Blog do André Rocha

Arquivo : antonioconte

Chelsea e Real Madrid: estratégias diferentes para inspirar times do Brasil
Comentários Comente

André Rocha

Antes de qualquer ponderação é preciso explicar o óbvio, quase desenhar: a intenção do texto não é comparar a qualidade dos elencos dos milionários clubes da Inglaterra e da Espanha. Apenas as estratégias na gestão dos elencos. Mas também entendendo que é possível fazer uma proporcionalidade entre a capacidade dos clubes brasileiros citados e o nível do futebol jogado no país.

O Chelsea fez uma temporada 2015/16 para esquecer e não se classificou sequer para a Liga Europa. A prioridade absoluta era a Premier League, com as copas nacionais em paralelo da forma como os ingleses as vêm tratando nos últimos anos: escala reservas e só busca o título se não tiver algo mais importante em disputa. Ou seja, o que o tem restado ao Arsenal de Arsene Wenger.

A estratégia de Antonio Conte foi clara: depois de encontrar a formação com melhor relação desempenho/resultado, insistiu com ela e rodou bem pouco o elenco. Com a repetição de jogos e semanas livres para os treinos que funcionam mais como “polimento” após uma pré-temporada mais forte e longa que as do Brasil, a variação do 5-4-1 para o 3-4-3 ganhou ainda mais fluência. Os atletas passaram a executar as jogadas de memória, sem pensar muito e a equipe sobrou no Inglês.

Já vem sendo o trunfo do Corinthians na temporada. Equipe que ganhou corpo no Estadual, mas vacilou na Copa do Brasil com a eliminação para o Internacional. A arrancada espetacular no início do Brasileiro já sinaliza que a Sul-Americana, consequência da temporada irregular em 2016, ficará em segundo plano. A menos que abra uma vantagem na competição nacional tão confortável que permita inverter a lógica e poupar para um duelo decisivo no torneio continental.

O Real Madrid queria voltar a vencer o Espanhol depois de cinco anos e quebrar a hegemonia do rival Barcelona. Mas sem perder de vista a Liga dos Campeões, historicamente um alvo de conquista do maior campeão do torneio. A solução de Zinedine Zidane, depois de observar o desgaste de seus jogadores na temporada anterior, especialmente da estrela Cristiano Ronaldo foi simples, até um tanto antiquada: definir titulares e reservas. Treinar, condicionar e entrosar para que ambos estivessem prontos quando necessário.

Mas sem tapar os olhos para o desempenho e praticar a meritocracia. Tanto que Isco virou titular e Gareth Bale iniciou a decisão da Liga dos Campeões no seu País de Gales no banco. As partidas em que a equipe reserva seria utilizada foram definidas dentro de um planejamento, não necessariamente na partida do Espanhol que antecedia um duelo importante pela Champions.

O resultado: as duas taças em Madrid e todos voando no fim da temporada. Os titulares pelo descanso e os suplentes pela motivação e por conta do ritmo de competição. A dosagem certa para o futebol atual, que exige do atleta um enorme esforço mental – concentração absoluta para as tomadas de decisão corretas – e físico, com um aumento exponencial nas ações de alta intensidade – em especial os piques curtos para dar opção e receber a bola ou pressionar o adversário.

Flamengo, Palmeiras e Atlético Mineiro, pelo alto investimento em seus elencos e, por conta disso, não podendo descartar nenhuma competição na temporada, podem pensar em algo parecido. Envolvidos em três campeonatos, se tentarem insistir com os titulares em todos haverá esgotamento e desvantagem contra adversários que não estão na mesma maratona de jogos a cada três dias.

Já com equipes mistas, poupando apenas aqueles que os exames apontam próximos de estourar os músculos, o entrosamento sempre fica comprometido. Os famosos rodízios não têm dado muito resultado prático por conta da falta de sintonia entre os setores muito alterados.

Parece mais racional definir antes e escolher as partidas mais acessíveis. Não como o Grêmio fez, poupando contra Sport e Palmeiras fora de casa porque tinha jogos considerados prioritários no meio da semana. Pontos jogados fora que hoje fazem falta na luta para se aproximar do líder Corinthians.

