Blog do André Rocha

Arquivo : Chapecoense

Todo feito da Chapecoense carregará 70 asteriscos
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André Rocha

Melhor campanha do returno do Brasileiro e classificação para a fase preliminar da Libertadores. Em qualquer tempo, o feito seria histórico para um clube como a Chapecoense, sem o apelo popular e os recursos financeiros dos grandes times dos principais centros do país.

Um ano depois de perder praticamente todo o elenco, comissão técnica e direção torna tudo ainda mais grandioso, épico, inesquecível. Cinematográfico – e é mais que provável que essa saga chegue aos cinemas e seja lembrada para sempre.

Méritos da nova diretoria, de Gilson Kleina e comissão. Principalmente dos atletas, que se reuniram em janeiro e tiveram que construir uma história praticamente do zero, sem uma base para sustentar. Campeão estadual, campanha digna na Libertadores interrompida por uma questão extracampo, mas vencendo o vice-campeão Lanús na Argentina pelos mesmos 2 a 1 que deram o título continental ao Grêmio. Fez o que pôde na Recopa Sul-Americana, na Copa do Brasil e na Sul-Americana.

A Chape acertou ao não aceitar ser tratada como “café com leite”, protegida do rebaixamento em 2017. Foi competitiva ao longo do ano e volta à Libertadores desta vez sem precisar da compaixão de ninguém, mesmo a mais que louvável do Atlético Nacional que cedeu o título da Sul-Americana.

As imagens da comemoração são tocantes, especialmente quando mostram os sobreviventes Jackson Follmann, Alan Ruschel e Neto celebrando o milagre da vida. De fato emocionam.

Mas pelo menos para este que escreve é difícil permitir que se escape uma lágrima pelos vitoriosos de hoje sem chorar antes pelos que se foram há pouco mais de um ano. Setenta vítimas de um assassinato em massa cometido por um piloto suicida, por pura ganância. Impossível não lamentar por seus destinos e de seus familiares.

Sim, é uma questão delicada, de difícil análise. Pois sempre ficará a pergunta: qual a indenização justa para os que perderam seus entes queridos, a grande maioria deles como maior fonte do sustento da família?

Só há dois olhares possíveis: do clube e seus responsáveis, que precisavam seguir em frente, fazer escolhas e estabelecer prioridades para continuar existindo num cenário complicado e inédito. Se a Chapecoense priorizasse o pagamento de indenizações no melhor cenário para as famílias – o que cada vítima receberia em sua vida profissional com valores corrigidos e mais um adicional pelo acidente em si – teria que vender todo seu patrimônio, incluindo a Arena Condá, e fechar as portas. E mesmo assim não conseguiria arcar com os custos.

Já o dos familiares é de quem possui o direito de ser compensado por nunca mais poderem olhar nos olhos dos que amavam. Os sonhos desfeitos e as ausências não têm preço. Mas a vida precisa continuar e é muito injusto que o padrão de vida tenha que se adequar a uma realidade construída pela destruição que partiu de uma empresa aérea irresponsável e amadora e um clube que aceitou os serviços desta. Uma tragédia que podia ter sido evitada. Não foi acidente.

O ano mostrou a Chapecoense rodando a Europa. Em Barcelona conhecendo Messi, visitando o Papa Francisco em Roma, ganhando o carinho do planeta. Com exceção de Ruschel, Neto e Follmann, nenhum deles tinha relação direta com o ocorrido. Desfrutaram por consequência. Os mortos e seus parentes ficaram com a pior parte do “bolo”. É difícil digerir.

Pelo contexto, há responsabilidade até pelos profissionais de imprensa que perderam suas vidas. Afinal, a logística da viagem para fazer a cobertura da final da Sul-Americana era complexa e o mais lógico a fazer era mesmo acompanhar a delegação. Tudo muito duro de aceitar, por mais que se entenda a posição de um clube com pouco mais de 40 anos de existência e que talvez nem estivesse pronto para tomar decisões tão importantes.

Por mais que tenhamos consciência de que vivemos em um mundo repleto de dores e injustiças e a trajetória de cada um deve seguir apesar disso, não há como colocar um sorriso completo no rosto quando a Chapecoense vence e reescreve sua história.

Porque todo feito do clube carregará sempre 70 asteriscos.


Robinho e o país dos bagaços que se acham suco puro
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André Rocha

Tem presidente que não aceita salvar as laranjas podres e é colocada para fora do saco. Por outro lado, o senador que chupa até o caroço tem sempre alguém para lhe garantir no bolo.

