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Lucas Lima desperta com Santos na Copa do Brasil. Mas Vasco está vivo
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André Rocha

O Vasco não foi muito feliz no retorno à Copa do Brasil. Além do momento de baixa nas oscilações naturais da temporada, até para quem está na Série B, encarou na Vila Belmiro um Santos redivivo.

Não só por conta dos retornos dos campeões olímpicos Zeca, Thiago Maia e Gabriel. Principalmente pelo despertar de Lucas Lima, muito provavelmente pela convocação de Tite para a seleção principal. Em meio a uma temporada confusa, com expectativa por uma proposta de um grande centro europeu que (ainda) não veio, o camisa vinte oscilou demais em comparação ao segundo semestre de 2014 e à temporada passada.

Nos 3 a 1 sobre os cruzmaltinos no jogo de ida das oitavas de final, o meia dinâmico, que pensa correndo, foi disparado quem mais ficou com a bola no alvinegro praiano – pouco mais que dois minutos, só atrás de Andrezinho. Na atuação, só não foi superior a Renato, o volante passador que fez o primeiro gol em assistência de Lucas Lima e depois serviu o próprio meia de calcanhar no terceiro, o mais bonito do jogo. Ricardo Oliveira, outro destaque, fez o segundo em bela cobrança de falta.

O desempenho do Santos ao longo da partida não foi regular. Talvez por assentar quem ficou de fora da equipe por algum tempo. Houve momentos de intensidade, rapidez e muita mobilidade na execução do 4-2-3-1 habitual, mas também de espaçamento entre os setores e dispersão que o Vasco aproveitou para equilibrar as forças e terminar o jogo com mais finalizações – onze a nove. Uma na trave de Andrezinho.

Mas sofreu com o volume de jogo santista, no ritmo de Lucas Lima. Muitas brechas entre as duas linhas de quatro organizadas por Jorginho sem a bola que desmontam o losango no meio-campo quando Jorge Henrique recua pela esquerda para liberar Nenê mais próximo de Ederson. A dupla criou boa oportunidade em contragolpe. A melhor, no entanto, Andrezinho desperdiçou à frente de Vanderlei.

Falha grotesca do zagueiro Luiz Felipe, que novamente destoou com erros técnicos e de posicionamento, sobrecarregando Gustavo Henrique. Também porque o Santos depende do trabalho coletivo sem a bola. Renato, com 37 anos, é o volante mais plantado para jogar com a bola, não correndo atrás de Andrezinho e Nenê. Mas foi Eder Luís, o substituto do camisa dez cruzmaltino, que achou nos acréscimos o gol para recolocar o time carioca de volta à disputa. Esperança, apesar dos três jogos sem vencer.

O Santos teve 54% de posse e mais eficiência nas finalizações – das quatro no alvo, três nas redes. Também a chance de matar o confronto, porém segue favorito para confirmar a vaga em São Januário. Porque recupera forças com a equipe de Dorival Júnior mais completa e, principalmente, Lucas Lima aceso e produtivo.

(Estatísticas: Footstats)


Carta aos saudosistas, por Mozart Maragno
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André Rocha

Escreve Mozart Maragno (@momitinho)

Saudosistas, alguma coisa está errada, não?

Tem momentos do debate sobre o futebol brasileiro que o ar fica quase irrespirável. Fundamentalmente, quando há uma derrota da seleção brasileira de futebol – a masculina. No Rio 2016 até empates serviram para isso. Não vou falar de 7×1, claro, pois já virou o grande clichê para os fracassos nacionais, de dentro e fora do futebol

Prefiro, no momento, abordar os fracassos nacionais do passado, sobretudo no âmbito do futebol olímpico, sem dúvida, um grande rosário de contundentes fracassos. É uma reflexão até pedagógica para o país onde vocês, incluindo os ex-jogadores, parecem entender que o passado era um oásis, um mar de êxitos sem fim. Apenas de talentos, de craques, gênios atemporais. Só histórias bonitas e de final feliz, contrastando com a mediocridade atual.

O ouro olímpico conquistado domingo desperta um outro lado de vocês, alguns com agudo complexo de vira-latas. Ninguém, racionalmente, vai pensar que essa conquista de Neymar e companhia possa ser a mais importante da galáxia em todos os tempos. Porém, há uma pressa clara em desmerecer o inédito triunfo, tudo muito normal e esperado, aliás.

Um prazer em desconstruir adversários, a importância do evento, em apontar “ganhou, mas é tudo uma bagunça, só pelo talento de alguns jogadores'' – reparem que o “futebol que não tem mais talento'', argumento clássico, agora é salvo pelo “talento''.

