Blog do André Rocha

Luxemburgo, não falta talento ou drible no Brasil. Só não sobra mais espaço
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André Rocha

Vanderlei Luxemburgo participou do ''Boa Noite Fox'' nesta segunda-feira no canal Fox Sports e mais uma vez ressaltou que não vê nada diferente no futebol atual, defendeu a qualidade dos técnicos brasileiros e questionou a utilização no país da literatura portuguesa sobre o esporte.

A discurso mais enfático, porém, recaiu sobre a falta de qualidade técnica e da capacidade de improviso do jogador atual em relação aos que o treinador veterano comandou nos anos 1990 e no início da década passada.

''Qualquer time que jogasse em 25 metros de campo eu faria seis, sete gols por causa da qualidade e do drible''. Em seguida afirmou que mesmo no futebol mundial não há mais grandes jogadores e, de novo, insistiu dizendo que no Brasil não existe mais o craque que fura a defesa, com passe ou drible.

O curioso foi que no meio da argumentação ele deixou escapar: ''Não tem esse jogador que enfrenta a defesa nesses 20 metros de campo. Os caras descobriram isso aí e então acabou''.

Eis o ponto. O próprio Luxemburgo deu a resposta exata para o problema, mesmo levando sua tese para outro caminho.

É sempre dever lembrar Johan Cruyff: ''Com espaços qualquer um joga futebol''. Luxemburgo sempre ressalta a condição física do atleta para justificar esta dificuldade. Mas não é só isso.

A diferença está no espaço. A começar pelos gramados, padronizados em 105 x 68 metros. O corte foi na largura. Então é preciso trabalhar mais para esgarçar a defesa adversária. Mais ainda quando o trabalho defensivo passa a ser feito por zona, tendo a bola e o espaço como referências.

Ou seja, quem tem a bola recebe pressão, o oponente fecha as linhas de passe e se os jogadores estão mais próximos fica mais difícil driblar e seguir, porque a cobertura chega mais rapidamente. O defensor também evoluiu no enfrentamento, principalmente no posicionamento do corpo na diagonal, deixando o corredor para o fundo, mas fechando o funil. A ação mais perigosa.

Antes a marcação era baseada em perseguições individuais. Então se o atacante vencesse seu marcador abria-se um clarão à sua frente porque restava apenas o zagueiro da sobra que já chegava vendido. Em estádios como Mineirão e Serra Dourada esse espaço, que já era generoso, se transformava num latifúndio.

Nunca saberemos como Edmundo, Edilson, Marcelinho e outros comandados por Luxemburgo se comportariam diante deste cenário mais complexo. Mas basta resgatar os vídeos na íntegra que estão na internet para perceber que as linhas mais espaçadas e o jogo menos intenso facilitavam o trabalho do jogador mais habilidoso.

Talvez seja essa falta de percepção que complique a vida do treinador brasileiro, aqui e para buscar mercado nos principais centros. A necessidade de trabalhar a parte ofensiva e não deixar a cargo do improviso do jogador. Posse de bola de um lado do campo, inversão rápida e, aí sim, encontrar um atacante com habilidade no um contra um. Não dá mais para deixar por conta da aleatoriedade e da invenção. Ela também precisa ser treinada ou preparada.

Luxemburgo citou Paulo Henrique Ganso como meia genial que encontra espaços em retaguardas bem trancadas. Mas o meia, hoje no Sevilla, já enfrentava dificuldades por aqui com o jogo mais intenso e a marcação mais próxima. Não pode ser referência. Ou melhor, seria até o melhor exemplo da tese de que talentos do passado, se não se adaptassem, teriam dificuldades hoje.

O Brasil tem Douglas Costa, Willian, Philippe Coutinho, Neymar, Malcom e tantos outros atacantes habilidosos. Jogando em nossos campos há Dudu, Guerra, Jadson, Lucas Lima, Bruno Henrique, Everton Ribeiro, Cueva, Diego, Wellington, Gustavo Scarpa, Robinho, Cazares, Thiago Neves, Luan (Grêmio)… Todos com capacidade de improviso e qualidade técnica para desequilibrar.

O desafio é superar, sem o suporte coletivo, sistemas defensivos que cada vez mais se alinham ao mais alto nível do futebol jogado no planeta. Exatamente porque falta a Luxemburgo e muitos outros treinadores soluções para que eles usem o talento na zona decisiva sem marcação e cobertura.

Alguns técnicos desestimulam o drible com medo da perda da bola e do contragolpe adversário. Então é mais simples mandar levantar a bola na área, com os pés ou as mãos nas cobranças de lateral. Sem triangulações ou diagonais bem executadas. Sim, falta tempo na rotina de duas partidas por semana. Também não há estabilidade no cargo para arriscar mais.

Está claro, porém, que em muitos casos a carência é mesmo de conhecimento para fazer diferente. Porque o futebol está em constante mutação, sempre evoluindo. Quem não consegue enxergar acaba ficando para trás. Só fica o saudosismo.

 

 


Neymar, um extraterrestre na estreia em Paris
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André Rocha

Um começo discreto jogando mais pela esquerda no 4-3-3, só buscando o centro para abrir o corredor para as descidas do lateral Kurzawa. Bem diferente da mobilidade da estreia contra o Guingamp.

