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Palmeiras B campeão será a “experiência de quase-morte” do Brasileirão
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André Rocha

Você consegue imaginar um Real Madrid valorizando mais a Copa do Rei do que La Liga ou o Bayern de Munique lamentando mais a eliminação da Copa da Alemanha do que ficar para trás na disputa pela salva de prata da Bundesliga?

Improvável, não? No Brasil, porém, funciona diferente. Além da Libertadores, a Copa do Brasil é tratada como prioridade pelos grandes clubes. Não só pelo alto valor da premiação, mas por uma simples questão de cultura. Se contarmos desde 1959, foram 43 anos de disputa do Brasileiro no mata-mata. Apenas 16 nos pontos corridos. De 1989 a 2002, as duas principais competições nacionais eram definidas em jogos eliminatórios e parecia ok pra todo mundo.

Os pontos corridos, mesmo com os lamentos de muita gente, chegaram a pegar por aqui. Assim como a visão de que a regularidade, valorizando todos os jogos, normalmente era a grande virtude do campeão.

Tudo mudou com Libertadores e Copa do Brasil passando a ser disputadas durante toda a temporada, como acontece na Europa. A possibilidade de ser campeão disputando menos partidas se transformou numa sedução quase irresistível. Os clubes com maior capacidade de investimento e elencos mais robustos agora disputam o Brasileiro utilizando várias vezes seus times reservas.

O que deveria ser a principal competição nacional virou, na prática, prêmio de consolação. Só passa a ser prioridade quando não há mais nada em disputa. Dependendo do clube, até a disputa da Sul-Americana pode ser colocada na frente. Também por conta do aumento de vagas para a Libertadores. Um G-6 que pode virar até G-9. Quase metade dos participantes…

Tudo isso cria um cenário de desvalorização que pode ganhar um capítulo dramático se o atual líder Palmeiras confirmar o título nas últimas onze rodadas. Desde a chegada de Luiz Felipe Scolari disputando a maioria das partidas com reservas. O experiente treinador usa a retórica para não admitir que é um time B e valorizar todos os jogadores. Mais que legítimo.

E vem dando certo. Usando três ou quatro titulares, normalmente no meio-campo e ataque, está invicto há onze rodadas: oito vitórias e três empates. Incríveis 82% de aproveitamento. Com Gustavo Gómez, Marcos Rocha, Lucas Lima, Hyoran e Deyverson se destacando, além de Felipe Melo e Dudu, tantas vezes pinçados do time A.

Todos os méritos para Felipão, comissão técnica e atletas. Mas um claro sintoma do achatamento técnico da competição. Não só pelo momento do futebol brasileiro já analisado tantas vezes neste blog, com equipes cada vez mais organizadas para defender e sem ideias quando precisam criar espaços diante de times compactos. E ainda tensas com a responsabilidade do favoritismo.

Incrível como o São Paulo caiu de rendimento depois que passou a ser de fato candidato ao título que não conquista há dez anos. Mesmo com desfalques importantes, a queda dos comandados de Diego Aguirre foi brusca. É possível notar em campo uma equipe travada pelos próprios nervos. Precisa vencer e não sabe bem como. A torcida fica ainda mais pilhada ao ver os grandes rivais da cidade em um momento tão bom em termos de resultados – Corinthians e Palmeiras são os últimos campeões brasileiros e seguem fortes no mata-mata.

O mesmo com o Internacional vindo da Série B e que de repente se viu disputando o topo da tabela. Outro time que precisa dar respostas diante da força do grande rival, o Grêmio campeão sul-americano e praticamente garantido nas semifinais do torneio continental em 2018. Mais uma equipe que sem brechas para infiltrar entra em parafuso e sofre mais do que devia, mesmo em jogos relativamente tranquilos contra times tentando se afastar do Z-4.

Por enquanto o Palmeiras está leve. Disputa as partidas sem maiores cobranças. Não só pelo crédito histórico de seu treinador, mas principalmente por também estar com a classificação bem encaminhada para as semifinais do principal torneio sul-americano. Buscando o bi com Felipão. A eliminação na Copa do Brasil teve seu impacto em um clube ávido por taças, mas sem gerar crise.

Esta tranquilidade somada ao desempenho com notável regularidade pode, sim, acabar em título. Ainda que a tabela reserve o clássico contra o São Paulo no Morumbi já na próxima rodada e depois duelos fora de casa contra Flamengo e Atlético Mineiro.

