Blog do André Rocha

Pimpão, sacrificado e iluminado no Botafogo 100% no Engenhão
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André Rocha

Os confrontos eliminatórios para entrar na fase de grupos da Libertadores sacrificou o primeiro turno do Botafogo no Carioca e também queimou etapas de preparação da equipe, que precisava se apresentar competitiva logo no início da temporada.

Por isso também o técnico Jair Ventura não teve tanto tempo para testar, experimentar e ensaiar o encaixe da principal contratação que mexeria na estrutura tática: Montillo entrou centralizado atrás do atacante mais enfiado.

Camilo foi jogado para o lado do campo. Inicialmente mais recuado. Contra o Estudiantes na abertura do Grupo 1, pela direita e mais liberado. Porque o lado forte do time argentino era o direito, com as descidas de Facundo Sánchez apoiando Solari, o meia aberto no 4-4-2 armado por Nelson Vivas.

A dupla na ala, mais o grande destaque do time, o colombiano Otero. Circulando às costas dos volantes Aírton e Bruno Silva e aparecendo também no setor de Victor Luis. Para ajudar o lateral esquerdo, Jair posicionou Rodrigo Pimpão no setor. Com responsabilidade de defender, mas também acelerar, procurar a diagonal, se juntar a Roger.

O Bota controlou a posse com 62%, mas finalizou três vezes, duas no alvo. Um chute de Camilo no final da primeira etapa e o golaço de Roger, completando de voleio outro voleio de Bruno Silva. O Estudiantes concluiu o dobro, três na direção da meta de Gatito Fernandez. Jogo duríssimo.

Porque Montillo não justificou o sacrifício dos colegas para que ele tivesse liberdade. Criou pouco. O time argentino foi se instalando no campo do ataque e, numa falta boba de Marcelo Conceição, zagueiro novamente improvisado na lateral direita que acertou o cruzamento para o primeiro gol, a cobrança perfeita de Otero.

Até Jair perder a paciência com Montillo, que também cansou. Entrou Sassá. Inicialmente com Camilo mantendo o posicionamento aberto, depois centralizado. Com Pimpão voltando ainda mais para realizar o trabalho defensivo.

Mas sem deixar de aparecer na área do oponente, como foi decisivo contra Colo Colo e Olimpia. Foi às redes novamente. O terceiro dele no torneio. Incansável em todo o campo. Sacrificado e iluminado.

Símbolo da entrega e do espírito competitivo de um Botafogo com 100% de aproveitamento no Engenhão e que será duro em qualquer campo, num grupo que já se mostra equilibrado na primeira rodada.

(Estatísticas: Footstats)


Classificação do Leicester é obra de Ranieri, não de Shakespeare
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André Rocha

Mesmo com todo o discurso pé no chão da diretoria do Leicester City, focando apenas na manutenção na Premier League, a Liga dos Campeões foi tratada com sonho realizado no clube desde a confirmação da vaga na campanha do título.

A boa campanha na fase de grupos aumentou a sensação de que era possível. Reforçada pelo cruzamento com o Sevilla, que comparado com os gigantes europeus parecia acessível. E foi.

O atual campeão inglês, a rigor, perdeu apenas Kanté dos titulares na campanha vencedora. Desfalque seríssimo, mas que num torneio de mata-mata acaba sendo diluído pela capacidade de superação. Ainda mais pela entrega de Ndidi.

Logo, nada há de romântico nesta classificação do Leicester. Muito menos depois da nítida mudança de ''humor'' no campeonato inglês depois da demissão de Claudio Ranieri. Onde a gratidão e a lealdade se esvaneceram por um sanduíche de frango.

O time foi o de sempre no King Power Stadium. Duas linhas de quatro compactas, só teve posse de bola enquanto precisou construir o resultado. A partir do gol de Morgan recuou as linhas, abusou das ligações diretas, achou o segundo com Albrighton  e precisou do goleiro Kasper Schmeichel, inclusive na péssima cobrança de pênalti de N'Zonzi.

Também contou com a noite pouco feliz de Jorge Sampaoli na montagem do seu 3-4-2-1 e com a insanidade de Nasri, que se enroscou infantilmente com Vardy com a bola rolando, na frente do árbitro Daniele Orsato. Tola expulsão que merece multa e um chá de banco no Espanhol.

