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Há tanta coisa errada no São Paulo que Dorival não pode ser o único culpado
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André Rocha

Um clube está errado em sua gestão de futebol quando aposta todas as fichas no maior ídolo recém aposentado para ser o treinador na fé de funcionar como um escudo para a instabilidade política ou o fenômeno que em sua primeira experiência na nova função vai reproduzir fora do campo a excelência e as conquistas que alcançou dentro;

Uma direção está mais que equivocada quando começa a tomar decisões políticas e populistas recrutando craques carismáticos de tempos gloriosos como se num passo de mágica estes transferissem a mentalidade vencedora e a qualidade como atleta. Pela simples presença;

Uma instituição se perde quando não se nota mais sua identidade, a imagem construída ao longo de décadas que faz todos os agentes atuarem dentro de uma linha de conduta sintonizada com os próprios valores. Organização e força competitiva.

O São Paulo hoje é um clube morno. Não encontrou o fundo do poço para buscar a redenção, mas também não há uma força motriz para voltar a ser forte. Muito menos temido. Entrou no bloco médio do futebol brasileiro – aqueles que ora flertam com vaga na Libertadores, ora sofrem com a sombra do Z-4 e do rebaixamento.

Torcida, dirigentes, dirigentes-torcedores, imprensa, jornalistas-torcedores…todos olham para trás em busca de uma referência em um futebol que na prática não existe mais. Nem o de Telê Santana, nem o de Muricy Ramalho. O esporte evoluiu e é preciso se adequar, não buscar fórmulas que deram certo em outros contextos.

Mas é mais fácil descontar no treinador. Logo ele que sucedeu Rogério Ceni. Com imagem mais associada ao Santos pela carreira e ao Palmeiras pelo passado como jogador e laços familiares. Dorival Júnior recebeu um legado complexo. Há tanta coisa errada que ele não pode ser o único culpado.

Mas tem sua cota de responsabilidade. Inegável. Em 2018, particularmente, por abandonar o planejamento inicial de usar mais reservas e jovens da base no início do Paulista para buscar aos poucos o ajuste da equipe. Com a derrota na estreia para o São Bento cedeu às pressões dos que se contentam com o estadual para acabar com a seca de títulos desde a Sul-Americana de 2012 e queriam os titulares o mais rápido possível.

Depois Dorival errou ao virar as costas para sua essência. Em toda a sua trajetória conseguiu bons trabalhos com times jovens, rápidos e envolventes. O que se vê em campo é uma equipe lenta, que pena para abrigar Nenê e Diego Souza em um quarteto ofensivo. Jogadores que hoje precisam de uma dinâmica em função deles pois entregam pouca intensidade com e sem a bola. Com eles juntos o tricolor está vagaroso, apesar dos esforços de treinador e atletas para buscar o encaixe.

A proposta de Dorival de ter a bola não conta com o momento de aceleração no terço final do campo. Pior: defensivamente as falhas são grotescas de um conjunto frágil que expõe a retaguarda que joga adiantada. Sem pressionar o adversário com a bola é letal. E o São Paulo morreu em Itu nos 2 a 1 que não complicam a situação na tabela do Paulista, mas alimentam o clima bélico, de caça às bruxas.

Cueva fez o gol são-paulino, é um dos poucos a tentar colocar velocidade nas transições ofensivas. Mas pelos problemas disciplinares do começo do ano e pelo pênalti perdido no último lance em Itu deve ser o bode expiatório da vez. O vilão de uma história sem mocinho.

Péssimo retrospecto nos últimos clássicos estaduais, ver os rivais Palmeiras e Corinthians vencendo as principais competições do país e o Santos até o ano passado dominando o Paulista. Não é um cenário agradável para a autoestima do são-paulino. A pior notícia é que ele mesmo não se ajuda para sair de uma crise que parece ter feito o clube perder o norte.

Hoje os dedos apontam para só um culpado. Quem será o messias da vez para a missão inglória e quase impossível de consertar tantos erros acumulados?


