não é justo nem saudável. Seria mais uma página do nosso futebol do qual não nos orgulharíamos. Que a Chapecoense siga com a enorme nobreza que é admitir que precisa de ajuda na dificuldade. A maior de seus 43 anos de existência. A mais devastadora da história do esporte.

 


Entre corpos e corporações
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André Rocha

O mundo corporativo moderno manda maximizar o lucro e minimizar os custos.

O piloto da Lamia, Miguel Quiroga, preferia economizar alguns dólares viajando no limite do combustível do avião.

O mundo corporativo moderno ordena que se coloque os interesses da empresa acima de qualquer outro.

O piloto Miguel Quiroga, sócio da Lamia, conseguiu aprovar um plano de voo irresponsável para não perder o cliente.

O mundo corporativo moderno exige sangue frio para gerenciar crises e tomar decisões difíceis que beneficiem a companhia, ainda que contrariem os interesses dos demais.

O piloto da Lamia, Miguel Quiroga, administrou a falta de combustível em silêncio, temendo multas e sanções, e sequer deu a chance aos passageiros do avião de se protegerem da queda inevitável.

O mundo corporativo moderno não se incomoda em sacrificar vidas, explorando a mão de obra até que a depressão, a estafa, as LER e outras mazelas levem à exaustão, quando não há o trabalho escravo.

O piloto Miguel Quiroga era responsável por dezenas de vidas, inclusive a própria, e preferiu correr o risco de uma pane seca a aumentar seus custos de viagem ou mesmo se recusar a prestar o serviço por falta de recursos.

A cada imagem dos familiares das vítimas em desespero, a cada homenagem mundo afora à Chapecoense, toda vez que imaginarmos a dureza que será a reconstrução do clube e das famílias abaladas por esta estupidez é dever nosso refletir sobre o rumo que estamos tomando.

De nossas escolhas pragmáticas, do nosso embrutecimento em busca de resultados. Da nossa visão do outro como cliente ou fornecedor e não um semelhante, Gente como a gente.

Sim, a tragédia na Colômbia é a exceção, um caso particularíssimo com um contexto cada vez mais nebuloso. Mas a soma das pequenas decisões que levaram à queda do avião diz muito sobre o nosso cotidiano profissional. Das escolhas que fazem por nós.

Das corporações que não se importam com os corpos dilacerados e as almas destruídas. Que sejamos mais humanos, menos ''profissionais''. Pela nossa sobrevivência. Por nós e por todo mundo.


Cinco na defesa pode ser bom. Bem pior é não querer jogar
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André Rocha

Atlético-MG 0x3 Corinthians. 1º de novembro de 2015. Vitória emblemática que praticamente confirmou o título e uma das atuações mais consistentes, especialmente no segundo tempo, do melhor campeão brasileiro desta década.

Repare na imagem abaixo. A equipe de Tite se posiciona atrás com os quatro defensores da última linha bem próximos e centralizados e os ponteiros Jadson e Malcom recuando e fechando os flancos praticamente como laterais. Neste recorte são seis homens alinhados guardando a meta de Cássio. Não é sinônimo de retranca ou antijogo. Apenas um comportamento sem a bola.

Flagrante do Corinthians de Tite se defendendo com seis homens na última linha diante do Atlético Mineiro no Independência: Fagner, Felipe, Gil e Guilherme Arana mais centralizados, os pontas Jadson e Malcom bloqueando os flancos como laterais (reprodução TV Globo).

Flagrante do Corinthians de Tite se defendendo com seis homens na última linha diante do Atlético Mineiro no Independência: Fagner, Felipe, Gil e Guilherme Arana mais centralizados, os pontas Jadson e Malcom bloqueando os flancos como laterais (reprodução TV Globo).

Nos 3 a 1 do Chelsea de virada sobre o City em Manchester houve um choque geral ao se deparar com as duas equipes atuando no 5-4-1 sem a bola. Principalmente o time de Pep Guardiola, o símbolo do futebol ofensivo e vistoso.

O grande paradoxo é que esta linha de cinco ou seis homens na defesa é uma mera consequência da revolução que o treinador catalão promoveu no esporte nestes últimos oito anos. Porque a essência do jogo posicional é fazer a saída de bola com qualidade para se instalar no campo de ataque.

Com o adversário acuado, trocar passes sempre buscando um homem livre, criando superioridade numérica em todas as fases de construção do jogo. Até encontrar uma brecha no último terço do campo e fazer a infiltração com assistência e movimentação ou no drible, na vitória pessoal.

