Blog do André Rocha

Bahia de Ramires vence Bota “arame liso” em jogo divertido, na contramão
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André Rocha

Duelo de mata-mata pelas oitavas de final da Copa Sul-Americana na Fonte Nova. Com gol ''qualificado''. Entre equipes na segunda página da tabela da Série A do Brasileiro, apenas a dois pontos do Ceará, 17º colocado e primeiro no Z-4.

Imaginava-se uma disputa dentro da realidade atual do futebol jogado no país. O time da casa especulando com medo de sofrer gols e o visitante tentando controlar o jogo fechando espaços e tentando estocadas eventuais nos contragolpes.

Ledo engano. Obviamente não foi um jogaço, de alto nível técnico. Longe disso. Mas foi aberto e dinâmico, uma raridade, ainda mais porque o contexto não ajudava.

O Bahia de Enderson Moreira abriu o placar logo aos quatro minutos com Ramires, meia de 18 anos que vem ganhando oportunidades entre os profissionais por conta da ausência de Vinicius. Formando o trio com Clayton e Zé Rafael atrás de Edigar Júnio no 4-2-3-1 costumeiro, deu o dinamismo que justifica o apelido de Eric dos Santos Rodrigues, inspirado no volante ex-Cruzeiro, Chelsea e seleção brasileira, hoje no futebol chinês.

A boa surpresa foi que o time da casa não recuou com a vantagem. Terminou com 52% de posse de bola e finalizou seis vezes, duas no alvo. O Botafogo respondeu com cinco conclusões, três na direção da meta de Douglas. Duas nas traves, de Brenner e Rodrigo Pimpão.

Zé Ricardo montou um 4-1-4-1 que tinha uma variação interessante, com Rodrigo Lindoso e o jovem Gustavo recuando para auxiliar os zagueiros na posse de bola e adiantando o volante Jean, que fica mais fixo na proteção quando a equipe carioca perde a bola. Laterais Luis Ricardo e Gilson abertos e adiantados e os ponteiros Pimpão e Leo Valencia, depois Luiz Fernando, tentando se aproximar de Brenner.

Propostas ofensivas dentro das limitações das equipes. Também deficiências, especialmente na bola parada defensiva. O Bota teve chance de empatar, o Bahia ampliou no início da segunda etapa com Clayton. Já com Vinicius na vaga de Zé Rafael. Aí, sim, recolheu as linhas para administrar a vantagem. Caiu a posse para 46%, porém finalizou mais cinco vezes.

O Botafogo se lançou ao ataque de vez. Como se não houvesse amanhã. Empilhou chances até diminuir com Pimpão no rebote que o goleiro Douglas entregou. Mesmo antes da tola expulsão do lateral esquerdo Léo, o time visitante já tinha mais posse de bola e chegou a onze conclusões em pouco mais de 45 minutos. Nove no alvo. 16 no total. Faltou colocar nas redes. Jogou para virar, mas foi ''arame liso''. Um problema recorrente nas equipes comandadas por Zé Ricardo.

Bom resultado para o Bahia administrar na volta, mas certamente sem retranca. Até porque o Bota está bem vivo. Pelo gol fora e, principalmente, por conta do bom desempenho. Animador até pensando em Brasileiro para se afastar da ''confusão''.

Ótimo para quem assistiu. No futebol ''por uma bola'' jogado no Brasil, a partida foi na contramão. A decisão da vaga no Rio de Janeiro promete ao menos diversão. Hoje isto não é pouco em nossos campos.

(Estatísticas: Footstats)

 

 


Cruzeiro peca, mas arbitragem é que decide para o Boca. Parabéns, CBF!
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André Rocha

O Cruzeiro pecou na Bombonera por não aproveitar o período de superioridade nos primeiros 15 minutos, até surpreendendo o Boca Juniors pela personalidade com que ditou um ritmo mais lento para ''congelar'' o adversário e a torcida. Thiago Neves teve a chance e não aproveitou.

No início da segunda etapa também, com Mano Menezes surpreendendo ao desmontar o 4-2-3-1 habitual e se rearrumar num 4-3-3 com Robinho recuando, Rafinha, o substituto de Arrascaeta, indo para o lado direito e Thiago Neves e Barcos alternando no centro do ataque e à esquerda. Robinho e novamente Thiago Neves perderam chances cristalinas.

