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São Paulo e Internacional: gigantes ancorados no passado precisam despertar
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André Rocha

Em 2006, Internacional e São Paulo decidiram a Libertadores. Dois anos depois, o tricolor paulista era tricampeão brasileiro e o Colorado vencia uma Copa Sul-Americana com Tite no comando técnico.

Uma década se passou desde então e a eliminação da dupla na Copa do Brasil antes das oitavas de final, quando entram os times envolvidos com Libertadores, é emblemática. Ainda que os méritos de Atlético Paranaense e Vitória sejam enormes.

Simbolizam clubes que depois de um período muito vitorioso acreditaram na utopia de ostentarem uma fórmula vencedora no cíclico futebol brasileiro. Confundiram manutenção da linha de trabalho com “continuismo”. Hoje se veem dando voltas em torno do próprio rabo.

No Internacional, de 2002 a 2016 orbitaram no comando Fernando Carvalho, Giovanni Luigi e Vitório Piffero, culminando com a página mais triste da história do clube: o rebaixamento. Só assim para vingar uma candidatura de oposição. Mas nem tanto assim, já que Marcelo Medeiros, o atual presidente, trabalhou na direção das categorias de base na gestão de Fernando Carvalho.

É claro que a década não pode ser considerada perdida. Além do bem sucedido plano de sócio-torcedor e a modernização do Beira-Rio, o Inter conquistou outra Libertadores em 2010 e impôs um domínio estadual com oito conquistas, seis consecutivas. A importância dada ao Gauchão até se entende pela rivalidade com o Grêmio.

O período sem conquistas relevantes do tricolor, incluindo um rebaixamento em 2005, talvez tenha acomodado ainda mais o Colorado. Só com a virada na “Era Renato Gaúcho” desde a Copa do Brasil em 2016, coincidindo com o próprio rebaixamento,  para a constatação do mau momento vir forte. Mas mudar a direção do olhar não é fácil. Mais simples continuar tratando o passado como referência e ainda depender do talento de Andrés D’Alessandro aos 37 anos.

O mesmo vale para o São Paulo. De 2006 a 2014 com Juvenal Juvêncio. Depois Carlos Miguel Aidar até a renúncia e a chegada de Carlos Augusto de Barros e Silva, o Leco. Sempre os mesmos cardeais no poder, blindados por um estatuto antiquado e protecionista.

Ultrapassado por Corinthians e Palmeiras com suas arenas e pelo Santos na Era Neymar. Sem o poder do Morumbi como único grande palco na cidade para jogos e espetáculos. Mas principalmente pela fé de que bastava seguir a mesma receita de bolo para tudo voltar aos “bons tempos”.

Nestes dez anos, apenas a Sul-Americana de 2012 como conquista com alguma relevância. Nenhum estadual. Ainda a seca histórica na Copa do Brasil, que em 2019 completa 30 anos. Pior é a sensação de que um gigante de seis títulos brasileiros, três Libertadores e três Mundiais está, na prática, se tornando um time médio.

As trocas seguidas de treinadores e jogadores demonstram uma incerteza quanto ao futuro. Paradoxalmente, o clube sempre parece mirar o passado atrás de um porto seguro. Contar com Raí, Ricardo Rocha e Lugano na diretoria é um exemplo claro. Só que eles não entram mais em campo. E as decisões nestes primeiros meses não parecem muito diferentes das práticas dos antecessores.

É preciso despertar. Também ter a humildade de aprender com os rivais. Se Corinthians e Grêmio hoje possuem uma identidade no futebol, São Paulo e Internacional continuam sem face. Ou com um rosto envelhecido desejando o vigor do passado. Sem ruptura ou reinvenção.

Só ficou a grandeza da história. Mas de gigantes ancorados, que ainda não se convenceram que o tempo não pára e é preciso seguir em frente, sem o olhar fixo no retrovisor.


Palmeiras precisa de calma, que nunca foi sinônimo de apatia
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André Rocha

O título brasileiro de 2016 já foi a coroação de uma nova etapa na vida do Palmeiras, uma sequência da conquista da Copa do Brasil no ano anterior. Ainda que com treinadores diferentes, primeiro Marcelo Oliveira e depois Cuca.

Mas 2017 chegou e, com mais investimentos em busca do título da Libertadores, que seria a evolução de um trabalho, o patamar de cobrança deu um salto proporcional ao que se gastou. Mas não condizia com o amadurecimento de uma identidade.

Marcelo Oliveira, Cuca, Eduardo Baptista, volta de Cuca, Alberto Valentim e agora Roger Machado. Seis trocas de treinador em três anos. Características e momentos na carreira bem diferentes. Não há linha de trabalho aí. Um fio condutor. Mais contratações em profusão, com jogadores superestimados ou descartados com uma amostragem pequena de partidas. Porque não há consistência coletiva para potencializar a qualidade individual.

Pior ainda é essa panela de pressão com fogo alto, sempre próxima da explosão. Há quem defenda esse clima beligerante como “coisa de time grande”. Como se a calma para tomar decisões pudesse ser confundida com apatia, conformismo.

Longe disso. Nunca foi. Pressão normal, sim. Quando a exigência é infinitamente maior do que o que se pode entregar naquela etapa do processo é a senha para uma eterna busca, trocando tudo e chegando a lugar algum.

