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Atlético-MG, líder e livre para o Brasileiro. Será o Corinthians de 2018?
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André Rocha

No dia 8 de maio, o Atlético Mineiro foi eliminado da Copa Sul-Americana no zero a zero contra o San Lorenzo no Estádio Independência – perdera no Nuevo Gasômetro por 1 a 0. Oito dias depois, novo revés em mata-mata, desta vez nos pênaltis após dois empates sem gols contra a Chapecoense. Ainda que tenha utilizado reservas na competição continental e o presidente Sette Câmara chamado o torneio de “segunda divisão” da América do Sul, não deixam de ser eliminações um tanto prematuras de duas das três frentes do time em nível nacional e internacional na temporada.

Mas pode ter um lado bom, por mais paradoxal que possa parecer. E este novo cenário já se fez presente no clássico contra o Cruzeiro no Independência. Pensando na disputa da primeira vaga do Grupo 5 da Libertadores no Mineirão contra o Racing, o rival mandou a campo um time repleto de reservas.

Um deles, o argentino Mancuello, acabou expulso aos três minutos da segunda etapa. Aumentando o domínio atleticano de 64% de posse e 16 finalizações, seis no alvo. A mais precisa de Roger Guedes, artilheiro do Brasileiro com cinco gols. Vitória por 1 a 0 e liderança provisória em seis rodadas, esperando que o Corinthians não vença o Sport na Arena Pernambuco e salte na frente pelo saldo de gols.

Mas mesmo que o atual campeão termine o fim de semana no topo da tabela, mais à frente certamente terá que optar por um time “alternativo”. Porque a equipe paulista já está nas quartas da Copa do Brasil e nas oitavas da Libertadores. Assim como outros favoritos, confirmados ou quase lá. Todos enfrentarão um calendário atropelado, com jogos seguidos, depois da parada para a Copa do Mundo.

Sem as semanas cheias de trabalho e o foco do título corintiano em 2017 – definindo a prioridade desde o início e, por conta da vantagem construída na liderança do turno, tratando a Sul-Americana como uma competição secundária. Deve ser a arma do Galo a partir de agora. Com o jovem treinador Thiago Larghi podendo afirmar sua maneira de jogar que preza a posse de bola e o jogo construído desde a defesa, mas acelera no ataque com Luan, Cazares, Otero e Roger Guedes. Os quatro que se alternam no trio de meias que se junta a Elias na aproximação de Ricardo Oliveira.

Já é o time que mais finaliza, o terceiro em acerto de passes, o quarto em posse de bola. Também o terceiro que mais acerta desarmes. Haverá tempo para aprimorar, potencializando virtudes e minimizando defeitos. Porque serão menos viagens e mais dias de treinamento. Mesmo com todos se nivelando durante o Mundial da Rússia, a vantagem é inegável.

Consequência do novo calendário que vai criando dilemas no futebol brasileiro. A cultura nacional de mata-mata e a visão de que em outras competições o clube precisa de menos partidas para lutar pelo título acaba esvaziando o campeonato que devia ser mais valorizado. Na hora de escolher entre o jogo decisivo agora e o que pode ter os pontos recuperados mais à frente, a opção no nosso imediatismo de todo dia é clara.

É neste “vácuo” que o Atlético Mineiro pode crescer. Quem sabe se transformar no Corinthians versão 2018. Se terminar com a taça que não vem desde 1971, a impressão de temporada ruim de agora será esquecida. Pode até ser o time brasileiro do ano caso algum compatriota não vença a Libertadores. Estranho, não? Mas na prática é assim que funciona.

(Estatísticas: Footstats)


Corinthians sofre sem seu “camisa dez” nas conquistas recentes: o tempo
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André Rocha

Foto: Daniel Augusto Jr. /Agência Corinthians

Sim, muitos vão dizer que o verdadeiro trunfo corintiano é o “apito amigo”. Tema recorrente. E chato. Porque sempre o alvo é quem está vencendo no período. Já foi o Flamengo, o São Paulo, o Palmeiras, o Fluminense…Agora o maior campeão dos últimos dez anos no Brasil. Coincidência?

O vício de colocar tudo na conta da arbitragem é tão grande que já contaminou até a Liga dos Campeões, cada vez mais popular e com mais jogos transmitidos em TV aberta. O alvo? Claro, o Real Madrid bicampeão e em mais uma final. Um choro que parece inesgotável. Este que escreve prefere ficar com as declarações dos alemães Hummels e Muller após a eliminação do Bayern de Munique: culparam os próprios erros, a incompetência por não transformar 33 finalizações em mais de três gols no confronto. Sem “bengala”. Não por acaso são campeões do mundo.

Voltemos ao Corinthians. Duas derrotas seguidas, para Atlético Mineiro e Independiente. Perdendo os 100% e a liderança no Brasileiro e se complicando no Grupo 7 da LIbertadores, embora siga no topo da classificação e ainda com boas chances de garantir vaga nas oitavas de final.

Momento natural de oscilação na temporada. Todos passam por isto. E o elenco curto, desequilibrado e já desgastado por disputar o estadual até o fim sofre mais. Responsabilidade da gestão, que conta com estádio próprio, receita alta de TV e, mesmo assim, não consegue se equilibrar nas finanças e investir proporcionalmente.

Venceu em 2017 porque contou com o verdadeiro “camisa dez” do Corinthians nas conquistas recentes: o tempo. Para descanso e treinamentos. Do corpo e da mente. Fundamental para a equipe que prioriza o trabalho coletivo, a intensidade e a concentração.

Não houve como Fabio Carille corrigir com um mísero treinamento os muitos erros do revés no Estádio Independência no fim de semana. A preparação para o duelo com o “Rei de Copas” e atual campeão da Sul-Americana em Itaquera teve que ser na base da conversa e dos vídeos. Porque se a ideia é que o treino tenha a intensidade e a dinâmica do jogo, ainda que mais curto, o risco de lesão é praticamente o mesmo de uma partida oficial.

