Blog do André Rocha

Arquivo : atleticomineiro

Onde você estava no dia 24 de janeiro?
Comentários Comente

André Rocha

Atlético-MG x São Paulo. Internacional x Flamengo. Palmeiras x Atlético-PR. Ainda Santos x Grêmio na quinta-feira. Jogos grandes e importantes para o Brasileiro. Todos os envolvidos são campeões nacionais. A 23ª rodada é daquelas que num campeonato por pontos corridos podem definir muita coisa. Ainda mais no meio da semana, sem mata-mata e times poupando seus atletas.

Mas será disputada em meio à data FIFA. Muita reclamação dos clubes com jogadores convocados por Tite, porém desfalcados também pelos estrangeiros que servem suas seleções. Everton, Kannemann, Arboleda, Paquetá, Cuellar, Trauco, Chará. Mais as ausências comuns por cartões e lesões. Neste último caso, também pelo acúmulo de jogos na temporada.

As principais ligas paradas para as seleções jogarem e a gente aqui descascando batata no porão. De novo. Por quê?

A resposta genérica é o calendário inchado. Mas podemos ser mais específicos. Onde você estava no dia 24 de janeiro deste ano?

Nesta quarta feira, na qual os times poderiam estar fazendo sua pré-temporada com tranquilidade – em especial o Grêmio, que entrou de férias depois dos demais porque disputou o Mundial de Clubes -, o São Paulo venceu em casa o Mirassol por 2 a 0, o Corinthians fez 2 a 1 sobre a Ferroviária. Mesmo placar da vitória do Palmeiras sobre o Red Bull Brasil no dia seguinte, enquanto o Santos perdia por 1 a o para o São Bento.

Enquanto isso, no Rio de Janeiro o Flamengo vencia o Bangu por 1 a 0, o Vasco era derrotado pela Cabofriense por 2 a 1 e o Fluminense empatava sem gols com a Portuguesa da Ilha. Na quinta, vitória do Botafogo sobre o Macaé por 2 a 1. No Rio Grande do Sul, o Grêmio perdeu para o Avenida por 3 a 2 e o Internacional foi superado pelo Caxias por 2 a 1. Em Minas, o Cruzeiro enfiava 5 a 0 no Uberlândia e o Atlético, na quinta, perdia para o Villa Nova por 1 a 0.

Você lembra dessas partidas? Com todo o respeito que as equipes de menor investimento merecem, não dá para dizer que foi uma rodada de meio de semana perdida? A maioria de jogos deficitários, alguns com os grandes utilizando reservas e resultados que pouco interferiram no destino dos clubes dentro da temporada. Mesmo para quem valoriza os estaduais, até pelas boas cotas de TV, não dá para negar que foram datas jogadas no lixo.

Pois é…Se o seu time vai jogar hoje ou amanhã dentro de uma data FIFA, na qual poderia estar recuperando e treinando para se fortalecer e apresentar um desempenho melhor na volta do campeonato, é por causa desse 24 (e 25) de janeiro que só alimenta uma estrutura federativa ultrapassada, pouco eficiente e eficaz na gestão do futebol brasileiro.

É chato bater sempre na mesma tecla. Mas enquanto os mesmos erros forem cometidos pelos clubes que aceitam ser explorados e exauridos, nada fazem pensando no todo e só reclamam quando se sentem prejudicados será inevitável. Mais do mesmo. Uma pena.


São Paulo é “campeão” do turno porque lidera estatísticas mais importantes
Comentários Comente

André Rocha

Foto: Luciano Belford/AGIF

Ser líder em passes certos e posse de bola é importante e o Grêmio pode celebrar o feito em 19 rodadas do Brasileiro, até porque não utilizou os titulares em todas as 19 rodadas. Sinal de que o modelo de jogo da equipe de Renato Gaúcho está mais que assimilado.

Ostentar o ataque mais positivo e finalizar mais que os concorrentes também são boas notícias, como no Atlético Mineiro. Comprova em números que a proposta ofensiva do jovem treinador Thiago Larghi consegue ser efetiva, como nos 3 a 0 sobre o Botafogo no Estádio Nílton Santos. Só precisa equilibrar melhor a relação com o número de gols sofridos (36 a 26).

Por isso o São Paulo é o líder do campeonato e termina como “campeão” do turno. Não marcou mais gols, nem foi a defesa menos vazada, que continua sendo a do Grêmio com oito gols. Mas com 32 marcados e 16 sofridos é o time mais equilibrado. O tricolor gaúcho anotou apenas 23. O vice-líder Internacional, não por acaso, é o segundo neste balanço: 27 a favor, 12 contra. O outrora líder Flamengo perdeu terreno com os 3 a 0 sofridos em Curitiba para o Atlético Paranaense. Agora tem 15 gols sofridos e 29 marcados.

Tão fundamental quanto é outra estatística que o time do Morumbi também lidera: o número de finalizações necessárias para fazer um gol. Quanto menor, melhor. A equipe de Diego Aguirre precisa de apenas seis – o número exato na média é 6.2. O Atlético Mineiro está mais perto de sete (6.9), Internacional de nove (8,6) e Grêmio das dez (9,9).

Em uma disputa tão equilibrada, não desperdiçar tantas chances faz diferença. Principalmente se for a primeira, como na vitória são-paulina por 2 a 0 sobre a Chapecoense no Morumbi. Passe de Edimar, gol de Shaylon. Dois reservas, mas com a eficiência dos titulares. Descomplicaram o jogo transferindo confiança e baqueando o oponente. Quando perde a oportunidade o efeito é inverso.

