Blog do André Rocha

Grêmio sofre com “Everton-dependência”, mas segue vivo na Libertadores
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André Rocha

O gol de Kannemann aos 43 minutos do primeiro tempo trouxe o Grêmio de volta a um jogo que parecia não tão complicado assim, mesmo no Centenário de Quilmes. Mas André perdeu gol feito e, na sequência, o jovem Juan Apaloaza acertou o efeito em um chute espetacular. Na bola parada, os 2 a 0 com o zagueiro Gaston Campi.

O Grêmio teve chances para empatar, com André e o seu substituto, Jael – escolha questionável de Renato Gaúcho, já que o centroavante que começou no banco foi muito bem contra o Flamengo e parecia com as características ideais para o contexto da partida. Com a expulsão do meio-campista Fernando Zuqui aos 31 minutos do segundo tempo, o tricolor gaúcho parecia muito perto do empate, mas não conseguiu transformar a pressão no gol que evitaria o revés.

Porque faltou Everton. Artilheiro do time na temporada com 11 gols, melhor relação finalização/gol do elenco, líder de dribles certos no Brasileiro. Partindo da esquerda é o homem da vitória pessoal, da infiltração em diagonal, do escape nos contragolpes. Com os adversários mais atentos e permitindo menos espaços entre meio-campo e defesa para Luan é o camisa 11 o jogador capaz de quebrar as linhas de marcação do oponente e transformar a posse de bola gremista em contundência na frente. Fundamental!

Sem ele, mesmo com o esforço do jovem Pepê – corretamente mantido por Renato depois da boa atuação nos 2 a 0 sobre o Flamengo, o Grêmio fica sem seu elemento desequilibrante, o que tenta algo diferente. E vem conseguindo. O time já havia sentido demais sua falta no segundo tempo em que foi empurrado para o próprio campo pelo Fla na Copa do Brasil e ficou sem a velocidade como desafogo até ceder o empate em casa. A falta de profundidade pela esquerda se agrava quando Marcelo Oliveira ocupa a lateral e não Bruno Cortez.

A ''Everton-dependência'' é mérito do jogador, mas também de Renato, que perdeu Pedro Rocha, destaque na reta final da conquista da Copa do Brasil em 2016, e ajudou a aprimorar o atacante para assumir a titularidade e ser um dos destaques do título continental. Agora o treinador precisa trabalhar Marinho para se adaptar rapidamente ao modelo de jogo da equipe para ser a reposição sem queda de competitividade – ainda que este tenha atuado bem no time reserva e marcado gol sobre o Fla no sábado.

De qualquer forma, a lesão muscular não é grave e Everton deve estar em campo nos jogos de volta das competições em mata-mata, prioridades do clube na temporada. Com seu atacante mais efetivo, o atual campeão da Libertadores fica mais forte para ir ao Maracanã buscar a vaga no torneio nacional e depois receber e pressionar o jovem time do Estudiantes para seguir na sua trajetória vencedora e já histórica.

(Estatísticas: Footstats)


Neymar não “mata” centroavantes como Mano Menezes pensa. O problema é outro
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André Rocha

Foto: Antonio Scorza/AFP

Desde quando surgiu em 2009 até agora, Neymar disputou 551 jogos por Santos, Barcelona, Paris Saint-Germain e seleções brasileiras (olímpica e principal). Marcou 337 gols e serviu 180 assistências.

Muitos passes para gols. De André, Zé Love, Fred, Suárez, Messi, Cavani, Mbappé e Gabriel Jesus. Em 2010, seu recorde no Brasil: 20. Em 2016/17, última pelo Barcelona, o maior equilíbrio: 20 gols e 21 assistências, líder neste último quesito entre as principais ligas da Europa.

Logo, fica difícil concordar com Mano Menezes, em sua participação como convidado de Galvão Bueno no programa ''Bem Amigos'' do SporTV,  quando afirmou que o craque brasileiro ''não prepara jogadas para o centroavante, só para ele decidir''. Em resposta a um questionamento sobre a falta de gols de Gabriel Jesus na Copa do Mundo.

Muricy Ramalho, hoje comentarista do canal de esportes, interferiu bem discordando e citando as assistências de Neymar tanto no período em que foi seu jogador no Santos quanto jogando no futebol europeu e na seleção.