Primeiro vamos aos méritos da equipe campeã olímpica, que não são poucos. Houve trabalho e um planejamento pensando em 2016. Ainda que Gallo tenha saído (o que foi um acerto), tivemos várias convocações olímpicas desde 2013, com duas taças conquistas no tradicional Torneio de Toulon e uma série de amistosos.

O problema com Gallo não foi de falta de datas e convocações ou de comprometimento com o trabalho, seu principal lema. Foi, mesmo, de concepção de futebol, desconectada do que necessita o futebol dito moderno e escancarada no Sulamericano Sub-20 de 2015.

Com as entradas de Erasmo Damiani e Rogério Micale (além dos bons técnicos da sub-17 e sub-15) o trabalho ganhou peso conceitual, conteúdo, crescendo também em resultados. O vice-campeonato mundial sub-20 sem poder sequer convocar o grupo foi um belo cartão de visitas de Micale. Gente da base e que entende de base, de formação, de jovens jogadores.

Ao assumir, de maneira truncada, o time olímpico, Micale tinha a chance de marcar território para o seu perfil estudioso de técnico, ainda mais com uma conquista inédita e tão aguardada. Conseguiu, e justamente no país do “ganhou o que?'', o que adiciona monumental peso ao seu currículo.

Não se pode desconsiderar que há um interessante trabalho conceitual sendo desenvolvido na base da CBF – e não tenho procuração pra defender a controversa entidade, para usar um eufemismo. Fica claro que não foi algo fruto apenas do talento individual.

Sobre os adversários, podemos considerar o time brasileiro, exceto Neymar, Renato Augusto e Marquinhos, muito menos rodado e experiente que a ótima seleção alemã. Gabigol e Zeca, por exemplo, nunca disputaram nem uma Libertadores, muito menos jogos pesados em gramados europeus. O time alemão dos talentosos Gnabry, Meyer e Brandt (potenciais atletas para a seleção principal), além de organizado, era muito perigoso no terço final, como gosta de dizer Roger Machado, técnico do Grêmio.

Lembro, também, que os titulares Gabigol e Gabriel Jesus não completaram 20 anos de idade. Desfalques com a experiência internacional em Champions League de Fabinho (pretendido pelo United de Mourinho) e Fred, por exemplo, não podem ser desprezados, pra não colocar que só a Alemanha teve seus desfalques.

E a história do futebol olímpico brasileiro desde 1952 como foi construída? Teve fracasso de todo tipo, para todos os gostos, de todas as formas. Claro que vocês, saudosistas, vão dar sempre muitas justificativas, pra não dizer desculpas. Dizer, por exemplo, que o nível era padrão intergaláctico, ou que ninguém ligava, que seleções “comunistas'' levavam profissionais.

Mas quando pesquiso sobre jogos do passado, fico imaginando o esquadrão que não era a gloriosa seleção da República Árabe Unida, que eliminou o Brasil na primeira fase em 1964. Ou o time de Falcão e Dinamite que passou vergonha na primeira fase em 1972. Ou a equipe de Marcelinho Carioca e Cafu que não conseguiu uma vaguinha para Barcelona 1992.

Deve ter sido vertigem minha assistir ao Brasil perder de 1×0 para a máquina do Japão em 1996 com uma cena pastelão digna de “Os Trapalhões'' protagonizada por Aldair e Dida. Não pode ser verdade que em 2000 o Brasil, dos craques Fábio Bilica e Baiano, conseguiu tomar um gol de uma seleção com nove em campo e ir pra casa sem nem disputar uma medalhinha de bronze que seja. Sem dúvida, não vimos fracassos e vexames. Foram apenas fatalidades.

O gênio Antonio Abujamra dizia, em seu “Provocações'', na TV Cultura, que das mais de 100 peças de teatro que dirigiu ou atuou, havia uns 90 fracassos. Claro que no mundo das artes, que também tem muita vaidade, era quase um choque que um dos maiores talentos brasileiros pudesse provocar, com grandeza, sem apenas falar dos seus grandes sucessos e de sua justa fama.

Não por acaso, insisto e solicito que nossos ex-atletas me permitam um conselho: assumam seus fracassos e sejam mais solidários com os atuais jogadores que passam muito do que vocês passaram. A atual geração conquistou o inédito ouro sob uma pressão absurda que a sequência de fracassos de vocês construíram.

Caso desconsiderem esse humilde conselho, uma coisa é certa: de experiência positiva olímpica, pelo menos, vocês nunca poderão dizer o surrado “no meu tempo é que era bom''.