Livre, leve e solto. Gabigol encontra no Santos o que lhe negaram na Europa
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André Rocha

Foto: Rafael Arbex/Estadão

Gabriel Barbosa já foi às redes três vezes no seu retorno ao Santos. Uma por partida. Mais que as duas em um ano e meio da frustrada experiência no futebol europeu – um gol pela Internazionale em dez jogos e outro pelo Benfica nas cinco vezes em que esteve em campo.

O encaixe praticamente imediato no time de Jair Ventura na volta ao Brasil tem pouco ou nada a ver com a tradicional “saudade do feijão”. O fato é que ele reencontrou na Vila Belmiro o que lhe foi negado no Velho Continente, mesmo em ligas que não estão entre as mais qualificadas e competitivas: uma equipe que jogue em função dele.

Além de não lidar bem com a reserva, outra crítica, velada ou não, que o “Gabigol” recebia de treinadores e até companheiros era a deficiência na leitura de jogo. Sem contar a pouca dedicação no trabalho sem bola. Algo já notado nos Jogos Olímpicos, quando o atacante fazia o lado direito e falhava na recomposição. Não comprometeu na conquista da sonhada medalha de ouro, mas foi o que menos se destacou no quarteto com Gabriel Jesus, Neymar e Luan.

Diante de adversários com linhas compactas fechando a área, Gabriel não conseguia ler os espaços para atacar nem buscar o jogo associativo fazendo parede para seus companheiros. Seu estilo é de receber e já partir para a conclusão. Sem muito trabalho coletivo. Ou só da equipe para serví-lo.

Para isto precisa de liberdade total. Como é talentoso, mas não um fora de série, na Itália e em Portugal não aceitaram conceder a ele este “mimo”.  Mas por aqui pode fazer a diferença. Não por acaso, Jair Ventura deixa Gabriel solto na frente. Na vitória sobre o São Paulo por 1 a 0 no Morumbi, com Eduardo Sasha pela direita, Copete à esquerda e Vecchio centralizado na linha de meias do 4-2-3-1.  Para marcar o gol único do clássico em chute preciso no canto direito de Sidão.

São dez finalizações até agora. Oito dentro da área e duas fora. Todas com a canhota que ainda pode ficar mais calibrada com a sequência de jogos. Confiança do comandante não falta: “É o jogador que salva a vida do treinador”, exaltou Jair depois do “San-São”.  No  futebol brasileiro a tendência é desequilibrar mesmo.

Porque Gabriel está como quer. Livre, leve e solto.

 

 


O que Vasco e São Paulo ganham e perdem com a transferência de Nenê
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André Rocha

Quatro minutos no Morumbi. Nenê arranca pela esquerda, chega antes na bola e é derrubado na área do Bragantino. Cobrança precisa de pênalti e vitória do São Paulo no Paulista em mais uma atuação inconsistente. Muito pela nova formação que ainda busca um ajuste com duas peças novas – Diego Souza também entrou no quarteto ofensivo fazendo companhia a Marcos Guilherme e Cueva.

O encaixe e a combinação de características são complicadas para Dorival Júnior. Também porque Nenê não entrega intensidade por muito tempo nas partidas. É importante pelo talento, a personalidade para definir jogos, a liderança e a precisão nas bolas paradas. Mas para ser titular e ainda atuando pelo lado, no caso o esquerdo, fica difícil para o camisa sete de 36 anos.

O Vasco não contava em perder sua referência técnica, fundamental em jogos que ajudaram a colocar o Vasco na Libertadores, ainda que nas etapas anteriores à fase de grupos. Eficiência em faltas, escanteios e penalidades máximas.

Mas Zé Ricardo vai encontrando aos poucos no elenco após as muitas baixas algumas soluções para tornar a equipe competitiva. Além do mais que promissor Ricardo Graça herdando a vaga na defesa de Anderson Martins e o volante argentino Desábato melhorando o passe na saída de bola em relação a Jean, Evander entrou muito bem na execução do 4-2-3-1 cruzmaltino.

