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Bayern de Heynckes merece respeito, mas será difícil repetir feito de 2013
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André Rocha

A expulsão de Domagoj Vida aos 16 minutos obviamente tornou ainda mais desigual o confronto na Allianz Arena e o Besiktas de Vágner Love não tinha como resistir. Com os 5 a 0 construídos com o primeiro gol, de Thomas Muller, no final do primeiro tempo e mais quatro no segundo  – outro do camisa 25, dois de Lewandowski e um de Coman – o Bayern de Munique encaminhou a vaga nas quartas de final da Liga dos Campeões.

Mais que isso, aumenta a série de vitórias para 14 desde a derrota por 2 a 1 para o Borussia Monchengladbach. A única de Jupp Heynckes desde que deixou a aposentadoria aos 72 anos para suceder Carlo Ancelotti até o final da temporada – até aqui sem chances de renovação de contrato.

No total, 22 triunfos, um único revés e só um empate , contra o Leipzig pela Copa da Alemanha, mas com classificação na disputa por pênaltis. 63 gols marcados, quase três por jogo, e 17 sofridos, menos de um por partida. Impressionantes 93% de aproveitamento que aumentam a esperança de repetir a tríplice coroa de 2012/2013. Com um time inesquecível para os bávaros e marcante para o futebol mundial, mesmo que por apenas uma temporada.

Porque foi o “pai” do futebol por demanda. O time alemão era um camaleão, perfeitamente adaptável às necessidades de cada jogo. Sabia jogar na paciência com posse ou na fúria com agressividade e muita velocidade. Atropelou o Barcelona na semifinal da Liga dos Campeões com 7 a 0 no agregado e menos de 40% de posse de bola na média.

A equipe atual também é fléxivel. Pode trocar passes no ritmo de James Rodríguez ou abusar das jogadas pelos flancos, como na segunda etapa para cansar e abrir o Besiktas: Robben e Coman nas pontas fazendo duplas com Kimmich e Alaba procurando Muller e Lewandowski na área.

Na Bundesliga sobra com 19 pontos de vantagem no topo da tabela e liderando em posse, acerto de passes e finalizações. No torneio continental é top 5 em tempo com a bola, aproveitamento nos passes e vitórias no jogo aéreo. Também lidera nas finalizações.

No duelo mais forte até aqui, impôs os mesmos 3 a 1 sobre o PSG que o Real aplicou na semana passada. Ainda que os dois estivessem classificados, o jogo foi tratado como teste importante e o time alemão mostrou força. Tolisso foi destaque e ontem começou no banco entrando na segunda etapa. O elenco é robusto.

No entanto, mesmo com todos os predicados listados acima, a missão agora é mais complicada do que há cinco anos.

Primeiro porque não existe a “fome” daquela época. O Bayern havia perdido na temporada anterior a final da Champions em casa para o Chelsea nos pênaltis e sofreu com o Borussia Dortmund de Jurgen Klopp bicampeão alemão. Havia motivação também nos jogadores que formavam a base da seleção em busca da conquista que consagraria essa geração. No ano anterior, eliminação na semifinal da Eurocopa para a Itália.

Agora há um título mundial no currículo dos que seguem no clube, mais um pentacampeonato nacional caminhando para um inédito hexa. Heynckes também não conta com dois pilares fantásticos: Lahm e Schweinsteiger. Praticamente insubstituíveis. Sem contar a ausência do lesionado Neuer, mesmo com as boas atuações do goleiro Sven Ulreich.

Mas principalmente por não haver no país um rival tão forte como era o Dortmund. Vice alemão com 25 pontos a menos, mas finalista da Liga dos Campeões. Ou seja, alguém para medir forças e subir o nível. Agora não existe este opositor, tanto que não há outro alemão disputando o mata-mata. A falta de concorrência tem atrapalhado quando o principal torneio de clubes do planeta afunila.

Ainda assim é bom respeitar o velho Heynckes e sua química com a equipe de Munique. De novo sem alarde e o poder midiático dos tempos de Pep Guardiola, mas com camisa e qualidade para desafiar qualquer um na Europa. Quem sabe para consagrar de novo a aposentadoria do treinador?

(Estatísticas: WhoScored.com)

 


Nos 500 jogos de Guardiola, o mais importante não são os números e títulos
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André Rocha

Pegando carona no levantamento dos colegas portugueses de “A Bola” sobre os 500 jogos de Guardiola como treinador, o último na vitória sobre o Bristol City por 3 a 2 que garantiu o Manchester City na final da Copa da Liga Inglesa, vale uma reflexão sobre a relevância do treinador catalão.

Os números, de fato, impressionam. São 368 vitórias, 78 empates e 54 derrotas. Marcou 1249 gols, sofreu 381. 18 títulos – 11 com o Barcelona, sete com o Bayern de Munique.

Para quem olha apenas o aproveitamento em oito temporadas e meia já é possível colocá-lo entre os melhores da história. Ainda que, de fato, tenha faltado ao menos uma conquista da Liga dos Campeões com o Bayern.

No entanto, o que torna Guardiola um treinador para a história é sua interferência no jogo. O esporte se transformou com o seu Barcelona e a evolução do comportamento de seus adversários para enfrentá-lo.

É isto que faz Rinus Michels vencer quase invariavelmente as eleições de melhor treinador de todos os tempos. Seu trabalho mais marcante, a Holanda de 1974, foi justamente o que não terminou com título. Mas a revolução de conceitos foi levada ao Barcelona por Johan Cruyff e Guardiola atualizou combinando com outros princípios de jogo.

Pressão, posse de bola, superioridade numérica, busca do homem livre. Time ataca preparado para roubar a bola assim que a perde e se defende pronto para sair em velocidade com mais jogadores que o adversário.

