Blog do André Rocha

Arquivo : campeonatopaulista

Quem no Brasil está jogando mais que Dudu?
Comentários Comente

André Rocha

Não é de hoje. O Palmeiras do segundo turno do título brasileiro – mais pragmático e focado no resultado, não conseguiria os incríveis 44 pontos, melhor campanha em um turno na era dos pontos corridos, sem o brilho e a consistência de Dudu.

Com a ausência de Gabriel Jesus pelas seguidas convocações para as seleções olímpica e principal, e a queda de produção de Roger Guedes, assumiu a faixa de capitão e o protagonismo depois de brigar e se reconciliar com o técnico Cuca.

Foram dez passes para gols do ponteiro que atuava pela esquerda num 4-3-3. Jogador da bola parada em momentos de pressão e da velocidade nos contragolpes. Fundamental.

Em 2015 já havia sido importante na conquista da Copa do Brasil. Atuando mais solto e próximo da zona de decisão como um meia atrás do centroavante, foi o artilheiro alviverde na temporada com 16 gols.

Dudu é ponta e meia. Serve, faz gols e tem liderança. Por isso precisamos falar mais dele.

Nos 3 a 0 sobre o São Paulo no Allianz Parque ganhou os holofotes com o golaço de cobertura sobre o goleiro Denis. O segundo ele na temporada. Talvez o camisa sete nem tenha sido o grande destaque do time agora comandado por Eduardo Baptista, já que Tchê Tchê foi onipresente no meio-campo. O trabalho coletivo também merece atenção, com seguidas bolas roubadas no campo de ataque.

Mas Dudu sempre está presente, como peça chave. Em 2017 já são seis assistências, um pênalti sofrido e o cruzamento que Thiago Santos desviou e Keno completou no gol de empate contra o Tucumán na estreia da Libertadores.

O novo treinador só tem elogios para seu atacante: “Tenho falado para ele do grande potencial que tem. Um grande jogador. O cara que pensa em jogar na Europa e seleção tem que jogar em todos os lugares. E foi muito bem”, exaltou Baptista na coletiva depois do clássico “Choque Rei”.

Um alto investimento do clube na contratação ao Dinamo de Kiev que na época gerou polêmica pelo “chapéu” nos rivais, mas que em campo se paga a cada jogo. Um caso raro de quem evoluiu quando voltou da experiência na Europa.

Dudu tem intensidade para pressionar no campo de ataque ou voltar até a própria linha de fundo se for preciso. Sabe dar profundidade aos ataques, mas também procura a diagonal. Tem visão de jogo para um passe de meia, mas chama lançamento em contragolpe.

Tem também a postura que agrada o torcedor mais fanático: “tudo pelo time”. Mesmo que às vezes esbarre na ética, algo que se espera de um grande ídolo. Como no episódio da expulsão de Gabriel no dérbi. Para sua equipe conseguir vantagem, mesmo baseada em um absurdo, Dudu tentou até impedir que o árbitro tivesse acesso à informação correta.

Mas quem se importa? A resposta no campo compensa e muito. Só não leva à seleção brasileira, mesmo com boa atuação e gol no amistoso contra a Colômbia, porque a concorrência nas pontas do 4-1-4-1 é duríssima, a mais forte no grupo de Tite: Coutinho, Willian, Neymar e Douglas Costa.

Melhor para o Palmeiras, que conta por mais tempo com seu melhor jogador. E cabe a pergunta: quem no Brasil está jogando mais que Dudu?

 

 


O “segredo” de Tite que Carille retoma com sucesso no Corinthians
Comentários Comente

André Rocha

A vitória por 2 a 0 sobre o Luverdense na Arena Pantanal encaminha a classificação do Corinthians para a quarta fase da Copa do Brasil. Também dá a chance do técnico Fabio Carille rodar o elenco no jogo da volta.

Se o desempenho ofensivo vai aos poucos ganhando criatividade e fluência com o encaixe de Jadson pelo lado direito na linha de meias no 4-1-4-1, salta aos olhos os números defensivos.

Nas três partidas pelo torneio nacional, nenhum gol sofrido. Sim, adversários frágeis. Mas a retaguarda também não foi vazada nos clássicos contra Palmeiras, Santos e São Paulo, este no torneio amistoso na Flórida. No Paulista, só quatro gols sofridos. Contra Santo André e Mirassol. Cinco partidas sem Cássio ser batido.