Não é este o ponto. Neymar é a estrela e centraliza as jogadas, sim. Também é exímio finalizador e é normal que marque mais gols até que o centroavante. O que prejudica Neymar é o individualismo lá no início do processo. Culpa também de sua formação.

Porque ele é a estrela da companhia desde sempre. Na base foi moldado para decidir, assumir a responsabilidade. ''Vai para cima!'' é o que ouve desde criança. Por isto escolheu o lado esquerdo do campo para jogar. O flanco é menos congestionado para receber e partir com a bola no seu pé direito para dentro.

Repare no seu comportamento nos gramados do mundo. Recebe a bola e analisa rapidamente se é possível progredir através de dribles. Se está bem cercado pelo adversário, toca para o lado ou para trás e espera. Seu time roda a bola. Se voltar para ele há uma nova tentativa. Caso os caminhos estejam fechados ele desiste de novo.

Até surgir a chance de arrancar em diagonal ou para a ponta depois cortando para dentro quando estiver mais perto da área adversária. Só na zona de decisão é que Neymar resolve se vai passar ou ele mesmo finalizar. Ou seja, o caminho é solitário e individualista, sim. Mas no final ele também pode ser solidário e servir um companheiro.

Onde Neymar erra? Primeiro quando não tem paciência para esperar e tenta abrir a defesa à forceps. Bate no muro e perde a bola ou sofre falta. E exagera na reclamação e nas caras e bocas. Muito esforço para pouco rendimento.

Falta jogo associativo. Tocar a bola, se deslocar, dar opção de passe entre as linhas do adversário. Trabalhar coletivamente na intermediária ofensiva. Ser um elemento importante, mas dentro de um modelo de jogo. O mais próximo que chegou foi no Barcelona que tinha Messi como estrela. Ou no início da ''Era Tite'' na seleção

No Santos, inclusive com Muricy, com a camisa verde amarela e agora no PSG, a noção de protagonismo que aprendeu cedo: ''Toca em mim!'' Ele é o ataque. O passe final ou a conclusão. Se Neymar não está no auge físico e técnico fica mais complicado.

Por isso o sacrifício de Gabriel Jesus na Copa do Mundo. Não raro os momentos em que Neymar ficou solto na frente poupando energias. Como no final do trabalho interrompido de Mano Menezes na CBF em 2012 para a volta de Felipão e Parreira. Talvez seja o melhor neste ciclo até 2022 com Tite. Não por ''matar'' o centroavante, como Mano pensa.

Apenas ganhar jogo coletivo e um talento admirável que define jogadas. Com gols e assistências.

 


Internacional deve perseguir o São Paulo pela mesma “estrada limpa”
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André Rocha

Teve chuva de granizo, queda de energia e gramado pesado pela forte chuva no Independência. Prejudicou o nível técnico de uma disputa que prometia. No detalhe, o Internacional fez 1 a 0 no Atlético-MG e subiu para 32 pontos, ficando a dois do Flamengo e três do agora líder São Paulo.

Gol de Edenílson, o detalhe tático do amadurecimento do trabalho de Odair Hellmann. Antes um volante, agora um dos meias por dentro, alinhado a Patrick e à frente de Rodrigo Dourado no 4-1-4-1 do time gaúcho que relegou D'Alessandro à reserva e tem Nico López pela direita. Canhoto, cortando para dentro procurando o centroavante – antes Damião, agora o uruguaio Jonatan Álvez. Do lado oposto, William Pottker parte da ponta acelerando e infiltrando em diagonal aproveitando o deslocamento do atacante de referência e abrindo o corredor para as descidas do lateral Iago.

Nada excepcional, mas competitivo. Voltando da Série B, vai aos poucos ganhando confiança. Em Belo Horizonte, alcançou sua terceira vitória como visitante. Sofrendo no primeiro tempo contra um Atlético modificado, mas ainda com a proposta do jovem treinador Thiago Larghi de controlar a posse de bola – terminou com 56% de posse –  e acelerar na frente com Luan e Chará pelos flancos e infiltrar com Elias para não isolar Ricardo Oliveira.

Finalizou 11 vezes contra oito do Inter, podia ter empatado no chute do Luan que bateu na trave esquerda de Marcelo Lomba. O Colorado, porém, confirmou sua solidez defensiva: sofreu apenas 12 gols, junto com o Flamengo e atrás apenas do rival Grêmio, com oito. Mas ultrapassou o tricolor gaúcho na tabela.

