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Pimpão, sacrificado e iluminado no Botafogo 100% no Engenhão
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André Rocha

Os confrontos eliminatórios para entrar na fase de grupos da Libertadores sacrificou o primeiro turno do Botafogo no Carioca e também queimou etapas de preparação da equipe, que precisava se apresentar competitiva logo no início da temporada.

Por isso também o técnico Jair Ventura não teve tanto tempo para testar, experimentar e ensaiar o encaixe da principal contratação que mexeria na estrutura tática: Montillo entrou centralizado atrás do atacante mais enfiado.

Camilo foi jogado para o lado do campo. Inicialmente mais recuado. Contra o Estudiantes na abertura do Grupo 1, pela direita e mais liberado. Porque o lado forte do time argentino era o direito, com as descidas de Facundo Sánchez apoiando Solari, o meia aberto no 4-4-2 armado por Nelson Vivas.

A dupla na ala, mais o grande destaque do time, o colombiano Otero. Circulando às costas dos volantes Aírton e Bruno Silva e aparecendo também no setor de Victor Luis. Para ajudar o lateral esquerdo, Jair posicionou Rodrigo Pimpão no setor. Com responsabilidade de defender, mas também acelerar, procurar a diagonal, se juntar a Roger.

O Bota controlou a posse com 62%, mas finalizou três vezes, duas no alvo. Um chute de Camilo no final da primeira etapa e o golaço de Roger, completando de voleio outro voleio de Bruno Silva. O Estudiantes concluiu o dobro, três na direção da meta de Gatito Fernandez. Jogo duríssimo.

Porque Montillo não justificou o sacrifício dos colegas para que ele tivesse liberdade. Criou pouco. O time argentino foi se instalando no campo do ataque e, numa falta boba de Marcelo Conceição, zagueiro novamente improvisado na lateral direita que acertou o cruzamento para o primeiro gol, a cobrança perfeita de Otero.

Até Jair perder a paciência com Montillo, que também cansou. Entrou Sassá. Inicialmente com Camilo mantendo o posicionamento aberto, depois centralizado. Com Pimpão voltando ainda mais para realizar o trabalho defensivo.

Mas sem deixar de aparecer na área do oponente, como foi decisivo contra Colo Colo e Olimpia. Foi às redes novamente. O terceiro dele no torneio. Incansável em todo o campo. Sacrificado e iluminado.

Símbolo da entrega e do espírito competitivo de um Botafogo com 100% de aproveitamento no Engenhão e que será duro em qualquer campo, num grupo que já se mostra equilibrado na primeira rodada.

(Estatísticas: Footstats)


A insanidade que é um Fla-Flu com torcida única para o carioca
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André Rocha

Este que escreve mora na cidade do Rio de Janeiro desde que nasceu, com um breve hiato de seis meses em outro município do estado. Conhece o subúrbio, as zonas sul e oeste e alguma coisa da baixada fluminense.

Fã de futebol acima de qualquer clube, já foi a jogos no Maracanã, nas Laranjeiras, na Gávea, em São Januário…até em Marechal Hermes, quando o Botafogo jogou por lá. Conhece a cultura, a contracultura e a anarquia carioca. Já andou, por coincidência, em ônibus e trens com torcidas organizadas de todos os clubes grandes. Conhece pessoalmente ou “de vista” alguns membros.

Por isso tudo pode afirmar com segurança: Fla-Flu decidindo a Taça Guanabara com torcida única em Engenho de Dentro é uma insanidade! A cidade inteira está em risco, principalmente num cenário de crise geral, inclusive na segurança pública. Mesmo com o interesse cada vez menor do carioca pelo futebol e pelo cada vez mais esquálido Campeonato Estadual.

Ainda pior sem o Maracanã, símbolo maior e casa dos grandes duelos. Sempre com o estádio disponível para as torcidas. Com lados das arquibancadas definidos, inclusive. É da cultura carioca.

Infelizmente, a tendência é que os bandidos – e não há outro termo a ser usado – de sempre vão usar a proibição, ou a exclusividade, ou o acesso à torcida rival circulando pelas ruas como pretexto para os confrontos em vários pontos da cidade. Avenida Brasil, Vila Isabel, Baixada, estações de trem, entorno do Estádio Nilton Santos…Inclusive com emboscadas e encontros marcados pela internet.

Esta medida só faz sentido para a PM, que se isenta da responsabilidade no local do jogo e para a emissora de TV que detém os direitos da partida e quer imagens do estádio cheio mas sem chances de tumulto. Uma paz fictícia.

Também para a direção do Botafogo, que administra o estádio e transformou o rival Flamengo em inimigo para fazer média com os fãs mais radicais e “vingar” a perda na Justiça do volante Willian Arão. Lamenta o torcedor do clube assassinado, mas alimenta o clima hostil e perde oportunidades de arrecadação numa gestão que se propõe a ser profissional – e de fato é em outros aspectos.