“Ladrão de ideias”. Sempre aberto ao aprendizado, se questionando. Em constante mutação para ser melhor e mais competitivo. Inquieto, inventivo. Genial.

Como qualquer profissional acerta e erra. Assume a responsabilidade pela eliminação do Bayern para o Real Madrid na semifinal da Liga dos Campeões 2013/14 ao ceder generosos espaços para Cristiano Ronaldo e o jogo de contragolpe de Carlo Ancelotti.

Algumas vezes se arriscou demais, como diante do Barcelona no Camp Nou, também na semifinal do torneio continental na temporada seguinte. Mesmo com muitos desfalques, começou com três defensores no mano a mano contra Messi, Suárez e Neymar para ter superioridade no meio-campo.  Corrigiu a insanidade ainda no primeiro tempo, mas seguiu buscando o ataque até ser punido pelo gênio argentino. Aquele mesmo que de um ponteiro habilidoso virou um craque completo nas mãos de Pep.

Melhorar atletas e equipes, eis o grande mérito de Guardiola mal compreendido, especialmente no Brasil. Terra das soluções fáceis, onde muitos tratam o treinador como um mero distribuidor de camisas em elencos milionários. O “engenheiro de obra pronta”.

Tudo que Guardiola não é. Basta olhar para o campo. No atual City, a base titular tem apenas duas novidades: Ederson e Walker. Peças importantes, sem dúvida. Mas é clara a evolução como equipe. Comandados assimilando melhor o estilo proposto e o comandante aprendendo com eles, com a Premier League. Jogo a jogo.

Partida a partida, Guardiola construiu um fantástico retrospecto. Conquistado treino a treino, a cada estudo de adversário, a cada partida que assiste e tenta aprender algo e aplicar no seu trabalho. Para ele, o Barcelona histórico já é passado. Quantos treinadores não se fixariam naquela fórmula tentando repetí-la para sempre desconsiderando os contextos e, principalmente, a ideia de que tudo evolui, se recombina e vira outra coisa.

Por isso é o melhor do seu tempo. Por isso conquistou o direito de buscar as melhores condições para exercer o seu ofício. Não a visão torta de muitos que dizem que só vão respeitá-lo no dia em que vencer num clube menos abastado e poderoso – e é claro que muitos, se um dia isto acontecer, inventarão outro “desafio” para atestar sua competência.

Alguém imagina um cirurgião renomado aceitando operar alguém num ambiente inóspito para mostrar que é mesmo bom no que faz ou um chef consagrado preparando um prato sofisticado numa cozinha suja e sem a devida aparelhagem?

Para o mundo, Guardiola ganhou esse status por conquistar a tríplice coroa em sua primeira temporada na nova função. Pelos impressionantes 78,8% de aproveitamento na carreira. Na prática, porém, ele é o melhor por estar em constante aprimoramento. Ao reciclar a si mesmo, reinventa o próprio futebol. Eis o mais importante, não os títulos e os números.

Que venham mais quinhentos jogos revolucionando o esporte bretão com o toque catalão.

 


Fim da invencibilidade do City no jogo “maluco” com assinatura de Klopp
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André Rocha

A melhor definição que este que escreve já leu sobre Jurgen Klopp é de “técnico rock and roll”. Tudo a ver com o estilo apaixonado do alemão. Intensidade, comunhão com a torcida, carisma, alegria. Um “maluco beleza”.

Por isso seus times costumam ser fortes em seus domínios pela atmosfera criada. Não é por acaso que Pep Guardiola quase sempre encontre dificuldades quando sua equipe enfrenta os times de Klopp, desde os duelos entre Bayern de Munique x Borussia Dortmund. Porque a motivação de enfrentar “o melhor treinador do mundo”, nas palavras do próprio comandante dos Reds, cria essa “loucura”. Sem controle.

Foi o que se viu nos 4 a 3 impostos pelo Liverpool no Anfield Road encerrando a invencibilidade do Manchester City em 23 rodadas. Início com intensidade máxima e gol logo aos oito minutos, no chute cruzado de Oxlade-Chamberlain, o meia pela direita no 4-3-3 do time da casa. Em tese, o substituto de Philippe Coutinho. Um dos destaques da partida.

Mas o líder absoluto da Premier League não é um time qualquer e, mesmo incomodado na saída de bola e com Fernandinho errando mais que o habitual, respondeu ocupando mais o campo de ataque e girando a bola. Na falha de Joe Gomez, a inversão de Walker encontrou Sané. Bela jogada do ponteiro alemão e chute forte entre a trave e o goleiro Karius. Uma das duas finalizações no alvo num total de quatro nos primeiros 45 minutos em que os citizens recuperaram o controle da bola e chegaram a 57% de posse.

O Liverpool finalizou oito, mas também um par na direção da meta de Ederson. Eficiência que deu um salto dos 15 aos 23 minutos com belos gols de Roberto Firmino, Mané e Salah. O mais bonito do brasileiro em lindo toque de cobertura. Incrível como é subestimado no Brasil por não ter história em um grande clube daqui. Pelo desempenho já pode questionar até titularidade no centro do ataque.

Pressão, bola roubada e contragolpe mortal. Futebol no volume máximo do time de Klopp. Gols na sequência que sempre baqueiam os times de Guardiola pela perda do domínio.

Mas mesmo com o desgaste físico por rodar menos o elenco nos jogos seguidos na virada do ano, já que conta com elenco curto e desfalcado, o City se entregou à “viagem” do jogo e assumiu o risco do bate-volta típico do Inglês que o time de Guardiola vem administrando melhor na temporada. O treinador catalão tirou Delph por lesão e colocou Danilo e depois trocou Sterling, novamente mal contra seu ex-time, por Bernardo Silva, autor do segundo gol.

