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Novo Palmeiras sofre com a bola parada: o jogo dentro do jogo
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André Rocha

O propósito maior do jogo na Arena Condá estava fora das quatro linhas e o simbolismo da partida tirou até o espírito de competição que surge naturalmente, mesmo em um amistoso. Felipe Melo ilustrou bem ao afirmar que perdeu a concentração ao ver uma criança chorando. Ainda mais ele, que esteve tão distante geograficamente da tragédia e todos os seus desdobramentos.

Mas de tudo que foi possível observar nos 2 a 2 entre Chapecoense e Palmeiras, além do novo time do clube catarinense jogando com fibra e entrega impressionantes e o potencial de Raphael Veiga e Vitinho, sem contar a afirmação da qualidade de Tchê Tchê no novo 4-1-4-1 palmeirense, chamou atenção o desempenho dos times na bola parada.

Mesmo descontando o fato do campeão brasileiro estar sem Mina e Vitor Hugo, sua zaga titular, e Eduardo Baptista ter pouquíssimo tempo de trabalho, saltou aos olhos as falhas defensivas. Não só nos gols de Douglas Grolli e Amaral, mas em praticamente todas as disputas pelo alto.

Compreensível também a ênfase da Chape nesta jogada. Afinal, com um time novo e, consequentemente desentrosado, este tipo de recurso seria uma arma interessante para Vágner Mancini.

Porque a bola parada é um jogo dentro do jogo de futebol. Tem outro posicionamento, outra dinâmica. A ponto dos treinadores tratarem como um quinto momento, além do defensivo, do ofensivo, da transição defensiva – o que você faz assim que perde a bola – e da transição ofensiva – a ação imediata assim que a recupera.

Jogada decisiva, cheia de detalhes. Capaz de igualar forças das equipes, até compensar desvantagem numérica. Depende mais de movimentos coordenados do que do talento do cobrador e dos companheiros na área para concluir.

Quantas finais ou disputas cercadas de expectativas entre times e seleções já foram dissecadas previamente com sistemas táticos, modelos de jogo, estatísticas dos jogadores e, no final, se resolveram numa bola parada? O Real Madrid de Sergio Ramos que o diga.

Eduardo Baptista é treinador detalhista, minucioso. Inclusive neste tipo de jogada. Certamente percebeu a deficiência e vai trabalhar para corrigi-la. Porque ela ajuda a derrubar treinador.

O problema crônico no Flamengo minou os trabalhos de Cristóvão Borges e Oswaldo de Oliveira em 2015. No ano passado, Roger Machado no Grêmio foi o caso mais marcante. Houve problema de gestão de vestiário, mas, no campo, os muitos gols sofridos em jogadas aéreas nas faltas laterais e escanteios empurraram o bom treinador para fora do comando técnico do time gaúcho.

Renato Gaúcho chegou, fez o simples e, com marcações individuais bem definidas, resolveu o problema. Como Cuca adotava a mesma prática no Palmeiras, com bola rolando ou parada, cabe a Eduardo Baptista perceber se os jogadores se adaptam melhor ao bloqueio por zona ou ao tradicional ''cada um pega o seu''.

Há tempo para isso. O foco absoluto é na Libertadores, que começa em março. Até lá, com time completo, trabalho e conversa é possível acertar o Palmeiras em todos os detalhes para começar a competir em alto nível, fazendo jus ao poder de investimento do clube.


Como Guardiola pode aproveitar Gabriel Jesus no Manchester City
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André Rocha

Gabriel Jesus City apresentacao

Gabriel Jesus estreou no time profissional do Palmeiras com 17 anos. Como grande promessa e esperança. Era um jogo do Paulista de 2015, 1 a 0 no Bragantino em uma noite de sábado, a sexta vitória seguida da equipe de Oswaldo de Oliveira. Mas a torcida exigiu a presença da joia da base, o treinador atendeu e o garoto respondeu com personalidade.

Na seleção olímpica encarou a cobrança de uma torcida carente pós 7 a 1 e tratando como obrigação a medalha de ouro em casa. Sofreu no início complicado, mas encarou e terminou como um dos destaques, marcando três gols. Missão cumprida com o título.

Caminho aberto para se afirmar na seleção principal. Estreia no primeiro jogo sob o comando de Tite. Camisa nove diante do Equador em Quito com o país cinco vezes campeão mundial na sexta colocação das eliminatórias. Uma tremenda fria que Jesus aqueceu com dois gols e bela atuação nos 3 a 0.

