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Uma pena, Flamengo! Não por 1987, mas por se rebaixar tanto desde então
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André Rocha

O Flamengo fez tudo certo em 1987. Foi campeão da Copa União, principal torneio do futebol brasileiro daquele ano. Competição organizada e viável financeiramente, mostrando que quando os clubes se unem são capazes de fazer muito.

Time com Jorginho, Leonardo, Zinho e Bebeto que seriam campeões mundiais em 1994 pela seleção; com Leandro, Andrade e Zico do maior time que o clube já teve. Do goleiro Zé Carlos, terceiro goleiro na Copa de 1990. Do Edinho de três Copas do Mundo (1978, 1982 e 1986). De Renato Gaúcho, destaque maior do time comandado por Carlinhos, um dos grandes treinadores da história do Flamengo. Também selecionável. Mais Aílton, multicampeão pelo próprio Fla, mais Flu, Grêmio, Botafogo…

Depois enfrentou o status quo, não roeu a corda. Se a CBF admitiu que não tinha competência para organizar o campeonato brasileiro e os clubes assumiram a bronca, não fazia sentido devolver à entidade o bom produto que criaram. Muito menos se submeter às mudanças impostas no regulamento – antes da bola rolar, diga-se.

Grande também foi o Internacional, vice-campeão que poderia ter visto no cruzamento dos módulos uma chance de título e disputa da Libertadores, mas não recuou na fidelidade ao Clube dos Treze. Porque era a chance de tomar para si as decisões e minar as forças da estrutura federativa do nosso futebol.

Os clubes falharam. O Flamengo pecou ao se rebaixar com um comportamento de cordeirinho, suplicando e se humilhando diante da CBF para obter uma equiparação. Ou dividir o título nacional com o Sport, que ao longo do tempo passou a tratar a disputa legítima por seu direito conquistado como questão de honra, uma guerra regional contra o “eixo do mal”.

A Copa União foi uma das conquistas mais simbólicas do Flamengo. De virtualmente eliminado a campeão superando a equipe de melhor campanha, o Atlético Mineiro de Telê Santana, primeiro tirando a invencibilidade no Maracanã e depois vencendo no Mineirão em uma das maiores partidas já disputadas num estádio do país cinco vezes campeão do mundo. Um título com a marca do “Deixou chegar…”

A taça não precisa mudar de nome para ganhar valor. Pode continuar sendo Copa União para carregar suas lembranças. Não depende de uma das muitas canetadas que reescrevem a história de acordo com a conveniência de seus caciques.

O Flamengo apelou. Desceu ao nível dos dirigentes que ainda circulam por aí e na época garantiram unidade e o título do rubro-negro carioca, mas depois, por clubismo, bairrismo ou outros interesses, como uma ridícula Taça de Bolinhas, rasgaram os próprios princípios.

Não precisava. Que pena, Flamengo! Não por 1987, mas pela humilhação desde então. Até hoje, no  recurso derradeiro atrás de um título que já é seu. Que seja o último, para não ficar ainda mais feio. Porque há trinta anos foi tudo lindo.

 


Conhecimento: a arma de Eduardo Baptista para convencer no Palmeiras
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André Rocha

Eduardo Baptista Palmeiras

Tite aceitou a proposta da CBF e sua primeira missão foi estudar os jogos da seleção brasileira desde 2013 e depois mapear detalhadamente o que cada atleta no radar estava fazendo em seu clube.

Eduardo Baptista chega ao Palmeiras campeão brasileiro e inicia a temporada depois de dissecar a equipe de Cuca nos 38 jogos da competição nacional, além de analisar informações detalhadas de seus novos comandados, inclusive os novos contratados.

Tite é campeão mundial com o Corinthians, mas se comparado com Guardiola, Ancelotti, Mourinho e outros treinadores que comandam as estrelas do escrete canarinho, sua situação era parecida com a do filho de Nelsinho Baptista, jovem treinador sem grandes títulos no currículo, em um time vencedor.

Um técnico começa a vencer quando convence seus jogadores de que sua ideia é viável. Se não há tanto carisma e títulos para apresentar, o conhecimento é fundamental. Porque hoje o jogador, com staff e empresário a tiracolo, não precisa de um pai. Apenas de um treinador que deixe duas coisas bem claras: o que ele precisa fazer em campo e por que ele é titular ou reserva da equipe.

