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Real Madrid, Zidane e a nova era do futebol por demanda
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André Rocha

O Barcelona sofre tentando criar alternativas ao seu estilo de posse de bola após encontrar algumas boas respostas no auge do trio Messi-Suárez-Neymar em 2015, mas agora vivendo uma queda brusca. Pep Guardiola quebra a cabeça para adequar seus princípios de jogo outrora inegociáveis ao futebol jogado na Inglaterra. O Atlético de Madri de Simeone e José Mourinho com o Manchester United buscam alternativas para os momentos em que suas equipes precisam criar espaços porque têm a posse diante de equipes de menor investimento.

Jurgen Klopp e seu sucessor no Borussia Dortmund Thomas Tuchel tentaram encontrar a saída na intensidade máxima, nas transições contínuas baseadas no “gegenpressing”, mas penam com o mesmo problema que Marcelo Bielsa convive há pelo menos uma década: seus comandados não suportam tamanha a exigência física e mental.

O “futebol líquido”, conceito de Paco Seirul lo que consta no livro “Guardiola, a Metamorfose”, de Marti Perarnau e traduzido pela Editora Grande Área, ainda é algo fascinante no campo das ideias e provavelmente o veremos no futuro, com times fluidos, atacando e defendendo por todos os lados com ações mecanizadas, jogando de memória. Como alguém nascido no século 20, este que escreve ainda acredita que o talento é e será sempre fundamental.

Jupp Heynckes, em seu último ato como treinador, iniciou um processo de combinação de estilos com o Bayern de Munique campeão de tudo em 2013. Segunda equipe com mais posse de bola na Europa que pulverizou a primeira, o Barcelona, com 7 a 0 no placar agregado da semifinal da Liga dos Campeões com média de 40% de tempo com a bola.

No ano seguinte, Carlo Ancelotti ensaiou a melhor solução com o Real Madrid campeão de “La Decima”: um time híbrido, que se adapta bem ao ataque posicional, mas se for preciso acelera e é letal nos contragolpes. Mas naquele momento faltava entrosamento e um pouco de flexibilidade do trio BBC – Bale, Benzema e Cristiano Ronaldo – um tanto duro, rígido, com a única variação do sistema tático: do 4-3-3 para o 4-4-2 com o recuo de Bale pela direita.

Zinedine Zidane assumiu em sua primeira oportunidade como treinador do time principal dos merengues resgatando as ideias do italiano, de quem era auxiliar técnico. Com a conquista da Liga dos Campeões e a possibilidade de planejar a temporada, foi amadurecendo, consolidando e aprimorando conceitos e agora parece chegar a algo novo. Mas não tanto assim.

Desde sempre times como Real Madrid jogam no campo de ataque na maioria das partidas. Cultura do clube, exigência da torcida, expectativa do adversário, da mídia, de todos. Apenas em alguns jogos, em contextos especiais, ou só quando constroi a vantagem no placar é permitido recuar linhas e jogar em contragolpes.

Só que dentro da dicotomia do futebol mundial nos últimos oito anos ou você era propositivo e ficava com a bola, ou reativo e explorava os espaços cedidos por quem decidia controlar o jogo com a posse. Com os estilos cada vez mais estudados, quem apresentava uma das ideias como filosofia quase imutável sofria quando precisava variar a proposta ou era surpreendido.

Como equipes pressionando a saída de bola do Barça e explorando os espaços às costas das retaguardas de Guardiola. Ou times dando a bola aos comandados de Mourinho e Simeone e explorando suas dificuldades.

O Real Madrid atual é mutante, “camaleão”. Se adapta ao que quer para o jogo ou ao que o adversário propõe. E pode mudar durante o jogo. Porque tem jogadores capazes de virar a chave sem que o treinador precise fazer alterações.

Carvajal e Marcelo podem jogar abertos no campo de ataque ou posicionados numa linha de quatro com Varane e Sergio Ramos, atentos na cobertura e no confronto direto com os atacantes do oponente se expostos ou fixos atrás, prontos também para o jogo aéreo, ofensivo ou defensivo.

No meio, Casemiro, Modric e Kroos. Se é preciso de requinte na saída de bola pressionada, o alemão recua para qualificar os passes, curtos ou longos. Se a necessidade é de proteção e imposição física lá está Casemiro, outra peça importante nas jogadas pelo alto. E se o jogo requer dinâmica, presença de área a área, acelerando ou cadenciando, Modric é completo. Versátil.

Isco foi o toque de Zidane para tornar tudo ainda mais fluido e mutável. É meia no 4-3-1-2, mas também é ponta fazendo dupla com o lateral. Indo e voltando. Se recua pela direita, Modric e Casemiro centralizam e Kroos fecha o lado esquerdo. Se volta à esquerda, Modric abre e Kroos fecha. Sempre em duas linhas de quatro.

Para liberar Cristiano Ronaldo e Benzema, que circulam por todos os setores do ataque. Ou Bale, que parece aceitar a reserva porque sabe que vai jogar muitas vezes. Zidane roda o elenco com naturalidade. Na temporada passada definindo titulares e reservas e mandando a campo dentro de um planejamento. De olho na meritocracia. Assim Isco virou titular.

Desta forma já começou a temporada 2017/2018 com dois títulos, num total de sete desde o início de 2016. Matando o Manchester United na Supercopa da Europa ficando com a bola. Depois encaminhou a Supercopa da Espanha com os 3 a 1 sobre o rival Barcelona jogando em transições rápidas e definiu o confronto com 2 a 0 no primeiro tempo e maior posse de bola que o time blaugrana pela primeira vez em nove anos.

Porque o jogo pedia. Basta ter leitura e inteligência e serenidade para tomar as melhores decisões, individuais ou coletivas. Capacidade de resolver problemas. Com bola rolando ou parada. Por baixo ou pelo alto. Entender a lógica da disputa e a melhor forma de superar o rival e construir vitórias e títulos com naturalidade.