Mais um elemento para o contexto que pode ser explosivo e atingir o cidadão que nada tem a ver com a final do primeiro turno do Carioca. À dupla Fla-Flu cabe definir em conjunto o que fazer, mas, acima de tudo, organizar uma campanha de paz na cidade e não só no estádio. Mostrar que estão juntos e a rivalidade ficará apenas no campo. Quebrar a corrente de ódio e incompetência.

Porque o Rio de Janeiro está a perigo. E este que escreve só espera estar errado.


Botafogo e Atlético sobrevivem na noite do controle e do sofrimento
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André Rocha

O Botafogo controlou mais o jogo do que sofreu em Assunção. Compactou linhas de quatro, usou Marcelo como lateral zagueiro para encaixar Carli com Emerson no centro da defesa, deu liberdade a Camilo para acionar Pimpão buscando as diagonais nos contragolpes.

Organização sem posse de bola – apenas 38%. Jair Ventura preparou o time para fechar a própria área e não permitir a chance cristalina do Olimpia, com a infiltração depois da troca de passes.Mesmo cedendo 13 finalizações, cinco no alvo, o plano no geral foi bem executado até cometer o pecado inevitável pelo cansaço: recuar demais e ficar sem transição ofensiva.

No lance do gol de Montenegro, o time brasileiro se fechava com os quatro defensores bem centralizados, mais João Paulo e Gilson muito recuados, quase como laterais. Linha de seis afundada, muito perto da meta de Gatito Fernández.

O personagem nos pênaltis que entrou na vaga do lesionado Helton Leite e foi celebrar com o colega substituído depois de pegar três cobranças e garantir o Botafogo na fase de grupos. Na prática, o plano certo deu errado e precisou do goleiro que começou no banco.

Já o Atlético Paranaense penou em Capiatá. Porque só podia vencer e partiu para uma disputa mais aberta, até porque Carlos Alberto e Grafite não funcionam em contragolpes. Mas o time “cascudo” de Paulo Autuori foi às redes logo aos 11 minutos com Lucho González.

Exatamente na jogada aérea com bola parada, a arma do adversário nos 3 a 3 em Curitiba e que foi praticamente o único recurso da equipe comandada por Gavilán: nada menos que 45 cruzamentos do Capiatá que obrigaram Autuori a montar no segundo tempo uma linha de cinco atrás com Jonathan e Sidcley nas laterais, Wanderson, Paulo André e Thiago Heleno no centro da defesa.

O jogo ficou aleatório, com bolas levantadas em profusão e contragolpes desperdiçados, já com Luis Henrique no lugar de Grafite e Felipe Gedoz na vaga de Carlos Alberto. Mas foi Nikão quem aumentou o drama errando na tomada de decisão quando era hora de resolver o jogo e o confronto.

Weverton garantiu com boas defesas e ganhando tempo. Os números até sugerem disputa mais equilibrada: posse de bola praticamente igual e 10 finalizações do Capiatá contra nove da equipe rubro-negra. Mas a história do jogo foi mais sofrida para os paranaenses, ainda que em pouco mais de noventa minutos.

O Bota precisou dos pênaltis, mas o Brasil conquista mais duas vagas na fase de grupos. O time carioca no Grupo 1, do campeão Atlético Nacional, mais Estudiantes e Barcelona de Guayaquil. O Atlético com San Lorenzo, Flamengo e Universidad Católica no Grupo 4.

Chaveamentos duros, mas se começar a competir tão cedo pode queimar etapas na temporada, também dá “casca” e uma bagagem que os demais ainda precisam conquistar. Os dois brasileiros já têm histórias para contar na Libertadores 2017. Especialmente a sobrevivência na noite do controle e do sofrimento.

(Estatísticas: Footstats)

 

 


Se vale a superstição, vitória sofrida é bom presságio para o Botafogo
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André Rocha

Sem Montillo, lesionado, Camilo voltou a jogar na ponta do losango do meio-campo do Botafogo que varia para as duas linhas de quatro sem a bola, espelhando o 4-4-2 do Olimpia que buscava acionar a dupla Mouche e Montenegro, porém sem contundência (Tactical Pad).

Domínio inicial, lesão de ídolo da torcida, sofrimento na segunda etapa, heroi de gol decisivo. O roteiro da vitória sobre o Olimpia no Engenhão só teve uma vantagem em relação ao triunfo contra o Colo Colo: não sofrer gol em casa.

Jair Ventura também fez diferente. Em vez de recuar Camilo como um volante-meia como na estreia no torneio continental, posicionou o camisa dez pela direita num 4-2-3-1. O bom início só nao teve sequência porque Montillo sentiu e saiu com 15 minutos.

