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De Conte para Guardiola, mais uma aula de Premier League
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André Rocha

Primeiro tempo de eficiência do Chelsea na frente com Hazard, mas problemas pela direita com Sané ganhando na velocidade de Zouma às costas de Azpilicueta, de volta à lateral direita (Tactical Pad).

O Stamford Bridge não viu uma grande atuação técnica ou arrasadora nos contragolpes como as que o Chelsea protagonizou para construir sua liderança absoluta no Campeonato Inglês.

Mas foi mais uma aula de Premier League que Antonio Conte, em sua primeira temporada, concede ao colega, também “debutante”, Pep Guardiola.

A palavra é eficiência. Mesma virtude dos 3 a 1 no Etihad Stadium, o triunfo que consolidou o time londrino como favorito ao título. Os Blues tiveram 40% de posse, finalizaram 10 vezes. Quatro no alvo. Três terminaram em gols. O primeiro de Hazard, em chute que desviou em Kompany e Caballero aceitou. No segundo do craque belga, a cobrança do pênalti – tolo, de Fernandinho em Pedro – que o goleiro argentino deu rebote e o próprio camisa dez aproveitou.

Outra lição é a de leitura de jogo para mexer no time, mesmo vencendo e não sendo a prática habitual do técnico que menos faz substituições na liga. Como Zouma sofria para conter a velocidade de Sané, Conte voltou Azpilicueta para sua função de zagueiro e recuou Pedro como ala. O zagueiro francês deu lugar a Matic, que foi preencher o meio com Kanté e Fábregas, que abria à direita apenas para conter os avanços esporádicos de Clichy.

Enquanto isso, Guardiola apostou na sua ideia de controlar a bola, trocar passes, buscar superioridade numérica no meio. Sem o passe vertical, porém. Finalizou 17 vezes, sete na direção da meta de Courtois. Mas, a rigor, chances reais foram apenas quatro: o gol de Kun Aguero no rebote do chute de David Silva em falha de Courtois na saída de bola; a infiltração de Sané às costas de Zouma que certamente influenciou a mexida de Conte na volta do intervalo.

Na segunda etapa, toques e mais toques dos citizens rondando a área. Mesmo sem criatividade e perspectivas de reação, só fez a primeira substituição aos 34 minutos da segunda etapa – Sterling na vaga do decepcionante De Bruyne. E oportunidades claras só nos acréscimos, com Aguero e o incrível gol perdido de Stones.

Muito pouco para quem ocupou o campo de ataque. Porque o controle do jogo foi do Chelsea, mesmo sem a bola. A última linha bem posicionada com um David Luiz mais uma vez chamando a atenção, paradoxalmente, pela discrição. Pouco aparece, para o bem e para o mal. Joga simples, como nunca.

A troca de Zouma por Matic devolveu Azpilicueta à zaga para cobrir Pedro contra Sané e preencher mais o meio com Fabregas fechando o centro e abrir eventualmente para cobrir os avanços esporádicos de Clichy. O s Blues controlaram o jogo sem a bola e Guardiola só mexeu no time no final (Tactical Pad).

O Chelsea não dá espetáculo e desta vez pouco acionou o pivô e artilheiro Diego Costa. Deixou o domínio, ainda que inócuo, para o adversário e foi pragmático para vencer, não permitir a aproximação do Tottenham depois da derrota na última rodada para o Crystal Palace em casa. A vantagem no topo da tabela segue nos sete pontos.

Pep Guardiola volta para Manchester com muito para pensar. Parece claro que não confia no elenco do City – a ponto de improvisar Jesús Navas na ala direita e deixar Zabaleta mofando no banco. Na próxima temporada, além da reformulação no grupo de jogadores, valem as lições de Conte: na “loucura” da Premier League, quando ataca é preciso ir às redes e no trabalho defensivo precisa controlar e negar espaços na zona de decisão.

O italiano aprendeu bem rápido. Ou já chegou pronto para dominar a liga.

(Estatísticas: BBC)

 

 


Futebol inglês: ou muda calendário e tradições, ou vira piada na Europa
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André Rocha

Entre os oito classificados para as quartas-de-final da Liga dos Campeões, apenas um representado a Inglaterra: o Leicester City, atual campeão. Clube que teve como trunfo na temporada anterior estar totalmente focado na Premier League.

Agora, acusado de economizar suor na competição nacional por conta dos problemas de relacionamento com o ex-treinador, Claudio Ranieri, teve gás sobrando para a disputa do torneio continental e despachou o Sevilla no King Power Stadium.

O Chelsea, líder e virtual campeão inglês desta temporada, também leva vantagem na disputa da liga por não dividir atenções com nenhuma competição europeia. Segue vivo na Copa da Inglaterra depois de eliminar o Manchester United.

Time de José Mourinho que não deve ter reclamado muito. Campeão da Copa da Liga e o único do país ainda envolvido com a Liga Europa, luta para alcançar a zona de classificação para a próxima Champions League.

O campeonato inglês da primeira divisão é considerado o mais importante do planeta. Pelo equilíbrio de forças que passa fundamentalmente por uma divisão da receita mais justa e um aumento substancial das cotas de TV. Disputado em intensidade altíssima, num jogo físico que dura os noventa minutos e atrai os olhos do mundo pela imprevisibilidade.