Tudo sem abrir mão de conceitos atuais: compactação, pressão, preenchimento e ataque de espaços, jogo posicional, profundidade, amplitude, mobilidade. Temperados com mentalidade vencedora e confiança. Zidane não nasceu sabendo, nem é mágico. Mas sempre privilegiando a precisão técnica e em alguns momentos até deixando o adversário jogar. Como era num tempo distante que às vezes retorna em insights nesse vai e volta na linha do tempo.

Este é o Real Madrid de Zidane. O bicampeão europeu, líder de uma nova era do esporte que volta um pouco atrás para ser pragmático sem perder a leveza. Ofensivo e reativo, de acordo com o “freguês”. Dentro ou fora de casa. Nada mais simples e moderno, como ver a sua série favorita ou o time de coração na TV de casa ou em um dispositivo móvel. Como quiser e quando for possível.

Jogo de ataque e defesa descarnado de idealizações ou romantismos. É o futebol por demanda.


Como o destino de Neymar pode interferir no futuro da seleção brasileira
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André Rocha

O colega Marcelo Bechler garimpou a notícia no Esporte Interativo e o mundo todo foi atrás: Neymar estaria seguindo o caminho de Daniel Alves rumo a Paris para jogar no PSG. E de fato há interesse de ambas as partes no negócio milionário, mesmo com o risco de esbarrar no fair play financeiro da UEFA.

A reapresentação no Barcelona para a pré-temporada nos Estados Unidos, porém, parece estar fazendo o craque repensar a decisão de deixar o clube catalão. Piqué, Messi e Suárez seriam os mais dedicados a convencer o companheiro a continuar onde está. Há portanto um dilema que deve ter mais um capítulo hoje com uma entrevista coletiva agendada pelos franceses.

Além da ótima proposta financeira, a impressão é de que Neymar busca um time para chamar de seu, fugindo da hierarquia que coloca Messi acima de todos os outros – inclusive na história do Barcelona. Com a renovação do contrato do argentino até 2021, as perspectivas de protagonismo até os 30 anos do camisa onze seriam remotas.

Por outro lado, Neymar já está adaptado à cidade e à maneira de jogar do Barça. Mesmo com a troca de Luis Enrique por Ernesto Valverde no comando técnico, a filosofia tende a continuar a mesma. Mais uma temporada do trio MSN deve afinar ainda mais a sintonia, com os atacantes sul-americanos jogando “de memória”.

Uma decisão para o craque, seu pai e staff. A grande questão para o torcedor brasileiro é como o destino da grande estrela da seleção brasileira pode interferir no trabalho de Tite pensando no Mundial da Rússia no ano que vem.

Bem, se Neymar seguir no Barcelona, o treinador receberá um atleta ainda mais consciente taticamente e no jogo coletivo. Para dar liberdade a Messi circulando por todo o ataque e se aproximando de Suárez, Neymar é praticamente um “winger” pela esquerda, fechando uma segunda linha de quatro quando a equipe perde a bola. Preenche praticamente todo o corredor esquerdo, indo e voltando. Mais assistente que finalizador.

Tite dá um pouco mais de liberdade, mas quer Neymar partindo deste setor. Recompondo na transição defensiva e arrancando para infiltrar em diagonal nas ações de ataque. O perigo é recebê-lo extenuado por uma temporada em que o Barça vai tentar arrancar do Real Madrid a hegemonia na Europa e recuperá-la na Espanha. Uma exigência brutal no físico e no mental.

Já a França é um mistério que pode ser inspirador pela mudança de ares. No PSG de Unai Emery, a possibilidade de atuar em uma equipe com estilo mais vertical e intenso. Pode também ganhar mais liberdade para circular no ataque, fazendo companhia a Cavani ou mesmo revezando com o uruguaio que é extremamente dedicado e tem condições de também recompor pela esquerda.

Se mentalmente a primeira temporada num novo clube com status de estrela será exigente para mudar o patamar, especialmente na Liga dos Campeões, e recuperar o domínio na França depois de perder o título para o Monaco, em termos físicos o desgaste certamente será menor. A diferença do PSG em relação aos demais na League 1 – talvez até ao atual campeão, que perdeu muitas peças fundamentais na janela de transferência – vai permitir ser poupado nas partidas que precisar.

Tite, então, receberia Neymar mais inteiro para voar na Copa do Mundo. Se não conseguir o enorme feito de dar o título da Champions ao Paris Saint-Germain já na sua primeira temporada, a chance mais clara a curto prazo de conquistar a sonhada Bola de Ouro é o Mundial da Rússia.

Uma mudança tática também pode fazer Tite flexibilizar um pouco a sua forte convicção, construída em conversas com Dorival Júnior, Muricy Ramalho, Adilson Baptista e Rogério Micale, de que o melhor posicionamento para Neymar é pela esquerda num 4-1-4-1. Testar novas possibilidades, até para dificultar e surpreender os adversários que estudarão detalhadamente o Brasil até o ano que vem, é mais que saudável. É necessário.

Mas não podemos descartar o pior cenário: problemas de adaptação, mesmo com tantos brasileiros no elenco, desavenças com o treinador ou qualquer outro obstáculo ao protagonismo de Neymar na França. Aí Tite teria que fazer da seleção o refúgio de um talento questionado, pressionado e com o desgaste emocional que afeta o desempenho de qualquer profissional, em qualquer atividade.

Por isso o treinador brasileiro estará muito atento aos movimentos em Paris e Barcelona. O futuro de Neymar é uma variável importante para sinalizar como será o escrete canarinho na disputa de sua 21ª Copa do Mundo.


