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Sai Paulinho, entra Arthur: seleção deve seguir mudança do Barcelona
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André Rocha

Foto: Divulgação/Barcelona

Arthur já recebe elogios pelos primeiros treinamentos no Barcelona. A impressão geral é de que o meio-campista brasileiro de 21 anos contratado por cerca de 31 milhões de euros parece ter sido formado em La Masia e já surgem até comparações com Xavi e Iniesta. Apesar de algum exagero e da precocidade no paralelo com os dois maiores jogadores da história do futebol espanhol, não é nada absurdo para quem acompanhava sua evolução no Grêmio. Saiu como o melhor passador do país, disparado.

A tendência é que Arthur alterne com Busquets e Rakitic nas duas funções por dentro na segunda linha de quatro do 4-4-2 que foi a marca da equipe campeã espanhola e da Copa do Rei na última temporada. Pela direita, Willian pode ser a novidade, já que Dembelé não se afirmou, também por problemas físicos, e a perda da titularidade na França que ganhou corpo para ser campeã mundial fez com que diminuísse ainda mais seu prestígio no clube catalão. O atacante pode sair para a Internazionale.

O brasileiro, ainda definindo sua vida no Chelsea agora comandado por Maurizio Sarri, se juntaria a Messi, Suárez e Philippe Coutinho, este herdando definitivamente a vaga de Iniesta pela esquerda. Um quarteto de intensidade e rapidez que dentro da filosofia do Barça pede mais controle, precisão nos passes e variações no ritmo dos meio-campistas pelo centro.

Esta é a correção de rota do Barça que se completa com a volta de Paulinho para o Guangzhou Evergrande. Contratado a pedido de Messi e com o aval do novo treinador, o volante era uma opção de infiltração, imposição física e jogo aéreo num time que pecava pela previsibilidade e por insistir numa posse muitas vezes inócua.

Ao longo da temporada, porém, o brasileiro se mostrou com muitas dificuldades para participar da construção das jogadas, contrastando demais com o estilo de seus companheiros. A provável conclusão do treinador Ernesto Valverde: com Messi recuando para articular é melhor que a infiltração parta dos ponteiros em diagonal ou de Suárez. O meio-campo é para pensar o jogo e circular a bola. Por isso a “troca” de Paulinho por Arthur é tão marcante.

Lógica que deve ser também a da seleção brasileira, com ou sem Tite. Já que Casemiro se mostrou tão fundamental na proteção da defesa, a presença de Arthur se torna ainda mais necessária. Para este que escreve cabia já no grupo de 23 que disputou o Mundial na Rússia, mais ainda com a lesão de Fred e sua injustificável permanência entre os convocados. Porque ficou clara a dificuldade na articulação das jogadas a partir da intermediária, obrigando Coutinho a recuar muito para auxiliar. Mesmo defensivamente a tendência é que o posicionamento se ajuste pelas características de volante do agora jogador do Barcelona.

O futuro da seleção no ciclo até a Copa de 2022 depende demais da adaptação de Arthur ao novo clube. Uma decepção como foi, por exemplo, a passagem de Lucas Silva pelo Real Madrid manterá o nosso futebol estacionado, com seu maior “gargalo”: a ausência de um jogador de meio-campo que atue de área a área. Defendendo, organizando, acionando os atacantes e até aparecendo para finalizar.

O que Paulinho nunca foi e Renato Augusto tentou ser, mas no mais alto nível ficou devendo, até pelo abismo entre a principais ligas do mundo e a chinesa. O nome é Arthur e, ao menos por enquanto, não há um “plano B”. Oremos!


Tite merece as críticas justas e um ciclo completo até 2022
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André Rocha

Foto: Luis Acosta/AFP

Todo mundo já encontrou pela vida uma pessoa da qual se podia discordar e até se aborrecer com suas palavras e atos. Mas o respeito era obrigatório pela certeza de que, acertando ou errando, ela sabia o que estava fazendo.

Assim é Tite na seleção brasileira. Talvez o treinador mais preparado e bem informado a prestar serviços à camisa verde e amarela cinco vezes campeã do mundo. Também o mais atuante, criando uma rotina de observação e planejamento com sua comissão técnica nunca antes vista na CBF. Necessária pelo equilíbrio que o futebol no universo das seleções vem apresentando nesta Copa.