Escreveu Mozart Maragno


Volantes passadores e nenhum centroavante. As primeiras ideias de Tite
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André Rocha

A primeira convocação de Tite é emergencial e tem suas particularidades. Por conta da sexta colocação nas Eliminatórias, os jogos contra Equador e Colômbia não permitem maiores experiências. Por isso o novo técnico da seleção brasileira trabalhou e estudou tanto desde que foi anunciado.

Por precisar de ritmo de jogo e algum entrosamento, Tite leva 13 jogadores que estiveram na Copa América Centenário e sete campeões olímpicos. O próprio treinador afirma confiar nos processos e tentará fazer algo ao menos parecido com continuidade. Assim como privilegia quem está com mais ritmo de jogo. E não conta com os lesionados Thiago Silva e Douglas Costa.

Com seu toque, obviamente. Ou suas ideias. As primeiras que saltam aos olhos: volantes passadores. Já tinha deixado claro com Bruno Henrique sucedendo Ralf no Corinthians. Agora Casemiro e Rafael Carioca. Dois ótimos exemplares do jogador que inicia a saída de bola com os zagueiros e colabora na construção. Boa notícia.

Outra escolha, em termos de conceito, é a ausência do típico centroavante. O nove de ofício. E um alívio: mesmo que arme a seleção no 4-1-4-1, a intenção não é escalar Neymar como o único atacante, repetindo o equívoco de Dunga. A olimpíada deixou bem claro que o camisa dez rende aberto pela esquerda como no Barcelona ou solto como articulador com um nove móvel na frente.

Sendo assim, Gabigol e Jesus devem disputar a vaga na frente, com a surpresa Taison correndo por fora. Pelas declarações de Tite, vantagem para o jogador do Palmeiras, artilheiro do Brasileiro.

No discurso, uma proposta fundamental: jogo apoiado, com triangulações. Ou seja, trabalho coletivo na frente, nos últimos trinta metros. Mesmo sem tempo para trabalhar, pedir que os jogadores invistam em deslocamentos e troca de passes podem facilitar o talento. O que faltou na final da Olimpíada, por exemplo.

Como em toda lista, há nomes questionáveis, como Taison e Paulinho, ou ausências sentidas – Geromel, a mais destacada. O retorno de Marcelo é um sinal importante de que a ideia é levar os melhores. Giuliano é surpresa, mas pode colaborar com versatilidade e a capacidade de sair da ponta para dentro ajudar na articulação e criar superioridade numérica. Como fazia no Grêmio. Como Jadson no Corinthians campeão brasileiro.

Todo treinador com longa história em clubes tem seus homens de confiança, aqueles que já conhece na convivência do elenco. A gestão de grupo tem sua importância. Os pontos de interrogação ficam como voto de confiança ao técnico que é quase unanimidade no país.

Dito isto, é possível pensar em duas formações: No 4-2-3-1, com Alisson no gol; Daniel Alves e Marcelo nas laterais; Miranda e Marquinhos ou Gil na zaga. No meio, Casemiro e Renato Augusto no meio; Willian, dúvida por lesão, Neymar solto e Phillipe Coutinho à esquerda. Gabriel Jesus na frente.

Uma possível formação do Brasil de Tite, no 4-2-3-1: Neymar solto atrás de Gabriel Jesus, Marcelo de volta à lateral esquerda e Casemiro iniciando a saída de bola e fazendo dupla com Renato Augusto no meio (Tactical Pad).

Uma possível formação do Brasil de Tite, no 4-2-3-1: Neymar solto atrás de Gabriel Jesus, Marcelo de volta à lateral esquerda e Casemiro iniciando a saída de bola e fazendo dupla com Renato Augusto no meio (Tactical Pad).

No 4-1-4-1, Neymar retornaria ao lado esquerdo para ser o atacante pela esquerda que infiltra em diagonal no Barcelona, tão elogiado por Tite. Casemiro à frente da defesa, Paulinho, Lucas Lima, Giuliano e Coutinho disputariam a posição no centro da linha de meias com Renato Augusto.

No 4-1-4-1 pode entrar Paulinho, homem de confiança, no meio e Neymar retorna ao lado esquerdo para ser o ponteiro de infiltração, como no Barcelona (Tactical Pad).

No 4-1-4-1 pode entrar Paulinho, homem de confiança, no meio e Neymar retorna ao lado esquerdo para ser o ponteiro de infiltração, como no Barcelona (Tactical Pad).

Tite fala em jogar bem e vencer. Mas a necessidade de resultados exige um pouco mais de pragmatismo. Independentemente da formação é possível ser competitivo e alinhado ao futebol atual já nas primeiras decisões da seleção para não ficar fora da Rússia 2018.


Continuidade é a lição do vôlei masculino ao futebol brasileiro
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André Rocha

O maior treinador da história dos esportes coletivos chama-se Bernardo Rezende. Dezesseis anos de pódios em esporte tão equilibrado, com um tricampeonato mundial, oito ligas mundiais e agora a segunda medalha de ouro no vôlei masculino.