Qual foi a resposta dos oponentes, primeiro com José Mourinho? Ok, eu não consigo bloquear o toque no meio pela excelência de Busquets, Xavi, Iniesta e Messi recuando como ''falso nove''. Então fique com a bola! Chegue a 80% de posse. Toque, toque, toque…Meu time vai concentrar seus esforços em evitar a profundidade. Quatro, até cinco homens negando espaços pelo centro, dois abertos atentos às ultrapassagens dos laterais ou dos pontas.

Com o tempo a ideia foi sendo burilada e surgiu a preocupação de também dificultar o início do processo. Coragem para adiantar linhas e pressionar a saída de bola para evitar o passe limpo e, caso a bola fosse roubada, surpreender uma defesa aberta.

Porque a saída ''lavolpiana'', popularizada pelo técnico argentino Ricardo La Volpe na seleção mexicana, é produtiva se bem executada. Uma bola perdida, com seus zagueiros bem abertos, um volante centralizado e os laterais espetados no campo de ataque ou posicionados por dentro como meias, tende a ser um desastre.

O que se viu no sábado no Etihad Stadium foi a exacerbação desta disputa de área a área. Pressionar nos primeiros vinte metros e fechar espaços nos últimos vinte. Por isso os times ''mutantes'', variando do 5-4-1 para o 3-4-3.

Um trio de atacantes para abafar os três defensores que fazem a saída de bola. Os alas saem para bloquear os laterais e os dois meio-campistas avançam para fechar o meio. Se o adversário consegue sair dessa pressão, a missão é dificultar, até mesmo com faltas, a transição rápida para que haja tempo do time se reorganizar em duas linhas, uma de cinco e uma de quatro, para guardar a própria área. Defende preparando o ataque e ataca pronto para defender.

Flagrante da linha de cinco defensores do Chelsea postada. O ala esquerdo Alonso fecha seu lado como lateral e Moses faz a diagonal de cobertura do outro lado, dando suporte a Azpilicueta, David Luiz e Cahill (reprodução ESPN Brasil).

Flagrante da linha de cinco defensores do Chelsea postada. O ala esquerdo Alonso fecha seu lado como lateral e Moses faz a diagonal de cobertura do outro lado, dando suporte a Azpilicueta, David Luiz e Cahill para negar espaços ao ataque do Manchester City (reprodução ESPN Brasil).

Mas sempre querendo jogo, sem especulação. Os Blues venceram porque estão mais habituados a este modelo e, principalmente, porque aproveitaram as oportunidades criadas. Mas podiam ter sido superados se Aguero e De Bruyne não tivessem perdido chances cristalinas. A disputa foi igual, mas Diego Costa, Willian e Hazard resolveram.

O Chelsea é lider da Premier League por sua versatilidade e capacidade de aproveitar o que tem de melhor. Azpilicueta é o zagueiro pela direita, mas se o time precisa ser ofensivo ele vira lateral, sua posição de origem, e adianta o ala Moses como ponta. O movimento libera Pedro ou Willian para sair do lado e circular, buscando as diagonais.

A utilização dos alas tem a sua lógica. Se a ideia é que um dos ponteiros seja um armador para desarticular a marcação e o outro seja praticamente um atacante se juntando ao centroavante, o ideal é que esses homens estejam mais liberados para circular, procurar o centro. Cabe aos alas ficarem abertos para espaçar a marcação e criar espaços.

O polêmico David Luiz rende porque o técnico italiano cobra posicionamento preciso e ele não sai como um tresloucado para caçar os atacantes na intermediária. E ainda aproveita o que tem de melhor: o passe longo. Conte não faz questão de ficar muito tempo com a bola entre as intermediárias. Prefere investir em lançamentos.

Não chutões. Algo treinado, pensado e aprimorado. Desde a Juventus com Bonucci e Pirlo, agora com David Luiz e Fábregas, que jogou no lugar de Matic e meteu uma bola de trinta metros para Diego Costa ganhar de Otamendi e empatar em Manchester. Um jogaço.

Porque a ideia dos cinco defensores é bem diferente da que vigorou no final dos anos 1980 e chegou ao fundo do poço na Copa de 1990 na Itália. A ''inversão da pirâmide'' que o jornalista inglês Jonathan Wilson tão bem explica em seu livro que agora recebe uma tradução para o português pelas mãos de André Kfouri para a Editora Grande Área.