De 1970 para cá, o comando técnico sempre pareceu algo mais ligado à intuição, que também é importante. De Zagallo a Felipão e Parreira. Com ideias mais assentadas no futebol brasileiro, sem abrir muito os horizontes. Mas que atrelada ao conhecimento ficam bem mais sólidas. Inclusive para convencer os jogadores. As serpentes que precisam ser encantadas.

Como sempre acontece, Tite chamou atenção mais pela forma do que pelo conteúdo. A maneira quase messiânica de se comportar e comunicar foi vista por muitos como uma liderança que poderia até se arriscar na política. Foi bem aproveitada pela publicidade, inclusive. Para outros não passou de um discurso enfadonho, requentando estratégias de autoajuda, coaching e misturando com termos complexos.

De fato, em alguns momentos a linguagem poderia ter sido mais simples. Mas os jogadores, que, a rigor, são os que precisavam entender o que era dito por Tite sempre foram só elogios.

Escolhas são muito particulares. Sempre. Envolvem questões que vão muito além do desempenho puro e simples. Numa Copa do Mundo, fazer mudanças constantes pode gerar instabilidade na gestão do grupo. Desconfiança. A linha é muito tênue. Pegue qualquer documentário sobre um time campeão e sempre haverá aquele jogador contestado, mas que ganhou um voto de confiança e reescreveu sua história e a da equipe. Quando perde vira teimosia.

É óbvio que cada um pensa de um jeito. Este que escreve, para começar, não teria aceitado o convite e, consequentemente, a presença na coletiva de apresentação e muito menos o beijo de Marco Polo Del Nero em 2016. Sem escorregar na coerência.

Uma vez lá, teria convocado Arthur, do Grêmio. Potencialmente nosso melhor jogador em um setor crucial e carente no futebol brasileiro. Não teria mantido Fred no grupo com uma contusão grave e sem poder contribuir em campo. Talvez retornasse ao time da Eliminatória, com Renato Augusto no meio-campo dando maior suporte a Marcelo, Coutinho com liberdade de movimentação e o espaço para Gabriel Jesus se movimentar e Paulinho infiltrar. Uma voz mais firme com Neymar seria bem-vinda no processo.

Faltou um pouco de sorte também. Quando Tite sinalizou que faria a mudança que poderia ajustar a seleção, como Mazinho na vaga de Raí em 1994 e Kléberson no lugar de Juninho Paulista em 2002, Douglas Costa se lesionou e fez o técnico recuar e manter Willian.

Trocar Gabriel Jesus por Firmino pura e simplesmente nunca se mostrou uma opção tão segura. No segundo tempo da derrota para a Bélgica, o atacante do Liverpool também teve erros técnicos e chegou atrasado na hora de finalizar. A jogada desequilibrante foi de Jesus, pouco antes de ser substituído: caneta em Vertonghen e uma disputa com Kompany que a arbitragem poderia ter interpretado como pênalti.

Não era para ser. Mas pode ser melhor no Qatar. Desta vez com um ciclo completo de quatro anos. Mais habituado à tarefa de selecionar e com mais vivência, inclusive de Copa do Mundo. Mas principalmente porque Tite é disparado o melhor treinador brasileiro. Abaixo dele há uma grande névoa de profissionais ainda buscando afirmação. Sem a combinação de conteúdo e experiência, inclusive como jogador. Domina a prancheta e o vestiário. É atualizado e acompanha obsessivamente a bola jogada no país e no mundo. Não há “plano B”.

A crítica pela crítica é bem fácil. Em qualquer tempo, porque a chance de ser derrotado é sempre maior do que vencer. Então basta procurar defeitos até onde não existem, insistir para marcar território e no momento do revés capitalizar vendendo a imagem do isento em meio ao “oba oba”. No Brasil do pensamento binário, o que não for pancada é “passar pano”.

Difícil é ser justo no tom para discordar, mas reconhecendo o valor quando desmerecer é mais simples por conta de um resultado. A CBF tem a oportunidade de fazer a coisa certa e dar sequência ao trabalho. Com os devidos ajustes e a “casca” e o aprendizado de uma derrota doída. Ela deve isso a Tite, inclusive. Afinal, roubou dois anos de trabalho com a aventura de resgatar Dunga.