O grande gargalo, porém, é o calendário, ainda fincado em tradições que fogem do contexto atual. Enquanto o mundo pára no final do ano, a bola rola no Boxing Day e em jogos encavalados. Tudo isso com o intuito de atrair os olhos do mundo, mas também garantir datas para as duas copas nacionais, enquanto a grande maioria dos países disputa uma só.

E ainda preservam o “replay”, jogo extra disputado em caso de empate na Copa da Inglaterra. O Manchester City perdeu tempo de preparação para a sequência da Premier League e da Liga dos Campeões para enfrentar o Huddersfield Town, da segunda divisão, pelas oitavas de final. Ao menos para esta temporada acabaram com os jogos extras nas quartas de final.

Mas é preciso rever ainda mais o calendário. Porque mais tradicional que as copas e os jogos na virada do ano é ver os times ingleses fortes na Liga dos Campeões. De 12 títulos, mas o último em 2012 com o Chelsea. Conquista improvável e baseada exatamente na prioridade dada ao torneio.

Desde 2008/09, quando colocou United, Chelsea e Arsenal nas semifinais, mas o título ficou com o Barcelona, só conseguiu emplacar um time entre os quatro primeiros: título com os Blues, vice dos Red Devils em 2011, o Chelsea de Mourinho entre os quatro em 2014 e o Manchester City na semifinal inédita na última edição contra o Real Madrid.

Para piorar, o Arsenal de Arsene Wenger leva um 10 a 2 no agregado do Bayern de Munique e é eliminado nas oitavas de final pela sétima vez consecutiva. Mesmo com alguns erros gritantes da arbitragem em Londres, não deixa de ser um vexame.

É muito pouco. Suscita dúvidas da real força da Premier League ver os espanhois dominando o continente há três temporadas com Barcelona, Real Madrid e Atlético de Madrid, mais o Sevilla tricampeão da Liga Europa. A Alemanha colocando Bayern de Munique e Borussia Dortmund novamente entre os oitos melhores.

E a Inglaterra apenas com o Leicester City, maior azarão do sorteio das quartas. Inusitado, mas tragicômico. O perigo é o futebol jogado no país virar piada na Europa.


Cinco razões para o fim do “conto de fadas” do Leicester City
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André Rocha

A demissão de Claudio Ranieri passa fundamentalmente pelo risco real de rebaixamento do Leicester City na Premier League com as cinco derrotas seguidas. A última para o Swansea, rival direto pela permanência na primeira divisão, por 2 a 0. Na 17ª colocação, está apenas um ponto a frente do Hull City, primeiro na zona do descenso.

Na Liga dos Campeões a situação nem é tão desesperadora, já que a derrota fora de casa por 2 a 1 para o Sevilla, com boa atuação no segundo tempo, torna viável a classificação para as quartas-de-final. Mas o foco da direção do clube desde o início era o mesmo da temporada passada: continuar na elite.

A grande questão é: o que fez o campeão inglês cair tanto de produção e virar do avesso em desempenho e resultado? O blog lista cinco possíveis razões para o fim do “conto de fadas”:

1 – Acabou a surpresa

O que Kanté, Mahrez e Vardy fizeram em suas carreiras que pudesse ser destacado antes do mundo descobri-los no Leicester City?  Quando um grupo de jogadores consegue combinar tão bem suas características a ponto do jogo coletivo potencializar suas qualidades ao mesmo tempo é o momento mágico de qualquer equipe.

Mais ainda quando pega os adversários de surpresa. Era difícil segurar aquele 4-4-2 intenso, sólido defensivamente e letal nos contragolpes, com eficiência absurda nas finalizações, especialmente de Jamie Vardy – sem contar os 17 gols e as 11 assistências de Riyad Mahrez. Com os holofotes da conquista veio também o estudo minucioso dos adversários e aí faltou capacidade de treinador e jogadores para encontrar novas soluções.

2 – Reconstrução dos grandes ingleses

A temporada 2015/16 foi de entressafra no comando técnico dos grandes ingleses, com a exceção do “imortal” Arsene Wenger no Arsenal: Brendan Rodgers foi demitido no Liverpool para a chegada de Jurgen Klopp; Mourinho implodiu o próprio trabalho no Chelsea e deu lugar a Guus Hiddink; Manuel Pellegrini encerrava seu ciclo para a chegada de Guardiola no City e Van Gaal desgastava-se dia a dia no Manchester United. Foi nesse “vácuo” que o Leicester se infiltrou.

Com a chegada de Antonio Conte e Guardiola, a ida de Mourinho para o United e a sequência com pré-temporada de Klopp nos Reds, além da afirmação de Mauricio Pochettino no Tottenham, natural que o Leicester de Ranieri deixasse o protagonismo.

3 – Saída de Kanté

O meio-campista francês não é craque, longe disso. Mas a combinação de um impressionante vigor físico com notável leitura de jogo faz de Kanté um jogador especial, especialmente para o alucinante futebol jogado na Inglaterra. Atuando de área a área sem cansar durante os noventa minutos. Desarmando, interceptando, antecipando com velocidade. Com a bola joga simples, ciente de suas limitações, sendo um facilitador dos companheiros com incrível mobilidade para se apresentar como opção de passe.