É lógico que sempre é mais inteligente deixar alguns titulares no banco para alguma eventualidade. Mas mesmo concentrando e fazendo parte da logística da partida, não deixa de ser um repouso para pernas e mentes. Em clubes tão pressionados por conquistas é um alívio. Cobrar presença em todos os jogos para justificar os altos salários parece pouco inteligente. Porque o atleta não está cansado a ponto de não poder exercer seu ofício. A ausência é apenas para que ele mantenha o alto rendimento. Não são máquinas.

Já passou da hora dos clubes brasileiros deixarem de se preocupar tanto com decisões políticas, pautadas por reações de torcida e imprensa. Não há como controlar os resultados, por isso planejar para minimizar os equívocos parece sempre a melhor escolha. Inclusive surpresas agradáveis podem acontecer. Como os titulares do Real Madrid derrotados pelo Barcelona no Santiago Bernabéu, mas não deixando o rival se aproximar da liderança exatamente pelos pontos conquistados pelos reservas, inclusive em jogos longe de Madri.

Ninguém por aqui conta com uma seleção mundial no elenco. Mas o Brasileiro também não tem o nível do Espanhol – as competições internacionais mostram que Barça e Real não sobram por falta de rivais à altura, mas por estarem numa prateleira acima no futebol mundial pela competência dentro de campo.

Com a disputa ainda no primeiro turno é possível corrigir a rota e definir o planejamento. O Corinthians parece cada vez mais consciente que o “modo Chelsea” é o norte a seguir, mantendo a base e investindo em recuperação e treinamentos pensando no Brasileiro.

Já os que gastaram para rechear seus elencos precisam definir um caminho para não correrem o risco de terminar 2017 sem taças importantes para ostentar. O Real de Zidane ganhou a Espanha e a Europa com inteligência. É possível fazer parecido, mesmo sem tanto talento disponível.

 

 


De Conte para Guardiola, mais uma aula de Premier League
Comentários Comente

André Rocha

Primeiro tempo de eficiência do Chelsea na frente com Hazard, mas problemas pela direita com Sané ganhando na velocidade de Zouma às costas de Azpilicueta, de volta à lateral direita (Tactical Pad).

O Stamford Bridge não viu uma grande atuação técnica ou arrasadora nos contragolpes como as que o Chelsea protagonizou para construir sua liderança absoluta no Campeonato Inglês.

Mas foi mais uma aula de Premier League que Antonio Conte, em sua primeira temporada, concede ao colega, também “debutante”, Pep Guardiola.

A palavra é eficiência. Mesma virtude dos 3 a 1 no Etihad Stadium, o triunfo que consolidou o time londrino como favorito ao título. Os Blues tiveram 40% de posse, finalizaram 10 vezes. Quatro no alvo. Três terminaram em gols. O primeiro de Hazard, em chute que desviou em Kompany e Caballero aceitou. No segundo do craque belga, a cobrança do pênalti – tolo, de Fernandinho em Pedro – que o goleiro argentino deu rebote e o próprio camisa dez aproveitou.

Outra lição é a de leitura de jogo para mexer no time, mesmo vencendo e não sendo a prática habitual do técnico que menos faz substituições na liga. Como Zouma sofria para conter a velocidade de Sané, Conte voltou Azpilicueta para sua função de zagueiro e recuou Pedro como ala. O zagueiro francês deu lugar a Matic, que foi preencher o meio com Kanté e Fábregas, que abria à direita apenas para conter os avanços esporádicos de Clichy.

Enquanto isso, Guardiola apostou na sua ideia de controlar a bola, trocar passes, buscar superioridade numérica no meio. Sem o passe vertical, porém. Finalizou 17 vezes, sete na direção da meta de Courtois. Mas, a rigor, chances reais foram apenas quatro: o gol de Kun Aguero no rebote do chute de David Silva em falha de Courtois na saída de bola; a infiltração de Sané às costas de Zouma que certamente influenciou a mexida de Conte na volta do intervalo.

Na segunda etapa, toques e mais toques dos citizens rondando a área. Mesmo sem criatividade e perspectivas de reação, só fez a primeira substituição aos 34 minutos da segunda etapa – Sterling na vaga do decepcionante De Bruyne. E oportunidades claras só nos acréscimos, com Aguero e o incrível gol perdido de Stones.

