Blog do André Rocha

Arquivo : belgica

Bélgica vence fácil, mas só com o alívio do primeiro gol contra a retranca
Comentários Comente

André Rocha

Bélgica na estreia do Mundial jogando num 3-4-3 ofensivo com Meunier e Carrasco abrindo o campo, De Bruyne organizando e ponteiros Mertens e Hazard mais próximo de Lukaku. Panamá no 4-1-4-1, mas fechando espaços com uma linha de seis jogadores guardando a própria área (Tactical Pad).

Para encaixar o máximo de individualidades dentro de uma geração talentosa, o treinador espanhol Roberto Martínez armou a Bélgica num 3-4-3 que lembra o Chelsea de Hazard comandado por Antonio Conte no posicionamento. Um 5-4-1 sem a bola e na transição ofensiva os ponteiros Mertens e Hazard se juntam ao centroavante Lukaku e os alas Meunier e Carrasco são os responsáveis por abrir o campo e espaçar a marcação adversária.

Na dinâmica ofensiva, um ataque posicional construindo volume através da posse e da retomada pela pressão logo após a perda da bola. Em alguns momentos com Vertonghen atacando como lateral e empurrando Carrasco como ponteiro à esquerda.

Só que é cada vez mais desconfortável jogar como favorito. Antes o futebol era um grande tabuleiro de duelos individuais em que o melhor, se jogasse bem, vencia com naturalidade. Hoje há uma disputa por espaços no qual os corpos precisam estar bem posicionados e se movimentar corretamente para fazer um bom trabalho defensivo e dar trabalho como “zebra”, sempre à espera de um contragolpe.

Foi o que fez o Panamá do colombiano Hernan Gomez. Um 4-1-4-1 que, na prática, recuava os ponteiros Barcenas e Rodríguez como alas formando uma linha de seis homens guardando a própria área. Recurso inspirado no handebol para impedir as infiltrações. Complicou o jogo belga.

A tensão da estreia em uma Copa do Mundo novamente com pressão por bom desempenho e resultados condizentes com a expectativa também contribuiu para a inconstância de atuações de Hazard e De Bruyne. Algumas jogadas construídas e mal acabadas. Ou bloqueadas pelo muro defensivo do Panamá.

Até o alívio do primeiro gol, logo no início da segunda etapa. Lindo chute de Mertens. Não é apenas uma questão de ganhar espaços, mas também confiança e desanimar o adversário fechado que sabe que terá que subir uma montanha para buscar uma reação.

Os gols de Lukaku, o segundo concluindo linda assistência de três dedos do De Bruyne e o terceiro completando passe de Hazard num contragolpe, saíram naturalmente e cabia até mais que os 3 a 0. 61% de posse, 88% de efetividade nos passes e 15 finalizações contra seis – meia dúzia no alvo contra duas.

Vitória fácil no saldo dos 90 minutos, mas com o incômodo até abrir o placar e a retranca que perdeu a vergonha e ganhou inteligência ao longo do tempo para negar espaços. Nada raro no futebol atual e a Copa do Mundo não seria exceção.

(Estatísticas: FIFA)


Copa do Mundo deve combinar características da última Euro e da Champions
Comentários Comente

André Rocha

A Copa do Mundo tem sua abertura na quinta-feira com a anfitriã Rússia diante da Arábia Saudita. O primeiro duelo já deve dar a tônica do que provavelmente será a fase de grupos na maioria das partidas.

Uma seleção favorita pela camisa, história, tradição e/ou um grupo mais qualificado de jogadores contra uma equipe tratada como “zebra” fechando espaços no próprio campo. Com a cada vez mais frequente linha de cinco ou mesmo a tradicional com quatro defensores, porém com os pontas recuando como laterais formando um cinturão guardando a própria área. Todos os movimentos estudados por departamentos de inteligência cada vez mais equipados e qualificados.

Então o time que ataca busca uma jogada individual mais perto da área do oponente, ou uma virada de bola rápida que surpreenda o sistema defensivo. Se não for possível, os chutes de média e longa distância, a jogada aérea com bola rolando ou parada e o desarme no campo de ataque com transição rápida viram as possíveis soluções para ir às redes. Tudo isso atento ao balanço defensivo para não dar ao rival os espaços tão desejados às costas da retaguarda.

Fica tudo muito condicionado ao primeiro gol. Se a seleção que defende marca aí o bloqueio fica ainda mais sólido, com todos os jogadores num espaço de 20 metros em linhas quase chapadas, como no handebol. Já se o favorito abre o placar aumenta exponencialmente a chance do jogo mudar e os espaços e mais gols aparecerem.

Foi o que aconteceu na última Eurocopa, na França em 2016, com algumas partidas de fato entediantes para quem aprecia uma trocação de ataques e gols e se apega ao esporte mais pela emoção que pelo jogo em si. Apenas oito placares com vantagens iguais ou superiores a dois gols num total de 36 partidas. Média de 1,2 por jogo.