Gundogan foi mais volante ao lado de Fernandinho do que meia alinhado a Kevin De Bruyne no meio-campo, alterando o desenho do time de Manchester para 4-2-3-1. Mas estava na área para marcar o terceiro e criar uma tensão em Anfield até a testada com perigo de Aguero, impedido, no lance final.

Foram 16 finalizações do anfitrião contra 11 dos visitantes, que tiveram 64% de posse. Cenário de equilíbrio relativo, definido pela maior eficiência nos momentos de superioridade e menos erros quando dominado.

O que parecia trágico se transformou numa reação digna para não abalar tanto o City. Apesar das 17 partidas sem vencer os Reds fora de casa e as seis derrotas de Guardiola contra Klopp. O triunfo do Liverpool teve a assinatura do alemão num jogo “maluco”.

(Estatísticas: BBC)


Crise pode tirar Real Madrid da Champions. Mas não era piloto automático?
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André Rocha

Precisamos mais uma vez voltar à tese simplista de que dinheiro compra bom futebol, vitórias e títulos. Que a Libertadores é melhor que a Liga dos Campeões por conta do equilíbrio e que os times bilionários da Europa vencem os demais, incluindo o campeão sul-americano no Mundial de Clubes, simplesmente pelo abismo no orçamento.

A crise do Real Madrid bicampeão europeu e do planeta, com o atual Bola de Ouro Cristiano Ronaldo e outras estrelas mostra que não é assim que funciona no futebol. Derrota para o Villareal no Santiago Bernabéu por 1 a 0 e, se o Sevilla vencer o Alavés fora de casa o time merengue ainda fica na zona de classificação da Liga dos Campeões. Mas apenas pelo confronto direto – vitória por 5 a 0, a última boa atuação do bicampeão europeu. Uma ameaça real, sem trocadilho.

É óbvio que há muito tempo para recuperação. No pior cenário, se o desempenho não melhorar pode vir a eliminação para o PSG na Liga dos Campeões e aí sobraria tempo e foco para se recuperar na liga nacional e lutar, ao menos, pelo habitual segundo lugar.

Mas eis o ponto: não há piloto automático. Superioridade pura e simplesmente pela maior capacidade de investimento. Se vacilar é alcançado. Porque o esporte é coletivo, não uma mera reunião de individualidades.

O que é difícil entender é que Barcelona e Real Madrid vêm se impondo na Espanha e na Europa sendo os vencedores das últimas quatro edições da Champions porque contam com times que estão entre os melhores de suas histórias. Com Messi e Cristiano Ronaldo, os maiores artilheiros e craques dos clubes desde sempre.

O mesmo vale para o Bayern, base da Alemanha campeã mundial e que só não igualou a geração de Beckenbauer e Gerd Muller com um tricampeonato da Champions exatamente porque tinha um Messi e um Cristiano Ronaldo pelo caminho. Mas na Bundesliga sobra encaminhando um inédito hexacampeonato porque é competente ao se impor como o mais rico.

Lógica semelhante na França com o PSG. Investiu e atropela na Ligue 1, porque o objetivo é vencer o principal torneio continental. Com Neymar e Mbappé há alguma dúvida de que formou o grande esquadrão de sua história? E é bom lembrar: o atual campeão é o Monaco, que não é um “primo pobre”, mas prova que para vencer é preciso jogar.

O Real Madrid hesita. Talvez tenha se acomodado com as muitas conquistas, alimentado uma ilusão de dinastia com os títulos seguidos. Ou a obsessão pelo tricampeonato da UCL e o planejamento de estar voando na reta final da temporada como em 2016/17 tenha deixado um buraco inesperado no meio. Algo anda muito errado com o time de Zinedine Zidane, alçado a melhor que Pep Guardiola há poucos meses e agora mais que questionado.

Exatamente porque o futebol é cíclico, imprevisível. Não existe jogo jogado e vencido. O óbvio que às vezes é preciso ser lembrado para rebater teorias criadas por estas bandas. Românticas, vitimistas, saudosistas. Como se nada pudéssemos fazer para melhorar nosso jogo e ser mais competitivo que o Grêmio de apenas uma finalização contra esse mesmo Real Madrid. Com rendimento não muito melhor que o atual.

Este blog insiste: não é apenas dinheiro. Só não vê quem não quer.


Se fosse só dinheiro, Palmeiras ou Flamengo estariam no lugar do Grêmio
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André Rocha

Transformação curiosa ocorreu depois do apito final do Mundial de Clubes em Abu Dhabi. Os mesmos que viam o Grêmio com condições de jogar de igual para igual e vencer o Real Madrid, que nas comparações posição por posição – algo cada vez mais sem sentido em um futebol cada vez mais coletivo – faziam projeções equilibradas (6×6, incluindo Renato Gaúcho melhor treinador que Zidane), de repente passaram a questionar o abismo de qualidade entre os clubes da Europa e os demais e sugerir até a mudança na fórmula de disputa da competição.

Entre os motivos apresentados, o mais presente é o poderio financeiro. Inegável, obviamente. Mas a própria temporada no Brasil mostrou que futebol não se faz só com dinheiro. Se fosse assim, Palmeiras ou Flamengo, que também disputaram a Libertadores, estaria no lugar do Grêmio. Nem é preciso apelar para a frieza dos números para provar a distância nos valores das receitas. E se colocarmos no bolo os demais clubes sul-americanos a vantagem é ainda maior. Mas só voltamos a vencer agora, depois de três anos sequer chegando à decisão.

Há muita competência na supremacia recente na Europa de Barcelona e Real Madrid. Passa por Messi e Cristiano Ronaldo, mas não só eles. São clubes que sabem vender sua marca para o mundo, construir uma identidade. A ponto de conquistar a preferência de jovens como Vinicius Júnior em detalhes como a força do time no videogame. Se outro time iguala a proposta, o menino prefere os gigantes espanhois.

