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Botafogo pode ser boa referência tática para São Paulo de Ceni
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André Rocha

Era consenso nesta segunda-feira que o São Paulo vivia no Morumbi gelado uma daquelas noites indesejadas, nas quais garantir os três pontos é mais importante que jogar bem ou evoluir o modelo de jogo. Coisas do imediatismo do futebol brasileiro.

No caso do São Paulo, nem tanto. Não fosse Rogério Ceni o ídolo treinador novato, certamente já teria caído com as eliminações no Paulista, na Copa do Brasil e, especialmente, na Copa Sul-Americana, com o vexame diante do Defensia y Justicia no Morumbi.

Portanto, os 2 a o sobre o Avaí e os primeiro três pontos aliviam um tanto o ambiente para o clássico diante do Palmeiras, novamente no Morumbi. Mas o desempenho do tricolor na temporada deixa claro que há uma clara dissonância entre o que pretende Ceni e as características das melhores peças do elenco e até a condição anímica no clube.

O São Paulo não conquista um título relevante desde 2012, com a Sul-Americana. Para uma torcida exigente é tempo demais. Contando os reveses seguidos para os rivais, com o alento dos 3 a 1 sobre o Santos na Vila Belmiro, é difícil imaginar essa equipe com confiança para ser protagonista nas partidas, impondo seu modelo de jogo e acuando o adversário em jogos grandes da Série A.

Ceni começou com uma ideia de jogo ousada, com posse e pressão no campo de ataque. Depois tentou equilibrar para sofrer menos gols, chegou a utilizar um sistema com três zagueiros. Para um comandante escrevendo suas primeiras páginas na história do novo ofício, é natural oscilar, experimentar. A inquietação é até saudável.

Então fica a pergunta: por que não uma proposta mais reativa, baseada em bloqueio forte e velocidade na transição ofensiva? Se os zagueiros do elenco sofrem com a sombra de Lugano, ídolo sempre lembrado nas derrotas sem ele em campo, por que não efetivar o uruguaio, mas protegê-lo de forma adequada?

A referência pode ser o Botafogo de Jair Ventura. É mais confortável sem a bola, joga melhor em transição. Por necessidade, segura mais o lado direito com um lateral-zagueiro. No desenho tático, monta um losango no meio-campo que se desmembra em duas linhas de quatro no momento defensivo: um volante abre, o atacante de velocidade retorna do lado oposto e o “enganche” fica mais liberado à frente, próximo ao centroavante.

Pensando na formação utilizada na última partida, Buffarini poderia ficar mais preso, fazendo a cobertura por dentro de Lugano, que teria Rodrigo Caio ao lado e Jucilei na proteção da retaguarda. Junior Tavares seria o lateral apoiador pela esquerda. Do lado oposto, Thiago Mendes, que sofreu ontem uma torção no joelho e preocupa, compensaria o lateral mais preso apoiando mais aberto. Tem vigor e boa chegada à frente.

Cícero seria o jogador que fecharia o centro da segunda linha de quatro com Jucilei e trabalharia com passes longos, como o que achou Marcinho e deste para a finalização de Pratto no primeiro gol. Com isso, Cueva ficaria mais livre para criar, sem atuar como ponta articulador. O peruano já mostrou que rende melhor com liberdade de movimentação, pensando correndo. Sem a bola, ficaria mais próximo de Lucas Pratto.

Para a função do atacante de velocidade que joga de uma linha de fundo à outra, como Pimpão realiza no Botafogo, Luiz Araújo parece ser o mais indicado. Retorna, fecha o setor pela esquerda e busca as infiltrações em diagonal, sendo o alvo para os passes de Cueva e Cícero. É jovem, tem intensidade e chama passes em profundidade. Entrou na vaga de Marcinho e marcou o segundo gol.

O 4-3-1-2 que varia para as duas linhas de quatro sem a bola, inspirado no Botafogo: Thiago Mendes fecharia o lado direito e Luiz Araújo retornaria à esquerda, deixando Cueva mais próximo de Lucas Pratto. Buffarini ficaria mais fixo na lateral direita e Jucilei à frente da retaguarda para proteger o veterano Lugano (Tactical Pad).

O torcedor certamente vai criticar a formação sugerida no campinho, que serve apenas como referência. A fase do São Paulo é daquelas em que o jogador que não está em campo com frequência parece melhor que o titular. O que importa é a proposta de evoluir o desempenho coletivo para que as individualidades voltem a ser potencializadas.