Mas bastou o Toulouse mostrar resistência se fechando em duas linhas de quatro compactas e abrir o placar com Max Gradel aproveitando falha de posicionamento de Daniel Alves para Neymar despertar na sua estreia com a camisa do PSG no Parc des Princes.

Dribles, duas bolas nas traves, tabelas, duas assistências, um pênalti sofrido e convertido por Cavani, dois gols. O segundo foi o último dos 6 a 2, já num clima de final de pelada em churrasco, mas fez a alegria do torcedor com a habilidade absurda do brasileiro.

Descomplicando com o auxílio luxuoso de Rabiot, autor do segundo gol, uma disputa que podia ter sido mais parelha. Principalmente quando Unai Emery trocou Thiago Motta por Pastore e perdeu Verratti expulso. Podia ter se complicado no trabalho defensivo.

Mas o próprio meia argentino acertou bela conclusão no ângulo depois do gol do zagueiro Jullien aproveitando vacilo de Thiago Silva. E Neymar sobrou em um universo de 66% de posse e 23 finalizações dos donos da casa contra seis. A mais bela em cobrança de escanteio como uma tacada de bilhar do camisa dez e fantástica virada de Kurzawa.

Está claro que o nível técnico e a capacidade de improviso da contratação mais cara da história destoam na Ligue 1. Um extraterrestre voando no primeiro ato em Paris.

(Estatísticas: Ligue 1)


As lições da coletiva de Vagner Mancini em Itaquera
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André Rocha

Vagner Mancini cometeu três erros na coletiva depois do jogo em que o seu Vitória tirou a invencibilidade de 34 partidas do Corinthians em Itaquera:

O primeiro ao insinuar que o colega Felipe Garrafa, da Rádio Bandeirantes, seria corintiano por uma informação equivocada, de fato. Mas mesmo que seja não justifica o erro na análise das estatísticas da partida. Depois por afirmar que o jornalista tem que ser imparcial, algo que não existe. Todos temos nossas convicções, princípios, paixões e influências do meio. Nossa missão é ter isenção, na análise, opinião ou informação. E terceiro e último, embora seja direito dele, ao encerrar a entrevista tirando o direito de outros repórteres fazerem questionamentos, por conta de sua indignação.

No mais, foi perfeito e suas colocações fazem refletir. Ao analisar o jogo, enumerar as oportunidades do time baiano e dar luz a um dado fundamental e que muitas vezes é distorcido ou mal interpretado: a chance clara de gol. Ou seja, a jogada construída ou originada na falha do adversário que permite a conclusão em posição privilegiada, com liberdade e clara condição de ir às redes.

Porque é natural que o Corinthians em sua casa e na liderança absoluta do Brasileiro jogue no campo de ataque, fique com a bola – chegou a ter 75% e terminou com 65%, segundo o Footstats – e ronde a área. Neste cenário é óbvio que as finalizações acontecerão. Foram 14 no total, cinco na direção da meta de Fernando Miguel. A missão do oponente é impedir a jogada trabalhada que encontre alguém livre para marcar.

Foi o que o time paulista fez contra Grêmio e Palmeiras como visitante, o próprio tricolor gaúcho diante do Flamengo na Ilha do Governador e tantos outros nesta edição do Brasileiro que tem premiado quem não fica com a bola. A rigor, o Vitória só permitiu duas cabeçadas com liberdade: de Balbuena e Jô, uma em cada tempo. As demais sempre tinha um jogador de vermelho e preto para dificultar. É o que chamamos de controle de espaços.

Mancini acertou também ao afirmar que o Corinthians não jogou mal. Talvez tenha faltado mais mobilidade e triangulações, prejudicadas pela ausência de Jadson ou de um meia jogando na ponta para circular e dificultar o bloqueio. Com Romero e Clayson a equipe de Fabio Carille ficou engessada. Talvez as duas semanas sem jogos, ao menos neste retorno, tenham mais prejudicado que auxiliado.

Melhor para o adversário na zona de rebaixamento, mas em recuperação. Que cresce ao se fechar com duas linhas de quatro e acelerar com Tréllez, autor do gol único da partida, e Neilton, que fez a assistência, porém perdeu chance cristalina na segunda etapa à frente de Cássio. O Vitória também pode reclamar de gol mal anulado do zagueiro Kanu na segunda etapa. O mesmo que chutou Jô em pênalti ignorado pela arbitragem comandada por Eduardo Tomaz de Aquino.

Mas o treinador visitante foi preciso mesmo ao tocar o dedo numa ferida de todos nós: o hábito de analisar o jogo sob a ótica de apenas uma equipe. A mais forte, popular. A que dá mais audiência, gera mais cliques. Ou a local, tantas vezes desprezando o futebol jogado em outra praças. Por mais que se possa considerar indefensável uma derrota do líder do campeonato em sua casa para um time na zona de rebaixamento, os méritos do rival não podem ser esquecidos.

Muito menos menosprezados. Ninguém vai a Itaquera enfrentar o Corinthians de peito aberto, atacando e deixando jogar, ofertando espaços generosos. Imagine uma equipe de capacidade de investimento bem inferior e com dificuldades no campeonato. O Vitória traçou sua estratégia, executou e foi mais feliz. Se vencesse por 2 a 0 não seria nenhum absurdo.