Gestão de grupo é ser franco e direto. Todos podem elogiar Tite na seleção por ter mudado o clima pesado dos tempos de Dunga. Mas se não houvesse trabalho e informação, a ponto de surpreender os atletas, o sucesso imediato em campo seria mais difícil.

Eis a arma de Baptista. Diante de Felipe Melo – jogador inteligente, de personalidade forte e que entende o futebol atual – e de Guerra, melhor da última Libertadores, além dos campeões de Copa do Brasil e Brasileiro dos últimos anos, se não houver convicção e conteúdo para apresentar virá a pergunta cruel: “ganhou o quê?” Exatamente o que inviabilizou sua permanência no Fluminense de Fred.

O técnico terá que fazer entender as razões para mudar das perseguições individuais dos tempos de Cuca para a marcação por zona e, com a bola, construir um jogo mais apoiado, com bola no chão e transição ofensiva rápida para surpreender o adversário. No mesmo 4-3-3/4-1-4-1 da campanha vencedora no ano passado.

Falta o centroavante para repor Gabriel Jesus e fechar o elenco que Alexandre Mattos começou a remontar ainda em 2016. Pensando em Cuca, agora com Eduardo Baptista. O maior desafio da carreira do novo comandante. Uma incógnita que pode dar certo através do conhecimento.


Por um debate mais tolerante, plural e com conteúdo em 2017
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André Rocha

No ano em que os resultados premiaram o desempenho das equipes dos estudiosos Micale e Tite na seleção brasileira, veio Renato Gaúcho no final com a conquista da Copa do Brasil e seu discurso de exaltação ao talento que minimiza o esforço.

No meio termo, Cuca foi campeão brasileiro fiel às suas convicções, como marcação individual e jogadas aéreas ensaiadas até em cobranças de lateral, mas adaptando conceitos atuais como pressão no campo de ataque e meio-campo mais qualificado. E o melhor: admitindo mesmo depois da conquista que precisa estudar e se aprimorar.

Tudo para lembrar que no Brasil e em qualquer canto que se jogue futebol é possível vencer de várias maneiras. “O futebol é generoso” costuma dizer Paulo Autuori, outro técnico com saldo positivo em 2016.

Mas o resultado deve mesmo encerrar qualquer discussão? O líder ou o campeão não pode ser questionado? Tem sempre razão? Em um jogo tão aleatório e imprevisível, o desempenho nem sempre tem relação direta com o placar final.

É preciso entender o papel do analista, que é chamado todo o tempo a opinar e trabalha com fotografias instantâneas da temporada. Afirmar que um time está jogando melhor naquele momento não significa que levará a taça, nem que será justo pelo desempenho em toda a competição.

Ao mesmo tempo, este que escreve reconhece que exagerou ao dizer que o Palmeiras poderia ser um campeão “pela porta dos fundos”. Melhor seria substituir por “sem brilho e sem números”. Àquela altura o time corria risco de perder a condição de melhor ataque, maior número de vitórias e outras estatísticas. Mas “porta dos fundos” foi demais, talvez pela aversão ao resultadismo precoce de Cuca e seus comandados, alimentado por 22 anos sem títulos brasileiros.

Quem é obrigado a se posicionar o tempo todo sobre algo que muda a cada instante invariavelmente vai dizer alguma bobagem. Sempre, porém, com imenso respeito à instituição. Sem clubismo, pelo menos deste blogueiro. Acredite: com o tempo, é mais fácil o jornalista se trair torcendo por suas convicções do que pelo time que fez com que ele se apaixonasse pelo esporte. É da vaidade humana.

Uma tolice, pois o futebol está aí sempre para dar uma rasteira nas nossas idealizações. Por isso é tão inútil esse Fla-Flu estudiosos x boleiros. Porque não adianta falar a língua dos jogadores sem conteúdo nos treinos, assim como o técnico que prefere os livros ao contato pessoal dificilmente terá a confiança dos seus comandados.