Assim como o Botafogo, o São Paulo pode aproveitar a imagem de não favorito para surpreender os adversários. Vale recordar que na última fase vencedora do clube, o time de Muricy Ramalho também tinha uma proposta mais reativa e pragmática. Com Ceni na meta.

O treinador pode e deve considerar a hipótese de buscar o controle do jogo sem posse, não deixando espaços às costas de sua defesa lenta com marcação tão adiantada. Na grande vitória e melhor atuação da temporada, Luiz Araújo desmontou o sistema defensivo santista na velocidade. Talvez tenha sido o recado, não ouvido, que os ideais nobres e a ideia que o ambicioso e vencedor ex-goleiro tem para marcar sua nova carreira podem ficar para um outro momento.

Até porque Ceni e São Paulo estão num labirinto, reféns um do outro: se o técnico fracassar no clube em que tem identificação única, para onde ir depois? E como o clube pode saber se dispensar o ídolo será melhor, se não há um nome forte e de consenso disponível de mercado, nem a certeza que não haveria margem de evolução da equipe ao longo da temporada?

Rogério Ceni vai ficando e, dentro de sua realidade, tem um bom espelho a seguir. De desacreditado a um dos representantes brasileiros já garantidos nas oitavas-de-final da Libertadores. Superando desconfianças, o Botafogo chegou mais longe que se podia imaginar. Um bom norte para o São Paulo.

Basta ter a humildade de se colocar como o coadjuvante que pode surpreender. Este é o cenário. A decisão, de Ceni.


Viva a “Velha Guarda”! Abelão e Renato Gaúcho na liderança do Brasileiro
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André Rocha

Foto: Divulgação Grêmio.

São apenas duas rodadas e a última incompleta, ainda faltando São Paulo x Avaí no Morumbi. A história mostra que qualquer posicionamento inicial na tabela de classificação significa muito pouco. Em 2016, Internacional e Santa Cruz chegaram a disputar a liderança da Série A, para terminarem rebaixados.

Mas não deixa de ser simbólico que Fluminense e Grêmio, comandados por Abel Braga e Renato Gaúcho, exceções à renovação no mercado de treinadores do país, sejam os únicos com 100% de aproveitamento e, por isso, ocupem a liderança – vantagem para o tricolor gaúcho pelo saldo de gols.

E não foram vitórias fáceis, sobre equipes sem maiores aspirações na temporada. O Flu superou Santos no Maracanã e Atlético Mineiro no Independência; o Grêmio venceu o Botafogo em casa e o Atlético Paranaense na Arena da Baixada. Quatro times disputando Libertadores, todos classificados para as oitavas-de-final do torneio continental.

O fato de não pertencerem à escola “atualizada” de técnicos não impede que suas equipes apresentem um futebol moderno. Abel Braga não permite que suas equipes mudem a ideia de jogo quando atuam fora de casa. Em Belo Horizonte, o Fluminense nunca abdicou do ataque, mesmo diante do volume do time da casa.

Fez 2 a 0 no primeiro tempo com as armas de sempre: velocidade pelos flancos, troca de passes com bola no chão no meio-campo, que ganhou Gustavo Scarpa como ponta articulador para auxiliar Sornoza e Wendel, mais o trabalho de pivô de Henrique Dourado, autor do primeiro gol e artilheiro do campeonato com três e da assistência para Richarlison ampliar de cabeça.

Depois sofreu pressão na segunda etapa e resistiu com a bela atuação do jovem zagueiro Nogueira. Sem dinheiro para reforços, a diretoria tricolor convenceu Abel a usar a garotada e vem funcionando. A falta de um elenco mais robusto vem sendo compensando pelas surpresas oriundas de Xerém.

Já Renato Portaluppi fez o Grêmio ressurgir depois da frustração no Estadual, tratado como prioridade mesmo disputando Libertadores – motivado, é claro, pela fragilidade do grupo do time gaúcho no torneio continental.

Arthur foi um achado no meio-campo, com bons passes, poder de marcação e aparições no ataque com qualidade, como no golaço sobre o próprio Fluminense pela Copa do Brasil, após tabelar com Luan e Barrios. Dupla de ataque que vai se afinando no 4-2-3-1 que cada vez mais se trasforma em 4-4-2. Autores dos gols em Curitiba.

Com Ramiro mais meio-campista pela direita apoiando o redivivo Léo Moura e Pedro Rocha mais intenso e vertical, buscando as diagonais a partir do lado esquerdo. O sistema defensivo comandado por Geromel que faz marcação individual, mas novamente Renato consegue que seus comandados estejam tão preparados física e mentalmente que compensem com muito vigor físico.

