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Quartas da Champions: duelos de gigantes e entre semelhantes
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André Rocha

ATLÉTICO DE MADRID x LEICESTER CITY – Dureza para os dois times. Para o Atlético porque entra como favorito absoluto, obrigado a propor jogo e dar o contragolpe. Para o Leicester também, já que será azarão, mas não tanto como se encarasse um gigante como Bayern, Barcelona e Real Madrid.

Interessante para ver essa versão do time de Simeone, que ocupa o campo de ataque e valoriza mais a posse de bola no ritmo de Saúl Ñíguez, mas sem deixar de ser compacto e concentrado, diante do campeão inglês que só joga em velocidade, vai entregar tudo no trabalho defensivo para definir em casa com o melhor de Vardy e Mahrez.

FAVORITO – Atlético de Madrid

BORUSSIA DORTMUND x MONACO – Duelo de intensidade máxima e vocação ofensiva, com times se arriscando dentro e fora de casa. Porém sem tanto controle de jogo. Ou seja, quem abrir vantagem na ida sofrerá se quiser administrá-la na volta.

Dembelé e Aubameyang contra Bernardo Silva e Mbappé. Thomas Tuchel versus Leonardo Jardim. Confronto sem a pompa dos duelos de gigantes, mas que promete demais. Muitos gols. Time alemão leva pequena vantagem pela cancha maior na competição.

FAVORITO – Borussia Dortmund

BAYERN DE MUNIQUE X REAL MADRID – Simplesmente 16 títulos em campo. Carlo Ancelotti, o mentor e campeão de “la decima”, contra Zidane, o aprendiz e atual vencedor. Dois times com camisa e experiência. Mas é difícil imaginar alguma novidade tática, já que são treinadores mais administradores que construtores.

Mesmo que a marcação individual tenha ficado para trás, é impossível não imaginar duelos como Bale x Alaba e a luta no meio-campo com Casemiro, Modric, Kroos de um lado; Xabi Alonso, Vidal e Thiago Alcântara do outro. Mais Robben contra Marcelo. Quem controlar a posse não leva vantagem necessariamente. Aposta na “sede” dos bávaros de recuperar o domínio europeu e no retrospecto positivo no confronto.

FAVORITO – Bayern de Munique

BARCELONA X JUVENTUS – A reedição da final da temporada 2014/15. Mas desta vez com o time catalão sem a consistência da última conquista e a equipe que domina a Itália há tempos mais cascuda e querendo revanche da decisão no Estádio Olímpico de Berlim.

A Juve parece ter uma formação mais equilibrada, com Mandzukic sendo o centroavante que infiltra pela esquerda para se juntar a Higuaín e Dybala no centro e receber as bolas de Cuadrado e Daniel Alves, que conhece muito bem o adversário. Mas o Barça, apesar das oscilações e dos problemas defensivos, tem o tridente genial e a sensação de que pode tudo depois dos 6 a 1 sobre o PSG.

FAVORITO – Barcelona

 

 


Ritmo da Premier League é o maior inimigo de Guardiola na Inglaterra
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André Rocha

Guardiola_City_crise

No eterno Fla-Flu do “Guardiolismo”, os detratores dirão que acabou a moleza, o campeonato inglês é mais equilibrado, tem melhores times e Barcelona e Bayern sobravam porque jogavam contra equipes bem mais fracas. E talvez tenham alguma razão.

Já os fãs incondicionais do técnico catalão defenderão alegando que a culpa é do pouco tempo de trabalho para implementar sua filosofia e dos erros individuais dos jogadores do Manchester City, que não estão no mesmo nível de excelência dos atletas que o técnico comandou anteriormente. Não estão errados.

Difícil encontrar apenas uma razão para justificar o mau momento do City de Guardiola na Inglaterra depois do ótimo início, de seis vitórias seguidas e a liderança da liga. Mas ao cruzar a visão de futebol do treinador e o que se vê nos campos da Inglaterra é possível afirmar que o maior inimigo até aqui é o ritmo da Premier League.

É algo difícil de quantificar mas que salta aos olhos. O jogo na Inglaterra tem técnica e variações táticas, mas não permite tanta fluidez. É naturalmente caótico. As transições são muito rápidas, saindo das zonas de perigo no próprio campo. Induz as disputas físicas. A pressão no homem da bola é constante. Há mais choques e a arbitragem não marca falta em qualquer contato.

Guardiola constroi seu jogo posicional com passes desde a defesa, com calma, até se instalar no campo de ataque com praticamente todos os jogadores. Na perda da bola, pressão imediata para retomar a posse em não mais que dez segundos.

Como fazer isso se o fluxo é quebrado na pressão, no choque ou na bola longa mais bem planejada e executada, focada no rebote? A saída de bola fica “suja”, os setores não se aproximam. Ou seja, é praticamente impossível ditar este ritmo. A essência do plano de Guardiola.

No Barça era Xavi quem controlava o tempo do jogo. As sístoles e diástoles do coração da equipe. No Bayern era Lahm. Primeiro no meio, depois como um lateral que jogava por dentro, participando na articulação. No City, Guardiola tentou com Fernandinho, Gundogan, David Silva, Yaya Touré. Sem sucesso, porém. E a questão não é a qualidade individual dos meio-campistas.