Pode parecer simplismo, mas quando as equipes no pelotão de frente são parecidas taticamente e niveladas na técnica, a precisão é elemento fundamental. O São Paulo não tem o artilheiro da competição – Pedro, do Fluminense, com dez gols. Mas tem Diego Souza e Nenê com sete e é o único time que conta com dois jogadores entre os cinco primeiros nas assistências: Everton com seis e Joao Rojas com quatro. Retrato da eficiência do quarteto ofensivo do 4-2-3-1 de Aguirre, cada um em sua função.

O melhor para o são-paulino é que é possível vislumbrar uma evolução com apenas o Brasileiro para se dedicar. Aguirre rodou o elenco e resposta foi boa. Mesmo sem o desgaste de competições paralelas é bom ganhar opções para entrar no time e manter o desempenho.

O returno é uma incógnita com o Palmeiras de Felipão conseguindo ser competitivo mesmo utilizando time reserva, Grêmio e, muito provavelmente, o Flamengo se dedicando apenas a um campeonato em paralelo, o Galo consolidando uma reconstrução depois de muitas mudanças no elenco. Principalmente, o Internacional com a tabela indicando todos os duelos com os principais concorrentes no Beira-Rio e também totalmente focado na principal competição nacional.

Seja como for, o São Paulo segue um roteiro vencedor. As estatísticas apenas ilustram a superioridade em 19 jogos, especialmente os sete depois da Copa do Mundo. Os 18 pontos em 21 possíveis mudaram o eixo do campeonato. Méritos de quem encontrou primeiro o equilíbrio.

(Estatísticas: Footstats)

 


Internacional deve perseguir o São Paulo pela mesma “estrada limpa”
Comentários Comente

André Rocha

Teve chuva de granizo, queda de energia e gramado pesado pela forte chuva no Independência. Prejudicou o nível técnico de uma disputa que prometia. No detalhe, o Internacional fez 1 a 0 no Atlético-MG e subiu para 32 pontos, ficando a dois do Flamengo e três do agora líder São Paulo.

Gol de Edenílson, o detalhe tático do amadurecimento do trabalho de Odair Hellmann. Antes um volante, agora um dos meias por dentro, alinhado a Patrick e à frente de Rodrigo Dourado no 4-1-4-1 do time gaúcho que relegou D’Alessandro à reserva e tem Nico López pela direita. Canhoto, cortando para dentro procurando o centroavante – antes Damião, agora o uruguaio Jonatan Álvez. Do lado oposto, William Pottker parte da ponta acelerando e infiltrando em diagonal aproveitando o deslocamento do atacante de referência e abrindo o corredor para as descidas do lateral Iago.

Nada excepcional, mas competitivo. Voltando da Série B, vai aos poucos ganhando confiança. Em Belo Horizonte, alcançou sua terceira vitória como visitante. Sofrendo no primeiro tempo contra um Atlético modificado, mas ainda com a proposta do jovem treinador Thiago Larghi de controlar a posse de bola – terminou com 56% de posse –  e acelerar na frente com Luan e Chará pelos flancos e infiltrar com Elias para não isolar Ricardo Oliveira.

Finalizou 11 vezes contra oito do Inter, podia ter empatado no chute do Luan que bateu na trave esquerda de Marcelo Lomba. O Colorado, porém, confirmou sua solidez defensiva: sofreu apenas 12 gols, junto com o Flamengo e atrás apenas do rival Grêmio, com oito. Mas ultrapassou o tricolor gaúcho na tabela.

Sem Copa do Brasil e competição sul-americana pelo caminho, o Internacional pode priorizar o Brasileiro. Finaliza o turno visitando o Fluminense e recebendo o Paraná. Termina agosto saindo contra o Bahia e enfrentando o Palmeiras no Beira-Rio.

Por que o detalhe para o mês corrente? Exatamente o período complicado para quem ainda vive no torneio nacional e na Libertadores depois da volta da parada para a Copa do Mundo. Particularmente o Flamengo, que já sentiu ao encarar o Grêmio duas vezes e ainda tem três duelos com o Cruzeiro. Apenas dois pontos na frente do Colorado.

Assim como aconteceu com o Corinthians no ano passado, a “estrada limpa” pode fazer a diferença. Se o São Paulo não conseguir reverter na Argentina a desvantagem contra o Colón pela Sul-Americana, só restará para ambos o Brasileiro.

É claro que times que fiquem pelo caminho no mata-mata terão tempo até o início de dezembro para se recuperarem, ainda que com confiança abalada por eliminações quase sempre traumáticas. Mas não deixa de ser uma vantagem dos dois gigantes redivivos para polarizar a disputa pelo título.

(Estatísticas: Footstats)

 


Os problemas de Roger Machado e do Palmeiras não combinam
Comentários Comente

André Rocha

Foto: Thiago Ribeiro/Estadão

A demissão de Roger Machado depois da derrota do Palmeiras por 1 a 0 para o Fluminense no Maracanã não pode ser considerada injusta em uma análise geral.  A equipe enfrentava problemas crônicos no momento de controlar as partidas e seguia deixando espaços demais entre os setores, além de sofrer com falhas de posicionamento na última linha de defesa. Em termos mentais também parecia frágil, sempre mais perto de sucumbir do que de arrancar os três pontos na fibra, embora tenha conseguido contra o Atlético Mineiro no domingo.

Porque Roger dá a impressão de estar vivendo um dilema em sua ainda curta carreira de treinador. Seus trabalhos não se afirmam com o passar do tempo. No Grêmio durou mais porque no primeiro ano não houve exigências. Recebeu terra arrasada de Luiz Felipe Scolari e praticamente com o mesmo elenco montou um time com ideias claras, modelo de jogo bem assimilado e que chegou a ter momentos de encantar torcida e analistas.