Tite é humano e carrega suas falhas e idiossincrasias. Pode e deve ser questionado. Mas lança um desafio que só acrescenta: para discordar é preciso conhecer. O simplismo de “falta um camisa dez”, “centroavante só é bom quando faz gol” e outros clichês não cabe mais. Que sejamos todos melhores no próximo ciclo até 2022.

 


Vitória em jogaço traz a resposta para o Palmeiras: faltava confiança
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André Rocha

Foi o melhor jogo do Brasileirão 2018 até aqui. Mesmo com a queda de qualidade na segunda etapa com a saída de Maicon. O Grêmio, que vem sofrendo sem Ramiro, perdeu ainda mais força no meio-campo. E Arthur também deixou o campo, restando ao time de Renato Gaúcho partir para o “abafa” nos minutos finais.

Nada que tire o mérito da vitória do Palmeiras por 2 a 0, no reencontro de Roger Machado com a Arena do tricolor. Com sua equipe em nenhum momento se limitando a defender. Apostando nos movimentos de Hyoran e Dudu cortando da ponta para dentro e Willian se movimentando e finalizando muito. Além dos dois gols, duas finalizações nas traves de Marcelo Grohe no primeiro tempo. Agora tem seis e é artilheiro da competição junto com Roger Guedes.

O grande destaque da segunda vitória seguida do alviverde, depois da virada por 3 a 1 sobre o São Paulo. Trazendo a resposta para a dúvida que persistia. Time mal treinado ou falta de confiança? A pressão sobre Maicon e Arthur prejudicando a fluência gremista e a velocidade nas ações ofensivas, desde os passes no meio com Felipe Melo e Bruno Henrique, mostraram claramente a estratégia para o duelo. Ainda que 29 faltas, nove sobre Luan, tenha sido um exagero. O desempenho coletivo, porém, foi consistente.

Foram oito finalizações, mas cinco no alvo. Posse dividida e acertou apenas vinte passes a menos que o adversário. Desarmou, interceptou e driblou mais. Jogando de igual para igual contra uma equipe que mesmo desfalcada seguia intimidando em seus domínios.

Resgatando a força mental para se impor e encerrar uma sequência de 15 partidas sem derrotas em casa do campeão da Libertadores. Também se recolocar matematicamente na condição natural de um dos favoritos ao título. E, o mais importante, ganhar confiança e créditos para o momento de pressão absurda que vem a cada derrota. Algo desproporcional, sem propósito e que pouco ajuda na evolução do desempenho. Ainda mais no Brasileirão do perde-ganha. Que sirva de aprendizado para a sequência da temporada.

(Estatísticas: Footstats)

[Em tempo: SIM, o Palmeiras também tinha desfalques – Antonio Carlos, Edu Dracena, Diogo Barbosa, Keno, Borja… É importante deixar claro, ainda que o texto seja só elogios à atuação palmeirense e a menção às ausências gremistas tenha um contexto dentro da frase. Afinal, no Brasil do pensamento binário para muitos torcedores o que não é elogio só pode ser perseguição ou coisa de “anti”.]


De Flávio Costa a Tite, toda escolha é julgada pelo resultado final da Copa
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André Rocha

Foto: CBF/Divulgação

Talvez não houvesse 7 a 1 em 2014 se doze anos antes o chute de Neuville no início do segundo tempo da final da Copa do Mundo, também entre Brasil e Alemanha, não tivesse parado em Marcos e na trave esquerda. Ou alguém imagina Luiz Felipe Scolari voltando tranquilo para seguir sua carreira no país depois de perder a decisão do Mundial na Ásia para uma Alemanha enfraquecida, sem o craque Ballack, e deixando Romário fora da lista final enfrentando um clamor popular poucas vezes visto?

O que seria de Carlos Alberto Parreira em 1994 sem o tetra? Talvez viajasse direto dos Estados Unidos para assumir o Valencia. Certamente lembrariam da falta de um meia criativo como plano B para a irregularidade de Raí. Ou não ter ousado enfiando mais um atacante, Viola ou o menino Ronaldinho, junto com Bebeto e Romário.