Desafio do Barcelona é voltar a ser competitivo sem abrir mão da fantasia
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André Rocha

A tônica do Barcelona na temporada 2016/17 foi a dependência do trio MSN, especialmente de Messi. Quando o talento desequilibrava e o adversário murchava, começava o show, com jogadas plásticas e gols em profusão – 171,  111 dos atacantes sul-americanos (65%).

Faltou o trabalho coletivo. Fiel à filosofia do clube, que preza a posse de bola e o protagonismo nas partidas, mas com intensidade e consistência. Também alternativas, já que todas as ações estão mapeadas há algum tempo. Desde a saída de bola, dificultada pela marcação avançada, até o ataque posicional, bloqueado por linhas compactas à frente da própria área. Inversões, diagonais, zonas de maior circulação da bola…Tudo estudado, previsível.

Restava o improviso, o jogo um tanto aleatório. Como nos insanos 6 a 1 sobre o PSG, com ajuda da arbitragem, e os 3 a 2 sobre o Real Madrid, as grandes vitórias na temporada. Sem controle do jogo ficando com a bola. Perdeu igualmente a força na pressão para desarmar no campo de ataque.

Porque o time envelheceu e não investiu certo nas reposições. Busquets e Iniesta estão na história do clube, mas fragilizaram o meio-campo. Ficou claro contra a Juventus na Liga dos Campeões. Com a oscilação de Rakitic e André Gomes não mantendo a excelência no setor ficou bem mais difícil.

Para complicar tudo, a saída de Daniel Alves deixou um buraco na lateral direita que ninguém conseguiu compensar. Atacando e mesmo defendendo. Perdeu o elemento surpresa. Com a queda de rendimento de Jordi Alba, o lado esquerdo dependeu ainda mais de Neymar.

Ponteiro sacrificado para liberar um Messi que precisa ficar solto para fazer a diferença jogando mais próximo de Suárez. Mas quando os rivais negam espaços e exploram os espaços às costas da retaguarda, o Barça sofre.

A missão do sucessor de Luis Enrique, que se despediu na conquista do tricampeonato da Copa do Rei, 29ª conquista do clube, com os 3 a 1 sobre o Alavés na última partida no Vicente Calderón, é devolver a competitividade sem perder a capacidade de promover o espetáculo que virou a marca dessa equipe global e midiática. Símbolo de futebol arte.

Ernesto Valverde deixou o Athletic Bilbao deve ser anunciado em breve como o novo treinador. A ida ao mercado precisa ser inteligente e cuidadosa, formar um elenco homogêneo. O Real Madrid de Zidane, com os reservas garantindo pontos fundamentais e descansando os titulares em momentos importantes, pode ser boa referência.

Para que a Chuteira de Ouro de Messi, com 37 gols no Espanhol e 54 na temporada, não seja um prêmio de consolação, enquanto Cristiano Ronaldo praticamente garante a quinta Bola de Ouro pela conquista do Espanhol e por disputar mais uma final de Liga dos Campeões. Contra a Juventus, que mandou o Barça para casa sem grandes dificuldades. Sem sofrer gols do ataque arrasador.

Porque o Barça não competiu. Em 2012, o título solitário da Copa do Rei marcou o fim da Era Guardiola. Agora é o momento de se reinventar mais uma vez para voltar a fazer história, na Espanha e na Europa. Sem abrir mão da magia.


Real Madrid campeão! A revolução de simplicidade e discrição de Zidane
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André Rocha

Zinedine Zidane assumiu o Real Madrid no início de 2016, salvando a pele de Florentino Pérez, que emendou duas decisões para lá de controversas: demitir Carlo Ancelotti mais pela frustração de ver o Barcelona faturar a tríplice coroa do que propriamente por uma avaliação do trabalho do treinador italiano que comandou o time que conquistou a sonhada “La Decima”.

Pior ainda foi trazer Rafa Benítez, em baixa na carreira, para liderar seu elenco estelar. Não podia dar certo, até por não se identificar com o clube e ter a petulância de tentar ensinar jogadores como Cristiano Ronaldo e Toni Kroos a bater na bola, se intrometendo até nos gestos técnicos dos atletas.

Algo que Zidane, um dos maiores e mais técnicos jogadores da história, poderia se aventurar a impor. Pelo contrário. Transmitiu confiança, usou o respeito que desperta sem fazer força para deixar o ambiente mais leve, trouxe as lideranças para perto. Na gestão do grupo, também manteve todos motivados, mudou de patamar jogadores como Lucas Vázquez. Investiu no condicionamento físico.

Na parte tática e estratégica, começou resgatando as ideias de Ancelotti, de quem era auxiliar. Variação do 4-3-3 para o 4-4-2 sem a bola. Com a má fase de James Rodríguez e a dificuldade de encontrar o meia para atacar centralizado, na articulação, e voltar pela esquerda, além dos problemas defensivos, fez o simples mais uma vez: plantou Casemiro na proteção da defesa e deu liberdade a Kroos.

Trabalhando jogo a jogo, descansando quem precisava e valorizando os substitutos sem lamentar as ausências foi arrumando a casa. Realista, jogou a toalha na liga na derrota para o Atlético de Madrid no Santiago Bernabéu. Paradoxalmente, o foco na Champions e a sensação de “o que vier é lucro” ajudou a construir um retrospecto de 12 vitórias seguidas, inclusive os 2 a 1 sobre o Barcelona no Camp Nou.

Campanha que manteve a confiança alta e ajudou a pavimentar o 11º título da Liga dos Campeões. Conquista que pode ser atribuída um tanto à sorte por conta dos cruzamentos menos complicados que os rivais e superar o Atlético novamente, desta vez nos pênaltis. Sem muito brilho, mas fazendo história.

Para a temporada 2016/17, o aprimoramento das virtudes: elenco mais forte, com Morata e Asensio formando uma equipe reserva capaz de manter a competitividade enquanto descansa os titulares. E atento ao desempenho para fazer ajustes por meritocracia.