O Leicester sabe jogar como azarão, especulando. Vai entregar tudo contra qualquer um nas quartas da Liga dos Campeões e deve dar trabalho, mesmo aos gigantes.

A classificação é histórica, mas não épica – termo da moda na mídia histriônica que precisa gritar e superdimensionar tudo para chamar atenção. Porque tem como pano de fundo uma traição das mais torpes.

Tudo de melhor que este time puder construir não é obra de Shakespeare, o Craig, interino que assumiu o time. É de Claudio Ranieri.

 


Técnico que não defende é indefensável
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André Rocha

Crédito da foto: André Fabiano (Estadão)

O adversário do Vasco no Engenhão era o Macaé, que no primeiro turno não somou nenhum ponto e foi às redes apenas três vezes em cinco partidas. A bola ronda a área cruzmaltina até o centro da esquerda e o atacante Hudson, livre na pequena área, chegar atrasado.

Um lance corriqueiro em qualquer partida, independentemente do nível das equipes. A menos que o time de menor investimento recupere a bola sem que o oponente, em tese, mais poderoso consiga tocá-la, retrabalhe a jogada, volte ao lado esquerdo, saia o cruzamento e a conclusão sem marcação. Do mesmo Hudson.

O gol de empate do Macaé nos 2 a 2 com o Vasco é o exemplo mais cristalino das fragilidades defensivas das equipes comandadas por Cristóvão Borges. É também o mais alto grito de alerta para que isso seja corrigido. Mesmo que seja preciso recorrer ao método mais arcaico da marcação individual.

Antes o problema era de execução. Cristóvão quer sua defesa avançada, acompanhando o meio e o ataque numa marcação a partir do ataque. Depois de um período sem comandar equipes após a estreia na função pelo Vasco, o treinador chegou ao Bahia falando em novos métodos, novas ideias.

Mas tanto no tricolor baiano quanto em seus outros trabalhos – Fluminense, Flamengo, Atlético-PR, Corinthians e agora no retorno ao Vasco – a dificuldade maior era fazer seus jogadores entenderem a necessidade de pressão constante sobre o adversário com a bola para ''quebrar'' o passe e não surpreender a última linha de bloqueio.

Virou um problema crônico que mina seus trabalhos e a carreira estaciona sem conquistas ou uma campanha sólida, com exceção de 2011 com o Vasco. Acumula vexames e goleadas, a pior para o América de Natal em 2014 por 5 a 2 no Maracanã, decretando a eliminação da Copa do Brasil ainda na terceira fase.

Na estreia da Taça Rio no Engenhão, a impressão era de que os jogadores do Vasco não sabiam se deviam sair para o bote ou guardar o posicionamento. Na dúvida ficaram passivamente assistindo à troca de passes de uma equipe bem mais limitada.

O segundo gol, de Rafinha, parecia contragolpe de final dos antigos coletivos de 90 minutos, com jogadores já cansados e se poupando. Marquinho arrancou com toda liberdade até servir o companheiro à frente de Martín Silva.

O Macaé concluiu, no total, 13 vezes no jogo. Seis no alvo. Teve pelo menos mais três oportunidades claras. Com apenas 46% de posse. A menos que haja um sério problema na gestão de grupo e os atletas estejam dispersos ou inconformados, não se justifica um trabalho defensivo tão frouxo.

Triste para o Vasco, logo na estreia tão aguardada de Luis Fabiano. A equipe saiu na frente com belo gol de Nenê e depois foi atrás do empate muito mais na fibra que na organização e conseguiu com Rodrigo, no rebote da finalização do novo camisa nove.

Muito pouco. E não há prazer nenhum na crítica a Cristóvão, que é uma figura sempre educada, solícita e atenciosa. Mas é preciso definir um caminho.

As melhores equipes do mundo sabem alternar a marcação adiantada e no próprio campo de acordo com a necessidade e a qualidade do rival. É possível também se defender ficando com a bola ou até desprezando a posse, mas compactando muito bem os setores e jogando em transições ofensivas rápidas.

Como dito antes, se está difícil transmitir orientações complexas, por que não partir para o mais simples e básico? ''Cada um pega o seu'' e vejamos o que acontece. Depois tentar gradativamente inserir conceitos mais atuais. Só não pode seguir como está.