Do 2-3-5 para o 5-3-2. Mas lá atrás privilegiando o antijogo. Inspirado nas vitórias da Itália de 1982, com Scirea de líbero e Gentile colado no craque adversário, e da Argentina em 1986, com Brown na sobra e Batista como o cão de guarda à frente da defesa, o campo virou uma grande batalha de perseguições individuais: um zagueiro na sobra, ala batendo com ala e muitas ligações diretas para que, enquanto a bola viajava, os times se reorganizassem minimamente depois de marcar correndo e não posicionado.

Se alguém fizesse um gol o jogo virava uma modorrenta sequência de passes entre os três zagueiros e bolas recuadas para os goleiros, que esperavam a chegada do atacante adversário e seguravam com as mãos – na época a regra permitia.

Uma época cinzenta que só via brilho com o Milan de Arrigo Sacchi. Marcando por zona, com setores próximos, fazendo o ''pressing'' e valorizando a técnica, especialmente da dupla holandesa Gullit-Van Basten no ataque. Uma das inspirações de Guardiola.

Hoje, com linhas tão compactas a diferença entre quatro ou cinco na defesa é nenhuma. Vale mais a proposta de jogo. Como dizer que a vitória do Chelsea foi ''feia'' e a do Brasil sobre a Argentina no Mineirão foi um ''espetáculo'' se as ideias foram bem parecidas? Reveja o segundo gol, de Neymar. Transição rápida e letal como as que o Chelsea fez. O City também, só não conseguiu colocar nas redes.

Bem pior é não querer jogar. É o pragmatismo focado apenas no resultado, que busca os três pontos sem grandes ideias além de fazer tudo para evitar o gol do rival e buscar o seu através de bolas paradas, jogadas aéreas. Uma vez conquistada a vantagem o jogo acaba porque não há confronto de ideias ou de propostas. Só há o placar final. Legítimo e eficiente, mas o que acrescenta?

Não foi o que vimos em Manchester nem em outras partidas com equipes atuando com cinco na defesa. Nem nos seis corintianos no Horto há pouco mais de um ano. Porque os times mais modernos são dinâmicos, adaptáveis. Inteligentes. Sem abrir mão da técnica, do jogar bem. A vitória é mera consequência.

 


“Vamos, vamos Chape!” e a noite da pureza em Medellín
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André Rocha

Atanasio Girardot Chape

O Atanásio Girardot virou Arena Condá aos gritos de ''Vamos, vamos Chape!'', o canto que rodou o mundo no vídeo da comemoração no vestiário depois da classificação do clube catarinense para a decisão da Copa Sul-Americana.

Impossível não derramar lágrimas no momento mais tocante de uma noite mágica, ainda que vista por este que escreve pela televisão. Uma atmosfera de generosidade com velas e flores que alcançou a todos. Um evento capaz de fazer repensar a vida, os valores, a postura diante das disputas esportivas.

52 mil pessoas dentro do estádio, outra multidão ainda maior fora. Dispondo de seu tempo apenas para homenagear um clube distante, outrora desconhecido, que seria adversário e virou um coirmão na acepção mais pura da palavra. Na noite da pureza em Medellín.

Cidade marcada pelo sangue da barbárie protagonizada por narcotraficantes, que ganhou notoriedade no planeta por causa de Pablo Escobar e suas atrocidades. Rotulada de violenta e perigosa. Capaz de um gesto de grandeza sem precedentes na história do esporte.

Em Chapecó, um estádio também lotado chorava pelos seus herois que partiram. Igualmente tocante e inesquecível. Mas eram os seus. O surpreendente neste mundo tão pragmático e egocêntrico é fazer tanto pelo outro. Sem nenhuma ligação direta além da compaixão e do amor de uma nova família que nasce.

O Atlético Nacional nem precisa mais disputar o Mundial Interclubes agora em dezembro. O planeta já é seu. E Medellín é aqui.

 


É no sofrimento que se vê quem é quem
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André Rocha

Mensagens de apoio do mundo todo, solidariedade de jogadores e torcedores de outros clubes do Brasil, a avalanche de solicitações para a campanha de sócio-torcedor da Chapecoense, as lágrimas de Renato Gaúcho e todo o altruísmo do Atlético Nacional em Medellín e junto à Conmebol, abrindo mão de um título internacional.