Ano passado não teve essa “roda viva”. Eliminado na Copa do Brasil pelo Internacional antes das oitavas de final e priorizando o Brasileiro durante a disputa da Copa Sul-Americana, o Corinthians teve semanas e semanas cheias de preparação, enquanto os rivais se degladiavam em outras frentes. Abriu vantagem no início e depois administrou até o fim.

O mesmo que ocorreu em 2011, no começo desta trajetória vencedora na década. Eliminado pelo Tolima antes mesmo da fase de grupos do torneio continental e sem a possibilidade de disputar a Copa do Brasil, concentrou esforços no Brasileiro e se impôs contra um Vasco campeão da Copa do Brasil e que se dividiu até o fim entre a principal competição nacional e a Copa Sul-Americana.

No ano seguinte, prioridade absoluta para a Libertadores e, depois da conquista, o Brasileiro foi uma longa preparação de Tite e seus comandados para o Mundial de Clubes. O último brasileiro a superar o vencedor da Liga dos Campeões.

O foco fez a diferença também em 2015. Eliminado nas oitavas da Libertadores e da Copa do Brasil, Tite teve tempo para ajustar seu 4-1-4-1 acrescentando conceitos ofensivos que estudou em seu 2014 “sabático” e fez o time voar na reta final jogando bem e bonito. Mais uma taça para a coleção.

Não é impossível terminar 2018 com mais uma conquista além do bi paulista. A mentalidade vencedora desenvolvida nos últimos anos não pode ser desprezada e se for possível priorizar algo com chances reais de conquista as chances aumentam consideravelmente. A parada para a Copa do Mundo deve ajudar na recuperação do gás para o segundo semestre.

Mas sem tempo entre aviões, hoteis e estádios, a missão fica bem mais difícil. Para qualquer um. Não é por acaso que o único time campeão brasileiro e da Libertadores na mesma temporada tenha sido o Santos de Pelé em 1962/1963. Mas fazendo apenas cinco jogos na Taça Brasil em 1962 e quatro no ano seguinte. E vencer a Copa do Brasil e o Brasileiro é um feito apenas do Cruzeiro de Vanderlei Luxemburgo e Alex em 2003. Campeão da Libertadores e da Copa do Brasil? Não existe. Culpa também de um calendário inchado e que é conivente com a estrutura federativa que sustenta CBF e federações.

Se fracassar, o Corinthians ao menos trará um alento para sua torcida e quem gosta mais de futebol do que de reclamar de arbitragem: sem taças não tem “mimimi”. Ou até terá, porque virou mania nacional. Afinal, dói menos diminuir quem dá a volta olímpica no final.

 


Gol de Roger Guedes “salva” a rodada das teorias da conspiração
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André Rocha

Arbitragem é ruim no mundo todo. No Brasil um pouco pior pelo ambiente hostil criado pelos próprios jogadores pelas simulações e reclamações exageradas aumentando a tensão e, consequentemente, a margem de erro.

Por isso o árbitro e sua equipe vão errar a favor e contra todos os times, mas, assim como em todos os centros futebolísticos, a chance de na dúvida marcar a favor do clube mais poderoso é sempre maior. É humano. Sem convicção naquela fração de segundo, o instinto de preservação fala mais alto. “Se eu prejudicar o mais forte posso tomar uma ‘geladeira’ mais longa”.

Raciocínio correto? Não. Mas quem se importa de fato? Mais fácil deixar como está e desviar o foco da derrota para a arbitragem ou ser beneficiado e dizer que “o choro é livre”.

O protesto seria imenso caso o Corinthians saísse do Estádio Independência com um ou mais pontos depois do gol validado e em seguida anulado de Roger Guedes pelo árbitro Dewson Fernando Freitas da Silva, por toque na mão de Ricardo Oliveira ainda no primeiro tempo.

Discutível, como todo toque de mão ou braço na área depois das novas orientações da Comissão de Arbitragem. Antes a interpretação correta seria de que não houve intenção do atacante, agora aparecem as teses de “ampliar a área do corpo”, “tirar vantagem do toque”, etc. Sempre foi interpretativo, mas agora as variáveis são muitas e fica tudo a critério da cabeça do apitador.

Se o Corinthians saísse sem derrota, todas as teorias de conspiração sobre o “apito amigo” do campeão brasileiro viriam à tona.  De novo a desconfiança de interferência externa, ainda que Dewson garanta que consultou seu auxiliar. Algo que poderia ser minimizado com a utilização do árbitro de vídeo cujos custos a CBF tentou empurrar para os clubes. Nesse ambiente de pressão máxima, a arbitragem pode acabar apelando para errar menos. Ilegal, mas neste mundo cão pior é errar e ser afastado.

Mas veio outro gol de Roger Guedes na segunda etapa, desta vez validado. E o “melhor”: lance duvidoso de falta do atacante sobre Mantuan, que substituiu o lesionado Fagner. Discutível. Este que escreve viu disputa normal por espaço. Mas “salvou” a rodada. Vitória do time que se impôs em campo durante boa parte dos 90 minutos em Belo Horizonte.

É óbvio que haverá polêmica, até porque ela é estimulada em todas as mídias e ecoa nas redes sociais. Corintianos reclamarão da falta de Guedes; atleticanos e rivais, mesmo com a derrota do então líder do Brasileirão, vão somar este gol anulado aos lances em que os árbitros voltaram atrás e beneficiaram o atual campeão.

Houve também equívocos e lances duvidosos em outras partidas da terceira rodada. Mas aquela obsessão por “campeonato manchado”, com todos falando sobre arbitragem e quase nada sobre os jogos felizmente não vai ocorrer. Ao menos desta vez. Melhor assim.


Qualquer projeção para o Brasileirão é chute, puro e simples
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André Rocha

Todo ano era a mesma tortura. Fim dos estaduais e logo aparecia alguém pedindo projeções para o Brasileirão. Título, vagas na Libertadores, rebaixados. Em maio. Para um campeonato que acaba no fim de novembro. Com uma janela de transferências que parece nunca fechar. Agora Libertadores, Sul-Americana e Copa do Brasil durando o ano todo.