Sim, desta vez haverá Messi, Neymar, Suárez, James Rodríguez, Salah, Guerrero, o jovem Mbappé que surgiu ano passado na França e outros talentos desequilibrantes. Mas também um trabalho defensivo ainda mais concentrado e aprimorado para bloquear a técnica e o improviso.

Por outro lado, se os favoritos em cada grupo conseguirem suas classificações o torneio tende a passar por uma transformação, como a que ocorre quase todo ano na Liga dos Campeões. A partir da primeira “seleção natural” o nível já sobe bastante. Mesmo com a presença de algumas surpresas que se conseguem a vaga a partir das quartas é porque houve mérito.

Imaginemos a partir das oitavas os duelos envolvendo as favoritas Alemanha, Brasil, Espanha e França, mais os talentos belgas, o Uruguai de Cavani, Suárez e agora meio-campistas mais qualificados. Inglaterra, Colômbia, Croácia…A Polônia de Lewandowski e a promissora Dinamarca do meia Eriksen. E ainda Messi e Cristiano Ronaldo no Mundial que provavelmente será o último da dupla de extraterrestres jogando no mais alto nível. Conduzindo Argentina e Portugal. Mas ao contrário do universo dos clubes sem o favoritismo de Barcelona e Real Madrid, o que torna tudo mais imprevisível e eletrizante. Mesmo sem o peso de Holanda e Itália, esta a única ausente do seleto grupo de campeãs. Em jogo único. Segue ou vai para casa.

A torcida é para que este que escreve esteja enganado em sua previsão da primeira fase e os jogos eliminatórios sejam acima das ótimas expectativas. Mas caso o blogueiro tenha razão viveremos uma montanha russa de impressões. Para o deleite dos saudosistas – como se nas décadas anteriores os Mundiais não tivessem peladas homéricas, inclusive com a seleção brasileira – e reclamões de plantão na “chata” primeira fase e depois a apoteose de jogaços na reta final deixando a média positiva.

Seja como for, Copa do Mundo é como pizza. Até quando é ruim é boa e vale a pena. O maior evento esportivo do planeta que felizmente acontece de quatro em quatro anos e não se banaliza, ao menos por enquanto. Que tudo enfim comece na Rússia!


Perseguir Osorio é só mais um reflexo do avesso ao novo no nosso futebol
Comentários Comente

André Rocha

Está mais que provado pela ciência que o ser humano é avesso a mudanças. Tem uma resistência inicial ao novo até que ele esteja assimilado. Por isso as grandes corporações hoje evitam como um fantasma a zona de conforto para nãos serem atropeladas pela concorrência.

É humano ter uma tendência à acomodação. Mesmo que não de trabalho, mas nas ideias, na maneira de ver as coisas. É até uma forma de se sentir seguro neste mundo ter a impressão de que o essencial não muda.

É assim na política, nas artes. A novidade sempre encontra uma barreira. Afinal, ninguém quer perder seu lugar ou ser chamado de ultrapassado.

No futebol não é diferente. O brasileiro tende a respeitar os campeões mundiais, ainda que colocando o país com cinco títulos no topo. E nem todos. Alemanha, Itália, Argentina à frente. E Alemanha nem tanto até 2014 porque era freguês histórica.

Dentro deste cenário, o contexto atual é difícil de aceitar: um catalão e um português dando as ordens e ensinando um novo futebol para o mundo, baseados em princípios da escola holandesa. A Espanha campeã mundial, Bélgica de sua “geração playstation” líder do ranking e a nossa antiga freguesa impõe a maior humilhação da história da nossa seleção, em casa.

Com isso, nossos técnicos viraram alvos fáceis porque são, de fato, também responsáveis pela nossa estagnação. Pelo conforto de arrumar e fechar a casinha e deixar o talento fazer a diferença.

E aí no ano seguinte chega um treinador da Colômbia, um pais ainda tratado como nos anos 1960, de futebol semiamador apesar das conquistas de Libertadores e as boas campanhas em Mundiais, e passa a ser visto como uma referência.

Primeiro o nó na cabeça, depois um ódio estranho de entender. Os mesmos que clamavam para sairmos da mesmice transformaram Juan Carlos Osorio em alvo no São Paulo. Miraram nas canetas nas meias, enquanto ele buscava discutir o jogo neste museu de ideias, fugindo da polêmica vazia. Deveria ser tratado como alguém com água a oferecer no meio do deserto.

Nada. Entrou na roda viva do futebol de resultados e da cobrança covarde: “ganhou o quê?” Vale a reflexão: pensando assim, o que estamos ganhando recentemente?

Foi perseguido, saiu questionado. Durante seu bom início de trabalho na seleção mexicana, o silêncio conveniente esperando o golpe covarde. Veio na madrugada. Primeira derrota. Dura, humilhante. Chile 7 a 0. Nas redes sociais, festa de muitos e um clima de “eu avisei”. Quase um alívio com o insucesso daquele forasteiro que ousou nos ensinar o futebol contemporâneo que sequer percebemos a existência e vivemos nos enganando.