Sem Copa do Brasil e competição sul-americana pelo caminho, o Internacional pode priorizar o Brasileiro. Finaliza o turno visitando o Fluminense e recebendo o Paraná. Termina agosto saindo contra o Bahia e enfrentando o Palmeiras no Beira-Rio.

Por que o detalhe para o mês corrente? Exatamente o período complicado para quem ainda vive no torneio nacional e na Libertadores depois da volta da parada para a Copa do Mundo. Particularmente o Flamengo, que já sentiu ao encarar o Grêmio duas vezes e ainda tem três duelos com o Cruzeiro. Apenas dois pontos na frente do Colorado.

Assim como aconteceu com o Corinthians no ano passado, a ''estrada limpa'' pode fazer a diferença. Se o São Paulo não conseguir reverter na Argentina a desvantagem contra o Colón pela Sul-Americana, só restará para ambos o Brasileiro.

É claro que times que fiquem pelo caminho no mata-mata terão tempo até o início de dezembro para se recuperarem, ainda que com confiança abalada por eliminações quase sempre traumáticas. Mas não deixa de ser uma vantagem dos dois gigantes redivivos para polarizar a disputa pelo título.

(Estatísticas: Footstats)

 


São Paulo agora é líder, com a mão de Diego Aguirre e um toque de humildade
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André Rocha

O gol de Joao Rojas no primeiro minuto do jogo no Morumbi era tudo que o São Paulo precisava para não complicar o duelo contra o Vasco como aconteceu na derrota para o Colón pela Sul-Americana. O jogo parecia ficar à feição da equipe que trabalha melhor com espaços para acelerar as transições ofensivas.

Mas o tricolor deu a impressão de se acomodar dentro de uma proposta de atrair o adversário para o seu campo, controlar espaços e esperar que o contragolpe ou uma bola parada surgisse naturalmente para ampliar a vantagem no placar.

Só que este São Paulo de Diego Aguirre precisa de agressividade na marcação e não recuar tanto as linhas para se defender na execução do 4-2-3-1. Porque Rojas e Everton ocupam a segunda linha de quatro e se ficarem no próprio campo deixando Diego Souza e Nenê na frente o time perde velocidade. Precisa que a dupla de veteranos retenha a bola na frente à espera dos companheiros.

Talvez a intenção tenha sido administrar o fôlego depois do desgaste físico e mental na quinta diante de um oponente que teve uma semana cheia de trabalho. Mas desperdiçou a chance de aproveitar o estádio quente e tentar definir o jogo com intensidade nos primeiros 45 minutos.

Pior foi a desconcentração na volta do intervalo, com muitos espaços entre os setores. Bem aproveitados por Andrés Ríos e Giovanni Augusto, o meia central do 4-2-3-1 cruzmaltino, que entrava às costas de Liziero e Hudson para servir os companheiros. Passe preciso e o sétimo gol de Yago Pikachu, a grande estrela vascaína na competição, entrando às costas de Bruno Alves.

O São Paulo foi da letargia ao desespero. Muitos passes errados cedendo contragolpes seguidos ao Vasco, que desperdiçou boas chances. Chute perigoso de Giovanni Augusto e em várias situações o lateral improvisado Luiz Gustavo se juntando a Pikachu fazendo dois contra o lateral Reinaldo.

Aguirre precisava mexer e teve coragem. Tirou Nenê e Diego Souza e colocou Carneiro e Tréllez. Mudanças que poderiam gerar reclamações das estrelas – socos no banco de reservas, chutes nos copos de água. Nada disso, apenas apoio. De todos. Até porque estava claro que o ataque precisava de gás.

Mas o gol do desafogo saiu na jogada com protagonistas que estavam em campo e já desgastados. Arrancada de Liziero, Everton ganhou de Luiz Gustavo e cruzou para Tréllez. Desta vez a bola aérea funcionou, com o toque que tirou de Martin Silva. A quinta assistência do ex-jogador do Flamengo. Gols em dois dos 30 cruzamentos em 90 minutos.

Na beira do campo, Nenê e Diego Souza comemoraram com Aguirre. Um detalhe que vira clichê nas vitórias e conquistas, mas que em qualquer ocasião tem seu simbolismo. E deixa claro que o São Paulo, mesmo oscilante, está mobilizado atrás do título que não vem há uma década.