E quem é pago para analisar tinha que recorrer ao tiro no escuro. Para ser cobrado depois porque para muita gente quem trabalha com futebol tem que ser adivinho e cravar o que vai acontecer, mesmo com tantas variáveis possíveis. Como se jornalistas de Economia ou Política tivessem que prever todas as oscilações de mercado ou diplomáticas e traçar um cenário preciso até o fim do ano para serem considerados minimamente competentes.

Na era dos memes e da zoeira que sempre carrega um pouco de covardia, mas dá para tirar de letra, o que é dito ou escrito tem que valer por seis meses. Se errar logo vêm os mantras “tá fácil ser jornalista”, “por isso não exigem diploma” e outras pérolas dos “jênios” da internet. Os profetas do acontecido que ficam calados no conforto do anonimato para garantirem que sabiam lá atrás e quem é pago para isso tinha que carregar a mesma certeza.

Mas como imaginar o que virá? Mesmo descontando toda a imprevisibilidade do esporte, no Brasil é ainda mais complicado. Imaginem os guias da competição já furados com as prováveis saídas de Everton do Flamengo para o São Paulo, de Maycon do Corinthians para o Shakhtar Donetsk e de Roger do Internacional para o Corinthians.

Sem contar que o time que joga o melhor futebol do país, o Grêmio, até por sua cultura copeira, deve novamente poupar jogadores na competição por pontos corridos e priorizar Libertadores e Copa do Brasil. E o Corinthians, atual campeão e favorito natural, desta vez não terá o respiro do ano passado e também dividirá esforços. Com elencos mexidos o tempo todo.

E os grandes orçamentos, como Flamengo e Palmeiras, regidos pelos humores e arroubos de dirigentes-torcedores, embalados por redes sociais? Com escolhas mais políticas que técnicas. Sem ideias ou norte, ao menos por enquanto. Só agora começam a entender a importância de ter uma identidade, como o Cruzeiro de Mano Menezes vai tentando implementar, mas também muito condicionado a resultados, até pelo alto investimento na formação do elenco.

São Paulo, Vasco, Fluminense, Botafogo, Internacional, Atlético Mineiro, Bahia, Chapecoense, Vitória e o Atlético Paranaense de Fernando Diniz formam um “blocão” de incógnitas que podem circular entre zona de Libertadores e Z-4. Como de costume, Ceará, Paraná e América-MG, os times que subiram além do “gigante redimido”, são cantados como bolas da vez para cair pela famosa dificuldade de se manter depois do acesso. Ainda que Enderson Moreira e Marcelo Chamusca tenham trabalhos consolidados em seus clubes e possam, sim, tornar suas equipes competitivas. Quem vai saber?

Para completar, um campeonato com seus desequilíbrios por forças das circunstâncias. Como um time encarar os reservas do Grêmio e outro sofrer diante da equipe principal de Renato Gaúcho focada naquela rodada específica. Ou o time beneficiado pela perda do mando de campo do adversário. Três pontos que podem fazer toda diferença. Na tabela ou no estado de ânimo de uma equipe.

Por isso o equilíbrio que gera a emoção que muitos confundem como qualidade ou virtude. Será que nossos times vão usar a concentração e a organização não só para defender e teremos times atacando melhor? Ou será novamente o campeonato do futebol reativo, de contragolpe? Nenhum time vive e viverá mais este dilema do que o Santos do DNA ofensivo, mas agora comandado pelo pragmático Jair Ventura.

Com pressão por resultados, viagens e mais viagens e pouco tempo em campo para treinar é difícil imaginar algo mais elaborado. Por mais que os treinadores da nova safra tentem. E ainda tem o vestiário, ambiente sempre espinhoso e que diz muito da verdade do campo. Por isto a lacuna ainda não preenchida pelos jovens comandantes buscando afirmação para substituírem de vez os da “Velha Guarda”.

A sorte está lançada. Vejamos quem será o mais competente, contando também com a proteção tão bem-vinda do acaso. Palpites? Ainda bem que desta vez ninguém pediu nada ao blogueiro. Projeção a esta altura é chute, puro e simples. Melhor analisar rodada a rodada. Até porque quem pensa jogo a jogo sempre está mais perto da taça nesta loucura que é o Brasileirão.

 


Corinthians, Botafogo e Cruzeiro: títulos serão ilusão ou redenção?
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André Rocha

Não adianta em abril ou maio lembrar ao torcedor que no final do ano é bem provável, a menos que aconteça algo épico, que ninguém lembre do título estadual. Porque o prazer de vencer o rival numa final ainda badalada em termos midiáticos e levar uma taça para casa inebria, entorpece.

Não funciona falar em excesso de jogos, poder das federações, enfraquecimento do próprio time de coração. O triunfo e a chance de tripudiar do colega de trabalho, do vizinho ou de qualquer um que vista as cores do rival valem mais do que qualquer análise racional. Logo passa, porque começa o Brasileiro emendando com Copa do Brasil, Libertadores, Sul-Americana. Calendário inchado é isso.

Mas desta vez, por coincidência, as conquistas estaduais em São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais tiveram algo em comum: premiaram times contestados pelas próprias torcidas e que acabaram beneficiados pelos contextos das decisões para se superar.

O Corinthians entra no caso citado no primeiro parágrafo. Vencer no tempo normal e nos pênaltis dentro da casa do milionário Palmeiras, que contava com torcida única e vantagem do empate, é um feito histórico e certamente será lembrado pelo corintiano no fim do ano, a menos que alguma tragédia aconteça até lá.

Mas o desempenho segue preocupante. O time de Fabio Carille se classificou contra o São Paulo também na disputa de pênaltis depois de achar um gol de Rodriguinho em um escanteio nos acréscimos. A decisão foi muito mais brigada que jogada e o Palmeiras se perdeu emocionalmente pela cobrança gigantesca por títulos que façam valer o altíssimo investimento para a realidade brasileira.

Valeu a cultura da vitória construída pelos muitos títulos na década. De novo no gol de Rodriguinho, desta vez no primeiro minuto do clássico. A confusão pelo pênalti que não existiu de Ralf sobre Dudu, mas foi marcado e depois invalidado pela interferência do quarto árbitro, só aumentou o caos emocional dos palmeirenses em campo e na arquibancada.