No duelo pela Copa do Brasil, vantagem de Renato Gaúcho em Porto Alegre. 3 a 1 de virada na melhor partida da quarta-feira, porém um tanto eclipsada por outros confrontos do próprio torneio e, especialmente, pela Libertadores.

Não esperem dos dois treinadores discursos rebuscados, com os termos atualizados dentro da ciência esportiva. Talvez terminem bem longe da disputa pelo título nas 36 rodadas restantes. Em campo, porém, a resposta é mais que positiva no que o esporte tem de eterno: quem joga bem sempre estará mais perto da vitória, por mais caótico que seja o jogo em si.

A diversidade sempre é bem vinda, a experiência nunca deve ser desprezada. Ainda mais quando vem acoplada ao carisma que conquista e convence. Abelão e Renato na ponta de um Brasileiro no ano da graça de 2017. Viva a “Velha Guarda”!


Grêmio, o time da melhor atuação coletiva da primeira rodada da Série A
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André Rocha

Volume de jogo, controle no meio-campo, no ritmo de Arthur e Ramiro. Não fossem os gols perdidos, especialmente por Luan, e o Grêmio teria construído uma goleada histórica.

Diante de um adversário forte e organizado como o Botafogo, a atuação coletiva da equipe de Renato Gaúcho foi a melhor da primeira rodada da Série A. Também a mais consistente do tricolor gaúcho em 2017.

Luan circulando entre o meio e a defesa do Bota, Arthur distribuindo o jogo, Ramiro como o meia pela direita que ajuda os volantes, abre o corredor para Léo Moura e torna o ataque mais móvel, mesmo com a  presença de Lucas Barrios como a referência no ataque.

Dominou a posse de bola no primeiro tempo com 60% e acabou superado no final (51% x 49%), mas aproveitou os espaços cedidos pelo avanço do rival para os contragolpes. Abriu o placar na persistência de Ramiro depois de uma “blitz” com Gatito Fernández salvando, ampliou na segunda etapa com gol de Luan -irregular pelo toque na mão. Mas foram 19 finalizações contra oito – nove a um no alvo.

Triunfo incontestável, também pela atuação fraca do Botafogo que sofre com as improvisações na lateral direita – Emerson Santos desta vez. Camilo reclamou por ser deslocado no meio-campo para encaixar Montillo. Mas agora, atuando na função em que se destacou no ano passado, jogando com liberdade, produz muito pouco.

De novo Rodrigo Pimpão foi sacrificado pela esquerda, voltando na recomposição formando a segunda linha de quatro e sendo a referência de velocidade para os contragolpes. Como precisou ser competitivo no início da temporada pelas etapas eliminatórias da Libertadores antes da fase de grupos, agora o alvinegro oscila.

Mas o mérito é gremista. Renato aproveitou o período sem jogos para ajustes e seu time soube dosar posse e transição ofensiva em velocidade. O primeiro ato no Brasileiro foi promissor.

(Estatísticas: Footstats)

[Em tempo: sim, ainda falta um jogo para finalizar a rodada 1. Mas pelo tamanho do confronto, entre dois times envolvidos em Libertadores, e considerando a solidez gremista, nem Coritiba, nem Atlético-GO tem condições de superar, mesmo que goleie e dê espetáculo. Questão de contexto]


Abertura da Série A sinaliza equilíbrio que deve ser a marca da competição
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André Rocha

Dois bons jogos no Maracanã e na Arena em Itaquera. Em tática e no equilíbrio das ações.

O primeiro gol da Série A em 2017 saiu de uma jogada pela esquerda. Desde a divulgação das escalações, parecia claro que a opção de Zé Ricardo pelo Flamengo no 4-2-3-1 com Matheus Sávio seria para forçar o jogo no setor: Trauco, Everton e o jovem meia para cima de Carlos César, substituto de Marcos Rocha no Atlético Mineiro que não tinha o devido auxílio de Elias.

Cruzamento fechado de Sávio, Victor ficou atento a Guerrero e a bola entrou. Gol único de uma primeira etapa em que os visitantes tiveram a bola (terminaram com 58%), mas foram pouco efetivos. Faltava mobilidade, criatividade e chutes de fora da área, já que o sistema defensivo do Fla estava sólido, com concentração máxima.

O time rubro-negro foi mais incisivo, porém faltou novamente contundência. Também a tomada de decisão correta de Berrío em um contragolpe todo dele, mas o colombiano preferiu acionar Guerrero com caminho livre à frente para finalizar cruzado.