Tantos outros movimentos para amparar e oferecer o ombro aos atingidos pela tragédia que ficaram, em memória aos que se foram. Atos que mostram que não podemos generalizar na descrença na humanidade. O que dói é que também não foi preciso um dia para termos os primeiros sinais do quanto temos de pequenos e mesquinhos.

Como Marco Polo Del Nero pressionando a Chapecoense nas entrelinhas a colocar um time em campo na rodada final do Brasileiro contra o Atlético Mineiro na Arena Condá. Semana que vem. No mundo ideal não haveria mais futebol no país em 2016. Para Del Nero a dor é um detalhe menor. Não surpreende vindo de quem tem a frieza de seguir a vida e não abdicar do comando do futebol brasileiro, mesmo com o risco de ser preso caso se aventure numa viagem internacional.

Quase tão cruel, mas igualmente infeliz foi Fernando Carvalho, vice de futebol do Internacional. Na espontaneidade da afirmação sem pensar na repercussão, ao falar o que pensa e sente, revelou a indiferença à dor humana e a preocupação apenas com seu quintal. E desta vez nem a rivalidade com o eixo Rio-São Paulo estava em jogo, era um par do sul do país.

Lamentar o adiamento da rodada e falar em ''tragédia particular'' chega a ser ridículo, porque o Inter convive com o Z-4 por sua própria incompetência. Nenhuma fatalidade. Falar que ''como a consternação é geral, como a solidariedade é unânime de todo mundo, não é hora de reclamar'' faz entender que se houvesse uma brecha, se não pegasse tão mal, se não desgastasse tanto a imagem do clube, Fernando Carvalho pensaria em protestar.

Sem contar o nosso Congresso Nacional, que aproveitou nossa dor para, na calada da noite, aprovar o que não teria coragem de fazê-lo no centro das atenções. Ou até teriam, tamanha a desfaçatez. Enquanto chorávamos veio a facada pelas costas.

É triste, mas não assusta. Porque quem vive no próprio mundinho é incapaz de se colocar no lugar do outro. Até quando esse outro está ferido de morte. Se entrar na frente dos próprios interesses se transforma num obstáculo a ser ultrapassado. Nem que seja com hipocrisia.

Porque não somos todos bondade, mas felizmente a dor ainda nos une. Não a todos. Porque é no sofrimento que se vê quem é quem.

 


Os três pecados capitais na temporada sem títulos do Flamengo
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André Rocha

Cheirinho

O Flamengo cumpriu boa atuação coletiva nos 2 a 0 sobre o Santos, a primeira vitória no Maracanã em 2016 depois de três empates.

Muito pela inteligência da equipe em dosar energias, ajudada pelo gol logo aos quatro minutos de Paolo Guerrero. Também porque Zé Ricardo desta vez não mexeu nos ponteiros, o que bagunçou a equipe em outras partidas. Gabriel só deu lugar a Fernandinho com o jogo resolvido após o golaço de Diego e Everton ficou em campo durante os noventa minutos.

Com a confirmação na fase de grupos da Libertadores, fica para a última rodada apenas a decisão pelo vice-campeonato, que seria inédito nas edições desde 1971. Se perder em Curitiba para o Atlético Paranaense ainda na luta pela manutenção do G-6 e o Santos cumprir sua obrigação na Vila Belmiro diante do rebaixado América, o time rubro-negro termina em terceiro e receberá menos 3,4 milhões de reais de premiação da CBF.

Internamente, o G-3 sempre foi a meta no Brasileiro. Mas se o Palmeiras foi campeão com méritos, principalmente a regularidade na conquista dos pontos, o Flamengo ajudou com três pecados capitais na temporada sem títulos que tiveram forte influência na campanha:

1 – Muricy Ramalho

A diretoria reeleita comandada por Eduardo Bandeira de Mello usou o treinador quatro vezes campeão brasileiro como trunfo na eleição e praticamente entregou as chaves do Ninho do Urubu ao técnico que chegou com discurso de implantar a filosofia do Barcelona no clube após passar uns dias no clube catalão a convite de Neymar.

O tempo mostrou que faltou entendimento da metodologia e também leitura de jogo, porque o elenco foi montado para executar um modelo de posse de bola com vários ponteiros velocistas, nenhum jogador mais cerebral no meio-campo e Cuéllar foi o maior erro de avaliação: o volante colombiano é ofensivo e mostrou quando esteve em campo que não consegue cumprir minimamente as funções defensivas à frente da retaguarda. Por isso a titularidade de Márcio Araújo na ''herança'' que Zé Ricardo assumiu e fez o que pôde – muito bem para um estreante, diga-se.