Simplesmente não há controle. No início, o time azul de Manchester surpreendeu com as novas ideias e pelo ritmo intenso que impôs, até pela necessidade de uma resposta rápida nos playoffs da Liga dos Campeões contra o Steaua Bucareste. Depois o time passou a ser estudado e o ritmo alucinante da Premier League acompanhou a intensidade do City.

Guardiola vai tentando se adaptar. Primeiro buscando criar superioridade numérica no meio com três zagueiros e Fernandinho e Gundogan qualificando o início da construção das jogadas. Na virada sobre o Barcelona pela Champions, a pressão absurda no campo de ataque e o contragolpe letal.

Nas derrotas para Chelsea, Leicester e agora Everton, os erros técnicos prejudicaram. Especialmente no passe que vira assistência ou na finalização. Mas a saída de bola continua sendo a questão mais complexa. Guardiola tenta acelerar, fazer a bola chegar mais rapidamente no campo de ataque para então fazer o jogo posicional.

Mas para isso é preciso espaçar mais os setores. Os laterais e os meio-campistas se adiantam para tornar o processo menos suscetível a erros. Só que deixam os zagueiros desprotegidos. Um equívoco e a retaguarda está exposta.

Qual a saída? Voltar à essência de suas ideias ou ceder totalmente e virar um técnico comum dentro do contexto da Premier League? Afinal, para que Guardiola foi contratado? Impor estilo ou aceitar a impotência diante do ritmo do jogo na Inglaterra?

Antonio Conte começou mantendo o padrão do Chelsea e fez sua equipe voar até a liderança colocando suas ideias. Só que a filosofia do treinador italiano é mais simples e flexível. Gosta de bolas longas, disputas físicas e na velocidade em todos os pedaços do campo. A solidez da linha de cinco atrás é uma diferença a favor.

O catalão está emparedado. Para piorar, a pressão e a visibilidade sobre o técnico mais estudado do planeta em um clube sem a história gloriosa de Barcelona e Bayern. Com mais equilíbrio, menos craques. Pouco tempo de trabalho. Fãs e detratores não deixam de ter razão.

Difícil é encontrar uma saída para Pep Guardiola voltar a acertar.

 

 

 


Os extremismos no Brasil do Fla-Flu quando o assunto é Guardiola
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André Rocha

Guardiola_City_2016

No país em que quase sempre se avalia unicamente o resultado final, onde o segundo colocado é o “primeiro dos últimos”, fica bastante complicado elogiar algum profissional por ter colaborado com a evolução do futebol nos últimos anos. Ainda mais quando ele também conseguiu grandes resultados, o que “contamina” a análise.

Pep Guardiola já está na história. Não por ter reinventado o esporte, mas pela coragem de atualizar e combinar ideias de Cruyff, Van Gaal, Sacchi, Bielsa, La Volpe, Lillo e tantos outros logo em seu primeiro trabalho num grande clube. Com o sucesso imediato do Barcelona com modelo de jogo posicional, baseado na posse de bola e na marcação por pressão no campo de ataque, provocou os demais a encontrarem antídotos ou novas combinações que levaram o jogo a outro nível.

Mas por aqui a discussão costuma terminar em “ganhar ou perder”. E a valorização do treinador catalão mexe com alguns preconceitos. O raciocínio básico: como no esporte dos craques, em que o técnico só precisa distribuir as camisas e não atrapalhar, o treinador pode ter tanta visibilidade? E logo vindo da Espanha, que até outro dia não tinha nenhum título relevante.

Para piorar, a lenda urbana que Pep roubou as ideias da essência do nosso jogo. Porque na cabeça de muita gente ninguém pode se propor a praticar um futebol de troca de passes e ofensivo sem copiar o brasileiro. A velha arrogância que tanto trava o nosso progresso.

A ponto de distorcerem uma declaração diplomática depois da surra sobre o Santos no Mundial de 2011 –  um breve comentário sobre o Brasil a que seus pais e avós se referiam – e dizer que o Brasil é sua referência. Não é, nunca foi. Leia mais AQUI.

E aí quando Renato Gaúcho aparece dizendo que não precisa estudar e que treinar os times milionários da Europa é fácil há uma vibração incontida, inclusive de colegas jornalistas. Com todo respeito que todos merecem, é como se pensassem que eles também nada precisam aprender e podem seguir vendo e analisando o futebol com a lógica de 20 ou 30 anos atrás.

Não podem, ou ao menos não deveriam. E Guardiola é o “culpado”. Por isso o êxtase coletivo nas redes sociais a cada derrota ou má fase dos times do treinador.

Em resposta, os admiradores dos conceitos do técnico, diante de tanta perseguição de quem normalmente não entende o mínimo da evolução do jogo, construíram uma espécie de trincheira de defesa incondicional. Guardiola não erra, não fracassa. Criam uma aura de infalibilidade e transferem a responsabilidade para time, clube, imprensa. Menos quem toma as decisões em relação ao que se faz dentro de campo.

Para este que escreve, Guardiola é genial, o melhor treinador do mundo desde sua primeira temporada e tem enorme mérito por permanecer inquieto, aprendendo, se adaptando. Mas ele também se equivoca.