Fundamental em jogo que se mostrou mais equilibrado que o esperado: nove finalizações para cada lado e 52% de posse de bola do time de Jorginho. Mas 24 desarmes certos dos são-paulinos, o dobro do Vasco. Tão simbólico quanto a ascensão à liderança logo na primeira rodada do campeonato no temido agosto para o Flamengo. Para o clube paulists, depois de três anos.

Se mantiver a mão firme do treinador e a humildade dos jogadores priorizando o coletivo é possível ampliar a vantagem no topo da tabela. Mesmo com o sofrimento e a ansiedade de um gigante que não levanta taças desde 2012.

(Estatísticas: Footstats)


Pratas da casa têm participação direta em 60% dos gols do Flamengo
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André Rocha

Foto: Gilvan de Souza/Flamengo

O Flamengo marcou 28 gols no Brasileiro, sete na Libertadores e dois na Copa do Brasil. Total de 37. Destes, 22 foram marcados ou aconteceram completando assistências de jovens oriundos da base do clube. Os pratas da casa. Ou seja, 60%.

O Carioca não entrou na conta porque no início da competição o clube usou só a garotada e também porque, pela fragilidade dos adversários, ainda que o time não tenha sido campeão, os números ficariam ''mascarados''. Vale o nível mais alto.

Vinícius Júnior marcou seis gols e serviu três passes para gols. Lucas Paquetá foi às redes cinco vezes e deu quatro assistências. Mais três de Vizeu, um de Matheus Sávio, outro de Matheus Thuler e o de Lincoln que garantiu o empate por 1 a 1 com o Grêmio em Porto Alegre pelas quartas de final da Copa do Brasil.

É evidente que todos são jogadores do Flamengo e no resultado final não há distinção entre quem é criado no clube e os contratados. Normalmente isto é até nocivo para o ambiente no elenco. Mas também é inegável que salta aos olhos os números dos meninos.

O Fla que equacionou dívidas e desde Paolo Guerrero em 2015 faz pelo menos uma contratação de impacto por temporada – Diego em 2016, Everton Ribeiro no ano passado e agora Vitinho, que fez sua estreia na arena gremista – tem precisado mais de seus jovens que o esperado.

Especialmente nos gols e assistências decisivas. Vinicius Júnior garantiu com duas conclusões cirúrgicas uma vitória fundamental para a classificação do Flamengo para o mata-mata na Libertadores: 2 a 1 sobre o Emelec em Guayaquil. Sua arrancada espetacular no Independência para servir Everton Ribeiro no 1 a 0 sobre o Atlético-MG também foi marcante. Sem contar o gol no empate contra o Vasco. Vizeu decidiu contra o Corinthians, Matheus Thuler empatou com o Palmeiras fora de casa. Matheus Sávio encaminhou o triunfo sobre o Botafogo com gol e o cruzamento que terminou no gol de Paquetá.

Em Porto Alegre, Lincoln evitou com finalização precisa no último ataque uma derrota que seria bastante doída. E injusta por conta da melhor atuação coletiva do Flamengo sob o comando de Mauricio Barbieri. Num jogo grande e fora de casa há bem mais tempo o time não rendia tanto. 58% de posse, 20 finalizações contra 14 do Grêmio. Trinta minutos dos 45 e mais os acréscimos do segundo tempo encurralando o campeão da Libertadores dentro da sua casa.

Mas de novo a dificuldade para transformar chances em gols. Mais uma vez um garoto salvou o time. Considerando que eles são minoria na maioria das partidas – só contra o Palmeiras contou com seis jovens oriundos da base na formação inicial – é um dado impressionante.

Ótimo para o clube, que forma, tem retorno técnico e financeiro, já que é inevitável perdê-los para os europeus. Mas fica uma pequena ressalva: os mais experientes e caros dentro de um dos elencos mais valiosos do país poderiam decidir mais e tornar o time de Barbieri ainda mais forte. Vizeu e Lincoln marcaram quatro gols, com o primeiro iniciando apenas um jogo como titular. Henrique Dourado, Guerrero e Uribe, começando bem mais partidas como titulares, conseguiram apenas oito. Entre as estrelas, o destaque é Everton Ribeiro com cinco gols e duas assistências.

