Blog do André Rocha

Quando o trabalho é ruim, ter tempo só piora. Vivemos num círculo vicioso

André Rocha

Os treinadores têm razão quando afirmam que jogar quarta e domingo, ou a cada três dias, é um crime com o atleta profissional pela necessidade de tempo para recuperação e treinamentos num esporte praticado com tanta intensidade e tamanha exigência física e mental.  Assim como é impossível negar que nas pausas de datas FIFA há um enorme risco de desmobilização e perda de foco com jogadores em suas seleções e o próximo compromisso mais distante.

O fato, porém, é que novamente o tempo jogou contra a maior parte das equipes e tivemos uma rodada de Brasileiro na Série A após dez dias com um futebol mal jogado, times instáveis contando com alguns espasmos de talento e organização.

Porque se acostumou a trabalhar mal por aqui. Apagando incêndio, abafando crises e pressões com resultados. Raciocínio imediatista que se reflete no campo. A prioridade é o básico para não perder: bloqueio defensivo e a bola parada. Ofensivamente, os treinos em campo reduzido não parecem trazer um propósito de evolução coletiva, apenas tentar habituar a jogar sem espaços e pensar mais rápido para minimizar erros.

A melhora que normalmente ocorre na mudança de treinador tem muito mais a ver com o impacto da mudança. O reserva que se motiva, o titular não quer perder espaço. Pessoas novas quase sempre deixam o ambiente mais arejado. O poder da novidade, que acaba quando falta conteúdo no dia a dia.

O futebol brasileiro se habituou a reagir e perdeu o foco no desempenho. Por mais que Tite tenha deixado o caminho das pedras mostrando na prática que jogar bem deixa o time mais próximo das vitórias. O legado mais forte, porém, é o do ''jogo para ganhar, não para jogar''. É motivar, exigir concentração, erro zero para não sofrer gols e tentar achar um no lampejo, na jogada aérea, no aleatório. Depois explorar contragolpes.

Quando o trabalho é ruim, ter tempo só piora. Como deixar o atleta ligado com o jogo daqui a dez dias? Neste cenário, o treino para melhorar os movimentos coletivos na construção de jogadas pode ser visto pelo próprio comandado como ''encher linguiça''. Porque deixou de ser importante.

Ninguém quer jogar porque na tentativa vem o erro a ser aproveitado pelo adversário. Atacar significa dar espaços, se fragilizar na perda da bola. O mais seguro é reagir. Mas como fazê-lo se o mando de campo, o maior investimento ou a camisa mais pesada manda o time grande atacar e se impor? Vem então o desespero e a busca de qualquer muleta para se apoiar, principalmente os erros de arbitragem. A técnica que qualifica a tática e a estratégia está escanteada.

O último campeão brasileiro deveria ser a referência. O Palmeiras de Cuca, porém, é o grande exemplo desta roda viva. Quanto mais dias de trabalho tem menos joga. E não adianta apelar para os jogadores acostumados com os métodos do treinador e repetir as práticas do ano passado. Aquilo foi a exceção, não a regra. Replicar o roteiro não garante o final feliz.

Vivemos num círculo vicioso difícil de romper. A luz no final do túnel é voltar ao básico: jogar bola. Com naturalidade. Ataque e defesa com pesos iguais, como na essência do jogo. Voltarmos aos fundamentos, principalmente o passe. Fazer melhor e tratar o resultado como consequência.

Mais futebol, menos disputa por pontos. Não há outra saída para este labirinto.