Agora o garoto que chega a Manchester como um talento a ser lapidado com calma por Pep Guardiola está pronto para estrear no City, logo no momento mais complicado na temporada. Tratado como solução aos 19 anos. Exatamente no confronto com a equipe que começou a situar o técnico catalão na Inglaterra: o ótimo Tottenham de Mauricio Pochettino, que encerrou a sequência de seis vitórias dos citizens no início da Premier League e está na vice-liderança.

É bem provável que Gabriel Jesus não inicie a partida no Etihad Stadium. Mas se o treinador precisar do brasileiro tem várias opções de posicionamento para o atacante.

A começar pela mais básica: no centro do ataque, como alternativa a Kun Aguero, que sofre com as oscilações da equipe. Jesus pode acrescentar mobilidade e visão de jogo. O passe para Neymar marcar o segundo gol brasileiro sobre a Argentina nos 3 a 0 do Mineirão é ótimo exemplo. O entendimento com Kevin De Bruyne, David Silva e ponteiros como Sterling, Sané e Nolito pode ser rápido.

É possível também fazer dupla com Aguero, circulando entre a defesa e o meio-campo, trocando com o argentino para confundir a retaguarda adversária. Mas Guardiola teria que abrir mão dos ponteiros para alargar o campo e usar De Bruyne e Silva como meias abertos e articuladores num 4-4-2.

A hipótese mais provável, ao menos para este início, é Jesus na ponta esquerda, como na Olimpíada, infiltrando em diagonal. O brasileiro também atuou assim com Marcelo Oliveira, antes da chegada de Cuca. Só necessitaria de uma adaptação às ideias de Guardiola para os pontas, inclusive na pressão no campo de ataque e na recomposição.

Difícil é entender por que Guardiola, sem Fernando, Fernandinho e Gundogan, não resgata a ideia do início da liga com Bruyne e Silva como meio-campistas de área a área. Marcando e jogando. Para acionar o ataque, inclusive Jesus.

Tudo questão de tempo, paciência e trabalho com um técnico que tem muito a acrescentar ao enorme potencial do jovem avante. A camisa 33 pode começar a fazer história em Manchester já neste sábado.

Pep Guardiola pode utilizar Gabriel Jesus atuando pela esquerda , como no Palmeiras antes de Cuca e na seleção olímpica. Infiltrando em diagonal e voltando para fechar espaços na recomposição (Tactical Pad).

Pep Guardiola pode utilizar Gabriel Jesus atuando pela esquerda , como no Palmeiras antes de Cuca e na seleção olímpica. Infiltrando em diagonal e voltando para fechar espaços na recomposição (Tactical Pad).

 


Zé Ricardo testa Mancuello como “dublê” de Conca no Flamengo
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André Rocha

Crédito: Gilvan de Souza (Flamengo)

Crédito: Gilvan de Souza (Flamengo)

Dario Conca já trabalha na recuperação da séria lesão no joelho para poder estar apto o quanto antes para estrear no Flamengo.

Desde a primeira entrevista depois da confirmação da chegada do meia argentino, o técnico Zé Ricardo deixa claro que pensa no time com o reforço e Diego juntos na armação das jogadas, partindo a princípio do mesmo 4-2-3-1 que se afirmou no ano passado.

Ou seja, um dos dois meias seria o ponta articulador, que sai do lado do campo e circula pelo setor ofensivo com liberdade para deixar o desenho tático menos engessado que com os dois ponteiros fixos. Zé Ricardo sinaliza a montagem do time para que os movimentos já estejam assimilados até a entrada de Conca.

Para isso é preciso uma espécie de ''dublê'' e, pelo visto no início dos trabalhos, ele já está escolhido. Também argentino e canhoto.

Federico Mancuello foi contratado no início de 2016 porque a ideia de Muricy Ramalho era montar um meio-campo sem o típico camisa dez num 4-3-3 inspirado no Barcelona. O argentino não é volante nem meia, mas um meio-campista de área a área.

Com o time claudicante, os próprios problemas físicos e depois a chegada de Diego, Mancuello perdeu espaço. Mesmo sendo um dos melhores finalizadores do elenco. Com o time titular sofrendo para ir às redes no Brasileiro parecia um absurdo. Ainda mais porque, quando entrou, o argentino fez gols importantes, contra Atlético-PR, Cruzeiro e Chapecoense.