Não é pouco, mas pode ser mais. O Fla tem mesmo que celebrar os frutos de mais investimento em estrutura e formação de talentos, porém deve cobrar também de suas estrelas. Na hora da dificuldade precisam assumir a responsabilidade e não apenas se limitar ao papel de coadjuvantes de luxo.

(Estatísticas: Footstats)

 

 


Cruzeiro pragmático vence Santos (ainda) sem identidade
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André Rocha

O duelo na Vila Belmiro com chuva pelas quartas da Copa do Brasil marcava a estreia de Cuca no Santos. Contra o trabalho mais longo da Série A: do Cruzeiro, com Mano Menezes no comando técnico desde julho de 2016.

Por isso as linhas avançadas e a marcação por pressão nos primeiros minutos do time mineiro, mesmo como visitante. No 4-2-3-1 habitual, com Robinho pela direita participando mais da articulação e dando liberdade a Thiago Neves e De Arrascaeta para se aproximarem de Hernán Barcos.

Mas aos poucos o Cruzeiro foi cedendo campo ao time mandante. Um pouco de insegurança por conta das derrotas para Corinthians e São Paulo depois das vitórias sobre América e Atlético-PR logo após a volta da Copa do Mundo. Muito pela grande marca de seu treinador: o pragmatismo.

Desde a primeira passagem, ainda em 2015, Mano Menezes deixa a impressão de que pode fazer seu time entregar mais, porém o time prioriza o resultado. Sem o ''gol qualificado'' no torneio, ir às redes fora de casa nem era tão importante assim.

Mas foi, com Raniel em bela virada. O substituto de Barcos deu mais rapidez e mobilidade no ataque. Não pode ser reserva, pois suas características casam melhor com as dos companheiros. Gol justamente quando o Santos era melhor em campo.

No primeiro tempo parecia clara a falta de identidade em campo do time da casa. O conflito entre a maneira de jogar de Jair Ventura e o que Cuca pensa e aplica em seus times. Por isso a opção pelo 4-1-4-1 que adiantava Renato como um meia ao lado de Diego Pituca e tinha Bruno Henrique pela esquerda no ataque e o revezamento entre Rodrygo e Gabriel Barbosa à direita e no centro do ataque. Dependia fundamentalmente das individualidades.

Na saída de bola, adiantava os laterais Victor Ferraz e Dodô e recuava Renato e Alison para ajudar os zagueiros David Braz e Gustavo Henrique. Dificuldade no início, mas aos poucos foi se ajustando e aproveitando o recuo gradativo do adversário. Cresceu quando Cuca trocou Renato, extenuado no campo molhado, por Daniel Guedes. A primeira intervenção do novo treinador foi deslocar Victor Ferraz para o meio-campo, talvez tendo em mente a prática de Dorival Júnior de fazer seu lateral direito apoiar por dentro.

Por ali saiu a jogada para a finalização de Gabriel que obrigou Fábio a grande defesa. Na primeira descida cruzeirense após o susto, o gol que encaminha a classificação que deve ser confirmada no Mineirão. Triunfo com 38% de posse cinco finalizações, duas no alvo, contra nove santistas – também apenas duas na direção da meta de Fábio. Não foi um grande jogo.

Típico do atual campeão do torneio. Pode não funcionar sempre e até dar a impressão de entregar menos que pode pela qualidade do elenco para o nível do futebol jogado no país. Mas é uma identidade e vem alcançando resultados.

Tudo o que Cuca não tem como ''herança''. Por isto precisará de ainda mais trabalho. Recebeu terra arrasada e precisa reorganizar quase tudo. Olhando pelo lado positivo, a provável eliminação da Copa do Brasil pode dar o que o treinador campeão brasileiro de 2016 mais precisa: tempo. Até porque há Libertadores e mais de um turno no Brasileiro para salvar a temporada.

(Estatísticas: Footstats)


Vanderlei Luxemburgo deve parar de reclamar de “hoje em dia”
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André Rocha

Santos e Palmeiras pensaram em Vanderlei Luxemburgo para o comando técnico de suas equipes. Fecharam com Cuca e Felipão, respectivamente. Mais uma oportunidade de reflexão para o treinador veterano, fora do mercado desde outubro do ano passado ao ser demitido pelo Sport. Ou, melhor ainda, de uma reciclagem. Buscar um ''turning point'' sinalizando mudanças na visão de futebol e no comportamento.