Subiu de patamar, inclusive nas expectativas. Mas entrou em um ciclo negativo até a demissão, embora tenha deixado o legado na maneira de jogar. À distância parece não conseguir fazer as correções pontuais e acaba quebrando a relação de confiança com os atletas, em relação à qualidade do trabalho. Foi o diagnóstico de sua passagem pelo Atlético Mineiro. Novamente um início muito bom, mas quando veio a oscilação as cobranças por conta de um elenco estelar, para o nível do futebol jogado no Brasil, diminuíram a paciência e, pressionado, não conseguiu entregar a evolução no desempenho.

Tanto lá quanto agora, os resultados no geral nem são ruins. Repetiu a melhor campanha na fase de grupos na Libertadores. Segue vivo na Copa do Brasil e com mais de um turno para reagir no Brasileiro. O que se questiona é a estagnação e alguns indícios de problemas na gestão do grupo. Algo para se trabalhar em um clube com mais paciência e fora do olho do furacão.

Então chegamos ao cenário dentro do Palmeiras. De pura esquizofrenia. Prometeram um time imbatível com arena própria e rentável e investidor forte. Ainda mais depois de vencer a Copa do Brasil e o Brasileiro em seguida ainda sem abrir os cofres o quanto poderia. Quando se impôs no mercado nacional e sul-americano, na cabeça do palmeirense o mínimo a conquistar era tudo.

Para complicar o ambiente insano, o rival Corinthians – vivendo crise financeira, mas com uma identidade de futebol desenvolvida ao longo dos anos –  venceu Brasileiro e dois paulistas. Agora caiu, porém o São Paulo, outro rival da cidade, sobe e pode assumir a liderança da principal competição nacional. Ou seja, o Alviverde não consegue ocupar o espaço que todos acreditavam que seria seu naturalmente.

A velha mania de achar que tudo se resume a dinheiro. Maior poder aquisitivo é igual a vitórias e títulos. Na Era Parmalat funcionou assim nos melhores momentos. Na fase do investimento da Crefisa está mais difícil. Cuca quando voltou foi tratado como o messias, salvador. Não conseguiu. Agora os alvos parecem ser Abel Braga e Felipão.

Pode dar certo, nada é impossível. Depois do retorno triunfal de Renato Gaúcho ao Grêmio, como duvidar? Mas talvez a maior contribuição dos dois treinadores veteranos agora seria, com o jeito franco e direto de “paizão” de ambos, tentar explicar a torcedores e dirigentes que não há fórmula mágica para vencer e que existe trabalho e investimento também nos concorrentes.

O Palmeiras quer tudo e Roger vem sofrendo quando a cobrança aumenta. Problemas que não combinam. Não podia mesmo dar certo.


Atlético-MG, líder e livre para o Brasileiro. Será o Corinthians de 2018?
Comentários Comente

André Rocha

No dia 8 de maio, o Atlético Mineiro foi eliminado da Copa Sul-Americana no zero a zero contra o San Lorenzo no Estádio Independência – perdera no Nuevo Gasômetro por 1 a 0. Oito dias depois, novo revés em mata-mata, desta vez nos pênaltis após dois empates sem gols contra a Chapecoense. Ainda que tenha utilizado reservas na competição continental e o presidente Sette Câmara chamado o torneio de “segunda divisão” da América do Sul, não deixam de ser eliminações um tanto prematuras de duas das três frentes do time em nível nacional e internacional na temporada.

Mas pode ter um lado bom, por mais paradoxal que possa parecer. E este novo cenário já se fez presente no clássico contra o Cruzeiro no Independência. Pensando na disputa da primeira vaga do Grupo 5 da Libertadores no Mineirão contra o Racing, o rival mandou a campo um time repleto de reservas.

Um deles, o argentino Mancuello, acabou expulso aos três minutos da segunda etapa. Aumentando o domínio atleticano de 64% de posse e 16 finalizações, seis no alvo. A mais precisa de Roger Guedes, artilheiro do Brasileiro com cinco gols. Vitória por 1 a 0 e liderança provisória em seis rodadas, esperando que o Corinthians não vença o Sport na Arena Pernambuco e salte na frente pelo saldo de gols.

Mas mesmo que o atual campeão termine o fim de semana no topo da tabela, mais à frente certamente terá que optar por um time “alternativo”. Porque a equipe paulista já está nas quartas da Copa do Brasil e nas oitavas da Libertadores. Assim como outros favoritos, confirmados ou quase lá. Todos enfrentarão um calendário atropelado, com jogos seguidos, depois da parada para a Copa do Mundo.

Sem as semanas cheias de trabalho e o foco do título corintiano em 2017 – definindo a prioridade desde o início e, por conta da vantagem construída na liderança do turno, tratando a Sul-Americana como uma competição secundária. Deve ser a arma do Galo a partir de agora. Com o jovem treinador Thiago Larghi podendo afirmar sua maneira de jogar que preza a posse de bola e o jogo construído desde a defesa, mas acelera no ataque com Luan, Cazares, Otero e Roger Guedes. Os quatro que se alternam no trio de meias que se junta a Elias na aproximação de Ricardo Oliveira.

Já é o time que mais finaliza, o terceiro em acerto de passes, o quarto em posse de bola. Também o terceiro que mais acerta desarmes. Haverá tempo para aprimorar, potencializando virtudes e minimizando defeitos. Porque serão menos viagens e mais dias de treinamento. Mesmo com todos se nivelando durante o Mundial da Rússia, a vantagem é inegável.