Jogou bem dentro de sua proposta. É dever esclarecer mais uma vez que o que se condena como jogar mal é a pobreza de ideias e de repertório das equipes que podem entregar mais. Ou absurdos como times fortes abrirem mão de atacar em seus estádios, exagerando no pragmatismo.

O Corinthians pagou pelo status que sua própria competência o fez alcançar. Antes estava em um pelotão secundário de favoritos, agora é o grande candidato ao título. Natural ser mais estudado e motivar mais os adversários a batê-lo.

O Vitória conseguiu o que tantos desejavam por suas virtudes. Não ''jogou por uma bola'', assim como o Corinthians não ''massacrou''. Mancini mandou bem dentro e fora de campo. Que fique a lição para quem quiser aprender.


Real Madrid, Zidane e a nova era do futebol por demanda
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André Rocha

O Barcelona sofre tentando criar alternativas ao seu estilo de posse de bola após encontrar algumas boas respostas no auge do trio Messi-Suárez-Neymar em 2015, mas agora vivendo uma queda brusca. Pep Guardiola quebra a cabeça para adequar seus princípios de jogo outrora inegociáveis ao futebol jogado na Inglaterra. O Atlético de Madri de Simeone e José Mourinho com o Manchester United buscam alternativas para os momentos em que suas equipes precisam criar espaços porque têm a posse diante de equipes de menor investimento.

Jurgen Klopp e seu sucessor no Borussia Dortmund Thomas Tuchel tentaram encontrar a saída na intensidade máxima, nas transições contínuas baseadas no ''gegenpressing'', mas penam com o mesmo problema que Marcelo Bielsa convive há pelo menos uma década: seus comandados não suportam tamanha a exigência física e mental.

O ''futebol líquido'', conceito de Paco Seirul lo que consta no livro ''Guardiola, a Metamorfose'', de Marti Perarnau e traduzido pela Editora Grande Área, ainda é algo fascinante no campo das ideias e provavelmente o veremos no futuro, com times fluidos, atacando e defendendo por todos os lados com ações mecanizadas, jogando de memória. Como alguém nascido no século 20, este que escreve ainda acredita que o talento é e será sempre fundamental.

Jupp Heynckes, em seu último ato como treinador, iniciou um processo de combinação de estilos com o Bayern de Munique campeão de tudo em 2013. Segunda equipe com mais posse de bola na Europa que pulverizou a primeira, o Barcelona, com 7 a 0 no placar agregado da semifinal da Liga dos Campeões com média de 40% de tempo com a bola.

No ano seguinte, Carlo Ancelotti ensaiou a melhor solução com o Real Madrid campeão de ''La Decima'': um time híbrido, que se adapta bem ao ataque posicional, mas se for preciso acelera e é letal nos contragolpes. Mas naquele momento faltava entrosamento e um pouco de flexibilidade do trio BBC – Bale, Benzema e Cristiano Ronaldo – um tanto duro, rígido, com a única variação do sistema tático: do 4-3-3 para o 4-4-2 com o recuo de Bale pela direita.

Zinedine Zidane assumiu em sua primeira oportunidade como treinador do time principal dos merengues resgatando as ideias do italiano, de quem era auxiliar técnico. Com a conquista da Liga dos Campeões e a possibilidade de planejar a temporada, foi amadurecendo, consolidando e aprimorando conceitos e agora parece chegar a algo novo. Mas não tanto assim.

Desde sempre times como Real Madrid jogam no campo de ataque na maioria das partidas. Cultura do clube, exigência da torcida, expectativa do adversário, da mídia, de todos. Apenas em alguns jogos, em contextos especiais, ou só quando constroi a vantagem no placar é permitido recuar linhas e jogar em contragolpes.

Só que dentro da dicotomia do futebol mundial nos últimos oito anos ou você era propositivo e ficava com a bola, ou reativo e explorava os espaços cedidos por quem decidia controlar o jogo com a posse. Com os estilos cada vez mais estudados, quem apresentava uma das ideias como filosofia quase imutável sofria quando precisava variar a proposta ou era surpreendido.

Como equipes pressionando a saída de bola do Barça e explorando os espaços às costas das retaguardas de Guardiola. Ou times dando a bola aos comandados de Mourinho e Simeone e explorando suas dificuldades.

O Real Madrid atual é mutante, ''camaleão''. Se adapta ao que quer para o jogo ou ao que o adversário propõe. E pode mudar durante o jogo. Porque tem jogadores capazes de virar a chave sem que o treinador precise fazer alterações.

Carvajal e Marcelo podem jogar abertos no campo de ataque ou posicionados numa linha de quatro com Varane e Sergio Ramos, atentos na cobertura e no confronto direto com os atacantes do oponente se expostos ou fixos atrás, prontos também para o jogo aéreo, ofensivo ou defensivo.

No meio, Casemiro, Modric e Kroos. Se é preciso de requinte na saída de bola pressionada, o alemão recua para qualificar os passes, curtos ou longos. Se a necessidade é de proteção e imposição física lá está Casemiro, outra peça importante nas jogadas pelo alto. E se o jogo requer dinâmica, presença de área a área, acelerando ou cadenciando, Modric é completo. Versátil.