No Leicester sua média de desarmes era ainda maior que a atual. Segundo o site Whoscored.com, o jogador contrato ao modesto Caen alcançou média de 4,7 desarmes contra 3,6 e 4,2 interceptações contra 2,4 no Chelsea. Sua saída ajudou a desmontar a proposta de jogo de Ranieri.

4 – Liga dos Campeões

Assim como o Chelsea nesta temporada, o Leicester não precisou dividir atenções com nenhum torneio continental e, com a chance de disputar na parte de cima da tabela, a Premier League se transformou na prioridade absoluta. Agora o clube viveu, e ainda vive, o sonho de participar da principal competição de clubes do planeta. Para aumentar as esperanças, caiu num grupo mais que acessível, com Porto, Copenhague e Club Brugge, e terminou na liderança.

Mesmo com o discurso pé no chão da diretoria do clube, impossível não se envolver emocionalmente com essa participação histórica e tratá-la com carinho e dedicação. Só que não há qualidade no elenco para manter o desempenho e a sequência desgastante, especialmente na virada do ano, minou as forças do grupo.

5 – Gestão de grupo

É incrível como os italianos começam e terminam tudo com comida. Nas muitas entrevistas celebrando o título inglês, Ranieri contou que a arrancada para o título iniciou com os jogadores preparando a massa e comendo pizza depois da vitória por 1 a 0 sobre o Crystal Palace, a primeira sem sofrer gols. Segundo o treinador, após essa reunião que uniu treinador e atletas o time decolou.

Agora o veto de Ranieri aos sanduíches de frango que eram servidos aos atletas depois dos jogos, segundo os jornais e sites ingleses, teria sido o grande agente catalisador da crise de relacionamento que tornou inviável a permanência do técnico que entrou para a história do futebol mundial com a conquista improvável no ano passado. Coisas que só o futebol é capaz de construir e desmanchar.


City se afirma como o anti-Chelsea. Mas Blues têm duas grandes vantagens
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André Rocha

Quando Gabriel Jesus saiu lesionado aos 14 minutos de jogo em Bournemouth e Guardiola não perdeu tempo para colocar Aguero em campo, duas coisas ficaram claras: a importância do brasileiro para o treinador e a força do elenco do Manchester City.

A vitória por 2 a 0, com o 12º gol do argentino na Premier League, e a atuação consistente em boa parte do jogo alçam os citizens à segunda colocação e afirmam a equipe como a grande candidata a buscar o Chelsea no topo da tabela. São oito pontos de diferença.

Além da distância na matemática, a equipe de Antonio Conte tem duas grandes vantagens para administrar a liderança. A primeira é ter menos clássicos a disputar: Manchester United fora na 33ª rodada e a “decisão” contra o City duas rodadas antes. Em casa.

Já o time de Guardiola enfrenta uma sequência pesada antes de encarar os Blues: Liverpool em casa e Arsenal fora. Sem contar o clássico de Manchester com data a definir. Na penúltima rodada ainda encara o atual campeão Leicester, que luta contra o rebaixamento e pode chegar com a corda no pescoço.

Além dos duelos, em tese, mais complicados nas treze rodadas que faltam, o City ainda tem a Champions League para dividir atenções. A começar pelo ofensivo Monaco, líder do campeonato francês. O Chelsea adoraria estar nas oitavas do torneio continental, mas a campanha pífia na temporada passada entrega agora um foco que pode ser decisivo. Inclusive para faturar a taça com algumas rodadas de antecedência.

Seja como for, a recuperação no desempenho do City que se reflete nos resultados é um alento para Guardiola. Sua equipe se ajustou no 4-3-3 com laterais mais fixos ou apoiando por dentro e dando liberdade para o quinteto ofensivo que cresce com Sterling e Sané nas pontas, De Bruyne e David Silva na articulação e Jesus ou Aguero no centro do ataque. Mais Yaya Touré chegando de trás.

A missão de entregar um time competitivo, com estilo definido, ofensivo e combinando intensidade e posse de bola começa a ser cumprida. O City está forte. Com ou sem Gabriel Jesus.


Apocalipse de Fábregas é “mimimi” pelo banco no Chelsea e não faz sentido
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André Rocha

Fabregas_Chelsea

“Hoje em dia é mais difícil para um jogador talentoso ter sucesso. Não sou forte a nível físico, não sou o mais rápido, não sou o mais forte, pelo que tenho de tentar estar à frente de outro modo. Sei que para ter sucesso hoje em dia é preciso ser muito forte, correr muito e isso não é fácil. O futebol está a mudar e cada dia que passa vemos menos talento e mais poder físico”.

Palavras de Cesc Fábregas à televisão oficial do Chelsea. Um nítido incômodo por estar na reserva de Matic e Kanté no 3-4-3 de Antonio Conte no time londrino. Uma crítica que se mostra sem sentido na prática. Como se o seu problema fosse o de todos os meio-campistas das principais equipes.

Como se o atual campeão europeu não tivesse Modric, Kroos ou mesmo Casemiro entre os titulares. Ou a recuperação do Manchester City na Premier League não fosse marcada pela efetivação no meio-campo de Yaya Touré, De Bruyne e David Silva. No meio-campo do Barcelona e do Bayern de Munique não há nenhum Kanté.