Talvez a equipe sinta falta de um jogador no meio-campo para variar o ritmo – embora Wagner venha cumprindo essa função como um ponta armador preferencialmente pela direita. Mas o novo camisa dez entrega mais dinâmica, participação sem a bola muitas vezes alinhado a Wellington à frente de Desábato e eficiência nas finalizações. É meia que pisa na área adversária.

Mesmo considerando a fragilidade da Universidad de Concepción no primeiro desafio na Libertadores e a eliminação na Taça Guanabara em meio ao caos político e as saídas dos jogadores, a impressão que fica é de que com calma e tempo para trabalhar Zé Ricardo terá condições de entregar um Vasco competitivo. Ainda que possa faltar um Nenê.

Paradoxalmente, o São Paulo que agora tem o meia, uma solução individual,  recebe no “kit” também um problema coletivo. Perdas e ganhos de um futebol complexo, sem receita de bolo.


Só os 100% garantem a paz de Roger Machado no Palmeiras?
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André Rocha

O Palmeiras precisou de oito minutos de pressão e alta intensidade no Allianz Parque para marcar os gols de Antônio Carlos, aos três do primeiro tempo, e Borja aos cinco do segundo, que garantiram a vitória por 2 a 1 sobre o Santos no primeiro clássico do time em 2018. Aos sete da primeira etapa ainda carimbou a trave de Vanderlei na cobrança de falta de Lucas Lima em sua primeira partida contra o ex-clube.

Mas depois o time de Roger Machado abdicou um pouco do seu jogo, permitindo que o Santos tivesse a bola – terminou com 52% de posse, segundo o Footstats –  e ocupasse o campo de ataque. Mesmo finalizando dez vezes contra sete do rival, a postura cautelosa parece muito focada no resultado, que tinha sua importância, mas neste início de temporada não deve ser tratado como prioridade.

Mais valia seguir exercitando a saída de bola com Felipe Melo, o grande destaque individual neste início de trabalho, se juntando aos zagueiros Antônio Carlos e Thiago Martins e liberando os laterais Marcos Rocha e Victor Luís. Ou a troca de Lucas Lima e Tche Tche, com o meia recuando para qualificar o passe e o volante se aproximando do trio de ataque para acelerar as ações no último terço do campo.

Só que Roger sabe que precisa dos resultados para ganhar confiança. O time necessita, mas ele principalmente. “Se as coisas não acontecerem serei cobrado”, disse na coletiva depois do jogo. Escaldado pelo que aconteceu com Eduardo Baptista, ainda que agora não tenha uma sombra do tamanho da de Cuca, que esmagou seu sucessor/antecessor em 2017.

Precisa ser assim sempre? Por mais que time grande, ainda mais com tamanho investimento, viva de vitórias, será que é tão fundamental assim jogar por resultado na quinta partida do ano? Só os 100% garantem a paz do treinador para trabalhar?

Em março de 2015, o Santos venceu o Palmeiras pelos mesmos 2 a 1. Quem lembra deste primeiro clássico, ou mesmo da conquista do Paulista pelo alvinegro praiano nos pênaltis se na final mais importante, a da Copa do Brasil, o alviverde foi o campeão superando o rival? O mesmo vale para a semifinal do estadual em 2016. O Santos levou, mas o palmeirense não vai tratar como um fracasso no ano em que voltou a ser campeão brasileiro depois de 22 anos.

Será que vale dar ouvidos à histeria imediatista de torcedor e parte da imprensa sacrificando a oportunidade de exercitar o modelo de jogo que busca o protagonismo durante os noventa minutos e fazer experiências no estadual em nome dos três pontos que nem eram tão fundamentais assim, já que mesmo com derrota o time seguiria líder do Grupo C?