Por mais que a nossa cultura futebolística mais tradicional seja ofensiva, de jogo bonito, o futebol brasileiro sempre se valeu de consistência no trabalho sem a bola para se impor. Não por acaso aderimos à linha de quatro atrás em 1958 e na Copa de 1970 o escrete canarinho tenha inaugurado, na prática, os conceitos de execução do 4-5-1, deixando apenas Tostão no ataque da lendária equipe de Zagallo.

A história também mostra que é possível aprender e se reinventar. Telê Santana, acusado de expor demais a fantástica seleção de 1982, na Copa do Mundo seguinte, no México, apareceu com os volantes Elzo e Alemão. À frente da retaguarda que ganhou mais consistência com os laterais Josimar e Branco, mais precavidos no apoio que os talentosos Leandro e Junior quatro anos antes na Espanha.

No São Paulo bicampeão da Libertadores e intercontinental em 1992/93, comandou equipes que encantavam na frente, porém sempre tinham um Pintado ou Dinho para ''limpar os trilhos'' e liberar laterais e até um dos zagueiros. Mas apoiando de forma alternada.

No mesmo tricolor paulista, Rogério Ceni vai penando em seu primeiro trabalho com a defesa mais vazada do Campeonato Paulista, junto com a do Linense – inacreditáveis 17 gols sofridos em oito partidas. Mas parece ser muito mais uma questão de ajuste na marcação agressiva que o treinador novato prefere e também minimizar os erros individuais, inclusive dos goleiros Sidão e Denis. Por estar no início de sua trajetória no comando técnico, Ceni ganha o benefício da dúvida.

Com Cristóvão não é mais possível. Passou do tempo de corrigir a rota. Porque técnico que não defende é indefensável.

(Estatísticas: Footstats)

 


Quem no Brasil está jogando mais que Dudu?
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André Rocha

Não é de hoje. O Palmeiras do segundo turno do título brasileiro – mais pragmático e focado no resultado, não conseguiria os incríveis 44 pontos, melhor campanha em um turno na era dos pontos corridos, sem o brilho e a consistência de Dudu.

Com a ausência de Gabriel Jesus pelas seguidas convocações para as seleções olímpica e principal, e a queda de produção de Roger Guedes, assumiu a faixa de capitão e o protagonismo depois de brigar e se reconciliar com o técnico Cuca.

Foram dez passes para gols do ponteiro que atuava pela esquerda num 4-3-3. Jogador da bola parada em momentos de pressão e da velocidade nos contragolpes. Fundamental.

Em 2015 já havia sido importante na conquista da Copa do Brasil. Atuando mais solto e próximo da zona de decisão como um meia atrás do centroavante, foi o artilheiro alviverde na temporada com 16 gols.

Dudu é ponta e meia. Serve, faz gols e tem liderança. Por isso precisamos falar mais dele.

Nos 3 a 0 sobre o São Paulo no Allianz Parque ganhou os holofotes com o golaço de cobertura sobre o goleiro Denis. O segundo ele na temporada. Talvez o camisa sete nem tenha sido o grande destaque do time agora comandado por Eduardo Baptista, já que Tchê Tchê foi onipresente no meio-campo. O trabalho coletivo também merece atenção, com seguidas bolas roubadas no campo de ataque.

Mas Dudu sempre está presente, como peça chave. Em 2017 já são seis assistências, um pênalti sofrido e o cruzamento que Thiago Santos desviou e Keno completou no gol de empate contra o Tucumán na estreia da Libertadores.

O novo treinador só tem elogios para seu atacante: ''Tenho falado para ele do grande potencial que tem. Um grande jogador. O cara que pensa em jogar na Europa e seleção tem que jogar em todos os lugares. E foi muito bem'', exaltou Baptista na coletiva depois do clássico ''Choque Rei''.

Um alto investimento do clube na contratação ao Dinamo de Kiev que na época gerou polêmica pelo ''chapéu'' nos rivais, mas que em campo se paga a cada jogo. Um caso raro de quem evoluiu quando voltou da experiência na Europa.

Dudu tem intensidade para pressionar no campo de ataque ou voltar até a própria linha de fundo se for preciso. Sabe dar profundidade aos ataques, mas também procura a diagonal. Tem visão de jogo para um passe de meia, mas chama lançamento em contragolpe.

Tem também a postura que agrada o torcedor mais fanático: ''tudo pelo time''. Mesmo que às vezes esbarre na ética, algo que se espera de um grande ídolo. Como no episódio da expulsão de Gabriel no dérbi. Para sua equipe conseguir vantagem, mesmo baseada em um absurdo, Dudu tentou até impedir que o árbitro tivesse acesso à informação correta.

