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Balanço final da Copa (craque, seleção, surpresa, revelação…)
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André Rocha

Foto: AP

Seleção da Copa do Mundo 2018 para este blog:

Courtois (Bélgica)

Trippier (Inglaterra)

Thiago Silva (Brasil)

Umtiti (França)

Laxalt (Uruguai)

Kanté (França)

Modric (Croácia)

De Bruyne (Bélgica)

Mbappé (França)

Hazard (Bélgica)

Perisic (Croácia)

Treinador: Roberto Martínez (Bélgica)

 

Melhor jogo: Brasil 1×2 Bélgica

Pior jogo: França 0x0 Dinamarca

Surpresa: Rússia chegar até às quartas

Decepção: Alemanha, atual campeã, caindo na fase de grupos

Melhor atuação coletiva: Croácia, nos 3 a 0 sobre a Argentina

Pior atuação coletiva: Alemanha, na derrota por 2 a 0 para a Coréia do Sul

Melhor atuação individual: Mbappé, nos 4 a 3 da França sobre a Argentina

Pior atuação individual: Fernandinho, na derrota do Brasil para a Bélgica

Gol mais bonito: Pavard, na vitória da França sobre a Argentina

Craque e revelação: Kylian Mbappé

 


A França difícil de bater e ser batida está na final
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André Rocha

A única vitória francesa por mais de um gol até aqui na Copa do Mundo foi sobre o Uruguai nas quartas. Dois a zero graças à fantástica defesa de Lloris no primeiro tempo e à falha grotesca de Muslera na segunda etapa aceitando chute de Griezmann.

Sim, o placar de 4 a 3 contra a Argentina foi um tanto mentiroso. Na melhor atuação da equipe de Didier Deschamps, a seleção de Messi virou para 2 a 1 sem controle do jogo e marcou no final diminuindo para um gol a grande distância na bola jogada. Graças a Mbappé na grande atuação individual da Copa.

A França é essencialmente competitiva. O 4-2-3-1 com Matuidi como “ponta volante” pela esquerda deu liga contra o Peru e foi se assentando em um modelo de jogo sem grande controle através da posse. Organização defensiva e paciência para acelerar com Pogba conduzindo, Griezmann tocando rápido e fácil e Mbappé disparando.

Giroud é o pivô, o facilitador para os demais. Com força e estatura empurra a linha de defesa para trás e cria espaços às costas dos volantes. Se desloca e trabalha sem bola. Reforça o jogo aéreo. Chega à final sem gols, mas com utilidade.

A França não tem tanta fluidez e parece se preocupar mais com a organização ofensiva. Se movimenta pouco quando desce para não se descoordenar na volta. O espaço deixado por Matuidi só vem sendo aproveitado pelas descidas do lateral Lucas Hernández. Griezmann flutua pouco por ali, Mbappé também podia aparecer mais.

A antítese da Bélgica versátil, móvel e mutante. Sem o suspenso Meunier, Roberto Martínez colocou Dembele no meio-campo e posicionou Chadli pela direita, defendendo como lateral e atacando bem aberto. Do lado oposto, Vertonghen era lateral sem a bola e o zagueiro pela esquerda em um trio quando a equipe descia em bloco. Hazard abria o campo como ponta esquerda.

Em números, um 3-2-4-1 atacando e um 4-2-3-1 na recomposição que se movia de acordo com a perseguição de Fellaini a Pogba. A França respondia com Kanté ligado em De Bruyne partindo da direita, mas com liberdade.

Desta vez Lukaku foi centroavante. E sofreu contra a melhor zaga do Mundial na Rússia: Varane impecável na técnica e posicionamento e Umtiti implacável no vigor e na velocidade. Também no deslocamento e no movimento de ataque à bola para completar escanteio de Griezmann. De novo a bola parada decidindo.

Gol único e decisivo. Apesar da luta de Hazard e da pressão belga. A França negou espaços, mas não foi fulminante nos contragolpes. Com apenas 40% de posse, finalizou 19 vezes. Só cinco no alvo. Porque não cria chances cristalinas. Falta a jogada diferente com mais frequência. Há potencial, mas na prática acontece poucas vezes.

Também não cede. Os belgas rodaram a bola, mas a concentração defensiva dos Bleus permitiu apenas nove conclusões. Três na direção da meta de Lloris. Sofrimento só no início da semifinal em São Petersburgo e na pressão final, incluindo a defesa do arqueiro francês em chute de Witsel.

Beleza só no giro com calcanhar de Mbappé para o chute de Giroud. A França encarnou o papel da favorita pragmática que não quer desperdiçar a chance do título, o segundo da história. Depois do vice da Eurocopa em casa.

É time duro de bater no rival, mas ainda mais difícil de ser batido. Por isto está na final. A terceira da França nos últimos seis mundiais. Uma potência que merece respeito.

(Estatísticas: FIFA)


O abismo de centímetros entre Romário e Neymar
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André Rocha

17 de julho de 1994. Rose Bowl, Pasadena, Estados Unidos. Brasil e Itália decidem a Copa do Mundo. Disputam o tetracampeonato, repetindo a final de 1970. Um tira-teima depois da vitória da Azzurra sobre a seleção de Telê Santana em 1982. Disputa direta entre Romário e Roberto Baggio pelo prêmio de melhor jogador da Copa e, consequentemente, do mundo naquele ano.

Arrigo Sacchi voltava a contar com Franco Baresi na defesa depois de uma milagrosa recuperação de uma lesão séria no joelho. Um extraordinário defensor, mas não deixava de ser incógnita quanto à sua condição física e ao ritmo de jogo para uma final de Copa. Ainda mais no calor sufocante de verão americano naquela tarde de domingo.

Era a chance de Romário brilhar, já que Roberto Baggio também sofria com desgaste físico, inclusive atuando com uma proteção na perna direita. Mas o Baixinho não repetiu o bom desempenho de toda a campanha brasileira. Cinco gols e uma assistência para Bebeto marcar o gol salvador contra os Estados Unidos em 4 de julho.