O mesmo vale para o comentarista que trata o futebol como um mero jogo de xadrez. Tão equivocado quanto alguns geradores de obviedades que menosprezam a inteligência de quem está ouvindo. Ou só dizem o que o torcedor quer ouvir, numa relação fornecedor-cliente. Pior ainda os que confundem leveza e humor com piadas grotescas que sempre acabam ofendendo alguém.

O torcedor não tem as obrigações do jornalista. Mas é importante entender que se ele quer interferir na vida do clube, seja como sócio-torcedor ou através dos muitos canais de comunicação que existem hoje, é preciso saber mais. Não dá para colocar tudo na conta do técnico “burro” ou do time “sem vergonha”.

Se assistir apenas aos jogos do seu time, sem entender minimamente a evolução do esporte em todas as áreas, a crítica será sempre rasa. Ou saturada de saudosismo, dos tempos em que o time era o melhor. A velha visão de que tudo no passado era mais bonito. Basta pesquisar na internet, com jogos na íntegra disponíveis, para perceber que felizmente tudo evolui. Por isso fica mais complexo.

Que no ano que chega sejamos mais tolerantes e plurais, respeitando e aprendendo com quem tem algo a transmitir. Com rivalidade, mas sem antagonismos radicais no debate. Sempre valorizando o conteúdo, que é ouro em tempos de tanta informação circulando.

Que o torcedor não seja tratado como uma criança mimada, que não pode ser contrariada. Que os profissionais de futebol lidem melhor com críticas construtivas. Que nós, analistas, estejamos atentos ao que o esporte oferece de objetivo, matemático, mas também ao lúdico e ao imponderável. Não é vergonha dizer que uma bola que bateu no travessão e não entrou por centímetros foi apenas sorte de quem deixou de sofrer o gol. Simples assim.

Por isso estamos aqui falando dessa parte importante de nossas vidas. Imprevisível como cada dia de cada semana de cada mês. De cada bola que rola. Do ano que vira no calendário para lembrar que podemos fazer melhor, mesmo sem garantia de vitória no final dos 90 minutos.

Até 2017!


Por que Marinho é o “Dudu” do futebol brasileiro para 2017
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André Rocha

Marinho_Vitoria

No início de 2015, a pauta era a disputa entre São Paulo, Corinthians e Palmeiras por Dudu, que acabou indo para o alviverde e foi decisivo nas conquistas da Copa do Brasil e do Brasileiro.

Na época a questão era se a disputa pelo atacante do Dínamo de Kiev emprestado ao Grêmio não era exagerada, a ponto do “chapéu” do Palmeiras nos rivais ser comemorado como um título.

Dudu respondeu em campo com personalidade e, principalmente, por suas características: ponteiro de velocidade, que funciona também como um atacante circulando atrás do centroavante. Chama lançamento, arrisca o drible, infiltra em diagonal e finaliza.

Certamente o atual campeão brasileiro não se arrepende do negócio. O encaixe na equipe e a sintonia com Gabriel Jesus foram perfeitas e o rendimento médio de altíssimo nível para o futebol praticado no país. Não é o craque do time, mas facilita o trabalho de todos.

Agora em 2017 o alvo é Marinho. Cria da base do Fluminense em Xerém, rodou até se destacar no Ceará. Pela bola jogada e por uma entrevista folclórica. Passou pelo Cruzeiro e amadureceu de vez no Vitória, aos 26 anos.

Salvou o rubro-negro baiano do rebaixamento no Brasileiro com 12 gols e seis assistências, líder nos dribles certos e nas faltas sofridos. Um dos principais finalizadores da competição. Decisivo partindo da ponta para a jogada pessoal e a conclusão.

Ponteiro forte na jogada individual e preciso nos chutes. Artigo raríssimo. Por isso Santos, Flamengo, Grêmio e agora o futebol chinês querem contar com o atacante mais desequilibrante das últimas cinco rodadas do Brasileiro.

Exatamente o que faltou ao Fla de Gabriel, Everton, Cirino, Fernandinho e Emerson durante toda a temporada e ao Santos depois da saída de Gabigol. O Grêmio teve Pedro Rocha e Everton fundamentais na conquista da Copa do Brasil, mas Marinho seria uma mudança de patamar.

A tendência, porém, é que o novo centro milionário o seduza. Até porque a multa de 17 milhões de reais é praticamente inviável por estas bandas. Deve rolar um chapéu da China.