Isco foi o beneficiado pelo senso de justiça na reta final. Voando nas vitórias dos reservas e entrando bem quando solicitado, virou titular na vaga de Bale, em uma nova alteração tática. Do 4-3-3 para o 4-3-1-2, com o meia atuando como “enganche” à frente de Modric e Kroos e deixando Cristiano Ronaldo praticamente como um atacante próximo à área adversária, com liberdade de movimentação.

Poupado em nove partidas na liga, o português estava pronto para ser decisivo na reta final do campeonato nacional e do torneio continental. Se antes o genial finalizador tentava duelar com Messi nos números, agora entendeu que as taças são mais importantes que as bolas na rede. Até porque ele sempre será o artilheiro e a estrela da equipe, mesmo sem jogar todas.

O resultado prático é uma campanha memorável no Espanhol: 29 vitórias, seis empates, apenas três derrotas. 82% de aproveitamento. O ataque mais positivo e a defesa menos vazada são do Barcelona. Mas nos pontos foi soberano durante toda a liga.

Futebol prático e simples, respeitando as características dos jogadores. Os laterais Carvajal e Marcelo abrem o campo, ainda que o brasileiro infiltre muito por dentro, quase como meia. O meio-campo marca e joga, com Kroos e Modric alternando passes longos e curtos e qualificando a saída desde a defesa auxiliando Casemiro. Na frente, o trabalho de coadjuvante de Benzema e o poder de decisão de Cristiano Ronaldo. Se necessário, há a qualidade na reposição para manter desempenho e a média na conquista de pontos.

Um time “camaleão”, que joga com posse de bola ou nas transições velozes, sem deixar de valorizar o momento das jogadas aéreas com bola parada. Algo lógico quando se tem a precisão de Kroos e a fantástica presença na área adversária do já lendário Sergio Ramos.

Acima de tudo, respeitando a história do clube. Porque o torcedor madridista não quer exatamente espetáculo. Exige vitórias, mas que de preferência sejam construídas com futebol ofensivo e liberdade para os craques “galácticos” contratados a peso de ouro colocarem o talento a serviço da equipe. Sem amarras táticas. Com mentalidade vencedora.

Título confirmado fora de casa nos 2 a 0 sobre o Málaga. Um gol de Cristiano Ronaldo em contragolpe letal, outro de Benzema na bola parada sempre tão eficiente. Mais simbólico, impossível. Completando 64 partidas consecutivas fazendo gols. Pela primeira vez com campanha mais efetiva em pontos fora de casa do que no Bernabéu: 47 x 46.

Nada muito inovador, embora moderno. Zidane respeita as características e as qualidades dos jogadores. Não tenta ser a estrela mais reluzente e midiática. Valoriza o jogo, o futebol em todas as suas vertentes. Se Zidane revolucionou o Real Madrid, foi pela discrição e simplicidade.

Agora parte para o ato final e mais importante: nova final de Champions, desta vez contra a Juventus em Cardiff. Decisão sem favoritos, até pelo tempo que ambos terão para se preparar e com a confiança das ligas conquistadas. Agora com o Real enfrentando os cruzamentos mais complicados: Napoli, Bayern de Munique e Atlético de Madrid.

A Juventus tem mais “fome”, já que o título europeu não vem desde 1996. Já o Real carrega a “casca” de uma base que disputou duas finais recentes. Se vier a décima segunda, todos os holofotes estarão sobre Cristiano Ronaldo e sua quinta Bola de Ouro.

No banco, aplaudindo os protagonistas, o grande mentor. O Zidane que em campo fazia tudo parecer tão trivial e agora, na beira do gramado, trabalha com o mesmo semblante tranquilo de quem sabe o que quer.


Real Madrid recupera rapidamente o foco. E segue o mistério de Diego Alves
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André Rocha

A derrota para o Barcelona em casa foi daquelas sofridas, doídas. Com um a menos, minutos depois de alcançar o empate que encaminharia o título da liga. Levando gol de contragolpe em casa.

Seria até compreensível perder o rumo, até porque não havia muito tempo para reflexões, já que na quarta-feira tinha jogo fora de casa contra o La Coruña. Era a esperança do time catalão para se firmar na liderança, contando também com a superioridade no confronto direto.

Mas aí valeu o trabalho de Zidane mantendo os reservas atuando em bom nível. Descansou os titulares física e mentalmente, enfiou 6 a 2 com atuação sólida. Mostrando a força do elenco e que o treinador tem soluções para seguir competitivo nos dois torneios.

Na sequência, duelo sempre complicado contra o Valencia, que venceu os merengues no Mestalla por 2 a 1 no turno. Precisando de entrega para buscar os três pontos, mas já vislumbrando o primeiro clássico de Madrid diante do Atlético pela semifinal da Liga dos Campeões. Como se comportar?

Fazendo o melhor. Com James Rodríguez na vaga de Gareth Bale. Jogando como protagonista, ocupando o campo de ataque. Com Toni Kroos auxiliando os zagueiros na saída de bola e dando liberdade a Marcelo. Alternando o posicionamento da segunda linha de quatro quando a equipe se defende: Modric sai do centro e abre à direita, Kroos ajudando Casemiro no meio e James invertendo o lado e fechando o setor esquerdo. Liberando Cristiano Ronaldo próximo a Benzema.

Mas com dificuldades para infiltrar nas compactas duas linhas de quatro do Valencia que defendia com todos os jogadores no próprio campo. Sem abdicar do jogo, porém. Eventualmente adiantando a marcação e forçando pelos flancos: à direita com Montoya e Munir; pela esquerda com Nani e o jovem lateral Lato.

Quando a disputa parecia mais equilibrada, Cristiano Ronaldo descomplicou. Centro preciso de Carvajal, que não para de crescer de produção, e movimento perfeito do português para marcar seu vigésimo gol no Espanhol. Bem longe dos 33 de Messi, mas nitidamente focado nas conquistas coletivas, que, no fundo, são o que decidem os prêmios individuais ao final da temporada.