A solidez dos tempos de Tite, mesmo em 2013, ano do declínio antes do período sabático, voltou depois de fortes oscilações sob o comando de Cristóvão Borges e Oswaldo de Oliveira. Porque Carille resgatou uma solução que ajudou o atual técnico da seleção brasileira a se destacar no cenário nacional.

É o que o próprio chama de “última linha posicional”. Ou seja, a defesa com os zagueiros mais próximos dos laterais. Marcando por zona, tendo a bola e o espaço como as referências, não o jogador.

A grande sacada é criar uma espécie de cinturão à frente do goleiro. Uma adaptação da escola italiana, que Tite foi estudar na década passada. Nem tão adiantada, exposta e espaçada como a da escola espanhola, que depende demais da pressão sobre o jogador com a bola para “quebrar” o passe. Muito menos semelhante à brasileira, com marcação individual e zagueiros afundados, muito próximos da própria área e que precisam do desarme salvador ou da cobertura do zagueiro de sobra.

O bloqueio é estreito. Quando o adversário ataca por um lado, a linha faz uma espécie de diagonal. O lateral se adianta para marcar, o zagueiro fica atento na cobertura, o do outro lado fica pronto para cortar o cruzamento e o lateral do lado oposto recua e faz a diagonal de cobertura ou espera uma possível inversão da jogada.

Flagrante da linha de quatro do Corinthians no dérbi guardando a própria área: Arana fecha o lado atacado, Pablo fica ligado numa possível cobertura, Balbuena guarda a área e Fagner espera uma eventual inversão ou faz a diagonal de cobertura (reprodução TV Globo).

A ideia é evitar a bola longa pelo centro ou na diagonal que proporciona a conclusão. Assim induz o lançamento mais aberto e o lateral tem tempo para bloquear a ação ofensiva menos perigosa. O posicionamento compensa também eventuais erros de compactação dos homens do meio-campo.

O atacante brasileiro, mesmo o sul-americano, fica desconfortável com o cerco que espera o momento do bote. Na tomada de decisão costuma se atrapalhar e facilitar o defensor. Não é receita infalível, mas minimiza os gols sofridos e as chances criadas pelos adversários.

Na final da Libertadores de 2012 contra o Boca Juniors, a linha formada por Alessandro, Chicão, Leandro Castán e Fabio Santos mantém o posicionamento, mesmo com o buraco deixado pelos volantes permitindo o jogo entre as linhas do time argentino (Reprodução TV Globo).

Desde Alessandro, Chicão, Leandro Castán (depois Paulo André) e Fabio Santos em 2012, passando por Fagner, Felipe, Gil e Uendel no ano passado. Agora, Fagner, Balbuena, Pablo e Arana vão ganhando entrosamento, assimilando os movimentos que não são simples. Exigem inteligência, noção de espaços e concentração. Até aqui a resposta tem sido positiva. Também pelas orientações de Cássio, que conhece toda a mecânica defensiva.

Tite foi estudar e se reciclar em 2014. Voltou apostando em criatividade, movimentação e triangulações para criar superioridade numérica no setor em que está a bola. Uma mudança notável de conceitos ofensivos. Mas o trabalho sem a bola não muda. Nem no Corinthians campeão brasileiro de 2015, nem na seleção brasileira líder das Eliminatórias.

Setores compactos, “perde e pressiona”…e a última linha de defesa posicionada. O “segredo” de Tite que Carille, ex-auxilar que colaborava exatamente na montagem da retaguarda, retoma com sucesso neste início de temporada.


Valeu a pena, Palmeiras?
Comentários Comente

André Rocha

Este que escreve não é do tipo que considera tudo de ruim que acontece num estádio de futebol, dentro ou fora do campo, reflexo de nossa sociedade. Um caso público de homofobia, racismo, xenofobia, corrupção não significa que todos somos assim. Afinal, para que existe livre arbítrio?

O blogueiro também não defende a ideia do jogador do time beneficiado por uma infração qualquer tentar corrigir a arbitragem. No mundo ideal, o juiz seria parte da busca do consenso com jogadores e treinadores, como na pelada entre amigos. Mas, ora bolas, isso é futebol profissional. Se no mundo jurídico ninguém é obrigado a produzir provas contra si, qual o sentido do atleta interferir na decisão da arbitragem para se prejudicar?