Isco foi o toque de Zidane para tornar tudo ainda mais fluido e mutável. É meia no 4-3-1-2, mas também é ponta fazendo dupla com o lateral. Indo e voltando. Se recua pela direita, Modric e Casemiro centralizam e Kroos fecha o lado esquerdo. Se volta à esquerda, Modric abre e Kroos fecha. Sempre em duas linhas de quatro.

Para liberar Cristiano Ronaldo e Benzema, que circulam por todos os setores do ataque. Ou Bale, que parece aceitar a reserva porque sabe que vai jogar muitas vezes. Zidane roda o elenco com naturalidade. Na temporada passada definindo titulares e reservas e mandando a campo dentro de um planejamento. De olho na meritocracia. Assim Isco virou titular.

Desta forma já começou a temporada 2017/2018 com dois títulos, num total de sete desde o início de 2016. Matando o Manchester United na Supercopa da Europa ficando com a bola. Depois encaminhou a Supercopa da Espanha com os 3 a 1 sobre o rival Barcelona jogando em transições rápidas e definiu o confronto com 2 a 0 no primeiro tempo e maior posse de bola que o time blaugrana pela primeira vez em nove anos.

Porque o jogo pedia. Basta ter leitura e inteligência e serenidade para tomar as melhores decisões, individuais ou coletivas. Capacidade de resolver problemas. Com bola rolando ou parada. Por baixo ou pelo alto. Entender a lógica da disputa e a melhor forma de superar o rival e construir vitórias e títulos com naturalidade.

Tudo sem abrir mão de conceitos atuais: compactação, pressão, preenchimento e ataque de espaços, jogo posicional, profundidade, amplitude, mobilidade. Temperados com mentalidade vencedora e confiança. Zidane não nasceu sabendo, nem é mágico. Mas sempre privilegiando a precisão técnica e em alguns momentos até deixando o adversário jogar. Como era num tempo distante que às vezes retorna em insights nesse vai e volta na linha do tempo.

Este é o Real Madrid de Zidane. O bicampeão europeu, líder de uma nova era do esporte que volta um pouco atrás para ser pragmático sem perder a leveza. Ofensivo e reativo, de acordo com o ''freguês''. Dentro ou fora de casa. Nada mais simples e moderno, como ver a sua série favorita ou o time de coração na TV de casa ou em um dispositivo móvel. Como quiser e quando for possível.

Jogo de ataque e defesa descarnado de idealizações ou romantismos. É o futebol por demanda.


Força no mata-mata não torna Grêmio superior ao Corinthians
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André Rocha

A prioridade que as equipes têm dado à competição nacional e às internacionais de mata-mata vem induzindo à conclusão de que o Grêmio, por estar nas quartas de final da Libertadores e na semifinal da Copa do Brasil, além de ocupar a segunda colocação do Brasileiro, seria a melhor equipe do país.

Se o parâmetro fosse o futebol praticado, uma análise subjetiva baseada na preferência pessoal, seria até aceitável, embora ainda discutível. Afinal, o time de Renato Gaúcho tem um estilo envolvente e postura ofensiva. Agrada as retinas, de fato. Mas considerar apenas os resultados, atribuindo pesos aos campeonatos e concluindo que a média das campanhas é superior, gera algumas distorções.

O Grêmio enfrentou um grupo na Libertadores mais que acessível, com o Guarani paraguaio, Deportes Iquique e Zamora. Teve uma única derrota por 2 a 1 para o Iquique na desértica Calama, com arbitragem questionável, e chegou a poupar titulares no empate com o Guarani fora de casa priorizando o estadual que não conquistou. Mas ao menos viu o Internacional não alcançar o heptacampeonato ao ser derrotado nos pênaltis pelo Novo Hamburgo, o algoz tricolor na semifinal.

Nas oitavas do torneio continental, superou o Godoy Cruz, argentino que aproveitou a carona da campanha do Atlético Mineiro, a melhor da fase anterior, para alcançar a vaga. Duas vitórias apertadas, com susto em Porto Alegre pelo gol sofrido logo no início. Ou seja, cumpriu sua obrigação de favorito absoluto.

Na Copa do Brasil, classificação automática para as oitavas de final e atuações consistentes com 100% de aproveitamento contra Fluminense e Atlético Paranaense. Mas, convenhamos, o time de garotos de Abel Braga e a irregular equipe rubro-negra que só agora consegue uma sequência de boas atuações sob o comando de Fabiano Soares não representaram grandes desafios para o time de Renato Gaúcho a ponto de alçá-lo à condição de melhor equipe do país.

Nem a vitória em casa por 1 a 0 sobre o Cruzeiro na semifinal. Resultado que nada garante para a volta no Mineirão, apesar do favoritismo natural diante do time de Mano Menezes que não consegue inspirar confiança na temporada.

No duelo que colocou de fato o seu poder à prova, o Grêmio falhou. Foi derrotado e controlado dentro de sua arena pelo Corinthians. Líder absoluto do Brasileiro, campeão do estadual mais forte do país. Ainda vivo na Sul-Americana. O porém foi a eliminação precoce na Copa do Brasil. Sem derrotas em 180 minutos e revés nos pênaltis. Para o Internacional, que mesmo em um ano infernal de Série B, também não foi derrotado pelo arquirrival – empate em 2 a 2 no único confronto, pela primeira fase do Gaúcho.