No Bayern, fracassou ao não vencer a Champions em três temporadas. É importante lembrar o contexto de sua contratação pelo time bávaro, em janeiro de 2013: derrotas doídas no torneio continental, inclusive uma final em casa para o Chelsea e perda da hegemonia na Alemanha para o Borussia Dortmund de Jurgen Klopp.

Depois venceram tudo com Jupp Heynckes e o plano original, de mudar a ideia de futebol do clube para voltar a ser vencedor, teve que ser repensada. E aí vem outra crítica injusta: a de que é um “engenheiro de obra pronta”.

Como se o Barcelona que recebeu de Rijkaard em 2008 fosse uma máquina. Como se ele não tivesse defenestrado Ronaldinho e Deco do clube para proteger Messi. Como se o argentino não tivesse evoluído brutalmente sob seu comando, assim como Xavi, Iniesta, Daniel Alves e outros. O mesmo no Bayern com Robben, Douglas Costa, Xabi Alonso, Lahm…

A meta em Munique, porém, era conquistar o continente. Chegou às semifinais nas três edições e não caiu para times ordinários: o Real do trio BBC, o Barça de Messi, Suárez e Neymar, o Atlético de Madrid de Simeone. Venceu e sobrou na Bundesliga, influenciou e foi afetado pelo jeito alemão de pensar futebol. Cresceu, amadureceu. Mas saiu sem cumprir integralmente o projeto.

Agora no Manchester City pena para ajustar suas ideias ao ritmo e à intensidade da Premier League. Testa, experimenta, acerta e erra. Como foi infeliz no primeiro tempo da vitória por 2 a 1 sobre o Arsenal no Etihad Stadium. Optou de início por abrir Sané pela direita, fazer David Silva circular a partir da esquerda e enfiar Sterling como o atacante mais avançado.

O velocista inglês perdeu gol feito que podia ter empatado logo depois do tento de Walcott que abriu o placar. Os citizens ocuparam o campo de ataque e tiveram mais posse de bola. Faltou efetividade na frente e mais volume de jogo.

Depois de 45 minutos praticamente perdidos em termos de produção ofensiva, as mudanças óbvias: Sterling foi enviado à ponta direita, Sané trocou de lado e o centro da articulação ficou para De Bruyne, David Silva e a aproximação de Yaya Touré. O mais lógico.

O meio ganhou qualidade e os ponteiros espaços para explorar as diagonais. Uma de Sané, outra de Sterling após passe primoroso de Kevin De Bruyne. Dois gols e a virada. Todos cresceram com a nova distribuição em campo, três pontos fundamentais para não permitir que o Chelsea dispare tanto na ponta da tabela.

Guardiola experimentou sem sucesso e teve o mérito de corrigir a tempo. Assim como reconsiderou a utilização de um Yaya Touré recondicionado fisicamente e disposto a mostrar que ainda pode ser útil. Errou, corrigiu a rota. Simples assim.

Nem “puro marketing”, nem gênio da raça, uma santidade. Apenas um treinador. Humano, cheio de dúvidas como o próprio afirmou em entrevista recente. Que não tem seu valor condicionado apenas aos títulos.

Sem extremismos no Fla-Flu nosso de cada dia, até quando o assunto é o catalão Pep Guardiola.


Hala Madrid! Mas futebol não é, nunca foi e jamais será apenas dinheiro
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André Rocha

O futebol não é só dinheiro.

O Real Madrid confundiu jogar naturalmente, controlar e dosar o ritmo com a perda da competitividade depois do gol de Benzema logo aos nove minutos da final do Mundial Interclubes.

Veio então o bom e organizado Kashima Antlers e seu grande talento Shibasaki para lembrar que abismo técnico, financeiro e midiático só se concretiza no campo se atrelado à competência. Empate no final do primeiro tempo, virada no início da segunda etapa com gols de seu camisa dez – meio-campista de área a área que jogaria em pelo menos metade da Série A brasileira – e alimentou o sonho.

Às vezes a camisa pesa mais que o poder financeiro e o árbitro Janny Sizakwe pipocou quando deveria ter punido Sergio Ramos com o segundo cartão amarelo e, consequentemente, a expulsão do zagueiro. Poderia ter mudado a história da decisão.

Então Cristiano Ronaldo apareceu, embora nunca tenha se escondido. Tropeçou na bola em um contragolpe, perdeu gol à frente do bom goleiro Sogahata. No momento em que o time merengue mais precisava, porém, converteu o pênalti sobre Lucas Vázquez que garantiu a prorrogação, se Endo não tivesse perdido uma grande chance no lance final do tempo normal.

Em 15 minutos, o português resolveu a final com mais dois gols, desta vez com bola rolando. Para fechar um ano espetacular nas conquistas. Talvez nem tanto no desempenho. Minimalista, Cristiano não participa tanto na construção das jogadas, mas está inteiro durante os noventa minutos e mais uma prorrogação, se for necessário, para estar preparado para a finalização.

Desta vez protagonista na decisão. Três gols em finais de Mundial, só ele e Pelé, no duelo do Santos contra o Benfica em 1962.