A última em casa, com uma geração nem tão talentosa quanto outras que só viram prata, inclusive a de 1984. Mas que souberam superar primeira fase complicada, desconfianças, lesões de Lipe e Lucarelli. Para atropelar na reta final Rússia, algoz em Londres 2012 e Itália, freguês histórica.

Sim, Bernardinho é uma lenda. Sua capacidade de trabalho para se manter competitivo é única. Mas viveu crises, como o afastamento de Ricardinho, então melhor levantador do mundo, em 2007. Ou os seis anos sem conquistas desde o Mundial de 2010, embora quase sempre nos pódios. É de difícil trato, tem vários desafetos e críticos.

No imediatismo do futebol, talvez fosse trocado. Mas seguiu para o quarto ciclo olímpico. Continuidade. Que facilita a transição de gerações, porque há controle de todos os processos, experiência e conhecimento no trabalho para passar confiança a quem chega. Tem também a possibilidade de aprimorar, ao invés de começar do zero.

Que o time de Wallace, Bruno, Serginho, Lucão, Lucarelli, Lipe e Maurício Souza sirva de exemplo de superação e força coletiva. Que Bernardinho seja eternizado e seu perfeccionismo inabalável, a busca constante da excelência o norte seguro para qualquer profissional.

Mas que a continuidade seja a grande lição para o nosso futebol. Porque ganhar ou perder depende de tantas coisas. Uma bola roçando a linha ou batendo na trave. Uma decisão por pênaltis.

O que importa é o planejamento inteligente e a execução como consequência do treinamento e do conhecimento. A história mostra: uma hora o topo do pódio chega.

Chegou para Bernardinho e seus comandados, numa catarse coletiva no Maracanãzinho. O campeão voltou!


Gol de Diego é cereja do bolo na boa atuação coletiva do Flamengo
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André Rocha

Diego Ribas fez o que se esperava dele na estreia com a camisa do Flamengo: tentou compensar com luta a falta de entrosamento, buscou o melhor posicionamento e cresceu no segundo tempo, com mais espaços.

Como articulador à frente das duas linhas de quatro e atrás do centroavante, foi preciso no gol que marcou. Acelerou o contragolpe, acionou Filipe Vizeu e foi para a área finalizar de cabeça o cruzamento preciso de Pará. É o que o Flamengo precisa de sua grande contratação na temporada para mudar de patamar.

O Diego decisivo na segunda etapa foi a cereja do bolo na vitória por 2 a 1 sobre o Grêmio no Mané Garrincha com muitos espaços vazios para um jogo com tal apelo e o gramado que segue ruim.

Mas não impediu a boa atuação coletiva do time rubro-negro na maior parte do tempo. Mesmo com a ausência de Willian Arão, suspenso, que Cuéllar não compensou.

O volante colombiano é bom tecnicamente, mas reforçou uma impressão de outras partidas: sem a bola tem fraca leitura de jogo. Erra botes, deixa um buraco às costas, se posiciona muito mal. Não por acaso, Márcio Araújo, mesmo com todas as ressalvas possíveis, é titular.

Ainda assim, o time priorizou o trabalho coletivo que fez Leandro Damião – o substituto de Guerrero, também suspenso – aparecer muito bem nos 60 minutos em que esteve em campo.

Movimentação interessante, trabalho de pivô, arriscando voleios e bicicletas na área. Inclusive a que foi às redes depois do toque no braço de Geromel em disputa com Rever. O árbitro Raphael Claus já havia apitado pênalti que o próprio centroavante cobrou bem.

O Grêmio não teve a intensidade de outros jogos. Muitos espaços entre os setores, pouca pressão no adversário com a bola. Mesmo com Douglas encontrando brechas às costas de Cuéllar, o jogo do time de Roger não fluía.

Só a necessidade pela desvantagem no placar tirou os visitantes da inércia. Mas Bolaños perdeu chance cristalina e permitiu o desarme de Pará. Só com a desconcentração do Fla logo após o gol de Diego o Grêmio foi às redes com Henrique Almeida no vacilo de Rever e tentou a pressão final.

Zé Ricardo acertou ao trocar Diego por Mancuello e, com Alan Patrick que substituira Gabriel, reteve a bola na frente e criou problemas para um Grêmio que tentou no abafa, porém sem muitas ideias.

Vitória do time que teve 53% de posse, finalizou 16 vezes, o dobro do rival. A evolução tática e na qualidade do elenco é visível. Falta oscilar menos e não depender tanto de sair na frente do placar para se manter competitivo.