Em um jogo tão equilibrado, foi fatal. Roger Machado lançou mão de seu forte elenco trocando Otero, de atuação pluripatérica, por Cazares, que bagunçou a retaguarda rubro-negra e teve duas chances claras de empatar, mas Rafael Vaz salvou ambas sobre a linha.

O contestado zagueiro em tarde de heroi não pôde evitar o erro de Arão e Márcio Araújo na saída de bola, o “pé mole” de Rever na dividida que caiu nos pés de Robinho. Deste para Fred até chegar a Elias no gol de empate.

Zé Ricardo foi corajoso ao mandar a campo Ederson, vindo de longa inatividade, e Vinicius Junior, depois de apostar na formação inicial do último Fla-Flu quando trocou Sávio por Renê e Trauco voltou ao meio-campo. Mas o peruano caiu de produção e obrigou o treinador a mudar de novo.

A joia de 16 anos entrou com afobação natural, mas nada que comprometesse. Roger trocou Fred e Robinho por Rafael Moura e Maicosuel. Ganhou vigor físico, perdeu poder de decisão. Podia ter custado caro, mas Gabriel salvou gol certo de Guerrero.

Apesar da maior posse e das 13 finalizações do Atlético contra dez do Fla, ninguém merecia perder no Maracanã.

Nível mantido em São Paulo. Com uma Chapecoense organizada num 4-1-4-1, com linhas compactas e sem abdicar do jogo, mesmo fora de casa. Com Apodi, que era um típico ala “peladeiro” há alguns anos atuando como lateral, um defensor de última linha. Podia ter marcado com Arthur.

O Corinthians foi às redes quando a jogada individual de Fagner quebrou as linhas de marcação e Rodriguinho, de novo mais avançado no 4-2-3-1 de Fabio Carille, serviu Jô. Descomplicando uma disputa dura, de bom nível tático e estratégico.

Complicada pela lesão de Pablo ainda no primeiro tempo. Pedro Henrique entrou e não comprometeu, mas sempre há uma perda na coordenação da última linha posicional com qualquer mudança nas peças.

O time de Carille novamente se complicou quando precisou ter a bola, mesmo com Jadson saindo mais do lado direito para circular e ajudar Rodriguinho e Maycon na armação das jogadas. Ainda assim, não há fluência para criar a chance cristalina.

A desvantagem não desmanchou mentalmente o time catarinense, que seguiu fiel à sua proposta de defender com organização e trabalhar pelos flancos. Sem muita criatividade no meio com Luiz Antonio e João Pedro, mas levando vantagem pela direita com Apodi e Rossi para cima de Arana e Romero.

Paraguaio que errou em um contragolpe de três contra um, depois cinco contra dois no mesmo lance. O futebol costuma punir. O golpe veio no gol de Wellington Paulista no rebote de nova jogada pela direita que encontrou Arthur Caike contra Fagner e a cabeçada no travessão.

O Corinthians tentou um abafa final com Kazim e Jô na área adversária e Leo Jabá pela esquerda – saíram Gabriel e Romero. Vagner Mancini fechou sua equipe apenas nos minutos finais. Terminou com 41% de posse, mas 15 finalizações, o triplo do anfitrião – quatro a dois no alvo.

Empates em jogos iguais. Mesmo descontando a empolgação e a tensão naturais em estreias, as partidas deixaram bem claro que a evolução tática chegou ao país. Com atraso, mas chegou. Com equipes mais coletivas e organizadas, a tendência é o campeonato ficar ainda mais parelho. O que já é sua marca.

Melhor para todos. Ótimo para quem assistiu às duas partidas com poucos gols, mas bom futebol.

(Estatísticas: Footstats)


Estádios lotados não podem continuar alimentando a ilusão dos estaduais
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André Rocha

Responda com sinceridade: que torcedor lembra de título estadual em dezembro? Só os que nada conseguiram no resto da temporada. Serve no máximo para tirar sarro do rival que nem isso comemorou no ano.

Mas e se ele ganha a Copa do Brasil e o seu é rebaixado no Brasileiro, como aconteceu com a dupla Gre-nal no ano passado? De que valeu o hexa colorado em 2016? Alguém lembrou?

“Ah, mas os estádios lotaram, a média de público subiu!” Ora bolas, se só existe esta competição no calendário do fim de semana, se os clubes mais estruturados e com estádios atraem seus torcedores pela fidelidade e alimentam a cultura da arquibancada, o fanático vai assistir a qualquer jogo.