Se acontecer será uma espécie de “experiência de quase-morte” do Brasileirão. Um duro atestado de desvalorização. A dança com a prima no final da festa. Algo para CBF, clubes e até a TV Globo repensarem. Ainda que a audiência siga com bons números e até a média de público esteja mais alta, turbinada pelos programas de sócio-torcedor que estimulam a fidelidade. Mas fica cada vez mais cristalino que o foco é mata-mata.

As quartas estão mais nobres que os fins de semana. Sinal dos tempos.


Santos é só mais um clube brasileiro preso na bolha de vitimismo e cinismo
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André Rocha

O Santos fez vergonha no Pacaembu. Porque é um clube com imagem a zelar. Da Conmebol não se espera nada.

Do Alvinegro Praiano aguardamos até hoje as providências necessárias. Dele e dos outros grandes. Que rompam com federações, CBF e até Conmebol. Todas elas precisam dos clubes brasileiros. Os que têm torcida, camisa, representatividade, força comercial…e parece que não sabem.

São submissos. Por uma migalha aqui e ali. O Santos aplaudiu a canetada de Ricardo Teixeira unificando os títulos nacionais desde 1959. O Palmeiras suplica à FIFA o reconhecimento da Copa Rio como Mundial. O Flamengo ficou mendigando o título brasileiro de 1987.

E a culpa é sempre dos outros. Certamente vão xingar este que escreve pelo que disse no parágrafo acima. No caso dos mais preguiçosos, só pelo título do post. É sempre contra tudo e todos. Uma paixão cega e, por isso, quase sempre pouco inteligente. Porque iniciativas consistentes para se livrar dos obstáculos não existem.

Transferir responsabilidade é cômodo, uma boa bengala. A bolha do vitimismo é um lugar seguro e quentinho. Assim como a do cinismo de quem debochou do Santos, mas pode ser punido pela fraqueza política da CBF no continente daqui a pouco. Hoje ainda. Assim como muitos santistas riram, por exemplo, da arbitragem mais que questionável de Carlos Amarilla contra o Corinthians pela Libertadores 2013.

A ira de parte da torcida pela punição já era esperada. Mas não pode ser relativizada porque a Conmebol é tendenciosa e corrupta. Sempre foi e não vai mudar enquanto os clubes não agirem. Só que esperar união é utopia em um cenário no qual cada um só está preocupado em resolver o seu problema. E só “não tem sangue de barata” para quebrar estádio. Romper com o status quo? Para quê?

Quem lê este blog há pelo menos dois anos sabe das minhas ressalvas a Cuca. Como treinador, gestor de pessoas e figura pública. Mas ontem foi perfeito na entrevista, assumindo enquanto profissional do clube a cota de responsabilidade deste. Cuca que foi vitimista tantas vezes ontem surpreendeu. Ponto para ele. Que não seja punido pela sinceridade.

Foi só mais uma noite no Pacaembu. Tão lamentável quanto o pensamento minúsculo de quem dirige gigantes que hibernam enquanto os ratos fazem a festa.


VAR, mando de campo, estaduais…é escrever só para dormir tranquilo
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André Rocha

Quando se diz que estadual é um atraso para o futebol brasileiro, prejudica o calendário, não resolve o problema dos pequenos e em dezembro ninguém se lembra quem foi o campeão em maio…é só para desencargo de consciência.

Porque as partes envolvidas, inclusive boa parte da imprensa, preferem valorizar e alimentar a rivalidade local, que é saudável, mas não paga o prejuízo dos clubes ao longo da temporada em todos os aspectos. Inclusive o produto campeonato brasileiro que é pouco valorizado no mundo todo, entre outras coisas, por seu período mais curto em relação a outras ligas.

O mais irônico é depois vilanizar presidente de federação ou da CBF, que só têm poderes acima dos clubes pela manutenção da estrutura federativa. Quem valoriza estadual apenas avaliza o status quo.

Quando a milionária CBF tenta impor aos clubes os custos do uso do VAR (árbitro de vídeo) e estes se limitam a votar contra a utilização no Brasileiro de 2018, negando a tentativa de minimizar os erros de arbitragem tão reclamados ao longo do ano…este blogueiro só se manifesta para dormir tranquilo.