Até porque ele pode estar errado. Achar que não sofreu pênalti, mas a TV mostra o toque que o árbitro viu. Quantas vezes um jogador antes de comemorar um gol olhou antes para o assistente por achar que podia estar impedido, mas não era o caso? Por mais honesta que seja a intenção, ela não deve ser a definitiva. Afinal, para que a equipe de arbitragem que não pára de crescer está ali?

Tudo é discutível. Mas o que aconteceu na Arena do Corinthians, logo no primeiro duelo nos 100 anos do dérbi paulista, era questão de consciência. Decência. Houve um engano do árbitro, tão grosseiro quanto bobo. E profundamente infeliz. Gabriel, com cartão amarelo, sequer participa da jogada que termina com Maycon puxando Keno.

Thiago Duarte Peixoto se enganou visualmente. Com convicção, a ponto de não mudar a decisão, mesmo com dez minutos de paralisação e o quarto árbitro, Alessandro Darcie, informando o erro, como mostrou a TV. Um absurdo que pode custar sua carreira e justifica as lágrimas de desespero do apitador depois da partida.

O que fizeram os jogadores do Palmeiras? Raphael Veiga aplaudiu, Dudu cobrou que o árbitro não mudasse sua decisão e até tentou evitar que este tivesse acesso a alguma informação externa. Alguns saíram de perto, nitidamente constrangidos.

Ali era o caso de se intrometer, pois não havia interpretação alguma. O jogador expulso não fez a falta simplesmente porque não estava na disputa direta pela bola. Informar, mudar o cartão para o Maycon e seguir o jogo.

Não foi assim. E com dez homens o Corinthians se agigantou ao se sentir prejudicado, trouxe a torcida que andava distante para jogar junto e arrancou a vitória improvável sobre o rival, mais vencedor e poderoso no momento, no gol de Jô aos 42 minutos do segundo tempo. Sem muito tempo para reação. Letal.

Agora imaginemos, talvez num exercício de pura ingenuidade, os jogadores palmeirenses se juntando aos corintianos para convencer o árbitro do erro. Thiago Duarte Peixoto corrige, mantém o time mandante com onze homens. Mesmo com toda a rivalidade que sempre tangencia o ódio entre os mais radicais, que não são poucos, a atitude certamente seria aplaudida pela torcida. Ou boa parte dela.

E quem garante que não seria o Palmeiras a se agigantar? Com a sensação ótima que todos já sentiram um dia de ter feito a coisa certa. E quem garante que o jovem Maycon, com cartão amarelo ainda no primeiro tempo, não receberia o vermelho e, assim, não estaria em campo para roubar a bola no vacilo de Guerra para servir Jô?

O placar poderia ter sido o mesmo, até. Mas com uma história diferente. Que entraria para a galeria de grandes momentos do clássico centenário, dos mais tradicionais e importantes do país. Para as duas torcidas. Agora só vai ser guardada na memória dos corintianos como um grande momento de superação.

Valeu a pena, Palmeiras?

 


Papo com Dorival Júnior: jogar com qualidade, mas guerrear na Libertadores
Comentários Comente

André Rocha

Dorival_Junior

O Santos teve momentos de espetáculo nos 6 a 2 sobre o Linense na estreia do Paulista na Vila Belmiro. Sinais do amadurecimento da proposta de Dorival Júnior, que sempre acreditou em um futebol bem jogado, mas estudou para aperfeiçoar seus métodos e o próprio modelo de jogo.

Depois de uma sessão de treinamentos na semana que mais gosta – “cheia”, capaz de recuperar e trabalhar para recuperar os jogadores -, ele atendeu gentilmente ao blog para falar de suas ideias e ideais.

BLOG – O Santos faz o jogo posicional (o Caio Gondo explica AQUI), valorizando posse de bola, saída da defesa com qualidade e trocando passes no campo adversário. Raridade, ainda, no Brasil. De onde vem essa convicção se no país a maioria dos times vencedores atua de forma diferente?

DORIVAL JÚNIOR – Isso veio de uma necessidade minha ao ver o futebol brasileiro com o jogo tão descompactado, com muitos espaços entre os setores, ligações diretas dos zagueiros para se livrar da bola. Incomodava demais, não sentia prazer assistindo.

BLOG – Seu time joga com os laterais Victor Ferraz e Zeca atacando por dentro. Guardiola trabalhava assim no Bayern de Munique e agora, eventualmente, no Manchester City. Qual é a vantagem?