Por outro lado, quem lembraria da romaria de políticos em campanha por São Januário na véspera da final de 1950 no Maracanã ainda que o Brasil conquistasse seu primeiro título mundial com um suado empate contra os uruguaios? E quem criticaria Flávio Costa, considerado “carioca” demais pelos paulistas e “vascaíno” demais no Rio de Janeiro?

O mesmo vale para Telê Santana em 1982. Curioso lembrar que até a derrota para a Itália a seleção brasileira era a favorita absoluta ao título, jogando um futebol considerado de outro planeta. Mas bastou ser eliminada para que Waldir Peres, Luisinho, Júnior, Cerezo e Serginho Chulapa fossem contestados como titulares. Meio time. Se Zoff não segurasse sem rebote a cabeçada certeira de Oscar no ataque final e a caminhada fosse segura para o título, estes mesmos jogadores hoje seriam lembrados como os herois de 1970.

Até Zagallo poderia virar alvo se a considerada maior seleção de todos os tempos tivesse sido vencida pelo nervosismo ao sofrer o gol do uruguaio Cubilla que abriu o placar da semifinal no México. Talvez cobrassem Marco Antonio na lateral esquerda no lugar de um Everaldo que se limitava a defender. Ou Paulo César Caju na vaga de Rivelino ou Gérson. Quem sabe até o contestado Dadá Maravilha não seria uma “solução”?

Sem contar Vicente Feola, que apostou em Pelé e Garrincha, dupla que, segundo o psicólogo a serviço da CBD, não teria capacidade cognitiva e equilíbrio emocional para disputar uma Copa. Se a anfitriã Suécia fosse mais um país a usar o fator casa para conquistar um título mundial, algo perfeitamente plausível, é bem provável que por aqui a linha de quatro na defesa e a utilização de um ponta recuando para se juntar à dupla de meio-campistas demorassem bem mais tempo para acontecer. Viraram vanguarda porque o “escrete” voltou com a taça.

No Brasil é corriqueiro dizer que o “se” não entra em campo. Mas a partir do momento que o resultado final norteia toda a análise e surgem os “profetas do acontecido” para dizer o que devia ser feito pelos derrotados e apontar os “segredos” dos vencedores, vale o exercício de imaginar o que seria caso vencidos e campeões trocassem os papéis.

O resultado é consequência das escolhas, sim. Mas também de uma infinidade de fatores, inclusive a sorte. Ou o imponderável. Um detalhe. A bola que bate na trave e quica dentro ou fora da meta. A arbitragem que erra a favor ou contra. Escorregar para fazer ou salvar um gol.

Todas as decisões podem ser questionadas. Antes, durante e depois da competição. O problema está no parâmetro único para este julgamento dos treinadores da seleção brasileira: ganhar ou perder.

Tite pode e diz que aceita ser contestado por não ter levado Arthur e Luan. Ou porque incluiu na lista final Fagner, Taison, Fred…Assume a dificuldade que é escolher. Mas merece respeito por ter trabalhado como nenhum outro treinador na história da seleção brasileira. Ele e sua comissão técnica. Acompanhando jogos in loco, na TV e até treinamentos. Estudando, atualizando, aprimorando. Em menos de dois anos de trabalho. Para enriquecer a análise e embasar as decisões. Com desempenho e resultado em campo sinalizando que a rota está correta. Ao menos até aqui.

Só que nesta terra cinco vezes campeã do mundo a derrota sempre é para si mesmo. Não há mérito do adversário. Basta fazer tudo certo que ninguém nos supera. Ainda que a Alemanha seja campeã do mundo, a Espanha jogue o melhor futebol dos últimos tempos e um português e um argentino estejam fazendo história há uma década. Somos imbatíveis. Se perdermos foi porque alguém errou.

Então se o resultado esperado na Rússia não vier o discurso já estará pronto. Mesmo que Tite mande a campo Roberto Firmino e Douglas Costa, destaques da temporada em Liverpool e Juventus, e eles até saiam do banco para melhorar o desempenho, se vier a eliminação a culpa recairá sobre a presença de Taison entre os reservas.