Porque no fundo a maioria dos dirigentes quer mesmo é um “álibi” para os próprios erros de planejamento, desviar o foco e arranjar um vilão para as derrotas. Outros querem manter a insegurança da equipe de arbitragem para que esta, na dúvida e no temor de ser punido, marque a favor do mais poderoso e/ou popular. Muitos torcedores também apreciam esta “bengala” para criar as teorias de conspiração quando o rival é campeão. Sem contar que é um alívio para muita gente que trabalha falando de futebol e detesta abordar o jogo. Prefere as polêmicas para mascarar a falta de conteúdo.

Quando se critica a autorização do uso de cinco mandos de campo fora do estado de origem – ou seja, a venda do mando na maioria dos casos, o que causa um desequilíbrio técnico na competição – é só para ter a consciência limpa.

Porque por conta de outros equívocos, inclusive o abismo nas receitas de TV entre os clubes, os times de menor investimento desejam uma compensação com a chance de fazer barganha, mesmo se afastando da própria torcida. E alguns grandes, por não terem estádio próprio, querem a brecha para tentar faturar em outras praças, ainda que sacrifiquem o próprio time com mais viagens.

O blogueiro escreve apenas para deixar o registro de que não compactua com falta de profissionalismo, decisões políticas acima das técnicas, do provincianismo…do caos que é o futebol brasileiro.

Só para dormir tranquilo mesmo. Porque a esperança de que um dia tudo isto mude a curto/médio prazo não existe há um bom tempo. Seguimos pelo ofício, por amor ao jogo e ao futebol cinco vezes campeão do mundo. Mas sem deixar de lamentar.


Seleção: testar novidades ou entrosar e criar variações na base titular?
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André Rocha

A partir dos duelos contra Equador e Colômbia pelas Eliminatórias a seleção brasileira viverá um dilema causado pela competência de Tite, comissão técnica e jogadores.

Por conta das oito vitórias seguidas alcançou a vaga para a Copa do Mundo da Rússia. Encontrou uma base titular muito rapidamente e deu liga de maneira veloz quase na mesma proporção. Mas continua sendo um trabalho de pouco mais de um ano e um universo de apenas onze partidas, incluindo amistosos contra Colômbia, Argentina e Austrália.

É pouco, mas conseguiu muito. O objetivo principal. E terminar a disputa sul-americana em primeiro lugar nada significa objetivamente para o Mundial. Por isso fica a impressão de que seria o momento para fazer testes. Para evitar o grupo fechado, a pouca importância dada ao momento dos jogadores e a preferência pela manutenção do que deu certo anteriormente. Ideias que prejudicaram Parreira, Dunga e Felipão nas três últimas Copas do Mundo.

Desta vez não houve Copa das Federações. Ou das ilusões: de time pronto e imbatível, sem considerar todas as variáveis e possibilidades de mudanças em doze meses. O engano da receita de sucesso infalível. O que deve ser evitado.

Mas por conta do espaçamento entre as partidas e das poucas sessões de treinos é natural que Tite fique tentado a ver seus titulares em ação mais vezes. Para consolidar ideias, construir o jogar de memória na execução do 4-1-4-1 já bem ajustado e até criar variações sem mexer nas peças. Ou só deixar Phillippe Coutinho de lado neste momento por não estar em ritmo de competição, sem jogar no Liverpool e esperando o desfecho deste interminável interesse do Barcelona.

Willian deve começar a partida na Arena do Grêmio, o que muda as características porque o ponteiro do Chelsea atua mais aberto e circula menos que Coutinho. Perde o ponta articulador, mas pode abrir o campo e até aproveitar Daniel Alves descendo mais por dentro.

Não seria, porém, o momento de testar mais gente, mesclar a escalação com reservas para observá-los em ação num cenário competitivo, com os adversários ainda buscando a classificação? De repente testar Luan e buscar um jogo entrelinhas mais envolvente tentando reeditar o sucesso da parceria com Neymar. Experimentar e manter todos atentos, motivados, sem risco de acomodação. Mas sem perder a identidade como equipe.

Difícil escolha que só reforça a crítica à CBF por ter perdido dois anos com Dunga quando era claro o momento do melhor treinador brasileiro que se sentia pronto para o cargo. O trabalho estaria mais maduro, haveria duas disputas de Copa América como bagagem e o planejamento teria menos urgências.

Agora cabe a Tite definir o caminho até o ano que vem. Dosando manutenção, aprimoramento e busca constante de meritocracia. Entrosar, variar e testar na justa medida. Um desafio que começa na quinta-feira em Porto Alegre.