A segunda etapa foi de controle do Real e chances desperdiçadas. Inclusive chute na trave de Benzema. A melhor no pênalti de Parejo sobre Modric. Cristiano Ronaldo na cobrança para resolver a partida. Mas havia um Diego Alves pelo caminho.

Cobrança no canto esquerdo, defesa do goleiro brasileiro. A 25ª vez em 53 cobranças que ele impediu um gol de pênalti. O maior pegador da história da liga espanhola. Um goleiraço. Para um torneio como Copa do Mundo, em que as decisões por pênaltis são mais frequentes, devia ser obrigação ao menos tê-lo no grupo convocado.

Tite prefere Weverton, Ederson, Alisson. Até Muralha. Difícil entender a ausência na seleção brasileira de um arqueiro de altíssimo nível e com experiência internacional. O que falta? Um time de grife, mais visibilidade? Um mistério.

Curiosamente, o jogo não mudou com a penalidade desperdiçada. O Real seguiu com a bola e equilíbrio.  Zidane não usou Isco e deixou a impressão de que a ideia era poupá-lo para a Champions. Mandou a campo Asensio e Morata para ficar mais rápido nos contragolpes.

O Valencia parecia cansado pelo trabalho desgastante sem a bola. Mas achou o empate na cobrança de falta de Parejo. Aos 37 do segundo tempo. Para um time pressionado pelo rival e depois de dominar praticamente toda a partida, seria até natural baixar a guarda, bater um desânimo.

Não para este Real Madrid. Que não dá espetáculos, mas é forte mentalmente e sabe o que quer. Vacilou no clássico pelo excesso de confiança, não por se desmanchar em campo. Voltou ao ataque e aí de novo valeu a presença de jogadores desequilibrantes.

Desta vez foi Marcelo. Corte para dentro com a canhota, chute de direito fora do alcance de Diego Alves. Belo gol do brasileiro, muita vibração. Sangue nos olhos. A prova de que os merengues não perderam o foco na liga. A obsessão por encerrar a sequência de títulos nacionais do Barça segue intacta.

Agora é virar a chave para o torneio continental. Atlético de Madrid no Bernabéu. A pedra no sapato recente. O único adversário que o time de Zidane não conseguiu vencer em casa. Um novo desafio a exigir força mental. Mas como duvidar desse Real Madrid?


E Lionel Messi, enfim, foi Maradona. Tinha que ser no Bernabéu!
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André Rocha

Foto: Juan Carlos Hidalgo (EPA)

A imagem de Messi comemorando o gol da vitória por 3 a 2 sobre o Real Madrid rodou o mundo. No lance final, dentro do Santiago Bernabéu. Mostrando para a gente que reverencia Cristiano Ronaldo que ele estava ali. O camisa dez eterno do Barcelona. O maior de todos. Lionel.

Um gesto que vindo de Neymar, por exemplo, seria interpretado como arrogância. E foi mesmo. Mas desta vez como um desabafo de quem precisava, enfim, se manifestar como o melhor de uma era. E nos noventa minutos o que se viu em Messi foi um total e inédito inconformismo com a derrota.

Revés que viria até com o empate. Com todo o seu simbolismo: praticamente um adeus à disputa do título espanhol e, consequentemente, mais uma Bola de Ouro indo para Cristiano Ronaldo. A quinta. Empatando a disputa, algo que nunca aconteceu desde a afirmação do argentino como um gênio do esporte.

Por isso o que se viu em campo não foi apenas um Messi desequilibrante. Isso ele é desde o primeiro “triplete” da carreira, nos 3 a 3 contra o próprio time merengue em 2007. Passando pelos 6 a 2 em 2009 que foi a “gênese” do Messi “falso nove” que mudaria de patamar o promissor ponteiro canhoto formado nas canteras do clube.

Desta vez era um homem que não admitia sair de Madri derrotado. Ou sem provar que continua sendo o melhor. A entrega foi total, inclusive voltando para ajudar na defesa uma equipe desorganizada, sem Neymar e com Luis Suárez vivendo o momento menos produtivo no clube – já são cinco partidas sem ir às redes. Que precisava dele como nunca.

Casemiro abriu o placar na sempre mortífera jogada aérea do time de Zidane. A resposta veio em um golaço enfileirando dentro da área antes de tirar de Navas. A jogada que termina no petardo no ângulo de Rakitic inicia com Messi tentando de novo romper a defesa e o desarme parando nos pés do croata. O triunfo de virada parecia encaminhado com a expulsão de Sergio Ramos após entrada criminosa. Em Messi, que também levou cotovelada de Marcelo. Sangrou e seguiu correndo, tentando.

Tudo pareceu ruir em nova falha defensiva e o gol de James Rodríguez. Um protagonista improvável para o gol que praticamente garantiria a conquista da liga nacional depois de cinco anos. Não podia ser o colombiano.

O Real se empolgou com as chances seguidas, lembrando o jogo de ida contra o Bayern em Munique, e seguiu no ataque. Só que daquela vez era o time alemão que estava com um homem a menos. E Carlo Ancelotti não tinha Messi.

Contragolpe letal, com vantagem numérica. Iniciado com uma arrancada de Sergi Roberto, que podia ter sido contida com falta por Marcelo. Parou nas redes em um chute típico de Messi.

Inusitada e inesperada foi a comemoração. O gênio argentino, enfim, lembrou Diego Maradona. Na arrogância de quem sempre se achou o melhor. O primeiro a desafiar publicamente o reinado antes inquestionável de Pelé, defendido pelos que jogaram antes e depois do brasileiro.