Mais uma vez Cássio garantiu pegando as cobranças de Dudu e Lucas Lima na decisão por pênaltis. A comemoração no Allianz Parque é imagem emblemática e inesquecível para o torcedor. Mas a conquista não tem o simbolismo de 2017, consolidando um trabalho que ganharia ainda mais força e maturidade no turno do Brasileirão que encaminhou a sétima taça do Corinthians na competição.

Agora o rendimento vem oscilando demais, apesar de uma boa nova como Matheus Vital e o resgate de Maycon, que havia perdido a vaga para Camacho na reta final de 2017 e bateu com precisão a última penalidade. Há espasmos da solidez defensiva que caracteriza a identidade corintiana e também boas triangulações e volume de jogo. Nada muito inspirador, ao menos por enquanto.

Já o título carioca do Botafogo veio numa sequência de acontecimentos que desafia o tradicional e já folclórico pessimismo do torcedor alvinegro. Péssimo início sob o comando de Felipe Conceição, eliminação precoce da Copa do Brasil para o Aparecidense. Chega Alberto Valentim ainda aparentando abimaturidade e a dificuldade para montar o sistema defensivo que apresentou no Palmeiras. Linhas adiantadas, pouca pressão na bola…gols dos rivais.

Não venceu nenhum turno, teve a pior campanha geral entre os grandes, levou 3 a 0 do Fluminense na final da Taça Rio e parecia ser apenas um figurante na fase decisiva. Mas uma atuação pluripatética do Flamengo que custou o emprego de muita gente, inclusive do treinador Paulo César Carpegiani, fez o time alcançar a vitória na única jogada bem engendrada em toda a semifinal em jogo único, finalizada por Luiz Fernando.

Vaga improvável na decisão e de novo o status de “zebra”, até pelo bicampeonato do Vasco em 2014/15 sobre o mesmo adversário e o trabalho mais consolidado do treinador Zé Ricardo. A vitória no primeiro jogo por 3 a 2 e depois a boa atuação no Mineirão contra o Cruzeiro pela Libertadores transferiam um favoritismo natural aos cruzmaltinos.

Mas Fabrício foi expulso aos 36 minutos na primeira etapa por entrada sobre Luiz Fernando quase tão criminosa quanto a de Rildo em João Paulo há três semanas. O vermelho condicionou toda a partida. O Botafogo insistiu, mas com enorme dificuldade para criar espaços. O time é limitado e perdeu organização e criatividade sem João Paulo. Obrigado a atacar pela necessidade e por conta da vantagem numérica acabou se complicando. O Vasco fechado num 4-4-1 e arriscando um contragolpe aqui e outro ali.

No ataque final, já nos acréscimos, a confusão na área e o chute de Joel Carli. Lance fortuito, meio ao acaso. Bola na rede, explosão da torcida e confiança em Gatito Fernández na disputa de pênaltis. Ele não decepcionou e pegou as cobranças de Werley e Henrique. 21º título alvinegro, festa pela conquista inesperada… Mas dá para confiar em boa campanha no Brasileiro?

Uma expulsão no primeiro tempo também mudou a história da decisão mineira. Logo de Otero, por cotovelada em Edilson aos 21 minutos. O meia que desequilibrou na bola parada no Independência. Vitória por 3 a 1 na primeira partida que fez eco durante a semana, encheu o Galo de confiança para a goleada por 4 a 0 sobre o Ferroviário pela Copa do Brasil e abalou o ânimo do Cruzeiro, que empatou sem gols e podia ter sido derrotado em casa pelo Vasco na Libertadores.

Com um a menos ficou mais difícil segurar o rival em casa e os gols do uruguaio De Arrascaeta e de Thiago Neves ratificaram a melhor campanha ao longo do campeonato. Mas de novo o time de Mano Menezes não apresentou um desempenho consistente. Faltou nas duas partidas pelo torneio continental e na primeira da decisão.

O contexto favoreceu, mas há muito a ser questionado. Mesmo com a lesão grave de Fred, a grande contratação para a temporada, há qualidade para apresentar mais e Mano se sente à vontade mesmo dentro de uma proposta mais pragmática e de controle de espaços e reação aos ataques do oponente. Na hora de criar em jogos mais aparelhos a coisa complica.

A grande questão depois das comemorações em São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais é como os campeões reagirão. Se haverá a falsa impressão de que os times estão prontos para desafios maiores, mesmo com atuações que não inspiram confiança, ou se a conquista será tratada como a alavanca que combina paz para trabalhar e um clima de mais leveza para investir na evolução dos modelos de jogo. Vencer para crescer e não estacionar.

Ilusão ou redenção? Eis o questionamento que fica para a sequência de trabalho dos vencedores. Consciência da própria realidade é receita simples, mas sábia. Pode valer muito lá no final do ano, quando as taças não passarão de uma lembrança agradável, sem o êxtase de agora.


O jeito brasileiro de ver o futebol está ultrapassado
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André Rocha

Foto: Arquivo Estado de São Paulo

Convocação de seleção brasileira sempre terá contestação de um ou outro nome. Imagine 1970 com redes sociais na polêmica convocação do Dadá Maravilha. Ou em 1958 Vicente Feola levando para Suécia um jogador com pernas tortas, outro de 17 anos que o futebol pouco ouvira falar. Ambos com problemas cognitivos e psicológicos, segundo um estudo da própria CBD. Outros tempos.

A lista de Tite merece críticas como qualquer outra. Aqui neste blog ela também teve seus alvos. Tudo legítimo e, na maioria, de críticas construtivas. O problema é o argumento de muita gente.

“Talisca joga no possante futebol turco”. Ora bolas, perguntem ao mundo que liga é mais atraente aos olhos pelo futebol jogado: aqui ou lá? Sem contar que o meia joga hoje contra o Bayern de Munique pelas oitavas de final da Liga dos Campeões. Muito provavelmente a trajetória do Besiktas termina nesta partida, mas ultrapassou a fase de grupos como líder de uma chave com Porto e Monaco. Será que algum time brasileiro conseguiria?