Quando Roger parecia começar a encontrar um norte que faria a equipe crescer e impor a superioridade do conjunto de suas individualidades, veio a avalanche de um clássico decisivo saturado de rivalidade e tensão. Logo o Corinthians, este sim, time com identidade e, mesmo perdendo peças e não fazendo a reposição do mesmo nível por problemas financeiros, segue sua filosofia.

O clube preferiu surtar. Desde o presidente. Por causa de um pênalti não marcado, de Ralf sobre Dudu. Sem ninguém se dar ao trabalho de se perguntar algo básico: com os jogadores com os nervos em frangalhos será que a penalidade seria convertida? A julgar pelo estado emocional de Dudu e Lucas Lima, lideranças técnicas que falharam na decisão por pênaltis, difícil prever.

Contra o Boca Juniors, a forte impressão de que o time foi tragado por essa onda de cobranças ou do desvio de foco do campo com o presidente Mauricio Galiotte culpando a Federação Paulista por mais um título perdido em sua gestão. Não é questão de avaliar se o protesto é justo ou não. Mas o que vai contribuir para a sequência da temporada?

Atuação coletiva fraca, com equívocos por nítida ansiedade que atrapalha a concentração dos atletas. E fica difícil acertar em tomadas de decisão e na parte técnica com um entorno tão complicado. Dudu e Lucas Lima de novo ficaram devendo. Keno acabou se destacando não só pelo gol, mas pela confiança em meio ao caos. Uma exceção.

Mas aí Antonio Carlos falhou novamente. O zagueiro que ganhou a vaga e parecia se firmar exatamente quando o coletivo começava a crescer errou no gol de Rodriguinho no Allianz Parque e vacilou de novo na jogada que terminou nas redes de Jailson com Tevez completando assistência de Pavón. Dois minutos depois do gol alviverde, já nos acréscimos.

Sintomático. Um gol no início do dérbi, outro no fim do jogo mais esperado da primeira fase do torneio continental. Será que com um ambiente menos complexo a chance do jogador entrar mais focado no jogo não aumentaria e, consequentemente, a margem de erro não reduziria?

Difícil avaliar quando a derrota para o Corinthians por 2 a 0 ainda na fase de grupos, sem grandes prejuízos, vira motivo para caça às bruxas. Joga-se a culpa nos jogadores, na falta de “raça”, na arbitragem, no azar… E ninguém tem a curiosidade de ver o que funciona no rival para dar certo tantas vezes. Não pode ser só o “apito amigo”…

É hora de virar a página do estadual, mesmo que obtenha vitória na Justiça pela anulação da final, e focar no que é importante para lá na frente atingir os objetivos: o trabalho. As escolhas, a sequência do desenvolvimento das ideias com convicção. Aprimorar os métodos, focar no jogo. A torcida pode ter pressa de vencer. Quem dirige sabe, ou deve saber, que um título pode pipocar aqui e ali. O futebol é tão incrível que premia até quem trabalha errado. Mas para os resultados aparecerem com mais frequência não basta gastar. Essa equação dinheiro + camisa = títulos não é tão simples assim.

É preciso pensar e executar. Com calma, mas também firmeza de propósitos. Tudo que tem faltado ao Palmeiras.


Corinthians, Botafogo e Cruzeiro: títulos serão ilusão ou redenção?
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André Rocha

Não adianta em abril ou maio lembrar ao torcedor que no final do ano é bem provável, a menos que aconteça algo épico, que ninguém lembre do título estadual. Porque o prazer de vencer o rival numa final ainda badalada em termos midiáticos e levar uma taça para casa inebria, entorpece.

Não funciona falar em excesso de jogos, poder das federações, enfraquecimento do próprio time de coração. O triunfo e a chance de tripudiar do colega de trabalho, do vizinho ou de qualquer um que vista as cores do rival valem mais do que qualquer análise racional. Logo passa, porque começa o Brasileiro emendando com Copa do Brasil, Libertadores, Sul-Americana. Calendário inchado é isso.

Mas desta vez, por coincidência, as conquistas estaduais em São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais tiveram algo em comum: premiaram times contestados pelas próprias torcidas e que acabaram beneficiados pelos contextos das decisões para se superar.

O Corinthians entra no caso citado no primeiro parágrafo. Vencer no tempo normal e nos pênaltis dentro da casa do milionário Palmeiras, que contava com torcida única e vantagem do empate, é um feito histórico e certamente será lembrado pelo corintiano no fim do ano, a menos que alguma tragédia aconteça até lá.

Mas o desempenho segue preocupante. O time de Fabio Carille se classificou contra o São Paulo também na disputa de pênaltis depois de achar um gol de Rodriguinho em um escanteio nos acréscimos. A decisão foi muito mais brigada que jogada e o Palmeiras se perdeu emocionalmente pela cobrança gigantesca por títulos que façam valer o altíssimo investimento para a realidade brasileira.

Valeu a cultura da vitória construída pelos muitos títulos na década. De novo no gol de Rodriguinho, desta vez no primeiro minuto do clássico. A confusão pelo pênalti que não existiu de Ralf sobre Dudu, mas foi marcado e depois invalidado pela interferência do quarto árbitro, só aumentou o caos emocional dos palmeirenses em campo e na arquibancada.

Mais uma vez Cássio garantiu pegando as cobranças de Dudu e Lucas Lima na decisão por pênaltis. A comemoração no Allianz Parque é imagem emblemática e inesquecível para o torcedor. Mas a conquista não tem o simbolismo de 2017, consolidando um trabalho que ganharia ainda mais força e maturidade no turno do Brasileirão que encaminhou a sétima taça do Corinthians na competição.