Com Diego adaptado e aceso, o Flamengo fica mais forte para pensar grande no Brasileiro.

(Estatísticas: Footstats)


O Brasil de Neymar ganha o ouro e um time. Agora é com Tite!
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André Rocha

Somos eternos insatisfeitos. A medalha de ouro em casa era a meta, a ponto de poupar o nosso craque maior em um torneio oficial da seleção principal. Instantes depois da catarse no Maracanã após a cobrança de Neymar, a pergunta surge: e agora?

A final em 120 minutos deixa lições. A Alemanha, mesmo sem remanescentes dos 7 a 1, mostrou as nossas deficiências de sempre: dificuldade de criar espaços jogando coletivamente e sofrer quando a disputa vai para o emocional. Os alemães jogavam agrupados, pressionavam o adversário com a bola assim que entrava na sua intermediária e induziam o quarteto ofensivo brasileiro a tentar o drible e não a tabela.

Bola roubada, saída rápida com Meyer às costas de Walace e Renato Augusto e os pontas Brant e Gnabry buscando as diagonais. Ainda ameaçavam nas jogadas aéreas. Três bolas no travessão de Weverton.

O Brasil tinha Neymar. Buscando para articular, procurando mais o lado esquerdo. Desequilibrando na cobrança de falta que também tocou no travessão. Mas entrou e explodiu o Maracanã. Salvando uma atuação ruim ofensivamente no primeiro tempo.

Porque além da tensão de uma final que ganhou um peso de Copa do Mundo pelo contexto, os meninos Gabriel e Gabriel Jesus ainda precisam aprender muito no senso coletivo. Deslocar no tempo certo para dar opção, saber a hora de tocar de primeira, mesmo pressionado. Luan também errou, inclusive na finalização fraca em cima do zagueiro Süele na outra oportunidade nos primeiros 45 minutos.

Mas voltavam pelas pontas formando uma linha de quatro à frente da defesa. A seleção brasileira foi um time sem a bola e no espírito. Pressão imediata na perda da bola, disciplina e atenção na recomposição.

Segundo tempo com o plano claro de esperar a Alemanha e aproveitar os espaços. Mas com muitos erros de passe, mesmo com Renato Augusto recuando na linha dos zagueiros para qualificar a saída. Não por acaso, o camisa cinco foi o melhor brasileiro por ter a leitura de jogo e visão tática mais apuradas.

Walace errou, depois Marquinhos – o primeiro na Olimpíada. Não por acaso, a equipe de Rogério Micale sofreu seu primeiro gol. Meyer, novamente nas costas de Walace.

A melhor notícia da decisão é que o Brasil não se desmanchou mentalmente com o empate. Pelo contrário, cresceu com Felipe Anderson à direita na vaga de Gabriel, que errou em contragolpes seguidos. Depois Micale trocou o esgotado Jesus por Rafinha para liberar Neymar, que deu três passes geniais para chances cristalinas. Felipe Anderson e Rafinha sentiram e erraram à frente do goleiro Horn.

Domínio completo na prorrogação, até Neymar tentar um pique e mancar. Inteligente, os alemães avançaram as linhas e trocaram passes. Mas também não tinham pernas para tentar algo mais. De qualquer forma, foram 120 minutos de bom futebol no Maracanã.

Também belas cobranças de pênaltis até Weverton pegar o chute do artilheiro Petersen. Não podia haver melhor roteiro para Neymar. De nome riscado na camisa do menino para o gol do título. Fez a pré-temporada depois das férias na preparação, sentiu a falta de ritmo nos primeiros jogos, sofreu aberto à esquerda tendo que dar piques e receber a bola toda hora para a jogada individual. Ouviu críticas de todos os lados, até quando guardou o silêncio.

Com liberdade, cresceu como passador. E fez o que dele se esperava: decidiu. O craque e o personagem do título inédito.

Mas agora com um time acompanhando. Méritos de Micale. Técnico de conceitos e convicções que compensaram a inexperiência além da base. Mostra que o caminho é o do conteúdo, do trabalho. Da gestão de grupo também. Mas não só o discurso de motivação e “virem-se!''

Com pouco mais de um mês com o grupo completo entregou resultado e desempenho. Mesmo descontando a fragilidade dos adversários em casa. O que seria capaz em um ciclo de quatro anos? Talvez de aprimorar o jogar “de memória'', que é algo impossível na seleção. Um desafio.

Agora com Tite. Não com todos os campeões olímpicos, mas aproveitando e polindo os meninos. Com conceitos e muito mais vivência, ao menos em clubes. Para trazer Thiago Silva e Marcelo de volta, aproveitar os melhores e formar outra equipe para as Eliminatórias. Que pode ser forte em um clima mais leve, com cultura de vitória após tantos reveses e vexames.