Tudo depende da proposta de jogo. No Chelsea de Conte, os zagueiros, especialmente David Luiz, são os responsáveis pelos passes longos de trás. Na frente, a criatividade fica por conta de Eden Hazard. Em contragolpes ou trabalhando em pequenos espaços quando os Blues ocupam o campo de ataque.

Com este estilo vertical, não há a necessidade de um meio-campista com características de “regista”, como Pirlo na própria Juventus de Conte, nem o “trequartista”, o meia criativo. Ou seja, não há vaga para Fábregas.

Mas o meia espanhol, antes de partir para a crítica direta, deveria refletir e lembrar que no Barcelona de Guardiola, Xavi e Iniesta, que privilegiava o talento, Fábregas também oscilou e não se firmou como titular absoluto e importante. E o treinador bem que tentou, inclusive tirando Messi da função de “falso nove”.

A equipe caiu de produção e os reveses para o Real Madrid de Mourinho desgastaram Guardiola. Sim, soa cruel responsabilizar Fábregas pela fase sem títulos. Mas, coincidência ou não, a equipe catalã voltou a vencer a Liga dos Campeões e a tríplice coroa exatamente na temporada depois da saída do meia para o Chelsea.

Há espaço para o talento e sempre haverá. Mas sem intensidade e consistência, a qualidade é praticamente inútil. Vide Ganso sem espaço no Sevilla. Fábregas não é tão lento, mas no modelo de jogo do Chelsea tem que aceitar, ao menos por enquanto, em ser uma opção de variação tática.

Sem apocalipse ou”mimimi”. Fica feio.


As cinco chaves da liderança absoluta do Chelsea de Conte no Inglês
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André Rocha

Crédito: Reuters

Crédito: Reuters

A derrota por 3 a 0 para o Arsenal no turno fez Antonio Conte mudar o desenho tático do Chelsea para o 5-4-1/3-4-3 que revolucionou o futebol jogado na Inglaterra e já faz eco em várias partes do mundo.

Os 3 a 1 no Stamford Bridge, ainda que o gol de Giroud no final tenha atrapalhado a devolução do placar clássico, é muito simbólico para a afirmação do melhor time da Premier League com sobras. Ainda mais com o golaço de Cesc Fábregas, ex-Arsenal, encobrindo Petr Cech, ex-Chelsea. Abrindo doze pontos na liderança, ao menos temporariamente.

É a equipe de Courtois, David Luiz, Diego Costa. Do forte trabalho coletivo. Mas a combinação de resultado e desempenho tão consistente tem cinco chaves:

Time adaptável – Em uma liga tão equilibrada como a inglesa é impossível disputar os 90 minutos de todas as partidas com uma mesma proposta de jogo. Em casa contra um time de menor investimento será preciso atacar em massa. Fora de casa diante de um rival direto na disputa do título, o trabalho defensivo é fundamental.

O Chelsea de Conte se comporta bem das duas formas. Defende num 5-4-1, desmembra-se num 3-4-3 quando faz a transição ofensiva. Sabe se instalar no campo de ataque, fazer pressão alta e rodar a bola se necessário, mas também joga de forma rápida, vertical e prática como ninguém hoje na Europa. Um “camaleão” muito duro de ser batido, também por seus personagens e virtudes.

Marcos Alonso – O espanhol tem rara leitura de jogo. Sabe se comportar como lateral e ala e, melhor do que Moses, o atacante adaptado do lado oposto, consegue se infiltrar na área adversária como elemento surpresa. Foi assim no primeiro gol sobre o Arsenal, em lance que derrubou o Bellerín com cotovelada – involuntária para este que escreve.

Defende como lateral fazendo diagonal de cobertura, abre o jogo como ala e aparece na área quando a jogada é criada do lado oposto. Fundamental.

N’Golo Kanté – O campeão Leicester luta para não cair nesta temporada, o Chelsea praticamente com a mesma equipe da temporada passada que não pontuou sequer para jogar a Liga Europa é líder com folga. Não pode ser acaso.

O volante francês é um fenômeno de condição física e leitura de jogo. Corre, desarma, antecipa, intercepta. Enche o meio-campo. Com a bola joga bem simples, o básico sem comprometer. Conduz a bola e entrega para os alas ou para o trio de ataque. Faz a diferença, mesmo sem talento.

Eden Hazard – A chave do sucesso ofensivo. Conte recuperou o craque da Premier League 2014/15 e hoje o belga é o ponta que volta para compor a linha de quatro no meio e quando recupera a bola é a reserva de talento da equipe.

Circula por todo ataque, procura Pedro ou Willian e Diego Costa. Consegue ser organizador, velocista e finalizador quando necessário. Com espaços é capaz de explodir como no golaço que praticamente decidiu o clássico londrino pulverizando o sistema defensivo dos Gunners. Desequilibra.

Sequência sem lesões e com menos jogos- A chave mais importante. Desde a mudança de sistema e afirmação de um time base, a formação se alterou muito pouco. Especialmente na última linha defensiva. No meio, Fábregas no lugar de Matic e Willian na vaga de Pedro e na ausência de Diego Costa.