Mas Vanderlei prefere estar na mídia. Quase onipresente nos programas esportivos, em TV aberta e fechada. Agora também no Youtube. Apenas para escancarar sua estagnação. Não sai do lugar porque está com os olhos sempre voltado para o passado. Seus feitos, suas sacadas, conquistas. Todos históricos e respeitáveis, ainda mais se considerarmos de onde veio e que patamar alcançou. Só que passaram.

Quanto ao presente, apenas reclamações. Do ''hoje em dia''. ''Não temos mais o drible'', ''falta talento'', ''não há nada de novo em termos táticos'', ''tudo isso eu já fazia''.  Também lamenta a geração atual: ''só querem saber de rede social'', ''são mimados, não aceitam bronca''. Chega ao ponto de criticar os treinadores que estudam. Fazer curso? Nunca! Ele é quem deveria ser o professor…

Vanderlei foi um dos melhores do país, para este que escreve o melhor, quando vivia intensamente o presente e, principalmente, sinalizava o futuro. Queria a seleção brasileira e depois trabalhar na Europa. Conseguiu, porém falhou nos dois projetos. Agora, aos 66 anos, parece sem objetivo. Ou apenas voltar a trabalhar. Afirmou que faria o Santos voar se o clube fechasse com ele.

Mas como acreditar? Se não há nada novo, o que ele pode oferecer de diferente em relação aos concorrentes? Experiência sem conceitos atuais? Liderança sem jogo de cintura para lidar com os atletas? Para complicar, a dificuldade de trabalhar em equipe sem se intrometer nos outros setores do clube. Em especial nas negociações de jogadores.

Luxemburgo corre o risco de entrar no ciclo de Joel Santana: ser tratado como fenômeno de entretenimento e não mais um treinador de futebol. Há muitas pessoas que assistem aos vídeos do seu canal do Youtube para se divertir. De fato, ele sempre foi carismático. Um personagem sensacional. O conteúdo, porém, fica em segundo plano. Até porque ele está em todos os lugares falando as mesmas coisas que diz há anos.

Não há nada de novo no futebol para Luxemburgo. Logo, o Vanderlei não pode apresentar uma novidade ou algo interessante. Para quem quer voltar ao mercado e ser respeitado, o cenário está complexo. Seria melhor preservar a imagem e, principalmente, tentar se atualizar. Não em frente às câmeras ou na internet, mas no campo de jogo.

Afinal, insistir com as mesmas práticas esperando resultados diferentes nunca deu muito certo. Para qualquer um, em qualquer área. Mesmo que em breve apareça um clube interessado, as chances de dar certo são bem remotas. Vanderlei Luxemburgo se acha diferente. O mercado também o vê assim, mas não do jeito que ele pensa. Ainda há tempo para mudar, mas tem que ser rápido.


Volta de Felipão e “Caso Renato Gaúcho” têm semelhanças e diferenças
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André Rocha

Quando foi anunciada a volta de Luiz Felipe Scolari ao Palmeiras depois de seis anos para suceder o demitido Roger Machado, imediatamente surgiu nos debates esportivos e nas redes sociais a discussão sobre o recuo de um grande clube na busca por treinadores mais jovens e antenados.

Impossível não associar ao ''Caso Renato Gaúcho''. Não tão vivido quanto Felipão, mas que também parecia fora do mercado brasileiro e se transformou no treinador mais vitorioso dos últimos dois anos em sua volta triunfal ao Grêmio com títulos da Copa do Brasil, Libertadores, Recopa Sul-Americana e Campeonato Gaúcho.

Os casos têm semelhanças, mas também diferenças marcantes. A começar pelo tempo de inatividade. Renato deixou o Fluminense em 2014 depois de um trabalho muito aquém das expectativas e ficou mais de dois anos parado. Já Scolari estava desde 2015 no Guangzhou Evergrande e empilhou títulos: campeão asiático em 2015, tri chinês e mais a Copa e o bi da Supercopa do país. Mesmo em uma liga menos competitiva é um retrospecto respeitável.

Mas Renato tinha algumas vantagens no tricolor gaúcho. É o maior ídolo da história do clube e, principalmente, desenvolveu bons trabalhos nas passagens em 2011 e 2013, garantindo vaga para a Libertadores em campanhas de recuperação. Ao contrário de Felipão no Palmeiras, o treinador encontrou o legado de um trabalho mais estruturado e longo de Roger Machado. Sem contar que num contrato inicial de apenas três meses por conta da eleição no clube não havia tanta pressão para tirar o Grêmio do jejum de 15 anos sem uma conquista relevante desde a Copa de Brasil de 2001.