Astro que disputou quatro Copas do Mundo. Na que venceu saiu do Estádio Azteca acariciando a taça. Mas em 1982 perdeu a cabeça e a esportiva no Estádio Sarriá dando um coice em Batista nos 3 a 1 do time de Telê Santana que mandou para casa a albiceleste campeã quatro anos antes em casa.

Em 1990, chorou com o vice-campeonato reclamando da arbitragem que, de fato, inventou o pênalti cobrado por Brehme que deu o tricampeonato mundial aos alemães. Quatro anos depois, botou a culpa de seu doping em João Havelange por um suposto favorecimento ao Brasil tirando do caminho o craque que eliminara a seleção de Lazaroni na Itália com uma arrancada genial e assistência para Caniggia.

No Argentinos Juniors, Boca, na seleção, no Napoli e até no próprio Barcelona, uma insana sensação de onipotência. A certeza de ser a estrela mais brilhante e a vontade de mostrar isso para o universo. Bem diferente da postura blasé de Messi em tantas ocasiões. Até quando chora ao perder a Copa para a Alemanha no Maracanã ou as duas Copas América para o Chile. Mesmo lutando em campo e às vezes até tentando definir sozinho, como fazia Diego.

Mas sem o brilho no olhar que fez luz no Bernabéu. Pela 14ª vez no estádio, dentre os 23 gols em 34 partidas que faz dele o maior goleador do clássico que atrai os olhos do mundo desde que Cristiano Ronaldo desembarcou na Espanha para desafiar mais de perto e em mais jogos quem o planeta sabe que é o melhor desta era.

Lionel Messi. Aquele que sem fazer muito esforço, às vezes parecendo indiferente, jogando a toalha antes de Neymar nos 6 a 1 sobre o PSG e falhando no duelo com Buffon e a defesa da Juventus, tem 47 gols em 46 jogos na temporada pelo Barça. 31 no Espanhol, abrindo vantagem na disputa da Chuteira de Ouro que pode ser a quarta da carreira. Agora 500 pelo clube. Se Cristiano Ronaldo falhar nas conquistas coletivas com o Real, a chance da sexta Bola de Ouro.

Era isso que estava em jogo no Bernabéu. Por isso Messi saiu de seu universo particularíssimo, foi humano como nunca e mostrou para o estádio do rival e para o mundo as cores do seu clube, o número de sua camisa e o nome ali escrito. Que já é uma lenda, como Maradona. Por caminhos diferentes que se cruzaram em Madri para ficar na eternidade de um gesto. Simbólico e emblemático.

 


Real de Zidane aprendeu a jogar La Liga. Mas tem Griezmann no Bernabéu…
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André Rocha

O título da Liga dos Campeões é e será a grande lembrança para o Real Madrid da temporada 2015/2016. Ainda que a conquista tenha vindo sem um desempenho tão sólido, inferior ao da conquista de “La Décima”. Mas houve um feito relevante que acabou esquecido por não ter rendido taça.

Zidane sucedeu Rafa Benítez em 2016 e começou sua trajetória com cinco vitórias e dois empates. Na rodada seguinte, derrota. A única. Porque emendou nada menos que doze vitórias, inclusive por 2 a 1 sobre o Barcelona no Camp Nou. Ficou a um mísero ponto do time catalão, que faturou o bicampeonato.

Na atual temporada alcançou mais quatro triunfos. Com os 12, igualou as 16 vitórias seguidas do Barcelona comandado por Pep Guardiola na temporada 2010/2011. Na 31ª rodada, a liderança com 22 vitórias, seis empates e só duas derrotas. Tem um jogo a cumprir, fora de casa contra o Celta de Vigo.

Uma campanha espetacular com Zidane. Em 51 jogos, 39 vitórias, oito empates e quatro derrotas. Nada menos que 84% de aproveitamento. Definitivamente, o clube que nos últimos anos cresce no mata-mata e dispersa nos pontos corridos aprendeu a jogar a liga. Mas o título que não vem desde 2011/2012 está em risco.

Porque o Atlético de Madrid é uma pedra no sapato do time merengue. Por incrível que pareça, o derrotado em duas finais de Champions e que levou 3 a 0 no Vicente Calderón no turno, triplete de Cristiano Ronaldo, complica tudo no Santiago Bernabéu.

Na temporada passada, a única derrota do Real Madrid sob o comando de Zidane na liga espanhola. A rigor, foi o que tirou o título. Ainda que Zidane tivesse jogado a toalha da disputa e focado na Champions. Mas foi vencendo, vencendo…e quase chegou.

Agora o Real vinha de 14 jogos de invencibilidade e os colchoneros chegavam ao Bernabéu com cinco vitórias consecutivas. Duelo fundamental para o Atlético tentar uma última arrancada em busca do título que faturou em 2014 e o Real garantir a vantagem antes do superclássico no próximo final de semana.

Os visitantes começaram surpreendendo atacando o lado de Marcelo com Ferreira Carrasco e forçando os erros de passe do rival com marcação agressiva. Mas logo se recolheu nas duas linhas de quatro, porém recuando muito os atacantes Griezmann e Fernando Torres.

Com isso perdia a capacidade de construir os contragolpes com bolas longas às costas da defesa. O Real avançou as linhas e passou a jogar como gosta: trabalhando os passes no meio com Casemiro, Modric e Kroos para acelerar na frente com o trio BBC ou pelos flancos com Carvajal e Marcelo.

Controlou com 56% de posse, finalizou seis vezes contra cinco. Mas quatro no alvo contra apenas um do Atlético. A melhor com Cristiano Ronaldo tirando do alcance de Oblak, mas o zagueiro Savic salvando de cabeça sobre a linha.

Para ir às redes na segunda etapa, foi preciso apelar para a grande arma do time de Zidane: as jogadas aéreas com bola parada. São 25 gols desta forma na temporada. Na 11ª assistência de Toni Kroos, o gol de cabeça do zagueiro….Não, desta vez não foi de Sergio Ramos. Belo golpe de cabeça de Pepe, que saiu lesionado após choque com Toni Kroos.