Mesmo os inúteis, dentro de um calendário inchado. É por causa daquela partida contra um pequeno que seu time, se estiver bem na temporada, será prejudicado mais à frente pelas convocações da seleção brasileira. Porque terá que estar em campo numa data FIFA, quando todas as ligas organizadas param. Punido pela própria competência.

Também pagando pela estrutura federativa que alimentam. Estadual inchado porque os pequenos votam com a federação, que vota com a CBF e ninguém muda o futebol brasileiro. O campeonato não é atraente para o mundo, que não entende essa cultura provinciana.

“Ah, mas os pequenos precisam jogar”. Sim, mas o ano todo. Dentro de um calendário racional, sem esse “mimo” de enfrentar os grandes mais do que em qualquer outro país. Agora em alguns torneios nem são mais dois confrontos, em turno e returno. Jogos com estádios vazios, na maior parte do tempo.

Que a maioria tenha agenda para a temporada inteira. Quatro divisões com vinte clubes, turno e returno, uma quinta regionalizada e que se tente algo mais na Copa do Brasil. Com apoio da milionária CBF, que precisa olhar ainda mais para os seus clubes e não priorizar tanto a seleção brasileira.

Vencer o clássico na final é delicioso, sim. Mas não se depois vem o gosto amargo de ver o time definhando na reta final da temporada com vinte jogos a mais que clubes de outros países. Podendo sofrer por isso na Libertadores ou na Sul-Americana, agora disputadas ao longo do ano.

Perdendo aquele clássico realmente importante numa reta final de Brasileiro porque ganhou lá atrás na disputa regional. Que peso isso terá no balanço final do ano?

Além da questão política, o Estadual sobrevive no Brasil por um único motivo: alimenta uma ilusão de grandeza. O clube afundado em administrações amadoras, que nada consegue a nível nacional e internacional, vai se escorando na conquista menos importante da temporada.

E, claro, também para ser visto com bons olhos pela entidade máxima do nosso futebol. As ovelhas mansas seguem se contentando com migalhas.

Se você é sócio-torcedor, cobre dos seus dirigentes uma visão a médio e longo prazo, não imediatista. E daí que a televisão paga bem pelo Estadual? Ela também é cúmplice da CBF neste crime com os clubes, porque quer jogo todo dia, já que é um dos poucos eventos transmitidos capazes de manter o espectador sem zapear por 90 minutos. Se o Brasileiro se valorizar como produto para o mundo, todos ganham.

Portanto, vale a comemoração dos que faturaram as taças, sim. Afinal, é o que se tem pra hoje. Mas não se deixe enganar pela ilusão do estadual.


Uma pena, Flamengo! Não por 1987, mas por se rebaixar tanto desde então
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André Rocha

O Flamengo fez tudo certo em 1987. Foi campeão da Copa União, principal torneio do futebol brasileiro daquele ano. Competição organizada e viável financeiramente, mostrando que quando os clubes se unem são capazes de fazer muito.

Time com Jorginho, Leonardo, Zinho e Bebeto que seriam campeões mundiais em 1994 pela seleção; com Leandro, Andrade e Zico do maior time que o clube já teve. Do goleiro Zé Carlos, terceiro goleiro na Copa de 1990. Do Edinho de três Copas do Mundo (1978, 1982 e 1986). De Renato Gaúcho, destaque maior do time comandado por Carlinhos, um dos grandes treinadores da história do Flamengo. Também selecionável. Mais Aílton, multicampeão pelo próprio Fla, mais Flu, Grêmio, Botafogo…

Depois enfrentou o status quo, não roeu a corda. Se a CBF admitiu que não tinha competência para organizar o campeonato brasileiro e os clubes assumiram a bronca, não fazia sentido devolver à entidade o bom produto que criaram. Muito menos se submeter às mudanças impostas no regulamento – antes da bola rolar, diga-se.

Grande também foi o Internacional, vice-campeão que poderia ter visto no cruzamento dos módulos uma chance de título e disputa da Libertadores, mas não recuou na fidelidade ao Clube dos Treze. Porque era a chance de tomar para si as decisões e minar as forças da estrutura federativa do nosso futebol.

Os clubes falharam. O Flamengo pecou ao se rebaixar com um comportamento de cordeirinho, suplicando e se humilhando diante da CBF para obter uma equiparação. Ou dividir o título nacional com o Sport, que ao longo do tempo passou a tratar a disputa legítima por seu direito conquistado como questão de honra, uma guerra regional contra o “eixo do mal”.