Usando apenas um exemplo no universo dos clubes, chega a ser engraçado ouvir ou ler que hoje”falta gente no banco para mudar o jogo” e lembrar que em 2006 os torcedores do Internacional explodiram no Orkut, a grande rede social da época, quando Abel Braga chamou o contestado Adriano Gabiru para entrar em campo. Numa final de Mundial de Clubes contra o poderoso Barcelona de Ronaldinho Gaúcho. Podia ter dado bem errado…

Como pode acontecer de tudo na trajetória brasileira em mais uma Copa do Mundo. Só uma coisa não vai mudar. Desde Flávio Costa até Tite. O julgamento será pelo resultado final. E só. Pouco, mas é o que tem para hoje. E ontem. Sempre.


É o melhor Grêmio que vi jogar, mesmo que não se torne o maior da história
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André Rocha

Renato Gaúcho costuma dizer que o Grêmio em que jogou nos anos 1980 era melhor que o atual porque na época havia mais craques. Opinião que merece respeito. Afinal, ele atuou em um e dirige o outro. Mas este que escreve viu, inclusive em estádio, jogar a equipe campeã da Libertadores em 1983, finalista do torneio continental do ano seguinte e do Brasileiro em 1982.

Podia ser competitiva, guerreira, eficiente. Mas na bola jogada a equipe atual sobra. Inclusive em comparação com outras, com a também campeã da América em 1995. Começando pelo meio-campo, com Maicon, Arthur e Luan. Jogadores muito melhores que China, Bonamigo, Osvaldo, Vilson Tadei, Tita…Também Dinho, Emerson, Arilson, Luis Carlos Goiano, Carlos Miguel…

É bonito ver o atual campeão sul-americano jogar. E que bom quando Renato Gaúcho coloca os titulares também no Brasileiro. Infelicidade do Santos, que saiu da Arena em Porto Alegre com um 5 a 1, fora o baile.

Não que a equipe de Jair Ventura tenha se entregado desde o início. Procurou fechar bem os espaços, com duas linhas de quatro compactas e deixando Gabigol e a joia Rodrygo mais adiantados. Conseguiu relativamente bem, apesar da dificuldade para sair jogando diante da pressão do time da casa.

Até Maicon colocar no ângulo de Vanderlei em chute de fora da área, mais um recurso de uma equipe cada vez mais completa. Infelicidade no gol de Jean Motta logo na sequência, em chute que desviou em Kannemann. Mas tranquilidade e confiança para seguir jogando e construir a goleada na segunda etapa.

Everton, outra vez Maicon em cobrança de falta, André e Arthur. Jogando ao natural. Tocando, girando, dando opção para o jogador que está com a bola. Execução do 4-2-3-1 cada vez mais ajustada. Acelerando e desacelerando quando preciso. 61% de posse, 18 finalizações – metade na direção da meta de Vanderlei. 574 passes, com 93% de acertos.

O Grêmio gosta da bola e o futebol agradece. Se renderá mais taças o futuro dirá. Mas é o melhor Grêmio que vi jogar, mesmo que não se torne o maior da história.

(Estatísticas: Footstats)

 

 


A arte de Arthur no Mineirão e o “desperdício” do Grêmio no Brasileiro
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André Rocha

Foto: Daniel Coelho/Agência PressDigital/GFBPA)

Arthur acertou 96 passes e errou apenas dois na vitória do Grêmio sobre o Cruzeiro por 1 a 0 no Mineirão abrindo a Série A do Brasileiro 2018. Números que dizem menos que a arte do jovem meio-campista de 21 anos, já negociado ao Barcelona, de controlar e ditar o ritmo de jogo.

Com Maicon e Ramiro e mesmo sem Luan, substituído por Cícero, fez o time de Renato Gaúcho atuar como protagonista fora de casa diante de um dos candidatos em potencial ao título nacional. Chegou a ter 70% de posse e fechou a primeira etapa com 61%. Finalizou pouco, apenas cinco vezes, duas no alvo, contra 13 do adversário – só três na direção da meta de Marcelo Grohe.