DORIVAL JÚNIOR – Na verdade eles flutuam, ora abertos, ora fechando. A vantagem é dificultar a marcação do adversário, porque eu posso recuar os jogadores de meio-campo para participar da saída de bola com bom passe, os pontas abrem e eles infiltram por dentro. É difícil de marcar, principalmente quando eles entram na área. O importante é que os movimentos estejam sincronizados, com reação rápida à mudança de comportamento. Perdeu a bola, já pressiona para retomá-la.

BLOG – Como você convence os jogadores, muitos deles acostumados com uma ideia diferente – marcação individual, zagueiros muito próximos da própria área para “fechar a casinha”? Não há conflito?

DORIVAL JÚNIOR – Vou responder usando o exemplo dos goleiros: eu não precisei pedir ao preparador deles que trabalhassem mais com os pés. Eles mesmos sentiram necessidade e hoje eu tenho o Vanderlei que antes completava três passes certos e agora acerta 27, já chegou a 33 em um jogo.

BLOG – As estatísticas ajudam?

DORIVAL JÚNIOR – Números, gráficos, imagens de outras equipes no mundo. Ações, passes, acertos, erros. Os jogadores entendem e eles mesmos criam desafios e metas entre eles. Querem saber o que fizeram de certo e errado. Nós mudamos o aquecimento, trocamos alguns trabalhos. É gratificante ver a mudança.

BLOG – Do que você mais se orgulha em todo esse processo?

DORIVAL JÚNIOR – 90% dos nossos gols são de jogadas trabalhadas. Dificilmente temos um gol “achado”. Procuramos manter a velocidade no ataque, que é fundamental. Na defesa melhoramos o desempenho nas jogadas aéreas com bola parada. No Brasileiro sofremos 11 gols de bolas paradas, sendo três de pênalti. Melhoramos os números fora de casa e fomos protagonistas, propusemos o jogo na grande maioria das partidas do Brasileiro.

BLOG – Ninguém joga todas as partidas da temporada da mesma forma. Tem o clássico mais duro, o time com desvantagem numérica por expulsão, o adversário que se impõe em casa…Há um “Plano B” para essa sua filosofia?

DORIVAL JÚNIOR – O modelo não é e nem pode ser imutável. Em alguns jogos teremos que nos resguardar. Mas essa nossa proposta já foi testada em várias partidas, dentro ou fora de casa. Nós perdemos para o Atlético-PR fora com Yuri na zaga e controlando o jogo, acabamos sofrendo o gol em bola parada. Por outro lado, já vencemos com gol do Vitor Bueno iniciado com um passe vertical do Lucas Veríssimo. Eu prefiro investir na qualidade.

BLOG – Como se adapta uma proposta de jogo inspirada nos grandes times da Europa, com temperatura amena e gramados impecáveis, à nossa realidade com calor e alguns campos impraticáveis?

DORIVAL JÚNIOR – É uma dificuldade mesmo, principalmente nos estaduais. Não há padronização e alguns ficam bem prejudicados pelas chuvas que são muito freqüentes nesta época do ano. Sem contar o calendário. Mas o Santos tem respondido muito bem. O maior problema é quando não há tempo para treinar, só recuperar os atletas.

BLOG – Na Libertadores a ideia é manter a proposta dentro e fora de casa?

DORIVAL JÚNIOR – Não vamos mudar, mesmo considerando que é outro nível, outra maneira de jogar, muitas vezes com arbitragem passiva, permitindo a violência. Vamos jogar, mas saber guerrear também, se for preciso.


São Paulo não perdeu para qualquer um e ideias de Ceni precisam de tempo
Comentários Comente

André Rocha

Por maior que Rogério Ceni seja para o São Paulo, sua história como técnico é uma página em branco que começa a ser escrita.

Talvez fosse mais simples começar em uma equipe menor ou nas divisões de base. Já que resolveu começar no clube que o tem como maior ídolo, a proposta de jogo poderia ser mais simples, partindo do básico para o mais complexo.

Mas Ceni é ambicioso, como sempre foi na carreira como goleiro-artilheiro. Quer muito e já. O São Paulo resolveu investir no projeto e agora vai precisar de paciência, mesmo em um cenário de seca de títulos e ansiedade do torcedor.