O problema era a adaptação à função pelo lado. Mancuello entrava bem na vaga de Márcio Araújo, com o time precisando atacar. Quando testado na ponta tinha dificuldades. Sem tempo para trabalhar com viagens e jogos decisivos, Zé Ricardo arquivou a ideia depois da atuação coletiva ruim no primeiro tempo dos 2 a 2 contra o Corinthians na volta ao Maracanã, com Mancuello pela esquerda. Até tentou um losango no meio contra o Coritiba, mas o desempenho também não agradou.

Agora, com calma e a vontade do jogador de tentar novamente, mas principalmente pelo ''fator Conca'', Zé Ricardo testa Mancuello nos treinos aberto pela direita. A ideia é que ele corte para dentro com a canhota, se junte a Diego no centro e deixe o corredor para o apoio de Pará ou mesmo Arão. Do lado oposto, Everton fica mais aberto e usa a velocidade, até porque Jorge é um lateral que ataca mais por dentro, não busca tanto o fundo.

A recomposição e a pressão no campo de ataque também precisam ser repensadas sem a intensidade e a rapidez de um ponteiro velocista como Gabriel, Fernandinho ou Cirino. Talvez sacrificar um pouco Pará, Arão e o volante mais plantado, que deve ser Romulo, para ganhar criatividade e poder de fogo na frente.

Sem tanta pressão no início do ano é possível experimentar mais, enquanto o clube não contrata o atacante de lado mais agudo, que ainda pode ser Berrío ou Vargas. Por isso Mancuello é a novidade na base mantida para 2017. O ''dublê'' de Conca.

 

 

 


A primeira imagem do São Paulo de Ceni é animadora. Só faltou acabamento
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André Rocha

O analista de futebol trabalha com o momento. Fotografias de cenários. Chamado a opinar quase diariamente, precisa ter uma visão do todo, mas fundamentalmente observar o que está acontecendo e tentar perceber tendências.

A foto da estreia de Ceni trouxe imagens interessantes: linhas adiantadas, pressão sobre o adversário com a bola, velocidade na transição ofensiva. Protagonismo que envolveu o River Plate nos primeiros 45 minutos com a formação considerada titular.

E o novo treinador já mostrou uma prática influenciada por Jorge Sampaoli, um de seus ''gurus'': contra apenas um atacante (Lucas Alario), dois zagueiros ficam mais fixos para garantir superioridade numérica atrás – Maicon e Breno. O terceiro, na teoria, seria Rodrigo Caio, que foi adiantado como volante para qualificar a saída de bola à frente da retaguarda.

O uruguaio Rodrigo Mora também é atacante, mas circula mais pelos flancos. Por isso Ceni optou por segurar um pouco os alas Bruno e Buffarini como laterais, fazendo diagonais de cobertura, mas se projetando nas ações ofensivas.

Na frente, destaque para Wellington Nem, canhoto pela direita cortando para dentro. Rapidez e criatividade. Luiz Araujo tentava fazer o mesmo pela esquerda, porém entrando mais na área rival se juntando a Chávez. Em números, um 4-3-3.

Não faltou criatividade, mesmo sem um típico articulador. Cueva é meia que pensa correndo e teve o suporte de Thiago Mendes. Mas com bola retomada na frente, mobilidade e trabalho coletivo o time soube criar espaços.

Sobraram gols perdidos. Desde o pênalti sobre Nem cobrado por Cueva que o goleiro Bologna defendeu logo aos quatro minutos, passando pelas chances desperdiçadas por Luiz Araujo e Chávez. O volume de jogo que encurralou o adversário não encontrou o acabamento para ir às redes.

Trabalho para Michael Beale, auxiliar inglês de Ceni obcecado por fundamentos, precisão técnica. Não vai ensinar ninguém a finalizar, mas pode criar treinos para aprimorar o que for possível.

Foram dez trocas na volta do intervalo, depois Buffarini saiu para a entrada de Foguete. Como quase sempre acontece em amistosos, o jogo perde intensidade e interesse com tantas mudanças.

O River equilibrou, criou oportunidades aproveitando mais espaços entre os setores são-paulinos e o natural desentrosamento. Carimbou as traves duas vezes, inclusive no lance derradeiro com Martínez.