Por outro lado, Felipão pode repetir com Paulo Turra, seu auxiliar junto com Carlos Pracidelli depois que Murtosa desistiu de acompanhar a comissão técnica do treinador, a parceria mais que bem sucedida de Renato com Alexandre Mendes. Enquanto o assistente, mais estudioso, trabalha na metodologia de treinamentos para manutenção do modelo de jogo, o técnico cuida dos detalhes estratégicos da equipe e, especialmente, da gestão de grupo para manter todos mobilizados. Sem contar o carisma e a coragem para lidar com imprensas e as pressões internas e externas.

Só que a última passagem de Scolari pelo clube paulista em 2012 teve dois lados bem distintos: conquista da Copa do Brasil com uma equipe limitadíssima, mas também a campanha pífia no Brasileiro que encaminhou o rebaixamento. Uma mancha que coloca uma ponta de dúvida no torcedor, assim como o emblemático 7 a 1 para a Alemanha pela seleção brasileira.

O trabalho no Grêmio em 2014/15, também não terminou bem. Abriu espaço para Roger Machado, sucedido por Renato. Agora é Scolari quem substitui Roger, mas em um cenário bem mais complexo. No olho do furacão.

O treinador da conquista da Libertadores em 1999, porém, tem muitos créditos e chega com aura de messias. Um toque de sebastianismo em ambiente político conturbado. O típico ''escudo'' que todo dirigente quer para sair do foco da ira de um torcedor que quer ver o alto investimento se traduzindo em títulos e se desiludiu com a volta frustrante de Cuca no ano passado. A cobrança será proporcional à esperança.

Mas tem boas chances de funcionar, especialmente nas disputas de mata-mata. No nosso futebol brasileiro passional e um tanto caótico, já está claro que se houver química e a dosagem certa de razão e emoção tudo pode dar muito certo. Aconteceu com Renato Gaúcho, por que não com Felipão?


São Paulo cruza tempestade com nove pontos em doze. Agora é com o Flamengo!
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André Rocha

A sequência dura para o São Paulo veio na volta da parada para a Copa do Mundo: o próprio time carioca no Maracanã, clássico contra o Corinthians, Grêmio em Porto Alegre e Cruzeiro no Mineirão. Sequência em que não seria nenhuma catástrofe somar quatro ou cinco pontos. O time de Diego Aguirre conseguiu nove!

Os três últimos num daqueles jogos de afirmação como candidato ao título. Logo após uma derrota doída de virada para o atual campeão da Libertadores, com um dia a menos de descanso que o adversário, sem os suspensos Militão, Arboleda e Hudson, mais o lesionado Jucilei. Diante de um Cruzeiro precisando de recuperação depois da derrota para o Corinthians em São Paulo, mesmo cumprindo boa atuação.

O tricolor paulista foi pragmático: Araruna na lateral direita, Bruno Alves na zaga, Liziero e o garoto Luan na proteção da defesa no mesmo 4-2-3-1. Novamente muita eficiência nos contragolpes. O primeiro de manual, no rebote da bola parada: partindo de Reinaldo pela direita, invertendo para Rojas deslocado pela esquerda. Assistência do equatoriano e gol de Diego Souza. No segundo tempo, outra saída rápida. De Rojas para Reinaldo, que chutou e, no rebote de Fabio, serviu Everton em condição legal.

Duas das quatro finalizações no alvo em um total de oito. 48% de bola. Também sorte na cobrança de pênalti de Barcos no travessão de Sidão com o placar em 1 a 0. O time mineiro finalizou também quatro no alvo, mas em um total de 15. O São Paulo, mais uma vez, foi letal.

E tem a chance de tomar a liderança do Brasileiro em agosto. Eliminado na Copa do Brasil, terá apenas a Copa Sul-Americana em paralelo. Dependendo do que acontecer no jogo de ida na quarta no Morumbi pode até priorizar totalmente a competição nacional. Encara Vasco, Chapecoense e Ceará em casa e sai contra Sport e Paraná. Todos na metade de baixo da tabela, Três na zona de rebaixamento antes do início da 16ª rodada. Em cinco jogos pode sonhar com 11 ou 12 pontos.