Baresi controlou bem as arrancadas de Romário ao longo dos 90 minutos. Na prorrogação, com Viola e mais fôlego, os espaços apareceram. Surgiu a chance de se consagrar completando passe de Cafu. Mas o camisa onze perdeu na pequena área. Uma chance que não costumava desperdiçar. Decisão por pênaltis, a primeira da história das Copas. Com personalidade, pediu ao treinador Carlos Alberto Parreira para cobrar. Não bateu bem, mas deu sorte de Pagliuca saltar para o outro canto e a bola tocar na trave direita e cair dentro do gol. A última cobrança, de Baggio, entrou para a história e o Brasil comemorou o tetracampeonato.

Foi a consagração de Romário. Prometeu classificar o Brasil e fez dois gols no Uruguai na última partida das Eliminatórias. Garantiu a conquista do tetra e não decepcionou. Todos os méritos para ele.

Mas imaginemos que aquele chute, por um detalhe do futebol e da vida, tocasse na trave e fosse para fora. Pênalti perdido pelo melhor do time. Poderia abalar a seleção pressionada por críticas e 24 anos sem títulos. A Itália poderia ter se aproveitado e virado a história do avesso.

Centímetros que salvaram um Romário sempre polêmico. Criticado em 1990 por não ter cuidado bem de uma fratura na perna jogando pelo PSV. Disputou pelada com gesso, tratou com a sua rezadeira Dona Nazaré da Vila da Penha. Foi para o Mundial na Itália, mas não rendeu o esperado. Disputou apenas o jogo contra a Escócia. Já tinha perdido a vaga de titular no ano anterior para Careca por ter sido expulso contra o Chile em Santiago pela Eliminatória,  complicando a equipe de Sebastião Lazaroni que precisou vencer no Maracanã na famosa partida da farsa do goleiro Rojas e da “fogueteira”.

Romário que teve seus privilégios nos Estados Unidos. Não só a liberação de treinos físicos e outras atividades que entendiavam o Baixinho. Jornais da época publicaram fotos de uma “namorada” que o atacante teria levado para a concentração da seleção, mesmo em dias que não eram de folga. Segundo as fontes, Parreira e Zagallo sabiam, o capitão Dunga também. Tudo foi abafado para não perturbar a estrela máxima da seleção.

Não é difícil prever o que aconteceria caso o Brasil não fosse campeão do mundo. Na caça às bruxas de sempre, o maior alvo seria o centro das atenções. Alguma dúvida de que tudo que hoje é tratado como “folclórico” seria motivo para demonização, mesmo sendo decisivo nas partidas anteriores?

É bom lembrar que a capacidade e a personalidade de Ronaldo Fenômeno também foi questionada pela convulsão e atuação apática na final da Copa de 1998 até escrever uma das maiores histórias de redenção do esporte com o título e a artilharia em 2002. Até de “amarelão” foi chamado, em colunas e mesas redondas. Sem contar as vaias em 1997 e 1998 quando não rendia.

Ronaldinho virou vilão em 2006. Rivaldo foi perseguido em 1996 pelo desempenho pífio na seleção olímpica. Kaká já foi alvo de pipocas no São Paulo e também criticado pelo desempenho com a camisa verde e amarela em 2006. Todos Bolas de Ouro, como Romário. Até Pelé, que teria um busto em cada esquina em qualquer país do mundo que ama futebol, é criticado e ironizado no Brasil.

Todos tinham um outro craque para dividir um pouco os holofotes. Pelé teve Garrincha, Romário teve Bebeto, depois Ronaldo. Fenômeno que teve Rivaldo, mais tarde Ronaldinho Gaúcho que chegou a dividir o bastão com Kaká.

E chegamos a Neymar. Estrela única do futebol brasileiro atual. A referência na bola e na mídia. Com idiossincrasias e privilégios, como quase todo destaque. Como Messi na Argentina e no Barcelona, Cristiano Ronaldo em Portugal e no Real Madrid. Como Romário por onde passou.

Criticado no inicio da Copa por individualismo, simulações, irritação. A partir do jogo contra a Sérvia, até por estar pendurado com um cartão amarelo, focou no futebol e foi importante para a classificação brasileira. Diante do México, a melhor atuação com gol e o chute que Ochoa deu rebote e Firmino completou. Pisado por Layun, pode ter exagerado na reclamação, mas não a ponto de transformar o agressor em vítima como Juan Carlos Osorio tentou fazer parecer.

Com o camisa dez brasileiro mais concentrado e rendendo, as críticas ficaram mais discretas. Ou veladas. Afinal, a cobrança era para que ele jogasse futebol e esquecesse as polêmicas, os enroscos. Foi o que fez. Mas quem persegue fica à espreita esperando o momento do bote. Ele veio.

Contra a Bélgica, atuação irregular como todo time. Mal no primeiro tempo pela desvantagem de 2 a 0. Mesmo com 26 anos, não tem o perfil de liderança de pegar a bola e conduzir a equipe. Nem Romário tinha. Em 1994, esta era a função de Dunga.

Melhorou na etapa final como toda a equipe. No ataque derradeiro, o belo chute que parou na defesa ainda mais espetacular do goleiro Courtois. Tocou na bola o suficiente para desviá-la e impedir o empate. Centímetros. De braço. De história.

Imaginemos Neymar empatando o jogo no final. Deixando o Brasil com vantagem física e emocional para a prorrogação. Com chances de marcar pelo menos mais um que garantisse a vaga nas semifinais. Alguém imagina como seria o discurso? No mínimo, exaltando a personalidade no momento decisivo.