“Willian José, aquele do São Paulo? Não pode vestir a camisa da seleção!” Talvez o do São Paulo não pudesse mesmo. Mas estamos em 2018 e o atacante joga na Real Sociedad, da primeira divisão da liga que conta com os dois times que venceram as últimas quatro edições da Liga dos Campeões. Com outro que foi tricampeão da Liga Europa e outro finalista da Champions por duas vezes. Sim, Willian enfrenta Barcelona, Real Madrid, Sevilla e Atlético de Madri. E marca gols contra eles.

Impressionante como em 2018 ainda há quem acredite que se o jogador mostra limitações no início da carreira ele não possa se desenvolver ao longo do tempo e funcionar melhor coletivamente. A tese muito brasileira de que no domínio de bola já é possível saber se um jogador é bom e vai vingar ou não é cada vez mais furada.

Assim como a de que o treinador é o que não atrapalha e tem que deixar os craques se entenderem em campo. Por isso Luan tem que ser convocado. Porque sim. Pelo que joga no Grêmio. Não importa se na seleção o sistema, o modelo e a dinâmica são completamente diferentes. Sem contar a possibilidade de uma equipe com Neymar, Coutinho, Willian, Gabriel Jesus e outros jogando em alto nível na Europa ter que se adequar ao melhor jogador da América do Sul. O mesmo que não rendeu absolutamente nada contra um Real Madrid em ritmo de treino na final do Mundial de Clubes. Este tempo já passou, convenhamos.

Antes de falar de futebol é preciso entender o contexto atual. O futebol nas ligas europeias, as melhores do mundo, tirou tempo e espaço do jogo. Tudo que o brasileiro sempre precisou para brilhar. Dois times em campo, jogando e deixando jogar. O mais talentoso ou com sorte vencia. Retranca era um amontoado de jogadores no próprio campo guardando a própria meta e o jeito de parar o craque era o pontapé muito tolerado nos campos em tempos remotos.

Hoje graças a treinadores como Guardiola, Mourinho, Klopp, Heynckes, Ancelotti e outros se joga em 30 metros de campo, com pressão no jogador que está com a bola e outros fazendo movimentos coletivos para fechar as linhas de passe. Tudo com intensidade máxima. Se antes o jogador era a referência da marcação, agora são bola e espaço.

“Ah, somos pentacampeões do mundo, não temos que aprender nada com ninguém”. Tem certeza? O futebol de 1958, 1962, 1970, 1994 e até 2002 é passado, uma boa lembrança. Mas não muito diferente de um item de museu. Se Guardiola trata o seu Barcelona que deixou há seis anos como algo que hoje não é mais referência para o seu Manchester City, imagine o que aconteceu há décadas!

Não somos os atuais campeões do mundo. Nem de seleções, nem de clubes. Os maiores craques há dez anos são um português e um argentino. Dois times espanhois e um treinador catalão mandam no planeta bola. Temos a oferecer Neymar e outros talentos jogando na Europa e um campeonato pouco atraente por não durar o ano todo que só serve para observadores pescarem os jovens promissores e, palavras deles, transformá-los em jogadores. Ensiná-los a jogar. É ou não uma vergonha para nós?

O jeito brasileiro de olhar o futebol está ultrapassado e temos uma bela chance, com Tite, de atualizarmos os conceitos. Não gosta de como é praticado hoje e prefere os tempos dos times espaçados, campos gigantescos como Mineirão e Serra Dourado e um futebol mais lento e com espaço para o jogador dominar, pensar, respirar e então decidir o que fazer com a bola? Ótimo! Direito seu, legítimo. Mas vá para o Youtube, não falar sobre o que não conhece. Sobre um futebol que só existe no fantástico mundo da sua cabeça.

Nelson Rodrigues, este da foto que ilustra o post, foi um gênio. Da dramaturgia e da crônica, inclusive esportiva. Mas de um tempo em que o compromisso com o fato praticamente inexistia. Ele oferecia uma versão deliciosa dos acontecimentos. Alimentava o imaginário popular. Mas também inventava monstros como a truculência dos crueis alemães, italianos, ingleses; a catimba dos desonestos argentinos e uruguaios. O Brasil que no futebol só perdia para si mesmo e quando reconhecia o valor no outro era por “complexo de vira-latas”. Mas do jogo Nelson sabia bem pouco. Ou quase nada. Não dá para resgatar esse espírito quase meio século depois. Já passou, como sua inseparável máquina de escrever.

Se o futebol brasileiro quer ser competitivo tem que criar a sua versão dentro do contexto atual. Não precisa copiar, mas entender como funciona e buscar saídas. Imaginar que temos que voltar ao estilo dos 1970 e doutrinar o resto do planeta é delírio. O mesmo para “soluções” como tirar um jogador de cada lado u aumentar a dimensão dos gramados para abrir espaços. Como se o mundo todo, inclusive Alemanha e Espanha, os últimos vencedores das Copas, estivessem sentido falta de alguma coisa. Ou seja, se não estamos vencendo vamos mudar as regras do jogo. Por favor, né?

Quer um exemplo prático do nosso atraso? O Atlético Mineiro de Cuca ganhou a Libertadores em 2013 sofrendo e dependendo de Victor nos pênaltis bem mais do que deveria pela qualidade de seus jogadores, especialmente Ronaldinho Gaúcho. Mas era um time anacrônico: espaçado, com perseguições individuais, dois volantes marcadores e dependente do talento de seu quarteto ofensivo e de jogadas ensaiadas.

Às duras penas conseguiu o título do continente, mas quando chegou ao Mundial de Clubes a realidade veio com requintes de crueldade: passeio do Raja Casablanca deitando e rolando na lentidão e nos espaços entre os setores da equipe brasileira que achou que venceria na camisa e na presença do Bola de Ouro 2004/2005. O campeão de Marrocos, país sede do torneio, atropelou jogando futebol atual. Depois todos foram pedir fotos do camisa dez derrotado em campo. Que deve ter agradecido a Deus por não encarar o Bayern de Munique comandado por Guardiola.