A ausência nas competições europeias é algo que não se deseja para a imagem e o investimento dos Blues. Mas ajuda a não desgastar nem desviar o foco. Ainda mais em um calendário com duas copas nacionais e o futebol mais intenso do planeta. A proposta de jogo de Conte exige fisicamente e o elenco está voando.Uma grande vantagem em relação aos rivais.


Como Guardiola pode aproveitar Gabriel Jesus no Manchester City
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André Rocha

Gabriel Jesus City apresentacao

Gabriel Jesus estreou no time profissional do Palmeiras com 17 anos. Como grande promessa e esperança. Era um jogo do Paulista de 2015, 1 a 0 no Bragantino em uma noite de sábado, a sexta vitória seguida da equipe de Oswaldo de Oliveira. Mas a torcida exigiu a presença da joia da base, o treinador atendeu e o garoto respondeu com personalidade.

Na seleção olímpica encarou a cobrança de uma torcida carente pós 7 a 1 e tratando como obrigação a medalha de ouro em casa. Sofreu no início complicado, mas encarou e terminou como um dos destaques, marcando três gols. Missão cumprida com o título.

Caminho aberto para se afirmar na seleção principal. Estreia no primeiro jogo sob o comando de Tite. Camisa nove diante do Equador em Quito com o país cinco vezes campeão mundial na sexta colocação das eliminatórias. Uma tremenda fria que Jesus aqueceu com dois gols e bela atuação nos 3 a 0.

Agora o garoto que chega a Manchester como um talento a ser lapidado com calma por Pep Guardiola está pronto para estrear no City, logo no momento mais complicado na temporada. Tratado como solução aos 19 anos. Exatamente no confronto com a equipe que começou a situar o técnico catalão na Inglaterra: o ótimo Tottenham de Mauricio Pochettino, que encerrou a sequência de seis vitórias dos citizens no início da Premier League e está na vice-liderança.

É bem provável que Gabriel Jesus não inicie a partida no Etihad Stadium. Mas se o treinador precisar do brasileiro tem várias opções de posicionamento para o atacante.

A começar pela mais básica: no centro do ataque, como alternativa a Kun Aguero, que sofre com as oscilações da equipe. Jesus pode acrescentar mobilidade e visão de jogo. O passe para Neymar marcar o segundo gol brasileiro sobre a Argentina nos 3 a 0 do Mineirão é ótimo exemplo. O entendimento com Kevin De Bruyne, David Silva e ponteiros como Sterling, Sané e Nolito pode ser rápido.

É possível também fazer dupla com Aguero, circulando entre a defesa e o meio-campo, trocando com o argentino para confundir a retaguarda adversária. Mas Guardiola teria que abrir mão dos ponteiros para alargar o campo e usar De Bruyne e Silva como meias abertos e articuladores num 4-4-2.

A hipótese mais provável, ao menos para este início, é Jesus na ponta esquerda, como na Olimpíada, infiltrando em diagonal. O brasileiro também atuou assim com Marcelo Oliveira, antes da chegada de Cuca. Só necessitaria de uma adaptação às ideias de Guardiola para os pontas, inclusive na pressão no campo de ataque e na recomposição.

Difícil é entender por que Guardiola, sem Fernando, Fernandinho e Gundogan, não resgata a ideia do início da liga com Bruyne e Silva como meio-campistas de área a área. Marcando e jogando. Para acionar o ataque, inclusive Jesus.

Tudo questão de tempo, paciência e trabalho com um técnico que tem muito a acrescentar ao enorme potencial do jovem avante. A camisa 33 pode começar a fazer história em Manchester já neste sábado.

Pep Guardiola pode utilizar Gabriel Jesus atuando pela esquerda , como no Palmeiras antes de Cuca e na seleção olímpica. Infiltrando em diagonal e voltando para fechar espaços na recomposição (Tactical Pad).

Pep Guardiola pode utilizar Gabriel Jesus atuando pela esquerda , como no Palmeiras antes de Cuca e na seleção olímpica. Infiltrando em diagonal e voltando para fechar espaços na recomposição (Tactical Pad).

 


Ritmo da Premier League é o maior inimigo de Guardiola na Inglaterra
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André Rocha

Guardiola_City_crise

No eterno Fla-Flu do “Guardiolismo”, os detratores dirão que acabou a moleza, o campeonato inglês é mais equilibrado, tem melhores times e Barcelona e Bayern sobravam porque jogavam contra equipes bem mais fracas. E talvez tenham alguma razão.

Já os fãs incondicionais do técnico catalão defenderão alegando que a culpa é do pouco tempo de trabalho para implementar sua filosofia e dos erros individuais dos jogadores do Manchester City, que não estão no mesmo nível de excelência dos atletas que o técnico comandou anteriormente. Não estão errados.

Difícil encontrar apenas uma razão para justificar o mau momento do City de Guardiola na Inglaterra depois do ótimo início, de seis vitórias seguidas e a liderança da liga. Mas ao cruzar a visão de futebol do treinador e o que se vê nos campos da Inglaterra é possível afirmar que o maior inimigo até aqui é o ritmo da Premier League.