Muito pouco para quem ocupou o campo de ataque. Porque o controle do jogo foi do Chelsea, mesmo sem a bola. A última linha bem posicionada com um David Luiz mais uma vez chamando a atenção, paradoxalmente, pela discrição. Pouco aparece, para o bem e para o mal. Joga simples, como nunca.

A troca de Zouma por Matic devolveu Azpilicueta à zaga para cobrir Pedro contra Sané e preencher mais o meio com Fabregas fechando o centro e abrir eventualmente para cobrir os avanços esporádicos de Clichy. O s Blues controlaram o jogo sem a bola e Guardiola só mexeu no time no final (Tactical Pad).

O Chelsea não dá espetáculo e desta vez pouco acionou o pivô e artilheiro Diego Costa. Deixou o domínio, ainda que inócuo, para o adversário e foi pragmático para vencer, não permitir a aproximação do Tottenham depois da derrota na última rodada para o Crystal Palace em casa. A vantagem no topo da tabela segue nos sete pontos.

Pep Guardiola volta para Manchester com muito para pensar. Parece claro que não confia no elenco do City – a ponto de improvisar Jesús Navas na ala direita e deixar Zabaleta mofando no banco. Na próxima temporada, além da reformulação no grupo de jogadores, valem as lições de Conte: na “loucura” da Premier League, quando ataca é preciso ir às redes e no trabalho defensivo precisa controlar e negar espaços na zona de decisão.

O italiano aprendeu bem rápido. Ou já chegou pronto para dominar a liga.

(Estatísticas: BBC)

 

 


Apocalipse de Fábregas é “mimimi” pelo banco no Chelsea e não faz sentido
Comentários Comente

André Rocha

Fabregas_Chelsea

“Hoje em dia é mais difícil para um jogador talentoso ter sucesso. Não sou forte a nível físico, não sou o mais rápido, não sou o mais forte, pelo que tenho de tentar estar à frente de outro modo. Sei que para ter sucesso hoje em dia é preciso ser muito forte, correr muito e isso não é fácil. O futebol está a mudar e cada dia que passa vemos menos talento e mais poder físico”.

Palavras de Cesc Fábregas à televisão oficial do Chelsea. Um nítido incômodo por estar na reserva de Matic e Kanté no 3-4-3 de Antonio Conte no time londrino. Uma crítica que se mostra sem sentido na prática. Como se o seu problema fosse o de todos os meio-campistas das principais equipes.

Como se o atual campeão europeu não tivesse Modric, Kroos ou mesmo Casemiro entre os titulares. Ou a recuperação do Manchester City na Premier League não fosse marcada pela efetivação no meio-campo de Yaya Touré, De Bruyne e David Silva. No meio-campo do Barcelona e do Bayern de Munique não há nenhum Kanté.

Tudo depende da proposta de jogo. No Chelsea de Conte, os zagueiros, especialmente David Luiz, são os responsáveis pelos passes longos de trás. Na frente, a criatividade fica por conta de Eden Hazard. Em contragolpes ou trabalhando em pequenos espaços quando os Blues ocupam o campo de ataque.

Com este estilo vertical, não há a necessidade de um meio-campista com características de “regista”, como Pirlo na própria Juventus de Conte, nem o “trequartista”, o meia criativo. Ou seja, não há vaga para Fábregas.

Mas o meia espanhol, antes de partir para a crítica direta, deveria refletir e lembrar que no Barcelona de Guardiola, Xavi e Iniesta, que privilegiava o talento, Fábregas também oscilou e não se firmou como titular absoluto e importante. E o treinador bem que tentou, inclusive tirando Messi da função de “falso nove”.

A equipe caiu de produção e os reveses para o Real Madrid de Mourinho desgastaram Guardiola. Sim, soa cruel responsabilizar Fábregas pela fase sem títulos. Mas, coincidência ou não, a equipe catalã voltou a vencer a Liga dos Campeões e a tríplice coroa exatamente na temporada depois da saída do meia para o Chelsea.

Há espaço para o talento e sempre haverá. Mas sem intensidade e consistência, a qualidade é praticamente inútil. Vide Ganso sem espaço no Sevilla. Fábregas não é tão lento, mas no modelo de jogo do Chelsea tem que aceitar, ao menos por enquanto, em ser uma opção de variação tática.

Sem apocalipse ou”mimimi”. Fica feio.