Agora o rendimento vem oscilando demais, apesar de uma boa nova como Matheus Vital e o resgate de Maycon, que havia perdido a vaga para Camacho na reta final de 2017 e bateu com precisão a última penalidade. Há espasmos da solidez defensiva que caracteriza a identidade corintiana e também boas triangulações e volume de jogo. Nada muito inspirador, ao menos por enquanto.

Já o título carioca do Botafogo veio numa sequência de acontecimentos que desafia o tradicional e já folclórico pessimismo do torcedor alvinegro. Péssimo início sob o comando de Felipe Conceição, eliminação precoce da Copa do Brasil para o Aparecidense. Chega Alberto Valentim ainda aparentando abimaturidade e a dificuldade para montar o sistema defensivo que apresentou no Palmeiras. Linhas adiantadas, pouca pressão na bola…gols dos rivais.

Não venceu nenhum turno, teve a pior campanha geral entre os grandes, levou 3 a 0 do Fluminense na final da Taça Rio e parecia ser apenas um figurante na fase decisiva. Mas uma atuação pluripatética do Flamengo que custou o emprego de muita gente, inclusive do treinador Paulo César Carpegiani, fez o time alcançar a vitória na única jogada bem engendrada em toda a semifinal em jogo único, finalizada por Luiz Fernando.

Vaga improvável na decisão e de novo o status de “zebra”, até pelo bicampeonato do Vasco em 2014/15 sobre o mesmo adversário e o trabalho mais consolidado do treinador Zé Ricardo. A vitória no primeiro jogo por 3 a 2 e depois a boa atuação no Mineirão contra o Cruzeiro pela Libertadores transferiam um favoritismo natural aos cruzmaltinos.

Mas Fabrício foi expulso aos 36 minutos na primeira etapa por entrada sobre Luiz Fernando quase tão criminosa quanto a de Rildo em João Paulo há três semanas. O vermelho condicionou toda a partida. O Botafogo insistiu, mas com enorme dificuldade para criar espaços. O time é limitado e perdeu organização e criatividade sem João Paulo. Obrigado a atacar pela necessidade e por conta da vantagem numérica acabou se complicando. O Vasco fechado num 4-4-1 e arriscando um contragolpe aqui e outro ali.

No ataque final, já nos acréscimos, a confusão na área e o chute de Joel Carli. Lance fortuito, meio ao acaso. Bola na rede, explosão da torcida e confiança em Gatito Fernández na disputa de pênaltis. Ele não decepcionou e pegou as cobranças de Werley e Henrique. 21º título alvinegro, festa pela conquista inesperada… Mas dá para confiar em boa campanha no Brasileiro?

Uma expulsão no primeiro tempo também mudou a história da decisão mineira. Logo de Otero, por cotovelada em Edilson aos 21 minutos. O meia que desequilibrou na bola parada no Independência. Vitória por 3 a 1 na primeira partida que fez eco durante a semana, encheu o Galo de confiança para a goleada por 4 a 0 sobre o Ferroviário pela Copa do Brasil e abalou o ânimo do Cruzeiro, que empatou sem gols e podia ter sido derrotado em casa pelo Vasco na Libertadores.

Com um a menos ficou mais difícil segurar o rival em casa e os gols do uruguaio De Arrascaeta e de Thiago Neves ratificaram a melhor campanha ao longo do campeonato. Mas de novo o time de Mano Menezes não apresentou um desempenho consistente. Faltou nas duas partidas pelo torneio continental e na primeira da decisão.

O contexto favoreceu, mas há muito a ser questionado. Mesmo com a lesão grave de Fred, a grande contratação para a temporada, há qualidade para apresentar mais e Mano se sente à vontade mesmo dentro de uma proposta mais pragmática e de controle de espaços e reação aos ataques do oponente. Na hora de criar em jogos mais aparelhos a coisa complica.

A grande questão depois das comemorações em São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais é como os campeões reagirão. Se haverá a falsa impressão de que os times estão prontos para desafios maiores, mesmo com atuações que não inspiram confiança, ou se a conquista será tratada como a alavanca que combina paz para trabalhar e um clima de mais leveza para investir na evolução dos modelos de jogo. Vencer para crescer e não estacionar.

Ilusão ou redenção? Eis o questionamento que fica para a sequência de trabalho dos vencedores. Consciência da própria realidade é receita simples, mas sábia. Pode valer muito lá no final do ano, quando as taças não passarão de uma lembrança agradável, sem o êxtase de agora.


Palmeiras e Grêmio começam a sobrar no país e tudo parte do meio-campo
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André Rocha

Independentemente do que acontecer nas decisões estaduais em São Paulo e no Rio Grande do Sul e também das campanhas invictas até aqui na Libertadores, a análise de desempenho, com mais ênfase nas atuações recentes, sinalizam que Palmeiras e Grêmio começam a se desgarrar dos demais como os melhores times do país.

Equipes que alternam posse de bola para controle do jogo e intensidade nas transições ofensivas e defensivas e na pressão logo após a perda da bola. Times inteligentes. Consciência que parte do meio-campo.

Reunir Arthur, Maicon e Luan de um lado e Felipe Melo, Bruno Henrique ou Moisés e Lucas Lima do outro, para o nível do futebol jogado no Brasil, é garantir eficácia nos passes desde o início da construção das jogadas e variação de ritmos de acordo com a necessidade.