O time paulista, porém, mostra consistência em toda a temporada. Porque apesar do desprezo dos que clamam pela volta do mata-mata até no Brasileiro, é na liga por pontos corridos que o mais forte se impõe. Pela regularidade, sem pagar por uma noite ruim ou apenas infeliz numa disputa de pênaltis.

Aproveitamento de 82,5%, melhor campanha em um turno na fórmula atual com 20 clubes. Invicto. Melhor mandante, superando inclusive o próprio Grêmio na décima rodada. Com gol de Jadson, cobrança de pênalti de Luan que Cássio defendeu. Grande atuação do time de Fabio Carille, especialmente no primeiro tempo, com destaque para Paulo Roberto, substituto do volante Gabriel. Triunfo do melhor jogo coletivo do país.

Emblemático para marcar a distância entre as mais fortes equipes do Brasil em 2017. Hoje o Corinthians está à frente.

 

 


Real Madrid lembra o Zidane jogador. Faz tudo parecer tão fácil
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André Rocha

Ao longo desta década é comum analisar qualquer equipe partindo da seguinte pergunta: é um time que propõe o jogo ou é reativo? Dicotomia criada e alimentada por Pep Guardiola e José Mourinho, os dois grandes ícones das transformações recentes no esporte.

O Real Madrid de Zidane, porém, entrega uma nova resposta: os dois. Depende das circunstâncias, do contexto. Pode alternar as duas ideias na mesma partida. Ataca e defende. Futebol ''in natura''.

Tudo muito simples, natural, com leveza. Lembra o meia francês fazendo tudo parecer tão fácil. Como vencer o rival Barcelona no Bernabéu sem o suspenso Cristiano Ronaldo e colocando Casemiro, Isco e Bale no banco. Saindo do 4-3-1-2 para o 4-3-3/4-1-4-1 com Lucas Vázquez e Asensio nas pontas, Kovacic novamente perseguindo Messi e Modric voltando à equipe com todo seu repertório, agora vestindo a camisa dez e alinhado a um Toni Kroos mais conectado. Muita mobilidade das peças.

Início avassalador afogando os cinco defensores adversários na saída de bola, dominando o meio-campo e a posse de bola, pela primeira vez no confronto direto desde 2008. Criando cinco boas chances e colocando duas nas redes: chutaço de Asensio (mais um!) e Benzema completando jogada de Marcelo. Um passeio, mesmo concedendo espaços ao Barça.

O time merengue impõe sua excelência, mas também deixa jogar em alguns momentos. Messi e Suárez acertaram as traves no segundo tempo em ritmo de treino. Muito mais a ver com a confiança sobrando em um lado e faltando demais no outro. O que só escancara o abismo entre os momentos dos gigantes da Espanha. Maior que os 5 a 1 no agregado que deram o título da Supercopa da Espanha.

O Real aposta na manutenção do elenco e do trabalho, investindo na base, no melhor aproveitamento das peças do elenco. Mesmo perdendo Danilo, Pepe, James Rodríguez e Morata. Sem pressa e escolhendo bem antes de buscar reposição. Dar minutos a Theo Hernández e Dani Ceballos. Seguir com a gestão do elenco de forma serena, com a confiança de jovens e veteranos.

Tudo tão descomplicado em contraste com os desencontros do lado blaugrana. O drama de um conflito entre seu estilo e a capacidade de competir. De La Masia vendida para o mundo como fábrica de talentos, mas indo ao mercado buscar qualidade duvidosa em comparação com a excelência dos melhores momentos.

O Real Madrid aprendeu a lição e lidera uma nova era no esporte. Time inteligente, que ataca e defende com talento, precisão técnica e mente tranquila para tomar as melhores decisões. Ganhar sete títulos em praticamente duas temporadas, considerando que a atual está só no início e o treinador assumiu no meio da 2015/2016.

Tudo tão fácil como um passe de Zidane.


No Barcelona, Paulinho vai correr e infiltrar para Messi pensar o jogo
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André Rocha

Foto: Getty Images

Sejamos francos: o Barcelona não competiu na última temporada. Só tornou a disputa no Espanhol minimamente equilibrada quando deixou a Liga dos Campeões. Reduziu a vantagem do Real Madrid para três pontos porque no confronto direto no Bernabéu o rival, com um homem a menos, resolveu se mandar para o ataque e deu espaços para Messi matar o clássico num contragolpe.

Na Liga dos Campeões seria eliminado nas oitavas de final pelo PSG não fossem a arbitragem catastrófica e a magia de Neymar nos minutos finais dos 6 a 1 ofuscando um revés fora por 4 a 0 que mascararam as deficiências da equipe. Algo que a Juventus na fase seguinte voltou a escancarar para o mundo com uma classificação relativamente tranquila, sem sofrer gols.

A rigor, o time catalão hoje simboliza um futebol bonito, cultuado no mundo todo e atração turística da cidade. Mas que nos grandes jogos, quando o adversário reduz os espaços, é um time sem grandes ideias, com um estilo já mapeado e bloqueado pelos rivais mais poderosos e que dependia fundamentalmente do talento de seu trio de atacantes sul-americanos.

MSN que perdeu o ''N'' e que busca no mercado com urgência um substituto – Dembelé do Borussia Dortmund e/ou Philippe Coutinho. Mas repor Neymar com um ponteiro ou meia rápido e habilidoso não basta. Porque Messi parece cada vez mais desconectado deste futebol atual de intensidade e ataque de espaços. Como um ''último romântico''.