Assim como Dudu, Marinho não é um extra classe, um craque para atuar nos grandes centros da Europa. Mas para o futebol jogado aqui, por suas valências, vale o sacrifício, sem irresponsabilidades, dos clubes brasileiros.

(Estatísticas: Footstats)


O mundo cão volta a latir alto para a Chapecoense
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André Rocha

Wagner Mancini Chape

Primeiro foram as declarações lamentáveis de Marco Polo Del Nero, Fernando Carvalho e Vitório Piffero ainda na dor recente da tragédia. Depois algumas homenagens prometidas que não aconteceram por detalhes tão pequenos diante da enorme perda, em contraste com toda a generosidade do Atlético Nacional , dos colombianos, do Barcelona e de outros cantos do planeta.

Agora, com a Chapecoense definindo diretoria e comissão técnica, as declarações do novo técnico Wagner Mancini lamentando a postura de times da Série A que inicialmente se colocaram à disposição para colaborar na reconstrução do elenco e agora disponibilizam apenas as peças descartáveis de sua folha salarial.

Como quem no final do ano revira o guarda-roupa e os armários para doar  sapatos velhos e camisetas furadas, como se o necessitado fosse uma lixeira do que não se quer mais. Tudo para passar o Natal com a “consciência tranquila”.

Na prática, os clubes querem empurrar os próprios problemas para quem está precisando de ajuda. Não seria nada complicado se os “coirmãos” se reunissem e cada um disponibilizasse um reserva com potencial ou um jovem promissor. Com o devido cuidado para equilibrar o elenco por faixa etária e posição.

A Chapecoense não perdeu “apenas” 19 jogadores. Boa parte do planejamento também se foi com os dirigentes que estavam no avião da Lamia, sem contar a comissão técnica. Então até mesmo uma certa hesitação neste início na avaliação das possíveis contratações é mais que compreensível.

A maior tragédia da história dos esportes deixa um trauma ainda difícil de dimensionar. A falta de confiança nos pares também prejudica na hora de analisar as ofertas. Está claro que a missão não é, nem será fácil.

Não é tratar como “coitadinho”, mas entender o impacto do ocorrido na vida de uma instituição ainda jovem, sem o lastro de outras e ganhando visibilidade maior agora por algo que ninguém gostaria que tivesse acontecido.

Por isto o blog insiste com a ideia de imunizar a Chapecoense de rebaixamento ao menos no ano que vem. No Brasileiro e também no estadual, pois está claro que o início da reformulação terá uma enorme complexidade. É hora de mostrar as duas grandes virtudes que levaram o clube ao seu auge: humildade sem complexo de inferioridade e noção de suas possibilidades.

Triste ver que depois dos corpos enterrados o mundo cão volta a latir alto e forte para quem ainda necessita tanto de um abraço. Sincero e solidário. A Chape vai precisar de toda força do mundo inteiro para se reerguer.

 


Demissão de Oswaldo no Corinthians é o erro sobre erro
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André Rocha

Oswaldo de Oliveira foi contratado pelo que fez em 1999/2000 e demitido pelo que não fez em nove jogos em 2016.

A típica iniciativa sem convicção, na base do “vamos ver se dá certo”. Típico escudo da diretoria que não bancou Fabio Carille com a possibilidade de alcançar o G-6 depois das mudanças na Libertadores 2017. Preferiram uma grife, ao menos no clube.

Como discordar da dispensa se a busca do treinador não foi baseada em um planejamento, avaliando filosofia, perfil do comandante em relação aos atletas e outros pontos descartados em nome da emoção e da memória afetiva?

Mais uma tentativa e erro que não dá certo. E era improvável que funcionasse depois de oito anos de Mano Menezes e Tite com alguns hiatos. Treinadores com conceitos modernos e agora Oswaldo com a prática já ultrapassada de trabalhar com muitos coletivos ao longo de uma semana.

O resultado desta aposta é um clube que precisa de receitas fora do principal torneio continental e agora um enorme ponto de interrogação para a temporada que vem. O erro sobre o erro.

Porque o Corinthians é um clube à deriva.