Consequência do novo calendário que vai criando dilemas no futebol brasileiro. A cultura nacional de mata-mata e a visão de que em outras competições o clube precisa de menos partidas para lutar pelo título acaba esvaziando o campeonato que devia ser mais valorizado. Na hora de escolher entre o jogo decisivo agora e o que pode ter os pontos recuperados mais à frente, a opção no nosso imediatismo de todo dia é clara.

É neste “vácuo” que o Atlético Mineiro pode crescer. Quem sabe se transformar no Corinthians versão 2018. Se terminar com a taça que não vem desde 1971, a impressão de temporada ruim de agora será esquecida. Pode até ser o time brasileiro do ano caso algum compatriota não vença a Libertadores. Estranho, não? Mas na prática é assim que funciona.

(Estatísticas: Footstats)


Corinthians sofre sem seu “camisa dez” nas conquistas recentes: o tempo
Comentários Comente

André Rocha

Foto: Daniel Augusto Jr. /Agência Corinthians

Sim, muitos vão dizer que o verdadeiro trunfo corintiano é o “apito amigo”. Tema recorrente. E chato. Porque sempre o alvo é quem está vencendo no período. Já foi o Flamengo, o São Paulo, o Palmeiras, o Fluminense…Agora o maior campeão dos últimos dez anos no Brasil. Coincidência?

O vício de colocar tudo na conta da arbitragem é tão grande que já contaminou até a Liga dos Campeões, cada vez mais popular e com mais jogos transmitidos em TV aberta. O alvo? Claro, o Real Madrid bicampeão e em mais uma final. Um choro que parece inesgotável. Este que escreve prefere ficar com as declarações dos alemães Hummels e Muller após a eliminação do Bayern de Munique: culparam os próprios erros, a incompetência por não transformar 33 finalizações em mais de três gols no confronto. Sem “bengala”. Não por acaso são campeões do mundo.

Voltemos ao Corinthians. Duas derrotas seguidas, para Atlético Mineiro e Independiente. Perdendo os 100% e a liderança no Brasileiro e se complicando no Grupo 7 da LIbertadores, embora siga no topo da classificação e ainda com boas chances de garantir vaga nas oitavas de final.

Momento natural de oscilação na temporada. Todos passam por isto. E o elenco curto, desequilibrado e já desgastado por disputar o estadual até o fim sofre mais. Responsabilidade da gestão, que conta com estádio próprio, receita alta de TV e, mesmo assim, não consegue se equilibrar nas finanças e investir proporcionalmente.

Venceu em 2017 porque contou com o verdadeiro “camisa dez” do Corinthians nas conquistas recentes: o tempo. Para descanso e treinamentos. Do corpo e da mente. Fundamental para a equipe que prioriza o trabalho coletivo, a intensidade e a concentração.

Não houve como Fabio Carille corrigir com um mísero treinamento os muitos erros do revés no Estádio Independência no fim de semana. A preparação para o duelo com o “Rei de Copas” e atual campeão da Sul-Americana em Itaquera teve que ser na base da conversa e dos vídeos. Porque se a ideia é que o treino tenha a intensidade e a dinâmica do jogo, ainda que mais curto, o risco de lesão é praticamente o mesmo de uma partida oficial.

Ano passado não teve essa “roda viva”. Eliminado na Copa do Brasil pelo Internacional antes das oitavas de final e priorizando o Brasileiro durante a disputa da Copa Sul-Americana, o Corinthians teve semanas e semanas cheias de preparação, enquanto os rivais se degladiavam em outras frentes. Abriu vantagem no início e depois administrou até o fim.

O mesmo que ocorreu em 2011, no começo desta trajetória vencedora na década. Eliminado pelo Tolima antes mesmo da fase de grupos do torneio continental e sem a possibilidade de disputar a Copa do Brasil, concentrou esforços no Brasileiro e se impôs contra um Vasco campeão da Copa do Brasil e que se dividiu até o fim entre a principal competição nacional e a Copa Sul-Americana.

No ano seguinte, prioridade absoluta para a Libertadores e, depois da conquista, o Brasileiro foi uma longa preparação de Tite e seus comandados para o Mundial de Clubes. O último brasileiro a superar o vencedor da Liga dos Campeões.

O foco fez a diferença também em 2015. Eliminado nas oitavas da Libertadores e da Copa do Brasil, Tite teve tempo para ajustar seu 4-1-4-1 acrescentando conceitos ofensivos que estudou em seu 2014 “sabático” e fez o time voar na reta final jogando bem e bonito. Mais uma taça para a coleção.

Não é impossível terminar 2018 com mais uma conquista além do bi paulista. A mentalidade vencedora desenvolvida nos últimos anos não pode ser desprezada e se for possível priorizar algo com chances reais de conquista as chances aumentam consideravelmente. A parada para a Copa do Mundo deve ajudar na recuperação do gás para o segundo semestre.

Mas sem tempo entre aviões, hoteis e estádios, a missão fica bem mais difícil. Para qualquer um. Não é por acaso que o único time campeão brasileiro e da Libertadores na mesma temporada tenha sido o Santos de Pelé em 1962/1963. Mas fazendo apenas cinco jogos na Taça Brasil em 1962 e quatro no ano seguinte. E vencer a Copa do Brasil e o Brasileiro é um feito apenas do Cruzeiro de Vanderlei Luxemburgo e Alex em 2003. Campeão da Libertadores e da Copa do Brasil? Não existe. Culpa também de um calendário inchado e que é conivente com a estrutura federativa que sustenta CBF e federações.