Valeu para Ceni ter a confirmação de que o jovem Shaylon será muito útil e constatar que Lucão está mais maduro na retaguarda. O treinador ainda espera pelo talentoso David Neres, a serviço da seleção sub-20.

Na decisão interminável de pênaltis pela vaga na final do torneio contra o Corinthians, vitória por 8 a 7 nas mãos de Sidão. Mas o resultado é secundário. Importante foi o bom desempenho na primeira etapa. A primeira imagem. Só faltou o acabamento.


As primeiras impressões de Corinthians e Vasco em 2017
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André Rocha

Para o time paulista valeu mais a observação do primeiro tempo, com a formação titular utilizando as peças disponíveis no Torneio da Flórida. E o que se viu foi a equipe de Fabio Carille com os movimentos do 4-1-4-1 inspirado em Tite mais assimilados, fluindo naturalmente.

Talvez pela preocupação de se manter organizado e os jogadores agrupados por ser um início de trabalho para evitar maior desgaste ficou a impressão de um time um tanto engessado, sem a mobilidade necessária, especialmente de Jô na frente.

Quando os ponteiros Romero e Marlone se procuraram no centro saiu o segundo gol numa tabela. O mesmo na primeira bola que foi às redes no jogo, quando os meias pelo centro à frente do volante Gabriel trocaram passes e no toque de calcanhar de Rodriguinho, Camacho saiu na cara de Martín Silva.

Porque o Vasco na segunda aparição sob o comando de Cristóvão Borges já demonstrou, na prática, os problemas defensivos da proposta de jogo do treinador: linhas próximas, defesa adiantada, mas sem pressão e diminuição de espaços diante do homem da bola. Muita liberdade nos gols corintianos. Já havia acontecido nos 2 a 1 sobre o Barcelona de Guaiaquil.

Um contraponto ao desempenho interessante na frente, com mais mobilidade e rapidez: Evander, Guilherme e Eder Luís se juntando a Nenê na articulação procurando Thalles. Bem superior à experiência com Escudero e Muriqui totalmente fora de sintonia na estreia.

Mas o gol saiu em ação individual, um chute espetacular com efeito de Eder Luis acertando o ângulo de Cássio. Para dar moral ao atacante veterano que terá em Wagner mais um concorrente no quarteto ou quinteto ofensivo que Cristóvão pretende armar.

Segunda etapa com as muitas substituições que quase sempre descaracterizam a disputa, mas valem paraa observação dos treinadores.  Do quarteto Giovanni Augusto, Guilherme, Marquinhos Gabriel e Kazim por Carille. Os dois últimos protagonistas dos dois gols, um servindo ao outro, que consolidaram a goleada por 4 a 1.

Cristóvão viu um melhor entendimento entre Escudero, Ederson, Pikachu e Andrezinho. O técnico mexeu bastante, mas sem a opção de trocar todo time na volta do intervalo, como fez a equipe paulista. Mas, de novo, quando atacado de forma mais aguda mostrou as mesmas dificuldades defensivas. Algo para o comandante refletir e, principalmente, corrigir.

Clima de amistoso, Corinthians na final. Mas valeu mesmo para notar os rascunhos e as primeiras impressões sobre os times na temporada. A conclusão óbvia: há muito trabalho pela frente.


A “função Jadson” pode estar de volta ao futebol brasileiro
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André Rocha

Everton Ribeiro foi o melhor jogador dos Brasileiros de 2013 e 2014 como o meia canhoto jogando aberto pela direita no Cruzeiro bicampeão. Partia da ponta para articular no centro, circulando às costas do volante e sendo um homem a mais no meio-campo para desarticular a marcação adversária.

Jadson dividiu com Renato Augusto os elogios e os prêmios de destaque da principal competição nacional em 2015 executando praticamente a mesma função do cruzeirense. Mas com um adicional tático imposto por Tite: as transições mais longas.

Basicamente, jogar de uma linha de fundo à outra. Mas sem a corrida desenfreada dos pontas que voltam com os laterais adversários marcando individualmente. Na marcação por zona do Corinthians campeão, o ponta recompõe posicionado, fecha espaços e só volta até a linha de fundo quando está bem perto dela, com o lateral (Fagner) mais centralizado, próximo aos zagueiros.

A transição defensiva mais longa de Jadson, fechando o corredor direito para o lateral Fagner ficar mais próximo do zagueiro guardando o setor (reprodução TV Globo).