Porque construíram times que estão entre os melhores da história dos clubes. Mas também já torraram muito dinheiro sem conseguir formar uma equipe competitiva. Basta lembrar o Real galáctico do início do século, ou mesmo o do primeiro ano da Era Cristiano Ronaldo, que não conseguiu superar as oitavas de final da Liga dos Campeões.

A resposta precisa vir no campo. Mesmo nesta fase gloriosa da dupla, em 2014 falharam na liga nacional e viram o Atlético de Madri campeão espanhol. Assim como o Bayern de Munique, soberano na Alemanha, viu o Borussia Dortmund de Jurgen Klopp ser bicampeão com orçamento bem inferior. Para não falar do Leicester City na Inglaterra no ano passado.

Por mais que o Grêmio tenha mostrado um futebol ofensivo e atual em 2017, ainda é um mero rascunho diante das equipes mais qualificadas do planeta. O Real, com a cabeça no Barcelona e freio de mão puxado, conseguia numa rápida ação de perder e pressionar retomar com facilidade. A circulação da bola é mais inteligente, fluida. Há mais leitura de jogo coletivo. Basta ver Modric em campo. A bola mal saiu de seus pés e o croata já se transforma em opção de passe no espaço certo.

Aqui a visão é ainda simplista: quem tem dinheiro compra os melhores e vence. Uma noção de futebol fragmentada e muito focada no individual. Só se falou na atuação ruim de Luan. Mas sua movimentação entre as linhas defensivas do adversário por aqui é mais facilmente bloqueada por quem está acostumado a enfrentar Messi, Neymar, De Bruyne e outros craques.

Por isso e tantos outros motivos o Kashima Antlers foi um adversário mais perigoso para o Real Madrid no ano passado. Vitória por 4 a 2, mas só na prorrogação. Arthur fez falta ao Grêmio, sim. Mas nunca saberemos se ele seria outro a sentir os efeitos deste abismo, ainda mais no setor de Casemiro, Modric, Kroos e Isco.

Nosso último título mundial veio pela feliz coincidência de termos o Corinthians de Tite, time mais sólido e organizado desta década, enfrentando o Chelsea que não era o melhor europeu nem quando venceu a Liga dos Campeões, estava em declínio sob o comando de Rafa Benítez e, ainda assim, fez do goleiro Cássio o melhor em campo. Méritos inegáveis dos brasileiros, mas o contexto há cinco anos ajudou.

Não adianta pregar ódio ao futebol moderno, ao menos dentro de campo. O esporte se transformou e não há como fugir. Precisamos evoluir na mentalidade, ter humildade. Não rir do nível técnico de outras ligas, especialmente a francesa, quando a nossa é desprezada pelo mundo. Por mais eurocentrista que seja o povo do Velho Continente, é ridículo que eles saibam tão pouco do Grêmio tricampeão sul-americano.

Que os clubes peitem a CBF, que só quer saber de vender a imagem da seleção brasileira. Que os profissionais se qualifiquem, aceitem que precisam aprender e não podem mais deixar tudo por conta do talento individual. Que os times criem uma identidade e a desenvolvam desde as divisões de base.  Que tomemos decisões mais técnicas e menos políticas e manchadas por corrupção em todos os níveis. Mais meritocracia e menos grife na hora de contratar. E, principalmente, que deixemos esse mimimi “ah, eles são ricos e nós os pobres neste mundo injusto e cruel!”

Ninguém vai revogar a Lei Bosman e dificilmente o real valerá mais que o euro ou o dólar. Ainda assim, podemos fazer melhor, sermos mais competitivos. Dar trabalho e não passar a vergonha de apenas uma finalização gremista na decisão do Mundial com o Real em ritmo de treino na maior parte do tempo. É muito pouco.

Não adianta encher a boca para falar dos cinco títulos em Copas do Mundo e esquecer que a grandeza do futebol de um país se mede pela força de seus clubes. A nós, jornalistas, cabe a tarefa de cobrar e conscientizar e não jogar para a galera um mundo fantasioso de “eles não são isso tudo!” e “isso aqui é Brasil!” É sedutor falar ou escrever o que o torcedor quer ouvir/ler, mas em nada contribui para o desenvolvimento do esporte.

Que o passeio do Real não seja minimizado pelo placar magro. O Grêmio teve dignidade, mas jogou mal. Porque o adversário é superior e não deixou, mas também porque as ideias para fazer melhor ainda são pobres. Não é só dinheiro, definitivamente. Só não vê quem não quer.


Os três avisos do Bayern em Munique ao PSG no primeiro grande teste
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André Rocha

Você leu neste blog que o primeiro teste em alto nível do Paris Saint-Germain com Neymar e Mbappé neste início de temporada seria o Bayern de Munique, agora sob o comando de Jupp Heyckens, voltando de sua aposentadoria para recuperar o time alemão na temporada.

Se os 3 a 1 na Allianz Arena que encerraram a invencibilidade e a campanha 100% do PSG não foram suficientes para inverter a classificação do grupo B da Liga dos Campeões, ao menos serviram para resgatar de vez a confiança do gigante alemão para a sequência da Bundesliga. Principalmente, para o retorno da competição continental em fevereiro de 2018. Mesmo sem Robben e com time muito alterado – Vidal, Javi Martínez e Thomas Muller iniciaram no banco de reservas. Não será rival fácil para qualquer líder de grupo nas oitavas-de-final.