Nossos dogmas, crendices e análises focando apenas o individual do jogo não cabem mais. O jogo evoluiu, ficou mais complexo. O melhor jeito de avançar é reconhecer que ficamos para trás. A Copa do Mundo será um bom exercício de humildade. Ainda que o Brasil de Tite volte com o hexa.

 


Só os 100% garantem a paz de Roger Machado no Palmeiras?
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André Rocha

O Palmeiras precisou de oito minutos de pressão e alta intensidade no Allianz Parque para marcar os gols de Antônio Carlos, aos três do primeiro tempo, e Borja aos cinco do segundo, que garantiram a vitória por 2 a 1 sobre o Santos no primeiro clássico do time em 2018. Aos sete da primeira etapa ainda carimbou a trave de Vanderlei na cobrança de falta de Lucas Lima em sua primeira partida contra o ex-clube.

Mas depois o time de Roger Machado abdicou um pouco do seu jogo, permitindo que o Santos tivesse a bola – terminou com 52% de posse, segundo o Footstats –  e ocupasse o campo de ataque. Mesmo finalizando dez vezes contra sete do rival, a postura cautelosa parece muito focada no resultado, que tinha sua importância, mas neste início de temporada não deve ser tratado como prioridade.

Mais valia seguir exercitando a saída de bola com Felipe Melo, o grande destaque individual neste início de trabalho, se juntando aos zagueiros Antônio Carlos e Thiago Martins e liberando os laterais Marcos Rocha e Victor Luís. Ou a troca de Lucas Lima e Tche Tche, com o meia recuando para qualificar o passe e o volante se aproximando do trio de ataque para acelerar as ações no último terço do campo.

Só que Roger sabe que precisa dos resultados para ganhar confiança. O time necessita, mas ele principalmente. “Se as coisas não acontecerem serei cobrado”, disse na coletiva depois do jogo. Escaldado pelo que aconteceu com Eduardo Baptista, ainda que agora não tenha uma sombra do tamanho da de Cuca, que esmagou seu sucessor/antecessor em 2017.

Precisa ser assim sempre? Por mais que time grande, ainda mais com tamanho investimento, viva de vitórias, será que é tão fundamental assim jogar por resultado na quinta partida do ano? Só os 100% garantem a paz do treinador para trabalhar?

Em março de 2015, o Santos venceu o Palmeiras pelos mesmos 2 a 1. Quem lembra deste primeiro clássico, ou mesmo da conquista do Paulista pelo alvinegro praiano nos pênaltis se na final mais importante, a da Copa do Brasil, o alviverde foi o campeão superando o rival? O mesmo vale para a semifinal do estadual em 2016. O Santos levou, mas o palmeirense não vai tratar como um fracasso no ano em que voltou a ser campeão brasileiro depois de 22 anos.

Será que vale dar ouvidos à histeria imediatista de torcedor e parte da imprensa sacrificando a oportunidade de exercitar o modelo de jogo que busca o protagonismo durante os noventa minutos e fazer experiências no estadual em nome dos três pontos que nem eram tão fundamentais assim, já que mesmo com derrota o time seguiria líder do Grupo C?

Impossível não lembrar de Dunga em sua segunda passagem pela CBF em 2014 como treinador. Vitórias em amistosos tratados como verdadeiras finais para “resgatar a imagem do futebol brasileiro” depois dos 7 a 1. De que valeu se no início da disputa das eliminatórias e nas edições da Copa América sua equipe fracassou em desempenho e resultados, fazendo a seleção brasileira perder dois anos de trabalho que podem custar caro a Tite na Rússia?

O próprio Roger teve experiência amarga no Atlético Mineiro. Campeão mineiro, melhor time da primeira fase da Libertadores. O treinador falou em “respaldo para trabalhar”. Mas bastou um começo hesitante no Brasileiro emendado com o vacilo contra o Jorge Wilstermann nas oitavas da Libertadores para vir a demissão. De que serviu o bom primeiro semestre se no dia 20 de julho estava desempregado?

O Palmeiras não precisa estar pronto agora. Pode dar mais minutos para Willian, Borja e Dudu afinarem a sintonia, com o camisa sete agora mais articulador acionando os dois companheiros finalizadores. E quando os ponteiros buscam a diagonal, Tche Tche aparece no espaço para buscar o fundo do campo, alternando com os laterais. Movimentos que precisam ganhar naturalidade até a estreia na Libertadores.

Sem essa urgência insana por vitórias. Quem vai lembrar no final do ano que o time era o único 100% da Série A nos cinco primeiros jogos da temporada se a equipe não for bem nas competições mais importantes?

Não é querer ser “parnasiano”, “romântico” ou “moderninho” por “desprezar” o resultado. Muito menos desrespeitar a história de um dos clássicos mais tradicionais do nosso futebol. Só uma questão de lógica. Estadual é sequência de pré-temporada. A evolução pensando no futuro vale mais que os pontos ganhos hoje. Ou deveria valer.

 


Ronaldinho: cabeça de artista esmagada pelo pragmatismo do futebol
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André Rocha

Ronaldinho, então apenas Ronaldo, chamou atenção deste blogueiro no Mundial Sub-17 em 1997. Talento, habilidade, aquela fagulha dos gênios. Confirmada mais nos dribles sobre Dunga no Grenal do que no golaço sobre uma Venezuela já entregue na Copa América em 1999. Aos 19 anos.

Saída polêmica e explosão do talento que ganhou força no Paris Saint-Germain. Coadjuvante de luxo no título mundial em 2002 e a fase de ouro no Barcelona. Sempre com sorriso no rosto, samba no pé além da magia quando uma bola se aproximava. Parecia viver num mundo de sonho, proporcionado por sua genialidade e viabilizada pelo irmão Assis, que cuidava das coisas práticas enquanto ele vivia o sonho.