Para o Brasil, o ouro é a cor da esperança.

 

 


O silêncio de Neymar pode ser positivo. Veja outros casos
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André Rocha

Neymar_silencio_imprensa

O blogueiro já adianta: este post não é um gol contra o próprio ofício. O ideal é que a imprensa tenha liberdade e espaço para fazer seu trabalho. Até porque o repórter é apenas um veículo entre o personagem e o público.

Neymar se recusou a atender os jornalistas depois do empate sem gols com o Iraque no Mane Garrincha, o auge das críticas à seleção olímpica. Inclusive por persuadir seus companheiros a não responder sequer os veículos que adquiriram esse direito por contrato nos Jogos do Rio de Janeiro. Voltou a falar após a goleada sobre a Dinamarca, mas novamente ficou em silêncio, apesar da bela atuação contra Honduras.

Difícil precisar as razões. Talvez coerência – se não falou na crise, também não se pronuncia com os muitos elogios agora. Ou está esperando a conquista da medalha de ouro para desabafar contra algo ou alguém.

Não é o melhor dos cenários. O próprio Neymar já se pronunciou sobre essa tensão entre ele e a imprensa. Diz que quer críticas construtivas, mas já devia estar acostumado com essa pressão. A “bolha” em que estrelas como ele vivem, cercada de amigos e bajuladores de ocasião, não ajuda muito.

Na prática, porém, pode ter um efeito positivo. Porque em silêncio é possível se concentrar ainda mais no trabalho, sem maiores distrações. Ainda que seja praticamente impossível ficar alheio a tudo com as informações circulando nas redes sociais.

No futebol há histórias vencedoras de times ou craques que não atenderam a imprensa. Como o “Silenzio stampa” da seleção italiana na Copa do Mundo de 1982. Depois de uma primeira fase com futebol pobre e empates contra Polônia, Peru e Camarões, os jornalistas pegaram pesado nas críticas e entraram até na vida privada, insinuando sobre a orientação sexual de Paolo Rossi e Antonio Cabrini por conta de uma foto.

A solução: silêncio total. Ou quase, com o capitão e goleiro Dino Zoff falando apenas o “extremamente necessário”, porém sem maiores diálogos. Não há como afirmar que foi essa união do grupo fechado a responsável pela arrancada de quatro vitórias, inclusive sobre a lendária seleção de Telê Santana, até o tricampeonato mundial. Mas funcionou.

Deu resultado prático também com Portugal na última Eurocopa. Depois de Cristiano Ronaldo arremessar o microfone de um repórter português num lago em acesso de fúria, a seleção que vinha penando no torneio arrancou para a conquista. A velha necessidade de criar um inimigo para se unir e lutar contra.

No Brasil, outros dois casos em um mesmo time. O Vasco de Edmundo, que depois de uma declaração infeliz sobre o árbitro Dacildo Mourão e ser alvejado por críticas, se recusou a dar entrevistas. Concentrado apenas no futebol, teve desempenho espetacular, levou o Vasco ao título e quebrou o recorde de gols em uma mesma edição com 29 e em uma mesma partida – seis, contra o União São João, em São Januário.

Três anos depois, sem Edmundo, outra polêmica: a queda do alambrado em São Januário na primeira partida da decisão da Copa João Havelange contra o São Caetano. Eurico Miranda queria que o jogo fosse reiniciado, apesar dos 160 feridos. Não conseguiu e foi muito criticado.

Jogo remarcado para o início de 2001 no Maracanã. Até lá, Eurico proibiu entrevistas e até acesso da imprensa a São Januário. Para afrontar, obviamente, mas também com o objetivo de blindar o time e não desviar o foco. O resultado prático foi vitória por 3 a 1 e uma das melhores exibições coletivas da equipe dos Juninhos (Pernambucano e Paulista), Euler e Romário.

Exceções. A história mostra muito mais casos de times campeões que não tinham problemas com a imprensa e não precisaram de um litígio como motivação para melhorar o desempenho.

Mas se o silêncio de Neymar e uma mais que provável vontade de responder aos críticos “destrutivos” servirem para ele repetir na decisão contra a Alemanha no Maracanã a bela atuação dos 6 a 0 na semifinal olímpica…que seja.

Até para nós, jornalistas. Porque a falta de aspas seria compensada com as pautas sobre a vitória, que atingem e mobilizam muita gente e criam um clima de otimismo e esperança. O ouro inédito vale mais que as palavras.

Neymar, você não precisa nos mostrar seu valor como jogador. Mas se isto também lhe estimula a vencer e dar espetáculo em campo, boa sorte!