Na bela ação de Ramiro, o desvio de Cícero e o gol do estreante André. Ratificando no placar uma superioridade clara do campeão da Libertadores e gaúcho sobre o da Copa do Brasil e mineiro que, mais uma vez, ficou devendo futebol em um grande desafio. O tricolor tem uma maneira definida de jogar que vai se aprimorando com o entrosamento de uma base pouco mexida ao longo do tempo. Mesmo sem Geromel, gripado, e depois Kannemann, expulso, a retaguarda sofreu pouco.

Também porque conta com o meio-campista mais completo e promissor do país. Arthur é um luxo em campo. Passes curtos e longos. Para trás criando espaços, para o lado mantendo o controle e para a frente acelerando os ataques. É para Tite olhar com carinho e pensar. Na seleção brasileira não há ninguém com as mesmas características. O mais próximo é Renato Augusto, que perdeu espaço por não acompanhar a competitividade dos demais atuando na China.

O futebol jogado no Brasil pode não ser parâmetro. Mas a inteligência de Arthur em campo é um norte seguro para o Grêmio. Depois que voltou à equipe titular o desempenho coletivo só cresce. Não é por acaso que o gigante catalão, com tradição em meio-campistas talentosos da estirpe de Xavi e Iniesta, tenha desembolsado cerca de 30 milhões de euros acreditando ter um jogador pronto e com um grande lastro de evolução.

Arthur fica no Rio Grande do Sul até o final do ano. Ou seja, poderia disputar o todo Brasileirão. Com chances reais de título ao lado do atual campeão Corinthians e mais alguém que surgir forte no caminho. O problema é que o clube tem uma cultura que despreza os pontos corridos.

Quando foi vice em 2008 e 2013, o tricolor gaúcho não disputou Copa do Brasil ou Libertadores em paralelo. Agora, na primeira rodada, Renato Gaúcho já poupou Luan e afirmou o discurso de dar descanso a atletas ao longo da competição. Mesmo garantindo que entra em todos os campeonatos para vencer, está claro que quando for preciso novamente mandará a campo reservas nos pontos corridos. O foco será manter uma colocação que garanta a vaga para a próxima edição do torneio continental no caso de não vencer as outras competições.

Parece pouco. O Grêmio é um caso único entre os clubes do país: possui mais conquistas da Libertadores que do Brasileiro. Três a dois. O último em 1996, ainda com a fórmula de etapas eliminatórias. Agora, pelo visto, só há alguma chance se ficar de fora dos outros torneios a tempo de uma arrancada nos pontos corridos. Ou conseguir o feito de se manter competitivo em todas as frentes. Improvável.

O Grêmio é copeiro e deve se orgulhar muito desta cultura. Mas não deixa de ser um “desperdício” imaginar que ficaremos privados do melhor do campeão sul-americano em vários jogos da principal competição nacional. Inclusive do talento de Arthur.

(Estatísticas: Footstats)


Palmeiras e Grêmio começam a sobrar no país e tudo parte do meio-campo
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André Rocha

Independentemente do que acontecer nas decisões estaduais em São Paulo e no Rio Grande do Sul e também das campanhas invictas até aqui na Libertadores, a análise de desempenho, com mais ênfase nas atuações recentes, sinalizam que Palmeiras e Grêmio começam a se desgarrar dos demais como os melhores times do país.

Equipes que alternam posse de bola para controle do jogo e intensidade nas transições ofensivas e defensivas e na pressão logo após a perda da bola. Times inteligentes. Consciência que parte do meio-campo.

Reunir Arthur, Maicon e Luan de um lado e Felipe Melo, Bruno Henrique ou Moisés e Lucas Lima do outro, para o nível do futebol jogado no Brasil, é garantir eficácia nos passes desde o início da construção das jogadas e variação de ritmos de acordo com a necessidade.

O entrosamento e a combinação de características fazem o trio do Grêmio render mais e protagonizar belos lances. Sem contar a confiança pelos títulos recentes e o trabalho de Renato Gaúcho já bem assimilado. Roger Machado ainda está no início de seu trabalho e, por consequência, está um passo atrás.

Aliás, curioso observar que os treinadores acabaram influenciando um no trabalho do outro, direta ou indiretamente. Renato recebeu o Grêmio de Roger, manteve a ideia e o modelo de jogo a partir da posse de bola e das triangulações e efetuou ajustes tornando o time mais rápido e contundente na frente, intenso no trabalho defensivo e atento nas bolas paradas.