Não pode perdoar diante de um oponente tão tradicional, embora a equipe atual comandada por Guillermo Schelotto esteja longe em desempenho dos grandes times da história do clube xeneize. Começou com Pavón à direita, mas depois o ponteiro invertou o lado com Nández no 4-2-3-1 que tinha o colombiano Barrios incansável na proteção da defesa e Pablo Pérez articulando de trás.

Também aparecendo no ataque para aproveitar erro de Lucas Silva na tomada de decisão que provocou um ''efeito dominó'': o volante cruzeirense fechou um espaço morto e não acompanhou o deslocamento de Pérez para receber a bola. Para em seguida estar mal posicionado e não conseguir bloquear o passe para Zárate, o meia central que infiltrou pela direita para tirar do alcance de Fábio.

O período entre o gol do Boca e o final do primeiro tempo foi o único em que o time da casa conseguiu aquela sintonia com a massa que intimida os rivais. Ataca, perde e logo pressiona, o adversário apela para o chutão, o time recupera a bola e segue atacando com volume. A torcida cresce junto e o adversário não respira.

O Cruzeiro saiu vivo e o jogo seguiu equilibrado na segunda etapa. Até o absurdo da expulsão de Dedé. Um choque acidental com o goleiro Andrada. O zagueiro foi o primeiro a pedir atendimento ao adversário. Nenhum jogador do Boca responsabilizou o brasileiro e pressionou a arbitragem. Mas Eber Aquino resolveu consultar o VAR e apresentou cartão vermelho.

Um erro que mudou a história do jogo e o gol de Pérez em falha da retaguarda justamente no setor de Dedé foi mera consequência. Mas pode definir a vaga na semifinal da Libertadores. Nenhuma surpresa. A Conmebol, comandada por um argentino, é mais que suspeita, como sempre foi. Nada de ''nova''.

A culpa, porém, é da CBF. Sem força política, com dirigentes bizarros, credibilidade zero. Os clubes brasileiros também têm responsabilidade por aceitarem esse cenário grotesco. Mais uma vez parecem desconhecer a força que têm.

De qualquer forma, o Cruzeiro pode reverter os 2 a 0. O Boca já havia mostrado estar longe de ser temível na derrota em casa para o Palmeiras na fase de grupos. Só que o time mineiro desta vez terá que se impor em casa, algo que não conseguiu até aqui no mata-mata, inclusive pela Copa do Brasil. Também porque não precisou.

Sem Dedé será bem mais complicado. Parabéns aos envolvidos!


Grêmio muda time, esquema, modelo…só não perde a “casca” na Libertadores
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André Rocha

Sem centroavante disponível para o jogo de ida pelas quartas de final da Libertadores, Renato Gaúcho decidiu resgatar a ideia de Luan como ''falso nove'', abandonada desde a grave lesão de Douglas em 2017. Armou um 4-3-3 com Ramiro no meio-campo, abrindo vaga pela direita para Alisson. Com Everton na esquerda, o ataque tinha pontas para acelerar e buscar as infiltrações em diagonal.

No entanto, mesmo para o atual campeão sul-americano e com trabalho de dois anos consolidado, não é simples mudar um padrão. O Grêmio sofreu no primeiro tempo do Monumental José Fierro contra um Atlético Tucumán intenso e que atacava como se não houvesse amanhã e nem a partida de volta. Trunfo de uma equipe fortíssima em seus domínios – não perdia desde março.

Tanto volume que impôs superioridade na posse sobre um time que preza o controle da bola. Mas a equipe gaúcha não se perdeu. Controlou espaços e esperou a hora de acelerar as transições ofensivas. O primeiro gol em mais um momento inusitado para o Grêmio: bola longa de Maicon, toque de Cícero vencendo a disputa pelo alto para servir Alisson.

A expulsão de Gervásio Núñez com auxílio do VAR por pisar em Alisson caído no gramado esfriou time e torcida. O Grêmio até avançou as linhas, mas definiu mesmo no passe longo de Léo Gomes para Alisson dar assistência e Everton marcar seu quinto gol no torneio continental.

O tricolor gaúcho, criticado tantas vezes na temporada pela posse de bola estéril, terminou com 48% e finalizou menos que o oponente, mesmo com um a mais durante boa parte do segundo tempo: oito contra treze, mas cinco no alvo. Duas nas redes.