Mas quem se importa? A resposta no campo compensa e muito. Só não leva à seleção brasileira, mesmo com boa atuação e gol no amistoso contra a Colômbia, porque a concorrência nas pontas do 4-1-4-1 é duríssima, a mais forte no grupo de Tite: Coutinho, Willian, Neymar e Douglas Costa.

Melhor para o Palmeiras, que conta por mais tempo com seu melhor jogador. E cabe a pergunta: quem no Brasil está jogando mais que Dudu?

 

 


O “segredo” de Tite que Carille retoma com sucesso no Corinthians
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André Rocha

A vitória por 2 a 0 sobre o Luverdense na Arena Pantanal encaminha a classificação do Corinthians para a quarta fase da Copa do Brasil. Também dá a chance do técnico Fabio Carille rodar o elenco no jogo da volta.

Se o desempenho ofensivo vai aos poucos ganhando criatividade e fluência com o encaixe de Jadson pelo lado direito na linha de meias no 4-1-4-1, salta aos olhos os números defensivos.

Nas três partidas pelo torneio nacional, nenhum gol sofrido. Sim, adversários frágeis. Mas a retaguarda também não foi vazada nos clássicos contra Palmeiras, Santos e São Paulo, este no torneio amistoso na Flórida. No Paulista, só quatro gols sofridos. Contra Santo André e Mirassol. Cinco partidas sem Cássio ser batido.

A solidez dos tempos de Tite, mesmo em 2013, ano do declínio antes do período sabático, voltou depois de fortes oscilações sob o comando de Cristóvão Borges e Oswaldo de Oliveira. Porque Carille resgatou uma solução que ajudou o atual técnico da seleção brasileira a se destacar no cenário nacional.

É o que o próprio chama de ''última linha posicional''. Ou seja, a defesa com os zagueiros mais próximos dos laterais. Marcando por zona, tendo a bola e o espaço como as referências, não o jogador.

A grande sacada é criar uma espécie de cinturão à frente do goleiro. Uma adaptação da escola italiana, que Tite foi estudar na década passada. Nem tão adiantada, exposta e espaçada como a da escola espanhola, que depende demais da pressão sobre o jogador com a bola para ''quebrar'' o passe. Muito menos semelhante à brasileira, com marcação individual e zagueiros afundados, muito próximos da própria área e que precisam do desarme salvador ou da cobertura do zagueiro de sobra.

O bloqueio é estreito. Quando o adversário ataca por um lado, a linha faz uma espécie de diagonal. O lateral se adianta para marcar, o zagueiro fica atento na cobertura, o do outro lado fica pronto para cortar o cruzamento e o lateral do lado oposto recua e faz a diagonal de cobertura ou espera uma possível inversão da jogada.

Flagrante da linha de quatro do Corinthians no dérbi guardando a própria área: Arana fecha o lado atacado, Pablo fica ligado numa possível cobertura, Balbuena guarda a área e Fagner espera uma eventual inversão ou faz a diagonal de cobertura (reprodução TV Globo).

A ideia é evitar a bola longa pelo centro ou na diagonal que proporciona a conclusão. Assim induz o lançamento mais aberto e o lateral tem tempo para bloquear a ação ofensiva menos perigosa. O posicionamento compensa também eventuais erros de compactação dos homens do meio-campo.

O atacante brasileiro, mesmo o sul-americano, fica desconfortável com o cerco que espera o momento do bote. Na tomada de decisão costuma se atrapalhar e facilitar o defensor. Não é receita infalível, mas minimiza os gols sofridos e as chances criadas pelos adversários.

Na final da Libertadores de 2012 contra o Boca Juniors, a linha formada por Alessandro, Chicão, Leandro Castán e Fabio Santos mantém o posicionamento, mesmo com o buraco deixado pelos volantes permitindo o jogo entre as linhas do time argentino (Reprodução TV Globo).

Desde Alessandro, Chicão, Leandro Castán (depois Paulo André) e Fabio Santos em 2012, passando por Fagner, Felipe, Gil e Uendel no ano passado. Agora, Fagner, Balbuena, Pablo e Arana vão ganhando entrosamento, assimilando os movimentos que não são simples. Exigem inteligência, noção de espaços e concentração. Até aqui a resposta tem sido positiva. Também pelas orientações de Cássio, que conhece toda a mecânica defensiva.