A transição defensiva mais longa de Jadson, fechando o corredor direito para o lateral Fagner ficar mais próximo do zagueiro guardando o setor (reprodução TV Band).

Com a bola, mobilidade para circular, criando superioridade numérica e aparecendo na área para finalizar. Ainda abre o corredor para o lateral passar e buscar o fundo. Sem contar a eficiência nas bolas paradas, em cobranças diretas ou servindo os companheiros. Dentro de um 4-1-4-1 rígido, a ''função Jadson'' era a peça solta para surpreender o oponente. Líder de assistências no Brasileiro com 12. Na temporada 2015 foram 22, mais 16 gols.

Flagrante do Corinthians no ataque em 2015 com Jadson saindo da ponta e abrindo o corredor para a descida de Fagner e servindo Elias em profundidade atacando a brecha deixada no flanco (reprodução TV Globo).

Flagrante do Corinthians no ataque em 2015 com Jadson saindo da ponta e abrindo o corredor para a descida de Fagner e servindo Elias em profundidade atacando a brecha deixada no flanco (reprodução TV Globo).

O jogador de 33 anos volta de sua aventura milionária na China e planeja o retorno ao Brasil. Estuda proposta oficial do Corinthians, o Atlético-MG também está de olho. Para quem tem mais de 30, qualquer ano a mais influi no condicionamento físico. Mas com experiência e domínio da função, o desempenho pode ser semelhante para equilibrar a própria equipe e desestabilizar o outro lado.

Para executar a ''função Jadson'' ninguém melhor que o próprio meia.


Ritmo da Premier League é o maior inimigo de Guardiola na Inglaterra
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André Rocha

Guardiola_City_crise

No eterno Fla-Flu do ''Guardiolismo'', os detratores dirão que acabou a moleza, o campeonato inglês é mais equilibrado, tem melhores times e Barcelona e Bayern sobravam porque jogavam contra equipes bem mais fracas. E talvez tenham alguma razão.

Já os fãs incondicionais do técnico catalão defenderão alegando que a culpa é do pouco tempo de trabalho para implementar sua filosofia e dos erros individuais dos jogadores do Manchester City, que não estão no mesmo nível de excelência dos atletas que o técnico comandou anteriormente. Não estão errados.

Difícil encontrar apenas uma razão para justificar o mau momento do City de Guardiola na Inglaterra depois do ótimo início, de seis vitórias seguidas e a liderança da liga. Mas ao cruzar a visão de futebol do treinador e o que se vê nos campos da Inglaterra é possível afirmar que o maior inimigo até aqui é o ritmo da Premier League.

É algo difícil de quantificar mas que salta aos olhos. O jogo na Inglaterra tem técnica e variações táticas, mas não permite tanta fluidez. É naturalmente caótico. As transições são muito rápidas, saindo das zonas de perigo no próprio campo. Induz as disputas físicas. A pressão no homem da bola é constante. Há mais choques e a arbitragem não marca falta em qualquer contato.

Guardiola constroi seu jogo posicional com passes desde a defesa, com calma, até se instalar no campo de ataque com praticamente todos os jogadores. Na perda da bola, pressão imediata para retomar a posse em não mais que dez segundos.

Como fazer isso se o fluxo é quebrado na pressão, no choque ou na bola longa mais bem planejada e executada, focada no rebote? A saída de bola fica ''suja'', os setores não se aproximam. Ou seja, é praticamente impossível ditar este ritmo. A essência do plano de Guardiola.

No Barça era Xavi quem controlava o tempo do jogo. As sístoles e diástoles do coração da equipe. No Bayern era Lahm. Primeiro no meio, depois como um lateral que jogava por dentro, participando na articulação. No City, Guardiola tentou com Fernandinho, Gundogan, David Silva, Yaya Touré. Sem sucesso, porém. E a questão não é a qualidade individual dos meio-campistas.

Simplesmente não há controle. No início, o time azul de Manchester surpreendeu com as novas ideias e pelo ritmo intenso que impôs, até pela necessidade de uma resposta rápida nos playoffs da Liga dos Campeões contra o Steaua Bucareste. Depois o time passou a ser estudado e o ritmo alucinante da Premier League acompanhou a intensidade do City.