Entrou João Paulo e o desenho voltou ao losango, com Camilo retornando à função do ano passado. A mesma variação para duas linhas de quatro, com Bruno Silva abrindo à direita e Pimpão voltando pela esquerda.

E aparecendo na área para completar com lindo voleio a cobrança de lateral direta na área paraguaia de Jonas. O mesmo heroi da classificação no Chile. O Olimpia adiantou as linhas e tentou acionar Mouche e Montenegro.

Ao Bota faltava rapidez, agilidade e precisão de Roger no comando de ataque, embora sobrasse fibra ao camisa nove. Ainda assim, superioridade com 54% de posse e seis finalizações contra apenas duas dos visitantes.

Segunda etapa de sufoco, apreensão no estádio lotado e alguns bons contragolpes do time brasileiro, com Guilherme na vaga do também lesionado Bruno Silva. O técnico Pablo Repetto partiu para o jogo físico com o veterano Roque Santa Cruz e acelerou pela direita com Jonathan González. Rondou a área, finalizou seis vezes contra apenas três, terminou com mais posse. Faltou contundência.

Sobra esperança ao Botafogo. Se vale a superstição que marca o clube e seu torcedor, a vitória sofrida é bom presságio para a volta em Assunção.

(Estatísticas: Footstats)

 


Flamengo é 100% em resultado, mas não evoluiu o desempenho em jogos grandes
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André Rocha

Os três primeiros jogos oficiais contra equipes de menor expressão no Carioca deixaram a impressão de que o objetivo maior de Zé Ricardo na temporada começava a ser alcançado: tornar o Flamengo mais criativo, imprevisível.

Por isso a escalação de Mancuello como ponta articulador para tornar o 4-2-3-1 mais móvel e criar espaços dentro de uma ideia de propor o jogo, ocupando o campo de ataque com posse de bola.

Foram 11 gols marcados e um sofrido em três partidas. Protagonismo, trocas de passes, mobilidade, pressão na saída de bola dos adversários. Mancuello saindo da ponta e Pará, Arão, Diego e até Guerrero aparecendo pela direita. Um repertório mais amplo.

Mas bastou enfrentar dois times grandes, com elencos mais qualificados e com postura defensiva por conta do contexto para o time rubro-negro repetir um equívoco dos momentos mais complicados do Brasileiro de 2016: a insistência em tocar a bola até abrir o jogo e levantar na área.

Foram 25 cruzamentos diante do Grêmio nos 2 a 0 pela estreia na Primeira Liga no Mane Garrincha e mais 31 nos 2 a 1 sobre o Botafogo no Engenhão que garantiram classificação para as semifinais da Taça Guanabara e os 100% de aproveitamento na temporada.

Mesmo considerando que é um reinício de trabalho com pouco mais de um mês e jogos seguidos, sem muito tempo para treinamentos, não deixa de ser algo a ser observado e corrigido. Principalmente porque sem espaços e diante de oponentes mais atentos e bem posicionados, Mancuello apareceu pouco.

Porque o time, na dificuldade, ainda procura o flanco para efetuar o cruzamento. Usando pouco as diagonais, as tabelas no centro. Sem ideias. Toca, toca, toca e joga na área. Neste cenário, a função de Mancuello perde o sentido e a equipe uma peça para as combinações com Pará e Arão.

Não por acaso, o argentino deu lugar a Berrío no segundo tempo das duas partidas e Everton seguiu em campo. Confortável com a proposta antiga, o ponta velocista foi destaque com dois gols e boas jogadas.

Diego segue com liderança, inteligência, presença de área e bons passes. Mas o toque de primeira para fazer o jogo fluir, furar as linhas de marcação e acionar o companheiro que se desloca em situação mais confortável não acontece. Na proposta de Zé Ricardo é fundamental para criar a brecha na retaguarda postada. Missão para o meia criativo.

Há também falhas defensivas de quem joga com a última linha adiantada e não consegue ter intensidade para manter a pressão sobre o adversário com a bola em boa parte do tempo. Contra o Bota, erros de posicionamento em cruzamentos que ocasionaram duas finalizações no travessão de Leandrinho poderiam custar o empate com os reservas do rival que só pensa em Libertadores.

As cinco vitórias transmitem confiança e tranqüilidade para o trabalho seguir. Mas a seqüência precisa de evolução. Nos dois jogos maiores até aqui o Flamengo que se viu foi o estagnado, que sofreu e, na reta final, deixou de disputar o título nacional do ano passado. O que Zé Ricardo não quer ver em 2017.


Botafogo sofre sem Aírton, mas vitória é alívio para a volta no Chile
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André Rocha

Jogo decisivo em fevereiro é sempre cruel. O clima de final no Engenhão lotado transferia tensão ao Botafogo pela responsabilidade de construir vantagem com um time remontado para abrigar Montillo.