Tem bajulador e aspone na carona dos que detém o poder e, por isso, se julgam importantes. Tem também os que já fizeram algo um dia e tratam como título de nobreza, vitalícia e hereditária. Tem os que se encostam atrás da aposentadoria depois de oito anos de mandato.

Tem os boleiros que por terem “estado lá” acham que podem ciscar por toda parte, em todas as funções. Mesmo que com o microfone ou com a prancheta na mão não consigam sair do óbvio e do lugar comum. Sem conhecimento para agregar à vivência.

Mas estes sempre têm vez no país do “sabe com quem está falando?” Da autoridade adquirida e nunca questionada. Do “chupou laranja com quem?” para se perpetuar no poder, ou na prateleira de cima. Mesmo que já esteja caindo pelas tabelas.

Robinho é só mais um exemplo. Do ex-futuro melhor do mundo na década passada a uma reta final de carreira num Atlético Mineiro que pensou ter respirado, mas tem de volta a agonia da luta para se manter na Série A. Ao final da rodada pode estar apenas a três pontos do Z-4. Camisa sete que era reserva com Rogerio Micale, agora titular com Oswaldo de Oliveira, outro que roda pelos clubes mais pelos serviços prestados em um tempo que não volta mais.

Provocou Moisés Ribeiro com a velha “carteirada”: “jogou aonde?” Atitude comum na crueldade boleira, naquilo que eles dizem que fica no campo. Mas que, na prática, circula por todos os setores da sociedade. A elite querendo manter o status quo, a classe média que não quer o pobre junto com seu filho na universidade. Nas castas informais que não podem se misturar.

Mas no campo vale o que se joga e a Chapecoense saiu do Independência com vitória de virada por 3 a 2. Moisés sobe com sua equipe para longe do inferno e estaciona o outrora favorito ao título na escalada que busca o “G-7”. Porque chupar laranja com Ronaldo Fenômeno, Zidane, Beckham e Roberto Carlos no Real Madrid em 2005 não garante ninguém doze anos depois.

Nem no país dos bagaços que se acham suco puro.


Carvajal e Roger: porque o futebol é gigante, mas há coisas maiores na vida
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André Rocha

Roger é o artilheiro do Botafogo no Brasileiro com 10 gols. Referência do ataque, liderança positiva, exemplo de superação. Carvajal é a válvula de escape pela direita do Real Madrid bicampeão europeu e da seleção espanhola tentando recuperar protagonismo no cenário mundial. Jogadores fundamentais, cada um em seu contexto. Talvez vivendo o ápice de suas carreiras.

O brasileiro foi diagnosticado com tumor renal, o espanhol com um vírus que afetou seu sistema cardíaco. Saem de cena para se cuidar e é bem provável que só voltem aos campos em 2018. Ausências que certamente serão sentidas por suas equipes. Talvez o Botafogo sofra para se manter no G-6 e o Real Madrid perca mais pontos e veja o Barcelona se distanciar na liderança do Espanhol para não mais perdê-la.

Ou quem sabe todos se agigantem, lutem e corram pelos companheiros afastados por força maior das batalhas nos campos e as metas coletivas sejam alcançadas, até superadas.

E daí? Os dois, em continentes distantes, são humanos, essencialmente. Sentem medo, frustração por deixar de fazer, ainda que temporariamente, o que mais amam. A insegurança natural da dúvida: será que volto? Como retornarei aos gramados? E se perder o status que tenho hoje e construí com sacrifício?

Por isso precisam de força, das melhores energias. Ainda que Roger vença o jogo todo dia com sua filha Giulia, 11 anos e deficiente visual. Dupla que emocionou o país pelo amor e por ver o lado bom das coisas. Atacante que pensou em abandonar a carreira e o fundo do poço fez nascer um profissional e um homem melhores. Na nossa inesgotável capacidade de nos reinventar.

Já a vitória de Carvajal é outra: no Real que sempre foi clube comprador e só agora, com Zidane, olha um pouco mais para suas divisões de base, o lateral amassou barro, penou com poucas oportunidades e acabou negociado com o Bayer Leverkusen em 2012 para um ano depois ser recontratado por quem o revelou, não aproveitou e se arrependeu. Certamente aprendeu com as idas e vindas.

Porque o futebol é gigante, mas há coisas maiores na vida. Ainda que sejamos tão pequenos tantas vezes. Nos sensibilizamos com a tragédia da Chapecoense que vai completar um ano, mas hoje o time está aí na roda viva do Brasileiro, ainda com risco de rebaixamento, e não dimensionamos mais a perda esportiva como antes. No aspecto humano, a guerra de familiares com a direção exigindo tratamento mais justo. Seguimos aos trancos e barrancos.