Também deixou três avisos para a equipe de Unai Emery se preparar para os duelos mais complicados na segunda metade da jornada 2017/2018:

1 – Intensidade nos 90 minutos

O abismo entre o PSG e os concorrentes na França faz com que o time diminua muito a intensidade em alguns períodos das partidas do campeonato nacional. Especialmente no trabalho sem a bola. Aconteceu no primeiro tempo, com todos os titulares disponíveis, apesar dos 54% de posse de bola e das seis finalizações dos visitantes, com duas boas oportunidades -a mais clara com Neymar em lindo passe de Mbappé e a primeira grande defesa de Ulrich, o goleiro substituto do lesionado Neuer.

Desta vez, porém, era o Bayern do outro lado. Concluiu seis vezes, duas nas redes de Areola. O atalho era pela esquerda, com Ribéry, Alaba e James Rodríguez, que envolveram Daniel Alves, sem o devido auxílio de Mbappé, com relativa facilidade nos gols de Lewandowski e Tolisso. Lateral brasileiro que perdeu a disputa com Coman, que inverteu o lado com a troca de Ribéry por Thomas Muller, no terceiro marcado na segunda etapa, também de Tolisso.

O PSG precisa competir mais, com concentração na maior parte do tempo para não dar armas ao rival. Compactar os setores e contar com mais colaboração dos atacantes além da pressão no campo adversário.

2 – Aproveitar as oportunidades

Por mais méritos que Ulrich tenha nas intervenções que impediram mais gols além do marcado por Mbappé em lindo passe de Cavani, um time que quer vencer Liga dos Campeões, mesmo em uma partida com larga vantagem para garantir a liderança do grupo, não pode aproveitar apenas uma de 13 finalizações e oito no alvo.

Ainda mais com a força do tridente ofensivo. Encontrou o atalho pela direita, com Mbappé levando vantagem seguidamente sobre Alaba e Hummels e tinha obrigação de ser mais contundente. Ainda mais em um jogo fora de casa contra uma equipe da primeira prateleira do futebol europeu. Em um confronto de mata-mata pode ser letal.

3 – O jogo é coletivo

O camisa dez e estrela maior da equipe francesa circulou menos e, consequentemente, não prendeu tanto a bola desta vez. Foi atacante, esperando a bola chegar à zona de decisão para entrar em ação. Primeiro sofreu falta de Kimmich que rendeu um cartão amarelo ao lateral e depois infiltrou em diagonal e obrigou Ulriche a uma fantástica defesa.

Neymar voltou aceso, como todo o time, na volta do intervalo. Mas depois do terceiro gol bávaro nitidamente relaxou, até se escondeu um pouco do jogo. Uma prova de que o talento individual por si só, sem ser potencializado pelo trabalho coletivo, tende a ser menos decisivo. O Bayern, sem grandes estrelas, foi mais eficiente em sua proposta de jogo.

Unai Emery e seus comandados terão dois meses para refletir, fazer os devidos ajustes e tentar fazer o PSG, enfim, ser protagonista na Liga dos Campeões.

(Estatísticas: Footstats)


PSG voa baixo na Europa, mas teste de verdade será o Bayern em Munique
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André Rocha

67 gols em 18 partidas. Média de quase quatro por partida. Apenas dez sofridos. Liderança folgada no Francês com campanha invicta: 11 vitórias e dois empates. E 100% de aproveitamento na Liga dos Campeões, com só um gol sofrido, de Dembelé nos 7 a 1 sobre o Celtic em Paris que consolidaram a maior artilharia da história da fase de grupos do torneio: nada menos que 24 gols em cinco partidas. Média de quase cinco por partida.

A jornada do Paris Saint-Germain até aqui é histórica. Chama ainda mais atenção a naturalidade com que cria chances e a eficiência nas finalizações. Em especial do tridente ofensivo. Trio MCN. 21 gols e duas assistências de Cavani em 17 jogos, 13 bolas nas redes e oito passes para gols de Neymar em 14 partidas. Mais sete gols e o mesmo número de assistências de Mbappé em 13 jogos. 61% do trio. Voando baixo.

Números espetaculares. Sintonia e combinação de características entre os jogadores. Não só no ataque com Neymar passador, Mbappé intenso e veloz, Cavani finalizador e com presença física na área adversária. Também no meio-campo com Verratti, Rabiot e Draxler quando não é tão preciso fechar espaços, ou Thiago Motta ao lado dos dois primeiros na necessidade de proteger melhor a retaguarda.

Sem contar Daniel Alves como lateral mais construtor e Kurzawa do lado oposto mais rápido em busca da linha de fundo; o entendimento entre Marquinhos e Thiago Silva protegendo o goleiro Areola. Tudo funcionando muito bem para o treinador Unai Emery, que com resultados tão arrasadores silenciou as críticas e os rumores de relação conflituosa com Neymar.

Mas ainda falta o grande teste. Porque os empates com Montpellier e Olympique de Marseille na Ligue 1 podem ser mais tratados como tropeços naturais numa campanha absoluta do que grandes desafios. Assim como as oscilações durante as partidas, até pela facilidade, também devem ser considerados naturais.

Os 3 a 0 sobre o Bayern de Munique em Paris devem ser relativizados como o ato final da passagem de Carlo Ancelotti pelo clube bávaro, com grave crise entre o treinador e os jogadores, que chegaram a ridicularizar seus métodos de treinamento. Na prática, foi um oponente quase tão frágil quanto os demais.

Por isso o duelo com o pentacampeão alemão, em recuperação na temporada com o retorno de Jupp Heynckes e já na ponta da Bundesliga com os mesmos seis pontos de vantagem que o líder ostenta na Ligue 1 sobre o atual campeão Monaco.

Valendo a liderança do Grupo B. Será o melhor parâmetro para a avaliação do real poder do PSG, já pensando no mata-mata da Champions em 2018. Ainda que a missão do Bayern de tomar a primeira colocação e fugir de possíveis confrontos indigestos nas oitavas de final seja improvável – vencer por, no mínimo, quatro gols de diferença para superar no confronto direto.