Cinco na defesa pode ser bom. Bem pior é não querer jogar
Comentários Comente

André Rocha

Atlético-MG 0x3 Corinthians. 1º de novembro de 2015. Vitória emblemática que praticamente confirmou o título e uma das atuações mais consistentes, especialmente no segundo tempo, do melhor campeão brasileiro desta década.

Repare na imagem abaixo. A equipe de Tite se posiciona atrás com os quatro defensores da última linha bem próximos e centralizados e os ponteiros Jadson e Malcom recuando e fechando os flancos praticamente como laterais. Neste recorte são seis homens alinhados guardando a meta de Cássio. Não é sinônimo de retranca ou antijogo. Apenas um comportamento sem a bola.

Flagrante do Corinthians de Tite se defendendo com seis homens na última linha diante do Atlético Mineiro no Independência: Fagner, Felipe, Gil e Guilherme Arana mais centralizados, os pontas Jadson e Malcom bloqueando os flancos como laterais (reprodução TV Globo).

Flagrante do Corinthians de Tite se defendendo com seis homens na última linha diante do Atlético Mineiro no Independência: Fagner, Felipe, Gil e Guilherme Arana mais centralizados, os pontas Jadson e Malcom bloqueando os flancos como laterais (reprodução TV Globo).

Nos 3 a 1 do Chelsea de virada sobre o City em Manchester houve um choque geral ao se deparar com as duas equipes atuando no 5-4-1 sem a bola. Principalmente o time de Pep Guardiola, o símbolo do futebol ofensivo e vistoso.

O grande paradoxo é que esta linha de cinco ou seis homens na defesa é uma mera consequência da revolução que o treinador catalão promoveu no esporte nestes últimos oito anos. Porque a essência do jogo posicional é fazer a saída de bola com qualidade para se instalar no campo de ataque.

Com o adversário acuado, trocar passes sempre buscando um homem livre, criando superioridade numérica em todas as fases de construção do jogo. Até encontrar uma brecha no último terço do campo e fazer a infiltração com assistência e movimentação ou no drible, na vitória pessoal.

Qual foi a resposta dos oponentes, primeiro com José Mourinho? Ok, eu não consigo bloquear o toque no meio pela excelência de Busquets, Xavi, Iniesta e Messi recuando como “falso nove”. Então fique com a bola! Chegue a 80% de posse. Toque, toque, toque…Meu time vai concentrar seus esforços em evitar a profundidade. Quatro, até cinco homens negando espaços pelo centro, dois abertos atentos às ultrapassagens dos laterais ou dos pontas.

Com o tempo a ideia foi sendo burilada e surgiu a preocupação de também dificultar o início do processo. Coragem para adiantar linhas e pressionar a saída de bola para evitar o passe limpo e, caso a bola fosse roubada, surpreender uma defesa aberta.

Porque a saída “lavolpiana”, popularizada pelo técnico argentino Ricardo La Volpe na seleção mexicana, é produtiva se bem executada. Uma bola perdida, com seus zagueiros bem abertos, um volante centralizado e os laterais espetados no campo de ataque ou posicionados por dentro como meias, tende a ser um desastre.

O que se viu no sábado no Etihad Stadium foi a exacerbação desta disputa de área a área. Pressionar nos primeiros vinte metros e fechar espaços nos últimos vinte. Por isso os times “mutantes”, variando do 5-4-1 para o 3-4-3.

Um trio de atacantes para abafar os três defensores que fazem a saída de bola. Os alas saem para bloquear os laterais e os dois meio-campistas avançam para fechar o meio. Se o adversário consegue sair dessa pressão, a missão é dificultar, até mesmo com faltas, a transição rápida para que haja tempo do time se reorganizar em duas linhas, uma de cinco e uma de quatro, para guardar a própria área. Defende preparando o ataque e ataca pronto para defender.

Flagrante da linha de cinco defensores do Chelsea postada. O ala esquerdo Alonso fecha seu lado como lateral e Moses faz a diagonal de cobertura do outro lado, dando suporte a Azpilicueta, David Luiz e Cahill (reprodução ESPN Brasil).

Flagrante da linha de cinco defensores do Chelsea postada. O ala esquerdo Alonso fecha seu lado como lateral e Moses faz a diagonal de cobertura do outro lado, dando suporte a Azpilicueta, David Luiz e Cahill para negar espaços ao ataque do Manchester City (reprodução ESPN Brasil).