Jair Ventura solucionou mantendo o desenho tático com a mesma variação de 2016: um 4-3-1-2 com Camilo mais atrás em relação a Montillo, que ficava liberado com Roger sem a bola, à frente de duas linhas de quatro. Na de meio-campo, Bruno Silva à direita, Aírton e Camilo centralizados e Rodrigo Pimpão pela esquerda.

Mas se adaptar às peças novas com a obrigação de buscar o ataque num início de temporada é bem complexo. Mais ainda com o bom desempenho do Colo-Colo nos primeiros minutos, com o ala Brayan Véjar e o meia Ramón Fernández levando vantagem pela esquerda seguidamente sobre Bruno Silva  e Jonas.

Até Camilo e Montillo se aproximarem, o alvinegro ganhar confiança e avançar as linhas. Mas ainda pilhado, e já perigosamente com faltas seguidas e reclamações junto ao árbitro Juan Soto. O Colo-Colo já se fragilizou com a saída por contusão de Zaldivia para a entrada de Fierro – aquele mesmo, ex-Flamengo –  como um dos três zagueiros da equipe chilena montada pelo técnico Pablo Guede.

O golpe que mudou o jogo veio de Aírton. Não uma entrada violenta, marca do volante ao longo da carreira, mas o chute forte e preciso do meio-campista que se reinventou e agora marca, joga e finaliza para marcar seu primeiro gol com a camisa do Botafogo.

Com a atmosfera favorável e a retaguarda desarrumada do Colo-Colo, o segundo gol veio naturalmente, mesmo contra de Esteban Padez. Contragolpe bem trabalhado por Montillo e Pimpão. Parecia a senha para uma vitória confortável a ser administrada no jogo de volta.

Mas Aírton saiu sentindo muitas dores no cotovelo e não voltou. Entrou João Paulo, outra peça nova, também precisando de ajuste. Foi para o lado direito e Bruno Silva ficou mais fixo à frente da defesa. Mudanças demais para uma decisão tão prematura. E logo uma peça tão importante…

O Bota cedeu espaços e na jogada trabalhada sobre a defesa exposta, Paredes encontrou o gol “qualificado” que o time chileno precisava para transformar a euforia no estádio na mesma tensão do início da partida. O Colo-Colo cresceu com Pedro Morález na articulação e Cristofer González à esquerda nas vagas de Fernández e Véjar e passou a acionar com mais frequência Rivero e Paredes.

O Bota foi cansando e com dificuldades para trabalhar com um típico pivô como Roger. O centroavante deu lugar a Joel no final para acelerar os contragolpes, sem muito sucesso. Antes, Jair Ventura tirou o extenuado Camilo e colocou Matheus Fernandes, volante formado no clube, para encorpar o meio-campo. Mas Montillo também havia cansado. Podia ter mantido o camisa dez.

Menos mal que o jovem zagueiro Marcelo Conceição se agigantou na retaguarda, apesar do toque com o braço na área alvinegra no final que a arbitragem ignorou. No apito derradeiro, um misto de alívio e preocupação.

Quem diria há uns cinco anos que um time brasileiro sentiria tanta falta de Aírton em um jogo de Libertadores. Aconteceu com o Botafogo, mas há vida e vantagem para a volta no Chile.


Jair Ventura, exclusivo: Simeone é modelo, Montillo um mistério
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André Rocha

Jair Ventura Botafogo

Agora com pré-temporada, o jovem técnico do Botafogo pode consolidar seus conceitos que apareceram já no Brasileiro de 2016. Sucedeu Ricardo Gomes, manteve a estrutura inicial e depois acrescentou suas convicções ao time que surpreendeu se firmando no G-6.

Com a cabeça fervilhando de ideias, o filho de Jairzinho atendeu ao blog por telefone e falou sobre os planos para 2017.

BLOG – Você assumiu o time na saída de Ricardo Gomes para o São Paulo, manteve a estrutura da equipe e depois foi mudando. O que você planeja taticamente para a temporada?

JAIR VENTURA – Eu trabalhei com vários sistemas. De fato, no início mantive o losango no meio-campo que varia para duas linhas de quatro sem a bola – um volante abre, o externo recua do outro lado e deixa o meia e o centroavante na frente. Mas joguei com meio no quadrado (4-2-2-2), 4-2-3-1, 4-3-3 com um e dois volantes. Tudo depende da necessidade e da disponibilidade do elenco. Jogo a jogo.

BLOG – A estratégia do adversário também influi, certo?