Se fracassar, o Corinthians ao menos trará um alento para sua torcida e quem gosta mais de futebol do que de reclamar de arbitragem: sem taças não tem “mimimi”. Ou até terá, porque virou mania nacional. Afinal, dói menos diminuir quem dá a volta olímpica no final.

 


Gol de Roger Guedes “salva” a rodada das teorias da conspiração
Comentários Comente

André Rocha

Arbitragem é ruim no mundo todo. No Brasil um pouco pior pelo ambiente hostil criado pelos próprios jogadores pelas simulações e reclamações exageradas aumentando a tensão e, consequentemente, a margem de erro.

Por isso o árbitro e sua equipe vão errar a favor e contra todos os times, mas, assim como em todos os centros futebolísticos, a chance de na dúvida marcar a favor do clube mais poderoso é sempre maior. É humano. Sem convicção naquela fração de segundo, o instinto de preservação fala mais alto. “Se eu prejudicar o mais forte posso tomar uma ‘geladeira’ mais longa”.

Raciocínio correto? Não. Mas quem se importa de fato? Mais fácil deixar como está e desviar o foco da derrota para a arbitragem ou ser beneficiado e dizer que “o choro é livre”.

O protesto seria imenso caso o Corinthians saísse do Estádio Independência com um ou mais pontos depois do gol validado e em seguida anulado de Roger Guedes pelo árbitro Dewson Fernando Freitas da Silva, por toque na mão de Ricardo Oliveira ainda no primeiro tempo.

Discutível, como todo toque de mão ou braço na área depois das novas orientações da Comissão de Arbitragem. Antes a interpretação correta seria de que não houve intenção do atacante, agora aparecem as teses de “ampliar a área do corpo”, “tirar vantagem do toque”, etc. Sempre foi interpretativo, mas agora as variáveis são muitas e fica tudo a critério da cabeça do apitador.

Se o Corinthians saísse sem derrota, todas as teorias de conspiração sobre o “apito amigo” do campeão brasileiro viriam à tona.  De novo a desconfiança de interferência externa, ainda que Dewson garanta que consultou seu auxiliar. Algo que poderia ser minimizado com a utilização do árbitro de vídeo cujos custos a CBF tentou empurrar para os clubes. Nesse ambiente de pressão máxima, a arbitragem pode acabar apelando para errar menos. Ilegal, mas neste mundo cão pior é errar e ser afastado.

Mas veio outro gol de Roger Guedes na segunda etapa, desta vez validado. E o “melhor”: lance duvidoso de falta do atacante sobre Mantuan, que substituiu o lesionado Fagner. Discutível. Este que escreve viu disputa normal por espaço. Mas “salvou” a rodada. Vitória do time que se impôs em campo durante boa parte dos 90 minutos em Belo Horizonte.

É óbvio que haverá polêmica, até porque ela é estimulada em todas as mídias e ecoa nas redes sociais. Corintianos reclamarão da falta de Guedes; atleticanos e rivais, mesmo com a derrota do então líder do Brasileirão, vão somar este gol anulado aos lances em que os árbitros voltaram atrás e beneficiaram o atual campeão.

Houve também equívocos e lances duvidosos em outras partidas da terceira rodada. Mas aquela obsessão por “campeonato manchado”, com todos falando sobre arbitragem e quase nada sobre os jogos felizmente não vai ocorrer. Ao menos desta vez. Melhor assim.


Qualquer projeção para o Brasileirão é chute, puro e simples
Comentários Comente

André Rocha

Todo ano era a mesma tortura. Fim dos estaduais e logo aparecia alguém pedindo projeções para o Brasileirão. Título, vagas na Libertadores, rebaixados. Em maio. Para um campeonato que acaba no fim de novembro. Com uma janela de transferências que parece nunca fechar. Agora Libertadores, Sul-Americana e Copa do Brasil durando o ano todo.

E quem é pago para analisar tinha que recorrer ao tiro no escuro. Para ser cobrado depois porque para muita gente quem trabalha com futebol tem que ser adivinho e cravar o que vai acontecer, mesmo com tantas variáveis possíveis. Como se jornalistas de Economia ou Política tivessem que prever todas as oscilações de mercado ou diplomáticas e traçar um cenário preciso até o fim do ano para serem considerados minimamente competentes.

Na era dos memes e da zoeira que sempre carrega um pouco de covardia, mas dá para tirar de letra, o que é dito ou escrito tem que valer por seis meses. Se errar logo vêm os mantras “tá fácil ser jornalista”, “por isso não exigem diploma” e outras pérolas dos “jênios” da internet. Os profetas do acontecido que ficam calados no conforto do anonimato para garantirem que sabiam lá atrás e quem é pago para isso tinha que carregar a mesma certeza.

Mas como imaginar o que virá? Mesmo descontando toda a imprevisibilidade do esporte, no Brasil é ainda mais complicado. Imaginem os guias da competição já furados com as prováveis saídas de Everton do Flamengo para o São Paulo, de Maycon do Corinthians para o Shakhtar Donetsk e de Roger do Internacional para o Corinthians.

Sem contar que o time que joga o melhor futebol do país, o Grêmio, até por sua cultura copeira, deve novamente poupar jogadores na competição por pontos corridos e priorizar Libertadores e Copa do Brasil. E o Corinthians, atual campeão e favorito natural, desta vez não terá o respiro do ano passado e também dividirá esforços. Com elencos mexidos o tempo todo.

E os grandes orçamentos, como Flamengo e Palmeiras, regidos pelos humores e arroubos de dirigentes-torcedores, embalados por redes sociais? Com escolhas mais políticas que técnicas. Sem ideias ou norte, ao menos por enquanto. Só agora começam a entender a importância de ter uma identidade, como o Cruzeiro de Mano Menezes vai tentando implementar, mas também muito condicionado a resultados, até pelo alto investimento na formação do elenco.