Porque não é fácil se colocar como protagonista nas partidas. Adiantar linhas, trocar passes, empurrar o adversário para trás, criar espaços. É uma escolha que, como qualquer outra, corre riscos. Ainda mais num início de trabalho.

Pior ainda quando encara uma equipe organizada por um treinador que não abre mão de jogar. O Audax de Fernando Diniz qualifica a saída de bola com o recuo de Pedro Carmona e Léo Arthur e envolve na frente com muita movimentação do trio ofensivo e laterais espetados, chegando à frente com velocidade e muita gente.

Letal para Douglas e Buffarini perdidos pela esquerda e expostos pela lenta recomposição. Muito por conta da qualidade do adversário para sair da defesa para o ataque. Porque a premissa da proposta de Ceni é pressionar na frente para quebrar o passe. Coisa que Chávez, Luiz Araújo, Cueva e Wellington Nem, depois Cícero, não conseguiram.

Só com o recuo natural do Audax depois de abrir 2 a 0 em oito minutos com Marquinho e Carmona é que o tricolor paulista ganhou volume e poder de reação. Com Cícero na vaga de Nem, a bola passou a transitar mais pelo meio e encontrou Chávez duas vezes para empatar.

Na segunda etapa a diferença foi a competência da equipe de Fernando Diniz na bola parada com o gol de Felipe Rodrigues. O São Paulo reagiu com João Schmidt na vaga de Douglas, com Rodrigo Caio recuando para a zaga.

Depois Gilberto entrou na vaga de Chávez e aí Ceni teve que abrir mão de sua ideia e partir para uma espécie de “Muricybol” dos seus tempos de tricampeão brasileiro, despejando bolas na área adversária. Muito pelo cansaço de sempre correr atrás do resultado.

Também porque é preciso refletir sobre o contexto brasileiro na hora de pensar num modelo de jogo. O calor e os gramados desgastam mais quem joga na base de pressão e movimentação para criar espaços. Intensidade, porém com pausas de controle de jogo com posse de bola e uma marcação mais compacta no próprio campo.

O São Paulo foi superior na posse (55%) e teve mais que o dobro de finalizações – 27  a 12, dez a sete no alvo. Mas morreu no pênalti em Gabriel Leite que Carmona converteu. De qualquer forma, os 4 a 2 na Arena Barueri não são o fim do mundo, nem razão para Rogério Ceni mudar tudo e rasgar sua proposta, que não é simples. A fase é de aprendizado. Do time em relação à nova forma de jogar e do treinador na nova função. Precisa de tempo.

Acima de tudo, fazer algo tão raro por estas bandas: reconhecer os méritos do vencedor. O Audax foi superior e Fernando Diniz é um técnico mais pronto, que vai aprendendo com os erros sem abrir mão de sua filosofia. Em um país menos conservador quando o assunto é futebol já teria oportunidade num clube de maior investimento.

O São Paulo acreditou em Ceni. Só que a fase dos milagres na meta fazem parte do passado. O comandante ainda não está pronto.

(Estatísticas: Footstats)

 

 

 

 

 


Por enquanto, organização do 4-1-4-1 é a boa notícia no Corinthians
Comentários Comente

André Rocha

Estreia no Paulista, gramado molhado e difícil em Sorocaba, elenco incompleto. Muito a relativizar na análise do desempenho do Corinthians, agora comandado por Fabio Carille.

Mas se ainda falta criatividade, algo a ser resolvido com o retorno de Jadson, a organização baseada nos princípios de Tite é uma boa notícia. Um 4-1-4-1 com setores bem coordenados, reforçando a impressão da pré-temporada nos Estados Unidos e do amistoso contra a Ferroviária.

Defensivamente, o posicionamento está bem mais cuidadoso do que nos tempos de Cristóvão Borges e Oswaldo de Oliveira. Gabriel na proteção da última linha de quatro, os quatro meias acompanhando os movimentos. Precisando de um ou outro ajuste na compactação, mas normal pelo início de trabalho.

Na transição ofensiva ainda falta mais mobilidade em progressão, com os ponteiros buscando o jogo por dentro, o apoio dos meias interiores Fellipe Bastos e Rodriguinho, a passagem dos laterais Fagner e Moisés, abertos ou por dentro para desarticular a marcação.

Jô também colaborou pouco abrindo espaços e se colocando em condições de finalizar. O centroavante só apareceu cavando e cobrando o pênalti que definiu a vitória sobre o São Bento por 1 a 0.  Marlone também podia entregar mais nas infiltrações em diagonal para dar opções.