JAIR VENTURA – É claro, por isso estudamos tão minuciosamente quem vamos enfrentar. O jogo pode pedir dois centroavantes ou dois meias, por exemplo, se o rival fecha bem as laterais. Já terminei jogo com o Camilo mais recuado ou só o Lindoso de volante, ele que era camisa dez do Madureira. Mas primeiro dependo do elenco disponível. Quando perdi Aírton e Bruno Silva não havia razão para escalar três médios atrás do Camilo.

BLOG – Haverá rodízio no elenco?

JAIR VENTURA – Ele acontece naturalmente, por lesões e, principalmente, pelo desgaste. O jogo está muito intenso, são cada vez mais ações de alta intensidade no campo. Antes o jogador perdia a bola e voltava para o próprio campo para depois marcar. Hoje ele perde e tem que pressionar. É exigência do futebol atual o atacante se dedicar sem a bola. Amadurecemos isso e os números mostram que deu certo, fomos a melhor defesa do returno do Brasileiro.

BLOG – Como o Montillo vai funcionar nesta engrenagem?

JAIR VENTURA – Desculpe, mas isso não vou abrir porque gosto de criar dúvida e tentar surpreender os adversários. De qualquer forma, ainda vou sentar com ele, colocar um quadro e conversar sobre o melhor posicionamento.

BLOG – A ideia do ponta articulador, o meia que sai do flanco para articular as jogadas, te agrada?

JAIR VENTURA – Não é o ideal, mas pode acontecer. Por exemplo, se o lateral do adversário não desce tanto para fazer dupla contra o meu lateral. Se o jogo pedir ele pode ser meia com o Camilo. Não tenho medo de correr riscos se houver a possibilidade.

BLOG – A ideia de aproveitar os jovens da base no elenco permanece?

JAIR VENTURA  – Sem dúvida. Está no meu DNA, eu trabalhei na base. Em 2015 comandei o time como interino e contra o Bahia usei sete jogadores criados no clube. O Canales chegou para ser titular, mas o Sassá mostrou mais desempenho. Eu só não vou usar por usar. A avaliação precisa ser cuidadosa. Por exemplo, hoje eu não tenho um externo de velocidade dentro do clube pronto para entrar e repor a saída do Neílton. Tenho que ir ao mercado e não forçar uma barra só porque minha filosofia é lançar jovens.

BLOG – Para terminar, quais são suas referências como treinador, no Brasil e no mundo?

JAIR VENTURA – Posso dizer que sou um privilegiado, pois nos oito anos em que trabalhei como assistente técnico convivi com grandes treinadores aqui no Botafogo. Aprendi muito com cada um deles e sigo aprendendo, sou um eterno aprendiz. Mas lá fora meu espelho é o Simeone, do Atlético de Madrid. Sem grandes estrelas venceu Barcelona, Real Madrid, Bayern de Munique. O poder de persuasão dele é impressionante. Ninguém gosta de correr, o jogador prefere estar com a bola. Convencê-los a jogar sem ela nunca é fácil.


O mito dos cinco camisas dez no Brasil de 1970
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André Rocha

Brasil 1970 camisas dez

Com a contratação de Conca pelo Flamengo – ainda que o argentino só vá jogar daqui a, no mínimo, 60 dias – a pauta não só aqui neste blog foi a possibilidade do reforço rubro-negro fazer companhia a Diego na articulação das jogadas do time de Zé Ricardo.

Nas redes sociais e nos programas de debate nas emissoras de TV fechada surgiu o velho exemplo, que virou clichê, de quando se questiona a escalação de jogadores que costumam exercer a mesma função: os cinco camisas dez em seus clubes que se reuniram na mítica seleção de 1970.

Gerson no São Paulo, Rivelino no Corinthians, Jairzinho no Botafogo, Tostão no Cruzeiro e Pelé, que obviamente ficou com o número durante o Mundial. Até porque foi ele quem criou a imagem que associa a camisa ao craque do time, ainda no final dos anos 1950.

De fato, todos usavam a dez. Mas não eram o “10” em campo. Porque nos anos 1960 e 1970, em muitas equipes, o craque do time e camisa dez era o meia-armador. Jogador cerebral, capaz de longos lançamentos, chutes fortes e precisos de longa distância. O pensador que atuava de uma intermediária à outra, pouco à frente do volante – ou “cabeça-de-área”.

No tricolor paulista o ponta-de-lança, meia que jogava praticamente como atacante, num 4-2-4, era Paulo, que vestia a oito e fazia dupla na área com o artilheiro Toninho Guerreiro. No ano seguinte chegou Pedro Rocha, craque uruguaio. Gerson seguiu como o meia-armador e com a dez. Na seleção, a mesma função, mas com a oito.