Guardiola vai tentando se adaptar. Primeiro buscando criar superioridade numérica no meio com três zagueiros e Fernandinho e Gundogan qualificando o início da construção das jogadas. Na virada sobre o Barcelona pela Champions, a pressão absurda no campo de ataque e o contragolpe letal.

Nas derrotas para Chelsea, Leicester e agora Everton, os erros técnicos prejudicaram. Especialmente no passe que vira assistência ou na finalização. Mas a saída de bola continua sendo a questão mais complexa. Guardiola tenta acelerar, fazer a bola chegar mais rapidamente no campo de ataque para então fazer o jogo posicional.

Mas para isso é preciso espaçar mais os setores. Os laterais e os meio-campistas se adiantam para tornar o processo menos suscetível a erros. Só que deixam os zagueiros desprotegidos. Um equívoco e a retaguarda está exposta.

Qual a saída? Voltar à essência de suas ideias ou ceder totalmente e virar um técnico comum dentro do contexto da Premier League? Afinal, para que Guardiola foi contratado? Impor estilo ou aceitar a impotência diante do ritmo do jogo na Inglaterra?

Antonio Conte começou mantendo o padrão do Chelsea e fez sua equipe voar até a liderança colocando suas ideias. Só que a filosofia do treinador italiano é mais simples e flexível. Gosta de bolas longas, disputas físicas e na velocidade em todos os pedaços do campo. A solidez da linha de cinco atrás é uma diferença a favor.

O catalão está emparedado. Para piorar, a pressão e a visibilidade sobre o técnico mais estudado do planeta em um clube sem a história gloriosa de Barcelona e Bayern. Com mais equilíbrio, menos craques. Pouco tempo de trabalho. Fãs e detratores não deixam de ter razão.

Difícil é encontrar uma saída para Pep Guardiola voltar a acertar.

 

 

 


Futebol não é só tática! Na alma, Sevilla encerra a invencibilidade do Real
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André Rocha

Zidane surpreendeu ao mandar a campo pela primeira vez o seu Real Madrid com três zagueiros. Ou uma linha de cinco atrás, tendência recente com o sucesso do Chelsea de Antonio Conte na Premier League.

A lógica é simples: se o adversário trabalha a bola para encontrar espaços, infiltrar nos últimos vinte metros e finalizar, por que não ter mais jogadores para evitar a jogada mais importante? A receita de Mourinho e tantos outros treinadores para parar Barcelona e as equipes de Guardiola ou qualquer time que queira a bola.

Como o Sevilla de Jorge Sampaoli, que é equipe de posse, linhas adiantadas e circulação de bola com tabelas e triangulações no ritmo do redivivo Nasri, que, junto com N'Zonzi, afundou Ganso no banco. Até encontrar as diagonais em velocidade de Ben Yedder, artilheiro da equipe, e Vitolo. Atacantes abertos que encontram parcerias nos flancos com os laterais Mariano e Escudero. Proposta ofensiva.

A resposta merengue foi Nacho entrando na zaga com Varane e Sergio Ramos. Carvajal e Marcelo eram alas no ataque e quase pontas quando o Real Madrid avançava a marcação e pressionava no campo de ataque. Sem a bola, formavam o cinturão de proteção da meta de Keylor Navas com o suporte de Casemiro, preciso nos desarmes.

O time visitante e líder do Espanhol não se incomodava em perder o meio-campo e deixar o mandante controlar a posse (56% no primeiro tempo). A ideia era evitar a ação ofensiva trabalhada que cria a oportunidade cristalina, o adversário na cara do gol.

Conseguiu na primeira etapa. O momento mais perigoso foi com N'Zonzi em cobrança de escanteio. Já o Real, nos contragolpes às costas de Mariano, teve duas espetadas de Cristiano Ronaldo e Benzema. Só faltou a conclusão precisa para coroar o jogo controlado.

A segunda etapa começou com intensidade máxima do time de Sampaoli, muita movimentação e uma bola roubada que virou contragolpe e Ben Yedder, pela primeira vez com espaços às costas de Nacho, parou em Navas.

Taticamente, porém, o Real seguia dono do plano mais bem executado. Logo ameaçou em dois contragolpes até o pênalti do goleiro Sergio Rico em Carvajal, após vacilo de Escudero. Confusão, catimba, provocação de Vitolo, mas nada impediu que Cristiano Ronaldo cobrasse com a precisão costumeira.