O entrosamento e a combinação de características fazem o trio do Grêmio render mais e protagonizar belos lances. Sem contar a confiança pelos títulos recentes e o trabalho de Renato Gaúcho já bem assimilado. Roger Machado ainda está no início de seu trabalho e, por consequência, está um passo atrás.

Aliás, curioso observar que os treinadores acabaram influenciando um no trabalho do outro, direta ou indiretamente. Renato recebeu o Grêmio de Roger, manteve a ideia e o modelo de jogo a partir da posse de bola e das triangulações e efetuou ajustes tornando o time mais rápido e contundente na frente, intenso no trabalho defensivo e atento nas bolas paradas.

Exatamente o que Roger vem alterando em seu repertório, agora no Palmeiras. Até pela urgência de resultados para se estabilizar no comando do time mais pressionado do país em 2018. Na impossibilidade de contar com tempo para fazer com que a marcação por zona não seja passiva como aconteceu especialmente diante do Corinthians na fase de grupos do Paulista, o comandante agora estimula os encaixes e algumas perseguições individuais mais longas para garantir a concentração dos atletas.

Um pouco de Renato, outro tanto de Cuca, último técnico campeão no alviverde. Para evitar problemas como os que Alberto Valentim passou. Basicamente, adiantar a última linha de defesa, mas sem fazer pressão no adversário sem a bola e fechar as linhas de passe.

Com a posse, o Palmeiras roda a bola , concentra jogadores de um lado, preferencialmente o esquerdo, até a bola chegar a Felipe Melo ou Lucas Lima quando este recua e acontece a inversão rapidamente buscando o ponteiro do lado oposto. Normalmente Dudu, que vem crescendo de produção no setor direito. Com mais volume de jogo e ações de ataque com profundidade, Borja também cresce como o artilheiro do time no ano.

Assim como Jael, substituto de Lucas Barrios e a mudança mais significativa na virada do ano, aproveita o momento positivo para arriscar cobranças de falta, assistências de letra. Mais os gols, completando as jogadas bem articuladas. O entrosamento com Everton, que infiltra em diagonal para se juntar ao centroavante, só torna os ataques mais fluidos e com momentos de beleza. Coisa rara por aqui.

É óbvio que há ainda muita margem de evolução e alguns jogos pelo estadual – no caso do Grêmio, mesmo na final – não servem como parâmetro seguro para avaliações mais profundas. Ainda assim, a proposta e a execução parecem mais alinhadas, potencializando o talento através do trabalho coletivo. Com o toque diferente no meio-campo.

Domingo ambos podem levantar taças. Para o Grêmio significaria o fim de um período de oito anos sem conquistas na competição. Já o Palmeiras ganharia mais confiança para seguir a sua saga na temporada em que todos não aceitam menos que o máximo em conquistas.

O que se espera é que se algo der errado em termos de resultado o trabalho até aqui não seja descartado. Seria um desperdício. Mais um na terra do futebol de resultados.


“Ditadura da emoção” estraga primeiro Corinthians x Palmeiras decisivo
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André Rocha

Foto: Paulo Whitaker/Reuters

Corinthians e Palmeiras disputam o dérbi do maior centro futebolístico do país. São os últimos campeões brasileiros, terminaram na ponta da tabela na última edição da competição nacional mais importante da temporada. Ou seja, é o maior clássico brasileiro da atualidade. Para muitos a grande rivalidade do país.

Decidindo o Paulista, algo que não acontecia desde 1999. Século passado. Em dois jogos, um em cada arena. O Corinthians havia vencido os quatro últimos confrontos, apesar da maior capacidade de investimento do rival.

Ingredientes para tornar o primeiro confronto em Itaquera muito tenso. Até porque com mando de campo e torcida única a responsabilidade de construir o resultado em casa aumenta exponencialmente em relação aos duelos de antes no Morumbi com torcida dividida.

Mas nada justifica uma disputa de péssimo nível técnico, com 50 faltas cometidas – 22 pelo Corinthians e 28 pelo Palmeiras – e 12 cartões apresentados pelo árbitro Leandro Bizzio Marinho. Vermelhos para Felipe Melo e Clayson após uma confusão geral. A famosa “bulha”.

Nada justifica, mas há um fenômeno que explica tamanha panela de pressão: a “ditadura da emoção”.

É claro que todo clássico vale muito para o torcedor. É a chance da vitória que é a cereja do bolo. No caso do estadual, o duelo fica muito maior do que a conquista em si. Mas a cultura da guerra alimentada por torcedores, dirigentes, jogadores e até muitos jornalistas coloca tudo vários tons acima.

Os jogadores precisam ser guerreiros. Ganhar na bola e na porrada numa disputa que coloca quem é mais machão acima, bem acima de quem é melhor. Para o torcedor, quanto mais sofrido, mais gostoso. Espalham-se nos estádios as caras, bocas e lágrimas de algo que beira a histeria. E a loucura passa para o campo.

Ninguém tenta parar a bola e jogar. Até porque se não entrar no clima bélico pode ser acusado de ter amarelado, ser frouxo, não honrar a camisa. Então tudo se resume a entrar firme nas divididas, apelar para as faltas se perceber que vai perder a jogada, dar carrinho e se houver o desarme ou o perigo for afastado tem que vibrar, bater no peito para mostrar que tem coração e no braço para ressaltar que tem sangue nas veias.

E a cabeça? E pensar o jogo para vencê-lo? A emoção já está na atmosfera. Quem não se envolver em campo num clássico deste tamanho é melhor procurar outro ofício. A vontade de vencer é evidente, ainda mais no país que mede todos os agentes do futebol pelo “ganhou o quê?” Sem contar que a imprevisibilidade do jogo já o torna emocionante ao natural.