A montanha russa de emoções do Botafogo até o “título” do G-6
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André Rocha

Sassa e Jair Ventura Botafogo

O Botafogo garantiu a vaga na fase preliminar da Libertadores com a vitória sobre os reservas do Grêmio de ressaca em Porto Alegre. Com Aírton sendo expulso após briga com Sassá, alvo da ira do técnico Jair Ventura por ter provocado o companheiro. Difícil de entender, surreal até.

Símbolo da montanha russa de emoções do time alvinegro no Brasileiro. De virtual rebaixado no retorno à Série A, muito por conta da situação financeira caótica do clube, passando por uma recuperação surpreendente depois da saída de Ricardo Gomes e a efetivação de um jovem treinador, filho do ídolo Jairzinho.

Até a queda de produção e nos resultados nas últimas rodadas antes da derradeira. Foram três empates e duas derrotas até o triunfo do alívio na Arena do Grêmio com gol do Bruno Silva.

Alívio. Por estar na Libertadores. Quem diria que o ano do Bota terminaria assim? Do time organizado, mas sem criatividade e poder de fogo no início da competição, depois os muitos desfalques e a seqüência de resultados ruins que pareciam condenar a equipe ao destino anunciado antes da bola rolar.

Até a estreia arrebatadora de Camilo nos 3 a 2 sobre o Internacional no Beira-Rio, o elenco novamente completo e Jair Ventura aproveitando a coordenação dos setores que já existia e adicionando velocidade nas transições defensiva e ofensiva dentro da mesma variação do 4-3-1-2 para as duas linhas de quatro que aproximava os setores e dava liberdade a Camilo.

Mudança de patamar a ponto de sonhar com G-4 antes das mudanças da Conmebol que aumentaram o número de vagas. Com a classificação encaminhada e a distância de Palmeiras, Santos e Flamengo, uma certa acomodação.

Princípio de crise com a derrota em casa por 2 a 0 para a Chapecoense e torcida gritando “Time sem vergonha!” Depois o perigo de ser ultrapassado e no fim a garantia da nova meta. Mas já com preocupações para a montagem do elenco em 2017 que precisa ser rápida porque já tera jogo decisivo em fevereiro para garantir vaga na fase de grupos do torneio continental.

Porque as pretensões mudaram nesta incrível virada. Em maio, terminar na primeira página da tabela era previsão mais que otimista. Com esta visão do todo, o G-6 foi um “título”, mas, na prática, com sorriso amarelo na última partida. Com jogadores tensos e saindo no braço.

O futebol é dinâmico mesmo.


As muitas quedas no rebaixamento do Internacional
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André Rocha

O Internacional começou a cair em 2015.

Quando dispensou Diego Aguirre após boa campanha na Libertadores em busca de um “fato novo” para o Gre-Nal e levou históricos 5 a 0;

Quando com o mesmo raciocínio imediatista contratou Argel Fucks mais pelo perfil “sangúineo” e pela história do treinador no clube do que por qualquer convicção em um trabalho a médio/longo prazo;

Quando depois de bons números no returno do Brasileiro – a segunda melhor campanha, só atrás do campeão Corinthians – e, mesmo sem atuações muito consistentes, resolveu manter Argel. A velha “gratidão” que pouco contribui e costuma comprometer o planejamento para o ano seguinte;

Também quando não preparou ou contratou uma liderança para suceder D’Alessandro, que voltou para o River Plate em fevereiro, e o time ficou um tanto órfão dentro de campo;

Quando depois de mais uma conquista estadual e o bom início no Brasileiro, uma oscilação tirou o emprego de Argel. Como se ninguém soubesse que os trabalhos do técnico se desgastam ao longo do tempo pela personalidade de difícil convívio. Faltou convicção na contratação e também na dispensa;

Quando tratou o maior ídolo do clube como um qualquer, condicionado a resultados imediatos. Falcão foi demitido com depois de cinco partidas, dois dias após assinar o contrato. De novo o pensamento mágico de que um mito dentro de campo resolveria no comando;

Quando seguiu com crenças e trouxe de volta Celso Roth, campeão da Libertadores em 2010 disputando apenas semifinal e final. Depois de outra demissão intempestiva, do uruguaio Jorge Fossati. Mas desta vez confiando pelo passado em um técnico que entregou a Jorginho o Vasco condenado ao rebaixamento em 2015. O que esperar?