A Copa União foi uma das conquistas mais simbólicas do Flamengo. De virtualmente eliminado a campeão superando a equipe de melhor campanha, o Atlético Mineiro de Telê Santana, primeiro tirando a invencibilidade no Maracanã e depois vencendo no Mineirão em uma das maiores partidas já disputadas num estádio do país cinco vezes campeão do mundo. Um título com a marca do “Deixou chegar…”

A taça não precisa mudar de nome para ganhar valor. Pode continuar sendo Copa União para carregar suas lembranças. Não depende de uma das muitas canetadas que reescrevem a história de acordo com a conveniência de seus caciques.

O Flamengo apelou. Desceu ao nível dos dirigentes que ainda circulam por aí e na época garantiram unidade e o título do rubro-negro carioca, mas depois, por clubismo, bairrismo ou outros interesses, como uma ridícula Taça de Bolinhas, rasgaram os próprios princípios.

Não precisava. Que pena, Flamengo! Não por 1987, mas pela humilhação desde então. Até hoje, no  recurso derradeiro atrás de um título que já é seu. Que seja o último, para não ficar ainda mais feio. Porque há trinta anos foi tudo lindo.

 


Conhecimento: a arma de Eduardo Baptista para convencer no Palmeiras
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André Rocha

Eduardo Baptista Palmeiras

Tite aceitou a proposta da CBF e sua primeira missão foi estudar os jogos da seleção brasileira desde 2013 e depois mapear detalhadamente o que cada atleta no radar estava fazendo em seu clube.

Eduardo Baptista chega ao Palmeiras campeão brasileiro e inicia a temporada depois de dissecar a equipe de Cuca nos 38 jogos da competição nacional, além de analisar informações detalhadas de seus novos comandados, inclusive os novos contratados.

Tite é campeão mundial com o Corinthians, mas se comparado com Guardiola, Ancelotti, Mourinho e outros treinadores que comandam as estrelas do escrete canarinho, sua situação era parecida com a do filho de Nelsinho Baptista, jovem treinador sem grandes títulos no currículo, em um time vencedor.

Um técnico começa a vencer quando convence seus jogadores de que sua ideia é viável. Se não há tanto carisma e títulos para apresentar, o conhecimento é fundamental. Porque hoje o jogador, com staff e empresário a tiracolo, não precisa de um pai. Apenas de um treinador que deixe duas coisas bem claras: o que ele precisa fazer em campo e por que ele é titular ou reserva da equipe.

Gestão de grupo é ser franco e direto. Todos podem elogiar Tite na seleção por ter mudado o clima pesado dos tempos de Dunga. Mas se não houvesse trabalho e informação, a ponto de surpreender os atletas, o sucesso imediato em campo seria mais difícil.

Eis a arma de Baptista. Diante de Felipe Melo – jogador inteligente, de personalidade forte e que entende o futebol atual – e de Guerra, melhor da última Libertadores, além dos campeões de Copa do Brasil e Brasileiro dos últimos anos, se não houver convicção e conteúdo para apresentar virá a pergunta cruel: “ganhou o quê?” Exatamente o que inviabilizou sua permanência no Fluminense de Fred.

O técnico terá que fazer entender as razões para mudar das perseguições individuais dos tempos de Cuca para a marcação por zona e, com a bola, construir um jogo mais apoiado, com bola no chão e transição ofensiva rápida para surpreender o adversário. No mesmo 4-3-3/4-1-4-1 da campanha vencedora no ano passado.

Falta o centroavante para repor Gabriel Jesus e fechar o elenco que Alexandre Mattos começou a remontar ainda em 2016. Pensando em Cuca, agora com Eduardo Baptista. O maior desafio da carreira do novo comandante. Uma incógnita que pode dar certo através do conhecimento.


Por um debate mais tolerante, plural e com conteúdo em 2017
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André Rocha

No ano em que os resultados premiaram o desempenho das equipes dos estudiosos Micale e Tite na seleção brasileira, veio Renato Gaúcho no final com a conquista da Copa do Brasil e seu discurso de exaltação ao talento que minimiza o esforço.

No meio termo, Cuca foi campeão brasileiro fiel às suas convicções, como marcação individual e jogadas aéreas ensaiadas até em cobranças de lateral, mas adaptando conceitos atuais como pressão no campo de ataque e meio-campo mais qualificado. E o melhor: admitindo mesmo depois da conquista que precisa estudar e se aprimorar.

Tudo para lembrar que no Brasil e em qualquer canto que se jogue futebol é possível vencer de várias maneiras. “O futebol é generoso” costuma dizer Paulo Autuori, outro técnico com saldo positivo em 2016.