Tite foi estudar e se reciclar em 2014. Voltou apostando em criatividade, movimentação e triangulações para criar superioridade numérica no setor em que está a bola. Uma mudança notável de conceitos ofensivos. Mas o trabalho sem a bola não muda. Nem no Corinthians campeão brasileiro de 2015, nem na seleção brasileira líder das Eliminatórias.

Setores compactos, ''perde e pressiona''…e a última linha de defesa posicionada. O ''segredo'' de Tite que Carille, ex-auxilar que colaborava exatamente na montagem da retaguarda, retoma com sucesso neste início de temporada.


Segundo tempo no Maracanã deixa claro: Flamengo é o time dos pontas
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André Rocha

Flamengo no 4-2-3-1 com Berrío na vaga de Mancuello. Com ponteiros rápidos, time fica mais previsível, porém ganha volume de jogo. Com gol logo aos três minutos e o desgaste do San Lorenzo que abriu brechas no 4-1-4-1 armado por Aguirre, o time construiu a goleada (Tactical Pad).

O gol de falta de Diego logo aos três minutos e o fato do San Lorenzo não estar em plena competição na Argentina por conta da greve no país condicionaram a disputa no segundo tempo e ajudam a explicar os 4 a 0 na estreia da Libertadores no Maracanã.

Mas ficou claro desde a entrada de Berrío na vaga de Mancuello que o jogo rubro-negro flui melhor quando o 4-2-3-1 tem jogadores rápidos pelos flancos. Zé Ricardo até tentou encaixar o meia argentino como um ponta articulador, mas a experiência em jogos mais parelhos não deu certo.

Muito pela falta de mobilidade em progressão do quarteto ofensivo. Ou seja, quando o time tem a bola e ataca. Esse meia na ponta vem para o centro, alguém se desloca e ocupa o espaço, o lateral faz a ultrapassagem no corredor. Não funciona pelas características de Diego e Mancuello, que são jogadores que correm mais em direção à bola que atacam os espaços à frente.

O primeiro tempo foi de erros de passe, falta de intensidade e alguns sustos do San Lorenzo de Diego Aguirre armado no 4-1-4-1 e atacando pela direita com Cerutti e o suporte de Belluschi. Ainda assim, Everton teve chance clara e carimbou a trave de Torrico.

Com os velocistas se projetando, os jogadores do meio e Guerrero têm opções mais fáceis de passe. O jogo fica mais previsível e isso é um problema diante de times mais organizados e compactos. Algo que poderia melhorar com Diego tocando de primeira e arriscando passes mais verticais e os pontas buscando as diagonais. Mas é inegável que a equipe ganha volume.

Foi às redes ainda com um chutaço de Trauco, que voltou a se aventurar pelo centro. Depois Rômulo em mais uma jogada de bola parada – escanteio cobrado por Diego – e finalizou com Gabriel, que sofreu pênalti que Guerrero desperdiçou, mas depois o ponta que substituiu Everton acertou o ângulo, quando o time argentino estava entregue.

Foram 15 finalizações contra seis apesar da posse de bola praticamente igual. Também quinze cruzamentos, número bem inferior ao das partidas anteriores. Muito porque o time não precisou partir para o ''abafa'' na segunda etapa.

A goleada é importante pelo reencontro com o Maracanã para resgatar confiança depois da má atuação e do revés nos pênaltis na final da Taça Guanabara. O time, porém, ainda precisa de ajustes. Mesmo com a sequência invicta de 18 partidas, a maior do país entre os clubes da Série A. Com Everton e, bem provável, Berrío na vaga de Mancuello.

Pelo que se viu até aqui na temporada, Zé Ricardo não terá como aguardar Conca com um ''dublê'' fazendo a função que  espera do argentino. Porque o Flamengo é o time dos pontas.

(Estatísticas: Footstats)


A noite mágica em que Neymar, e não Messi, foi Michael Jordan para o Barça
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André Rocha

É inegável que a arbitragem prejudicou muito o Paris Saint-Germain. O pênalti sobre Neymar que terminou no terceiro gol era até marcável, já que Meunier cai e obstrui a passagem do brasileiro que, claro, também se aproveita e força o contato.