Impossível não lembrar de Dunga em sua segunda passagem pela CBF em 2014 como treinador. Vitórias em amistosos tratados como verdadeiras finais para “resgatar a imagem do futebol brasileiro” depois dos 7 a 1. De que valeu se no início da disputa das eliminatórias e nas edições da Copa América sua equipe fracassou em desempenho e resultados, fazendo a seleção brasileira perder dois anos de trabalho que podem custar caro a Tite na Rússia?

O próprio Roger teve experiência amarga no Atlético Mineiro. Campeão mineiro, melhor time da primeira fase da Libertadores. O treinador falou em “respaldo para trabalhar”. Mas bastou um começo hesitante no Brasileiro emendado com o vacilo contra o Jorge Wilstermann nas oitavas da Libertadores para vir a demissão. De que serviu o bom primeiro semestre se no dia 20 de julho estava desempregado?

O Palmeiras não precisa estar pronto agora. Pode dar mais minutos para Willian, Borja e Dudu afinarem a sintonia, com o camisa sete agora mais articulador acionando os dois companheiros finalizadores. E quando os ponteiros buscam a diagonal, Tche Tche aparece no espaço para buscar o fundo do campo, alternando com os laterais. Movimentos que precisam ganhar naturalidade até a estreia na Libertadores.

Sem essa urgência insana por vitórias. Quem vai lembrar no final do ano que o time era o único 100% da Série A nos cinco primeiros jogos da temporada se a equipe não for bem nas competições mais importantes?

Não é querer ser “parnasiano”, “romântico” ou “moderninho” por “desprezar” o resultado. Muito menos desrespeitar a história de um dos clássicos mais tradicionais do nosso futebol. Só uma questão de lógica. Estadual é sequência de pré-temporada. A evolução pensando no futuro vale mais que os pontos ganhos hoje. Ou deveria valer.

 


Cultura da vitória ajuda Corinthians quando falta futebol
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André Rocha

Não deixou de ser decepcionante que o Corinthians, logo quando escalou de início Júnior Dutra de início na vaga de Kazim junto à base titular, tenha apresentado um desempenho coletivo pouco satisfatório.

Muito por méritos do Novorizontino de Doriva, bem organizado, negando espaços a Rodriguinho e Jadson e atacando o setor de Fágner com a velocidade de Juninho, especialmente no primeiro tempo. Com Clayson errando até jogadas simples, Romero era o único escape pelo flanco na execução do 4-1-4-1. Mas quando o paraguaio serviu Rodriguinho na primeira jogada bem trabalhada, o meia perdeu gol feito.

Já Pedro Henrique não desperdiçou sua chance na bola parada. Típico gol da vitória sofrida, administrada com calma e, claro, a confiança adquirida com os títulos recentes. Quando falta futebol, o atual campeão brasileiro e paulista se impõe na mentalidade vencedora, na segurança que transmite e no respeito que desperta nos adversários.

Três pontos apesar dos 52% de posse e das oito finalizações do time da casa contra seis dos visitantes. Mesmo com a impressão durante boa parte dos 90 minutos que o gol do Novorizontino estava “maduro”. Ainda que Emerson Sheik pouco tenha contribuído quando entrou na segunda etapa. Virou moda dizer que o Corinthians “sabe sofrer”. Na prática, não passa de experiência em jogar controlando os espaços.

Ainda há muito a evoluir – clichê inevitável pelo ridículo período de pré-temporada. A equipe de Fabio Carille já mostra organização e movimentos assimilados desde o ano passado. Falta mais fluência, consistência, regularidade. Deve vir com o tempo.

Por ora, quando falta futebol a cultura da vitória ajuda a descomplicar jogos como em Novo Horizonte.

 


Golaço é a mostra de que vale o “risco Jadson-Rodriguinho” no Corinthians
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André Rocha

Foto: Gazeta Press

Juninho Capixaba conduz a bola aberto pela esquerda. Kazim não está na referência do ataque, mas Rodriguinho, que recebe o passe do novo titular da lateral e serve Jadson. Um golaço pela jogada coletiva logo no primeiro minuto do Majestoso no Pacaembu. Com seis jogadores chegando ao ataque.