O mesmo com Rivelino no Corinthians. Fazia gols com sua canhota impressionante, mas era o organizador com a dez. A tarefa de se juntar ao trio de ataque era de Ivair, o “Príncipe”, camisa oito contratado à Portuguesa. Na seleção, Rivelino foi adaptado na função de “falso ponta” pela esquerda. Camisa onze. Contra a Inglaterra, com a ausência de Gerson, atuou em sua posição original e Paulo César Caju entrou pela esquerda. Mas normalmente sua principal atribuição era voltar para armar com Gerson e deixava o espaço no flanco para Tostão.

Camisa nove que atuava no Cruzeiro como uma espécie de falso centroavante, revezando com Dirceu Lopes na chegada ao ataque e formando o primeiro “quadrado” no meio-campo que se tem notícia, com Piazza e Zé Carlos como volantes. Ou seja, era um ponta-de-lança, mas que conhecia bem a dinâmica de jogar abrindo espaços para os companheiros.

Jairzinho era o dez do Botafogo, mas na seleção era reserva de Garrincha e assumiu a posição na ponta direita. Era veloz, tinha incrível explosão para a época. No alvinegro era praticamente um segundo centroavante, formando o ataque com Rogério, Roberto Miranda e Caju. Não possuía, porém, as características de Tostão e Pelé. Era versátil. Jogar aberto e arrancar em diagonal não era novidade para o “Furacão da Copa”.

Portanto, a tese de que os jogadores, mesmo atuando na mesma posição, se ajustam em campo naturalmente usando o exemplo de 1970 é um tanto fantasiosa. É preciso conhecer o contexto, as características dos jogadores envolvidos e o que Zagallo queria de cada um.

O próprio treinador, trinta anos depois, chegou ao Flamengo para tentar abrigar no mesmo ataque Edilson, Alex, Petkovic e Denilson. Era o time da fracassada parceria com a empresa ISL que também sucumbiu no campo em 2000. É claro que todos os problemas financeiros e de bastidores contribuíram, mas nem sempre juntar os craques é tarefa simples.

Zagallo conseguiu em 1970 fazendo ajustes na base de João Saldanha. A única inserção no quarteto ofensivo foi Rivelino. Havia entrosamento e bastante tempo para se preparar. Mas, principalmente, os estilos combinavam, cada um em sua função.

O resto é mito. Porque futebol, mesmo sendo mágico, não se faz com um estalar de dedos.


Diego e Conca no Fla, Montillo e Camilo no Bota. Há espaço para dois “dez”
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André Rocha

Primeiro o Botafogo anunciou Montillo. Agora o Flamengo confirma a contratação de Conca. Argentinos acima dos 30 anos, com experiência de Libertadores.

Com Camilo no alvinegro e Diego vestindo vermelho e preto, a questão é como abrigar dois meias criativos no time. Surgem as perguntas de sempre: “Quem é que marca?”, “Um não vai tomar o espaço do outro?”, “O time não fica mais lento?”

O futebol mudou. Fla e Bota tem jovens treinadores, antenados e estudiosos. Depois de uma temporada estafante, de mudanças radicais na vida de ambos, estavam no curso de técnicos da CBF. Zé Ricardo e Jair Ventura trabalham com marcação por zona, sabem que o jogo hoje se baseia muito mais em ocupação de espaços que na capacidade de desarmar.

Poucos times no mundo podem se comparar individualmente ao Barcelona do trio MSN, mas em termos de dinâmica ofensiva a equipe catalã virou referência usando Messi como um ponta articulador partindo da direita e Neymar mais agudo no lado oposto.

Tite adaptou a ideia ao Corinthians no título brasileiro de 2015 usando Jadson, um típico camisa dez, aberto à direita e se juntando aos meias para armar as jogadas e o jovem Malcom pela esquerda infiltrando em diagonal e se aproximando de Vagner Love no ataque. Virou tendência que o técnico levou para a seleção brasileira, com Coutinho de um lado e Neymar do outro.

Zé Ricardo tentou encontrar esse elemento no elenco montado por Muricy Ramalho para ajudar Diego, que é um “dez” de condução de bola e finalização. Não encontrou em Mancuello, Ederson e Alan Patrick, por isso seguiu com os ponteiros velocistas até o final da temporada.

Conca chega como um meia mais passador. Já atuou pelos flancos ao longo da carreira, mas por conta dos seus 33 anos e dos problemas no joelho que devem adiar sua estreia para março ou abril, a tendência é que jogue mais centralizado e sem tantas responsabilidades sem a bola. O time fecha em duas linhas de quatro e o argentino ficaria à frente, mais próximo de Guerrero.

Em tese, Diego seria o sacrificado sem a bola, voltando pelo lado. Não acompanhando lateral, mas guardando seu posicionamento. Já jogou assim pelo Atlético de Madrid com Simeone e com a pré-temporada pode ganhar resistência para a função.