A objetividade também tem sua beleza. E o Grêmio venceu bonito na Argentina. Encaminha bem demais a classificação para a nona semifinal. Porque pode mudar escalação, sistema, até o modelo de jogo. O time de Renato Gaúcho só não perde a ''casca'' na Libertadores.

(Estatísticas: Footstats)


Firmino desequilibra quando o Liverpool cansava. Mais uma lição para o PSG
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André Rocha

O Liverpool tem uma vantagem essencial sobre o PSG antes mesmo do confronto entre as equipes na abertura da Liga dos Campeões: o time inglês se testa praticamente toda semana na Premier League no mais alto nível de competitividade, enquanto o Paris Saint-Germain muito eventualmente na Ligue 1 se depara com um rival que seja efetivamente um adversário mais complicado.

Na temporada passada, o time francês bateu um Bayern de Munique em crise ainda com Carlo Ancelotti, mas levou o choque de realidade na volta, com o time bávaro já sob o comando de Jupp Heynckes no encerramento da fase de grupos. Para nas oitavas da Champions cair para o campeão Real Madrid. A rigor, três desafios. Na temporada em que conquistou todos os títulos no país.

Mesmo com Roberto Firmino no banco e Sturridge no centro do ataque do 4-3-3 habitual da equipe de Jurgen Klopp, os Reds mostraram quase sempre um volume de jogo bem maior que o adversário no Anfield Road. Muita intensidade e superioridade numérica atacando e defendendo. Pressão logo após a perda da bola com a fúria de sempre.

Os laterais Alexander-Arnold e Robertson atacavam juntos e bem abertos para que os três atacantes ficassem mais próximos uns dos outros e da área adversária. Mais Wijnaldum chegando sempre, já que Klopp optou por Henderson à frente da defesa e deixou Keita no banco.

O PSG de Thomas Tuchel busca exatamente uma maior competitividade. Com um ''discípulo'' de Klopp e sucessor no Borussia Dortmund. Já melhorou no início da temporada, mas ainda não é o suficiente para encarar o vice-campeão europeu e 100% em cinco rodadas no campeonato inglês.

Justamente pela falta de prática. Questão de hábito. No 4-3-3 isolando muito o trio Mbappé-Cavani-Neymar do resto do time. Com Marquinhos à frente da defesa para evitar os espaços entre retaguarda e meio-campo. Sem sucesso, porém. Até pelo auxílio frágil de Rabiot e Di María.

O Liverpool abriu 2 a 0 com Sturridge em falha de Thiago Silva e no pênalti cobrado por Milner. Mas o PSG voltou para o jogo ainda na primeira etapa ''imitando'' o adversário ao chegar com muita gente no campo de ataque, inclusive os laterais Bernat, que cruzou, e Meunier, que finalizou diminuindo para 2 a 1.

Segundo tempo de domínio inglês, mas com um velho problema: o desgaste por conta de uma maneira de jogar com o pé fundo no acelerador o tempo todo, porém sem transformar o domínio em larga vantagem no placar. Foram 17 finalizações contra nove, oito a cinco no alvo. Também mais posse de bola, que chegou a bater em 60% e terminou com 52%. Pelo domínio dos rebotes mais que por conta do controle do jogo através dos passes. Mas cedendo espaços e baixando a guarda quando o gás começou a acabar.

Tuchel  colaborou trocando Cavani e Di María por Draxler e Choupo-Moting. Não só por reoxigenar o setor ofensivo, mas principalmente por dar liberdade a Neymar, novamente subaproveitado pela esquerda, e Mbappé sair da direita e assumir o comando do ataque. Com os dois na frente, o gol de empate da joia francesa.

O Liverpool dava sinal de esgotamento. Mas entrou Firmino, dúvida para o jogo depois do acidente no olho contra o Tottenham no fim de semana. Mesmo com a boa atuação de Sturridge, o ataque com o brasileiro ganha outro brilho. Não só pelo entrosamento com Salah e Mané, mas também pela inteligência na movimentação e os recursos técnicos.

Na individualidade, limpou Marquinhos e resolveu o jogo. Um trunfo desequilibrante da equipe que novamente parece mais pronta para chegar longe no maior torneio de clubes do planeta. Ainda mais com o elenco reforçado, equilibrado e sem os elos fracos de outras temporadas.