Real cinco vezes campeão mundial.  Gigante, máquina de fazer dinheiro. Mas existe também a competência no uso dos recursos. Os três últimos campeões são Barcelona, Real Madrid duas vezes e Bayern de Munique. Times da primeira prateleira do futebol mundial, incluindo o universo das seleções.

Equipes entre as maiores, mais vencedoras e melhores da história. Sintonizadas e artífices da evolução recente do esporte. Com a qualidade que o dinheiro compra, mas também intensidade e setores bem coordenados. O mais alto nível.

Porque futebol nunca foi só dinheiro.

Se fosse, o Manchester United, das marcas mais valiosas do planeta, não estaria fora da Liga dos Campeões e, mesmo com Mourinho no comando, não sentiria tanta falta de Sir Alex Ferguson.

Se fosse, o Atlético de Madrid não teria surpreendido o mundo em 2014 com título espanhol e final de Champions e o Leicester City não viveria o conto de fadas na última temporada. Orçamentos bem mais modestos, mas rara excelência.

No mesmo Mundial com chancela da FIFA, quando o Barcelona já vivia a queda de Ronaldinho Gaúcho pós Copa de 2006, o Internacional de Gabiru não perdoou. Quando Liverpool e Chelsea ganharam a Europa sem a condição de melhores times do continente de fato, São Paulo e Corinthians conseguiram surpreender.

O próprio Real já viveu na pele o revés pela força do dinheiro. Em 2003 dispensou o operário Makelele que fazia o time funcionar e contratou a superestrela David Beckham para se juntar a Figo, Zidane, Ronaldo e Raúl. Contratação que disparou a venda de camisas, mas não rendeu títulos com todos os astros reunidos.

Hala Madrid! Mas o futebol jamais será apenas dinheiro. Porque sempre haverá um Kashima Antlers, a melhor história do Mundial de Clubes de 2016, para nos lembrar por que amamos tanto este jogo.

 

 

 

 

 


Bundesliga “de um time só”? Só se ele for competente
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André Rocha

O Bayern de Munique sofreu por 25 minutos em Dortmund contra um Borussia que impressionou pela intensidade máxima e as muitas variações táticas partindo de uma base no 3-1-4-2 montado por Thomas Tuchel.

Três zagueiros, Weigl à frente da defesa. Piszczek e Schmelzer ora laterais, ora alas abrindo bem o jogo. Gotze e Schurrle trabalhando no meio e aparecendo na frente formando praticamente um quarteto ofensivo com Adrian Ramos e Aubameyang, autor do gol único da partida.

Vantagem que fez o time da casa manter a proposta por mais algum tempo e depois recolher as linhas naturalmente, na maior parte do tempo com cinco atrás.

Trocando passes, o time bávaro começou a ter o controle do jogo. Algo que falta muitas vezes ao ritmo insano do Dortmund, que tentava o contragolpe, a bola batia e voltava para ser trabalhada pelo rival.

No 4-3-3, o time de Carlo Ancelotti se instalou no campo de ataque. Sem Vidal, perdeu a variação para as linhas de quatro com Muller fazendo a diagonal e se juntando a Lewandowski. O time fica mais engessado, menos imprevisível, o que dificulta a jogada que cria a chance cristalina.

No segundo tempo, mais pressão com Douglas Costa na vaga de Kimmich abrindo bem na ação ofensiva, quase colado na linha lateral para Muller centralizar, e fechando o meio na recomposição. Rafinha entrou no lugar de Lahm e Renato Sanches substituiu Xabi Alonso, que acertou o travessão de Burki, ótimo goleiro suíço que trabalhou muito.

Mas, a rigor, foram apenas três finalizações do Bayern no alvo em um universo de 18. Quatro do Dortmund, mesmo concluindo apenas onze e tendo 38% de posse. Eficiência.

E competência que deixa uma lição para o atual tetracampeão alemão: a Bundesliga, e qualquer campeonato de alto nível, só pode ser “de um time só” apenas se esta equipe for a melhor em desempenho e resultados. Senão a distância diminui ou simplesmente desaparece.

Em onze rodadas quem está na frente com campanha invicta é o debutante Leipzig, o “Expresso do Oriente”. Quer conhecer mais sobre esta surpresa? Clique AQUI


Guardiola é revolucionário! Os “românticos” nunca existiram
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André Rocha

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Nos 3 a 1 do City sobre o Barcelona em Manchester, Pep Guardiola encontrou uma melhor resposta ao poder do ataque MSN, especialmente Lionel Messi. Menos posse de bola e troca de passes, mais intensidade e pressão na marcação do campo de ataque.

É lógico que os desfalques do time catalão ajudaram a complicar a saída de bola e a construção das jogadas. Iniesta, principalmente. Mas a leitura de jogo do treinador dos Citizens desta vez foi mais precisa.

Porque o “centro nervoso” do Barça atual é o ataque, diferente do time comandado por Pep, que tinha Xavi e o meio-campo, mais Messi como “falso nove”, fazia o plano de jogo funcionar. Para evitar que a bola chegasse ao tridente sul-americano, linhas avançadas e muita concentração de Sterling, De Bruyne, David Silva, Aguero e até Fernandinho e Gundogan para roubar a bola na frente.