É cedo, mas os progressos não podem tardar. Se a ideia de efetivar Carille é trazer um pouco de Tite de volta, a organização defensiva é necessária, mas também a criatividade e a mobilidade na frente. Por ora ainda lembra mais o Corinthians do treinador da seleção brasileira antes da reciclagem de 2015.

Uma equipe ainda engessada, mas com lastro de evolução em todos os aspectos. Mesmo sem o elenco estelar de outros tempos pode ser forte na temporada. De qualquer forma, já é melhor que o tempo perdido em 2016.

 


Audax joga ao natural, mas Santos responde e segue favorito ao bicampeonato
Comentários Comente

André Rocha

Dorival Júnior optou por dosar energias sem arriscar pressão no campo de ataque em Osasco. O Santos deixava Lucas Lima, Gabriel e Ricardo Oliveira mais adiantados e Vitor Bueno compondo o meio com Thiago Maia e Renato. A ideia clara era controlar defensivamente a partida de ida.

Com isso, aceitou que o Audax propusesse o jogo desde o início com troca de passes, apesar do gramado irregular. A equipe de Fernando Diniz ocupava o campo de ataque e jogava ao natural, sem pressão pela decisão. Espetava Tche Tche e abria bem o zagueiro André Castro pela direita na saída de bola. Porém faltavam as jogadas de profundidade e os chutes de fora da área.

O Santos crescia quando saía com passes simples e objetivos de Lucas Lima procurando Gabriel e Ricardo Oliveira, que acertou as traves em contragolpe e cobrança de falta nas cinco finalizações contra seis do Audax, que teve 58% de posse e errou apenas 12 passes, dois a menos que o oponente. Mais um pênalti sobre Gustavo Henrique ignorado pela arbitragem de Flavio Rodrigues de Souza.

Audax forte pela direita com Tche Tche espetado fazendo dupla com Mike para cima de Zeca e Vitor Bueno, que voltava e liberava o trio ofensivo talentoso do Santos (Tactical Pad).

Audax forte pela direita com Tche Tche espetado fazendo dupla com Mike para cima de Zeca e Vitor Bueno, que voltava e liberava o trio ofensivo talentoso do Santos (Tactical Pad).

Jogo igual e melhor tecnicamente na segunda etapa, com Fernando Diniz trocando Juninho por Wellington. Gabriel e Vitor Bueno inverteram o lado e geraram um problema defensivo: Tche Tche não deixou de apoiar e criou vantagem numérica pela direita. Na inversão de bola, o lateral do Audax bateu com Zeca e indefiniu a marcação sobre Mike, que cortou para dentro e marcou belo gol.

Tudo pareceu ruir para Dorival Júnior quando Lucas Lima sentiu lesão ao finalizar e deu lugar a Ronaldo Mendes. Depois Paulinho substituiu Vitor Bueno e definiu um 4-2-3-1 mais ofensivo. Uma resposta até óbvia pela adversidade. Mas o empate veio com o erro de Tche Tche. Sem pressão de nenhum adversário, com o time saindo, entregou nos pés de Ronaldo Mendes com espaço de sobra para avançar e soltar o pé.

Santos buscou empate com um 4-2-3-1 mais ofensivo após as substituições, mas só conseguiu no erro de Tche Tche que Ronaldo Mendes aproveitou (Tactical Pad).

Santos buscou empate com um 4-2-3-1 mais ofensivo após as substituições, mas só conseguiu no erro de Tche Tche que Ronaldo Mendes aproveitou (Tactical Pad).

O Audax nunca abdicou do ataque. Finalizou 17 vezes, subiu a posse para 60%. Merece respeito e admiração pela convicção no seu plano de jogo. Por isso é líder em posse e acerto de passes na competição.

Mas não se impôs com o mando de campo. Terá que fazer história na Vila Belmiro para evitar o bicampeonato na oitava final estadual seguida, com quatro títulos, de um time que ostenta invencibilidade de 27 jogos em casa – 23 vitórias e quatro empates.

Mesmo se perder Lucas Lima, o Santos é o favorito.

(Estatísticas: Footstats)

 


Nos pênaltis, Tite ganha asterisco e Fernando Diniz vira gênio
Comentários Comente

André Rocha

Uma enorme incoerência de nós, analistas, é clamarmos por novidades no futebol brasileiro, reclamarmos do imediatismo e do foco apenas no resultado dos nossos treinadores.