A rigor, o resultado vai dizer menos que o desempenho do time francês no primeiro confronto em altíssimo nível, da primeira prateleira do futebol europeu. Por ora, vale e muito desfrutar os espetáculos do time francês pelo continente. Mas o mistério da real capacidade competitiva de Neymar e seus companheiros seguirá até a Allianz Arena no dia 5 de dezembro.


Futebol não é novela! Cavani e Neymar, mais Mbappé, se entendem no campo
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André Rocha

Ronaldo e Raúl González não eram exatamente amigos, mas em campo se entendiam no Real Madrid galáctico. O mesmo com Edmundo e Evair no Palmeiras e no Vasco, Marcelinho Carioca e Rincón no Corinthians nos anos 1990, Edilson e Petkovic no Flamengo em 2001 e tantos outros exemplos.

Quando há sintonia e amizade, como acontecia com Messi, Suárez e Neymar no Barcelona, tudo flui melhor. Ainda assim, não garante felicidade. Tanto que o brasileiro preferiu partir. Não há fórmula.

A melhor receita em qualquer tempo é deixar as diferenças no vestiário e priorizar o coletivo. Exatamente o que Cavani e Neymar fizeram na grande vitória por 3 a 0 sobre o Bayern de Munique no Parc des Princes. Com o auxílio mais que luxuoso de Kylian Mbappé no 4-3-3 armado novamente por Unai Emery.

Atacante francês que merece um parágrafo à parte. O camisa 29 é jogador para marcar época. Velocidade, visão, técnica, faro de gol, leitura tática. Aos 18 anos já é completo. No primeiro gol atraiu a marcação de Alaba e deixou todo o corredor livre para Daniel Alves receber e finalizar forte. Depois assistências para Cavani e Neymar.

A dupla que atraiu todos os holofotes. Que deixa claro que há uma grande incompatibilidade de temperamentos, visões de mundo. Mas ficou claro no primeiro jogo realmente grande na temporada, diante de um gigante europeu, que não vai faltar vontade de se sacrificar pela equipe.

O camisa nove uruguaio foi o da sua seleção em vários momentos sem a bola, voltando pelos flancos para fechar espaços e dar liberdade para a velocidade dos dois mais jovens e rápidos. Neymar também, com mais sacrifícios e menos individualismo. Leitura de jogo e, principalmente, a compreensão de que o projeto do clube precisa ser maior que as metas e a vaidade de cada um.

O resultado foi um PSG letal. Que foi às redes antes do segundo minuto de jogo e depois condicionou sua proposta à vantagem e ao modelo do adversário que já é bem conhecido. O time bávaro comandado por Carlo Ancelotti adiantou as linhas, teve a bola com Thiago Alcântara e Vidal no meio acionando Kimmich e Alaba nas laterais e Thomas Muller e Lewandowski na frente. Na segunda etapa cresceu com as entradas de Sebastian Rudy e Coman nas vagas de Tolisso e James Rodríguez.

Teve 62% de posse, 85% de efetividade nos passes, 16 finalizações – seis na direção da meta de Areola, que teve boa atuação, assim com Marquinhos e Thiago Silva. E mesmo assim os alemães podiam ter saído com uma goleada histórica nas costas, não fossem três chances cristalinas perdidas por Cavani e Neymar. A do uruguaio em contragolpe puxado por Mbappé e passe genial de calcanhar de Neymar.

Para calar as fofocas e trazer de novo as atenções para o campo. Como deve ser. Futebol não é novela. E daí que os cumprimentos entre eles foram frios ou quentes? Ninguém precisa morrer de amores para encantar as retinas com a bola nos pés. O PSG mostra força com seu tridente que promete outros espetáculos pela Europa. Sem dramas.

(Estatísticas: Footstats)


História mostra que favoritismo um ano antes da Copa do Mundo é pura ilusão
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André Rocha

Entre dezembro de 1981 e outubro de 1983, a Itália disputou 16 partidas. Nenhuma vitória nas seis primeiras, sem triunfos nas seis últimas. Venceu apenas quatro: Argentina, Brasil, Polônia e Alemanha. Exatamente as que lhe deram o terceiro título mundial na Copa da Espanha.

Favoritismo? Zero, mesmo com a manutenção de boa parte do grupo da Copa de 1978 que venceu a campeão e anfitriã Argentina e terminou em quarto perdendo dois jogos, para Holanda e Brasil, por detalhes. Mas nas Eliminatórias ficou atrás da antiga Iugoslávia. Não há dúvidas, era zebra. Até pelo escândalo de manipulação de resultados, o “Totonero”, que comprometeu o futebol do país.

Parecido com o de 2006 que rebaixou a campeã Juventus e também tirou qualquer favoritismo de uma Azzurra igualmente forte e talentosa comandada por Marcelo Lippi. Outro título inesperado, quando o Brasil era favorito.

Aliás, chegar como principal candidato só fez bem ao Brasil no Chile em 1962. Ainda assim, com superação da ausência de Pelé. Garrincha e o “apito amigo” contra a Espanha ajudaram a construir o bicampeonato. O último, sendo o outro em 1934/38 dos italianos.

A Alemanha pode repetir o feito na Rússia. A conquista da Copa das Confederações reforçou a impressão de que a renovação está sendo bem conduzida por Joachim Low. Com Kimmich no lugar de Lahm e Toni Kroos suprindo a aposentadoria de Schweinsteiger. Mais Draxler, Brant, Stindl, Werner, Hector se juntando a Ozil, Muller, Hummels, Neuer.