Com a vitória, a “descoberta” de um Guardiola competitivo, que acredita nas suas ideias e em seus princípios, mas é capaz de se adaptar para vencer. No Brasil, em geral, a visão é de que o técnico genial seria uma espécie de Telê Santana de 1982 que deu certo. Ou seja, a combinação de futebol arte e resultados.

Um “romântico”. Alguém capaz de preferir ser derrotado a abrir mão de um estilo mais vistoso. A questão é que, na prática, este personagem é imaginário, nunca existiu. Pois quem chega ao futebol profissional e consegue alcançar equipes de primeira divisão ou seleções que chegam a uma Copa do Mundo são competidores natos.

Telê Santana perdeu para a Itália com os dez jogadores no campo de defesa no momento do terceiro gol de Paolo Rossi e, no último ataque, quase empatou num chuveirinho de Éder na cabeça de Oscar que parou nas mãos de Dino Zoffi.

Assim como Rinus Michels também apelou para o abafa com cruzamentos seguidos buscando o gol salvador da Holanda contra a Alemanha na final em 1974. César Luis Menotti? Um idealista, sim. Mas aceitou tudo e vibrou com a conquista argentina em 1978, até hoje cercada de suspeitas.

Mesmo treinadores mais radicais, como Marcelo Bielsa, Paco Jémez, Juan Manuel Lillo, Zdenek Zeman e, no Brasil, Cilinho, Edu Coimbra e hoje Fernando Diniz também querem suas equipes competitivas, ainda que acreditem em suas filosofias. É natural.

Guardiola não preferiu ser derrotado pelo Barcelona nos dois duelos no Camp Nou com Bayern e City. Simplesmente escolheu uma estratégia que não funcionou: criar superioridade no meio-campo para evitar que a bola não chegasse a Messi, Suárez e Neymar.

Na terça foi pragmático, com estilo simples e direto. O objetivo: três pontos que eram fundamentais. Assim como no próprio Barcelona lendário chegou a enviar o zagueiro Piqué para o comando do ataque e despejou bolas na área contra os “ônibus” de José Mourinho na Internazionale em 2010 e Roberto Di Matteo pelo Chelsea em 2012 nas derrotas pelas semifinais da Liga dos Campeões.

Também apelou para seguidos cruzamentos para Lewandowski e Muller até virar o jogo com o Bayern de Munique sobre a Juventus pelas oitavas-de-final do torneio continental na temporada passada. Guardiola quer vencer. Simples assim.

A diferença é que sua proposta de jogo é revolucionária por atualizar e combinar conceitos dos últimos 40 anos. Essencialmente quer a bola. Exige qualidade na saída para instalar seu time no campo de ataque. Troca passes para afastar o oponente do seu campo e inicia a pressão assim que perde a bola para não ser tão atacado.

Tudo para esgotar e nocautear o adversário sem piedade. Se tudo isso for possível com beleza, melhor. Eterniza os feitos, aumenta a satisfação. É da natureza humana tentar fazer bem feito e buscar o belo.

Mas quem tem 21 títulos em sete temporadas completas e só perdeu uma liga nacional na carreira, para o Real Madrid em 2011/12, não pode ser alguém que abra mão de vitórias. Guardiola cobra excelência de seus comandados, é obsessivo na ideia de jogar bem para ganhar três pontos. Pragmático na medida certa.

Não um “romântico”. No mundo real eles nunca existiram.


O Bayern e Ancelotti não aprendem: para o Atlético de Simeone, menos é mais
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André Rocha

As cinco temporadas de Diego Simeone no Atlético de Madrid construíram o melhor sistema defensivo da Europa e do mundo.

Uma organização impressionante, com linhas compactas, movimentos precisos e muita concentração na execução de um plano de jogo assimilado por uma base que ajuda os atletas que chegam e se adaptam de forma mais rápida e segura.

Mas o mais importante é que saber o que fazer em campo transfere confiança para jogar. O título espanhol em 2014, a Liga Europa em 2012 e as duas finais de Liga dos Campeões contra o Real Madrid, com reveses nos detalhes, fazem com que em 2016 a equipe tenha personalidade para enfrentar qualquer adversário.

Inclusive o poderoso Bayern de Munique, batido na semifinal da última edição do torneio continental. Com Guardiola buscando todo tipo de variação tática e mudanças de posicionamento para quebrar as linhas de marcação. Agora Carlo Ancelotti tentou superar com uma ideia mais simples, menos móvel.

Só que é o Atlético o especialista em transformar o menos em mais. Os bávaros fizeram um jogo engessado, com Muller subaproveitado na ponta direita, Ribéry com Alaba pela esquerda em jogada mapeada desde os tempos de Jupp Heynckes. Posse de bola de 63% durante todo o tempo, mas quase sempre inócua.

Para piorar, o Atlético continua prático e pragmático, mas adicionou qualidade, especialmente no meio-campo. Se perdeu Arda Turan para o Barcelona, ganhou o ótimo Saúl Níguez e encaixou Yannick Carrasco como “winger” numa linha de quatro que marca e joga pelo centro com Gabi e Koke. Muita técnica.