Mas quando surge um jovem técnico propondo algo novo, ou alinhado ao futebol atual mesmo numa equipe de menor investimento, exigimos que funcione logo nas primeiras tentativas, somos cruéis com o erro e condenamos na derrota. Respeitamos pouco o tempo.

Fernando Diniz não é Pep Guardiola. Nem tem o catalão como grande referência. É um técnico que quer apenas se sentir realizado com seu trabalho e ver os jogadores competindo, mas também se divertindo em campo. Psicólogo, sabe que errar faz parte do processo.

O modelo de jogo é uma escolha, não receita de bolo. Quem prefere construir desde a defesa corre riscos com a pressão do adversário no próprio campo. Mas se ultrapassar essa marcação, a chance de chegar na frente com igualdade ou superioridade numérica é considerável.

Optar pela ligação direta é arriscar o duelo do atacante de costas contra o defensor de frente. Se não ganhar o rebote, o oponente volta a ficar com a posse. Cansa mais, física e mentalmente. O jogador, em tese, gosta da bola.

O Audax prefere rodar a pelota. Mesmo que o goleiro Sidão se complique na reposição e os zagueiros errem passes eventualmente. Jogar é risco. Viver é arriscar. Mas pode dar prazer.

Dá gosto ver o time de Fernando Diniz. Trocas de posições, funções e desenhos táticos. Algumas ligações diretas para quebrar o estereótipo. Jogo bonito nos golaços de Bruno Paulo e Tchê Tchê na Arena do Corinthians. Com espaço para o pragmatismo e o estudo do adversário: Juninho e Bruno Paulo ajudando Velicka no combate a Fagner, que sentiu a ausência de Giovanni Augusto pela direita.

Ainda assim, disputa equilibrada: 52% de posse para o Corinthians, que também finalizou mais – 17 a 11, sete a seis no alvo. André foi às redes duas vezes. Primeiro completando bote e centro de Bruno Henrique, outro no centro de Romero em contragolpe cedido pelo Audax com 2 a 1 no placar.

A equipe de Tite teve o triplo de desarmes certos (24 a 8). Errou menos passes. Cresceu no segundo tempo com Romero e Rodriguinho, que deve ganhar a vaga de Guilherme, definitivamente sem aptidão para a função que era de Renato Augusto no 4-1-4-1.

O Audax poderia ter sido eliminado nos noventa minutos em Itaquera. Por seus erros e pelos méritos dos donos da casa. Ainda assim a campanha teria sido digna. Mas certamente o rótulo de “Professor Pardal” seria colado mais uma vez na testa de seu treinador.

Só que a classificação inédita e histórica para a decisão do Paulista veio nos pênaltis. Cobranças precisas, Sidão heroi e a trave ajudando nas cobranças de Fagner e Rodriguinho.

E aí Tite, de melhor do Brasil e inquestionável como o nome ideal para a seleção, ganha um asterisco pela falta de vitórias com atuações consistentes em jogos grandes e/ou decisivos de um time ainda em reconstrução.

Já Fernando Diniz vira gênio, técnico pronto para comandar um time de Série A no Brasileiro. Até merece. Mudou? Pouco. Mas ganhou. Por aqui é só o que vale.

(Estatísticas: Footstats)


Timing, espaço, qualidade e parcerias: por que Fagner voa no Corinthians
Comentários Comente

André Rocha

A atuação consistente nos 4 a 0 sobre o Red Bull Brasil reforça a imagem de uma reconstrução sólida do Corinthians. Méritos de Tite.

O treinador mantém não só o 4-1-4-1, mas também a combinação de características dos jogadores. Inclusive Guilherme, que vai se adaptando à função de Renato Augusto – mais atacante, menos articulador. Variando naturalmente o sistema para o 4-2-3-1.

Para sofrer menos na saída de bola pressionada pelos flancos, jogadores mais próximos e passes curtos. Quem tem a bola ganha opções com menos riscos de erro. Lição da derrota para o Palmeiras.

A principal válvula de escape, porém, segue a mesma: Fagner. Com Giovanni Augusto emulando Jadson e procurando o meio para articular, o lateral ganha espaço no corredor.

Mas não basta ter a opção que passa sem a jogada pensada para explorar. O Tite que antes valorizava tanto a atenção na marcação por zona agora também cobra criatividade aos seus comandados.