Repare no argentino em campo. Trota vagarosamente, às vezes caminha sem a bola. Quando esta chega a retém com sua técnica ímpar e define: toca ou parte, quase sempre da meia direita na direção da área adversária. Só acelera com a posse para buscar a jogada individual até a finalização ou servir um companheiro.

Mesmo com seu talento extraordinário na arte de concluir ou preparar que o premiou na temporada passada com a Chuteira de Ouro pelos 37 gols no Espanhol (54 no total) e mais 16 passes para gols, não tem bastado nas partidas decisivas. Porque já sabem qual o espaço a bloquear. Diante do muro, Messi tenta e bate na parede ou desiste e só toca de lado ou busca o passe em profundidade.

Na temporada 2016/2017 ele praticamente só teve a opção de Suárez neste tipo de jogada. Porque Neymar estava muito aberto pela esquerda para buscar a linha de fundo, Rakitic oscilou muito, Iniesta já está na reta final da carreira e André Gomes muito raramente se apresentou como uma alternativa segura.

É aí que entra Paulinho. Opção questionável por já estar com 29 anos, a mesma idade de Rakitic, vir da China e ter como única experiência na Europa um ''flop'' gigantesco no Tottenham. O valor de cerca de 40 milhões de euros na negociação, a quarta maior da história do Barça, também soa um exagero, mesmo que os 222 milhões de euros recebidos pela venda de Neymar inflacione naturalmente o mercado do clube.

Se o Barcelona queria o italiano Marco Verratti do PSG e perdeu Neymar, que antes de sair pediu a contratação do colega de seleção brasileira, qual a razão do interesse?

Exatamente porque Paulinho mostrou no Brasil de Tite que, num trio de meio-campistas como o Barça gosta de atuar, pode ser marcador e também ofensivo. O volante que ajudou Fernandinho, já com cartão amarelo, a parar Messi no Mineirão e o meia infiltrador que foi o primeiro a marcar três gols no Uruguai em Montevidéu.

Os 25 gols pelo Guangzhou Evergrande chamam mais atenção que as cinco assistências em 95 jogos. Apesar da filosofia de valorização da posse de bola, não foi o passe de Paulinho que atraiu a atenção de seu novo clube, mas a dinâmica.

Por isso a declaração do treinador Ernesto Valverde: ''Não existe outro jogador como ele na equipe. Pode nos dar versatilidade''. Sinal de que o Barcelona quer seguir a onda do futebol mundial, liderada pelo Real Madrid, de ter jogadores capazes de alternar os ritmos e as propostas de jogo conforme a necessidade.

Diante de adversários bem compactos, Paulinho pode ser o meia a furar a defesa com vigor físico para receber o passe de Messi, que infiltra cada vez menos e quando o faz está bem vigiado por rivais concentrados em parar o camisa dez genial.

E como este participa cada vez menos na recomposição e até na pressão assim que a bola é perdida, há um jogador incansável para correr por quem precisar. Que ainda tem estatura para colaborar nas jogadas aéreas, na defesa e no ataque.

O Barcelona podia ter investido no marfinense Jean Seri, do Nice. O ''Xavi africano'' segundo o próprio meia catalão. Ou apostado em Carles Aleñá, joia de La Masia que tem a filosofia de jogo no sangue, como o titular para preservar Iniesta como fez com Xavi em sua última temporada no clube.

Preferiu pagar caro por Paulinho, que pode ser titular ou reposição de Rakitic. Ou mesmo fazer do croata um meia mais organizador. Se há muitas incertezas neste negócio uma coisa é certa: o brasileiro tem saúde para correr, defender, atacar e infiltrar enquanto Messi pensa o jogo do novo Barcelona.


Foco, tempo e até desespero devem nortear segundo turno do Brasileirão
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André Rocha

O Corinthians está com o Brasileiro nas mãos. Até aqui, pelo menos, é aquele caso em que tudo conspira a favor. Inclusive a pausa entre um turno e outro para recuperar e treinar a equipe por conta da viagem da Chapecoense. Com Grêmio, Santos e Flamengo envolvidos em outras competições e Palmeiras na ressaca da eliminação da Libertadores com 14 pontos atrás que podem virar 17, o atual líder disparado pode até se planejar para buscar também o título da Sul-Americana.

Competição que ainda envolve outros cinco brasileiros. Com dois confrontos nacionais  – Sport x Ponte Preta e Flamengo x Chapecoense – que podem reduzir a quarto para as quartas de final. Mesmo número de times na disputa das semifinais da Copa do Brasil. Um a mais que nas quartas da Libertadores.

Dez times dividindo atenções, outros dez disputando somente o Brasileiro. Com apenas quatro rodadas de dezenove no meio da semana. Parece claro que o foco e o tempo para treinar têm grandes chances de fazer a diferença e até superar o nível técnico e tático das equipes.

Sem contar o desespero. Aquele que, pela dificuldade na tabela, torna o adversário difícil de ser batido. Sim, a fuga do Z-4. Que parece ter o Atlético-GO condenado, mas ainda matematicamente vivo, dependendo de uma arrancada que hoje soa improvável. Um olhar mais atento à tabela, porém, revela que o Fluminense, disputando a Sul-Americana, está apenas cinco pontos à frente da Chapecoense, 17ª colocada e com um jogo a menos.