Zidane trocou o exausto Kroos por Kovacic. Poderia ter tirado Benzema e colocado Morata para ganhar fôlego nos contragolpes, mas o controle era do Real. Mesmo com Sampaoli arriscando tudo com Sarabia no lugar de Iborra, mas para abrir à direita e enviar Ben Yedder para se juntar no centro do ataque a Jovetic, que substituiu Franco Vázquez.

O Sevilla se mandou, correu riscos com os lentos zagueiros Pareja e Rami contra Cristiano Ronaldo. Mas futebol não é só tática ou estratégia. É também alma, fibra e atmosfera no estádio. E o Ramón Sánchez-Pijzuán ferveu no gol contra de Sergio Ramos, vaiado o jogo todo pelas provocações na Copa do Rei e ainda por conta da saída conturbada do clube. Na bola parada, quando o ''abafa'' era a única saída.

Com o Real tonto vendo o herói de tantas conquistas recentes com gols nos últimos minutos desta vez ser o vilão e acuado pelos gritos vindo das arquibancadas e pela entrega dos jogadores dentro, veio a virada no chute de Jovetic que Navas espalmou para dentro.

Sim, Sampaoli foi feliz ao colocar presença física na área adversária para ter mais chances de finalizar. Mas isso qualquer treinador faria. Fazer o óbvio às vezes é mérito também.

Zidane provavelmente será responsabilizado pela primeira derrota após 40 jogos. Talvez um técnico mais vivido fizesse o time parar o jogo, quem sabe com trocas no final para ganhar tempo. Porém na estratégia ele acertou mais que errou no duelo contra um dos melhores treinadores do planeta, que rapidamente já faz o Sevilla mudar de patamar no país e no continente.

Mas o futebol é espetacular por essas histórias errantes, sem roteiro definido. Instável, emocionante, imprevisível. Que deixa tudo em suspense, em aberto. Como ficou o Espanhol com o Sevilla voltando à vice-liderança e trazendo o Barça para perto do Real Madrid. Temos um campeonato.

(Estatísticas: Whoscored.com)

 


“Declínio técnico”? O Corinthians caiu tanto que precisa de um Drobga
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André Rocha

O nosso Dassler Marques trouxe a informação de que o Corinthians está se movimentando para trazer Didier Drogba. A ação agrada ao departamento de marketing, mas os profissionais do futebol estão resistindo à ideia alegando ''declínio técnico''.

Físico também, mas este é óbvio para um jogador que vai completar 39 anos em março. O curioso é o clube que em um ano perdeu praticamente toda a comissão técnica e o elenco campeão brasileiro de 2015, efetivou o técnico Fabio Carille sem a mínima convicção depois da aventura com Oswaldo de Oliveira e que até aqui anunciou para o ataque nomes como Jô, Luidy e Kazim usar critérios técnicos para descartar um atacante que já foi um dos melhores do planeta.

De fato, o marfinense já não tem muito a entregar no mais alto nível do futebol mundial. Mas na MLS, enquanto teve foco, mostrou desempenho: 11 gols em 11 partidas pelo Montreal Impact. Depois quase voltou ao Chelsea, enfrentou problemas com a grama sintética, discutiu com torcedores e se recusou a ficar no banco. Ainda assim marcou dez gols. Só Romero, com 13, foi às redes mais vezes em 2016.

A personalidade forte faz parte do ''combo''. Em campo, a equipe precisaria de uma referência de velocidade no ataque pois Drogba já não tem a mobilidade e o vigor de outros tempos. Mas o que Jô produziu desde o título da Libertadores com o Galo em 2013? Passagens sem brilho e conquistas por Al-Shabab e Jiangsu Suning. São nove anos a menos em relação ao avante africano, mas as perspectivas não são tão melhores.

Usar os jovens da base poderia ser solução, mas para quem tem o promissor Maycon para o meio-campo e contrata Fellipe Bastos, o aproveitamento das crias da casa não parece ser prioridade. Só William Pottker, um dos artilheiros do Brasileiro com 14 gols e ainda no radar corintiano, seria um atacante com boas perspectivas de corresponder.

Em um time estruturado, com base sólida e ídolos no auge, de fato o marfinense seria uma peça totalmente descartável. Mas para a nau à deriva que é o Corinthians, fora da Libertadores e até aqui sem notícias muito animadoras para 2017, pode ser nome interessante, dentro e fora de campo. Com parcerias, sem complicar o orçamento e usando com inteligência o potencial de marketing de um astro internacional.