Flagrante da jogada iniciada pela esquerda com Juninho Capixaba e a bola chegando em Rodriguinho mais na referência do que Kazim. Jadson infiltra pela meia esquerda para marcar o primeiro gol no Majestoso. Seis corintianos no campo de ataque (Reprodução Premiere)

A vitória corintiana por 2 a 1 foi decretada na impulsão e no golpe certeiro de Balbuena após o empate tricolor com Brenner. Em um universo de 62% de posse e dez finalizações são-paulinas contra sete. Mas o time de Fabio Carille teve momentos de belas trocas de passes e jogadas que envolveram o sistema defensivo do rival. Apesar dos erros grosseiros, até bizarros, de Kazim.

Porque o Corinthians agora tem mais qualidade entre as intermediárias com a dupla de meias. Não só na articulação como nas infiltrações por dentro, pelo “funil”. Mais difíceis de conter do que as diagonais dos ponteiros Romero e Clayson, peças fundamentais na compensação dessa perda na proteção da defesa pelo meio com a saída de um volante e a presença de meias não tão intensos no trabalho sem a bola.

O esperado nesta execução do 4-1-4-1 é que os pontas joguem de uma linha de fundo à outra para permitir que a última linha de defesa fique mais estreita, com os laterais Fagner e Capixaba próximos aos zagueiros Balbuena e Pedro Henrique. Bloqueando mais o meio que os flancos. Com isso, Gabriel pode ficar mais fixo no centro, sem tantos deslocamentos para as coberturas.

Mas há efeitos colaterais, como no gol de Brenner, que completou o centro de Militão, em mais uma jogada no setor de Capixaba, com a bola encontrando o atacante fechando apenas para concluir. Fagner estava mais por dentro e não conseguiu alcançar. Mérito do ataque, mas também falha da retaguarda.

No gol do São Paulo, última linha do Corinthians estreita bloqueando o lado direito do ataque do São Paulo, mas o passe de Militão encontrou Brenner mais aberto e Fagner, por dentro, não conseguiu alcançar. Mérito do ataque do São Paulo, mas também um problema de posicionamento que necessita de ajuste (Reprodução Premiere)

Questão de acerto no posicionamento e na dinâmica da transição defensiva. Mas o ganho no volume e na fluência do jogo corintiano já é sensível. Como já dito neste blog, esta formação equilibra passe e velocidade. O campeão brasileiro joga melhor. E pode render ainda mais se encaixar um atacante com um mínimo de sintonia com os dois meias. Entre as peças disponíveis hoje deve ser Júnior Dutra.

Carille já afirmou que a volta ao 4-2-3-1 pode acontecer a qualquer momento, especialmente em jogos fora de casa pela Libertadores. Mas está provado que vale o “risco Jadson-Rodriguinho”. Não para “jogar bonito”, mas sim por representar uma evolução do atual treinador, se aproximando mais do modelo de jogo de Tite no Corinthians em 2015.

(Estatísticas: Footstats)


As vitórias “no isotônico” de Corinthians, São Paulo, Santos e Palmeiras
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André Rocha

Gol de Clayson aos 37 minutos do segundo tempo, dez minutos depois de entrar em campo, na virada do Corinthians sobre a Ferroviária no Pacaembu. Diego Souza marcou o primeiro gol do São Paulo em 2018 aos 38 da segunda etapa e Marcos Guilherme fechou a conta aos 44 fora de casa contra o Mirassol.

O jovem Rodrygo, de 17 anos, saiu do banco para, em seu quarto jogo como profissional, ir às redes e decretar a virada do Santos por 2 a 1 sobre a Ponte Preta em Campinas. Já no Allianz Parque o heroi improvável foi Thiago Santos, volante que marcou duas vezes para o Palmeiras sobre o Red Bull Brasil. O decisivo aos 42 minutos da etapa final.