 


Na “Cidade Maravilhosa”, o ódio está em toda parte e não só em São Januário
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André Rocha

Muito já se falou e escreveu sobre o ocorrido em São Januário no sábado antes, durante e depois do clássico. Obviamente há a disputa política de um Vasco que há tempos necessita de uma terceira via forte além de Roberto Dinamite e Eurico Miranda.

Um clube que preferiu voltar ao passado com medo do futuro e que ainda não consegue vislumbrar um amanhã. Que acreditou que recuperaria protagonismo pelo simples retorno de um dirigente típico do século passado no futebol brasileiro. Com o rebaixamento veio o choque de realidade e, com ele, a exacerbação de uma cultura de ódio que é passada, intencionalmente ou não, ao torcedor cruzmaltino desde a infância.

Este blogueiro conhece porque vem de uma família de vascaínos e convive com vários desde sempre. O discurso é simples e direto: o Vasco é o clube popular de verdade e todos os seus títulos são conquistados com muito mérito, enquanto o rival Flamengo só tem a maior torcida do Brasil e construiu suas vitórias por ser protegido. Por CBF, Rede Globo, arbitragens…Em toda conquista há uma conspiração.

Algo que não faz o menor sentido, até porque todos os clubes cariocas historicamente já foram favorecidos por primeiro estarem na capital federal, em seguida pela proximidade geográfica da CBD, depois CBF. Antes mesmo da popularização dos aparelhos de televisão, a Rádio Nacional contribuiu para a formação de torcidas além da federação. Do Flamengo, sim. Mas também de Fluminense, Botafogo e do próprio Vasco.

Como todo trabalho de convencimento, algumas informações não são passadas porque desconstroem as teses de doutrinação.

Como a manobra no regulamento do Campeonato Brasileiro de 1974, primeiro conquistado pelo Vasco, para que a final contra o Cruzeiro que seria realizada no Mineirão pela melhor campanha do time celeste ao longo de todo o campeonato fosse transferida para o Maracanã. Na partida vencida pelo time carioca por 2 a 1, a arbitragem de Armando Marques é contestada até hoje pelos cruzeirenses por conta de um gol anulado do volante Zé Carlos aos 43 minutos do segundo tempo e o apito final sem nenhum acréscimo dentro de um jogo com muitas paralisações.

Também não revelam que alguns períodos vencedores do clube coincidem com a proximidade da CBD, comandada pelo Almirante Heleno Nunes de 1975 a 1980, vascaíno assumido e considerado responsável pela convocação de Roberto Dinamite para a Copa do Mundo de 1978 na Argentina. Também da CBF no final dos anos 1980, a ponto de Eurico Miranda ter sido o primeiro diretor de futebol da entidade no início da gestão de Ricardo Teixeira.

Ou a famosa aliança com a FERJ que vem desde os tempos de Eduardo Vianna, o Caixa D’água, e retomada agora com Rubens Lopes no retorno de Eurico Miranda à presidência. Períodos que coincidem com muitas conquistas do clube. Ou seja, ninguém tem telhado de vidro e história ilibada e sem manchas ou dúvidas. Infelizmente.

Mas o vascaíno é ensinado a odiar o Flamengo desde o berço, a vasculhar a história do rival em buscas de fatos reprováveis e frutos de conspirações. Por consequência, muitos sabem pouco da trajetória do próprio clube. A ponto de questionar o título carioca deste ano do Fla sem vencer nenhum turno, mas não saber – ou fazendo questão de esquecer – que a conquista estadual de 1982, tão celebrada sobre o multicampeão time de Zico, também foi construída sem ganhar a Taça Guanabara e a Taça Rio, mas por chegar ao triangular final pela melhor campanha geral. Questão de regulamento.

O clássico de sábado foi a gota de sangue num copo transbordando. O vascaíno percebe seu time de coração afundado por seguidas gestões incompetentes e irresponsáveis que ocasionaram três rebaixamentos no Brasileiro, as páginas mais vergonhosas de uma história gloriosa. O último sob o comando de um homem envelhecido, mas que faz questão de manter sua imagem de inquebrantável. E forte nos bastidores para afrontar o tal favorecimento ao rival.

No início houve um bicampeonato estadual e a sensação de que os tempos de rivalidade em igualdade de condições, ou aquela aliança vitoriosa com a federação carioca, tinham voltado. Mas a Série B em 2016 e a nítida mudança de patamar do Flamengo, com dívidas equacionadas, melhor estrutura e, numa cultura nacional sem fronteiras pela internet, rivalizando mais com os grandes paulistas e com o Atlético Mineiro do que com os tradicionais clubes locais fizeram explodir um ressentimento.