Esta história tem seu momento chave em 2006. A questão no primeiro semestre deste ano era: até onde Ronaldinho Gaúcho pode chegar? Se vencesse a Copa do Mundo na Alemanha como protagonista de um Brasil estelar e favorito como nunca ao título seria bicampeão. Aos 26 anos. Para muitos, subiria ao topo do Olimpo com Pelé, Maradona e outros poucos.

Todos os olhos voltados para ele. Bicampeão espanhol e dando ao Barcelona a sua segunda Liga dos Campeões. O auge em um clube. Mas mal pôde comemorar. Sua alma de artista não teve como respirar de uma enorme pressão. Ele precisava de férias. Mais para a mente do que para o corpo. Como um cantor depois de gravar um disco genial ou cumprir uma turnê consagradora.

Ronaldinho partiu para Weggis. E para seu azar – talvez achasse sorte na época – o clima não era de concentração, mas de permissividade. O diagnóstico errado de que com tantos talentos reunidos e depois de vencer tanto bastava entrar em campo e cumprir o protocolo para levar o hexa.

Não foi. E ao notar as dificuldades, perceber que não tinha corpo nem mente para o tamanho do desafio ele viveu uma depressão. No campo. Sem reação. Com alguns espasmos, porque o futebol transbordava pelos pés. Parou na França. De um Zidane focado, adiando jogo a jogo o fim de sua carreira. Depois de uma temporada sem títulos e grande desgaste. O oposto.

Ali algo se quebrou. O gênio que havia chegado tão longe ao ver Cannavaro receber a Bola de Ouro percebeu que teria que escalar a montanha de novo. E aí faltou a disciplina, o foco na carreira para seguir adiante. Deixou de ser atleta, virou jogador.

Ainda com talento para ter momentos brilhantes em Milan, Flamengo e Atlético Mineiro, este em especial com o último título relevante: a Libertadores 2013. Nem tanto no Fluminense e no Querétaro. Porque o Pep Guardiola que o descartou no Barcelona em 2008 levou o futebol para um caminho de intensidade e espírito competitivo que empurrou Ronaldinho para fora do cenário no mais alto nível. Ele era de outro tempo.

Bons tempos, muitos dirão. Mas tudo passa. O Gaúcho passou e agora se despede oficialmente. Deixando mágica por onde caminhou. A cabeça de artista foi esmagada pelo pragmatismo do futebol. Mas paradoxalmente o esporte ficou marcado por ele. Dois prêmios de melhor do mundo e inspiração para Lionel Messi, um dos grandes da história.

Maior que Ronaldinho por encarar o esporte como trabalho, com a disciplina exigida. O mundo disse que o R10 tinha que ser o maior. Ele só queria ser feliz. Que seja agora, mais longe do nosso imediatismo e de nossas exigências muitas vezes descabidas. Só um superhomem para suportar o moedor de carne, cérebro e alma.

Ronaldinho desistiu em 2006. Uma pena. Ou sorte dele. Vai saber…


Você rejeitaria Tite depois da Copa do Mundo ou só vale para os “gringos”?
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André Rocha

Reinaldo Rueda conduziu mal a saída do Flamengo para comandar a seleção chilena. Agora não vem mais ao caso, mas, observando à distância, havia várias maneiras, em tese, de ser mais transparente com o clube brasileiro.

Só que o caso de mais um treinador sul-americano deixando o país para aceitar uma proposta de seleção, se juntando a Osório, que saiu do São Paulo para o México, e Bauza, do mesmo clube para a Argentina, está construindo uma imagem de que os técnicos estrangeiros não cumprem  contratos e usam o Brasil como “trampolim”.

O nome disso, sem meias palavras, é xenofobia. Um pouco de reserva de mercado por parte dos treinadores daqui, tema que volta sempre que surge uma oportunidade. No caso de Rueda, na chegada e na saída – será por ter “tomado” um emprego tão cobiçado como ser o treinador do time de maior torcida do país?

Muito também pela visão de que treinadores de outros países do continente nada tem a acrescentar por aqui, enfrentam a barreira do idioma e não apresentam grande vantagem nos aspectos táticos e estratégicos. Talvez pela falta de tempo para trabalhar num calendário inchado, com imediatismo, resultadismo e pressão desproporcional. Os que já estão aqui se acostumaram com o ciclo. Para o “forasteiro” requer mais tempo.

Simplesmente não faz sentido. Principalmente a acusação de não cumprirem contrato. Quem cumpre? Os clubes, que demitem por qualquer sequência de resultados ruins? Como esquecer da demissão de Jorge Fossati do Internacional classificado para a semifinal da Libertadores de 2010? Ou Ricardo Gareca do Palmeiras, Diego Aguirre do Atlético Mineiro e Paulo Bento do Cruzeiro? Nem é questão de discutir cada caso, mas os clubes não hesitaram na hora de descartar os profissionais.

Os treinadores brasileiros, que cansados de levar um pé no traseiro agora deixam os clubes por qualquer proposta mais vantajosa estão errados também? Como Guto Ferreira, da Chapecoense para o Bahia e deste para o Internacional? Ou Fernando Diniz, sem disputar um jogo sequer pelo Guarani e partindo para o Atlético Paranaense?

Sem contar os casos dos brasileiros que saíram para seleções. Como Joel Santana em 2008, deixando o Flamengo para comandar a África do Sul que seria anfitriã da Copa do Mundo dois anos depois. Se pensarmos em “seleções” mundiais como o Real Madrid, como esquecer Vanderlei Luxemburgo abandonando o Santos campeão brasileiro em 2004 para comandar o Real Madrid?

E Tite? Ele mesmo admite e pede perdão ao Corinthians por ter “deixado o clube na mão” no ano passado para comandar a seleção brasileira. Não deixa de ser o mesmo caso: treinador que encerra seu contrato com um clube para acertar com uma federação. No caso, a CBF, entidade que o próprio Tite via com reservas e assinou manifesto de repúdio às suas práticas. E como ficou o ano do então campeão brasileiro, que já havia sofrido um desmanche no início da temporada?