Certamente lembrariam do desempenho fantástico nas disputas de mata-mata do título do Barcelona na Liga dos Campeões 2014/15. Superior a Messi, inclusive. Artilheiro junto com os dois gênios da geração. Gol em final. Ou a conquista da Libertadores de 2011 também marcando na decisão contra o Peñarol. Ou quando assumiu a responsabilidade e conduziu o Barcelona aos 6 a 1 sobre o PSG em 2017, arbitragem à parte. Feitos que Romário, por exemplo, não ostenta em seu currículo. Na única final europeia, derrota do seu Barcelona por 4 a 0 para o Milan.

De certa forma, Neymar também ajudou a colocar o Brasil na Copa. Ausente de boa parte dos jogos da Era Dunga nas Eliminatórias, assumiu a responsabilidade no início do trabalho de Tite. Quando os resultados eram fundamentais para tirar da incômoda sexta posição, fez um gol de pênalti, deu assistência no terceiro e participou da jogada do segundo, ambos de Gabriel Jesus nos 3 a 0 sobre o Equador em Quito. Nos 2 a 1 sobre a Colômbia, cobrou escanteio na cabeça de Miranda e marcou o gol da vitória. Terminou com seis gols, um a menos que Gabriel Jesus. Hoje parece quase nada, mas teve seu peso naquele momento de dificuldade.

Não aconteceu para Neymar na Rússia. E veio a onda de dedos apontados. Piadas e memes. De todo o planeta. Reduzindo Neymar a um pseudocraque que rola pelos gramados. Um mero produto da mídia mimado e que engana os incautos e pachecos. Marrento e antipático. Como se outros talentos não fossem. Como Romário.

Centímetros. Que salvaram Romário em 1994 na sua última Copa do Mundo. Em 1998, pelo temperamento complicado e por tudo que aprontou nos Estados Unidos e depois, não contou com a paciência de Zagallo para aguardar a recuperação de uma lesão na panturrilha. Em 2000, por conta de uma desavença com Vanderlei Luxemburgo no Flamengo em 1995, ficou de fora da Olimpíada. Dois anos depois, descartado por Luiz Felipe Scolari, viu o penta pela TV. Tudo porque era “difícil”. Também simulava faltas e pênaltis. Dobrava os joelhos e jogava o corpo para a frente. Mas aí entrava na cota da “malandragem”…

Como foi tetra virou mito. Com a fama de “jogar e decidir”, ainda que ostente poucos títulos para os 22 anos de carreira profissional. Merece o reconhecimento. Mas sabemos que um detalhe poderia ter jogado um dos maiores atacantes de todos os tempos no limbo da história.

Neymar corre este risco. Mesmo superando Romário na artilharia da seleção, agora com 57 gols – e homenageou o artilheiro aposentado na comemoração. Todos que não aceitam sua personalidade contraditória aproveitam o momento de baixa para a vingança. Ou apenas aproveitam para colocar em prática a crueldade de afirmar teses em cima da imagem dos outros.

Por centímetros do braço de Courtois. Com final diferente do efeito dos centímetros que levaram a bola da trave para dentro na cobrança de pênalti de Romário em 1994. Um chute não tão bom que entrou, outro perfeito interceptado na trajetória que parecia inevitável. Medida que cria um abismo entre dois dos maiores da história do futebol cinco vezes campeão do mundo.

No Brasil do pensamento binário, no qual quem não odeia é passador de pano, é bom deixar claro: este post não é uma crítica a Romário. Este que escreve viu ainda garoto, em 1984, marcando gols pelos então “juniores” (sub-20) do Vasco nas preliminares do Maracanã. E tantas vezes testemunhou no estádio o talento do gênio da grande área do século 20. Um ídolo.

Muito menos a intenção é blindar Neymar. Quem acompanha o blog sabe que este que escreve evita mencionar o nome do personagem que mais atrai cliques na internet. Oportunismo aqui passa longe. E para massacrar já há gente até demais. Mas não discordo de quem considera Neymar mal orientado e assessorado. Na bolha em que vive há quase uma década ele precisa de uma voz que o conecte à realidade para evitar certos desgastes desnecessários. Já passou da hora de amadurecer.

O texto e o “se” que o norteia propõem apenas uma reflexão sobre a nossa capacidade de idolatrar ou ridicularizar por um resultado. Definido por detalhe, pelo imponderável. Tão pouco. Centímetros.

 


Plano “alemão” da Inglaterra impede clima de final antecipada do outro lado
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André Rocha

Inglaterra e Bélgica viveram um cenário único na fase de grupos da Copa do Mundo na Rússia. Eram favoritas destacadas contra Tunísia e Panamá e cumpriram a missão matematicamente com duas vitórias. O confronto da última rodada, no penúltimo dia de disputa, permitiu que se olhasse para os chaveamentos a partir das oitavas de final e projetasse um caminho no torneio.

O Grupo H não apresentava nenhum favorito destacado, até porque a cabeça de chave Polônia já estava eliminada. O resultado prático foi um duelo entre ingleses e belgas repleto de jogadores reservas. Compreensível pela oportunidade de rodar o grupo, descansar titulares e evitar suspensões. Mas a partida mostrou claramente que nenhum dos dois fazia muita questão de vencer.

O golaço de Januzaj deu a liderança com 100% de aproveitamento aos belgas. Para as oitavas, um duelo teoricamente mais tranquilo contra o Japão. Mas depois Portugal de Cristiano Ronaldo e os campeões Argentina, França, Uruguai e Brasil poderiam cruzar o caminho até a grande decisão.

Já para os ingleses a tarefa era mais complicada por enfrentar a Colômbia, líder do grupo e que chegou às quartas de final em 2014 com o artilheiro James Rodríguez. Se conseguisse a vaga nas quartas, porém, na sequências os possíveis adversários seriam Suíça, Suécia, Rússia, Croácia, Dinamarca e a Espanha como única campeã mundial e, em tese, favorita.

Ambas estão nas semifinais. Com sofrimento e desgaste, ainda que a Bélgica não tenha disputado prorrogação, enquanto a Inglaterra viveu um drama até a disputa por penalidades contra os colombianos. Nas quartas, como esperado, triunfo mais tranquilo sobre a Suécia por 2 a 0.