Mas sempre querendo jogo, sem especulação. Os Blues venceram porque estão mais habituados a este modelo e, principalmente, porque aproveitaram as oportunidades criadas. Mas podiam ter sido superados se Aguero e De Bruyne não tivessem perdido chances cristalinas. A disputa foi igual, mas Diego Costa, Willian e Hazard resolveram.

O Chelsea é lider da Premier League por sua versatilidade e capacidade de aproveitar o que tem de melhor. Azpilicueta é o zagueiro pela direita, mas se o time precisa ser ofensivo ele vira lateral, sua posição de origem, e adianta o ala Moses como ponta. O movimento libera Pedro ou Willian para sair do lado e circular, buscando as diagonais.

A utilização dos alas tem a sua lógica. Se a ideia é que um dos ponteiros seja um armador para desarticular a marcação e o outro seja praticamente um atacante se juntando ao centroavante, o ideal é que esses homens estejam mais liberados para circular, procurar o centro. Cabe aos alas ficarem abertos para espaçar a marcação e criar espaços.

O polêmico David Luiz rende porque o técnico italiano cobra posicionamento preciso e ele não sai como um tresloucado para caçar os atacantes na intermediária. E ainda aproveita o que tem de melhor: o passe longo. Conte não faz questão de ficar muito tempo com a bola entre as intermediárias. Prefere investir em lançamentos.

Não chutões. Algo treinado, pensado e aprimorado. Desde a Juventus com Bonucci e Pirlo, agora com David Luiz e Fábregas, que jogou no lugar de Matic e meteu uma bola de trinta metros para Diego Costa ganhar de Otamendi e empatar em Manchester. Um jogaço.

Porque a ideia dos cinco defensores é bem diferente da que vigorou no final dos anos 1980 e chegou ao fundo do poço na Copa de 1990 na Itália. A “inversão da pirâmide” que o jornalista inglês Jonathan Wilson tão bem explica em seu livro que agora recebe uma tradução para o português pelas mãos de André Kfouri para a Editora Grande Área.

Do 2-3-5 para o 5-3-2. Mas lá atrás privilegiando o antijogo. Inspirado nas vitórias da Itália de 1982, com Scirea de líbero e Gentile colado no craque adversário, e da Argentina em 1986, com Brown na sobra e Batista como o cão de guarda à frente da defesa, o campo virou uma grande batalha de perseguições individuais: um zagueiro na sobra, ala batendo com ala e muitas ligações diretas para que, enquanto a bola viajava, os times se reorganizassem minimamente depois de marcar correndo e não posicionado.

Se alguém fizesse um gol o jogo virava uma modorrenta sequência de passes entre os três zagueiros e bolas recuadas para os goleiros, que esperavam a chegada do atacante adversário e seguravam com as mãos – na época a regra permitia.

Uma época cinzenta que só via brilho com o Milan de Arrigo Sacchi. Marcando por zona, com setores próximos, fazendo o “pressing” e valorizando a técnica, especialmente da dupla holandesa Gullit-Van Basten no ataque. Uma das inspirações de Guardiola.

Hoje, com linhas tão compactas a diferença entre quatro ou cinco na defesa é nenhuma. Vale mais a proposta de jogo. Como dizer que a vitória do Chelsea foi “feia” e a do Brasil sobre a Argentina no Mineirão foi um “espetáculo” se as ideias foram bem parecidas? Reveja o segundo gol, de Neymar. Transição rápida e letal como as que o Chelsea fez. O City também, só não conseguiu colocar nas redes.

Bem pior é não querer jogar. É o pragmatismo focado apenas no resultado, que busca os três pontos sem grandes ideias além de fazer tudo para evitar o gol do rival e buscar o seu através de bolas paradas, jogadas aéreas. Uma vez conquistada a vantagem o jogo acaba porque não há confronto de ideias ou de propostas. Só há o placar final. Legítimo e eficiente, mas o que acrescenta?

Não foi o que vimos em Manchester nem em outras partidas com equipes atuando com cinco na defesa. Nem nos seis corintianos no Horto há pouco mais de um ano. Porque os times mais modernos são dinâmicos, adaptáveis. Inteligentes. Sem abrir mão da técnica, do jogar bem. A vitória é mera consequência.

 


< Anterior | Voltar à página inicial | Próximo>