Os 3 a 2 são mais uma lição para o PSG. Difícil é colocar em prática o aprendizado contra os ''sparrings'' do seu quintal.

(Estatísticas: UEFA)


Nosso futebol é medroso porque o Brasil sempre tem algo a temer
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André Rocha

''Bola para o mato que o jogo é de campeonato!'' Um dos jargões mais conhecidos do futebol do Brasil, com origem na várzea, traz um conceito básico do nosso jeito de ver o esporte: se vale pontos e taça, a ordem é minimizar os riscos. Para que tentar sair tocando e errar?

Um paradoxo no país cinco vezes campeão mundial, que ainda carrega para muitos o rótulo de ''jogo bonito''. O detalhe é que por aqui sempre houve uma distinção entre talentosos e os esforçados que deviam correr para os craques decidirem. Os ''carregadores de piano'' que faziam o serviço sujo, mas entregavam a bola limpinha para quem sabe. No sufoco é chutão para frente mesmo!

Em três momentos da história da seleção brasileira, o medo de ficar para trás foi uma alavanca. Em 1958, a influência dos húngaros na Copa anterior trouxe a linha de quatro na defesa. Somado ao recuo de Zagallo pela esquerda no 4-3-3 que ficou mais nítido quatro anos depois no Mundial do Chile. Cuidados defensivos para o talento de Didi, Garrincha e Pelé decidir na frente.

Mesma lógica de 1970 depois do massacre físico e tático da Copa de 1966 na Inglaterra. O raciocínio básico de Zagallo e comissão técnica era: ''se igualarmos na força e na organização venceremos na técnica''. No México, a seleção até hoje considerada a maior de todos os tempos se fechou com todos atrás da linha da bola e matou a grande maioria dos oponentes no segundo tempo em contragolpes velozes.

Depois da traumática Copa de 1982, o mote que encontrou seu ápice em 1994: ''vamos fechar a casinha porque se não levarmos gol os nossos craques desequilibram''. Bebeto e Romário nos Estados Unidos. Mas também o trio Ronaldo-Rivaldo-Ronaldinho em 2002 no último título mundial. Decidindo para o Brasil de Felipão com três zagueiros e dois volantes. Sempre a cautela, o pensamento conservador. Fazer o simples no coletivo para que o brilho individual faça a diferença. Não arrisca, só vai na boa.

Lógico que há brilhantes exceções, especialmente nos clubes. Times arrojados, ofensivos como o ''Expresso da Vitória'' do Vasco nos anos 1940, Santos de Pelé, o Botafogo de Garrincha, Cruzeiro de Tostão, o Palmeiras da Academia, o Flamengo de Zico, o São Paulo de Telê Santana e outros. Mas a linha mestra sempre foi ''na dúvida, toca pro talento que ele decide''.

Hoje vivemos um dilema na execução desta ideia de futebol. Porque o esporte evoluiu demais nos últimos dez anos, na organização para atacar e defender. Pep Guardiola levou a proposta ofensiva a outro patamar, José Mourinho respondeu com a radicalização do trabalho de compactar setores para proteger sua meta.

Por conta da nossa tradição de acreditar no talento, olhamos com atenção mais para a prática do treinador português. A modernização do ''fechar a casinha''. Ser atacado durante a maior parte do tempo virou ''saber sofrer''. De Guardiola pegamos a marcação por pressão no campo de ataque. Nenhuma novidade, já que os times do sul têm essa reação após a perda da bola em sua cultura futebolística influenciada justamente pelos europeus.

E na hora de atacar? Ainda acreditamos que é questão de entregar a bola aos mais talentosos. Só que há dois problemas: o primeiro é que os melhores vão para a Europa cada vez mais cedo. O segundo é a relação espaço/tempo. Pela aproximação dos setores e por conta da pressão que o jogador com a bola recebe assim que a recebe é obrigação decidir certo e rápido.

Driblar? Só no local e no momento exatos. De preferência bem perto ou mesmo dentro da área adversária e com apenas um jogador pela frente. Algo cada vez mais raro. Porque para chegar neste ponto é preciso construir a jogada  com precisão e velocidade. Desde a defesa. Toca, se desloca, arrasta a marcação. Ilude com movimentos coletivos, não necessariamente com a finta, a ginga. Pensar no todo e não segmentando os que defendem e atacam. Difícil mudar uma mentalidade de décadas e que foi vencedora tantas vezes.