Foi o que se viu em São Januário, com bombas atiradas no campo, relatos de agressões a policiais mulheres, jornalistas e proibição de filmagem da festa da pequena torcida rubro-negra após a vitória por 1 a 0. Um triste cenário que retrata o desespero por ver um dos clubes mais tradicionais do país se apequenando por buscar sua grandeza de volta pelo caminho errado.

Equivocado e falimentar também o Rio de Janeiro depois da falsa bonança pelos investimentos para os Jogos Olímpicos. Associado aos escândalos na Petrobrás e à redução de arrecadação dos royalties do petróleo desencadeou na maior crise da história da cidade e do estado.

Como diz o velho ditado,”em casa que não tem pão todos gritam e ninguém tem razão”. Assim como em São Januário, onde há crise existe ódio. E na dita “Cidade Maravilhosa” ele está em toda parte.

De quem se acha vítima de um golpe eleitoral. No país, a nível estadual e também municipal. Enganado por políticos, presos ou soltos. Cidadãos que só querem os recursos surrupiados repatriados para estancar a sangria nos cofres públicos e salvar a dignidade de quem trabalhou e trabalha, mas no fim do mês está sem salário.

Do desemprego pelas portas fechadas. Seja porque não há dinheiro ou paz em locais sitiados pelo tráfico de drogas. A violência desmedida que aprisiona e revolta. Sem paz até nos shopping centers que eram o último refúgio. Cenário capaz de relativizar até as belezas naturais e os cartões postais. O Rio da zona sul, sempre privilegiada, que também revolta os que moram no subúrbio e na baixada fluminense.

Para responder à violência, só a truculência. Espalha-se, então, o fascismo e o preconceito como resposta. Não por acaso é o reduto eleitoral do deputado que quer ser presidente defendendo ditadura militar e lembrando com saudades de torturadores. Representante de quem detesta as diferenças e defende a segregação até na praia, antes o mais democrático dos símbolos cariocas. Junto com o Maracanã, outro gigante esquecido e afundado nesta lama fétida de corrupção e descaso.

Este é o Rio de Janeiro da cultura do ódio. Diário, cravado no cotidiano. Em toda parte. O que eclodiu em São Januário foi apenas uma faceta dele. Da cidade que continua linda como no verso de Gilberto Gil. Mas chora e se rebela com quem a mira com mais interesses escusos que carinho e cuidado. Uma pena.


Viva a estrutura federativa do Brasil! Os clubes merecem essa coleira
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André Rocha

Enquanto a seleção se preparava para os 4 a 1 sobre o Uruguai em Montevidéu, a CBF aproveitou a paz que conseguiu com as vitórias da equipe de Tite para reafirmar seu poder no futebol brasileiro.

Alterou o colégio eleitoral com uma mudança significativa em seu estatuto: os votos das federações estaduais passam a ter peso três. Os clubes da Série A peso dois e os da Série B – a novidade que poderia mudar o jogo, só que não – com peso um.

São 27 federações. Ou seja, 81 votos. Vinte clubes da Série A. 40 votos. Vinte clubes da Série B: 20 votos. 81 a 60.

Ou seja, quem decide o destino do futebol brasileiro são as entidades que deviam ser apenas coadjuvantes, executar funções burocráticas e serem mediadoras e facilitadoras dos interesses dos verdadeiros protagonistas.

Porque federação não tem torcida, não move paixões nem multidões. Não movimenta o dinheiro. Mas se aproveita dele.

Portanto, se prepare para mais estaduais inchados. Porque é assim que a estrutura federativa do futebol brasileiro funciona: os clubes pequenos, que não se contentam em disputar suas divisões no Brasileiro e querem enfrentar os grandes além da Copa do Brasil, sustentam as federações que mantêm o poder da CBF. É a pirâmide da barganha.

Mas os clubes brasileiros devem estar radiantes. Afinal, toda iniciativa para construir uma independência foi implodida pela própria desunião. Pelo amadorismo secular. Clube dos Treze, Copa União, Bom Senso FC, Primeira Liga. Tiros na água da correnteza de incompetência e provincianismo.

Porque é mais fácil ser aliado da federação e levar vantagem num mando de campo aqui, uma arbitragem ali. Se acabar campeão, para o torcedor está tudo maravilhoso. Inclusive alguns clubes repetem a estrutura internamente, criando seus “feudos”.