Não inventando dribles e jogadas individuais, mas escolhendo a ação mais surpreendente para o adversário. Giovanni Augusto, Elias e André se aproximam, oferecem parcerias. Fagner voa buscando o fundo ou por dentro. Um pouco mais adiantado quando a equipe desce em bloco, mas não espetado como um ala.

Alan Mineiro e Elias se aproximam e atraem a marcação, Fagner ultrapassa às costas da defesa. Jogada letal do Corinthians de Tite (reprodução Premiere).

Alan Mineiro e Elias se aproximam e atraem a marcação, Fagner ultrapassa às costas da defesa. Jogada letal do Corinthians de Tite (reprodução Premiere).

Mudou pouco quando Alan Mineiro entrou na vaga de Giovanni Augusto, lesionado. Autor de um golaço de voleio. O substituto até procura mais o centro para buscar as finalizações – e marcou o terceiro gol. Do lado oposto, Uendel fica um pouco mais preso ou apoia por dentro, já que Lucca é mais vertical, ponta. Autor do quarto e último.

Menção honrosa a Bruno Henrique. Mais passes, posse de bola e desarmes. Participação ativa na construção e no combate. Posicionamento que mantém as linhas próximas. O volante é fundamental na execução do plano de jogo.

Mas Fagner vem sendo o destaque absoluto. Passe para gol de André, o segundo. Quatro para finalizações. Qualidade, timing para descer, companheiros próximos e passando no tempo certo.

Sintonia que faz o novo Corinthians seguir evoluindo. Classificado na Libertadores e garantido nas semifinais do Paulistão.

(Estatísticas: Footstats)


Carta aberta ao torcedor: não vivemos em função de você, nem de seu clube!
Comentários Comente

André Rocha

Jornalista de futebol vive por esporte, como diz o nosso Mauro Beting. Faz o que ama. Até porque haja amor para, em geral, trabalhar mais e ganhar menos, sem contar o preconceito, em relação a outras áreas da profissão.

Incluindo transformar em ofício o que antes era diversão. Em racionalidade o que era paixão. Perder a relação romântica com seu clube de coração tanto por dever ético como por decepção ao descobrir algo nada nobre nos bastidores.

Ao contrário do que muitos pensam, jornalista tem vida. Precisa lidar com cobranças familiares e esfriar amizades e amores por falta de tempo. Porque está online sempre, antenado até quando liga a TV para descansar a mente. Ao mesmo tempo, precisa olhar o filho, a esposa, o marido, cuidar da casa, pagar contas, chamar o encanador, lidar com pedreiro. Viver.

Tudo isso em 24 horas. Por isso você, torcedor, sempre está mais informado sobre o seu time do que nós. Porque só precisa ler e fuçar tudo sobre o seu objeto de paixão. TV, rádio, sites, blogs, fóruns, redes sociais…

Não temos como dar conta de tudo. No caso deste blogueiro e comentarista, por exemplo, que escreve e/ou fala de todos os times das Séries A, B, C e D do Brasil, dos principais clubes da Europa e da América do Sul. Ou do torneio que pintar para comentar na TV.

Com o tempo, o analista passa a “torcer” mais por suas convicções do que pelo time que escolheu lá atrás – e se está envolvido com futebol é por causa dele, também. Se a vitória do clube do coração desconstroi uma tese consolidada, natural torcer contra. Ou não se importar. Até porque somos uma raça vaidosa com nossas opiniões.

Dito isto, fica a pergunta simples, direta e sincera: você acha mesmo que o jornalista pensa de manhã enquanto faz a barba ou toma banho “Hoje eu vou ferrar o time xxxxx”?

Você acha mesmo que o Thiago Maranhão, repórter do Sportv, desejava, ao informar uma irregularidade aos seus colegas de transmissão, e não à arbitragem, prejudicar o Palmeiras? O mesmo vale para Joanna de Assis, Ana Thais, André Hernan, Ana Thaisa. Fora o julgamento de um áudio privado e vazado que nem vale resgatar.

Será que o problema somos nós ou o futebol pobre do time alviverde?

Se você pensa que vivemos em função do seu clube, seja qual for, e que há contra ele uma conspiração internacional e interplanetária, incluindo gnomos, elfos e os Illuminati, há tratamento para isso. E o problema não é nosso.

Até porque temos mais o que fazer, né?