Três viradas e uma que também pode ser considerada, pela pressão que já vivia o tricolor do Morumbi. Nada incomum em estaduais, especialmente no início. Pelo melhor preparo dos times de menor investimento, que começam a treinar antes, no final do ano anterior. Mas que acabam sucumbindo nos últimos minutos.

Não só pelo apoio das torcidas dos times grandes, do peso da camisa, do elenco mais numeroso e qualificado e outras questões mais ou menos subjetivas. Muitas vezes é o que se costuma chamar no futebol de vitória “no isotônico”. Ou seja, a vantagem na estrutura se faz presente na reta final da partida.

É quando o CT mais bem aparelhado, o material de melhor marca, mesmo uma simples atadura, faz diferença. Mesmo o líquido que repõe melhor o que o atleta perdeu e tira aquele último esforço que o adversário já não consegue. Aquele detalhe que define vencedores e vencidos.

Meio à forceps, os times grandes e mais ricos acabam arrancando os três pontos. Mesmo que sofram na criação de espaços em sistemas defensivos fechados, ainda mais com tão pouco tempo de preparação. A vantagem é grande, muitas vezes um abismo.

Mesmo no Paulista, estadual mais equilibrado do país, Na cidade dos campeões brasileiros nos últimos três anos. Não é só raça ou camisa. A retaguarda também decide.


Pressionar qualquer time brasileiro agora é covardia. Cenário é dramático!
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André Rocha

Foto: Marcello Zambrana/AGIF

O ano virou com a constatação de que nossos times estavam atualizando seus conceitos no trabalho defensivo. Sem a bola vemos compactação, coordenação dos setores, concentração e preocupação em negar espaços ao adversário. Algo já ficando parecido com o que se vê pela TV nos grandes campeonatos do mundo.

Mas é nítido que falta organização para atacar. Tudo ainda fica entregue à intuição e ao talento. Vemos pouco jogo associativo, deslocamentos para dar opção ao companheiro, ultrapassagens apenas para atrair a marcação. Trabalho coletivo, fundamental exatamente para criar espaços em retaguardas sólidas e bem fechadas.

Começa 2018 com suas não mais que duas semanas de pré-temporada e já temos times pressionados. Por torcida, imprensa, dirigentes… Ainda que a maioria dos adversários nos estaduais não joguem a Série A do Brasileiro e muitos sequer tenham divisão para disputar no segundo semestre, os treinadores também têm acesso às informações para qualificar o trabalho sem a bola. Aproximar setores ou mesmo estacionar um ônibus na frente da própria área.

Em 15, 20 dias de treinos e jogos não foi possível resolver os problemas de 2017. Ainda mais para quem trocou de treinador e mudou a base titular. Logo, o sofrimento para abrir defesas está lá. Muitas vezes em gramados ruins, com o calor do verão, etc.

É covardia cobrar demais agora. Não é passar pano ou blindar. Apenas ser razoável. Qualidade com regularidade neste início é utopia. Quem conseguir agora tem que se preocupar, porque pode faltar nos momentos mais importantes. Ainda que se trate como relevante a reta final dos estaduais.

Agora é o momento de testar, oscilar. Errar. Pedir a cabeça de Dorival Júnior no São Paulo pela estreia com derrota utilizando reservas no Paulista contra o São Bento só porque o time flertou com o Z-4 em 2017 e não ganha um título desde 2012 beira a insanidade. Ganhar do Novorizontino no Morumbi virou obrigação. Com o empate sem gols, vaias e mais cobranças. Dorival já sinaliza uma mudança no planejamento. Como questionar alguém que já se sente ameaçado em um ambiente já conturbado por conflitos políticos e outras particularidades?

O mesmo vale para todos os clubes, uns mais e outros nem tanto. Palmeiras, Flamengo e Internacional começaram com duas vitórias. Cada um com seu contexto. Mas também não estão isentos das mazelas de um calendário inchado, irresponsável. Inclusive podem pagar mais à frente pelo sucesso inicial. Porque não há tempo.