É algo difícil de quantificar mas que salta aos olhos. O jogo na Inglaterra tem técnica e variações táticas, mas não permite tanta fluidez. É naturalmente caótico. As transições são muito rápidas, saindo das zonas de perigo no próprio campo. Induz as disputas físicas. A pressão no homem da bola é constante. Há mais choques e a arbitragem não marca falta em qualquer contato.

Guardiola constroi seu jogo posicional com passes desde a defesa, com calma, até se instalar no campo de ataque com praticamente todos os jogadores. Na perda da bola, pressão imediata para retomar a posse em não mais que dez segundos.

Como fazer isso se o fluxo é quebrado na pressão, no choque ou na bola longa mais bem planejada e executada, focada no rebote? A saída de bola fica “suja”, os setores não se aproximam. Ou seja, é praticamente impossível ditar este ritmo. A essência do plano de Guardiola.

No Barça era Xavi quem controlava o tempo do jogo. As sístoles e diástoles do coração da equipe. No Bayern era Lahm. Primeiro no meio, depois como um lateral que jogava por dentro, participando na articulação. No City, Guardiola tentou com Fernandinho, Gundogan, David Silva, Yaya Touré. Sem sucesso, porém. E a questão não é a qualidade individual dos meio-campistas.

Simplesmente não há controle. No início, o time azul de Manchester surpreendeu com as novas ideias e pelo ritmo intenso que impôs, até pela necessidade de uma resposta rápida nos playoffs da Liga dos Campeões contra o Steaua Bucareste. Depois o time passou a ser estudado e o ritmo alucinante da Premier League acompanhou a intensidade do City.

Guardiola vai tentando se adaptar. Primeiro buscando criar superioridade numérica no meio com três zagueiros e Fernandinho e Gundogan qualificando o início da construção das jogadas. Na virada sobre o Barcelona pela Champions, a pressão absurda no campo de ataque e o contragolpe letal.

Nas derrotas para Chelsea, Leicester e agora Everton, os erros técnicos prejudicaram. Especialmente no passe que vira assistência ou na finalização. Mas a saída de bola continua sendo a questão mais complexa. Guardiola tenta acelerar, fazer a bola chegar mais rapidamente no campo de ataque para então fazer o jogo posicional.

Mas para isso é preciso espaçar mais os setores. Os laterais e os meio-campistas se adiantam para tornar o processo menos suscetível a erros. Só que deixam os zagueiros desprotegidos. Um equívoco e a retaguarda está exposta.

Qual a saída? Voltar à essência de suas ideias ou ceder totalmente e virar um técnico comum dentro do contexto da Premier League? Afinal, para que Guardiola foi contratado? Impor estilo ou aceitar a impotência diante do ritmo do jogo na Inglaterra?

Antonio Conte começou mantendo o padrão do Chelsea e fez sua equipe voar até a liderança colocando suas ideias. Só que a filosofia do treinador italiano é mais simples e flexível. Gosta de bolas longas, disputas físicas e na velocidade em todos os pedaços do campo. A solidez da linha de cinco atrás é uma diferença a favor.

O catalão está emparedado. Para piorar, a pressão e a visibilidade sobre o técnico mais estudado do planeta em um clube sem a história gloriosa de Barcelona e Bayern. Com mais equilíbrio, menos craques. Pouco tempo de trabalho. Fãs e detratores não deixam de ter razão.

Difícil é encontrar uma saída para Pep Guardiola voltar a acertar.

 

 

 


David Luiz não é líbero, nem sobra no Chelsea e pode voltar à seleção
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André Rocha

David Luiz Chelsea

Bastou o técnico Antonio Conte utilizar o esquema com três defensores e encaixar David Luiz na zaga do Chelsea para começar a surgir aqui e ali a tese de que o brasileiro está rendendo porque atua protegido como líbero ou zagueiro de sobra.

Nem uma coisa, nem outra. Os Blues se defendem no 5-4-1, com a linha de cinco atrás formada por Moses, Azpilicueta, David Luiz, Cahill e Alonso. Marcam por zona, posicionados. Não é raro observar a equipe ser atacada pelo seu lado esquerdo e Alonso sair no combate, Cahill ficar na cobertura, Azpilicueta e David Luiz guardarem a área e Moses, o ala/ponta aparecer como lateral na diagonal de cobertura. Ou seja, a sobra naquela ação defensiva. O último homem a bloquear o ataque adversário.

De fato, David Luiz vem atuando mais protegido. Inclusive por ele mesmo, sem as saídas tresloucadas da defesa e um sistema de cobertura, tanto para armar o jogo quanto caçar os atacantes na intermediária. Conte usa a rapidez do zagueiro nas recuperações e coberturas e aproveita seu passe longo para acionar os atacantes de forma mais direta e prática.

Mas não é líbero. Para entender melhor é preciso resgatar os conceitos e a história desta função.

O primeiro time que se tem notícia de usar um jogador atrás da linha defensiva foi a Suíça do austríaco Karl Rappan na Copa de 1938, que eliminou a Alemanha de Hitler com seu “ferrolho”, espécie de 5-4-1. A estratégia, junto aos aspectos táticos do “Metodo” de Vittorio Pozzo nos títulos mundiais italianos de 1934 e 1938, formou a base do “Catenaccio” que Nereo Rocco implantou na Triestina, depois Milan nos anos 1940, e Helenio Herrera consagrou na Internazionale bicampeã europeia nos anos 1960.