Por incrível que pareça, o milionário Real Madrid de Florentino Pérez piorou com as substituições: Além de Nacho na vaga do zagueiro luso-brasileiro, Lucas Vázquez e Isco substituíram Bale e Kroos. Perdeu volume e controle.

Simeone ganhou mobilidade entre a defesa e o meio-campo do adversário com duas substituições: Correa na vaga de Saúl Níguez e Thomas no lugar de Ferando Torres. Na flutuação do argentino às costas de Modric e fora do alcance de Casemiro, o passe para Griezmann, adiantado como centroavante, empatar. Sim, o “carrasco” da derrota na temporada passada.

Agora são três vitórias e o empate em 1 a 1 no Bernabéu nos últimos quatro jogos. O “freguês” na Liga dos Campeões e que sofre com o rival quando joga em seus domínios pode ajudar o Barcelona novamente.

O trio MSN e seus companheiros agora só dependem de si para buscar o tricampeonato. Se vencerem o Málaga igualam na liderança com 72 pontos. Se superarem os merengues em Madrid,  ultrapassam e nem dependem mais do jogo a menos do Real, já que o critério de desempate é o confronto direto.

E aí pouco valerá o aproveitamento fantástico de Zidane como treinador na liga. Porque tem o Atlético e Griezmann pelo caminho…


Neymar não vive má fase, só mudou de função no Barcelona
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André Rocha

Neymar marcou 41 gols em 52 partidas pelo Barcelona na temporada 2014/15. Talvez a melhor da carreira, com tríplice coroa e artilharia da Liga dos Campeões. Apenas oito assistências.

Na última o número de gols caiu para 31 em 50 jogos, mas o de assistências quase triplicou: 21 passes para gols. Agora são apenas nove bolas nas redes adversárias, cinco na liga espanhola, porém o número de assistências já chegou a 15, sete no campeonato nacional.

Queda de rendimento? Se compararmos com o de dois anos atrás, sem dúvida. Com Luis Enrique no comando técnico, encontrou o melhor posicionamento em campo, o trio MSN era uma novidade que assombrou o mundo empilhando gols e os sul-americanos se entendendo rapidamente com incrível sintonia.

O cenário atual é bem mais complexo. O Barça, com a base mantida, tem praticamente todas as ações ofensivas mapeadas pelos rivais. Rareou a jogada característica que proporcionava as finalizações de Neymar: arrancada em diagonal de Messi da direita para o centro, inversão para Neymar. Jordi Alba passava voando atraindo a marcação, Iniesta se aproximava como opção e o brasileiro cortava para dentro e concluía.

O lateral espanhol vem de lesão e agora disputa posição com o francês Lucas Digne, que não tem a mesma qualidade no apoio. Iniesta, que lhe servia tantos passes, é outro que não consegue ter sequência. Além disso, Messi agora joga centralizado em praticamente todos os jogos, formando uma dupla à frente com Suárez. Não por acaso os dois dispararam na artilharia do time catalão – 31 de Messi e 22 de Suárez, ambos empatados na artilharia do Espanhol com 16.

A força pela direita, com Daniel Alves e Rakitic se juntando ao gênio argentino para criar e Neymar tantas vezes completar do lado oposto, se perdeu também com a saída do lateral ainda sem reposição à altura e a queda de produção do meia croata.

Com tudo isso, Neymar se viu obrigado a se transformar num ponteiro típico. Quase um “winger” britânico, voltando com muito mais frequência para formar uma segunda linha de quatro com os três meio-campistas. Colaborando na organização de um sistema defensivo que vai mostrando mais solidez.

Na transição ofensiva, com os oponentes mais atentos à marcação, o craque brasileiro instintivamente se posiciona mais aberto para tentar alargar e depois desmontar o sistema defensivo na base da vitória pessoal em busca da linha de fundo. Não por acaso é o líder em dribles e o que mais sofre faltas na competição.

Ou seja, as circunstâncias obrigam Neymar a jogar mais para o time e menos para si. Prova de evolução tática e amadurecimento. Não vive má fase, só mudou de função. De atacante finalizador a ponteiro assistente. Ainda criativo, fundamental. Mas sem artilharia. O protagonismo fica para a seleção brasileira.

Aniversariante de ontem, talvez tenha pedido mais gols na celebração dos 25 anos. Para calar os críticos, continuar midiático em tempos de Gabriel Jesus na crista da onda e ter mais chances de brigar ao menos no top 3 dos melhores do mundo.

Mas certamente deve ter agradecido pela capacidade de adaptação em campo a um momento complicado do Barcelona que se recupera no Espanhol com os tropeços de Real Madrid e Sevilla, está com classificação encaminhada para mais uma final da Copa do Rei e se prepara para o mata-mata da Liga dos Campeões. Com um novo Neymar, decisivo nos dribles e passes.

(Estatísticas: Whoscored.com)


Futebol não é só tática! Na alma, Sevilla encerra a invencibilidade do Real
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André Rocha

Zidane surpreendeu ao mandar a campo pela primeira vez o seu Real Madrid com três zagueiros. Ou uma linha de cinco atrás, tendência recente com o sucesso do Chelsea de Antonio Conte na Premier League.

A lógica é simples: se o adversário trabalha a bola para encontrar espaços, infiltrar nos últimos vinte metros e finalizar, por que não ter mais jogadores para evitar a jogada mais importante? A receita de Mourinho e tantos outros treinadores para parar Barcelona e as equipes de Guardiola ou qualquer time que queira a bola.

Como o Sevilla de Jorge Sampaoli, que é equipe de posse, linhas adiantadas e circulação de bola com tabelas e triangulações no ritmo do redivivo Nasri, que, junto com N’Zonzi, afundou Ganso no banco. Até encontrar as diagonais em velocidade de Ben Yedder, artilheiro da equipe, e Vitolo. Atacantes abertos que encontram parcerias nos flancos com os laterais Mariano e Escudero. Proposta ofensiva.