Mais fácil sair jogando com ligações diretas, tentar ganhar o rebote e avançar alguns metros já no campo adversário. Sem correr o risco de perder a bola perto da própria meta por conta de um passe errado. Minimizar erros, lembra? Por isso vez ou outro ouvimos dos treinadores uma espécie de confissão: ''o perigo é quando temos a bola''.

Porque somos medrosos. No futebol e até como nação. Basta olhar a nossa história, quase sempre guiada por temores: da corte portuguesa, da insurreição mineira, do comunismo, do varguismo, da ditadura, do golpe, do imperialismo americano, da volta do partido x ou y ao poder, do fascismo. Votamos por medo, vamos às ruas com ele. Vivemos no susto. Com nossos fantasmas reais ou fictícios.

O futebol é mero reflexo. Por isso os gols estão cada vez mais raros, os jogos mais parelhos definidos em uma bola. Apenas o gol de Barcos para o Cruzeiro nas semifinais da Copa do Brasil, só os dois de Vasco 1×1 Flamengo nos três clássicos estaduais da 25ª rodada do Brasileiro. Poucos se arriscam e quando o fazem viram alvos. Dos rivais, das críticas. Para que mudar? É melhor ''trabalhar quietinho'', sem assumir favoritismo. Respeitando todos os adversários. Até temendo. Deixando a bola para eles e ganhando no erro. Mais confortável ser zebra, até para diminuir o pavor da derrota.

O Brasil sempre tem algo a temer. A esperança é que em algum momento desperte o medo de matar a paixão do torcedor e, como consequência, seu interesse por um jogo tão pragmático e que entrega quase nada além do resultado final. Um cenário que já pareceu mais distante.

 

 

 


Empate no clássico dos contrastes: Vasco surpreende, Fla é mais do mesmo
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André Rocha

Quando saiu a escalação do Vasco antes do clássico em Brasília foi difícil imaginar como os jogadores se distribuiriam em campo. A formação inusitada de Alberto Valentim, depois de sua primeira semana cheia para treinamentos, foi uma surpresa para Maurício Barbieri e seus comandados.

Na prática, um 4-3-1-2 com Maxi López na referência, Andrés Rios saindo da direita para dentro e abrindo o corredor para as descidas de Raul e Fabrício partindo da função de ''enganche'' e procurando o lado esquerdo para combinar com Ramon.

Foram 27 minutos de domínio cruzmaltino. Deixando a posse de bola para o Flamengo e chegando em velocidade, principalmente com Raul pela direita. Seis finalizações contra uma do rival. Duas chances claras com a dupla de ataque até Maxi disputar com Léo Duarte e a bola sobrar para Rios empurrar para as redes.

Só que a intensidade vascaína cobrou um preço ao longo do jogo: a resistência física foi acabando para jogadores que não tinham uma sequência de partidas e o Flamengo foi adiantando as linhas e rondando mais a área do oponente.

Só que o time rubro-negro talvez seja o mais lento da Série A brasileira. Não só pela ausência de Vinicius Júnior, a referência de velocidade no bom momento até a parada para a Copa do Mundo, mas principalmente pela morosidade para circular a bola e acelerar o jogo com passes para frente quebrando as linhas de marcação do adversário.

Paradoxalmente acabou melhorando com a expulsão de Diego. Mas o gol de empate logo após o cartão vermelho para o camisa dez não teve nenhuma relação com a mudança. Mais um dos muitos cruzamentos de Pará, infelicidade de Luiz Gustavo para ajudar um ataque nada contundente.

Mas com Berrío e Arão nas vagas de Vitinho e Uribe, Paquetá foi para a referência na frente e o Fla passou a dar sequência às jogadas e criar mais perigo para a meta de Martín Silva. Valentim fez as três substituições para reoxigenar seu time, mas perdeu Bruno Silva num choque que tirou o jogador numa ambulância que precisou ser empurrada (!). Com dez para cada lado, restou ao Vasco lutar com Máxi López. Impressionante como o argentino consegue levar vantagem nas típicas disputas de centroavante com os zagueiros. Podia ter feito o gol da vitória.