Não é preciso inflamar mais porque consome o raciocinio, embota a visão. O jogo fica feio, com chutões demais, ligações diretas porque ninguém quer arriscar um passe que pode dar errado e encontrar o vilão. O resultado prático são 90 minutos de tortura para quem joga, torce e assiste. Quem vence berra e chora. A dúvida é se é de alegria ou de alívio. Porque o jogo em si praticamente não existiu.

Pode ser Corinthians x Palmeiras, mas também Gre-Nal, Ba-Vi, Flamengo x Vasco, Cruzeiro x Atlético, Atle-Tiba. A “ditadura” está lá. Alimentada também pela TV, que fala em emoção o tempo todo e pouco sobre futebol. No slogan, na gritaria dos narradores cada vez mais exagerada, até forçada. Até cobrança de lateral é com o tom lá em cima.

Querem tudo à flor da pele e depois lamentam quando a violência explode no campo, nas arquibancadas ou nas ruas. Não é preciso falar “Matem-se!” Basta resgatar sempre que possível os símbolos da guerra que sempre foram utilizados no futebol. Só que a coisa passou do ponto há tempos. Mais uma vez estragou um jogo decisivo.

O gol de Borja no início da partida condicionou o jogo. Mas controle não houve. Inclusive, Roger Machado promoveu em sua equipe uma mudança na forma de se defender. Para evitar que a marcação por zona pura pudesse provocar uma passividade em seus jogadores, a maior crítica na derrota por 2 a 0 para o Corinthians na fase de grupos, o treinador estimulou seus comandados a fazer encaixes com perseguições mais longas. Mesmo tendo a bola ainda como referência. Tudo para não perder a intensidade. E também agradar a arquibancada. Ou, no caso de hoje, o palmeirense que viu pela TV.

Correria desenfreada, qualquer choque aumentando ainda mais a eletricidade. Há quem defenda essa postura e diga que clássico decisivo não é para jogar, mas vencer. Ainda mais para os que veem o esporte como o último refúgio para a barbárie e a imposição da virilidade através da truculência. Ou o templo da emoção. Sempre ela.

A grande pergunta que fica é onde o futebol, essência que se transforma em um mero detalhe, entra nessa equação? Em Itaquera ele pouco apareceu. Pior assim. Que no Allianz Parque seja melhor.


Palmeiras é favorito, mas pode dar o que o Santos de Jair precisa: espaços
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André Rocha

Um terminou a fase de grupos com a melhor campanha e nas quartas-de-final enfiou 8 a 0 no placar agregado sobre o Novo Horizontino. Tem um dos elencos mais qualificados do país e o artilheiro da competição: Borja, com 6 gols, mas que vai ficar de fora das semifinais pelo absurdo no calendário brasileiro de se jogar em datas FIFA. Melhor ataque, time que mais finaliza, desarma certo e só fica atrás do Corinthians na efetividade dos passes.

O outro ficou com a terceira pior campanha entre os grandes paulistas, um ponto apenas à frente do São Paulo claudicante de Dorival Júnior e no primeiro mata-mata sofreu, não marcou gols sobre o Botafogo de Ribeirão Preto e precisou da disputa de pênaltis, com cobranças bizarras, para conseguir a classificação.

Agora Palmeiras e Santos se cruzam e, obviamente, há um claro favorito. Até por ter vencido por 2 a 1 no Allianz Parque no primeiro duelo de 2018. Mas há um detalhe que tem passado batido nas prévias do clássico: o contexto pode entregar uma arma ao Santos.

O time de Jair Ventura vem sendo criticado pela dificuldade de propor jogo e criar espaços em sistemas defensivos mais fechados. Mesmo com mais dinâmica no meio-campo com Léo Cittadini e Jean Mota nas vagas de Renato e Vecchio, a movimentação não cria jogo entre as linhas do adversário e a equipe fica engessada, previsível. Sem recursos, é a que mais levanta bolas no estadual.

Só que mesmo no Pacaembu com maioria santista no sábado, a tendência é que o Palmeiras busque a ocupação do campo de ataque no ritmo de Lucas Lima, com Marcos Rocha e Victor Luiz apoiando Bruno Henrique e mais o quarteto ofensivo que novamente terá Keno e Dudu pelos flancos e Willian mais centralizado, porém com constante movimentação. Como consequência, deve ceder o que Jair Ventura mais precisa: espaços.

É óbvio que o volume de jogo e a intensidade impostas pela equipe de Roger Machado podem criar muitos problemas para um time ainda buscando ajuste. Mas se conseguir compactar setores num 4-1-4-1 com um bom trabalho de recomposição pelos flancos de Eduardo Sasha e Rodrygo e entrega sem a bola do garoto Diogo Vítor, que deve entrar na vaga de Jean Mota, o Santos pode complicar a provável proposta alviverde.

Especialmente com Gabriel Barbosa, o “Gabigol”, que não estava em campo no jogo da fase de grupos, para cima de Antonio Carlos e Thiago Martins, mesmo com a proteção de Felipe Melo. É atacante inconstante e com dificuldades na leitura de jogo, mas com campo para explorar as costas da defesa adversária ou no um contra um para cortar e finalizar de canhota é um perigo. Já marcou seis gols na história do clássico.