Exatamente o que Roger vem alterando em seu repertório, agora no Palmeiras. Até pela urgência de resultados para se estabilizar no comando do time mais pressionado do país em 2018. Na impossibilidade de contar com tempo para fazer com que a marcação por zona não seja passiva como aconteceu especialmente diante do Corinthians na fase de grupos do Paulista, o comandante agora estimula os encaixes e algumas perseguições individuais mais longas para garantir a concentração dos atletas.

Um pouco de Renato, outro tanto de Cuca, último técnico campeão no alviverde. Para evitar problemas como os que Alberto Valentim passou. Basicamente, adiantar a última linha de defesa, mas sem fazer pressão no adversário sem a bola e fechar as linhas de passe.

Com a posse, o Palmeiras roda a bola , concentra jogadores de um lado, preferencialmente o esquerdo, até a bola chegar a Felipe Melo ou Lucas Lima quando este recua e acontece a inversão rapidamente buscando o ponteiro do lado oposto. Normalmente Dudu, que vem crescendo de produção no setor direito. Com mais volume de jogo e ações de ataque com profundidade, Borja também cresce como o artilheiro do time no ano.

Assim como Jael, substituto de Lucas Barrios e a mudança mais significativa na virada do ano, aproveita o momento positivo para arriscar cobranças de falta, assistências de letra. Mais os gols, completando as jogadas bem articuladas. O entrosamento com Everton, que infiltra em diagonal para se juntar ao centroavante, só torna os ataques mais fluidos e com momentos de beleza. Coisa rara por aqui.

É óbvio que há ainda muita margem de evolução e alguns jogos pelo estadual – no caso do Grêmio, mesmo na final – não servem como parâmetro seguro para avaliações mais profundas. Ainda assim, a proposta e a execução parecem mais alinhadas, potencializando o talento através do trabalho coletivo. Com o toque diferente no meio-campo.

Domingo ambos podem levantar taças. Para o Grêmio significaria o fim de um período de oito anos sem conquistas na competição. Já o Palmeiras ganharia mais confiança para seguir a sua saga na temporada em que todos não aceitam menos que o máximo em conquistas.

O que se espera é que se algo der errado em termos de resultado o trabalho até aqui não seja descartado. Seria um desperdício. Mais um na terra do futebol de resultados.


Uma convocação para questionar Tite: afinal, quais são os critérios?
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André Rocha

Tite fala em meritocracia, observar jogadores atentamente nos principais centros – não só jogos, mas também treinamentos. Avaliar potencial e desempenho nos clubes, mas também o lastro de experiência, inclusive na seleção.

Tudo muito justo. E o momento, de fato, é de testes, experiências e observações. Abrir o leque, deixar claro para os jogadores que não há nada fechado ou consolidado para o Mundial do ano que vem.

Mas nada, absolutamente nada justifica a convocação de Diego Ribas, do Flamengo. Vivendo uma fase de atuações pífias pelo Flamengo. Fez o gol da classificação para a final da Copa do Brasil e não mais que isso. Erros técnicos, o velho defeito de prender demais a bola e atrasar a tomada de decisão.

Convocar Diego é um tapa na cara de todos que esperam uma oportunidade. Até o redivivo, mas sempre contestado Paulo Henrique Ganso vive um melhor momento no Sevilla. Para não mencionar Lucas Lima, novamente destaque no Santos.

Diego Tardelli tem 32 anos, atua na China e, mesmo vivendo bom momento (11 gols em 13 partidas) soa absurdo. Se fosse alguém com amplo histórico na seleção, com conquistas e capacidade de impor respeito aos adversários seria compreensível. Neste momento é outro murro nas possibilidades de quem está brilhando em outros centros. Até Malcom, ex-Corinthians, voando no Bordeaux e que trabalhou com Tite no título brasileiro de 2015.

Mesmo Arthur pode ser questionado, apesar de todas as qualidades de meio-campista atual, que marca e joga. Porque dá a impressão de que um curto período de brilho jogando no futebol brasileiro vale mais do que atuações consistentes por mais tempo em ligas mais competitivas. Como, por exemplo, Allan do Napoli e Fabinho do Monaco. O mesmo vale para o retorno de Fred, do Shakhtar Donetsk.