Confirmando a força do jogo físico e a eficiência nas jogadas aéreas. São cinco gols neste tipo de ação dos 11 marcados até aqui. Com os zagueiros Stones e Maguire aparecendo na área adversária aproveitando a estatura. Mas também iniciando a construção desde a defesa, auxiliando Henderson e fazendo a bola chegar a Trippier e Ashley Young, os alas do 5-3-2 inglês. Ou diretamente a Dele Alli, Lingard e Sterling. O trio que se movimenta com rapidez e intensidade em torno de Harry Kane, artilheiro da Copa com seis gols, mas também um centroavante que recua para trabalhar com os meias e abre espaços para as infiltrações dos companheiros.

Chegou como candidata ao título, mas no segundo pelotão. Agora está a um jogo da final que não disputa desde a conquista do título em 1966 como anfitriã. Pegando um “atalho” que lembrou o pragmatismo alemão. Em 1974, mesmo jogando em casa e contando com a fantástica geração de Maier, Beckenbauer, Overath e Gerd Muller, preferiu ser derrotada pela Alemanha Oriental, num duelo com vários significados naqueles tempos de Muro de Berlim. Tudo para fugir de um grupo com o então campeão Brasil, a Argentina e a sensação Holanda, o Carrossel de Rinus Michels e Cruyff. Na disputa em outro grupo com Polônia, Suécia e Iugoslávia se classificou para a grande decisão. Com mais moral e em jogo único e decisivo, a vitória por 2 a 1 sobre os holandeses e a festa em casa.

A Inglaterra disputa a semifinal como favorita não pela tradição, que contou bem pouco nesta edição da Copa. Mas principalmente por chegar mais inteira que a Croácia sofrida e exaurida por duas prorrogações e disputas de pênaltis contra Dinamarca e Rússia que exigiram demais física e mentalmente. A maneira de jogar da seleção de Gareth Southgate exige concentração e vigor do oponente e, mesmo com a experiência e a capacidade de controlar o tempo e o espaço de Modric e Rakitic, os croatas devem sofrer. E se vencerem mais este obstáculo chegarão fortalecidos demais à decisão.

Por isso tratar o duelo entre França e Bélgica como uma espécie de final antecipada por serem os sobreviventes de uma disputa entre gigantes parece um tanto irreal. Até pelo cenário imprevisível desta semifinal, que pode se definir apenas nos penais e exaurir as equipes para a decisão.

A ausência do suspenso Meunier certamente será sentida por Roberto Martínez, mas o treinador espanhol pode transformar o desfalque numa chance de novamente surpreender o adversário. Pode enviar Chadli para o lado direito, fazer Carrasco retornar à ala esquerda e voltar ao 3-4-3 da primeira fase ou simplesmente deslocar Alderweireld para a lateral e colocar Vermaelen na zaga ao lado de Kompany mantendo o 4-3-3 da vitória sobre o Brasil.

Outra dúvida é se manterá o posicionamento de Lukaku pela direita e De Bruyne como “falso nove” fazendo companhia a Hazard no tridente ofensivo sem participar do trabalho sem a bola e apostar tudo no talento e na capacidade de desequilibrar na frente. Mesmo defendendo com apenas sete homens, cedendo espaços e obrigando o fantástico goleiro Courtois a trabalhar.

Um risco diante de uma França que se encontrou no 4-2-3-1 com um “ponta volante” pela esquerda. Aliás, é a única dúvida de Didier Deschamps: mantém Tolisso, que cumpriu bela atuação nos 2 a 0 sobre o Uruguai, ou faz Matuidi retornar naturalmente depois da suspensão. Quem entrar será a “liga” entre a dupla Kanté e Pogba e os três jogadores mais adiantados.

A “exterminadora de sul-americanos” vem mostrando maturidade no Mundial. Com a “casca” da derrota em casa para Portugal na final da Eurocopa há dois anos. Contra os uruguaios aproveitou bem os erros do adversário para se impor. Com Giroud atuando mais coletivamente, como um elemento a prender a defesa adversária, fazer pivô e abrir espaços para Mbappé e Griezmann, os grandes destaques individuais da nova favorita ao título. Um perigo nesta edição da Copa do Mundo.

Teremos uma final inédita e europeia. Emblemática. E justamente pelo equilíbrio é que não se pode garantir nada. Apenas alguma vantagem física da Inglaterra. Que executou seu plano “alemão” e encarou um chaveamento menos exigente. Pelo desempenho coletivo e de nomes surpreendentes como Trippier e o goleiro Pickford vem sendo consistente. Mesmo acusada de simular faltas e escolher adversários, algo distante da imagem ligada à fidalguia e elegância. Ao fair play.

Desta vez o English Team quer ganhar ou chegar o mais longe possível. A Croácia que se prepare e franceses ou belgas não celebrem tanto assim o triunfo amanhã. A final será dura.


Gol contra e “pane” de Fernandinho pesaram mais que a mudança de Martínez
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André Rocha

Tostão costuma dizer em suas colunas que o futebol muitas vezes é mais simples e tem seus desdobramentos movidos muito mais por aleatoriedades e acasos do que propriamente por algo planejado ou pela estratégia dos treinadores.

Este blogueiro já desconfiou mais desta tese, mas quanto mais vê o jogo acontecer mais passa a crer nesta visão de quem esteve lá dentro e tem inteligência e sensibilidade para perceber os detalhes que muitas vezes escapam aos nossos olhos.

Em todo mundo pululam análises da vitória da Bélgica sobre o Brasil que carregam como elemento central o fator surpresa da formação de Roberto Martínez num 4-3-3 com Lukaku pela direita, De Bruyne como “falso nove” e Hazard à esquerda. Um tridente ofensivo que não voltava na recomposição e ficava pronto para as saídas em velocidade. Sem dúvida algo incômodo e inesperado para Tite e seus comandados. Mas será que foi tão decisivo assim?