Mas é um lance até discutível perto do pênalti claro de Mascherano arriscando um carrinho de braços abertos na própria área que Deniz Aytekin ignorou. Pior ainda foi penalizar o contato mais que natural de Marquinhos em Suárez, que desabou, óbvio. Sem contar os acréscimos de cinco minutos, que justificaram até a piada da placa do quarto árbitro com a frase ''Até o sexto''.

O PSG também colaborou. Falhas grotescas nos três primeiros gols, incluindo a queda de Meunier. Um certo ar blasé depois do gol de Cavani. Chances cristalinas perdidas e a desconcentração que virou desespero quando saiu o quinto gol e ainda faltavam os acréscimos.

E o mais cruel: a estratégia coletiva de Unai Emery estava correta. Já que o Barcelona abria Rafinha e Neymar pelos flancos, mas os pontas de pés invertidos sempre cortavam para dentro e não buscavam a linha de fundo, o foco era aproximar as linhas do 4-1-4-1 e estreitar a marcação na entrada da área. Tudo para negar espaços a Messi.

Exatamente o que queria Luis Enrique quando armou o 3-3-1-3. Abrir o campo para esgarçar o sistema defensivo adversário e deixar frestas para o gênio argentino. Não conseguiu por esse afunilamento das ações de ataque e também por um certo conformismo do camisa dez, que a rigor só fez notar sua presença na cobrança de pênalti seca e minimalista no torceiro gol.

Já Neymar…apareceu quando o time mais precisava para tornar uma eliminação melancólica e precoce para o investimento e a visibilidade do clube em uma virada histórica e apoteótica. Golaço de falta, o quarto. Depois assumiu a cobrança de pênalti no quinto.

No lance derradeiro, levantou a bola na área e, no rebote, cortou para dentro e surpreendeu a todos ao ter a frieza, na última bola, de trocar o chute pelo toque genial de cobertura que achou Sergi Roberto livre para concretizar o milagre.

Neymar foi Michael Jordan, o astro da NBA que nos seis títulos pelo Chicago Bulls foi o melhor jogador das finais. Exatamente por chamar para si a responsabilidade no momento decisivo. No lance derradeiro. Logo na noite inesquecível no Camp Nou.

Sim, com mais um asterisco indelével nesta trajetória vitoriosa no Barça, se juntando ao empate com o Chelsea na semifinal da mesma Liga dos Campeões na temporada 2008/09, a primeira da Era Guardiola. Com a arbitragem marcando e deixando de assinalar os lances simples e nítidos nos quais se equivocou, o PSG estaria nas quartas-de-final.

É até criminoso insinuar favorecimento encomendado. Mas não sejamos ingênuos ou hipócritas: interessa a todos os envolvidos no negócio Champions League que o time mais midiático, líder de audiência no mundo todo, siga no torneio. E isso acaba respingando no árbitro. Camisa pesa e pressão de todos os lados também.

Mas Neymar fez a sua parte e, mesmo que o artilheiro, o astro, o símbolo e o protagonista continue sendo Messi, o brasileiro merece mudar de patamar no clube. Sem ele, sua personalidade, seu pensamento positivo de acreditar e tentar sempre não haveria classificação épica.

Na hora em que tudo pareceu impossível, o craque tático que hoje se sacrifica pelo time foi a estrela máxima. E a Champions ganha um favorito.


O maior zagueiro-artilheiro manda para casa o Napoli do “falso nove”
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André Rocha

O primeiro tempo em Napoles foi de intensidade máxima do time da casa e, principalmente, da movimentação do belga Mertens como ''falso nove'', recuando e abrindo espaços para a ultrapassagem do trio Callejón-Hamsik-Insigne. Enlouquecendo Casemiro, Pepe e Sergio Ramos.

Emblemática no gol único nos primeiros 45 minutos. Infiltração precisa de Insigne. Uma das quatro finalizações na direção da meta de Keylor Navas, no total de onze contra cinco – quatro a dois no alvo.

Faltava um gol para o envolvente Napoli do ótimo técnico Maurizio Sarri e o San Paolo parecia pronto para criar a atmosfera que construiria a virada histórica na segunda etapa. Mas no outro lado havia o atual campeão europeu.

Um time gelado que parecia engessado e lento e passou a competir mais. Com Cristiano Ronaldo e Benzema alternando na esquerda e no centro, com o francês mais pelo lado. Modric mais ágil e Toni Kroos participativo.