Já o Flamengo, que manteve os dois pontos de vantagem na dianteira, terá um mês insano. Com uma particularidade: enfrenta no Brasileiro os adversários nas quartas da Copa do Brasil e nas oitavas da Libertadores. Ou seja, três duelos contra Grêmio e Cruzeiro. Dois fora contra os gaúchos e dois em casa diante dos mineiros.

Com desgaste emocional, rivalidade, questões de arbitragem, entradas duras e discussões transferidos de um jogo para o outro. Sem contar a necessidade de rodar um elenco que até aqui não demonstrou força e versatilidade para a empreitada. Ainda América-MG e Atlético-PR fora. O único jogo tranquilo, em tese, seria o Vitória no Rio de Janeiro. Nove partidas contra sete do principal concorrente.

Uma missão que não é impossível e a atuação nos 4 a 1 sobre o Sport, com destaque para Marlos Moreno e Everton Ribeiro, somada à chegada de Vitinho credencia o rubro-negro a sair vivo no mata-mata e nos pontos corridos. A questão é se entra setembro ainda no topo da tabela do Brasileiro. Porque o São Paulo mostrou resistência ao cruzar a tempestade e agora espera o céu de brigadeiro para chegar à primeira colocação e até tentar abrir vantagem. Como duvidar?

(Estatísticas: Footstats)


Romero é a marca da “identidade Corinthians” em mais uma reconstrução
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André Rocha

Fabio Carille teve oportunidades como interino antes de ser efetivado como treinador do Corinthians em 2017. Quando saiu com status de vencedor, o sucessor Osmar Loss não desfrutou de tempo para ''estágio''. Mesmo em um time campeão brasileiro e bi do Paulista não é uma transição simples.

Para piorar, a continuação de mais um desmanche por conta dos problemas financeiros do clube. Antes Pablo, Jô e Guilherme Arana, depois Balbuena, Sidcley, Maycon. Por último, Rodriguinho. Protagonista e melhor finalizador. Como único contraponto, a permanência de Jadson.

A solução foi manter a identidade de organização e concentração defensiva, mesmo com muitos erros individuais e natural desentrosamento na última linha da retaguarda, e buscar a melhor reposição possível. Na lateral esquerda, Danilo Avelar vai ganhando confiança e encaixe. No meio, Douglas tem passe mais qualificado que Renê Júnior e melhora a dinâmica e a construção de jogadas.

Na frente, com Roger lesionado e Jonathas ainda se adaptando, Loss recorreu ao 4-4-2 sem centroavante dos tempos de Carille. Na frente, o retorno de Jadson e liberdade para o grande personagem desta tentativa de reação no Brasileiro com as vitórias por 2 a 0 sobre o Cruzeiro em Itaquera e 4 a 1 contra o Vasco no Mané Garrincha.

Ángel Romero marcou cinco dos seis gols da equipe, mas não só isso. Muita mobilidade quando atua solto na frente, sempre rondando a área adversária, e a já conhecida eficiência nas finalizações. Ainda a volta pela direita para compensar a intensidade e a resistência não tão altas de Pedrinho para fazer a função pelo lado. Dá liberdade ao jovem talentoso, mas não deixa de participar das ações ofensivas.

No segundo tempo em Brasília, a melhor atuação corintiana sob o comando de Loss. Com algumas marcas da maneira de jogar construída por Mano Menezes e Tite e ratificada por Carille: apenas 47% de posse e nove finalizações. Seis no alvo, quatro gols. Apenas oito desarmes certos contra 23 do Vasco. Mas oito interceptações corretas e nenhuma do adversário. Consequência de um time melhor posicionado. A ''identidade Corinthians''.

Evolução importante para um momento fundamental da temporada, com as disputas de mata-mata na Copa do Brasil e na Libertadores chegando. Com tantas mudanças recentes é difícil vislumbrar regularidade suficiente para ser competitivo em três frentes. Mas a impressão é de que mais uma vez o Corinthians pode minimizar em campo os problemas crônicos de gestão.

Com mais um que ''herda'' protagonismo: já foi Jadson, depois Jô, Rodriguinho… Agora é a vez de Romero. Antes desprezado e até motivo de chacota, agora a estrela de mais uma reconstrução do atual campeão brasileiro.

(Estatísticas: Footstats)