2 – Sem casa

Rodar o Brasil em viagens sem fim para arrecadar era algo comum nos anos 1980 e 1990. O Flamengo chegava, fazia a festa dos torcedores locais, lotava o estádio e vencia equipes bem mais frágeis sem fazer muita força. O futebol não era tão intenso e exigente na parte física.

A disputa de um Brasileiro tão parelho sem um estádio no Rio de Janeiro cobrou caro, especialmente na reta final da temporada com o time exausto física e mentalmente. Desde 2008 o clube sabia que ficaria sem Maracanã e a opção do Engenhão no ano da Olimpíada e não tomou nenhuma providência. Sem contar erros estratégicos que acabaram sendo decisivos, como mandar o jogo contra o Palmeiras no turno em Brasília, o que na prática significou campo neutro na derrota por 2 a 1 no Mané Garrincha.

3 – O tal ''cheirinho''

Para muitos o espírito de galhofa é o que sustenta o futebol e historicamente a torcida do Flamengo tende a se levar pela euforia e usar sua força para inflamar seu time e intimidar os rivais.

O''cheirinho de hepta'', porém, foi algo criado nas redes sociais e se amplificou na mídia que se aproveita deste entusiasmo para aumentar audiência e caçar cliques e likes. Só que também ganhou algum eco no clube, ainda que o discurso ''oficial'' fosse de seriedade. Mas ao ver a comemoração do título pelos palmeirenses ficou claro que a petulância de quem garantia o título não tendo completado sequer uma rodada na liderança absoluta serviu como motivação extra do outro lado. O tal ''inimigo'' que muitos precisam ter como alvo para entregar ainda mais fibra. O Palmeiras tinha elenco, estrutura e estádio. Ganhou um motivo a mais para não errar até o final.

Na confirmação do título alviverde, a vantagem de SETE pontos. Não pode ser só coincidência.


Viva o campeão! Agora é hora do Palmeiras pensar além do resultado
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André Rocha

Quando o Palmeiras empatou com o Atlético Paranaense no recém inaugurado Allianz Parque na última rodada do Brasileiro de 2014 e só não caiu porque o Santos, cumprindo tabela, venceu o Vitória no Bahia, era consenso que o clube precisava recuperar sua capacidade de competir em alto nível.

Os dois rebaixamentos, em especial o último em 2012, doíam muito numa geração de jovens torcedores que, a rigor, só tinham visto as conquistas do Paulista de 2008 e da Copa do Brasil manchada pelo descenso há quatro anos e um tanto desvalorizada por ter sido a última sem os times envolvidos na Libertadores.

Algo precisava ser feito e o presidente Paulo Nobre, como um mecenas, investiu o próprio dinheiro em um primeiro momento. Mas criando recursos para andar com as próprias pernas. Leia-se sócio-torcedor e receitas com o estádio. Alexandre Mattos veio do Cruzeiro, reformulou o elenco. Mais tarde, a contratação de Marcelo Oliveira, técnico bicampeão brasileiro.

O título da Copa do Brasil valeu para se impor na rivalidade recente com o Santos e, principalmente, para celebrar uma conquista relevante no novo estádio. Foi importante vencer. Ainda que com um futebol taticamente paupérrimo, que dependeu das individualidades e venceu na fibra e nas mãos de Fernando Prass o torneio nacional.

Com 2016 veio Cuca após Marcelo Oliveira não entregar resultado nem desempenho, mesmo com uma pré-temporada. Não deu tempo de recuperar no Paulista nem na Libertadores. O novo técnico, então, prometeu o título brasileiro. Afinal, havia elenco, estrutura e força em casa para isso.

Cuca fez sua equipe entregar bom futebol no primeiro turno, com Roger Guedes e Gabriel Jesus voando na frente. Mas quando o título pareceu de fato mais perto com a manutenção da liderança e a disputa ficou mais dura, ponto a ponto com os concorrentes, o Palmeiras aderiu a um pragmatismo focado no resultado poucas vezes visto. Mesmo na era dos pontos corridos.

Há várias rodadas o mantra ''jogo pra ganhar, não pra jogar'' ganhou força. O projeto pessoal de Cuca e a vontade geral de encerrar o jejum de 22 anos, com os rivais paulistas vencendo nada menos que dez títulos, se transformaram em obsessão. Toda partida foi tratada como uma tensa decisão e instaurou-se uma espécie de surto coletivo.