E se perder já tem em quem colocar a culpa e transferir responsabilidade: “não somos os queridinhos da federação”, “fomos roubados” e por aí vai. A velha muleta para iludir os incautos.

Os clubes merecem que um agente externo embolse uma parte importante de seus recursos. Que sigam fazendo o jogo das emissoras de TV. Que continuem vivendo de migalhas da própria grandeza. Merecem essa coleira. Independência, para quê?

Enquanto isso, Marco Polo Del Nero e seus asseclas comemoram uma vitória que não devia ser deles. Viva a seleção ressuscitada! Os clubes? Que obedeçam ou morram à míngua.

Parabéns aos envolvidos.


É no sofrimento que se vê quem é quem
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André Rocha

Mensagens de apoio do mundo todo, solidariedade de jogadores e torcedores de outros clubes do Brasil, a avalanche de solicitações para a campanha de sócio-torcedor da Chapecoense, as lágrimas de Renato Gaúcho e todo o altruísmo do Atlético Nacional em Medellín e junto à Conmebol, abrindo mão de um título internacional.

Tantos outros movimentos para amparar e oferecer o ombro aos atingidos pela tragédia que ficaram, em memória aos que se foram. Atos que mostram que não podemos generalizar na descrença na humanidade. O que dói é que também não foi preciso um dia para termos os primeiros sinais do quanto temos de pequenos e mesquinhos.

Como Marco Polo Del Nero pressionando a Chapecoense nas entrelinhas a colocar um time em campo na rodada final do Brasileiro contra o Atlético Mineiro na Arena Condá. Semana que vem. No mundo ideal não haveria mais futebol no país em 2016. Para Del Nero a dor é um detalhe menor. Não surpreende vindo de quem tem a frieza de seguir a vida e não abdicar do comando do futebol brasileiro, mesmo com o risco de ser preso caso se aventure numa viagem internacional.

Quase tão cruel, mas igualmente infeliz foi Fernando Carvalho, vice de futebol do Internacional. Na espontaneidade da afirmação sem pensar na repercussão, ao falar o que pensa e sente, revelou a indiferença à dor humana e a preocupação apenas com seu quintal. E desta vez nem a rivalidade com o eixo Rio-São Paulo estava em jogo, era um par do sul do país.

Lamentar o adiamento da rodada e falar em “tragédia particular” chega a ser ridículo, porque o Inter convive com o Z-4 por sua própria incompetência. Nenhuma fatalidade. Falar que “como a consternação é geral, como a solidariedade é unânime de todo mundo, não é hora de reclamar” faz entender que se houvesse uma brecha, se não pegasse tão mal, se não desgastasse tanto a imagem do clube, Fernando Carvalho pensaria em protestar.

Sem contar o nosso Congresso Nacional, que aproveitou nossa dor para, na calada da noite, aprovar o que não teria coragem de fazê-lo no centro das atenções. Ou até teriam, tamanha a desfaçatez. Enquanto chorávamos veio a facada pelas costas.

É triste, mas não assusta. Porque quem vive no próprio mundinho é incapaz de se colocar no lugar do outro. Até quando esse outro está ferido de morte. Se entrar na frente dos próprios interesses se transforma num obstáculo a ser ultrapassado. Nem que seja com hipocrisia.

Porque não somos todos bondade, mas felizmente a dor ainda nos une. Não a todos. Porque é no sofrimento que se vê quem é quem.

 


Desista, Tite! Ainda dá tempo…
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André Rocha

Este que escreve aprendeu a amar o futebol também com a seleção brasileira de 1982. A paixão pela camisa verde e amarela segue até hoje, misturada com dever de ofício. Apesar de tudo.

O blogueiro também admira Tite desde a conquista da Copa do Brasil em 2001 com o passeio gremista sobre o Corinthians no Morumbi. Acompanhou os altos e baixos na carreira, o profissional sério se transformando no melhor treinador brasileiro com sobras.

Por isso a notícia da óbvia demissão de Dunga acendeu uma esperança. Mesmo com dois anos de atraso, por conta de questões políticas, o técnico mais capacitado enfim chegaria ao comando do país cinco vezes campeão mundial.

Com a demora do acerto, veio a reflexão. E agora a conclusão: ainda não é o momento para este encontro.