O raciocínio era simples: em tempos de marcação individual e WM (3-2-2-3), três defensores cuidavam do trio de ataque. Pela direita, o “terzino destro” cuidava do ponta-esquerda, no centro o “stopper” marcava o centroavante e o “terzino sinistro” pegava o ponta-direita. Ou seja, uma vitória pessoal do atacante e só sobrava o goleiro.

O “libero” jogava na sobra da retaguarda. Mas com uma função primordial: aproveitar essa liberdade na construção do jogo. Se cada um pegasse o seu, quem marcaria esse jogador de trás? Era a chance de quebrar o sistema defensivo do adversário.

Apesar da origem italiana e a excelência de nomes como Giovani Trapattoni, Ivano Blason, Armando Picchi, Gaetano Scirea e Franco Baresi, ninguém exerceu melhor a função que um alemão: Franz Beckenbauer. Saiu do meio para estar em todo o campo, na seleção e no Bayern de Munique. Mas inspirado em um outro jogador da Azzurra: Giacinto Facchetti, lateral esquerdo da Internazionale e vice-campeão mundial em 1970.

“Ele marcava bem e atacava ainda melhor quando se projetava à frente, pela lateral. Pensei, então, que atuando atrás dos zagueiros, saindo para o jogo, eu teria a vantagem de atacar pelos dois lados”, lembra o Kaiser (trecho do livro “As Melhores Seleções Estrangeiras de Todos os Tempos”, de Mauro Beting).

David Luiz também não é zagueiro de sobra. Função que se confunde com o líbero no Brasil, especialmente depois da criação do sistema com três zagueiros nos anos 1980. Tempos também de marcação individual. Já que quase todos atuavam com dois atacantes, cada um era vigiado por um defensor e outro sobrava.

Brown na Argentina de Bilardo jogava atrás de Cuciuffo e Ruggeri, só aparecia no ataque em bolas paradas – como no gol da final da Copa de 1986 sobre a Alemanha. Já Morten Olsen na Dinamarca de Sepp Piontek, era o primeiro articulador, iniciando a saída de bola e aparecendo na frente.

Na seleção brasileira da Copa de 1990, com Sebastião Lazaroni, Mauro Galvão era chamado de líbero e, no ano anterior, chegou a ser comparado a Baresi pelas ótimas atuações com a camisa canarinho. Mas atuava na sobra.

“Era uma função diferente. Eu e os outros dois zagueiros tínhamos que cobrir os laterais, então eu não saía muito, ficava mais fixo”, explica o ex-defensor e agora técnico.

Valdir Espinosa, treinador de Galvão no Botafogo, lembra que no time campeão carioca de 1989, depois de 21 anos de jejum, o zagueiro cumpria mais a função de líbero: “No Botafogo ele armava o time de trás e tinha a cobertura do volante Carlos Alberto Santos. Eu repeti naquela equipe o que fiz no Grêmio campeão da Libertadores e Mundial em 1983: Hugo De Leon subia e o volante China ficava. Isso, sim, é ser líbero”.

Outros brasileiros atuaram desta forma, como Marinho Peres, no Barcelona de Rinus Michels e no Internacional de Rubens Minelli nos anos 1970, e Luis Pereira no Palmeiras no mesmo período e no início dos anos 1980. Todos inspirados em Beckenbauer. Marcando e armando o jogo.

David Luiz até cumpre as duas funções, mas em outro sistema, outra dinâmica. Atuando com mesma seriedade e simplicidade, pode voltar à seleção brasileira. Como opção, claro. Se até Thiago Silva precisa esperar sua vez por conta do ótimo momento de Marquinhos e Miranda sob o comando de Tite, imagine quem tem no currículo atuações pluripatéticas, como nos 7 a 1, tentando bancar o heroi, e no empate contra o Uruguai pelas eliminatórias, sofrendo como quase sempre contra Luis Suárez.

No 4-1-4-1 bem executado e com Casemiro na proteção, David Luiz pode simplesmente ser um defensor. Que cresce quando não se arrisca. Como no Chelsea das 12 vitórias seguidas e apenas dois gols sofridos nesta sequência de triunfos. Como sempre deveria ter sido.


Os extremismos no Brasil do Fla-Flu quando o assunto é Guardiola
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André Rocha

Guardiola_City_2016

No país em que quase sempre se avalia unicamente o resultado final, onde o segundo colocado é o “primeiro dos últimos”, fica bastante complicado elogiar algum profissional por ter colaborado com a evolução do futebol nos últimos anos. Ainda mais quando ele também conseguiu grandes resultados, o que “contamina” a análise.

Pep Guardiola já está na história. Não por ter reinventado o esporte, mas pela coragem de atualizar e combinar ideias de Cruyff, Van Gaal, Sacchi, Bielsa, La Volpe, Lillo e tantos outros logo em seu primeiro trabalho num grande clube. Com o sucesso imediato do Barcelona com modelo de jogo posicional, baseado na posse de bola e na marcação por pressão no campo de ataque, provocou os demais a encontrarem antídotos ou novas combinações que levaram o jogo a outro nível.