Até compreensível pelo contexto e que aliviou contra Botafogo e na vitória sobre a Chapecoense por 1 a 0 que garantiu matematicamente a conquista com mais posse de bola e volume de jogo. A angústia chega ao fim e agora é momento da justa catarse pelo título.

O torcedor tem todo o direito de extravasar, encher a internet de memes e zoar os rivais. Levantar a cabeça, bater no peito e dizer que sempre foi grande e voltou a ser gigante. Disparado o mais regular do Brasileiro de 2016, sem vacilar nos momentos decisivos.

Mas para o ano que vem é preciso pensar além do resultado. A tradição do clube é de grandes times, que jogam bom futebol. Querer jogar, ser protagonista, dominar os adversários. A gestão seguirá a mesma com Mauricio Galiotte, sucessor de Nobre. Dinheiro não vai faltar. Da venda de Gabriel Jesus, do novo contrato de patrocínio master, o maior do Brasil, e das fontes de receita que já existem e tendem a crescer.

Por isso já sai na frente dos concorrentes e vai montando seu elenco, mesmo sem a confirmação da permanência de Cuca. O técnico acerta ao buscar conhecimento, ainda que a Itália não seja o principal centro da Europa. É preciso seguir evoluindo.

A equipe campeã brasileira já dá sinais dos progressos do treinador: meio-campo mais técnico, com Moisés e Tchê Tchê, sem o volante marcador que sempre caracterizou suas equipes. Menos ligações diretas como nos tempos de Jô no Atlético Mineiro. Até as jogadas aéreas diminuíram na média.

Para este que escreve ainda falta aderir à marcação por zona, que é mais inteligente por desgastar menos os jogadores. O time se defende posicionado e não correndo. Ainda funciona por aqui, mas já na competição sul-americana pode complicar.

Se Cuca não ficar, que chegue um técnico que preze mais o jogo. Porque se o objetivo é vencer além das fronteiras brasileiras vai ser preciso entregar mais. Jogar bem, não necessariamente bonito. Algo condizente com as ambições do clube.

É mais que possível. O Palmeiras precisa e o futebol brasileiro também. Primeiro os títulos da redenção, agora é ter o que celebrar além dos três pontos.

 


Qual será o Vasco de 2017? Fim do ciclo maldito ou mais um “bate e volta”?
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André Rocha

O primeiro tempo do Vasco no Maracanã com 56 mil pagantes foi triste. Um time desesperado, previsível na frente com bolas esticadas para Nenê ou levantadas para Thalles. Na retaguarda, pernas presas pelo medo de protagonizar o maior vexame da história do clube. O Ceará bem armado por Sergio Soares marcou com Eduardo e teve chance de ampliar.

Segunda etapa no “abafa” e dois gols de Thalles para virar, muito mais pela tranqüilidade por conta do resultado adverso do Náutico contra o Oeste do que pela entrada de Eder Luís no lugar de Diguinho e a reorganização num 4-2-3-1.

Alguns sustos, como o incrível gol perdido por Wescley,  e a queda física costumeira nos últimos vinte minutos. Mas acesso garantido. Em terceiro, com a derrota do Bahia para o campeão Atlético Goianense. Apesar do péssimo desempenho no returno, o Vasco sempre esteve no G-4. Não dá para dizer que foi injusto. Mas é pouco. Saldo final do trabalho de Jorginho é negativo, mesmo com título estadual invicto.

Agora é definir as metas para o futebol. O Botafogo deste ano pode ser boa referência: sem ilusões, começando com o objetivo de se manter na primeira divisão nacional e buscando algo maior se corresponder em campo. É proibido se empolgar com campanha no Carioca.

Hora de se recuperar financeiramente e na política buscar uma terceira solução, fora dos grupos de Roberto Dinamite e Eurico Miranda. Gestão mais moderna e profissional. É urgente!

Não pode sair da memória de quem toma decisões em São Januário a imagem da torcida gritando “Oeste!” pela vitória do time paulista sobre o Náutico no momento em que a tragédia pareceu mais próxima. Também o alívio e o protesto no apito final. Emblemático. Não pode mais acontecer.

Qual será o Vasco em 2017? O do fim do ciclo maldito ou de mais um “bate e volta'' na Série B para punir novamente a falta de visão que mira mais o passado que vislumbra o futuro?