Todos os times brasileiros demonstraram nas redes sociais solidariedade a Roger. Mas por que tem que ser sempre na hora da dor, do sofrimento? Por que não somos mais sensíveis e menos pragmáticos e competitivos no cotidiano, ainda que o objetivo do jogo seja fundamentalmente vencer o adversário?

Vencer, não odiar. Só nesta hora o Flamengo estende a mão ao rival Botafogo depois de tantas provocações e mortes de torcedores? Só assim para muitos na Espanha deixarem o ressentimento histórico do Real Madrid e direcionarem um olhar piedoso para um de seus atletas? Só Só aprendemos apanhando e derramando lágrimas?

Só na dor extrema respeitamos minuto de silêncio, não brigamos em estádios, deixamos de lado os preconceitos, os tabus, as rivalidades que passam do ponto, ficamos menos intolerantes e violentos física e verbalmente?

Ou ainda, só nos sensibilizamos pelo atleta famoso, que está na mídia? E os jogadores subempregados ou desempregados no país e no planeta bola? Ou os anônimos sofrendo em hospitais públicos sucateados, talvez com as mesmas enfermidades desses dois atletas? Não merecem o mesmo olhar nosso? Não fazem jus a um texto como este?

Que Roger e Carvajal encontrem paz e força para superarem a adversidade. Que o futebol sirva para aumentar a corrente positiva por eles, seus familiares e amigos que estarão juntos na batalha. Que seus corpos, instrumentos de trabalho, voltem ativos e perfeitos. Que as mentes e os espíritos fiquem mais fortes.

Mas, principalmente, que todos reflitamos sobre a capacidade de dar o tamanho devido às coisas e pessoas sem precisar do sofrimento como choque de realidade. No fim das contas é o que mais precisamos. Para ontem.


A melhor atuação do Flamengo com Rueda, mas Chapecoense não é parâmetro
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André Rocha

Reinaldo Rueda manteve Trauco e Everton Ribeiro fazendo a dupla pela esquerda no 4-2-3-1 habitual do Flamengo, depois da boa atuação na vitória por 2 a 0 sobre o Sport pelo Brasileiro. Também pelas ausências de René e Everton, mais a insegurança de Rodinei no trabalho defensivo pela direita.

Com o meia mais criativo pela esquerda e Berrío do lado oposto o quarteto ofensivo deu liga porque a movimentação do camisa sete para dentro procurando Diego na articulação abre espaço para o apoio do lateral e o deslocamento de Guerrero por ali, buscando a diagonal ou permitindo infiltrações de Diego, Willian Arão ou mesmo Cuéllar pelo centro.

Os volantes marcaram os dois primeiros gols no triunfo por 4 a 0 que valeu a classificação para as quartas-de-final da Copa Sul-Americana. Porque a Chapecoense era compacta no 4-1-4-1,  mas os meio-campistas não pressionavam os adversários e a última linha defensiva ficava exposta e, pior, mal posicionada, permitindo as infiltrações em diagonal.

Ofensivamente só incomodava com o equatoriano Penilla, inicialmente pela esquerda e depois procurando o lado direito. Aproximar Arthur Caike de Wellington Paulista não funcionou e deixou ainda mais espaços entre as intermediárias.

Por isso o Fla sobrou na Arena da Ilha na melhor atuação coletiva sob o comando de Rueda. Mesmo com Diego atrasando alguns contragolpes e Berrío se equivocando nas tomadas de decisão. Problemas compensados por belas atuações dos volantes e a perfeição de Juan na defesa e na frente, completando os 3 a 0 no rebote de cabeçada de Guerrero, outro destaque, mesmo não indo às redes. Lucas Paquetá entrou e completou a goleada, completando bela assistência de Everton Ribeiro.

Foram 57% de posse de bola e 14 finalizações do Fla – oito no alvo, bem diferente do “arame liso” de outros jogos. O dobro da Chape. Uma medida da distância entre as equipes no campo.

Um desempenho animador se o Fla pensar na sequência de Brasileiro e Sul-Americana, porque para a final da Copa do Brasil contra o Cruzeiro o time não terá Everton Ribeiro. Mas vale uma ressalva: a Chapecoense não tem sido um bom parâmetro para avaliar a evolução da equipe.