A dúvida ao rever a partida com mais serenidade e distanciamento nasce pelo fato de que até os 13 minutos de jogo em Kazan o que se via eram duas equipes tensas e ainda se adequando ao novo cenário. O Brasil saía do plano inicial, mas a Bélgica também tinha adaptações a fazer, como voltar a se defender com quatro homens atrás depois de vários jogos com linha de cinco. Mas principalmente se fechar apenas com sete jogadores e tendo Fellaini e Chadli como elementos novos e com funções diferentes das executadas na virada sobre o Japão.

O problema era o lado direito, com Meunier contando com o apoio de Fellaini e a cobertura de Alderweireld contra Marcelo, Philippe Coutinho e Neymar. Pouco. Por ali a seleção brasileira criou espaços e conseguiu o escanteio cobrado por Neymar aos oito minutos. Desvio de Miranda e Thiago Silva, meio no susto, acertando a trave direita de Courtois.

Até os 13, a Bélgica encontrou, sim, espaços às costas do meio-campo brasileiro que também tentava se ajeitar com a entrada de Fernandinho na vaga de Casemiro. Plantado à frente da defesa no 4-1-4-1 habitual de Tite. Desta maneira que saiu o escanteio. Passe do De Bruyne, chute de Fellaini.

Assim como ficou claro em outros momentos do jogo, Martínez trabalhou a cobrança na primeira trave. Sabia das fragilidades da retaguarda adversária na bola aérea. Mas Kompany não conseguiu desviar o centro de Chadli. O gol contra foi de Fernandinho.

Logo ele. Personagem central da sequência de gols alemães no 7 a 1 do Mineirão. Foi nítido o efeito devastador na força mental do volante. A concentração tão exigida por Tite havia caído por terra. Não só do jogador do Manchester City, mas da defesa que ficou desguarnecida. Que já tinha um ponto sensível com Fagner no mano a mano com Hazard. Neste cenário, a ausência de Casemiro se fez mais impactante. E a presença de Marcelo, retornando depois de duas partidas com Filipe Luís como titular, mais desnecessária pelos espaços que deixava às suas costas. O sistema de cobertura com Miranda saindo e o volante fechando a área se perdeu.

Abalado também por ficar em desvantagem pela primeira vez no torneio, o time verde e amarelo sofreu contragolpes seguidos, mas o do segundo gol, curiosamente, não teve Lukaku à direita e De Bruyne centralizado. O centroavante buscou a bola no centro e arrancou deixando Paulinho para trás. Sem confiança e força física para a disputa, Fernandinho ficou pelo caminho. Marcelo optou por fechar o “funil” e deixou todo o lado direito para Meunier e De Bruyne, que acertou um petardo na bochecha da rede.

O resto é história, inclusive a pressão brasileira que poderia ter resultado no empate ou até na virada. Com a Bélgica mantendo a estratégia e sofrendo demais para sustentar a vantagem. A equipe de Tite corrigiu o setor defensivo, Miranda ganhou todas de Lukaku e ofensivamente teve volume e espaços para criar e finalizar. Os europeus se reduziram à luta e às defesas de Courtois. A mais espetacular em chute com efeito de Neymar. Renato Augusto e Coutinho perderam chances com liberdade e de frente para o gol. Acabou sendo a diferença no placar das quartas de final.

Nada que tire os méritos da Bélgica semifinalista. Aproveitar as instabilidades do oponente também é virtude e decide jogos. Ainda mais os eliminatórios, tantas vezes definidos pelas individualidades e pelo componente emocional.

Por isso a dúvida que ficará para sempre. O que matou o Brasil: o gol contra de Fernandinho que tirou confiança do volante e escancarou a defesa ou a surpreendente mudança de Martínez? Pelo visto, a história das Copas do Mundo já escolheu a versão mais sedutora: o inesperado. Ou o “nó tático”.

Este que escreve, mesmo valorizando a tática e a estratégia, tende a seguir a lógica de Tostão desta vez, ainda que o campeão mundial em 1970 tenha colocado os dois fatores na balança em sua análise e dado ênfase à ausência de um talento como De Bruyne no meio-campo brasileiro, o que também é uma visão mais que respeitável.

É díficil, porém, não colocar a bola que bateu em Thiago Silva e não entrou e a que Fernandinho jogou contra a meta do companheiro Alisson como os verdadeiros momentos chaves de mais uma eliminação brasileira em Mundiais.

 


A maior ameaça da Bélgica é não saber o que esperar dela
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André Rocha

Pegue tudo que a Bélgica fez até aqui na Copa do Mundo e descarte. Sim, jogue fora! Panamá, Tunísia, reservas contra a Inglaterra no jogo do “tanto faz” e Japão. Todos os gols, estatísticas, desempenhos…

Nada valem como parâmetro para avaliar suas possibilidades em duelo de quartas de final contra o Brasil. Jogo único, experiência inédita. A rigor, tudo que a seleção fez sob o comando de Roberto Martínez desde 2016 tem pouco ou nenhum peso para a grande partida da história desta talentosa geração até aqui.

Sim, maior que o confronto com a Argentina de Lionel Messi no Mané Garrincha em 2014, também pelas quartas. Primeiro porque a albiceleste não carregava o status de favorita ao título mundial que o Brasil ostenta na Rússia depois de quatro jogos e Alemanha, Espanha, Messi e Cristiano Ronaldo eliminados. Depois porque os belgas ganharam maturidade. Não só por aquela eliminação, com 11 convocados dos 14 que entraram em campo em Brasília há quatro anos, mas também pela decepção na Eurocopa contra País de Gales. Também nas quartas. Ainda sob o comando de Marc Wilmots.

O sucessor no comando técnico é espanhol. Fã de Johan Cruyff. Mas radicado na Inglaterra desde 1995, ainda como jogador. Valoriza a posse de bola, mas também adapta facilmente suas convicções a um jogo mais físico e direto.