A repetição do “milagre” do Lisca Doido, que salvou o Ceará do rebaixamento para a Série C. Faltando três rodadas para o fim do campeonato. Como podia dar certo?

Não deu. No campo, mais uma atuação pluripatética, salva pelo chute de Ferrareis que Marcos Felipe, jovem terceiro goleiro do Flu, aceitou e ao menos impediu a derrota na despedida. O último vexame. Ou não.

Porque o clube deve seguir na luta contra o Vitória nos tribunais para punir um suposto erro na negociação com o zagueiro Victor Ramos. Pior ainda se a CBF provar a utilização de documentação falsa por parte dos colorados. Tão lamentável quanto as declarações de Fernando Carvalho logo após a tragédia com a Chapecoense na Colômbia.

Seria a “cereja do bolo” de uma seqüência de equívocos de uma diretoria ultrapassada e incompetente. O desempenho em campo foi mera consequência. Duro golpe no torcedor que na semana do primeiro título importante do rival Grêmio em 15 anos vive a vergonha inédita do rebaixamento. A maior de todas.

A massa colorada não merecia. Mas foram muitas quedas nessa vagarosa descida até o inferno. Agora é pensar em 2017, com nova direção, provavelmente Antonio Carlos Zago no comando técnico.

Para superar 2016, independentemente da divisão, sem esquecer as várias lições deste ano negro. Para voltar a construir um futuro do qual se orgulhar. Sem deixar de ser um gigante.


É hora da Chape aceitar a imunidade e continuar sendo grande pela humildade
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André Rocha

A dor ainda vai durar muito tempo, as cicatrizes serão eternas. Mas a vida da Chapecoense precisa seguir com o início do processo de reconstrução do futebol do clube.

Difícil, pois a tarefa de refazer o elenco é complexa. Mais ainda sem um treinador que já conheça o clube. Muito pior com a ausência de presidente e diretores que deram o suporte para a incrível ascensão recente.

Começar quase do zero. Sim, com auxílio, ao menos neste primeiro momento, de muitos clubes e federações além da tocante fraternidade do Atlético Nacional e da Colômbia. Com boas perspectivas de receitas e visibilidade para 2017 com a participação na Libertadores e na Copa Suruga.

Mas, na prática, quando entrar em campo para o primeiro compromisso do ano que vem a Chape será outra. Pode ressurgir mais forte, obviamente. Até porque a saga viraria filme com final feliz. Mas por enquanto é uma enorme incógnita.

Por isso é importante a proteção ao rebaixamento. Se o período de três anos inicialmente aventado agora parece exagerado, que seja apenas em 2017. Para não correr riscos. É compreensível a postura do presidente em exercício, Ivan Tozzo, ao descartar no discurso a ajuda e não querer que o clube seja tratado como “coitadinho” no âmbito esportivo.

A realidade, porém, sugere cautela. Já vimos emergentes desaparecerem por muito menos. A diretoria que assumirá naturalmente não terá o domínio de todos os processos e das etapas do planejamento a médio prazo. São 19 peças para repor no elenco. Os que ficaram não têm como formar uma base minimamente sólida.

É dolorido, mas impossível negar: a situação pede cuidado para o futuro imediato. O momento é de continuar sendo grande pela humildade, pelos pés no chão. Aceitando ou mesmo pleiteando a imunidade para que o esforço dos que se foram não seja em vão.

Quando a roda começar a girar, a história mostra que a piedade da maioria agora tende a se transformar na competição tantas vezes cruel. Já tivemos uma prévia com as declarações infelizes dos dirigentes do Internacional tratando a tragédia primeiro como um problema, depois como uma possível solução. Com cada um cuidando do seu, a Chapecoense pode se ver isolada, como um “pato novo” que acaba de subir e sofre para se manter na Série A.

Não é justo nem saudável. Seria mais uma página do nosso futebol do qual não nos orgulharíamos. Que a Chapecoense siga com a enorme nobreza que é admitir que precisa de ajuda na dificuldade. A maior de seus 43 anos de existência. A mais devastadora da história do esporte.

 


Cinco na defesa pode ser bom. Bem pior é não querer jogar
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André Rocha

Atlético-MG 0x3 Corinthians. 1º de novembro de 2015. Vitória emblemática que praticamente confirmou o título e uma das atuações mais consistentes, especialmente no segundo tempo, do melhor campeão brasileiro desta década.