No Brasileiro, os 5 a 1 no mesmo estádio parecia um marco de recuperação do time comandado por Zé Ricardo, mas seguiu oscilando até a crise que culminou com a mudança no comando técnico. De qualquer forma, fica a impressão de que a combinação de características dos jogadores encontrou um melhor encaixe. Vale observar a sequência de jogos.

(Estatísticas: Footstats)


Como o Flamengo pode esperar resultados diferentes de escolhas semelhantes?
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André Rocha

O Flamengo do empate sem gols na Arena Condá não teve desta vez os elos fracos que costumam comprometer o desempenho coletivo com falhas individuais. A escalação foi bastante coerente, considerando as últimas partidas sob o comando de Reinaldo Rueda.

O problema não foi a falta de entrega em campo ou fibra. Até porque esse time costuma se abater quando sofre um gol e não foi o caso em Chapecó, apesar das boas oportunidades da equipe catarinense no segundo tempo. Principalmente depois da entrada do equatoriano Penilla que deitou e rolou sobre Rodinei.

O velho clichê “Queremos raça!” gritado nas arquibancadas nem sempre é a solução para todos os problemas. Muitas vezes o time não é “sem vergonha”, ainda que não seja um exemplo de superação ou garra. O jogo é que não flui, por uma série de fatores.

Como as características dos jogadores que não combinam. Quem vê o lado direito com Rodinei e Berrío, dois velocistas sem grande leitura de jogo e senso coletivo, percebe que a presença de Everton Ribeiro como ponta articulador daria ao setor a qualidade no passe e o deslocamento para o lateral ultrapassar.

Mas para isso é necessário que Diego, o meia central do 4-2-3-1 rubro-negro, se apresente para tabelas rápidas ou infiltre no espaço certo. Como, por exemplo, Ricardo Goulart fazia com perfeição no Cruzeiro bicampeão brasileiro. Mas o camisa dez, ao menos na numeração da Copa Sul-Americana, prefere recuar para tentar organizar o jogo a usar o seu bom poder de finalização.

Mesmo com o meio-campo mais qualificado depois da efetivação de Cuéllar e Willian Arão à frente da defesa. A saída de bola ficou mais limpa e poderia encontrar Diego adiantado, perto da zona de decisão. Com essa dinâmica dos meias criativos o ataque podia, enfim, depender menos do trabalho de pivô de Paolo Guerrero.

O peruano precisa recuar sempre e aparece ou se desloca menos para buscar a finalização. Serve mais do que é abastecido. Abre na ponta e quando chega na área a jogada é previsivel. Porque os ponteiros Berrío e Everton não surpreendem, com exceção do drible do colombiano que resolveu a semifinal da Copa do Brasil.

Torneio, aliás, que há algum tempo vem norteando a montagem do time titular. Por isso Everton Ribeiro perdeu espaço. Mas Berrío não pode, por isto, ser considerado intocável, absoluto.

Uma jogada eventual que parece garantir uma sobrevida entre os que ganham mais minutos, além do fato de ter trabalhado com o treinador no Atlético Nacional. A produção, porém, não é consistente. Muitos erros técnicos ou na leitura das jogadas.

O resultado final é um time travado, com um ou outro lampejo. Porque parece pronto para os contragolpes, mas pelo peso da camisa e por conta da badalação  (exagerada) do  elenco, se coloca como protagonista nas partidas, se instala no campo de ataque e troca passes. Mas sem espaços não consegue acelerar. Um paradoxo.

Por isso o ataque “arame liso”, que cerca mas sofre para furar a defesa do oponente. Sem criatividade e contundência. Exatamente pela falta de ideias. Talvez intimidadas pela necessidade de vitórias e títulos. Era assim com Zé Ricardo, segue com Rueda, que sabia que precisava dar uma resposta imediata no desempenho para obter vitórias a curto prazo.

Mas como obter resultados diferentes com escolhas semelhantes? Com uma ou outra mudança, por necessidade ou convicção do novo treinador, a essência é a mesma, principalmente nas ações ofensivas. O fluxo de passes segue muito parecido quando se aproxima da área adversária. Ainda a bola que gira, perde tempo com Diego que sempre prende, no mínimo, um segundo a mais. Passa por Guerrero, chega a Arão até parar no flanco, mesmo que cruzando, na média, menos que nos tempos de Zé Ricardo.

Deficiências já conhecidas e não corrigidas. Hora de fugir das explicações de sempre e encontrar novas soluções a tempo de salvar o ano em que o orçamento permitiu mais investimentos no futebol. Fechar 2017 apenas com um título estadual será bem pouco para quem gasta tanto.


