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André Rocha

São Paulo 5x1 U. Católica (1993) - A obra-prima da carreira de Telê Santana

André Rocha

24/04/2020 08h20

É natural que Telê Santana seja lembrado pelos torcedores em geral por sua passagem pela seleção brasileira, marcante em duas Copas do Mundo, mesmo sem título. Mas o treinador contribuiu para o futebol nacional até quando não venceu, armando grandes equipes.

Não só no Atlético Mineiro no único título brasileiro, em 1971, ou no Grêmio que encerrou em 1977 a hegemonia de oito títulos estaduais do rival Internacional, então dominante no cenário nacional. Telê foi o mentor do Palmeiras que enfiou 4 a 1 no Flamengo de Zico no Maracanã em 1979, do Galo de melhor campanha na fase de grupos da Copa União de 1987 e do Fla que perdeu o título estadual para o Botafogo em 1989, porém brindou a torcida com futebol ofensivo, utilizando Zico como um armador mais recuado.

No Fluminense, time de coração, estreou como técnico sendo campeão carioca em 1969 e armando a base que seria campeã brasileira em 1970, com Paulo Amaral. Sempre apostando em futebol limpo, sem antijogo e voltado para o ataque.

Embora tenha demonstrado a partir de 1986 que aprendera com alguns equívocos da Copa do Mundo na Espanha, tornando suas equipes mais competitivas e com maiores cuidados defensivos, foi no processo de amadurecimento no São Paulo que, com mais de 60 anos e vinte como treinador, Telê chegou ao auge da carreira.

Dois paulistas, um brasileiro, duas Libertadores e dois Mundiais de Clubes. Mais uma Supercopa, duas Recopas Sul-Americanas e ainda a última final de Libertadores em 1994, perdida na decisão por pênaltis para o Vélez Sarsfield de Carlos Bianchi. Em cinco anos até a isquemia cerebral em janeiro de 1996 que o impossibilitou de trabalhar, a trajetória mais vitoriosa no Brasil depois do Santos de Pelé.

O triunfo mais emblemática talvez tenha sido a do primeiro título mundial, em 1992 sobre o Barcelona comandado por Johan Cruyff. De virada, em Tóquio, com dois gols históricos de Raí. Um triunfo para se colocar no topo do planeta, sem dúvidas.

Mas a grande obra-prima desse time e da trajetória de Telê, a consolidação da maneira de jogar se impondo com autoridade em um jogo grande, se deu no Morumbi em 1993. Partida de ida da final da Libertadores contra a Universidad Católica.

Não foi exatamente uma atuação perfeita, já que a equipe cedeu muitas chances ao time chileno e fez do goleiro Zetti um dos destaques da partida. Mas transição defensiva nunca foi o forte das equipes de Telê, até pela liberdade que dava aos jogadores de defesa para atacar. A solução encontrada para compensar ao longo do tempo, utilizando volantes mais marcadores, como Dinho e Pintado, nem sempre cobria os buracos da retaguarda.

Mas na fase ofensiva era bonito de ver como o quarteto formado por Cafu, Palhinha, Raí e Muller se entendia no olhar, sabendo o tempo certo de se apresentar para a tabela ou se lançar às costas da defesa adversária. Um sincronismo perfeito. Ainda que o primeiro gol tenha saído só aos 30 minutos e sido contra, de López, a equipe tricolor já havia criado e cedido oportunidades.

O segundo, ainda no primeiro tempo, na típica infiltração em velocidade do lateral direito Vitor, com chute também desviado. Um placar para tranquilizar e preparar o recital que viria na segunda etapa. Com golaço do zagueiro Gilmar em bela jogada individual pela esquerda. Contando com a cobertura do lateral Ronaldo Luiz e de Dinho.

Depois Palhinha acionou Cafu, que cruzou para Raí escorar de peito. E Muller marcou o quinto encobrindo o goleiro. Zetti faria uma sequência de quatro defesas à la Rodolfo Rodríguez, goleiro uruguaio que jogou no Santos e ficou famoso por um milagre parecido na Vila Belmiro contra o América de Rio Preto. E quase pegou o pênalti inventado pela arbitragem no final convertido por Almada que decretou o placar final em 5 a 1. Numa decisão continental!

No Chile, derrota por 2 a 0 e o título com sabor amargo de despedida para Raí, que partiria para o Paris Saint-Germain. Mas deixou nas retinas dos são-paulinos e fãs do futebol bem jogado uma exibição de gala, o auge de uma equipe histórica.

O ataque sem centroavante, nem definição clara das funções, que normalmente tinha Cafu pela direita, Raí mais centralizado, ora fazendo o papel de centroavante pela boa estatura e capacidade de proteger a bola, ora aparecendo na área como um dez para finalizar. Sintonia perfeita com Palhinha, que circulava por todo campo e era o articulador da equipe.

Muller era quem ficava mais avançado, normalmente pela esquerda. Já com a inteligência desenvolvida na passagem pelo futebol italiano, aprendendo a jogar em espaços mais reduzidos com deslocamentos e passes curtos que aceleravam os ataques. Era engraçado à época, na divulgação da escalação do time, tentarem encaixar os quatro no 4-2-2-2 típico da época, colocando Raí e Cafu como meias e Muller e Palhinha como atacantes. Na prática era algo mais próximo de um 4-2-3-1.

O São Paulo dinâmico de Telê Santana, maduro em 1993 para ser bicampeão da Libertadores e pronto para movimentar seu quarteto ofensivo, com Muller mais avançado pela esquerda, e alternar zagueiros, laterais e volantes no apoio (Tactical Pad).

No apoio ao quarteto, um grande revezamento que englobava todos os jogadores de linha. Os zagueiros Válber e Gilmar desciam alternadamente, o mesmo com os laterais Vitor e Ronaldo Luiz e os volantes Dinho e Pintado. Três iam, três ficavam. Às vezes eram surpreendidos, mas normalmente criavam um volume de jogo que sufocava os rivais, especialmente no Morumbi.

Para consagrar Telê, um treinador perfeccionista, às vezes um tanto invasivo na vida dos atletas. Talvez não seja tão grande para o futebol brasileiro quanto nomes como Zagallo e Luiz Felipe Scolari, nem se adaptasse aos tempos atuais se estivesse vivo e na ativa. Mas na sua época foi gigante e influente. Deixando um legado de integridade e amor pelo esporte. Não só por 1982.

Conquistando no São Paulo os títulos que seu trabalho sempre mereceu. Justiça tardia, mas inesquecível.

Sobre o Autor

André Rocha é jornalista, carioca e blogueiro do UOL. Trabalhou também para Globoesporte.com, Lance, ESPN Brasil, Esporte Interativo e Editora Grande Área. Coautor dos livros “1981” e “É Tetra”. Acredita que futebol é mais que um jogo, mas o que acontece no campo é o que pauta todo o resto. Entender de tática e estratégia é (ou deveria ser) premissa, e não a diferença, para qualquer um que trabalha com o esporte. Contato: anunesrocha@gmail.com

Sobre o Blog

O blog se propõe a trazer análises e informações sobre futebol brasileiro e internacional, com enfoque na essência do jogo, mas também abrindo o leque para todas as abordagens possíveis sobre o esporte.