São Paulo, Vasco, Fluminense, Botafogo, Internacional, Atlético Mineiro, Bahia, Chapecoense, Vitória e o Atlético Paranaense de Fernando Diniz formam um “blocão” de incógnitas que podem circular entre zona de Libertadores e Z-4. Como de costume, Ceará, Paraná e América-MG, os times que subiram além do “gigante redimido”, são cantados como bolas da vez para cair pela famosa dificuldade de se manter depois do acesso. Ainda que Enderson Moreira e Marcelo Chamusca tenham trabalhos consolidados em seus clubes e possam, sim, tornar suas equipes competitivas. Quem vai saber?

Para completar, um campeonato com seus desequilíbrios por forças das circunstâncias. Como um time encarar os reservas do Grêmio e outro sofrer diante da equipe principal de Renato Gaúcho focada naquela rodada específica. Ou o time beneficiado pela perda do mando de campo do adversário. Três pontos que podem fazer toda diferença. Na tabela ou no estado de ânimo de uma equipe.

Por isso o equilíbrio que gera a emoção que muitos confundem como qualidade ou virtude. Será que nossos times vão usar a concentração e a organização não só para defender e teremos times atacando melhor? Ou será novamente o campeonato do futebol reativo, de contragolpe? Nenhum time vive e viverá mais este dilema do que o Santos do DNA ofensivo, mas agora comandado pelo pragmático Jair Ventura.

Com pressão por resultados, viagens e mais viagens e pouco tempo em campo para treinar é difícil imaginar algo mais elaborado. Por mais que os treinadores da nova safra tentem. E ainda tem o vestiário, ambiente sempre espinhoso e que diz muito da verdade do campo. Por isto a lacuna ainda não preenchida pelos jovens comandantes buscando afirmação para substituírem de vez os da “Velha Guarda”.

A sorte está lançada. Vejamos quem será o mais competente, contando também com a proteção tão bem-vinda do acaso. Palpites? Ainda bem que desta vez ninguém pediu nada ao blogueiro. Projeção a esta altura é chute, puro e simples. Melhor analisar rodada a rodada. Até porque quem pensa jogo a jogo sempre está mais perto da taça nesta loucura que é o Brasileirão.

 


Corinthians, Botafogo e Cruzeiro: títulos serão ilusão ou redenção?
Comentários Comente

André Rocha

Não adianta em abril ou maio lembrar ao torcedor que no final do ano é bem provável, a menos que aconteça algo épico, que ninguém lembre do título estadual. Porque o prazer de vencer o rival numa final ainda badalada em termos midiáticos e levar uma taça para casa inebria, entorpece.

Não funciona falar em excesso de jogos, poder das federações, enfraquecimento do próprio time de coração. O triunfo e a chance de tripudiar do colega de trabalho, do vizinho ou de qualquer um que vista as cores do rival valem mais do que qualquer análise racional. Logo passa, porque começa o Brasileiro emendando com Copa do Brasil, Libertadores, Sul-Americana. Calendário inchado é isso.

Mas desta vez, por coincidência, as conquistas estaduais em São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais tiveram algo em comum: premiaram times contestados pelas próprias torcidas e que acabaram beneficiados pelos contextos das decisões para se superar.

O Corinthians entra no caso citado no primeiro parágrafo. Vencer no tempo normal e nos pênaltis dentro da casa do milionário Palmeiras, que contava com torcida única e vantagem do empate, é um feito histórico e certamente será lembrado pelo corintiano no fim do ano, a menos que alguma tragédia aconteça até lá.

Mas o desempenho segue preocupante. O time de Fabio Carille se classificou contra o São Paulo também na disputa de pênaltis depois de achar um gol de Rodriguinho em um escanteio nos acréscimos. A decisão foi muito mais brigada que jogada e o Palmeiras se perdeu emocionalmente pela cobrança gigantesca por títulos que façam valer o altíssimo investimento para a realidade brasileira.

Valeu a cultura da vitória construída pelos muitos títulos na década. De novo no gol de Rodriguinho, desta vez no primeiro minuto do clássico. A confusão pelo pênalti que não existiu de Ralf sobre Dudu, mas foi marcado e depois invalidado pela interferência do quarto árbitro, só aumentou o caos emocional dos palmeirenses em campo e na arquibancada.

Mais uma vez Cássio garantiu pegando as cobranças de Dudu e Lucas Lima na decisão por pênaltis. A comemoração no Allianz Parque é imagem emblemática e inesquecível para o torcedor. Mas a conquista não tem o simbolismo de 2017, consolidando um trabalho que ganharia ainda mais força e maturidade no turno do Brasileirão que encaminhou a sétima taça do Corinthians na competição.

Agora o rendimento vem oscilando demais, apesar de uma boa nova como Matheus Vital e o resgate de Maycon, que havia perdido a vaga para Camacho na reta final de 2017 e bateu com precisão a última penalidade. Há espasmos da solidez defensiva que caracteriza a identidade corintiana e também boas triangulações e volume de jogo. Nada muito inspirador, ao menos por enquanto.

Já o título carioca do Botafogo veio numa sequência de acontecimentos que desafia o tradicional e já folclórico pessimismo do torcedor alvinegro. Péssimo início sob o comando de Felipe Conceição, eliminação precoce da Copa do Brasil para o Aparecidense. Chega Alberto Valentim ainda aparentando abimaturidade e a dificuldade para montar o sistema defensivo que apresentou no Palmeiras. Linhas adiantadas, pouca pressão na bola…gols dos rivais.