Osorio errou e isso você vê no post sobre o jogo neste blog. Mas faz parte de quem tenta fazer diferente porque acredita nessa possibilidade.

O diferente. Novo. Que nos queima as entranhas e embota a visão. Queremos como ideia, mas resistimos na prática. Preferimos tudo como está, ainda que o hoje seja ruim. Ou esperamos por um passado que não volta.

A Bélgica incomoda, assim como Espanha, Guardiola, Mourinho, Osorio e o que vier mais por aí como reflexo de nossa indigência. A má notícia é que sem olhar para o espelho com olhos de ver tudo pode ficar ainda pior.


Gent do “W-4-1” é a surpresa belga que pode fazer história na Champions
Comentários Comente

André Rocha

O 3-2-4-1 do Gent que surpreende abrindo o jogo com os alas-pontas e tenta criar superioridade no meio-campo para acionar o centroavante Depoitre.

O 3-2-4-1 do Gent que surpreende abrindo o jogo com os alas-pontas e tenta criar superioridade no meio-campo para acionar o centroavante Depoitre (Tactical Pad).

O campeão da Bélgica e líder da atuação edição da Jupiler Pro League, foi feliz no sorteio da Liga dos Campeões ao cair no acessível Grupo H com Zenit, Valencia e Lyon. Sem favoritos absolutos, a chance de ao menos fazer jogos parelhos e buscar uma vaga na Liga Europa era real.

Mas o Gent quis e fez mais. Empate heróico em 1 a 1 na estreia contra o Lyon com um jogador a menos e o goleiro Sels defendendo pênalti de Lacazetti. Derrotas para o Zenit e Valencia fora e duas vitórias seguidas, sobre o próprio time espanhol e Lyon.

Segunda colocação, só atrás do time de Hulk, absoluto com 100% de aproveitamento e liderança garantida. Exatamente o adversário na rodada final, em Gante, cidade de não mais que 250 mil habitantes. Sonho vivo, até por um possível relaxamento dos russos no Jules Ottenstadion. E a surpresa não vem só da posição na tabela.

O Gent é uma das raras equipes na Europa a ainda atuar com três zagueiros – sem contar o mutante Bayern de Guardiola. Mas a proposta não é de ferrolho. Pelo contrário, demonstra coragem. Claramente a ideia do técnico Hein Vanhaezebrouck é conseguir a superioridade no meio-campo e chegar ao ataque em bloco.

Foi assim no Stade Gerland, em Lyon, sediando pela última vez uma partida de Liga dos Campeões. Depois da pressão inicial e do gol do time da casa logo aos sete minutos de jogo, marcado por Jordan Ferri, o Gent se impôs no jogo.

O sistema tático é inusitado: um 3-2-4-1 que tem o “W” do antigo “WM”. Ou seja, três zagueiros e dois volantes. Mais uma linha de quatro e um atacante. Desenho que ajudou a controlar a posse de bola (62%) e deu amplitude com os alas espetados Foket e Saief buscando o fundo para acionar o centroavante Depoitre. O volante brasileiro Renato Neto e o capitão Sven Kums fazem a saída de bola e empurram os meias Dejaegere e Milicevic, que se aproximam do ataque.

O único problema em Lyon era a solidão do ganês Nana Asare, zagueiro pela esquerda que precisava sair para o confronto com Valbuena e o brasileiro Rafael, ex-Manchester United. Por isso as oito finalizações contra cinco nos primeiros 45 minutos.

Mas a do meia suíço Milicevic foi tão precisa quanto inusitada. Cobrança de falta, três companheiros fizeram uma barreira à frente da bola, de costas para o batedor. De repente partiram na direção do goleiro, que se distraiu, assim como os adversários. O goleiro português Anthony Lopes, talvez desconsertado, acabou aceitando. Empate mais que oportuno.

No segundo tempo, pressão dos franceses, até pela necessidade. De início, bem coordenada, com movimentação e presença na área adversária. Depois das substituições, desordenada e desesperada, especialmente nos minutos finais.

O Gent desfez o trio na defesa e se recompôs com uma linha de quatro na retaguarda ao trocar Dejaegere pelo brasileiro Rafinha, que foi para a zaga. Se resguardou com paciência e tentou prender a bola na frente. No final, administrava o empate que parecia satisfatório com a Liga Europa na mira.

Mas a troca de Deproite por Kalifa Coulibally, nitidamente um recurso para ganhar tempo, deu ao Gent seu herói. No último lance, cobrança de escanteio e o atacante, nascido em Mali, mesmo todo atrapalhado, mandou para as redes. A décima finalização do time belga, contra o dobro do Lyon, decretava a vitória improvável. Festejada como um título.

A “zebra” fica a uma vitória, ou até empate, do sonho. Surpreendendo com seu “W-4-1” e a jogada ensaiada fora do padrão para ser o estranho no ninho entre os gigantes no mata-mata da Champions. Nunca pareceu tão possível.


< Anterior | Voltar à página inicial | Próximo>