E tem Sergio Ramos. Impressionante seu tempo de bola nas jogadas aéreas. A impulsão também ajuda a se impor. O movimento tem força e precisão. Dois escanteios dos pés de Kroos, um gol e outro golpe desviado por Mertens. Em cinco minutos.

A disputa acabou pelo efeito surpresa que anestesiou o estádio. Com técnica e organização, o Real controlou o jogo. Mertens murchou, Morata fechou a conta nos acréscimos. Os 6 a 2 no agregado do confronto das oitavas-de-final são um exagero pelo que se jogou. Cristiano Ronaldo segue devendo gols e bola nesta edição da Liga dos Campeões.

Mas os merengues impõem respeito pelaa camisa com as onze taças. Também têm talento e confiança para fazer mais com menos. E conta com um ''supertrunfo'': Sergio Ramos, que sofreu com o ''falso nove'', mas foi novamente o autêntico e maior zagueiro-artilheiro decisivo para salvar sua equipe mais uma vez.

(Estatísticas: UEFA)

 


A aula de futebol coletivo do Fluminense que só se concretizou nos pênaltis
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André Rocha

A leitura do clássico do Engenhão que, em futebol e emoção, redime o futebol carioca depois de tantas crises e agruras e não merecia torcida única ou portões fechados parece bem clara: com o suspenso Douglas e o lesionado Gustavo Scarpa em campo, dificilmente o Flamengo teria levado a decisão da Taça Guanabara para os pênaltis.

Você viu primeiro AQUI que o Fluminense de Abel Braga já sinalizava um futebol envolvente, ainda que os adversários no Carioca e na Copa do Brasil se mostrassem muito frágeis. As ações ofensivas do 4-1-4-1 tricolor aconteciam naturalmente com mobilidade, triangulações, o jogo entre linhas chamava atenção.

No Fla-Flu, os desfalques apresentaram uma vantagem na prática: com Wellington Silva invertendo o lado para a entrada de Richarlison e sendo transferido para o setor direito, o time ganhou uma dupla de velocidade e intensidade para cima de Trauco sem o auxílio constante de Everton.

Mas Wellington começou a desequilibrar no primeiro contragolpe que deixou claro que seria muito complicado para a retaguarda do Fla conter a rapidez das transições ofensivas do rival. Especialmente na recomposição das bolas paradas a favor. Arrancada, Pará escorregou e o ponteiro saiu na cara de Muralha.

A resposta do Flamengo acontecia nos cruzamentos. A equipe de Zé Ricardo foi a antítese do Flu. Lenta, engessada, sem profundidade e criação. Diego novamente foi importante pela experiência, liderança, personalidade. Mas é difícil criar espaços com um meia que não tenta um passe vertical furando linhas de marcação.

Restavam os cruzamentos. Assim saiu a virada, com Arão e Everton. A defesa do Flu ainda não havia sido vazada no Estadual, mas em outras partidas, principalmente na semifinal contra o Madureira, mostrara muitos problemas com o jogo aéreo.

Mas curiosamente foi num cruzamento despretensioso que o Flu achou um pênalti no toque de Guerrero, quando a atmosfera no Engenhão era favorável ao rival. Henrique converteu e inverteu as forças. Em nova recomposição lenta e desorganizada, a defesa rubro-negra viu Lucas aparecer à frente de Muralha. Passe vertical de Wellington que Diego e Mancuello não encaixaram, sequer tentaram ao longo da partida. Virada.

O segundo tempo foi de controle tricolor, fechado num 4-1-4-1 com entrega e concentração sem a bola e saídas rápidas pelos flancos, no ritmo da dupla equatoriana Sornoza e Orejuela, atuando mais adiantado com a entrada de Pierre na vaga de Douglas.

As trocas de Zé Ricardo demonstravam mais desespero que um plano de jogo. Berrío e Gabriel nas pontas, depois Vizeu na área do Flu com Paolo Guerrero e Everton deslocado para a lateral esquerda. Rondou a área, mas com um paradoxo: jogadores velozes, mas pouco (ou nada) criativos, para abrir a defesa. E Diego mais recuado na articulação. Com espaços, apareceu em chutes de longe e alguns bons passes. Mas nenhum que quebrasse o bloqueio.