E se Arthur é convocado pelo que fez no Grêmio, por que não Pedro Rocha, igualmente protagonista e que poderia ser chamado na vaga de Diego Tardelli? Se a ideia é testar uma alternativa ao Roberto Firmino, por que não Jô, que, inclusive, abriria a possibilidade de experimentar um centroavante com características de pivô? Se desempenho na China vale, por que não Ricardo Goulart na vaga de Diego?

Afinal, quais são os critérios, por mais subjetivos que sejam? As respostas na coletiva mais confundiram que esclareceram. E, infelizmente, a pergunta direta sobre a ausência, mais uma vez, do goleiro Vanderlei carregou uma ironia que deu a deixa para o desvio da questão central: o mérito.

No mais, a manutenção de uma base que formará o time titular é compreensível para enfrentar Bolívia na altitude e Chile campeão da Copa América e em busca de uma vaga na Copa. As novidades da lista é que foram mais que questionáveis.

Tite tem créditos. Muitos. Inegável seu trabalho abnegado de observação e estudo. Mas não pode ser blindado. O mais importante a partir de agora é experimentar. Nesta primeira lista, as escolhas não foram das mais felizes.

[Em tempo, para não ser injusto: Danilo é uma boa opção. Fagner vem mal no Corinthians e convém pensar em um outro nome para reposição ao Daniel Alves]


Botafogo 0x0 Grêmio: empate no conflito entre o possível e o desejado
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André Rocha

O Botafogo de Jair Ventura sabia que precisava adicionar um pouco de coragem e presença no campo de ataque no Nílton Santos para não repetir o erro da semifinal da Copa do Brasil contra o Flamengo e também pelos desfalques importantes do adversário que aumentavam as chances de vitória para levar vantagem para a volta. Mas também tinha noção de quem um jogo de controle de espaços seria viável pensando nos 180 minutos.

O Grêmio tinha noção de que precisava ter mais cuidados defensivos por não contar com Geromel, Michel e Luan, porém a ideia de ir às redes no Estádio Nilton Santos e encaminhar a classificação era sedutora, até pela proposta de jogo que automatiza movimentos independentemente da escalação. Trabalhar a bola, triangular, deslocar, atacar em bloco.

O resultado foi um conflito entre o possível e o esperado. Uma incerteza que até deu algum tempero à disputa.

Porque o jogo teve mais espaços entre as linhas de marcação, mais “trocação” que o esperado. Jair Ventura trocou Lindoso por Leo Valencia. Manteve a estrutura do 4-3-1-2 desmembrado em duas linhas de quatro sem a bola, porém bloqueando menos a entrada da área e chegando na frente com mais gente. O problema, novamente, foi a falta de criatividade e da eficiência nas conclusões – apenas cinco, nenhuma na direção da meta de Marcelo Grohe. Apesar da entrega de sempre de Rodrigo Pimpão e Roger.

O Grêmio com Bressan na zaga, Jailson à frente da defesa e Leonardo Moura, aos 39 anos, como meia central. No entanto, quem dominou o meio-campo foi Arthur. Marcando, jogando, apoiando e aparecendo sempre livre. O melhor em campo, embora Fernandinho também tenha desequilibrado o sistema defensivo do oponente com dribles e velocidade. Protagonistas de um domínio com 54% de posse e 11 finalizações, quatro no alvo. Consequentemente fazendo de Gatito Fernández mais uma vez o grande destaque da equipe carioca.

Faltou o básico, mas previsível pelo contexto: mais qualidade para a jogada diferente e a finalização precisa. Empate sem gols que inverte a lógica, ou a restabelece para os 90 minutos finais em Porto Alegre: Grêmio provavelmente completo e se instalando no campo do Botafogo, que vai fazer seu jogo de compactação, concentração absoluta e transições em velocidade em busca do golpe letal.

Um cenário mais confortável para os dois, mas que também trará mais armadilhas e menos tempo de recuperação. Nenhuma certeza, só a esperança de mais futebol por uma vaga na semifinal da Libertadores.

(Estatísticas: Footstats)

 

 


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