Se em 2014 a chegada de Pep Guardiola ao Bayern de Munique foi influência clara no modelo de jogo alemão, desta vez a inspiração, ou variação do estilo, parece vir da Inglaterra, mas de um treinador italiano: o 5-4-1/3-4-3 do Chelsea de Antonio Conte. Para propor o jogo ou reagir de acordo com as circunstâncias. Um time inteligente.

Como já era há três anos, mas foi um tanto menosprezado pelo revés na Eurocopa dois anos antes na semifinal contra a Itália de Balotelli. A ponto de transformar a final da Copa das Confederações entre Brasil e Espanha em uma espécie de “tira-teima” entre a campeã mundial e bi da Eurocopa e o anfitrião buscando recuperar protagonismo.

A seleção de Luiz Felipe Scolari venceu e foi mais uma a se iludir com a conquista. Como Dunga em 2009 e Parreira em 2005. A convicção de que o grupo estava fechado e o trabalho pronto só necessitando de manutenção foi ilusória. Porque o que define os rumos do Mundial é a temporada europeia que se encerra com a Copa.

Basta lembrar a queda de rendimento de Paulinho e Fred e o período de adaptação de Neymar no Barcelona que minaram as forças de um trabalho de um ano e meio, incompleto. Assim como o de Tite agora, que acabou de completar doze meses. Dois anos perdidos com Dunga que podem fazer falta.

Porque haverá menos testes e chances de observação. Ou tempo para o amadurecimento da proposta de jogo. É um processo que vai queimando etapas por necessidade. O treinador assumiu precisando de resultados e evolução rápida. Pelo próprio mérito, as nove vitórias seguidas nas Eliminatórias alçaram a equipe diretamente do risco de ficar de fora de sua primeira Copa do Mundo à condição de uma das favoritas.

Mais rápido que isso só em 1993, quando os 2 a 0 sobre o Uruguai com atuação antológica de Romário levaram o escrete canarinho do futuro incerto ao protagonismo. Em uma partida, por conta de um atacante genial que depois confirmou seu estrelato com a taça que não vinha há 24 anos e a Bola de Ouro como melhor do mundo.

Mas a grande favorita era a Itália de Roberto Baggio, o grande jogador do ano anterior. Assim como em 2002 as apostas recaíam sobre Argentina e França, que em 1998 superou em casa o Brasil de Ronaldo, candidatíssimo ao bi. Sob o comando de Platini, os franceses eram os favoritos em 1986. Mas havia um Maradona pelo caminho. Gênio que colocou a Argentina na final em 1990, mas havia uma Alemanha na decisão para confirmar a alternância de poder.

Resumo da ópera: falar em favoritismo no ano anterior é puro chute. Até porque este Mundial tende a não repetir os dois últimos, com as vencedoras tendo como bases as melhores equipes do mundo à época. Espanha do Barcelona e Alemanha do Bayern de Munique. Com entrosamento, movimentos já executados de memória. Seleções maduras, com craques no esplendor.

Mesmo os espanhois em 2010 não chegaram com tal status. Nema conquista da Euro 2008 minimizou o fato de não fazer parte do seleto grupo de campeões. A derrota para os Estados Unidos que tirou a chance de um duelo contra o Brasil de Dunga no ano anterior fez da grande seleção daquele período uma incógnita. Talvez por isso tenha triunfado.

Agora a Alemanha titular, em tese, tem apenas Neuer, Kimmich, Hummels e Muller do time bávaro. Na Espanha,  Barcelona e Real Madrid dominam naturalmente, mas o time merengue bicampeão europeu também cede apenas quatro: Carvajal, Sergio Ramos, Isco e Asensio. A França poderia se basear em PSG e Monaco, mas as mudanças na janela de transferência pulverizaram qualquer chance de ter uma ou duas equipes como referências.

O Brasil, como bem disse Renato Augusto numa coletiva recente, está “no bolo”. É candidato, como foi até no fiasco de 1990. Um ano antes, vencera a Copa América e Itália e Holanda, outras favoritas. Mas sucumbiu no Mundial pela queda técnica e lesões de seus grandes destaques: Bebeto, Careca e Romário.

Contexto, circunstâncias, o imponderável.Tudo isso pesa em um ano. Por isso é tão difícil pensar em junho de 2018. O dinamismo do mundo atual já é absurdo. No futebol mais ainda. Mais prudente celebrar a evolução brasileira e evitar falar em grupo fechado, sistema definido ou qualquer coisa que sugira uma estabilidade que não se sustenta. Serve apenas como linha mestra para não se perder no planejamento.

A Copa não começa agora. Melhor segurar a ansiedade e respeitar a sequência e o tempo de cada seleção. A pressa, neste caso, é ainda mais inimiga.


Real Madrid, Zidane e a nova era do futebol por demanda
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André Rocha

O Barcelona sofre tentando criar alternativas ao seu estilo de posse de bola após encontrar algumas boas respostas no auge do trio Messi-Suárez-Neymar em 2015, mas agora vivendo uma queda brusca. Pep Guardiola quebra a cabeça para adequar seus princípios de jogo outrora inegociáveis ao futebol jogado na Inglaterra. O Atlético de Madri de Simeone e José Mourinho com o Manchester United buscam alternativas para os momentos em que suas equipes precisam criar espaços porque têm a posse diante de equipes de menor investimento.

Jurgen Klopp e seu sucessor no Borussia Dortmund Thomas Tuchel tentaram encontrar a saída na intensidade máxima, nas transições contínuas baseadas no “gegenpressing”, mas penam com o mesmo problema que Marcelo Bielsa convive há pelo menos uma década: seus comandados não suportam tamanha a exigência física e mental.