Com a chegada de Conca, Diego pode fazer a função de ponta articulador, cortando para dentro e ajudando o meia central na armação, deixando para o ponteiro do lado oposto a missão de acelerar e infiltrar em diagonal. Sem a bola, os jogadores de flanco voltam e liberam o argentino a ficar mais próximo de Guerrero (Tactical Pad).

Com a chegada de Conca, Diego pode fazer a função de ponta articulador, cortando para dentro e ajudando o meia central na armação, deixando para o ponteiro do lado oposto a missão de acelerar e infiltrar em diagonal. Sem a bola, os jogadores de flanco voltam e liberam o argentino a ficar mais próximo de Guerrero (Tactical Pad).

Já no Bota, até por característica, a tendência é que o próprio Montillo exerça esta função pelo flanco, deixando o centro para Camilo. A grande sacada desse armador pela ponta é a liberdade para circular por todos os setores, criando superioridade numérica no meio e abrindo o corredor para o lateral ou outro companheiro atacar e buscar o fundo.

Na recomposição não é preciso acompanhar o lateral até a linha de fundo. O jogador fecha o setor, o lateral do próprio time não é arrastado pelo adversário e deixa o espaço livre. É ele quem vai tentar bloquear o cruzamento. O meia mais aberto ou o ponteiro tem como função primordial sem a bola evitar que a virada de jogo encontre um oponente livre ou fazer pressão no campo de ataque, de acordo com a proposta de jogo.

Quanto à velocidade na transição ofensiva, reparem que os dois clubes cariocas estão no mercado atrás de atacantes mais agudos. O Fla busca Marinho do Vitória, o Bota tentou Osvaldo e agora mira Lucca – reserva de Malcom no Corinthians de 2015. Não é por acaso. De um lado o meia para organizar, do outro o atacante para ser a referência de velocidade para os contragolpes e uma companhia para a referência na frente.

Se no Fla não mudaria tanto a execução do 4-2-3-1, no Bota a tendência é de uma postura mais ofensiva, desmontando o losango no meio que varia para duas linhas de quatro sem a bola. A menos que Jair pense numa dupla de armadores atrás de um centroavante rápido que ainda pode ser William Pottker da Ponte Preta.

Jair Ventura pode optar pela manutenção da estrutura tática de 2016 e encaixar Montillo numa função parecida com a de Neilton, ficando mais solto com Camilo para pensar o jogo e deixando a velocidade para o atacante de referência (Tactical Pad).

Jair Ventura pode optar pela manutenção da estrutura tática de 2016 e encaixar Montillo numa função parecida com a de Neilton, ficando mais solto com Camilo para pensar o jogo e deixando a velocidade para o atacante de referência (Tactical Pad).

Tudo com muita movimentação, sem posições fixas. O “caos” na frente e a organização atrás, com linhas compactas e jogadores mais próximos. Como manda o futebol atual. Como pensam Zé Ricardo e Jair Ventura nos cariocas que disputam a Libertadores. O filho de Jairzinho com um pouco mais de urgência porque o torneio continental começa mais cedo.

Impossível garantir que dará certo, pois é uma questão que envolve entrosamento, sintonia, sequência de jogos sem lesões, gestão de vestiário…A boa notícia fora de campo é que são contratações dentro da realidade do orçamento dos clubes, sem loucuras.

Dentro das quatro linhas, a opção de reunir dois meias criativos, ou “camisas dez”, é mais que viável no futebol atual. Podem e devem jogar juntos.


David Luiz não é líbero, nem sobra no Chelsea e pode voltar à seleção
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André Rocha

David Luiz Chelsea

Bastou o técnico Antonio Conte utilizar o esquema com três defensores e encaixar David Luiz na zaga do Chelsea para começar a surgir aqui e ali a tese de que o brasileiro está rendendo porque atua protegido como líbero ou zagueiro de sobra.

Nem uma coisa, nem outra. Os Blues se defendem no 5-4-1, com a linha de cinco atrás formada por Moses, Azpilicueta, David Luiz, Cahill e Alonso. Marcam por zona, posicionados. Não é raro observar a equipe ser atacada pelo seu lado esquerdo e Alonso sair no combate, Cahill ficar na cobertura, Azpilicueta e David Luiz guardarem a área e Moses, o ala/ponta aparecer como lateral na diagonal de cobertura. Ou seja, a sobra naquela ação defensiva. O último homem a bloquear o ataque adversário.

De fato, David Luiz vem atuando mais protegido. Inclusive por ele mesmo, sem as saídas tresloucadas da defesa e um sistema de cobertura, tanto para armar o jogo quanto caçar os atacantes na intermediária. Conte usa a rapidez do zagueiro nas recuperações e coberturas e aproveita seu passe longo para acionar os atacantes de forma mais direta e prática.

Mas não é líbero. Para entender melhor é preciso resgatar os conceitos e a história desta função.