No mundo ideal, todos os profissionais se recusariam a trabalhar para a CBF com os atuais dirigentes, estatutos e regulamentos. Exigiriam junto com o povo novas eleições independentes e uma outra ordem de valores.

A realidade é que Tite tem o direito de tratar a entidade que administra muito mal o futebol brasileiro como mais um empregador em potencial. Mas deveria observar melhor.

A intenção clara de Del Nero é adquirir um escudo ainda mais poderoso. Transfere a alguém a imagem de messias, sai dos holofotes das críticas e lava as mãos. “Coloquei aí quem vocês queriam, agora cobrem a ele!”

Tite vai chegar com a obrigação de recuperar rapidamente nas Eliminatórias. Isso se não empurrarem o projeto olímpico, como uma espécie de rainha da Inglaterra. A grife que protege Rogério Micale, o verdadeiro mentor de todo o trabalho.

Mais à frente receberá um grupo abalado por tantos reveses, a referência técnica questionada dentro e fora de campo. É óbvio que tudo pode melhorar com os retornos de Thiago Silva e Marcelo numa proposta de jogo mais atual, com conceitos e métodos modernos. Mas continua sendo incógnita.

Mesmo que Tite venha conseguindo desde o ano passado obter respostas imediatas do Corinthians logo no início das temporadas, na seleção é diferente. É papo, um treino de reconhecimento…e todo o peso do mundo nas costas do treinador com aura de mágico.

Não é. A rigor, Tite não é nem um dos melhores do mundo. Mesmo descontando o fato de que no universo das seleções não estão os mais qualificados, até por uma questão financeira. É mais um brasileiro no bolo dos que não têm mercado nos principais clubes do planeta.

Só que aqui sobra. Por isso o clamor popular.

Por isso não deve aceitar. Por lealdade ao Corinthians, que o amparou num dos momentos mais difíceis de sua carreira – o Tolima. Já CBF merece ficar nua e desamparada com o produto que sucateou. Como punição, mas também oportunidade de correção. Limpeza geral, revolução. O momento é agora. Se recusar será um símbolo. Aceitando entra na vala comum.

Por isso, desista, Tite! Ainda dá tempo…

 


É urgente! Precisamos reaprender a jogar futebol. Mas cadê a humildade?
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André Rocha

A gente não aprende.

“Inadmissível perder para o Peru!” Será mesmo? O Equador praticamente completo, segundo colocado nas Eliminatórias, teve que se virar atrás do empate depois de um 2 a 0 contra.

“Hoje só ganhamos da Venezuela”. Sim, ela que eliminou na Copa América Centenário o Uruguai, que é líder na qualificação para a próxima Copa do Mundo.

Para pensar grande, precisamos antes admitir que hoje somos medianos, estamos no bolo. É urgente!

Porque temos que reaprender a jogar futebol. O atual. Compacto, de ocupação de espaços, disputado em 30 metros e alta intensidade. Globalizado, com a informação circulando e o respeito apenas por peso de camisa relativizado se o desempenho em campo é pobre.

Aí falta humildade. Mesmo com 7 a 1, derrotas humilhantes de nossos clubes, eliminações precoces na Copa América. Vivemos a fase da negação. Perdemos para nós mesmos, por incompetência do técnico, da CBF, da geração “fraca e mimada”. Nunca para o adversário mais preparado. E inteligente.

Outro refúgio é o saudosismo. Capaz até de transformar em verdade que Guardiola aprendeu com o futebol brasileiro. Inaceitável suas fontes nascerem na Holanda, Itália, Argentina e Espanha e sobrar apenas o respeito ao que os avós contavam para o menino Pep . “Nós sempre ensinamos ao mundo”. Só que como diz a canção, “o pra sempre sempre acaba”.

Antes bastava preparar fisicamente, limar as arestas, administrar vaidades. Se não levasse gol em algum momento um de nossos talentos resolveria. Para isso o volante “cão de guarda” era tão fundamental quanto o camisa dez que só jogava com a bola.

Outros tempos. Aceitemos ou não. O pior para o nosso jogo é a pressão no condutor da bola. Marcação adiantada. Sempre gostamos de ter espaços. Há 20, 30 anos o discurso era sobre a dificuldade de superar os “dez atrás da linha da bola”.  Agora é o bote no nosso campo.

O novo futebol pode não agradar as retinas mais românticas e puristas. A estas recomendo os muitos jogos antigos na íntegra que a internet disponibiliza. Porque tentar resgatar o futebol lento e jogado em verdadeiros latifúndios é querer voltar à máquina de escrever.