Foram 16 finalizações para cada lado – sete do Vasco no alvo, uma a mais que o Fla, novamente o dono da bola: 58% de posse.De novo exagerando nos cruzamentos, com 40 bolas levantadas. Muita esforço, pouca efetividade. Mais do mesmo, tendência de se afastar de vez da busca pelo título. Se o Atlético Mineiro vencer o clássico contra o Cruzeiro reserva, o Flamengo terá mais um concorrente se aproximando.

Outro empate no duelo entre desiguais que se equilibra no campo com seus contrastes. Alberto Valentim foi arrojado e alcançou seu primeiro ponto. Mas a luta para seguir na Série A, com vitórias na semana de Chapecoense e Ceará, será duríssima. Pode terminar a 25ª rodada em penúltimo lugar. Vem mais um drama por aí.

(Estatísticas: Footstats)


A “nova ordem nacional” diz que o Palmeiras está bem vivo contra o Cruzeiro
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André Rocha

Ninguém é uma coisa só e, por isso, devemos fugir dos estereótipos. Mas é inegável que Mano Menezes e Luiz Felipe Scolari, embora tenham suas origens no sul do país, têm perfis bem distintos.

Mano é mais ''alemão''. Duro, pragmático, frio na maior parte do tempo. Ainda que ande cada vez mais destemperado à beira do campo, especialmente com a arbitragem. Já Felipão é ''italiano'': sanguíneo, passional, protetor. Mas igualmente focado no resultado final.

Dois ''europeus'' que são símbolos do futebol jogado no Brasil. Não por acaso dois dos últimos quatro treinadores da seleção. Como Dunga e Tite, todos do sul.

Porque a ''nova ordem nacional'' copia o futebol europeu no trabalho sem bola. A sofisticação do ''fechar a casinha''. O futebol gaúcho, em especial, sempre teve como característica a organização defensiva, o jogo físico e a pressão sobre o adversário com a bola. Características dos times de Ênio Andrade, Rubens Minelli e outros. Inspirações declaradas da grande maioria dos treinadores bem sucedidos vindos do Rio Grande do Sul.

A vitória do Cruzeiro sobre o Palmeiras no Allianz Parque pela semifinal da Copa do Brasil foi típica. O mando de campo induziu um dos times a avançar suas linhas e arriscar mais. Na entrevista antes da partida, Felipão foi bastante claro: ''Precisamos ter cuidados principalmente quando estivermos com a bola''.

Dudu vacilou e o contragolpe foi letal. Toques rápidos, práticos até Barcos tocar na saída de Weverton. Jogada de manual. Com espaços a beleza se faz presente.

Diante de duas linhas de quatro compactas e muita concentração defensiva, o Palmeiras teve dificuldades para impor seu jogo simples e direto. Muitas vezes jogou feio. No geral, o desempenho não foi bom. Porque criar brechas em um ''muro'' é cada vez mais complexo.

Não basta entregar a bola para o talento resolver na base do drible ou do passe mágico no meio da defesa. Agora há mais corpos condicionados e bem posicionados para bloquear. Em jogos grandes mais ainda. Atacar requer repertório coletivo. Trocas de passes, movimentação, infiltração na hora certa e precisão no acabamento da jogada – assistência e finalização.

Tudo que o time da casa não teve. Mesmo com Lucas Lima no lugar de Thiago Santos aumentando a criatividade e a expulsão de Edilson empurrando ainda mais a equipe mineira para o próprio campo. Com 66% de posse, 19 finalizações contra apenas quatro. Levantando 37 bolas na área de Fábio. Mesmo com bola no travessão em chute de Willian faltou a chance cristalina em jogada construída.

No final, o lance polêmico. Para este que escreve, disputa normal entre Edu Dracena e Fábio. Goleiro não é intocável dentro da área. O árbitro Wagner Reway anulou antes do toque de Antonio Carlos para as redes. Podia ter sido o empate do Palmeiras. Mas também não é o fim do mundo.

O Cruzeiro não tem conseguido se impor no Mineirão. Muito pela proposta de Mano de não correr riscos mesmo quando o cenário é tão favorável. Ficou por um gol de ser eliminado pelo Santos na fase anterior da Copa do Brasil e de ter que disputar com o Flamengo nos pênaltis pela Libertadores.