Versatilidade também é a marca de muitos de seus jogadores. Vertonghen pode ser zagueiro ou lateral esquerda. No mesmo lado, Carrasco é ala, mas também pode ser meia ou ponteiro. Hazard sabe jogar aberto ou por dentro, como um atacante atrás do centroavante. De Bruyne tem atuado na seleção e no Manchester City como o meia mais próximo do volante à frente da defesa, porém sabe jogar adiantado, centralizado ou no flanco em uma linha de meias. Fellaini é meio-campista, mas pela estatura não é raro vê-lo na área fazendo dupla com Lukaku. Chadli, heroi contra o Japão, entrou na vaga de Carrasco na ala e também sabe fazer todo o corredor esquerdo.

É simplesmente impossível tentar vislumbrar o que a Bélgica fará em campo. Nas eliminatórias europeias sobrou contra adversários frágeis e os amistosos, mesmo contra seleções grandes como Espanha, Portugal e Inglaterra, não podem ser tratados como uma referência segura.

O 3-4-3 com proposta ofensiva pode ser mantido, sim. Arrojado, com muita pressão no campo de ataque e volume de jogo empurrando o Brasil para a defesa, mas também deixando espaços atrás e entre os setores. Há qualidade e coragem para tal ousadia. Com os alas Meunier e Carrasco bem abertos e preocupando os laterais Filipe Luís ou Marcelo e Fagner e os ponteiros Mertens e Hazard dois passos para dentro, perto de Lukaku e criando instabilidade na proteção da área brasileira que terá mudança: Fernandinho na vaga do suspenso Casemiro.

O 3-4-3 da Bélgica em sua versão mais agressiva, com alas Meunier e Carrasco abrindo o campo e os ponteiros Mertens e Hazard se aproximando de Lukaku, com o suporte do meia De Bruyne na articulação (Tactical Pad).

Mas Martínez também pode mudar tudo sem mexer na formação. Armando um 5-4-1 bastante cuidadoso guardando sua própria área. Em um jogo deste tamanho, que jogador se recusaria a uma função tática de maior sacrifício no trabalho defensivo e a humildade sem bola para buscar a vitória nos contragolpes? Basta reforçar a linha de cinco que já costuma ser formada com o recuo dos alas Meunier e Vertonghen alinhando De Bruyne a Witsel e os ponteiros Mertens e Hazard voltarem para esperar os laterais brasileiros. Compactação para evitar espaços entre os setores.

A linha de cinco na defesa belga quando os alas voltam como laterais e se juntam ao trio de defensores. Contra o Brasil, a missão é reduzir os espaços entre os setores, como os cedidos contra o Japão nas oitavas de final (Reprodução TV Globo).

Se quiser surpreender, novamente sem fazer alterações, o treinador espanhol ainda pode reagrupar o time em duas linhas de quatro: Vertonghen de lateral esquerdo, Carrasco adiantado como meia aberto, Mertens recuando à direita e Hazard mais solto para buscar espaços às costas dos volantes brasileiros mais próximo de Lukaku.

Uma possível surpresa de Martínez sem mexer na formação titular: duas linhas de quatro com Vertonghen na lateral, Carrasco adiantado como meia e Hazard no ataque com Lukaku (Tactical Pad).

Fellaini ou Dembele podem entrar para reforçar o meio-campo e dar liberdade a De Bruyne, Chadli ganhar a vaga de Carrasco para executar as mesmas funções pela esquerda. Martínez ainda conta com as opções de Januzaj, autor do golaço da vitória sobre a Inglaterra, Tielemans e Batshuayi.

Um vasto cardápio oferecido pelo grupo de jogadores mais homogêneo em termos de qualidade técnica deste Mundial. Mas uma incógnita também na força mental. Pode entrar na Arena Kazan sem nada a perder e arriscar tudo, com a confiança renovada depois de reverter uma desvantagem de dois gols contra o Japão em jogo eliminatório.  Para ultrapassar a barreira recente das quartas de final e repetir a geração semifinalista de 1986, só parando em uma tarde inspirada de Diego Maradona.

Mas também não é improvável temer a camisa cinco vezes campeã mundial e a equipe de Tite com sua solidez nos números e no desempenho. Ainda que todos se conheçam bem nos clubes – Fernandinho, Danilo e Gabriel Jesus jogam com Kompany e De Bruyne no Manchester City, Paulinho e Coutinho são companheiros de Vermaelen, Thiago Silva, Marquinhos e Neymar atuam ao lado de Meunier no PSG, Filipe Luís jogou com Carrasco no Atlético de Madri e Willian trabalha diariamente com Courtois e Hazard. O universo de seleções, porém, costuma carregar outra lógica e uma mística diferente.

Tudo isto torna a Bélgica um grande ponto de interrogação. A maior ameaça é justamente não saber o que esperar dela.


Bélgica terá confiança abalada ou vai ganhar “casca” com o susto japonês?
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André Rocha

O roteiro do duelo pelas oitavas de final entre os  belgas favoritos e os japoneses classificados apenas por menor número de cartões que Senegal teve o final esperado, mas com o roteiro mais inusitado possível.

Porque a Bélgica com os titulares repetiu em jogo eliminatório os erros defensivos que não causaram estragos contra Tunísia e Panamá na fase de grupos. De posicionamento e também logo após a perda da bola. Muitos espaços entre os setores na execução do 3-4-3/5-2-3 e sobrecarga no trabalho de Witsel atrás dos alas Meunier e Carrasco, do meia De Bruyne e do trio ofensivo.

O Japão começou compactando duas linhas de quatro e aos poucos foi avançando na troca de passes no ritmo de Shibasaki, com Kagawa aceso e os ponteiros Haraguchi e Inui se entendendo bem pelos flancos com Sakai e Nagatomo. Na defesa, Yoshida quase perfeito no duelo com Lukaku.

A Bélgica perdeu intensidade e as brechas ficaram ainda maiores. Os japoneses foram implacáveis com Haraguchi e Inui. Quando a Bélgica despertou, perdia por 2 a 0.