Qualquer vacilo será fatal. É onde mora a esperança são-paulina. Mesmo com todos os equívocos e com a equipe oscilando até psicologicamente, há qualidade, especialmente de Hernanes desequilibrando nas últimas vitórias, e agora tempo para se preparar. O que Dorival Júnior mais precisava. E nada mais para distrair. Uma sequência de bons resultados e pode até sobrar uma vaga na Sul-Americana.

A disputa pelas seis primeiras colocações ganha novos postulantes, como os Atléticos, mineiro e paranaense. Os únicos junto com o Palmeiras entre os onze primeiros com foco absoluto na Série A. Uma vantagem considerável em meio a tanto equilíbrio, com exceção do Corinthians.

A Primeira Liga não deu certo pelo servilismo dos clubes à CBF e agora se encontra soterrada pelos demais torneios. Para muitos será um engodo, um problema de logística. Hoje soa como um prêmio de consolação, uma taça para não deixar 2017 de mãos abanando. Vale menos que o estadual.

O maior desafio, sem dúvida, é o do Botafogo. Com elenco não tão robusto, um clássico carioca no torneio nacional e um duelo brasileiro na Libertadores contra o Grêmio, uma das melhores equipes do país. A um ponto do G-6, que seria a garantia de volta ao torneio continental independentemente do desempenho no mata-mata. Mas a seis da zona de rebaixamento, o que exige um certo cuidado.

Neste cenário, o returno reserva alguns jogos que serão esvaziados pela utilização de reservas e outros que podem ganhar contornos épicos, com times até com tempo para se preparar, mas tão envolvidos emocionalmente que não resistirão ao maldito ''jogo para ganhar e não para jogar''. Valendo a vida. Para quem gosta de emoção e não torce o nariz para a fórmula de pontos corridos será um prato cheio.

Se nos dois extremos da tabela os destinos de Corinthians e Atlético-GO parecem selados, todo o resto carrega suas dúvidas e um contexto construído jogo a jogo. Dependente de outras competições, que agora contemplam toda temporada. Vejamos o que o novo calendário reservará à nossa liga neste primeiro ano.


Reinaldo Rueda e Flamengo: relação que já nasce imediatista
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André Rocha

Reinaldo Rueda é mais um treinador estrangeiro a desembarcar no Brasil cercado de expectativas. Campeão da Libertadores com o Atlético Nacional, alimenta a esperança do torcedor do Flamengo de colocar na rota do sucesso e das conquistas o elenco milionário construída pela gestão financeira responsável do clube.

Em relação à imprensa será visto com a desconfiança habitual pelos que refutam a presença de comandantes estrangeiros no país. Mas como tem perfil estudioso, porém não é nenhum garoto com seus 60 anos pode agradar aos mais atualizados, mas também à ''velha guarda''.

No entanto, a relação entre Rueda e Fla já nasce com urgências. Imediatista. Simbolizada pela chegada ao Rio de Janeiro e a viagem logo em seguida para Belo Horizonte acompanhar a derrota por 2 a 0 para o Atlético Mineiro. Pela necessidade de recuperação no Brasileiro, porque há uma semifinal de Copa do Brasil contra o Botafogo aquecida pela rivalidade regional e também a urgência em conquistar um título internacional e a Sul-Americana aparece como ótima oportunidade.

Talvez a única com o treinador colombiano. Porque no melhor dos cenários o Flamengo será uma mera ponte para o grande sonho de Rueda: voltar a comandar a seleção do seu país, mas desta vez em um ciclo completo de Copa do Mundo. Não como ''bombeiro'' para buscar o milagre da classificação para o Mundial, como aconteceu, sem sucesso, no ciclo de 2006.

Ele é o favorito  para suceder o argentino José Pekerman depois do Mundial da Rússia. A informação de bastidor é de que há uma cláusula de liberação sem multa no contrato (atualização pós anúncio oficial: não há a cláusula contratual, mas o risco continua o mesmo) . Ou seja, se não demiti-lo antes, o Fla pode ficar sem técnico no segundo semestre do ano que vem. A única competição que poderia comandar do início ao fim seria o estadual.

Diante da falta de opções mais confiáveis é uma aposta válida. Rueda é antenado e bom gestor de grupo. Tem perfil semelhante ao de Tite. Não por acaso foi atrás de Carlo Ancelotti na Alemanha para buscar aprimoramento de suas ideias. É mais administrador de elencos que um gênio criativo. No Atlético Nacional deu sequência a um projeto que passou pelas mãos de Juan Carlos Osorio e conseguiu seis títulos em sete finais disputadas. Sem reveses, já que o que não conquistou, da Copa Sul-Americana, foi cedido em solidariedade à Chapecoense.

Mas não faz milagres. Com o desmanche da equipe de Medellín, sem Berrío, Guerra e Borja que vieram atuar no futebol brasileiro, caiu na fase de grupos da Libertadores. Com duas derrotas para o Botafogo. Manteve a proposta ofensiva e sofreu com o jogo reativo do time de Jair Ventura.