A definição das jogadas continua rápida, sem maior cuidado com a posse. Só que é mais refinada e inteligente. Como no gol de Carrasco. A mais feliz das sete finalizações dos colchoneros no primeiro tempo. Sem recorrer tanto às jogadas aéreas procurando Godín. O Bayern concluiu apenas quatro, metade na direção da meta de Oblak. Pouco ou quase nada serviu os 87% de efetividade nos passes.

Na segunda etapa, Ancelotti tentou mudar as características na frente com Robben na vaga de Muller, Kimmich no lugar de Thiago Alcântara, que podia ter sido expulso por faltas seguidas já com amarelo. Ainda Mats Hummels substituindo Boateng. Avançou as linhas, buscou a pressão. Mas ainda previsível.

Simeone confia tanto em seus jogadores que arriscou Gameiro no lugar de Carrasco. Griezmann recuou para fazer a função pela esquerda e o compatriota ficou na frente com Torres. Ou marcando no próprio campo, com os dez jogadores ocupando não mais que trinta metros para negar espaços ao oponente.

Depois “Cholo” trocou Torres por Nico Gaitán, retornando o francês para o ataque. Griezmann teve a chance de definir o jogo, mas, assim como na última final continental, cobrou o pênalti tosco cometido por Vidal em Filipe Luís no travessão.

Nem foi preciso. O Bayern não teve ideias ou alguma surpresa para descoordenar o que é tão bem treinado. Carlo Ancelotti segue sem vencer no Vicente Calderón, sina desde os tempos de Real Madrid. Porque o técnico e sua equipe ainda não aprenderam a fazer mais e melhor para superar um Atlético que não precisa de muito para se impor e vencer.

Para Simeone, menos é sempre mais.

(Estatísticas: UEFA)

 


No novo Bayern de Carlo Ancelotti, Muller será Cristiano Ronaldo. Entenda
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André Rocha

É injusto afirmar que o Bayern de Munique na passagem de bastão de Guardiola para Carlo Ancelotti será um time essencialmente pragmático levando em conta a atuação na Supercopa da Alemanha.

Porque o time bávaro comandado pelo catalão já sofreu e jogou nos contragolpes em Dortmund contra o Borussia. Inclusive com cinco na defesa e abrindo mão da bola diante da pressão das equipes de Jurgen Klopp e Thomas Tuchel.

Mesmo enfrentando um Dortmund sem Gundogan, Mkhitaryan e Hummels, agora no time de Munique. Ainda não podendo contar com Gotze e Schurrle, que ficaram no banco. Nunca é fácil enfrentar um time que, independentemente da formação, sempre tenta combinar posse de bola, velocidade na transição ofensiva e pressão na saída adversária.

O Bayern respondeu com maturidade. Também equilíbrio, marca de Ancelotti em suas equipes que sempre tentam combinar qualidade técnica e praticidade. O italiano não é um gênio criador como Guardiola. Prefere administrar dentro e fora de campo. Observador e inteligente, transita entre os dois mundos: o da posse e o do jogo reativo.

No Signal Iduna Park enfrentou a Muralha Amarela colocando em campo o que tinha de melhor à disposição. Javi Martinez foi soberbo na vaga de Boateng na zaga ao lado de Hummels. Lahm de volta à lateral, sem as funções de articulador dos tempos de Guardiola.

No desenho tático, trouxe uma variação que deu certo no Real Madrid: do 4-3-3 para o 4-4-2 sem a bola. Cristiano Ronaldo era o ponta que virava atacante na recomposição com o centroavante (Benzema) para guardar energias visando os contragolpes. Ideia de Paulo Bento na seleção portuguesa que disputou a Eurocopa em 2012.

No Bayern é Muller quem abre pela direita quando a equipe ataca e fica à frente com Lewandowski. No Real, Di Maria, depois James Rodríguez, abria para fechar o corredor esquerdo e Bale voltava do lado oposto para formar a linha de quatro. Agora Vidal sai do meio para a direita e Ribéry retorna à esquerda com Xabi Alonso e Thiago Alcântara centralizados.

No contragolpe, o francês acionou Lewandowski às costas da defesa, Muller fechou em diagonal e Vidal recebeu pela direita para abrir o placar. Depois Muller fechou os 2 a 0 que garantiu a sexta conquista do torneio de jogo único para o Bayern na bola parada.

Flagrante do início do contragolpe do primeiro gol: Ribéry vai acionar Lewandowski, Muller, que está mais adiantado, infiltra e Vidal se descola da linha de quatro no meio para aparecer pela direita e finalizar (reprodução ESPN Brasil).

Flagrante do início do contragolpe do primeiro gol: Ribéry vai acionar Lewandowski, Muller, que está mais adiantado, infiltra e Vidal se descola da linha de quatro no meio para aparecer pela direita e finalizar (reprodução ESPN Brasil).

Contra-ataque e jogada aérea. Duas armas do novo Bayern que compensaram as 20 finalizações do Dortmund contra apenas nove dos visitantes, que tiveram apenas 45% de posse.