Abel tentou minimizar a pressão e acelerar os contragolpes reoxigenando o meio e o ataque com Calazans, Marquinho e Marcos Junior. O desgaste da viagem a Sinop, da volta de ônibus e da necessidade de buscar a virada por 3 a 1 na Copa do Brasil era nítido.

A bola parada salvou o Fla. O goleiro Julio César, seus companheiros, o Engenhão e quem estava assistindo na TV esperava a cobrança de Rafael Vaz. Guerrero surpreendeu com um toque magistral, digno dos melhores no ofício.

Empate que não refletiu o que foi o jogo. Ainda que o Fla tenha controlado a posse (53%) finalizado 16 vezes contra 12 – sete a seis no alvo. O Fluminense teve fluência, jogadas mais agudas, trabalho coletivo. Chances mais cristalinas. Ideias.

Uma aula de futebol moderno que só se concretizou nos pênaltis. Quatro cobranças precisas do lado tricolor. Do rubro-negro, algo atípico: este blogueiro não se recorda de uma equipe escalando os dois zagueiros para bater penalidades na primeira série. Coincidência ou não, Rever atrasou para Julio César e Rafael Vaz bateu para fora.

Fluminense campeão do primeiro turno. A má notícia é que desta vez se vencer o returno, mesmo assim haverá fase final. Obra do regulamento esdrúxulo. O Flamengo agora deve focar na Libertadores. E há muito a melhorar para a estreia contra o San Lorenzo na reabertura do Maracanã na quarta-feira.

(Estatísticas: Footstats)

 


Um Grenal divertido, mas preocupante para Renato e Zago
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André Rocha

Por incrível que pareça, desta vez se viu mais futebol e menos rivalidade exacerbada e violenta do que em outras edições do clássico gaúcho com os times mais qualificados e em melhor momento.

O Grêmio aproveitou o mando de campo e a baixa autoestima do rival pelo inferno da Série B no Brasileiro para se impor no primeiro tempo. Mesmo com o meio-campo dilacerado sem Walace, Maicon e Douglas, o time de Renato Gaúcho teve mais fluência pela mobilidade de Miller Bolaños e Luan na frente. Mas pouco mais que isso.

O Internacional penou com uma formação engessada e muito dependente de D'Alessandro, bem vigiado por Jailton e Michel. Rodrigo Dourado e Charles pouco contribuíam na construção das jogadas e ainda deixavam espaços às costas para a dupla de ''falsos noves'' gremistas.

Numa transição rápida, Bolaños fez o gol único de um primeiro tempo de posse de bola equilibrada, mas com o Grêmio finalizando nove vezes contra quatro dos colorados, que fizeram mais faltas (nove a cinco) e acertou mais desarmes (13 a sete). Mas não jogou.

O cenário mudou bastante na segunda etapa com Roberson e Nico López nas vagas de Charles e Carlos. Os substitutos formaram um tridente no ataque com Brenner. Uendel recuou no meio com Dourado protegendo D'Alessandro.

Mas a chave foi a movimentação de Nico saindo da direita e infiltrando às costas dos volantes gremistas. O maior volume de jogo fez efeito rápido com a virada em 13 minutos nos gols de Roberson e Brenner, envolvendo com facilidade o sistema defensivo do time da casa.

Renato trocou Pedro Rocha e Michel por Barrios e Fernandinho e mandou o time para o ataque praticamente num 4-2-4. E aí faltou confiança a Antonio Carlos Zago tirando Brenner e colocando o volante Anselmo, voltando a adiantar Uendel para fazer dupla com Carlinhos à esquerda.

Nico López seguiu bem no jogo, mas perdeu o fator surpresa. O contexto voltou a favorecer o Grêmio, que empatou no chute de Fernandinho que Danilo Fernandes aceitou e cresceu ainda mais com o jovem Lincoln no lugar de Jailson. Debaixo de forte chuva, terminou com 17 finalizações contra nove do Inter. Mas o recorte do período de domínio do rival visitante expôs as fragilidades da equipe de Renato.

O Colorado sofreu mais ao longo da partida. Mesmo com ótimos 15 minutos na segunda etapa, ficou claro que a reconstrução precisa ser ampla para formar um time consistente. O trabalho de Zago está no início e a insegurança pode ser encarada com natural.

Mas não deixa de ser preocupante. Para os dois. Mesmo num Grenal divertido, exatamente pelas falhas de ambos.

(Estatísticas: Footstats)