Repare na imagem abaixo. A equipe de Tite se posiciona atrás com os quatro defensores da última linha bem próximos e centralizados e os ponteiros Jadson e Malcom recuando e fechando os flancos praticamente como laterais. Neste recorte são seis homens alinhados guardando a meta de Cássio. Não é sinônimo de retranca ou antijogo. Apenas um comportamento sem a bola.

Flagrante do Corinthians de Tite se defendendo com seis homens na última linha diante do Atlético Mineiro no Independência: Fagner, Felipe, Gil e Guilherme Arana mais centralizados, os pontas Jadson e Malcom bloqueando os flancos como laterais (reprodução TV Globo).

Flagrante do Corinthians de Tite se defendendo com seis homens na última linha diante do Atlético Mineiro no Independência: Fagner, Felipe, Gil e Guilherme Arana mais centralizados, os pontas Jadson e Malcom bloqueando os flancos como laterais (reprodução TV Globo).

Nos 3 a 1 do Chelsea de virada sobre o City em Manchester houve um choque geral ao se deparar com as duas equipes atuando no 5-4-1 sem a bola. Principalmente o time de Pep Guardiola, o símbolo do futebol ofensivo e vistoso.

O grande paradoxo é que esta linha de cinco ou seis homens na defesa é uma mera consequência da revolução que o treinador catalão promoveu no esporte nestes últimos oito anos. Porque a essência do jogo posicional é fazer a saída de bola com qualidade para se instalar no campo de ataque.

Com o adversário acuado, trocar passes sempre buscando um homem livre, criando superioridade numérica em todas as fases de construção do jogo. Até encontrar uma brecha no último terço do campo e fazer a infiltração com assistência e movimentação ou no drible, na vitória pessoal.

Qual foi a resposta dos oponentes, primeiro com José Mourinho? Ok, eu não consigo bloquear o toque no meio pela excelência de Busquets, Xavi, Iniesta e Messi recuando como “falso nove”. Então fique com a bola! Chegue a 80% de posse. Toque, toque, toque…Meu time vai concentrar seus esforços em evitar a profundidade. Quatro, até cinco homens negando espaços pelo centro, dois abertos atentos às ultrapassagens dos laterais ou dos pontas.

Com o tempo a ideia foi sendo burilada e surgiu a preocupação de também dificultar o início do processo. Coragem para adiantar linhas e pressionar a saída de bola para evitar o passe limpo e, caso a bola fosse roubada, surpreender uma defesa aberta.

Porque a saída “lavolpiana”, popularizada pelo técnico argentino Ricardo La Volpe na seleção mexicana, é produtiva se bem executada. Uma bola perdida, com seus zagueiros bem abertos, um volante centralizado e os laterais espetados no campo de ataque ou posicionados por dentro como meias, tende a ser um desastre.

O que se viu no sábado no Etihad Stadium foi a exacerbação desta disputa de área a área. Pressionar nos primeiros vinte metros e fechar espaços nos últimos vinte. Por isso os times “mutantes”, variando do 5-4-1 para o 3-4-3.

Um trio de atacantes para abafar os três defensores que fazem a saída de bola. Os alas saem para bloquear os laterais e os dois meio-campistas avançam para fechar o meio. Se o adversário consegue sair dessa pressão, a missão é dificultar, até mesmo com faltas, a transição rápida para que haja tempo do time se reorganizar em duas linhas, uma de cinco e uma de quatro, para guardar a própria área. Defende preparando o ataque e ataca pronto para defender.

Flagrante da linha de cinco defensores do Chelsea postada. O ala esquerdo Alonso fecha seu lado como lateral e Moses faz a diagonal de cobertura do outro lado, dando suporte a Azpilicueta, David Luiz e Cahill (reprodução ESPN Brasil).

Flagrante da linha de cinco defensores do Chelsea postada. O ala esquerdo Alonso fecha seu lado como lateral e Moses faz a diagonal de cobertura do outro lado, dando suporte a Azpilicueta, David Luiz e Cahill para negar espaços ao ataque do Manchester City (reprodução ESPN Brasil).