É melhor se cuidar, porque o Palmeiras está bem vivo e parece mais forte que os outros oponentes eliminados. E Felipão certamente usará o tradicional discurso ''contra tudo e todos'' para inflamar seu time. Como visitante, a pressão diminui e o jogo costuma fluir melhor. O Cruzeiro tem sentido mais o peso, inclusive do favoritismo. Sempre incômodo no futebol brasileiro.

Confronto muito aberto. A missão do Cruzeiro é entregar em casa a atuação segura que a torcida tanto aguarda. Mas se terminar com a vaga em mais uma decisão do torneio, mesmo com sofrimento, a festa será igual. Porque a exigência no Brasil vai pouco além do resultado final. Mano e Felipão são dois grandes expoentes dessa mentalidade.

(Estatísticas: Footstats)


Flamengo e Corinthians penam no 0 a 0 que seria eterno enquanto durasse
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André Rocha

O Flamengo sem Vinícius Júnior e com Vitinho é um time de posse de bola, mas sem profundidade, jogadas criativas e presença de área. Ocupa o campo de ataque, empurra o adversário para a defesa, mas cria um problema para si mesmo. Sem espaços, nada acontece.

Já o Corinthians de Jair Ventura radicaliza no trabalho para reequilibrar o sistema defensivo. No Maracanã, quase sempre um 4-1-4-1 guardando em 30 metros a própria área. Mas praticamente sem contragolpes, especialmente no segundo tempo.

O resultado foi um zero a zero previsível já a partir dos 20 minutos de jogo. Só uma falha proporcionaria a chance cristalina. Até aconteceram, especialmente pelo péssimo gramado no Maracanã, mas não foram aproveitadas dos dois lados.

O time rubro-negro roda a bola, toca, toca, toca…até que alguém pelo lado corta para dentro e cruza. Para o centroavante que não retém a bola, nem prepara para um companheiro. Muito menos finaliza. Quando os laterais Rodinei e Renê chegam ao fundo o cruzamento sai errado ou é bloqueado pela concentração de adversários na área.

A equipe visitante recuava demais Clayson e Romero pelos lados e perdia opções de velocidade na frente. Só Jadson no ataque, muito raramente conseguindo segurar a bola e esperar os meio-campistas. Muita cautela e confiança na volta em São Paulo.

Cenário que pode ser diferente pela tendência natural do time paulista adiantar linhas e acabar cedendo espaços para Everton Ribeiro, Lucas Paquetá e Diego. Mas desde já fica a impressão de que a bola parada ou a decisão por pênaltis definirá o finalista da Copa do Brasil.

O Flamengo teve 67% de posse e finalizou onze vezes, mas só duas no alvo. O Corinthians concluiu quatro, nenhum na direção da meta de Diego Alves. Nenhuma força ofensiva. Propostas que se anularam. Um zero a zero que seria eterno enquanto durasse.

(Estatísticas: Footstats)


Tite está preso em um mundo paralelo perigoso, desconectado da “voz da rua”
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André Rocha

Foto: Divulgação/CBF

Na finada revista sobre música e cultura ''Bizz,'' alguém escreveu nos anos 1980 – muito provavelmente o hoje correspondente internacional Pepe Escobar – que o grande problema de artistas como Michael Jackson, Prince e George Michael era que a fama impossibilitava que eles vivessem como pessoas comuns. Perdiam o contato com a rua, com realidades diferentes. A vida era da mansão para o estúdio, aeroporto, hotel e casas de show ou estádios para os shows. Interferia diretamente no trabalho e também na vida pública. O texto era um elogio à Madonna, que não havia perdido essa conexão com o povo.

Tite não é um astro pop, embora tenha sido tratado como tal nos meses que antecederam a Copa do Mundo na Rússia. Mas ao ouví-lo nas coletivas a impressão é de que a rotina na seleção brasileira não tem feito bem ao treinador.

Não por sua retórica muitas vezes enfadonha e com discurso de autoajuda que pouco acrescenta, embora o conteúdo tático siga relevante. Mas principalmente por respostas como a direcionada a Donald Trump. Tola, até infantil. Como se o presidente dos Estados Unidos fosse algum personagem relevante no mundo do futebol que justificasse algum posicionamento de Tite.