Mas por aqui a discussão costuma terminar em “ganhar ou perder”. E a valorização do treinador catalão mexe com alguns preconceitos. O raciocínio básico: como no esporte dos craques, em que o técnico só precisa distribuir as camisas e não atrapalhar, o treinador pode ter tanta visibilidade? E logo vindo da Espanha, que até outro dia não tinha nenhum título relevante.

Para piorar, a lenda urbana que Pep roubou as ideias da essência do nosso jogo. Porque na cabeça de muita gente ninguém pode se propor a praticar um futebol de troca de passes e ofensivo sem copiar o brasileiro. A velha arrogância que tanto trava o nosso progresso.

A ponto de distorcerem uma declaração diplomática depois da surra sobre o Santos no Mundial de 2011 –  um breve comentário sobre o Brasil a que seus pais e avós se referiam – e dizer que o Brasil é sua referência. Não é, nunca foi. Leia mais AQUI.

E aí quando Renato Gaúcho aparece dizendo que não precisa estudar e que treinar os times milionários da Europa é fácil há uma vibração incontida, inclusive de colegas jornalistas. Com todo respeito que todos merecem, é como se pensassem que eles também nada precisam aprender e podem seguir vendo e analisando o futebol com a lógica de 20 ou 30 anos atrás.

Não podem, ou ao menos não deveriam. E Guardiola é o “culpado”. Por isso o êxtase coletivo nas redes sociais a cada derrota ou má fase dos times do treinador.

Em resposta, os admiradores dos conceitos do técnico, diante de tanta perseguição de quem normalmente não entende o mínimo da evolução do jogo, construíram uma espécie de trincheira de defesa incondicional. Guardiola não erra, não fracassa. Criam uma aura de infalibilidade e transferem a responsabilidade para time, clube, imprensa. Menos quem toma as decisões em relação ao que se faz dentro de campo.

Para este que escreve, Guardiola é genial, o melhor treinador do mundo desde sua primeira temporada e tem enorme mérito por permanecer inquieto, aprendendo, se adaptando. Mas ele também se equivoca.

No Bayern, fracassou ao não vencer a Champions em três temporadas. É importante lembrar o contexto de sua contratação pelo time bávaro, em janeiro de 2013: derrotas doídas no torneio continental, inclusive uma final em casa para o Chelsea e perda da hegemonia na Alemanha para o Borussia Dortmund de Jurgen Klopp.

Depois venceram tudo com Jupp Heynckes e o plano original, de mudar a ideia de futebol do clube para voltar a ser vencedor, teve que ser repensada. E aí vem outra crítica injusta: a de que é um “engenheiro de obra pronta”.

Como se o Barcelona que recebeu de Rijkaard em 2008 fosse uma máquina. Como se ele não tivesse defenestrado Ronaldinho e Deco do clube para proteger Messi. Como se o argentino não tivesse evoluído brutalmente sob seu comando, assim como Xavi, Iniesta, Daniel Alves e outros. O mesmo no Bayern com Robben, Douglas Costa, Xabi Alonso, Lahm…

A meta em Munique, porém, era conquistar o continente. Chegou às semifinais nas três edições e não caiu para times ordinários: o Real do trio BBC, o Barça de Messi, Suárez e Neymar, o Atlético de Madrid de Simeone. Venceu e sobrou na Bundesliga, influenciou e foi afetado pelo jeito alemão de pensar futebol. Cresceu, amadureceu. Mas saiu sem cumprir integralmente o projeto.

Agora no Manchester City pena para ajustar suas ideias ao ritmo e à intensidade da Premier League. Testa, experimenta, acerta e erra. Como foi infeliz no primeiro tempo da vitória por 2 a 1 sobre o Arsenal no Etihad Stadium. Optou de início por abrir Sané pela direita, fazer David Silva circular a partir da esquerda e enfiar Sterling como o atacante mais avançado.

O velocista inglês perdeu gol feito que podia ter empatado logo depois do tento de Walcott que abriu o placar. Os citizens ocuparam o campo de ataque e tiveram mais posse de bola. Faltou efetividade na frente e mais volume de jogo.

Depois de 45 minutos praticamente perdidos em termos de produção ofensiva, as mudanças óbvias: Sterling foi enviado à ponta direita, Sané trocou de lado e o centro da articulação ficou para De Bruyne, David Silva e a aproximação de Yaya Touré. O mais lógico.

O meio ganhou qualidade e os ponteiros espaços para explorar as diagonais. Uma de Sané, outra de Sterling após passe primoroso de Kevin De Bruyne. Dois gols e a virada. Todos cresceram com a nova distribuição em campo, três pontos fundamentais para não permitir que o Chelsea dispare tanto na ponta da tabela.

Guardiola experimentou sem sucesso e teve o mérito de corrigir a tempo. Assim como reconsiderou a utilização de um Yaya Touré recondicionado fisicamente e disposto a mostrar que ainda pode ser útil. Errou, corrigiu a rota. Simples assim.

Nem “puro marketing”, nem gênio da raça, uma santidade. Apenas um treinador. Humano, cheio de dúvidas como o próprio afirmou em entrevista recente. Que não tem seu valor condicionado apenas aos títulos.

Sem extremismos no Fla-Flu nosso de cada dia, até quando o assunto é o catalão Pep Guardiola.