Questão de ponto de vista. Este que escreve até discordou na época da decisão do melhor treinador brasileiro, mas depois compreendeu que era a realização de um sonho. O contexto também mostrou que acabou sendo melhor para a seleção, já que o risco de ficar de fora do Mundial era real.

Mas se ele deixar a CBF ao final da Copa da Rússia você ficaria com um pé atrás ou mesmo rejeitaria no caso do seu time de coração fechar contrato com Tite por ele não ter cumprido o acordo com o Corinthians? Foi exatamente o mesmo caso de Bauza, que foi servir ao futebol do seu país. Ou a crítica só vale para os “gringos”?

Rueda foi mal no fim do ciclo do Flamengo, mas daí a generalizar e rotular o caráter de profissionais estrangeiros vai uma distância enorme. Do tamanho do preconceito de tantas vozes que estão gritando desde o anúncio da saída do colombiano. Tudo muito conveniente.


O que o Cruzeiro ganha e perde com Fred
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André Rocha

Foto: Divulgação/Cruzeiro

A melhor versão da seleção brasileira com Mano Menezes foi sem um atacante na referência. Neymar abrindo espaços para Hulk, Kaká e Oscar. Fred foi preterido e agradeceu aos céus quando o treinador foi demitido e Luiz Felipe Scolari assumiu em 2013. Criticou publicamente o ex-comandante do escrete canarinho. Para terminar em quarto lugar na Copa do Mundo no Brasil no ano seguinte. Com Fred titular nos 7 a 1. A última partida dele com a camisa verde e amarela.

Se a polêmica que nasceu com o anúncio do retorno do centroavante ao clube depois de 13 anos para ser comandado por Mano Menezes já foi encerrada pelos dois em entrevistas, a questão no campo segue gerando dúvidas.

Porque o Cruzeiro ganha, mas também perde com a presença de Fred no ataque. Na temporada 2017, os melhores momentos do time celeste foram sem um típico camisa nove na frente. Na conquista da Copa do Brasil com Sóbis ou Raniel na reta final depois da saída de Ramón Ábila; no Brasileiro usando a dupla Thiago Neves-De Arrascaeta alternando no centro do ataque, mas com mobilidade, trocando com os ponteiros Rafinha, Alisson e Elber, além de Robinho, mais articulador.

Mano diz que seu time criava, mas não era contundente. No Brasileiro, a equipe mineira marcou 47 gols em 38 rodadas, foi apenas o 10º ataque mais efetivo. O artilheiro foi Thiago Neves com 11 gols em 33 partidas. Um a menos que Fred em 30. Atacante que precisou de menos que cinco tentativas para ir às redes. O Cruzeiro terminou com 11, a quinta pior equipe na relação gols/finalizações. Mesmo sendo o segundo colocado no total de conclusões, só atrás do Flamengo.

Portanto, na principal competição nacional, com números mais consistentes em 38 rodadas, mesmo considerando que o time priorizou a Copa do Brasil e teve um relaxamento natural depois do título, a necessidade de contratar um atacante mais definidor ficou clara. No popular, o time foi “arame liso”: cercava, porém não feria os rivais.

Mas a questão central é: a equipe vai seguir criando e tendo fluência ofensiva com um camisa nove mais fixo? Porque Fred será referência do ataque, mas também para a defesa adversária. Tem 34 anos e a mobilidade nunca foi sua maior virtude.

Mano sabe bem disso e já sinalizou a mudança no estilo de sua equipe: “Muitas vezes no ano passado, o Cruzeiro precisou de um jogador mais de movimentação porque precisa construir a jogada. Então, se nós contratamos um jogador que é um 9, vamos ter que construir a jogada diferente para esse jogador”, explicou o treinador na coletiva da reapresentação do elenco.

Mais do que nunca, futebol é um jogo de espaços. As equipes atuam em não mais que 25 metros. O atacante precisa se mexer para abrir brechas na retaguarda do oponente e dar opção para receber e finalizar com o time no ataque. Também necessita de velocidade para receber às costas da defesa em contragolpes. O Cruzeiro de Mano gosta de se fechar compacto guardando a própria área, com os ponteiros bastante recuados. Quando a bola é roubada e o adversário pressiona, a rapidez do jogador mais adiantado é fundamental.

Basta notar a dinâmica das referências da função nos principais clubes: Suárez, Cristiano Ronaldo, Cavani, Lewandowski, Diego Costa, Lukaku, Morata, Aguero, Gabriel Jesus, Roberto Firmino…Todos finalizadores, mas que chamam lançamentos. Assim como Jô, campeão e artilheiro no Corinthians. Também participativos com e sem a bola.

Não dá mais para contar com um centroavante que seja o responsável apenas pelo último toque. A tendência é que ele faça o time travar ou, no mínimo, ser mais previsível, principalmente nos jogos grandes. Os pontas e meias trabalham para ele finalizar, sem grandes variações. Até porque os companheiros muitas vezes se acomodam com a presença de alguém que assume a responsabilidade pelos gols. O Cruzeiro, assim como aconteceu com o Atlético Mineiro nas duas últimas temporadas, pode perder em dinâmica e trabalho coletivo. Mesmo com Bruno Silva e David, em tese, acrescentando força e rapidez ao setor ofensivo.

Mas ganha, além de um grande artilheiro, um rosto, uma liderança. O jogador midiático, o procurado para entrevistas depois dos jogos. O personagem que pode chamar o foco para si e poupar um companheiro menos calejado para suportar críticas. Com vivência em Libertadores. Para a gestão de vestiário é importante.

Obviamente se a sintonia com Mano seguir afinada como nas entrevistas antes de começar a rotina desgastante física e mentalmente na temporada. Fred deve ficar no banco ou até de fora em alguns jogos para administrar o fôlego e não estourar os músculos. Como será o diálogo como o treinador de personalidade forte para definir a dosagem? A conferir.

A parceria pode dar certo, é claro. Motivado, em paz e com uma equipe bem ajustada, Fred tem condições de ainda ser bem útil no futebol brasileiro. Mas o Cruzeiro de Mano terá que lidar com as perdas e ganhos dessa mudança importante em seu ataque para 2018.

(Estatísticas: Footstats)