Não venceu nenhum turno, teve a pior campanha geral entre os grandes, levou 3 a 0 do Fluminense na final da Taça Rio e parecia ser apenas um figurante na fase decisiva. Mas uma atuação pluripatética do Flamengo que custou o emprego de muita gente, inclusive do treinador Paulo César Carpegiani, fez o time alcançar a vitória na única jogada bem engendrada em toda a semifinal em jogo único, finalizada por Luiz Fernando.

Vaga improvável na decisão e de novo o status de “zebra”, até pelo bicampeonato do Vasco em 2014/15 sobre o mesmo adversário e o trabalho mais consolidado do treinador Zé Ricardo. A vitória no primeiro jogo por 3 a 2 e depois a boa atuação no Mineirão contra o Cruzeiro pela Libertadores transferiam um favoritismo natural aos cruzmaltinos.

Mas Fabrício foi expulso aos 36 minutos na primeira etapa por entrada sobre Luiz Fernando quase tão criminosa quanto a de Rildo em João Paulo há três semanas. O vermelho condicionou toda a partida. O Botafogo insistiu, mas com enorme dificuldade para criar espaços. O time é limitado e perdeu organização e criatividade sem João Paulo. Obrigado a atacar pela necessidade e por conta da vantagem numérica acabou se complicando. O Vasco fechado num 4-4-1 e arriscando um contragolpe aqui e outro ali.

No ataque final, já nos acréscimos, a confusão na área e o chute de Joel Carli. Lance fortuito, meio ao acaso. Bola na rede, explosão da torcida e confiança em Gatito Fernández na disputa de pênaltis. Ele não decepcionou e pegou as cobranças de Werley e Henrique. 21º título alvinegro, festa pela conquista inesperada… Mas dá para confiar em boa campanha no Brasileiro?

Uma expulsão no primeiro tempo também mudou a história da decisão mineira. Logo de Otero, por cotovelada em Edilson aos 21 minutos. O meia que desequilibrou na bola parada no Independência. Vitória por 3 a 1 na primeira partida que fez eco durante a semana, encheu o Galo de confiança para a goleada por 4 a 0 sobre o Ferroviário pela Copa do Brasil e abalou o ânimo do Cruzeiro, que empatou sem gols e podia ter sido derrotado em casa pelo Vasco na Libertadores.

Com um a menos ficou mais difícil segurar o rival em casa e os gols do uruguaio De Arrascaeta e de Thiago Neves ratificaram a melhor campanha ao longo do campeonato. Mas de novo o time de Mano Menezes não apresentou um desempenho consistente. Faltou nas duas partidas pelo torneio continental e na primeira da decisão.

O contexto favoreceu, mas há muito a ser questionado. Mesmo com a lesão grave de Fred, a grande contratação para a temporada, há qualidade para apresentar mais e Mano se sente à vontade mesmo dentro de uma proposta mais pragmática e de controle de espaços e reação aos ataques do oponente. Na hora de criar em jogos mais aparelhos a coisa complica.

A grande questão depois das comemorações em São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais é como os campeões reagirão. Se haverá a falsa impressão de que os times estão prontos para desafios maiores, mesmo com atuações que não inspiram confiança, ou se a conquista será tratada como a alavanca que combina paz para trabalhar e um clima de mais leveza para investir na evolução dos modelos de jogo. Vencer para crescer e não estacionar.

Ilusão ou redenção? Eis o questionamento que fica para a sequência de trabalho dos vencedores. Consciência da própria realidade é receita simples, mas sábia. Pode valer muito lá no final do ano, quando as taças não passarão de uma lembrança agradável, sem o êxtase de agora.


O jeito brasileiro de ver o futebol está ultrapassado
Comentários Comente

André Rocha

Foto: Arquivo Estado de São Paulo

Convocação de seleção brasileira sempre terá contestação de um ou outro nome. Imagine 1970 com redes sociais na polêmica convocação do Dadá Maravilha. Ou em 1958 Vicente Feola levando para Suécia um jogador com pernas tortas, outro de 17 anos que o futebol pouco ouvira falar. Ambos com problemas cognitivos e psicológicos, segundo um estudo da própria CBD. Outros tempos.

A lista de Tite merece críticas como qualquer outra. Aqui neste blog ela também teve seus alvos. Tudo legítimo e, na maioria, de críticas construtivas. O problema é o argumento de muita gente.

“Talisca joga no possante futebol turco”. Ora bolas, perguntem ao mundo que liga é mais atraente aos olhos pelo futebol jogado: aqui ou lá? Sem contar que o meia joga hoje contra o Bayern de Munique pelas oitavas de final da Liga dos Campeões. Muito provavelmente a trajetória do Besiktas termina nesta partida, mas ultrapassou a fase de grupos como líder de uma chave com Porto e Monaco. Será que algum time brasileiro conseguiria?

“Willian José, aquele do São Paulo? Não pode vestir a camisa da seleção!” Talvez o do São Paulo não pudesse mesmo. Mas estamos em 2018 e o atacante joga na Real Sociedad, da primeira divisão da liga que conta com os dois times que venceram as últimas quatro edições da Liga dos Campeões. Com outro que foi tricampeão da Liga Europa e outro finalista da Champions por duas vezes. Sim, Willian enfrenta Barcelona, Real Madrid, Sevilla e Atlético de Madri. E marca gols contra eles.

Impressionante como em 2018 ainda há quem acredite que se o jogador mostra limitações no início da carreira ele não possa se desenvolver ao longo do tempo e funcionar melhor coletivamente. A tese muito brasileira de que no domínio de bola já é possível saber se um jogador é bom e vai vingar ou não é cada vez mais furada.