Assim deve ser o gigante alemão sob o comando de Ancelotti. Menos mutante, mas com uma variação marcante. Muller será Cristiano Ronaldo, ao menos taticamente. Não por acaso, o novo chefe autorizou um prolongamento das férias e exigiu a permanência de Muller na equipe de Munique.

O Bayern espera repetir o Real Madrid e voltar a vencer a Liga dos Campeões com o técnico tricampeão continental.

No Real Madrid, versão 2014/15, Bale voltava à direita e James Rodríguez fechava o corredor esquerdo para liberar Cristiano Ronaldo. Ancelotti agora leva a ideia para o Bayern de Munique (reprodução ESPN Brasil).

No Real Madrid, versão 2014/15, Bale voltava à direita e James Rodríguez fechava o corredor esquerdo para liberar Cristiano Ronaldo. Ancelotti agora leva a ideia para o Bayern de Munique (reprodução ESPN Brasil).


O handebol nunca esteve tão presente no futebol. Por causa de José Mourinho
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André Rocha

O Brasil venceu a Alemanha no handebol masculino por 33 a 30 na Arena do Futuro e, ao superar um favorito à medalha de ouro, confirma a ascensão do país no esporte que já vem desde a conquista do Mundial com a seleção feminina em 2013. As chances de medalha no Rio de Janeiro são reais.

Ao contrário do futebol, o gol nesta modalidade não é raro. Saem às dezenas porque a própria dinâmica propicia isso. Seis para cada lado, mais o goleiro, precisando cobrir espaços e impedir, ou ao menos dificultar a finalização da jogada. Com as mãos, muito mais fáceis de coordenar. Tudo para tentar sair da quadra sofrendo menos gols que o oponente. Minimizar os danos.

Seleção brasileira de handebol masculino em momento defensivo na vitória sobre a Alemanha: barreira de seis para evitar ou dificultar a finalização (reprodução Sportv).

Seleção brasileira de handebol masculino em momento defensivo na vitória sobre a Alemanha: barreira de seis para evitar ou dificultar a finalização (reprodução Sportv).

Foi o que José Mourinho fez no Camp Nou em 28 de abril de 2010. Barcelona x Internazionale, jogo da volta da semifinal da Liga dos Campeões após a vitória dos neroazzurri em Milão por 3 a 1. Aos 28 minutos do primeiro tempo, Thiago Motta fez falta em Busquets e levou cartão vermelho.

Mourinho contestou muito a decisão da arbitragem com todo seu jogo de cena costumeiro. Sem admitir sair de Barcelona desclassificado pelo time de Pep Guardiola, à época seu desafiante no duelo pelo posto de melhor técnico do mundo, o português apelou.

Consciente de que o rival trocaria passes com técnica e paciência até encontrar brechas, que seriam mais frequentes com a vantagem numérica, alinhou seus nove jogadores de linha à frente da meta de Julio César quase como um time de handebol. Duas linhas chapadas. Ora duas de quatro, ora uma de cinco e outra de quatro.

Em alguns momentos com seis atrás: os quatro defensores mais centralizados e os dois ponteiros recuados como laterais. Um deles era Samuel Eto’o, campeão da tríplice coroa com o Barça um ano antes. Como centroavante e artilheiro do time na temporada. Humildade absoluta.

Flagrante da Internazionale com seus nove homens guardando a própria área, sete deles quase alinhados. Em 2010, José Mourinho organizou a retranca e o jogo virou handebol (reprodução ESPN).

Flagrante da Internazionale com seus nove homens guardando a própria área, sete deles quase alinhados. À esquerda, Samuel Eto’o como lateral. Em 2010, José Mourinho organizou a retranca e o jogo virou handebol (reprodução ESPN Brasil).

Mourinho diz que pensou apenas em evitar uma goleada. Na prática, o feito histórico de sair derrotado apenas por 1 a 0, com o gol em impedimento de Piqué, mudou os rumos do esporte. Nunca o handebol esteve tão presente.

Porque tirou a vergonha e organizou a retranca da forma mais pragmática já vista. Ferrolhos sempre existiram. Na própria Internazionale bicampeã europeia nos anos 1960 com o técnico argentino Helenio Herrera. Mas eram tempos de líbero e marcação individual. A própria Grécia campeã da Euro em 2004, já com marcação por zona. Mas não tão radical.

A ideia de Mourinho era tirar espaços, ter corpos formando uma barreira. Porque se a lógica do jogo posicional de Guardiola é trocar passes até encontrar uma fresta para a infiltração, se não há a brecha sobra só a posse de bola. Inócua.

Nascia ali a grande dicotomia do futebol atual: jogo de posse versus jogo de transição. Caça e caçador, gato e rato. Treinadores escolheram seus lados, outros tentam transitar entre esses dois universos, conforme a necessidade. Como Carlo Ancelotti, que impôs a Guardiola sua pior derrota, nos 4 a 0 do Real Madrid sobre o Bayern em Munique na semifinal da Liga dos Campeões em 2014.

Porque adicionou o contragolpe letal à fórmula de Mourinho. Sempre um problema para quem prefere controlar a pelota. Linhas compactas, saída rápida para o ataque em toques rápidos e objetivos. Ainda a jogada aérea, especialmente na bola parada.