Mas sempre querendo jogo, sem especulação. Os Blues venceram porque estão mais habituados a este modelo e, principalmente, porque aproveitaram as oportunidades criadas. Mas podiam ter sido superados se Aguero e De Bruyne não tivessem perdido chances cristalinas. A disputa foi igual, mas Diego Costa, Willian e Hazard resolveram.

O Chelsea é lider da Premier League por sua versatilidade e capacidade de aproveitar o que tem de melhor. Azpilicueta é o zagueiro pela direita, mas se o time precisa ser ofensivo ele vira lateral, sua posição de origem, e adianta o ala Moses como ponta. O movimento libera Pedro ou Willian para sair do lado e circular, buscando as diagonais.

A utilização dos alas tem a sua lógica. Se a ideia é que um dos ponteiros seja um armador para desarticular a marcação e o outro seja praticamente um atacante se juntando ao centroavante, o ideal é que esses homens estejam mais liberados para circular, procurar o centro. Cabe aos alas ficarem abertos para espaçar a marcação e criar espaços.

O polêmico David Luiz rende porque o técnico italiano cobra posicionamento preciso e ele não sai como um tresloucado para caçar os atacantes na intermediária. E ainda aproveita o que tem de melhor: o passe longo. Conte não faz questão de ficar muito tempo com a bola entre as intermediárias. Prefere investir em lançamentos.

Não chutões. Algo treinado, pensado e aprimorado. Desde a Juventus com Bonucci e Pirlo, agora com David Luiz e Fábregas, que jogou no lugar de Matic e meteu uma bola de trinta metros para Diego Costa ganhar de Otamendi e empatar em Manchester. Um jogaço.

Porque a ideia dos cinco defensores é bem diferente da que vigorou no final dos anos 1980 e chegou ao fundo do poço na Copa de 1990 na Itália. A “inversão da pirâmide” que o jornalista inglês Jonathan Wilson tão bem explica em seu livro que agora recebe uma tradução para o português pelas mãos de André Kfouri para a Editora Grande Área.

Do 2-3-5 para o 5-3-2. Mas lá atrás privilegiando o antijogo. Inspirado nas vitórias da Itália de 1982, com Scirea de líbero e Gentile colado no craque adversário, e da Argentina em 1986, com Brown na sobra e Batista como o cão de guarda à frente da defesa, o campo virou uma grande batalha de perseguições individuais: um zagueiro na sobra, ala batendo com ala e muitas ligações diretas para que, enquanto a bola viajava, os times se reorganizassem minimamente depois de marcar correndo e não posicionado.

Se alguém fizesse um gol o jogo virava uma modorrenta sequência de passes entre os três zagueiros e bolas recuadas para os goleiros, que esperavam a chegada do atacante adversário e seguravam com as mãos – na época a regra permitia.

Uma época cinzenta que só via brilho com o Milan de Arrigo Sacchi. Marcando por zona, com setores próximos, fazendo o “pressing” e valorizando a técnica, especialmente da dupla holandesa Gullit-Van Basten no ataque. Uma das inspirações de Guardiola.

Hoje, com linhas tão compactas a diferença entre quatro ou cinco na defesa é nenhuma. Vale mais a proposta de jogo. Como dizer que a vitória do Chelsea foi “feia” e a do Brasil sobre a Argentina no Mineirão foi um “espetáculo” se as ideias foram bem parecidas? Reveja o segundo gol, de Neymar. Transição rápida e letal como as que o Chelsea fez. O City também, só não conseguiu colocar nas redes.

Bem pior é não querer jogar. É o pragmatismo focado apenas no resultado, que busca os três pontos sem grandes ideias além de fazer tudo para evitar o gol do rival e buscar o seu através de bolas paradas, jogadas aéreas. Uma vez conquistada a vantagem o jogo acaba porque não há confronto de ideias ou de propostas. Só há o placar final. Legítimo e eficiente, mas o que acrescenta?

Não foi o que vimos em Manchester nem em outras partidas com equipes atuando com cinco na defesa. Nem nos seis corintianos no Horto há pouco mais de um ano. Porque os times mais modernos são dinâmicos, adaptáveis. Inteligentes. Sem abrir mão da técnica, do jogar bem. A vitória é mera consequência.