Não quer dizer que será derrotado na quarta-feira. Assim como seus títulos na Colômbia nada garantem agora. É uma nova história. Um idioma a aprender, uma cultura a descobrir. Resultadista e intensa, até cruel nas cobranças.

Rueda pode dar muito certo, mesmo com a péssima primeira impressão que certamente teve no Estádio Independência. Consolidar a recuperação de Berrío, fazer Diego e Everton Ribeiro se entenderem na criação, aproveitar o compatriota Cuéllar de maneira mais efetiva no meio-campo, posicionar melhor o sistema defensivo e dar mais chances aos jovens do elenco – também teve passagem pela seleção sub-20 da Colômbia.

Armar o time no 4-2-3-1 ou no 4-4-2 que utilizou no Nacional ou seguir o exemplo de Tite e implantar o 4-3-3/4-1-4-1 bebendo na fonte de Ancelotti. Construir um modelo de jogo forte e competitivo, potencializando as qualidades individuais através do coletivo.

A questão é o tempo. O encaixe precisa ser rápido, a margem para testes e experiências é mínima. E há uma massa de torcedores ansiosa, querendo tudo para ontem. Rueda sabe, ou deveria saber, que os mesmos que clamaram nas redes sociais para que ele viesse e fizeram festa no aeroporto podem pedir sua saída na primeira sequência ruim.

Que não seja mais um triturado por nossa máquina de moer que já vitimou ou desgastou Gareca, Osorio, Bauza, Aguirre, Fossati, entre outros estrangeiros. Paciência é artigo raro por aqui, ainda mais com quem não fala nossa língua. Boa sorte a Rueda! Ele vai precisar…


Real Madrid é o melhor time do mundo. Vence Barcelona e “apito caseiro”
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André Rocha

Zidane não tinha Modric, suspenso. Mesmo assim, deixou Cristiano Ronaldo no banco seguindo à risca a programação pensando em toda a temporada. Era um superclássico pela Supercopa da Espanha no Camp Nou.

Mas a confiança do Real Madrid é tão alta, a sintonia entre atletas e o treinador tão fina que o desempenho não cai. Ainda que Zidane tenha optado por uma solução defensiva pouco convencional: Kovacic seguindo Messi por todo o campo. Ou melhor, na faixa cada vez mais limitada de atuação do argentino: em quase todos os lances, partindo da meia direita para o centro conduzindo a bola ou soltando de primeira. Por isso funcionou na maior parte do tempo, embora tenha extenuado o croata.

Se na terça-feira o time merengue jogou confortavelmente e se impôs com posse de bola e ocupando o campo de ataque, o rendimento atuando fechado e saindo em velocidade não caiu. Porque o Real Madrid é uma equipe completa, versátil, inteligente. O melhor time do mundo.

Rapidamente percebeu que o lado direito com Carvajal era para se defender contra Jordi Alba e Iniesta, nem tanto Deloufeu, o substituto de Neymar. Já o esquerdo foi aproveitado para atacar com Marcelo, Isco e Benzema, especialmente na segunda etapa, pelos espaços deixados por Vidal e a lenta cobertura de Piqué.

Personagem do jogo pelo gol contra completando cruzamento de Marcelo. Depois foi vencido por Cristiano Ronaldo e Asensio nos gols que fecharam os 3 a 1.

Sim, Cristiano Ronaldo entrou aos 13 do segundo tempo na vaga de Benzema e, mais que nunca, foi objetivo e letal. Foi às redes em gol anulado por impedimento duvidoso, já que Vidal parecia dar condições. Questão de centímetros. Depois em contragolpe de manual finalizado de forma primorosa, no ângulo de Ter Stegen.

No final, chutaço de Asensio, que entrou no lugar de Kovacic. Substituição corajosa de Zidane, que manteve a capacidade de fazer as transições ofensivas sem perder a compactação em duas linhas. O Real jogou fácil e podia ter goleado.

Mesmo sofrendo naturalmente diante de uma equipe entrosada, em seu estádio e ainda com ataque poderoso. Mas que, a rigor, mesmo com o incrível gol perdido por Sergio Busquets e outras oportunidades, só foi às redes num pênalti absurdamente mal marcado. Keylor Navas disputa com Suárez num contato natural e o uruguaio se atira ao perceber que não chegará na bola.

Messi cobrou e empatou. Houve uma pressão logo na sequência, mas o Real se organizou, voltou a ficar em vantagem e ampliou mesmo com um homem a menos. Outra decisão bizarra do árbitro Ricardo Bengoetxea ao mostrar o segundo cartão amarelo para Cristiano Ronaldo por uma simulação de pênalti – já havia recebido o primeiro ao tirar a camisa na comemoração. Não houve a falta, nem o atacante se atirou. Lance normal. Só não justifica o empurrão do atacante no apitador, por mais bizarra que tenha sido a atuação deste.

Ainda assim, os 3 a 1 confirmam o momento fantástico da equipe de Zidane e encaminham mais um título, que deve ser celebrado no Santiago Bernabéu. Independentemente da formação, do desenho tático e da proposta de jogo, ninguém está jogando mais que o Real Madrid no planeta.

Fica claro que o Barcelona de Ernesto Valverde vai precisar ir ao mercado e contar com mais desempenho de Messi para voltar a equilibrar as forças. Nem com a ajuda dos erros do ''apito caseiro'' conseguiu igualar a disputa.