Mas o resultado deve mesmo encerrar qualquer discussão? O líder ou o campeão não pode ser questionado? Tem sempre razão? Em um jogo tão aleatório e imprevisível, o desempenho nem sempre tem relação direta com o placar final.

É preciso entender o papel do analista, que é chamado todo o tempo a opinar e trabalha com fotografias instantâneas da temporada. Afirmar que um time está jogando melhor naquele momento não significa que levará a taça, nem que será justo pelo desempenho em toda a competição.

Ao mesmo tempo, este que escreve reconhece que exagerou ao dizer que o Palmeiras poderia ser um campeão “pela porta dos fundos”. Melhor seria substituir por “sem brilho e sem números”. Àquela altura o time corria risco de perder a condição de melhor ataque, maior número de vitórias e outras estatísticas. Mas “porta dos fundos” foi demais, talvez pela aversão ao resultadismo precoce de Cuca e seus comandados, alimentado por 22 anos sem títulos brasileiros.

Quem é obrigado a se posicionar o tempo todo sobre algo que muda a cada instante invariavelmente vai dizer alguma bobagem. Sempre, porém, com imenso respeito à instituição. Sem clubismo, pelo menos deste blogueiro. Acredite: com o tempo, é mais fácil o jornalista se trair torcendo por suas convicções do que pelo time que fez com que ele se apaixonasse pelo esporte. É da vaidade humana.

Uma tolice, pois o futebol está aí sempre para dar uma rasteira nas nossas idealizações. Por isso é tão inútil esse Fla-Flu estudiosos x boleiros. Porque não adianta falar a língua dos jogadores sem conteúdo nos treinos, assim como o técnico que prefere os livros ao contato pessoal dificilmente terá a confiança dos seus comandados.

O mesmo vale para o comentarista que trata o futebol como um mero jogo de xadrez. Tão equivocado quanto alguns geradores de obviedades que menosprezam a inteligência de quem está ouvindo. Ou só dizem o que o torcedor quer ouvir, numa relação fornecedor-cliente. Pior ainda os que confundem leveza e humor com piadas grotescas que sempre acabam ofendendo alguém.

O torcedor não tem as obrigações do jornalista. Mas é importante entender que se ele quer interferir na vida do clube, seja como sócio-torcedor ou através dos muitos canais de comunicação que existem hoje, é preciso saber mais. Não dá para colocar tudo na conta do técnico “burro” ou do time “sem vergonha”.

Se assistir apenas aos jogos do seu time, sem entender minimamente a evolução do esporte em todas as áreas, a crítica será sempre rasa. Ou saturada de saudosismo, dos tempos em que o time era o melhor. A velha visão de que tudo no passado era mais bonito. Basta pesquisar na internet, com jogos na íntegra disponíveis, para perceber que felizmente tudo evolui. Por isso fica mais complexo.

Que no ano que chega sejamos mais tolerantes e plurais, respeitando e aprendendo com quem tem algo a transmitir. Com rivalidade, mas sem antagonismos radicais no debate. Sempre valorizando o conteúdo, que é ouro em tempos de tanta informação circulando.

Que o torcedor não seja tratado como uma criança mimada, que não pode ser contrariada. Que os profissionais de futebol lidem melhor com críticas construtivas. Que nós, analistas, estejamos atentos ao que o esporte oferece de objetivo, matemático, mas também ao lúdico e ao imponderável. Não é vergonha dizer que uma bola que bateu no travessão e não entrou por centímetros foi apenas sorte de quem deixou de sofrer o gol. Simples assim.

Por isso estamos aqui falando dessa parte importante de nossas vidas. Imprevisível como cada dia de cada semana de cada mês. De cada bola que rola. Do ano que vira no calendário para lembrar que podemos fazer melhor, mesmo sem garantia de vitória no final dos 90 minutos.

Até 2017!


Por que Marinho é o “Dudu” do futebol brasileiro para 2017
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André Rocha

Marinho_Vitoria

No início de 2015, a pauta era a disputa entre São Paulo, Corinthians e Palmeiras por Dudu, que acabou indo para o alviverde e foi decisivo nas conquistas da Copa do Brasil e do Brasileiro.

Na época a questão era se a disputa pelo atacante do Dínamo de Kiev emprestado ao Grêmio não era exagerada, a ponto do “chapéu” do Palmeiras nos rivais ser comemorado como um título.

Dudu respondeu em campo com personalidade e, principalmente, por suas características: ponteiro de velocidade, que funciona também como um atacante circulando atrás do centroavante. Chama lançamento, arrisca o drible, infiltra em diagonal e finaliza.