Quando fala de Neymar, por mais que compreendamos que externamente o apoio ao seu atleta mais talentoso é uma necessidade política do cargo que ocupa, a impressão é de que ele de fato acredita que basta dar carinho e a braçadeira de capitão para que a referência técnica se transforme de fato numa liderança positiva.

Na coletiva depois da goleada sobre El Salvador, Tite voltou a citar Marquinhos. Como se tivesse notado todo seu talento quando surgiu no Corinthians e mantido a ''joia'' no clube. O zagueiro saiu emprestado para a Roma por uma bagatela e acabou contratado a preço baixo para depois o PSG desembolsar uma fortuna por seu futebol. O Corinthians perdeu dinheiro. E Tite mais uma chance de ficar calado e não lembrar de seu erro de avaliação.

Porque parece desconectado do mundo real. Da casa para a CBF, camarotes de estádios, aviões, hoteis, centros de treinamento. Conversa só com família e auxiliares. Uma realidade paralela, virtual e perigosa. Tite não precisa seguir o que todos falam, até porque enlouqueceria. Mas descer do pedestal e ouvir um pouco a ''voz da rua'' sempre faz bem.


Nem contra El Salvador, Neymar?
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André Rocha

O problema não é usar uma data FIFA para fazer um treino nos Estados Unidos com a camisa oficial da seleção brasileira contra El Salvador. Nenhuma seleção do mundo passa todo o ciclo de quatro anos sem um enfrentamento muito desproporcional como esse.

O que gerou desconforto desta vez foi mais do mesmo: o calendário inchado que não permite uma pausa até o fim de semana e sacrificando, na prática, duas das quatro equipes envolvidas nas semifinais da Copa do Brasil. Responsabilidade da CBF. Mas Tite poderia ter encontrado uma solução de bom senso. Se queria testar Dedé e Paquetá, que o fizesse por 45 ou mesmo 90 minutos contra os Estados Unidos e dispensasse os dois no sábado. Simples assim.

Mas a pior notícia dos  5 a 0 em Washington foi Neymar simulando um pênalti, levando cartão amarelo, reclamando da arbitragem e depois, claramente por birrinha infantil, dar um chapéu no adversário na linha média, para trás, e perder a bola. Um ''combo'' no final do primeiro tempo, com 3 a 0 no placar, que ressalta a falta de maturidade, mesmo depois de toda repercussão negativa pós-Copa do Mundo. Pelo visto, a braçadeira de capitão não veio com uma cobrança do comando pela mudança de postura. A transmissão mostrou Tite sinalizando que o cartão amarelo para Neymar teria sido injusto.

Eis o ponto: não fosse Neymar, talvez o árbitro não interpretasse com tanta certeza a simulação. Ou seja, está estigmatizado e alimenta a imagem mais que desgastada. Mesmo contra um adversário indigente tecnicamente, sem capacidade de oferecer uma mínima resistência. Pouco inteligente, para dizer o mínimo. Muito pior que o gol perdido por puro individualismo minutos antes. Até compreensível por ter marcado dois, mas em cobranças de pênalti.

Quem acompanha este blog sabe que não há má vontade, nem perseguição com o craque controverso. Pelo contrário. Este que escreve tenta focar no rendimento em campo e, dentro do alcance do espaço, propor soluções para potencializar um talento que, na seleção, quase sempre pareceu subaproveitado. Mas não pode recolher a crítica diante de uma situação absurda. Mesmo com tristeza.

Richarlison aproveitou bem a primeira oportunidade de início com dois gols. Valeu também para dar minutos a Neto, Militão, Dedé, Felipe, Arthur, Paquetá, Andreas e Everton. E pouco mais que isso. Não é o fim do mundo. O trabalho está no começo. Se é para enfrentar uma ''carne assada'', que seja agora e não às vésperas de uma Copa do Mundo. Como aconteceu em 1994, por exemplo, nos 4 a 0 também sobre El Salvador. Mas como a CBF terceiriza a agenda da seleção, tudo parece suspeito. Ou pouco transparente.

Nítido mesmo foi o comportamento lamentável de Neymar. E decepcionante, mesmo não se complicando na segunda etapa. Difícil vislumbrar uma melhora a curto prazo. Se nem contra El Salvador ele é capaz de se conter…