Uma tarde de gala no Maracanã
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André Rocha

Este que escreve nasceu em 1973. Começou a entender algo de futebol em 1980. Carioca, adepto na juventude da famosa canção de Bebeto: “Praia e sol, Maracanã, futebol. Domingo”.

Hoje é quarta-feira. Mas o blogueiro que viveu muitas tardes de paixão pelo futebol no maior dos templos, antes das muitas reformas, se permite no meio das agruras da vida adulta uma análise com leveza. Para a alma respirar.

Sim, era Honduras. Claro, o gol de Neymar aos 15 segundos, o mais rápido da história dos Jogos Olímpicos, desmontou o 5-4-1 baseado em posicionamento perfeito da última linha de defesa que o técnico Jorge Luis Pinto armou com sucesso na Costa da Rica da Copa do Mundo há dois anos.

Mas o que se viu depois foi espetáculo. De fibra, entrega, talento. Jogo coletivo potencializando a qualidade técnica. Exibição que a seleção, principal ou olímpica, negou diante de equipes mais frágeis tantas vezes.

Por isso o analista, sem pensar no ontem ou no amanhã, pede licença para um instante de encantamento com o presente para lembrar dos olhos brilhando do menino de dez anos. Que passava a semana pensando no jogo e não nas contas para pagar.

(Se você é pragmático, está magoado com a seleção – com toda razão – ou acha que elogiar o time é aceitar os muitos erros da CBF…melhor parar a leitura por aqui e não seguir viagem)

Neymar deitou e rolou jogando como autêntico camisa dez. Parecia Zico. Moderno na pressão sobre Palacios no gol que facilitou tudo. Armador à moda antiga circulando às costas dos volantes ou buscando a bola para pensar o jogo e escondê-la dos oponentes. Até cobrador de faltas. Fechou a conta com um gol de pênalti.

Gabriel Jesus fez duas diagonais partindo da esquerda que lembraram as de Romário. Não o consagrado, Bola de Ouro e campeão mundial em 1994. O do início da carreira, ou até na base do Vasco. Nas preliminares do Maracanã. Com os 19 anos de Jesus.

Três a zero em 45 minutos. Só oito passes errados em 64% de posse. Oito finalizações, a metade no alvo. Só uma não foi nas redes de Lopez. Números que são apenas detalhes diante da atmosfera no estádio, o clima de comunhão com a torcida.

Brasileiro que valoriza a vitória, mas se for com espetáculo, com a proposta de fazer bem e bonito o convite para viver um momento agradável é irresistível.

Talvez não dê em ouro. E o clima de revanche numa possível final contra a Alemanha não vai ajudar em nada. Até porque vingança só com goleada numa semifinal de Copa do Mundo na casa deles.

Então, se remoer o passado é tão inútil quanto a ansiedade em relação ao futuro, vale o hoje. Seis a zero que ainda teve gols de Marquinhos e Luan. Outros destaques no torneio.

Tudo com um misto de nostalgia e fé no amanhã de uma tarde de gala no Maracanã.


Derrota do vôlei feminino deixa lição: nunca deixar de competir
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André Rocha

A incrível reação do Liverpool no “Milagre de Istambul'' em 2005 se deu em quinze minutos. Depois houve mais 75, os acréscimos e a decisão por pênaltis. O Milan teve chances de vencer, mas mentalmente sempre esteve em condições inferiores depois de ceder o empate.

Porque deixou de competir após fazer três gols e dar um passeio no primeiro tempo, com Kaká deitando e rolando às costas de Xabi Alonso e Gerrard e acionando Crespo e Schevchenko na frente. 3 a 0, fora o baile.

Dançou quando desconcentrou. Por não mais que quinze minutos após a volta do intervalo. Absolutamente humano. Reações como a dos Reds entram para a história por serem tão raras. Por isso os méritos do time inglês são inegáveis.

Natural que os rossoneri, mesmo experientes, esperassem um rival entregue e fosse apenas questão de tempo para administrar a vantagem. Como, por exemplo, o Flamengo de Zico em 1981 contra o próprio Liverpool em Tóquio. Outros tempos.

Não há mais espaço para relaxamento. Ou eles hoje são punidos com mais frequência. Ainda mais em disputas do nível de uma final de Liga dos Campeões. Em qualquer esporte.

Como o vôlei, seja entre homens ou mulheres. No feminino, a seleção brasileira bicampeã olímpica foi surpreendida nas quartas de final pela China que, nas palavras da própria técnica Lang Ping, veio ao Rio de Janeiro pensando em Tóquio 2020.

Massacre brasileiro no primeiro set: 25 a 15. A campanha sem perder sequer um set na primeira fase era uma lembrança mais fresca que os 3 a 0 sofridos para as orientais no Grand Prix há dois meses.