Mas paradoxalmente a vantagem criou o cenário mais complicado para os japoneses. Mais baixos e fracos, costumam sofrer com “abafas”. Roberto Martínez trocou Carrasco e Mertens por Fellaini e Chadli. Esvaziou um tanto o lado direito, que só tinha Meunier no corredor. Mas descarregou cruzamentos na área japonesa.

Até Vertonghen diminuir em cabeçada que encobriu o goleiro Kawashima – um arqueiro mais alto sofreria o gol? Depois o empate com Fellaini em nova jogada aérea. Parecia que era a senha para uma virada até tranquila dos belgas na pressão. Talvez pensando numa possível prorrogação, a Bélgica diminuiu a rotação.

Com Honda em campo, o Japão reequilibrou as forças e recobrou confiança a ponto de buscar o gol da vitória já nos acréscimos. Deu trabalho a Courtois, mas também cedeu espaços. No ato final, o contragolpe de manual que terminou na assistência de Meunier para Chadli, o heroi improvável dos 3 a 2.

Foram 24 finalizações, mas apenas oito no alvo. 56% de posse dos belgas muito mais na pressão. Volume de jogo e qualidade, mas também deficiências sem a bola. Roberto Martínez deve repensar formação, sistema e estratégia contra o Brasil nas quartas.

A dúvida é se a virada com sofrimento surpreendente servirá para abalar a confiança dos belgas na própria capacidade ou criar uma “casca” para o maior jogo desta geração. É melhor que Tite se prepare para a segunda hipótese.

(Estatísticas: FIFA)


Difícil avaliar a força da Inglaterra, mas há pontos positivos além de Kane
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André Rocha

Não é fácil fazer avaliações mais profundas sobre o Grupo G pela disparidade de Inglaterra e Bélgica em relação a Panamá e Tunísia. Esperada e confirmada no campo, apesar de algumas dificuldades na estreia – a Inglaterra por abrir o placar cedo e se acomodar e a Bélgica ao sofrer para superar o forte bloqueio do Panamá.

Na segunda rodada, mais relaxados, construíram duas das três maiores goleadas do Mundial até aqui. A Inglaterra enfiou 6 a 1 no Panamá e confirmou algumas boas impressões, apesar da obrigação de relativizar pelas muitas fragilidades do adversário.

A começar pelo jogo vertical do trio de defensores. Walker, Stones e Maguire se juntam a Henderson na articulação de trás com bons passes. Acionam diretamente os alas Trippier e Ashley Young ou o trio ofensivo formado por Sterling e Lingard circulando em torno do artilheiro Harry Kane.

Uma vantagem em relação à Bélgica, que não construía a partir dos zagueiros e facilitava a concentração de panamenhos guardando a própria área. Óbvio que o gol de Stones logo aos oito minutos muda toda a percepção. Ainda mais porque desta vez os ingleses mantiveram a intensidade.

Muita força no jogo aéreo ao enviar Stones e Maguire se juntando a Kane na área adversária. Walker, Henderson e Loftus-Cheek, a única mudança de Gareth Southgate no seu 3-5-2, sacando Eric Dier, também possuem boa estatura. Na Copa dos gols de bola parada é arma que pode resolver ou descomplicar jogo. Ainda mais pela precisão de Trippier nos cruzamentos.

Kane se destaca pela presença de área e também precisão que já o coloca na artilharia com cinco gols. É centroavante dinâmico, que chama lançamento e sabe fazer pivô. Garante mobilidade ao lado de Sterling e a aproximação de Lingard, que cresceu demais na seleção pela evolução nas mãos de José Mourinho no Manchester United.

Os espaços cedidos, principalmente às costas dos alas, que proporcionaram oito finalizações, duas no alvo e o gol de Felipe Baloy, são questão de ajuste. Até porque contra grandes seleções a solidez defensiva se fez presente – como o muro em Wembley que despertou Tite para as dificuldades da seleção brasileira para furar a linha de cinco na defesa?

Na frente, foram 12 finalizações. Sete no alvo, seis nas redes. Eficiência sem precisar de controle absoluto da posse de bola (58%). Chamou atenção a efetividade nos passes: 91%. Mais um item que merece desconto pelos muitos espaços cedidos por um adversário que se descoordenou com o gol sofrido nos primeiros minutos. De qualquer forma, a Inglaterra cumpriu sua obrigação.

Falta o teste mais forte. Virá na última rodada contra a Bélgica, mas ambas parecem mais preocupadas em rodar o grupo e poupar pendurados e desgastados do que com a primeira vaga. Até porque não fará tanta diferença os adversários que virão do Grupo H que não conta com um favorito ou seleção temida pelo desempenho, ao menos até aqui.

(Estatísticas: FIFA)


Bélgica vence fácil, mas só com o alívio do primeiro gol contra a retranca
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André Rocha

Bélgica na estreia do Mundial jogando num 3-4-3 ofensivo com Meunier e Carrasco abrindo o campo, De Bruyne organizando e ponteiros Mertens e Hazard mais próximo de Lukaku. Panamá no 4-1-4-1, mas fechando espaços com uma linha de seis jogadores guardando a própria área (Tactical Pad).

Para encaixar o máximo de individualidades dentro de uma geração talentosa, o treinador espanhol Roberto Martínez armou a Bélgica num 3-4-3 que lembra o Chelsea de Hazard comandado por Antonio Conte no posicionamento. Um 5-4-1 sem a bola e na transição ofensiva os ponteiros Mertens e Hazard se juntam ao centroavante Lukaku e os alas Meunier e Carrasco são os responsáveis por abrir o campo e espaçar a marcação adversária.

Na dinâmica ofensiva, um ataque posicional construindo volume através da posse e da retomada pela pressão logo após a perda da bola. Em alguns momentos com Vertonghen atacando como lateral e empurrando Carrasco como ponteiro à esquerda.