O “futebol líquido”, conceito de Paco Seirul lo que consta no livro “Guardiola, a Metamorfose”, de Marti Perarnau e traduzido pela Editora Grande Área, ainda é algo fascinante no campo das ideias e provavelmente o veremos no futuro, com times fluidos, atacando e defendendo por todos os lados com ações mecanizadas, jogando de memória. Como alguém nascido no século 20, este que escreve ainda acredita que o talento é e será sempre fundamental.

Jupp Heynckes, em seu último ato como treinador, iniciou um processo de combinação de estilos com o Bayern de Munique campeão de tudo em 2013. Segunda equipe com mais posse de bola na Europa que pulverizou a primeira, o Barcelona, com 7 a 0 no placar agregado da semifinal da Liga dos Campeões com média de 40% de tempo com a bola.

No ano seguinte, Carlo Ancelotti ensaiou a melhor solução com o Real Madrid campeão de “La Decima”: um time híbrido, que se adapta bem ao ataque posicional, mas se for preciso acelera e é letal nos contragolpes. Mas naquele momento faltava entrosamento e um pouco de flexibilidade do trio BBC – Bale, Benzema e Cristiano Ronaldo – um tanto duro, rígido, com a única variação do sistema tático: do 4-3-3 para o 4-4-2 com o recuo de Bale pela direita.

Zinedine Zidane assumiu em sua primeira oportunidade como treinador do time principal dos merengues resgatando as ideias do italiano, de quem era auxiliar técnico. Com a conquista da Liga dos Campeões e a possibilidade de planejar a temporada, foi amadurecendo, consolidando e aprimorando conceitos e agora parece chegar a algo novo. Mas não tanto assim.

Desde sempre times como Real Madrid jogam no campo de ataque na maioria das partidas. Cultura do clube, exigência da torcida, expectativa do adversário, da mídia, de todos. Apenas em alguns jogos, em contextos especiais, ou só quando constroi a vantagem no placar é permitido recuar linhas e jogar em contragolpes.

Só que dentro da dicotomia do futebol mundial nos últimos oito anos ou você era propositivo e ficava com a bola, ou reativo e explorava os espaços cedidos por quem decidia controlar o jogo com a posse. Com os estilos cada vez mais estudados, quem apresentava uma das ideias como filosofia quase imutável sofria quando precisava variar a proposta ou era surpreendido.

Como equipes pressionando a saída de bola do Barça e explorando os espaços às costas das retaguardas de Guardiola. Ou times dando a bola aos comandados de Mourinho e Simeone e explorando suas dificuldades.

O Real Madrid atual é mutante, “camaleão”. Se adapta ao que quer para o jogo ou ao que o adversário propõe. E pode mudar durante o jogo. Porque tem jogadores capazes de virar a chave sem que o treinador precise fazer alterações.

Carvajal e Marcelo podem jogar abertos no campo de ataque ou posicionados numa linha de quatro com Varane e Sergio Ramos, atentos na cobertura e no confronto direto com os atacantes do oponente se expostos ou fixos atrás, prontos também para o jogo aéreo, ofensivo ou defensivo.

No meio, Casemiro, Modric e Kroos. Se é preciso de requinte na saída de bola pressionada, o alemão recua para qualificar os passes, curtos ou longos. Se a necessidade é de proteção e imposição física lá está Casemiro, outra peça importante nas jogadas pelo alto. E se o jogo requer dinâmica, presença de área a área, acelerando ou cadenciando, Modric é completo. Versátil.

Isco foi o toque de Zidane para tornar tudo ainda mais fluido e mutável. É meia no 4-3-1-2, mas também é ponta fazendo dupla com o lateral. Indo e voltando. Se recua pela direita, Modric e Casemiro centralizam e Kroos fecha o lado esquerdo. Se volta à esquerda, Modric abre e Kroos fecha. Sempre em duas linhas de quatro.

Para liberar Cristiano Ronaldo e Benzema, que circulam por todos os setores do ataque. Ou Bale, que parece aceitar a reserva porque sabe que vai jogar muitas vezes. Zidane roda o elenco com naturalidade. Na temporada passada definindo titulares e reservas e mandando a campo dentro de um planejamento. De olho na meritocracia. Assim Isco virou titular.

Desta forma já começou a temporada 2017/2018 com dois títulos, num total de sete desde o início de 2016. Matando o Manchester United na Supercopa da Europa ficando com a bola. Depois encaminhou a Supercopa da Espanha com os 3 a 1 sobre o rival Barcelona jogando em transições rápidas e definiu o confronto com 2 a 0 no primeiro tempo e maior posse de bola que o time blaugrana pela primeira vez em nove anos.

Porque o jogo pedia. Basta ter leitura e inteligência e serenidade para tomar as melhores decisões, individuais ou coletivas. Capacidade de resolver problemas. Com bola rolando ou parada. Por baixo ou pelo alto. Entender a lógica da disputa e a melhor forma de superar o rival e construir vitórias e títulos com naturalidade.

Tudo sem abrir mão de conceitos atuais: compactação, pressão, preenchimento e ataque de espaços, jogo posicional, profundidade, amplitude, mobilidade. Temperados com mentalidade vencedora e confiança. Zidane não nasceu sabendo, nem é mágico. Mas sempre privilegiando a precisão técnica e em alguns momentos até deixando o adversário jogar. Como era num tempo distante que às vezes retorna em insights nesse vai e volta na linha do tempo.

Este é o Real Madrid de Zidane. O bicampeão europeu, líder de uma nova era do esporte que volta um pouco atrás para ser pragmático sem perder a leveza. Ofensivo e reativo, de acordo com o “freguês”. Dentro ou fora de casa. Nada mais simples e moderno, como ver a sua série favorita ou o time de coração na TV de casa ou em um dispositivo móvel. Como quiser e quando for possível.

Jogo de ataque e defesa descarnado de idealizações ou romantismos. É o futebol por demanda.