Em tese, o Palmeiras tem tudo para se garantir em mais uma decisão do Paulistão. Mas o Santos de Jair Ventura tem uma chance e os espaços como trunfo. Ainda que não honre o DNA ofensivo do clube, o time merece respeito.

Palmeiras no 4-2-3-1 deve tomar a iniciativa, mesmo no Pacaembu com maioria santista. Mobilidade na frente, Lucas Lima articulando e apoio constante dos laterais Marcos Rocha e Victor Luiz que vai exigir concentração de Sasha e Rodrygo na recomposição. Mas com espaço para acelerar contragolpes, o Santos de Jair Ventura, provavelmente num 4-1-4-1, pode complicar a proposta alviverde com Gabigol para cima de Antonio Carlos e Thiago Martins. Roger Machado vai precisar da maior proteção de Felipe Melo para a sua zaga (Tactical Pad).

(Estatísticas: Footstats)


Paes, Ismaily, André Gomes. As várias faces da nossa crueldade
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André Rocha

O goleiro Paes do São Caetano falhou no gol de Trellez e foi infeliz ao colocar nas redes a cabeçada de Diego Souza que tocou na trave direita. Os gols da classificação do São Paulo para as semifinais do Paulista. Errou, sim. Mas as lágrimas depois do jogo no Morumbi são  de quem sabe que comprometeu o trabalho de toda a equipe e também por saber que ficou marcado.

Mesmo em um time de menor investimento, será tema de memes. Talvez até debochando de suas lágrimas. O triunfo são-paulino será relativizado pelo que fez, ou deixou de fazer. Já ecoa o trocadilho “Goleiro Paes foi uma mãe para o São Paulo”.

Ismaily do Shakhtar Donetsk foi convocado por Tite para a vaga de Alex Sandro, que substituiria Filipe Luís. Ou seja, foi a quarta opção para a lateral esquerda. Dificilmente irá ao Mundial da Rússia. Mas só porque atua na Ucrânia e não fez história em um grande clube brasileiro os protestos vêm de todos os lados.

Um jogador em bom momento, de uma equipe que se classificou para as oitavas de final da Liga dos Campeões eliminando na fase de grupos o Napoli que disputa o título italiano com a Juventus. Jogos transmitidos ao vivo para o Brasil. Ismaily foi citado por Tite há dez dias. Se ninguém se informou sobre o lateral, o problema não é dele. Uma convocação circunstancial, de emergência, guiada pelo contexto. Provavelmente não vai jogar os amistosos, nem será convocado até a Copa. Nenhum motivo para alarde. Muito menos para tratá-lo como um Zé Ninguém.

André Gomes confessou à revista “Panenka” que sofre pela pressão que coloca sobre si mesmo por não render no Barcelona. A ponto de sentir vergonha de sair de casa. Não importa se o seu estilo não tem muita relação com a escola do clube, nem é um “transgressor” como Paulinho, mais intenso e infiltrador. Não interessa se o erro foi de quem contratou.

É o jogador que sofre, entra em depressão. É ele também o contestado quando está em campo, por ser uma espécie de corpo estranho. Ninguém quer saber. Porque se o sonho da maioria dos jogadores do planeta é estar nos gigantes da Espanha e jogar com Messi algo para contar para os netos é obrigação render em alto nível, não importa como.

Esquecemos que aqueles que julgamos por noventa minutos, ou pelas nossas convicções, são gente. Com sonhos e frustrações, vitórias e derrotas muito além do campo. Não precisam que sejamos impiedosos, implacáveis com os erros alheios como não agimos conosco ou com aqueles que defendemos. A maior cobrança é de quem avalia o próprio desempenho.

A crítica aos que não rendem não pode ser destruidora, definitiva. O futebol é complexo e caótico demais para este nível de exigência. Com o goleiro que falha, o meia que não encaixa, o lateral que “ninguém conhece”. Até porque não há outro esporte com tantas histórias de redenção, subvertendo a lógica.

Mas temos o péssimo hábito de ver o lado negativo de tudo. O erro salta aos nossos olhos. Diminuir alguém reduz a própria dor, esconde os fantasmas. São as várias faces da nossa crueldade. Que aprendamos a lutar contra este vício. Em nome do respeito.


Palmeiras vence combinando Roger e Cuca. São Paulo parece sem saída
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André Rocha

O clássico no Allianz Parque mostrou um Palmeiras combinando, intencionalmente ou não, elementos das ideias de Roger Machado com as do campeão brasileiro com Cuca.

Pressão sufocante na saída de bola do adversário e um jogo mais direto e menos construído ao entrar no campo de ataque. Com Lucas Lima mais adiantado, recuando menos para articular. Passando do 4-1-4-1 para um 4-2-3-1 dentro de um modelo que se impôs pela intensidade. Também na jogada aérea que encontrou Antonio Carlos no gol que começou a mudar o clássico. A fração de Cuca.

Já a de Roger é uma saída de bola mais cuidadosa, liderada por Felipe Melo bem assessorado por Bruno Henrique. Também a marcação por zona, sem encaixe ou perseguições longas. Maior controle, tanto dos espaços quanto da posse de bola – terminou com 54%.

A inversão dos ponteiros, com Dudu à direita e Willian pela esquerda, funcionou com o auxílio dos laterais Marcos Rocha e Victor Luis, o melhor em campo com destaque para o voleio que terminou no gol de Borja no rebote. Volume de jogo e variações dentro de uma atuação segura. Os números dos 90 minutos dos 2 a 0 não deixam dúvidas: 16 finalizações contra sete e 25 desarmes corretos contra treze.