Só que é cada vez mais desconfortável jogar como favorito. Antes o futebol era um grande tabuleiro de duelos individuais em que o melhor, se jogasse bem, vencia com naturalidade. Hoje há uma disputa por espaços no qual os corpos precisam estar bem posicionados e se movimentar corretamente para fazer um bom trabalho defensivo e dar trabalho como “zebra”, sempre à espera de um contragolpe.

Foi o que fez o Panamá do colombiano Hernan Gomez. Um 4-1-4-1 que, na prática, recuava os ponteiros Barcenas e Rodríguez como alas formando uma linha de seis homens guardando a própria área. Recurso inspirado no handebol para impedir as infiltrações. Complicou o jogo belga.

A tensão da estreia em uma Copa do Mundo novamente com pressão por bom desempenho e resultados condizentes com a expectativa também contribuiu para a inconstância de atuações de Hazard e De Bruyne. Algumas jogadas construídas e mal acabadas. Ou bloqueadas pelo muro defensivo do Panamá.

Até o alívio do primeiro gol, logo no início da segunda etapa. Lindo chute de Mertens. Não é apenas uma questão de ganhar espaços, mas também confiança e desanimar o adversário fechado que sabe que terá que subir uma montanha para buscar uma reação.

Os gols de Lukaku, o segundo concluindo linda assistência de três dedos do De Bruyne e o terceiro completando passe de Hazard num contragolpe, saíram naturalmente e cabia até mais que os 3 a 0. 61% de posse, 88% de efetividade nos passes e 15 finalizações contra seis – meia dúzia no alvo contra duas.

Vitória fácil no saldo dos 90 minutos, mas com o incômodo até abrir o placar e a retranca que perdeu a vergonha e ganhou inteligência ao longo do tempo para negar espaços. Nada raro no futebol atual e a Copa do Mundo não seria exceção.

(Estatísticas: FIFA)


Copa do Mundo deve combinar características da última Euro e da Champions
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André Rocha

A Copa do Mundo tem sua abertura na quinta-feira com a anfitriã Rússia diante da Arábia Saudita. O primeiro duelo já deve dar a tônica do que provavelmente será a fase de grupos na maioria das partidas.

Uma seleção favorita pela camisa, história, tradição e/ou um grupo mais qualificado de jogadores contra uma equipe tratada como “zebra” fechando espaços no próprio campo. Com a cada vez mais frequente linha de cinco ou mesmo a tradicional com quatro defensores, porém com os pontas recuando como laterais formando um cinturão guardando a própria área. Todos os movimentos estudados por departamentos de inteligência cada vez mais equipados e qualificados.

Então o time que ataca busca uma jogada individual mais perto da área do oponente, ou uma virada de bola rápida que surpreenda o sistema defensivo. Se não for possível, os chutes de média e longa distância, a jogada aérea com bola rolando ou parada e o desarme no campo de ataque com transição rápida viram as possíveis soluções para ir às redes. Tudo isso atento ao balanço defensivo para não dar ao rival os espaços tão desejados às costas da retaguarda.

Fica tudo muito condicionado ao primeiro gol. Se a seleção que defende marca aí o bloqueio fica ainda mais sólido, com todos os jogadores num espaço de 20 metros em linhas quase chapadas, como no handebol. Já se o favorito abre o placar aumenta exponencialmente a chance do jogo mudar e os espaços e mais gols aparecerem.

Foi o que aconteceu na última Eurocopa, na França em 2016, com algumas partidas de fato entediantes para quem aprecia uma trocação de ataques e gols e se apega ao esporte mais pela emoção que pelo jogo em si. Apenas oito placares com vantagens iguais ou superiores a dois gols num total de 36 partidas. Média de 1,2 por jogo.

Sim, desta vez haverá Messi, Neymar, Suárez, James Rodríguez, Salah, Guerrero, o jovem Mbappé que surgiu ano passado na França e outros talentos desequilibrantes. Mas também um trabalho defensivo ainda mais concentrado e aprimorado para bloquear a técnica e o improviso.

Por outro lado, se os favoritos em cada grupo conseguirem suas classificações o torneio tende a passar por uma transformação, como a que ocorre quase todo ano na Liga dos Campeões. A partir da primeira “seleção natural” o nível já sobe bastante. Mesmo com a presença de algumas surpresas que se conseguem a vaga a partir das quartas é porque houve mérito.

Imaginemos a partir das oitavas os duelos envolvendo as favoritas Alemanha, Brasil, Espanha e França, mais os talentos belgas, o Uruguai de Cavani, Suárez e agora meio-campistas mais qualificados. Inglaterra, Colômbia, Croácia…A Polônia de Lewandowski e a promissora Dinamarca do meia Eriksen. E ainda Messi e Cristiano Ronaldo no Mundial que provavelmente será o último da dupla de extraterrestres jogando no mais alto nível. Conduzindo Argentina e Portugal. Mas ao contrário do universo dos clubes sem o favoritismo de Barcelona e Real Madrid, o que torna tudo mais imprevisível e eletrizante. Mesmo sem o peso de Holanda e Itália, esta a única ausente do seleto grupo de campeãs. Em jogo único. Segue ou vai para casa.

A torcida é para que este que escreve esteja enganado em sua previsão da primeira fase e os jogos eliminatórios sejam acima das ótimas expectativas. Mas caso o blogueiro tenha razão viveremos uma montanha russa de impressões. Para o deleite dos saudosistas – como se nas décadas anteriores os Mundiais não tivessem peladas homéricas, inclusive com a seleção brasileira – e reclamões de plantão na “chata” primeira fase e depois a apoteose de jogaços na reta final deixando a média positiva.

Seja como for, Copa do Mundo é como pizza. Até quando é ruim é boa e vale a pena. O maior evento esportivo do planeta que felizmente acontece de quatro em quatro anos e não se banaliza, ao menos por enquanto. Que tudo enfim comece na Rússia!