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Paes, Ismaily, André Gomes. As várias faces da nossa crueldade
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André Rocha

O goleiro Paes do São Caetano falhou no gol de Trellez e foi infeliz ao colocar nas redes a cabeçada de Diego Souza que tocou na trave direita. Os gols da classificação do São Paulo para as semifinais do Paulista. Errou, sim. Mas as lágrimas depois do jogo no Morumbi são  de quem sabe que comprometeu o trabalho de toda a equipe e também por saber que ficou marcado.

Mesmo em um time de menor investimento, será tema de memes. Talvez até debochando de suas lágrimas. O triunfo são-paulino será relativizado pelo que fez, ou deixou de fazer. Já ecoa o trocadilho “Goleiro Paes foi uma mãe para o São Paulo”.

Ismaily do Shakhtar Donetsk foi convocado por Tite para a vaga de Alex Sandro, que substituiria Filipe Luís. Ou seja, foi a quarta opção para a lateral esquerda. Dificilmente irá ao Mundial da Rússia. Mas só porque atua na Ucrânia e não fez história em um grande clube brasileiro os protestos vêm de todos os lados.

Um jogador em bom momento, de uma equipe que se classificou para as oitavas de final da Liga dos Campeões eliminando na fase de grupos o Napoli que disputa o título italiano com a Juventus. Jogos transmitidos ao vivo para o Brasil. Ismaily foi citado por Tite há dez dias. Se ninguém se informou sobre o lateral, o problema não é dele. Uma convocação circunstancial, de emergência, guiada pelo contexto. Provavelmente não vai jogar os amistosos, nem será convocado até a Copa. Nenhum motivo para alarde. Muito menos para tratá-lo como um Zé Ninguém.

André Gomes confessou à revista “Panenka” que sofre pela pressão que coloca sobre si mesmo por não render no Barcelona. A ponto de sentir vergonha de sair de casa. Não importa se o seu estilo não tem muita relação com a escola do clube, nem é um “transgressor” como Paulinho, mais intenso e infiltrador. Não interessa se o erro foi de quem contratou.

É o jogador que sofre, entra em depressão. É ele também o contestado quando está em campo, por ser uma espécie de corpo estranho. Ninguém quer saber. Porque se o sonho da maioria dos jogadores do planeta é estar nos gigantes da Espanha e jogar com Messi algo para contar para os netos é obrigação render em alto nível, não importa como.

Esquecemos que aqueles que julgamos por noventa minutos, ou pelas nossas convicções, são gente. Com sonhos e frustrações, vitórias e derrotas muito além do campo. Não precisam que sejamos impiedosos, implacáveis com os erros alheios como não agimos conosco ou com aqueles que defendemos. A maior cobrança é de quem avalia o próprio desempenho.

A crítica aos que não rendem não pode ser destruidora, definitiva. O futebol é complexo e caótico demais para este nível de exigência. Com o goleiro que falha, o meia que não encaixa, o lateral que “ninguém conhece”. Até porque não há outro esporte com tantas histórias de redenção, subvertendo a lógica.

Mas temos o péssimo hábito de ver o lado negativo de tudo. O erro salta aos nossos olhos. Diminuir alguém reduz a própria dor, esconde os fantasmas. São as várias faces da nossa crueldade. Que aprendamos a lutar contra este vício. Em nome do respeito.


O primeiro gol de Philippe Coutinho pelo Barcelona, com a “benção” de Messi
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André Rocha

Ernesto Valverde precisou de 45 minutos para perceber que o futebol coletivo do Barcelona era prejudicado pela nulidade de André Gomes jogando aberto pela direita na linha de meio-campo. Por isso sua equipe teve problemas no primeiro tempo no Estádio Mestalla pela semifinal da Copa do Rei.

Também porque o Valencia, necessitando reverter desvantagem de 1 a 0 construída no Camp Nou, se arriscou com o brasileiro naturalizado espanhol Rodrigo Moreno atuando como uma espécie de “falso nove” tentando alimentar Zaza e Vietto na frente. Dinâmica que dificultava a saída de Jordi Alba para atacar pela esquerda com a cobertura de Umtiti e Busquets centralizado na proteção.

A retaguarda sofria e os ataques pela direita eram previsíveis, dependentes do apoio de Sergi Roberto e das aparições de Messi no setor. Faltou fluência ofensiva, mesmo com o controle da posse de bola – importante para administrar a vantagem no confronto.

Tudo mudou em três minutos com Philippe Coutinho em campo na vaga do português na volta do intervalo. Ainda que o brasileiro não se sinta confortável pela direita, no primeiro ataque apareceu na segunda trave para completar centro de Suárez pela esquerda e encaminhar a classificação do Barça para a 10ª final do torneio em 13 anos. Primeiro gol pelo novo clube. Já sendo decisivo.

Interessante notar que até Paulinho entrar no lugar de Iniesta e Coutinho enfim ser deslocado para o lado esquerdo, Messi novamente usou toda sua leitura de jogo para permitir que o camisa 14 saísse da direita para circular pelo centro às costas dos volantes adversários, como faz na seleção. Exatamente no espaço em que o gênio argentino gosta de atuar.

Para gerar o espaço, Messi ficava aberto pela direita recebendo e acionando os companheiros. De certa forma também descansando em campo. Mas dando uma prova de que entende a importância do talentoso meia brasileiro no elenco de Valverde. Uma espécie de aval do craque do time.

Depois bastou ao Barcelona seguir controlando o jogo com posse e sofrendo apenas um ataque mais contundente, com Cillessen fazendo grande defesa. No final, falha do zagueiro Gabriel Paulista, mais uma assistência de Suárez e gol de Rakitic. Ainda houve tempo para estreia de Yerri Mina entrando no lugar de Piqué.

Com vaga na decisão da Copa nacional e o título espanhol bem encaminhado pela larga vantagem na liderança, o Barça pode concentrar todos os esforços no duelo com o Chelsea pelas oitavas de final da Liga dos Campeões. Favoritismo natural pelo bom momento contrastando com a séria crise no time inglês, mas a história mostra que costuma ser um duelo perigoso.

Mais ainda sem a opção de Coutinho, ainda que no banco. Resta ao brasileiro seguir seu processo de adaptação ao novo clube. Com gols e a “benção” de Lionel Messi.


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