Domínio que desequilibrou totalmente o rival. O São Paulo de Dorival Júnior foi empurrado para a defesa, não conseguiu reter a bola, forçou demais as ligações diretas com o goleiro Jean e sofreu. A falta de confiança é nítida. Uma pressão bem feita é suficiente para desarticular tática e mentalmente a equipe.

O tricolor parece sem saída. Com jogadores rodados como Nenê e Diego Souza o time fica muito lento. Já quando escala os mais jovens, ou o “time do Dorival”, a situação do clube joga contra e qualquer obstáculo parece uma montanha. Consequência de uma espiral de equívocos, dentro e fora de campo, que não vem de hoje.

O futuro no Morumbi é duvidoso. Pela lógica brasileira, a derrota no clássico deve custar o emprego de Dorival Júnior. Embora não seja o único culpado, é inegável que o trabalho não evolui com consistência e a impressão é de que não há respaldo real para a reconstrução paciente de um gigante combalido.

Já o Palmeiras parece ganhar um norte para a sequência da temporada, mesmo considerando as fragilidades do rival. Misturando posse e intensidade. Roger e Cuca. Passado e presente. Pode dar bem certo.

(Estatísticas: Footstats)

 


Pelé foi o atleta na era de jogadores. Messi é o jogador na era de atletas
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André Rocha

Foto: FIFA

O título é quase um slogan para uma ideia porque, obviamente, havia muito, mas muito mesmo, de jogador em Pelé e Messi tem que ter muito de atleta para brilhar no futebol atual.

Mas vale a imagem para retratar duas eras. Ainda que Cristiano Ronaldo seja um rival que Pelé nunca teve, nem Garrincha no Botafogo. Em duelos no país e no continente. O artilheiro do Real Madrid pode até terminar como o jogador deste período se terminar a carreira com mais títulos de Liga dos Campeões e prêmios individuais que o argentino.

Com os 600 gols de Messi, as comparações com Pelé vieram à tona novamente. Tarefa sempre complicada medir valores de épocas diferentes. Porque se é difícil imaginar o atleta do século nos campos atuais em um futebol que reduziu tempo e espaço drasticamente, não é menos complicado vislumbrar o gênio do Barcelona se virando contra adversários dopados, violentos e sem as câmeras de TV para registrar qualquer excesso de truculência e intimidação em campo e proteger o talento. Sem contar o peso do uniforme, da bola, a qualidade dos gramados, etc.

Mas há um fator que os aproxima e ao mesmo tempo ilustra o que os tornam tão diferentes: Messi hoje é o jogador de linha que menos corre no futebol mundial no seu mais alto nível. Cerca de oito quilômetros por jogo, bem abaixo da média de 12. Mais ou menos o que estudos calculam, sem os recursos de hoje, que Pelé percorria quando voava nos gramados, acima da média de seis quilômetros nos anos 1960.

Contexto. Algo necessário para entender fenômenos. Pelé é do tempo em que jogar na Europa não era condição para se medir entre os melhores. Sem internet e globalização, o que o mundo sabia do Santos era o mesmo que o Brasil sabia de Real Madrid, Barcelona, Milan…O melhor time das galáxias para um menino vivendo no Rio de Janeiro era o alvinegro praiano, que lotava o Maracanã quase sempre.

Usar gols em amistosos na totalização dos mais de mil do “Rei” é justo, coerente. Para faturar e poder manter o melhor do planeta, o Santos viajava muito, com cotas para o clube e para seu astro maior. Algumas vezes desprezando a Libertadores. Enfrentando as grandes equipes europeias, não só nos torneios de pré-temporada por lá – ilusão que nos foi vendida aqui quando Vasco, Flamengo, São Paulo e outros conquistavam os torneios Ramon de Carranza e Teresa Herrera com os europeus voltando de férias e os brasileiros no meio do ano, muito mais bem preparados.

Eram partidas em que os do Velho Continente desafiavam a equipe a ser batida, o Santos. Sim, é quase impossível um jovem visualizar isto. Mas o mundo não foi criado em 1995 com a Lei Bosman.

Messi merece todas as menções como o grande jogador de sua geração. É quase um artesão da bola. Cada gesto é feito com capricho e precisão. Como Roger Federer no tênis, o cuidado e o carinho a cada golpe. Cristiano Ronaldo, então, é Rafael Nadal. Atlético, feroz e minimalista. A genialidade está em encurtar o caminho.

Aqui vale outro paralelo interessante. Pelé era mais atleta e profissional no tempo dos românticos. Não por acaso tantos, ainda que informalmente, na conversa do bar, o coloquem abaixo de Mané Garrincha, um símbolo mais alinhado ao “zeitgeist” (espírito do tempo) dos 1960. Alimentado pelo protagonismo na Copa de 1962, quando Pelé ficou fora de combate. Assim como hoje muitos preferem Cristiano Ronaldo, mais pragmático, focado em resultados. Se acha o melhor porque tem vencido mais. Inclusive com a seleção.

Eis o paradoxo de Messi. É lúdico vê-lo em campo muitas vezes trotando ou mesmo caminhando, à espera do momento para receber a bola entre as linhas do adversário e aí acelerar em direção à meta do rival. O problema nas últimas temporadas em jogos grandes é quando a concentração do oponente é tamanha que os espaços ficam reduzidos demais e o argentino não consegue desequilibrar nos momentos e no torneio mais importante – a Liga dos Campeões. Nem vencer. Aconteceu contra Atlético de Madri e Juventus. Não fosse o despertar de Neymar na reta final dos 6 a 1 e também os erros de arbitragem, pararia no PSG em 2017. Isso fica ainda mais complexo na quase sempre descoordenada seleção argentina.