Nos 4 a 0 sobre o Bayern de Munique comandado por Guardiola, o Real Madrid de Carlo Ancelotti se fechou com linhas de quatro muito próximas, mas adicionou contragolpes letais aproveitando os espaços deixados pelo adversário que ocupava o campo de ataque (reprodução ESPN Brasil).

Nos 4 a 0 sobre o Bayern de Munique comandado por Guardiola, o Real Madrid de Carlo Ancelotti se fechou com linhas de quatro muito próximas, mas adicionou contragolpes letais aproveitando os espaços deixados pelo adversário que ocupava o campo de ataque (reprodução ESPN Brasil).

A última Eurocopa, inchada com 24 seleções, proporcionou diversos duelos de estilos. Seleções sem técnica e tradição alinhando nove, às vezes dez jogadores num espaço de não mais que vinte metros para evitar o gol. Sem os confrontos individuais. Marcação por zona na essência. Corpos impedindo que o adversário ocupe os espaços importantes.

Para muitos é a antítese do futebol. Este que escreve também aprecia o futebol mais ofensivo, que busca o gol. Ainda o mais vencedor se considerarmos que a Alemanha é a atual campeã mundial e Barcelona e o Bayern de Munique de Guardiola empilharam títulos nas últimas temporadas.

Mas não é por acaso que exemplos de equipes menos talentosas faturando taças antes inimagináveis se tornem mais frequentes. Atlético de Madrid, Leicester, Portugal. Porque é necessário mais treino que talento para fazer uma marcação bem coordenada e atacar os espaços deixados pelos oponentes com toques rápidos e em progressão. Ou nas jogadas aéreas exaustivamente treinadas.

Se Guardiola mexe com estruturas e conceitos do futebol desde 2008, não é absurdo dizer que a resposta de Mourinho deixou um legado mais abrangente. Para os românticos, a culpa é dele. Pelo simples fato de que construir é mais complexo. Em qualquer área da vida.

Inclusive no handebol, ainda que o gol seja ordinário. Por isso a defesa é de ouro.

 


Talentosos, inteligentes, versáteis. Por que a Europa quer Jesus e Gabigol
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André Rocha

Jesus e Gabigol

Até Neymar, o futebol brasileiro exportava três tipos de atacante: o extra-classe, ponto fora da curva – Romário, Ronaldo, o meteoro Adriano Imperador, Rivaldo, Ronaldinho e a própria estrela solitária, camisa onze do Barcelona.

Também os jogadores rápidos pelos flancos, mas com algumas deficiências nas tomadas de decisão e nas finalizações. Como Lucas Moura, por exemplo. Ou o centroavante fazedor de gols, mas nem tão participativo no trabalho coletivo. Como Fred.

Gabriel Jesus e o seu xará do Santos, o Barbosa ou Gabigol, não mostram hoje o talento que saltava aos olhos e encantava quando Neymar, com os mesmos 19 anos, decidia uma Libertadores para o Santos em 2011, marcava gols antológicos como o sobre o Flamengo que rendeu o Prêmio Puskas e já era a referência na seleção.

A dupla de jovens avantes atrai a atenção de grandes equipes como Manchester City (leia-se Guardiola), Real Madrid, Bayern de Munique, Manchester United, Barcelona e Juventus. Pelo potencial, mas principalmente por conta das características parecidas com as de Neymar e que se encaixam no que se espera de um atacante nos principais centros europeus.

Jesus e Gabigol fazem gols, mas não são típicos centroavantes. Até atuam nessa função mais centralizada. O primeiro no Palmeiras de hoje, comandado por Cuca. O outro em 2014, com 17 anos, no Santos de Oswaldo Oliveira antes da chegada de Leandro Damião. Depois Ricardo Oliveira.

Mas também jogam circulando pelos flancos, sabem abrir espaços, procurar as diagonais. Lidam bem com lançamentos às costas das defesas adversárias. Sabem sair do jogo de contato, mais físico dos zagueiros. Aparecem na área para finalizar, não ficam nela facilitando a marcação. Guardiola gosta disso.

São inteligentes, no posicionamento e na movimentação. E se os treinadores precisarem da colaboração pelos lados auxiliando numa recomposição, fechando uma segunda linha de quatro, eles executam sem problemas. Como diria Tite, são atletas que suportam transições mais longas. Estão atentos ao jogo coletivo. Versatilidade e capacidade de adaptação. Não têm lampejos geniais, mas podem ser talentos mais constantes.

Sem contar a força mental, já que são tratados, antes de chegarem aos vinte anos, como protagonistas em grandes clubes. Com toda a responsabilidade que vem a reboque da superexposição de astros precoces. Cobrados como prontos.

Rogério Micale tem na seleção olímpica um trio de ataque móvel e inteligente. Gabriel pela direita, Jesus centralizado e Neymar pela esquerda. Mas se procurando o tempo todo para tabelas e deslocamentos em progressão.

O treinador só precisa manter os dois garotos focados, sem deixar a cabeça viajar para os campos europeus. Aqueles que eles só viam na TV e no videogame. Neymar, mais vivido, pode ajudar a mostrar o caminho.

Pés cravados no chão para voarem na hora certa.