O Corinthians caiu tanto que precisa de um craque, mesmo decadente.

 


Jair Ventura, exclusivo: Simeone é modelo, Montillo um mistério
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André Rocha

Jair Ventura Botafogo

Agora com pré-temporada, o jovem técnico do Botafogo pode consolidar seus conceitos que apareceram já no Brasileiro de 2016. Sucedeu Ricardo Gomes, manteve a estrutura inicial e depois acrescentou suas convicções ao time que surpreendeu se firmando no G-6.

Com a cabeça fervilhando de ideias, o filho de Jairzinho atendeu ao blog por telefone e falou sobre os planos para 2017.

BLOG – Você assumiu o time na saída de Ricardo Gomes para o São Paulo, manteve a estrutura da equipe e depois foi mudando. O que você planeja taticamente para a temporada?

JAIR VENTURA – Eu trabalhei com vários sistemas. De fato, no início mantive o losango no meio-campo que varia para duas linhas de quatro sem a bola – um volante abre, o externo recua do outro lado e deixa o meia e o centroavante na frente. Mas joguei com meio no quadrado (4-2-2-2), 4-2-3-1, 4-3-3 com um e dois volantes. Tudo depende da necessidade e da disponibilidade do elenco. Jogo a jogo.

BLOG – A estratégia do adversário também influi, certo?

JAIR VENTURA – É claro, por isso estudamos tão minuciosamente quem vamos enfrentar. O jogo pode pedir dois centroavantes ou dois meias, por exemplo, se o rival fecha bem as laterais. Já terminei jogo com o Camilo mais recuado ou só o Lindoso de volante, ele que era camisa dez do Madureira. Mas primeiro dependo do elenco disponível. Quando perdi Aírton e Bruno Silva não havia razão para escalar três médios atrás do Camilo.

BLOG – Haverá rodízio no elenco?

JAIR VENTURA – Ele acontece naturalmente, por lesões e, principalmente, pelo desgaste. O jogo está muito intenso, são cada vez mais ações de alta intensidade no campo. Antes o jogador perdia a bola e voltava para o próprio campo para depois marcar. Hoje ele perde e tem que pressionar. É exigência do futebol atual o atacante se dedicar sem a bola. Amadurecemos isso e os números mostram que deu certo, fomos a melhor defesa do returno do Brasileiro.

BLOG – Como o Montillo vai funcionar nesta engrenagem?

JAIR VENTURA – Desculpe, mas isso não vou abrir porque gosto de criar dúvida e tentar surpreender os adversários. De qualquer forma, ainda vou sentar com ele, colocar um quadro e conversar sobre o melhor posicionamento.

BLOG – A ideia do ponta articulador, o meia que sai do flanco para articular as jogadas, te agrada?

JAIR VENTURA – Não é o ideal, mas pode acontecer. Por exemplo, se o lateral do adversário não desce tanto para fazer dupla contra o meu lateral. Se o jogo pedir ele pode ser meia com o Camilo. Não tenho medo de correr riscos se houver a possibilidade.

BLOG – A ideia de aproveitar os jovens da base no elenco permanece?

JAIR VENTURA  – Sem dúvida. Está no meu DNA, eu trabalhei na base. Em 2015 comandei o time como interino e contra o Bahia usei sete jogadores criados no clube. O Canales chegou para ser titular, mas o Sassá mostrou mais desempenho. Eu só não vou usar por usar. A avaliação precisa ser cuidadosa. Por exemplo, hoje eu não tenho um externo de velocidade dentro do clube pronto para entrar e repor a saída do Neílton. Tenho que ir ao mercado e não forçar uma barra só porque minha filosofia é lançar jovens.

BLOG – Para terminar, quais são suas referências como treinador, no Brasil e no mundo?

JAIR VENTURA – Posso dizer que sou um privilegiado, pois nos oito anos em que trabalhei como assistente técnico convivi com grandes treinadores aqui no Botafogo. Aprendi muito com cada um deles e sigo aprendendo, sou um eterno aprendiz. Mas lá fora meu espelho é o Simeone, do Atlético de Madrid. Sem grandes estrelas venceu Barcelona, Real Madrid, Bayern de Munique. O poder de persuasão dele é impressionante. Ninguém gosta de correr, o jogador prefere estar com a bola. Convencê-los a jogar sem ela nunca é fácil.