O primeiro time que se tem notícia de usar um jogador atrás da linha defensiva foi a Suíça do austríaco Karl Rappan na Copa de 1938, que eliminou a Alemanha de Hitler com seu “ferrolho”, espécie de 5-4-1. A estratégia, junto aos aspectos táticos do “Metodo” de Vittorio Pozzo nos títulos mundiais italianos de 1934 e 1938, formou a base do “Catenaccio” que Nereo Rocco implantou na Triestina, depois Milan nos anos 1940, e Helenio Herrera consagrou na Internazionale bicampeã europeia nos anos 1960.

O raciocínio era simples: em tempos de marcação individual e WM (3-2-2-3), três defensores cuidavam do trio de ataque. Pela direita, o “terzino destro” cuidava do ponta-esquerda, no centro o “stopper” marcava o centroavante e o “terzino sinistro” pegava o ponta-direita. Ou seja, uma vitória pessoal do atacante e só sobrava o goleiro.

O “libero” jogava na sobra da retaguarda. Mas com uma função primordial: aproveitar essa liberdade na construção do jogo. Se cada um pegasse o seu, quem marcaria esse jogador de trás? Era a chance de quebrar o sistema defensivo do adversário.

Apesar da origem italiana e a excelência de nomes como Giovani Trapattoni, Ivano Blason, Armando Picchi, Gaetano Scirea e Franco Baresi, ninguém exerceu melhor a função que um alemão: Franz Beckenbauer. Saiu do meio para estar em todo o campo, na seleção e no Bayern de Munique. Mas inspirado em um outro jogador da Azzurra: Giacinto Facchetti, lateral esquerdo da Internazionale e vice-campeão mundial em 1970.

“Ele marcava bem e atacava ainda melhor quando se projetava à frente, pela lateral. Pensei, então, que atuando atrás dos zagueiros, saindo para o jogo, eu teria a vantagem de atacar pelos dois lados”, lembra o Kaiser (trecho do livro “As Melhores Seleções Estrangeiras de Todos os Tempos”, de Mauro Beting).

David Luiz também não é zagueiro de sobra. Função que se confunde com o líbero no Brasil, especialmente depois da criação do sistema com três zagueiros nos anos 1980. Tempos também de marcação individual. Já que quase todos atuavam com dois atacantes, cada um era vigiado por um defensor e outro sobrava.

Brown na Argentina de Bilardo jogava atrás de Cuciuffo e Ruggeri, só aparecia no ataque em bolas paradas – como no gol da final da Copa de 1986 sobre a Alemanha. Já Morten Olsen na Dinamarca de Sepp Piontek, era o primeiro articulador, iniciando a saída de bola e aparecendo na frente.

Na seleção brasileira da Copa de 1990, com Sebastião Lazaroni, Mauro Galvão era chamado de líbero e, no ano anterior, chegou a ser comparado a Baresi pelas ótimas atuações com a camisa canarinho. Mas atuava na sobra.

“Era uma função diferente. Eu e os outros dois zagueiros tínhamos que cobrir os laterais, então eu não saía muito, ficava mais fixo”, explica o ex-defensor e agora técnico.

Valdir Espinosa, treinador de Galvão no Botafogo, lembra que no time campeão carioca de 1989, depois de 21 anos de jejum, o zagueiro cumpria mais a função de líbero: “No Botafogo ele armava o time de trás e tinha a cobertura do volante Carlos Alberto Santos. Eu repeti naquela equipe o que fiz no Grêmio campeão da Libertadores e Mundial em 1983: Hugo De Leon subia e o volante China ficava. Isso, sim, é ser líbero”.

Outros brasileiros atuaram desta forma, como Marinho Peres, no Barcelona de Rinus Michels e no Internacional de Rubens Minelli nos anos 1970, e Luis Pereira no Palmeiras no mesmo período e no início dos anos 1980. Todos inspirados em Beckenbauer. Marcando e armando o jogo.

David Luiz até cumpre as duas funções, mas em outro sistema, outra dinâmica. Atuando com mesma seriedade e simplicidade, pode voltar à seleção brasileira. Como opção, claro. Se até Thiago Silva precisa esperar sua vez por conta do ótimo momento de Marquinhos e Miranda sob o comando de Tite, imagine quem tem no currículo atuações pluripatéticas, como nos 7 a 1, tentando bancar o heroi, e no empate contra o Uruguai pelas eliminatórias, sofrendo como quase sempre contra Luis Suárez.

No 4-1-4-1 bem executado e com Casemiro na proteção, David Luiz pode simplesmente ser um defensor. Que cresce quando não se arrisca. Como no Chelsea das 12 vitórias seguidas e apenas dois gols sofridos nesta sequência de triunfos. Como sempre deveria ter sido.