A resposta merengue foi Nacho entrando na zaga com Varane e Sergio Ramos. Carvajal e Marcelo eram alas no ataque e quase pontas quando o Real Madrid avançava a marcação e pressionava no campo de ataque. Sem a bola, formavam o cinturão de proteção da meta de Keylor Navas com o suporte de Casemiro, preciso nos desarmes.

O time visitante e líder do Espanhol não se incomodava em perder o meio-campo e deixar o mandante controlar a posse (56% no primeiro tempo). A ideia era evitar a ação ofensiva trabalhada que cria a oportunidade cristalina, o adversário na cara do gol.

Conseguiu na primeira etapa. O momento mais perigoso foi com N’Zonzi em cobrança de escanteio. Já o Real, nos contragolpes às costas de Mariano, teve duas espetadas de Cristiano Ronaldo e Benzema. Só faltou a conclusão precisa para coroar o jogo controlado.

A segunda etapa começou com intensidade máxima do time de Sampaoli, muita movimentação e uma bola roubada que virou contragolpe e Ben Yedder, pela primeira vez com espaços às costas de Nacho, parou em Navas.

Taticamente, porém, o Real seguia dono do plano mais bem executado. Logo ameaçou em dois contragolpes até o pênalti do goleiro Sergio Rico em Carvajal, após vacilo de Escudero. Confusão, catimba, provocação de Vitolo, mas nada impediu que Cristiano Ronaldo cobrasse com a precisão costumeira.

Zidane trocou o exausto Kroos por Kovacic. Poderia ter tirado Benzema e colocado Morata para ganhar fôlego nos contragolpes, mas o controle era do Real. Mesmo com Sampaoli arriscando tudo com Sarabia no lugar de Iborra, mas para abrir à direita e enviar Ben Yedder para se juntar no centro do ataque a Jovetic, que substituiu Franco Vázquez.

O Sevilla se mandou, correu riscos com os lentos zagueiros Pareja e Rami contra Cristiano Ronaldo. Mas futebol não é só tática ou estratégia. É também alma, fibra e atmosfera no estádio. E o Ramón Sánchez-Pijzuán ferveu no gol contra de Sergio Ramos, vaiado o jogo todo pelas provocações na Copa do Rei e ainda por conta da saída conturbada do clube. Na bola parada, quando o “abafa” era a única saída.

Com o Real tonto vendo o herói de tantas conquistas recentes com gols nos últimos minutos desta vez ser o vilão e acuado pelos gritos vindo das arquibancadas e pela entrega dos jogadores dentro, veio a virada no chute de Jovetic que Navas espalmou para dentro.

Sim, Sampaoli foi feliz ao colocar presença física na área adversária para ter mais chances de finalizar. Mas isso qualquer treinador faria. Fazer o óbvio às vezes é mérito também.

Zidane provavelmente será responsabilizado pela primeira derrota após 40 jogos. Talvez um técnico mais vivido fizesse o time parar o jogo, quem sabe com trocas no final para ganhar tempo. Porém na estratégia ele acertou mais que errou no duelo contra um dos melhores treinadores do planeta, que rapidamente já faz o Sevilla mudar de patamar no país e no continente.

Mas o futebol é espetacular por essas histórias errantes, sem roteiro definido. Instável, emocionante, imprevisível. Que deixa tudo em suspense, em aberto. Como ficou o Espanhol com o Sevilla voltando à vice-liderança e trazendo o Barça para perto do Real Madrid. Temos um campeonato.

(Estatísticas: Whoscored.com)

 


Procura-se um time para Lionel Messi
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André Rocha

Lionel Messi tem 13 gols no Espanhol e dez na Champions League em 20 partidas – 14 pela liga nacional, seis no torneio continental. Em 2016 foi às redes 59 vezes e serviu 31 assistências em 61 jogos.

No empate com o Villareal com arbitragem polêmica que fez o Barcelona perder a segunda colocação para o Sevilla de Sampaoli, evitou uma derrota que podia ter sido trágica com uma fantástica cobrança de falta no final da partida.

Na Argentina, salvou a seleção no último jogo de 2016 com um golaço, também em cobrança de falta que está virando especialidade, e mais duas assistências nos 3 a 0 sobre a Colômbia que fez a albiceleste ao menos ficar na zona de classificação na repescagem das eliminatórias sul-americanas.

Messi viu Cristiano Ronaldo faturar a Bola de Ouro da “France Football” e provavelmente levar amanhã em Zurique também o prêmio da FIFA. Porque Real Madrid e Portugal conquistaram os títulos mais importantes da Europa na temporada. Equipes que nos momentos decisivos trabalharam coletivamente e não dependeram tanto de sua estrela maior.

Já Barça e Argentina precisam demais de seu camisa dez pela falta de uma proposta de jogo que não necessite tanto do brilho de seu craque. O time catalão porque está mais que previsível e o técnico Luis Enrique não encontra alternativas para variar as ações ofensivas e surpreender os rivais nos jogos mais complicados. Na seleção, o trabalho de Edgardo Bauza, ainda no início, sofre por falta de repertório.

Sem desempenho da equipe, Messi precisa buscar mais o jogo e partir com bola dominada para tentar a vitória pessoal ou usar sua visão de jogo privilegiada para colocar um companheiro na cara do gol. Agora adiciona as cobranças de falta em seus múltiplos recursos para desequilibrar. Ou igualar as forças entre times organizados e suas equipes, talentosas, mas capengas no jogo coletivo.

Eis o paradoxo de Messi: para recuperar o domínio dos prêmios individuais, o gênio argentino precisa de um time. Na acepção da palavra. Para potencializar seu enorme talento e não sobreviver por causa dele.