A desconcentração foi nítida, inclusive do torcedor no Maracanãzinho que imaginou um triunfo protocolar. É bem provável que já estivessem pensando na semifinal. Até pela expressão aparentemente conformada de Lang Ping e suas comandadas.

Engano. As chinesas entraram no jogo, encontraram em Natália a fragilidade no passe, apesar da força no ataque, e apostaram na gigante Ting Zhu como o ponto de desequilíbrio. E foi, com 28 pontos.

Sim, as meninas de Zé Roberto reagiram, venceram o quarto set e equilibraram o tie break. Mas o estrago na própria confiança e o “doping'' emocional no adversário já eram realidade. A sequência euforia-relaxamento-surpresa-desespero costuma ser devastadora mentalmente. E a China jogou demais, atuação memorável.

Não é regra. No vôlei e em outros esportes há casos de viradas sobre reações. Abrir vantagem, ser surpreendido mas se recuperar. Por isso eventos como Jogos Olímpicos e Liga dos Campeões sempre reservam histórias espetaculares. E é ótimo que elas aconteçam.

Menos para quem se frustra. Como o Brasil que sonhava com o tri em casa e sequer vai disputar medalha. Porque deixou de competir, no corpo e na mente. Que sirva de lição.

Como o Milan aprendeu e venceu o mesmo Liverpool dois anos depois em outra decisão continental. Em Atenas, berço dos Jogos Olímpicos.

 

 


Formiga: a heroína da luta inglória do futebol feminino. Valeu por tudo!
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André Rocha

Formiga

O problema do futebol feminino enquanto “produto'' que depende de audiência para gerar receitas e se autossustentar no Brasil é a concorrência.

Com as principais competições entre os homens no país e no mundo acessíveis pela TV, aberta e fechada, e sendo consumidos nos horários de folga por um público grande, mas que não deixa de ser um nicho, é difícil imaginar uma audiência, dentro ou fora dos estádios, que viabilize o negócio.

Porque as mulheres, por genética, perdem em explosão muscular e intensidade na prática do esporte. Evoluíram muito, inclusive entre as goleiras – grande gargalo histórico da modalidade. Mas não acompanham o masculino, que também progride. Não por acaso, os treinamentos contra homens normalmente envolvem garotos da base para não ficar tão desigual.

Não é machismo, é uma constatação que valoriza as atletas e a preparação nos grandes centros do planeta. No Brasil é dever reconhecer o esforço da CBF em ao menos fazer a seleção ter uma gestão mais qualificada. Marco Aurélio Cunha realiza o seu trabalho. Faltam os clubes, com seus orçamentos já estrangulados com dívidas, ainda que do passado, que não se sentem estimulados a investir pela falta de público.

Se há um culpado, talvez seja a nossa falta de cultura de valorizar o esporte. Desde as escolas, com a massificação da prática de todas as modalidades. O imediatismo nos atrapalha sempre. Queremos os vencedores, os fenômenos que superam tudo. Inclusive o descaso com atenção apenas nos grandes eventos.

As brasileiras foram heroicas. Duas prorrogações nas disputas eliminatórias, contra Austrália e Suécia. Esta última numa tarde quente no Maracanã. Diante de um rival organizado, que desclassificou as americanas favoritíssimas.

Apesar de alguns problemas táticos na equipe de Vadão. O principal: na ausência de Cristiane, maior artilheira olímpica com 15 gols no banco de reservas por conta de uma lesão, deixar Marta pela direita é um desperdício. Ainda mais com a lateral reserva Poliana que não chega à linha de fundo.

Por que não dar liberdade para a mais talentosa? Não como centroavante, mas solta, circulando perto da zona de decisão, criando espaços para finalizar. Marta buscava a linha de fundo e, canhota, cruzava fraco. Quando cortava para dentro tinha um bolo de oponentes na frente.

De novo os pênaltis. Desta vez Bárbara não salvou a última cobrança depois dos erros de Cristiane e Andressinha. Apesar de tudo, méritos das meninas exauridas e do esforço da goleira de olhos claros. Mereceram os aplausos.

Mais que todas, a grande heroína desta história: Formiga. 38 anos, justificando em 360 minutos o apelido. Incansável jogando de uma área à outra. Defendendo e atacando com a intensidade possível. Não parece mesmo humana no fôlego inesgotável.

Até porque resiste há mais de duas décadas de dificuldades. Cinco olimpíadas. Uma luta inglória. Resta a consciência tranquila de ter entregado o máximo. Pode terminar em mais uma medalha. A terceira depois de duas prateadas.

Formiga, valeu por tudo!