Blog do André Rocha

A cultura do mal jogar

André Rocha

Uma pergunta simples e direta ao torcedor: qual foi a última vez que você desfrutou o futebol do seu time? Talvez naquela goleada construída já no primeiro tempo, como nos 4 a 0 do Grêmio sobre o Atlético Paranaense na Copa do Brasil. Mas provavelmente com um ou outro lapso de preocupação com ataques relativamente perigosos do adversário.

Repare nas comemorações de títulos no Brasil, mesmo os descartáveis estaduais. As primeiras reações são de choro e, principalmente, desabafo: ''Chupa, anti! Chupa, rival! Contra tudo e contra todos!'' Só depois surgem os sorrisos, a criança no colo, a celebração.

Porque criou-se um consenso por aqui de que quanto mais se sofre por um time, mais apaixonado é. Uma espécie de ''ranking da sofrência''. Uma partida então se transforma em 90 minutos de tortura psicológica com o alívio no final em caso de vitória, seja lá como ela foi construída.

O desempenho só costuma ser avaliado com algum critério naquele jogo de estadual que vale muito pouco. Então o 1 a 0 em casa com atuação fraca pode ser vaiado, mesmo com os três pontos. Ainda assim, se o rival sofrer uma derrota será o suficiente para memes e zoeiras na internet.

Porque o que importa é o resultado, puro e simples. Uma sequência de vitórias e empates que construam uma invencibilidade, mesmo com atuações não tão boas e sem apresentar margem de evolução, é tratada como ''boa fase''. Já duas derrotas circunstanciais, demonstrando virtudes e possibilidade de crescimento, viram um ''sinal de alerta''.

Discute-se pouco o jogar bem, que é diferente de jogar bonito. Confusão que vem desde a grande dicotomia da nossa história recente: Brasil de 1982 jogou bonito e perdeu, em 1994 jogou feio e venceu. Uma distorção, porque não há como jogar feio com Bebeto e Romário no ataque e uma equipe que teve mais posse de bola em seis das sete partidas da Copa do Mundo dos Estados Unidos.

Assim como o escrete de Telê Santana não jogou irresponsavelmente no Sarriá contra a Itália. Levou o terceiro gol com todos os jogadores na própria área e quase conseguiu o empate desejado num abafa final com Éder levantando na área para o golpe de cabeça de Oscar que Dino Zoff segurou.

Não importa. Nasceu ali uma convicção de que era preciso jogar pelo resultado e só. Com o êxodo do talento, o torcedor daqui passou a se contentar com muito pouco. No futebol que se eternizou por viver dos lampejos de seus craques, se estes não estão mais por aqui o jogo tem que ser sofrido e vale a vitória para ao menos ter a alegria de tripudiar do vizinho ou do colega de trabalho no dia seguinte.

É a cultura do mal jogar. Que quase sempre se mistura à noção de que o campo de futebol é o templo da virilidade e da afirmação do ''ser macho''. Colocar a bola no chão, trabalhar as jogadas, buscar a jogada diferente, com dribles, no último terço do campo viraram coisas de time ''faceiro'', ''bailarino''. Tem que ralar a bunda no chão e vencer por ser o mais forte. Cobrar lateral na área, ganhar as divididas. Arrancar o triunfo a forceps.

Obviamente não há apenas uma maneira de jogar futebol. Aliás, no mais alto nível cobra-se exatamente a versatilidade e a capacidade de adaptação dos atletas. Saber a hora de acelerar e cadenciar, ter a posse ou jogar em velocidade. Criar espaços ou buscar abrir o placar na jogada aérea para, com a vantagem, aproveitar o avanço do rival. Inteligência futebolística.

O que incomoda no Brasil é a pouca vontade de entender o jogo. Repare nas discussões. Na imprensa, muitos bastidores, esse mercado que nunca fecha e as explicações de sempre para vitórias e derrotas: união, um craque desequilibrando. Se ele não existe é porque foi a ''tática do treinador''. Mas dificilmente explicando qual seria. Na derrota, é o vestiário rachado, o salário atrasado, o treinador que fez voar a prancheta.

Tudo com jogos às quartas e domingos, sem tempo para recuperação e treinos. Porque a TV quer partidas todos os dias, espalhadas na programação. Como ninguém se importa com o nível e quer viver apenas a catarse, que se dane se os atletas, extenuados física e mentalmente, vão fazer apenas o básico para vencer. Afinal, só os três pontos importam. Até cria-se um vício nesta adrenalina do sofrimento nos jogos. Então se meu time jogar todo dia, melhor ainda.

É um cenário complexo, no qual é difícil propor soluções, como a diminuição no número de jogos na temporada. O Bom Senso F.C. tentou algo neste sentido e para muitos os jogadores só queriam trabalhar menos e continuar ganhando muito. E aí vem a comparação esdrúxula com o peladeiro que pratica todo dia e não se cansa. Como se fosse com o mesmo nível de exigência física e mental do profissional.

Parar nas datas FIFA já seria uma primeira mudança positiva, por não punir os times competentes que cederam jogadores às seleções – brasileira e estrangeiras – e dar um respiro para que quem está a ponto de estourar descanse.

Mas não interessa. O jogo tem que ser diário, intenso, catártico. Uma válvula de escape para os problemas do cotidiano. Sofrer de dia e depois penar mais um pouco com o time do coração em campo. Só sentir, sem pensar. Não é trabalho, mas nem chega a ser entretenimento. Para muitos é uma religião. Pela qual se mata e morre.

Ninguém desfruta. Poucos pensam e cobram um futebol bem jogado. Os treinadores, nesta roda viva, apelam para o mais simples e eficiente a curtíssimo prazo. E nunca há tempo para buscar algo mais elaborado. Porque tem que entregar a vitória que alimenta o torcedor, cala o crítico e a oposição política, alivia o ambiente.

Como diz a canção de Herbert Vianna, em outro contexto, ''o jogo segue e nunca chega a fim, e recomeça a cada instante''. Sem descanso, sem reflexão. Com espasmos de boas ideias e alguma evolução tática no meio da loucura. Com o Brasil de Tite como contraponto e esperança. Mas é pouco.

De que adianta se para a maioria a cultura do mal jogar é confortável e atende os interesses imediatos? Que siga o jogo. Este espaço fica como uma pequena trincheira de resistência.