Assim como a de que o treinador é o que não atrapalha e tem que deixar os craques se entenderem em campo. Por isso Luan tem que ser convocado. Porque sim. Pelo que joga no Grêmio. Não importa se na seleção o sistema, o modelo e a dinâmica são completamente diferentes. Sem contar a possibilidade de uma equipe com Neymar, Coutinho, Willian, Gabriel Jesus e outros jogando em alto nível na Europa ter que se adequar ao melhor jogador da América do Sul. O mesmo que não rendeu absolutamente nada contra um Real Madrid em ritmo de treino na final do Mundial de Clubes. Este tempo já passou, convenhamos.

Antes de falar de futebol é preciso entender o contexto atual. O futebol nas ligas europeias, as melhores do mundo, tirou tempo e espaço do jogo. Tudo que o brasileiro sempre precisou para brilhar. Dois times em campo, jogando e deixando jogar. O mais talentoso ou com sorte vencia. Retranca era um amontoado de jogadores no próprio campo guardando a própria meta e o jeito de parar o craque era o pontapé muito tolerado nos campos em tempos remotos.

Hoje graças a treinadores como Guardiola, Mourinho, Klopp, Heynckes, Ancelotti e outros se joga em 30 metros de campo, com pressão no jogador que está com a bola e outros fazendo movimentos coletivos para fechar as linhas de passe. Tudo com intensidade máxima. Se antes o jogador era a referência da marcação, agora são bola e espaço.

“Ah, somos pentacampeões do mundo, não temos que aprender nada com ninguém”. Tem certeza? O futebol de 1958, 1962, 1970, 1994 e até 2002 é passado, uma boa lembrança. Mas não muito diferente de um item de museu. Se Guardiola trata o seu Barcelona que deixou há seis anos como algo que hoje não é mais referência para o seu Manchester City, imagine o que aconteceu há décadas!

Não somos os atuais campeões do mundo. Nem de seleções, nem de clubes. Os maiores craques há dez anos são um português e um argentino. Dois times espanhois e um treinador catalão mandam no planeta bola. Temos a oferecer Neymar e outros talentos jogando na Europa e um campeonato pouco atraente por não durar o ano todo que só serve para observadores pescarem os jovens promissores e, palavras deles, transformá-los em jogadores. Ensiná-los a jogar. É ou não uma vergonha para nós?

O jeito brasileiro de olhar o futebol está ultrapassado e temos uma bela chance, com Tite, de atualizarmos os conceitos. Não gosta de como é praticado hoje e prefere os tempos dos times espaçados, campos gigantescos como Mineirão e Serra Dourado e um futebol mais lento e com espaço para o jogador dominar, pensar, respirar e então decidir o que fazer com a bola? Ótimo! Direito seu, legítimo. Mas vá para o Youtube, não falar sobre o que não conhece. Sobre um futebol que só existe no fantástico mundo da sua cabeça.

Nelson Rodrigues, este da foto que ilustra o post, foi um gênio. Da dramaturgia e da crônica, inclusive esportiva. Mas de um tempo em que o compromisso com o fato praticamente inexistia. Ele oferecia uma versão deliciosa dos acontecimentos. Alimentava o imaginário popular. Mas também inventava monstros como a truculência dos crueis alemães, italianos, ingleses; a catimba dos desonestos argentinos e uruguaios. O Brasil que no futebol só perdia para si mesmo e quando reconhecia o valor no outro era por “complexo de vira-latas”. Mas do jogo Nelson sabia bem pouco. Ou quase nada. Não dá para resgatar esse espírito quase meio século depois. Já passou, como sua inseparável máquina de escrever.

Se o futebol brasileiro quer ser competitivo tem que criar a sua versão dentro do contexto atual. Não precisa copiar, mas entender como funciona e buscar saídas. Imaginar que temos que voltar ao estilo dos 1970 e doutrinar o resto do planeta é delírio. O mesmo para “soluções” como tirar um jogador de cada lado u aumentar a dimensão dos gramados para abrir espaços. Como se o mundo todo, inclusive Alemanha e Espanha, os últimos vencedores das Copas, estivessem sentido falta de alguma coisa. Ou seja, se não estamos vencendo vamos mudar as regras do jogo. Por favor, né?

Quer um exemplo prático do nosso atraso? O Atlético Mineiro de Cuca ganhou a Libertadores em 2013 sofrendo e dependendo de Victor nos pênaltis bem mais do que deveria pela qualidade de seus jogadores, especialmente Ronaldinho Gaúcho. Mas era um time anacrônico: espaçado, com perseguições individuais, dois volantes marcadores e dependente do talento de seu quarteto ofensivo e de jogadas ensaiadas.

Às duras penas conseguiu o título do continente, mas quando chegou ao Mundial de Clubes a realidade veio com requintes de crueldade: passeio do Raja Casablanca deitando e rolando na lentidão e nos espaços entre os setores da equipe brasileira que achou que venceria na camisa e na presença do Bola de Ouro 2004/2005. O campeão de Marrocos, país sede do torneio, atropelou jogando futebol atual. Depois todos foram pedir fotos do camisa dez derrotado em campo. Que deve ter agradecido a Deus por não encarar o Bayern de Munique comandado por Guardiola.

Nossos dogmas, crendices e análises focando apenas o individual do jogo não cabem mais. O jogo evoluiu, ficou mais complexo. O melhor jeito de avançar é reconhecer que ficamos para trás. A Copa do Mundo será um bom exercício de humildade. Ainda que o Brasil de Tite volte com o hexa.