Certamente o atual campeão brasileiro não se arrepende do negócio. O encaixe na equipe e a sintonia com Gabriel Jesus foram perfeitas e o rendimento médio de altíssimo nível para o futebol praticado no país. Não é o craque do time, mas facilita o trabalho de todos.

Agora em 2017 o alvo é Marinho. Cria da base do Fluminense em Xerém, rodou até se destacar no Ceará. Pela bola jogada e por uma entrevista folclórica. Passou pelo Cruzeiro e amadureceu de vez no Vitória, aos 26 anos.

Salvou o rubro-negro baiano do rebaixamento no Brasileiro com 12 gols e seis assistências, líder nos dribles certos e nas faltas sofridos. Um dos principais finalizadores da competição. Decisivo partindo da ponta para a jogada pessoal e a conclusão.

Ponteiro forte na jogada individual e preciso nos chutes. Artigo raríssimo. Por isso Santos, Flamengo, Grêmio e agora o futebol chinês querem contar com o atacante mais desequilibrante das últimas cinco rodadas do Brasileiro.

Exatamente o que faltou ao Fla de Gabriel, Everton, Cirino, Fernandinho e Emerson durante toda a temporada e ao Santos depois da saída de Gabigol. O Grêmio teve Pedro Rocha e Everton fundamentais na conquista da Copa do Brasil, mas Marinho seria uma mudança de patamar.

A tendência, porém, é que o novo centro milionário o seduza. Até porque a multa de 17 milhões de reais é praticamente inviável por estas bandas. Deve rolar um chapéu da China.

Assim como Dudu, Marinho não é um extra classe, um craque para atuar nos grandes centros da Europa. Mas para o futebol jogado aqui, por suas valências, vale o sacrifício, sem irresponsabilidades, dos clubes brasileiros.

(Estatísticas: Footstats)


O mundo cão volta a latir alto para a Chapecoense
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André Rocha

Wagner Mancini Chape

Primeiro foram as declarações lamentáveis de Marco Polo Del Nero, Fernando Carvalho e Vitório Piffero ainda na dor recente da tragédia. Depois algumas homenagens prometidas que não aconteceram por detalhes tão pequenos diante da enorme perda, em contraste com toda a generosidade do Atlético Nacional , dos colombianos, do Barcelona e de outros cantos do planeta.

Agora, com a Chapecoense definindo diretoria e comissão técnica, as declarações do novo técnico Wagner Mancini lamentando a postura de times da Série A que inicialmente se colocaram à disposição para colaborar na reconstrução do elenco e agora disponibilizam apenas as peças descartáveis de sua folha salarial.

Como quem no final do ano revira o guarda-roupa e os armários para doar  sapatos velhos e camisetas furadas, como se o necessitado fosse uma lixeira do que não se quer mais. Tudo para passar o Natal com a “consciência tranquila”.

Na prática, os clubes querem empurrar os próprios problemas para quem está precisando de ajuda. Não seria nada complicado se os “coirmãos” se reunissem e cada um disponibilizasse um reserva com potencial ou um jovem promissor. Com o devido cuidado para equilibrar o elenco por faixa etária e posição.

A Chapecoense não perdeu “apenas” 19 jogadores. Boa parte do planejamento também se foi com os dirigentes que estavam no avião da Lamia, sem contar a comissão técnica. Então até mesmo uma certa hesitação neste início na avaliação das possíveis contratações é mais que compreensível.

A maior tragédia da história dos esportes deixa um trauma ainda difícil de dimensionar. A falta de confiança nos pares também prejudica na hora de analisar as ofertas. Está claro que a missão não é, nem será fácil.

Não é tratar como “coitadinho”, mas entender o impacto do ocorrido na vida de uma instituição ainda jovem, sem o lastro de outras e ganhando visibilidade maior agora por algo que ninguém gostaria que tivesse acontecido.

Por isto o blog insiste com a ideia de imunizar a Chapecoense de rebaixamento ao menos no ano que vem. No Brasileiro e também no estadual, pois está claro que o início da reformulação terá uma enorme complexidade. É hora de mostrar as duas grandes virtudes que levaram o clube ao seu auge: humildade sem complexo de inferioridade e noção de suas possibilidades.

Triste ver que depois dos corpos enterrados o mundo cão volta a latir alto e forte para quem ainda necessita tanto de um abraço. Sincero e solidário. A Chape vai precisar de toda força do mundo inteiro para se reerguer.