É obrigação vencer o pequeno. No clássico não pode perder. No Brasileiro todo jogo é importante. Libertadores é prioridade, Copa do Brasil é mata-mata, tiro curto, tem que dar tudo. Por mais que se alegue que na elite do futebol do país os salários estão muito acima da média do trabalhador comum e que muitos dariam a vida para ter como ofício algo tão prazeroso como jogar bola, a exigência é desproporcional. Massacrante.

Com o problema para criar espaços tudo fica ainda mais complexo. Então tome cruzamentos, na bola parada ou com ela rolando (ou voando)! Resultadismo para atender o imediatismo e seguir empregado, poder sair na rua, viver em paz.

Muitos dirão “quem não quer pressão que vá trabalhar em outra coisa”. Não estão de todo errados, é o ônus de tantas vantagens e privilégios. O que se questiona é a pouca inteligência de não entender os processos, exigir soluções mágicas e duradouras. Vencer sempre. Sem trégua. Se não atender, troca. E troca até “dar certo”.

Sem tempo não há trabalho, entrosamento e o produto final que pode resolver essa carência de ideias quando se está com a bola. A pressão por mudanças é o veneno tratado como remédio. Treinadores e jogadores não precisam de salvo conduto, cabide de emprego ou estabilidade de serviço público. Só de um pouco de paz. Sem gente histérica perseguindo, com ou sem microfone – ou teclado do computador ou celular com acesso às redes sociais.

O cenário já é dramático no final de janeiro! Pelo visto, serão mais onze meses no mesmo dilema.


Gustavo Scarpa é a peça que faltava ao quarteto ofensivo do Palmeiras
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André Rocha

Gustavo Scarpa é do Palmeiras por cinco anos. Se o imbróglio com o Fluminense podia ter sido conduzido de uma forma mais transparente, cobrando seus direitos mas dando uma satisfação ao clube que o projetou, a escolha do destino não podia ter sido melhor.

O meia é a peça que faltava ao 4-2-3-1 que Roger Machado vai ensaiando na curta pré-temporada. Vai formar o quarteto ofensivo com Lucas Lima, Dudu e Borja. Partindo da direita para ajudar na articulação e abrindo o corredor para o apoio de Marcos Rocha. Do lado oposto, Dudu será o ponta mais agudo, chamando lançamentos para os contragolpes e buscando as infiltrações em diagonal para se juntar ao centroavante, que terá três ótimos passadores a servi-lo.

No último Brasileiro, segundo o site Whoscored.com, o trio ficou entre os seis jogadores que mais criaram ocasiões de gol: Lucas Lima em primeiro com 82, Scarpa em segundo com 79 e Dudu em sexto com 57.

Fica a dúvida quanto à intensidade dentro da proposta de pressionar logo após a perda da bola, ainda mais se a dupla de volantes for Felipe Melo e Moisés. Todos terão que participar mais na transição defensiva. Talvez Tche Tche acabe virando titular, também pela velocidade na saída para o ataque.

Mas em termos de combinação de características o encaixe de Scarpa deve ser imediato. Dois ponteiros com pés “trocados”, um meia central que pensa correndo como Lucas Lima e um centroavante móvel e rápido abrindo espaços, inclusive para si mesmo, e mais focado na finalização. Sem contar as várias opções no banco, especialmente Keno e Willian Bigode.

Vejamos no campo se dá liga. Mas é impossível negar que a contratação foi certeira. O Palmeiras foi bem mais uma vez ao mercado. Sem tanta fome, porém fazendo as escolhas certas no cardápio.


Há um “atalho” para Jair Ventura vencer respeitando o DNA do Santos
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André Rocha

Imagem: Divulgação Santos

Joel Santana adora citar em entrevistas, programas de TV e rádio e eventos dos quais participa o Vasco que comandou em 1987, num período curto mas marcante, como exemplo de time ofensivo que armou para contestar a fama de “retranqueiro”.