Então baixemos nossa bolinha. Sim, é duro nos curvar quando um dos poucos motivos para o olhar altivo era o protagonismo no esporte mais apaixonante do planeta. A reverência do mundo. Passou. Mas pode voltar.

Para isso precisamos ouvir, ler e observar mais do que arrotar bofe depois de comer lagosta. Para ser um bom aluno temos que reconhecer os mestres. Os novos. Não os posters amarelados nas paredes.


Um agradecimento a Eurico Miranda e Rubens Lopes
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André Rocha

O Bom Senso F.C. foi criado em 2013 por conta da divulgação do calendário do ano seguinte achatado pela Copa do Mundo que revoltou os atletas e criou lideranças. Conseguiu avanços, mas esbarra nos estatutos e regulamentos blindados da CBF.

Os 7 a 1 despertaram quem acreditava que o talento brasileiro seria capaz de resolver sempre todos os problemas estruturais. Um Neymar para cada Marin. A Alemanha mostrou que não é mais assim. Há, porém, os que ainda fingem não ver e tratam como acaso.

Os duros golpes na CBF via justiça americana criaram um ambiente favorável a mudanças. A entidade que cuida da seleção e nem tanto de seus clubes parecia sem comando. Mas a presença da figura decorativa do Coronel Nunes, inclusive representando o futebol brasileiro na eleição de Infantino na FIFA, é um tapa na cara de quem sonha com algo alinhado, ao menos na organização, aos principais centros do planeta.

Cenário desanimador? Nem tanto. Porque o retorno de Eurico Miranda à presidência do Vasco e sua notória aliança com Rubens Lopes, presidente da FERJ, fizeram um bem enorme ao futebol nacional.

Absurdo? Nem tanto. Porque jogaram o time mais popular do país nas cordas e escancaram o que há de mais nefasto na estrutura federativa construída nos tempos da ditadura militar e que não pode ser a regra em 2016.

Os dois últimos atos são simbólicos: primeiro conseguindo influenciar o veto da CBF à utilização do Mané Garrincha pelo Flamengo no Brasileiro, depois agendando partidas do Campeonato Carioca para provocar conflito de datas com a Liga Rio Sul Minas.

Primeira Liga criada muito por conta das desavenças entre a dupla Fla-Flu e a FERJ desde o ano passado. Rubinho e Eurico contavam com o isolamento dos times cariocas, que ficariam de fora da disputa por serem “o problema”. A união garantiu a realização da primeira edição, ainda que em caráter amistoso.

Mais que isso, gerou a proposta da Liga Nacional e de mudanças significativas da CBF, como sistema eleitoral, transparência nas contas e na gestão. Com a arbitrariedade, provocou a ira dos torcedores, que fomentaram o Movimento Futebol Limpo nas redes sociais.

Para azar de FERJ e CBF, os corintianos entraram na briga por conta de pautas paralelas, mas não menos importantes: ingressos caros, jogos às 22h e problemas entre o poder público e torcidas organizadas. As duas maiores torcidas mobilizadas, o horror para qualquer dirigente.

Um dos principais alvos de protestos é o Maracanã sem jogos antes de ficar à disposição do COI. Com show dos Rolling Stones, não bola rolando. Muito por conta dos problemas da Odebrecht para manejar financeiramente a concessionária que administra o estádio. Mas também pelo claro desinteresse da federação em intervir na questão. Afinal, o aliado tem São Januário para mandar seus jogos.

O Flamengo não é inocente, nem vítima. Erra ao não ter o seu estádio, nem ter investido na recuperação de algum outro no Rio de Janeiro para servir como opção no ano dos Jogos Olímpicos que sabia que seriam disputados na sua cidade desde 2008. Peca igualmente ao não aceitar divisão mais equilibrada das cotas de TV, que a médio e longo prazo fortaleceria a maioria para se tornar independente da CBF.

Ainda assim, diante de tantos absurdos da entidade que deveria ser mediadora e defender os interesses dos clubes, conseguiu um movimento em torno de si que em outros tempos seria inimaginável. Pode dar em nada e tudo voltar à sua anormalidade secular. Mas hoje há o que faltou sempre: agenda e pauta de propostas. Acima de tudo, a indignação com voz.

Por isso devemos agradecer a Eurico Miranda e Rubens Lopes. Sem os ecos do passado que emanam da dupla não haveria sequer esperança no futuro. Obrigado!