Por isso Pelé é mais relevante para a história do esporte. Ainda que o tempo seja cruel e, com os que o viram e defendem até hoje seu reinado partindo deste mundo e os que ficam cada vez mais icônicos e falando em “melhor da história” sem conhecê-la, isto tenda a se tornar mais dramático.

Simbolicamente, Pelé foi Messi E Cristiano Ronaldo. Talento e trabalho. Magia e explosão. Longo período no mais alto nível. Interferiu mais na evolução do jogo. Um visionário que já pensava em recordes. Como sobrava fisicamente, empilhava gols na segunda etapa das partidas, com os adversários já extenuados.

Crescia nos jogos grandes, mas pulverizava os pequenos. Craque de “liga” – no caso, o Paulista, campeonato mais próximo da fórmula dos pontos corridos e supervalorizado por uma cultura mais local – e de “mata-mata”. Ou só “mata”, como nas duas Copas do Mundo em que foi protagonista e campeão. Outra vantagem sobre os dois gênios da atualidade.

Por ora é agradecer pela tecnologia que nos permite achar na internet muita coisa do homem que imortalizou e criou a mística da camisa dez, além do lendário filme “Pelé Eterno”. Jogos na íntegra ou quase isso que dão uma dimensão do que foi o ícone, quase sinônimo de futebol por tantos anos. Até hoje para os que viram jogar, mesmo que por puro saudosismo.

Mais gratos ainda devemos ser pelos tempos atuais. No caso deste que escreve, por reunir numa mesma época o melhor jogador que viu ao vivo: Messi. Também o melhor finalizador, Cristiano Ronaldo. De quebra, Pep Guardiola, o melhor treinador. Um privilégio que merece ser desfrutado sem perder tempo com radicalizações e cultura de ódio no saudável e subjetivo exercício da comparação. De hoje e de ontem. Celebremos o futebol!


Garotada, torcida única e “Venturabol”. O Santos dos contrastes no Pacaembu
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André Rocha

Foi diferente ver o Pacaembu com torcida única do Santos contra o time mais popular de São Paulo. Não que o alvinegro praiano não possa desfrutar da vantagem que os rivais têm de mandar seus jogos na maior cidade da América Latina. Muito menos que sua gente não tenha capacidade de lotar estádios maiores que a Vila Belmiro. Foi apenas inusitado. Um contraste com os domingos de Morumbi dividido de outros tempos. Não exatamente melhores, mas diferentes.

Tão estranho quanto a visão distorcida de que Jair Ventura é o José Mourinho da nova geração de treinadores no Brasil. O seu Botafogo não dava a bola para o adversário, mesmo jogando em casa, e abusava do pragmatismo se defendendo independentemente do contexto da partida.

A crítica ao jovem técnico é comum a tantos outros no país: suas equipes precisam de espaços para atacar. Quando é preciso criá-los se complica. E aí apela para o recurso mais simples: roda a bola de um lado para outro até cruzar na área. Uma espécie de “Venturabol”.

É preciso entender que não há nenhum preconceito contra as bolas levantadas. A questão é que quando elas não são consequência de uma ação ofensiva bem trabalhada na qual o jogador pelo flanco chega ao fundo em condições de servir seu companheiro. O cruzamento mais comum é aquele que quase sempre está mais para o zagueiro que para o atacante.

Daniel Guedes cruzou 20 bolas no empate em 1 a 1 com o Corinthians. Acertou duas. Jean Mota foi mais eficiente: de 12 no total acertou três. Total de 47, com nove acertos. Números comuns, na média brasileira de quem precisa atacar. Mas que refletem a opção por uma jogada que, da forma com que é executada, não tem eficiência, nem eficácia. Mesmo quando a equipe termina a partida com 53% de posse de bola.

Só quando Cássio largou nos pés do jovem Diogo Vítor, 21 anos. Que entrara na vaga de Rodrygo, de 17, em sua estreia como titular substituindo o suspenso Gabigol. Para empatar e salvar o time da derrota que parecia encaminhada pelo chute de Renê Júnior ainda no primeiro tempo.

Revés que poderia ter sido decretado na segunda etapa com oportunidades desperdiçadas pelo time de Fabio Carille, novamente com Jadson e Rodriguinho mais soltos, alternando na função de “falso nove”. Inicialmente parecia que a queda de energia no estádio, a terceira em três meses, tinha beneficiado os visitantes.

Mas os garotos salvaram o time da derrota. Que poderia ter se transformado em virada se aos 45 minutos o árbitro Luiz Flávio de Oliveira marcasse dentro da área, como de fato aconteceu, a falta de Balbuena em Léo Cittadini anotada fora. Cittadini, outro que chegou menino ao Santos e no clássico, substituindo Renato, tornou o meio-campo mais dinâmico e o time mais agressivo. Foram 15 finalizações, três a mais que o Corinthians – seis para cada lado no alvo. Mesmo sem Gabigol, suspenso.

O Santos sempre parece mais forte quando usa a garotada. Mesmo se não abrir a defesa adversária respeitando a tradição do clube, com bola no chão, técnica e habilidade. Mais um contraste histórico no domingo de Pacaembu com jeito de Vila Belmiro.

(Estatísticas: Footstats)