De fato era uma equipe com vocação para o ataque. Apesar de ter durado apenas uma Taça Guanabara, a escalação ficou na memória deste blogueiro que viu este time ao vivo, algumas vezes no estádio: Acácio; Paulo Roberto, Donato, Fernando e Mazinho; Dunga, Geovani e Tita; Mauricinho, Roberto Dinamite e Romário.

Mas havia um segredo típico do treinador, já malandro e “matreiro” aos 39 anos em sua primeira chance como treinador no Brasil. Mesmo contra times pequenos em São Januário, a equipe cruzmaltina recuava as linhas cinicamente, Dinamite voltava atraindo a atração dos zagueiros e Geovani ou o próprio centroavante lançava os ponteiros Mauricinho e Romário em velocidade com a chegada rápida de Tita. Assim marcou 24 gols em 13 partidas.

Joel tem razão ao dizer que seu Vasco campeão do primeiro turno e que depois, treinado por Sebastião Lazaroni, conquistaria o estadual tinha, na prática, quatro atacantes. Mas a maneira de jogar era baseada em organização defensiva e contragolpes. Quando precisou sair para o jogo contra o Fluminense ainda com a base tri carioca e campeã brasileira, levou um contundente 3 a 0 em contra-ataques.

A mesma dificuldade que fez penar o Botafogo de Jair Ventura desde que o jovem treinador de 38 anos sucedeu Ricardo Gomes em 2016, na primeira oportunidade no comando de um time profissional. Quase sempre que adiantou suas linhas, tentou trocar mais passes e não definir a jogada mais rapidamente, o desempenho teve uma queda significativa.

O melhor cenário no Estádio Nilton Santos, especialmente na Libertadores, era quando o “abafa” inicial com marcação no campo adversário fazia o alvinegro abrir o placar e depois ficar confortável atraindo o oponente e aproveitando as transições ofensivas em velocidade.

Mesmo sem títulos e a vaga no torneio continental para 2018, o bom trabalho em uma avaliação geral deu visibilidade a Jair. Também despertou o interesse do Santos, agora presidido por José Carlos Peres. Novo mandatário que afirmou várias vezes que o perfil do novo treinador deveria ser de respeito ao DNA ofensivo do clube e trabalho com os jovens oriundos das divisões de base.

A segunda exigência de Peres não é problema para Jair, que, até pelas limitações orçamentárias do Botafogo, deu chances à garotada e obteve boas respostas. No Santos é empreitada que costuma dar certo com quem tem sensibilidade para mandar a campo no momento certo. Mas quanto ao DNA…

O trabalho de Jair não o credencia a armar um Santos que crie espaços nas defesas rivais através de troca de passes com paciência e mobilidade. O treinador sempre afirmou que não mudava sua proposta no Botafogo porque as características dos jogadores não casavam com o estilo. Argumento legítimo, mas quando tentou mudar faltou repertório. Não só do time, mas também do comandante.

O que não significa que não possa se reinventar. Ou entregar um time competitivo, bem coordenado atrás para não fazer o goleiro Vanderlei trabalhar tanto. Mas também é possível ser forte no ataque. Ou no contragolpe. Acionando Bruno Henrique pelos flancos. Mesmo sem os passes de Lucas Lima e a presença de área de Ricardo Oliveira.

No Paulista pode aproveitar o status de “zebra” – já estão chamando de “quarta força”, o que pode ser um bom presságio – por conta da menor capacidade de investimento em comparação com os rivais. Mas na falta de recursos é preciso ter criatividade para repor ausências importantes. Inclusive de Zeca, que interessa ao Flamengo.

Se alcançar vitórias, alguma conquista relevante e muitos gols, mesmo nos contra-ataques, quem vai se importar na Vila Belmiro com uma mera questão filosófica? Nem o novo presidente…

Jair Ventura não conta neste início de trabalho com o talento que sobrava no Vasco de Joel Santana há mais de três décadas, mas pode usar o mesmo “atalho”, com uma dose de pragmatismo, para se adequar respeitando a tradição santista de marcar muitos gols. Com ou sem estrelas.