Foco, tempo e até desespero devem nortear segundo turno do Brasileirão
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André Rocha

O Corinthians está com o Brasileiro nas mãos. Até aqui, pelo menos, é aquele caso em que tudo conspira a favor. Inclusive a pausa entre um turno e outro para recuperar e treinar a equipe por conta da viagem da Chapecoense. Com Grêmio, Santos e Flamengo envolvidos em outras competições e Palmeiras na ressaca da eliminação da Libertadores com 14 pontos atrás que podem virar 17, o atual líder disparado pode até se planejar para buscar também o título da Sul-Americana.

Competição que ainda envolve outros cinco brasileiros. Com dois confrontos nacionais  – Sport x Ponte Preta e Flamengo x Chapecoense – que podem reduzir a quarto para as quartas de final. Mesmo número de times na disputa das semifinais da Copa do Brasil. Um a mais que nas quartas da Libertadores.

Dez times dividindo atenções, outros dez disputando somente o Brasileiro. Com apenas quatro rodadas de dezenove no meio da semana. Parece claro que o foco e o tempo para treinar têm grandes chances de fazer a diferença e até superar o nível técnico e tático das equipes.

Sem contar o desespero. Aquele que, pela dificuldade na tabela, torna o adversário difícil de ser batido. Sim, a fuga do Z-4. Que parece ter o Atlético-GO condenado, mas ainda matematicamente vivo, dependendo de uma arrancada que hoje soa improvável. Um olhar mais atento à tabela, porém, revela que o Fluminense, disputando a Sul-Americana, está apenas cinco pontos à frente da Chapecoense, 17ª colocada e com um jogo a menos.

Qualquer vacilo será fatal. É onde mora a esperança são-paulina. Mesmo com todos os equívocos e com a equipe oscilando até psicologicamente, há qualidade, especialmente de Hernanes desequilibrando nas últimas vitórias, e agora tempo para se preparar. O que Dorival Júnior mais precisava. E nada mais para distrair. Uma sequência de bons resultados e pode até sobrar uma vaga na Sul-Americana.

A disputa pelas seis primeiras colocações ganha novos postulantes, como os Atléticos, mineiro e paranaense. Os únicos junto com o Palmeiras entre os onze primeiros com foco absoluto na Série A. Uma vantagem considerável em meio a tanto equilíbrio, com exceção do Corinthians.

A Primeira Liga não deu certo pelo servilismo dos clubes à CBF e agora se encontra soterrada pelos demais torneios. Para muitos será um engodo, um problema de logística. Hoje soa como um prêmio de consolação, uma taça para não deixar 2017 de mãos abanando. Vale menos que o estadual.

O maior desafio, sem dúvida, é o do Botafogo. Com elenco não tão robusto, um clássico carioca no torneio nacional e um duelo brasileiro na Libertadores contra o Grêmio, uma das melhores equipes do país. A um ponto do G-6, que seria a garantia de volta ao torneio continental independentemente do desempenho no mata-mata. Mas a seis da zona de rebaixamento, o que exige um certo cuidado.

Neste cenário, o returno reserva alguns jogos que serão esvaziados pela utilização de reservas e outros que podem ganhar contornos épicos, com times até com tempo para se preparar, mas tão envolvidos emocionalmente que não resistirão ao maldito “jogo para ganhar e não para jogar”. Valendo a vida. Para quem gosta de emoção e não torce o nariz para a fórmula de pontos corridos será um prato cheio.

Se nos dois extremos da tabela os destinos de Corinthians e Atlético-GO parecem selados, todo o resto carrega suas dúvidas e um contexto construído jogo a jogo. Dependente de outras competições, que agora contemplam toda temporada. Vejamos o que o novo calendário reservará à nossa liga neste primeiro ano.


Dorival Júnior vai penar com um São Paulo sem confiança e entrosamento
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André Rocha

Dorival Júnior resgatou o gosto pela posse de bola do trabalho de Rogério Ceni, em especial no início. O novo treinador quer um São Paulo protagonista, propondo o jogo. Mas está difícil. Porque são nove partidas sem vitória e time afundado na zona de rebaixamento, o que naturalmente abala a confiança.

Para piorar, o desentrosamento de um elenco muito mexido, com entradas e saídas de atletas. Na Arena Condá, o primeiro tempo de domínio, especialmente nas jogadas pela esquerda com aproximação de Junior Tavares, Jonatan Gómez e Cueva, não conseguiu proporcionar uma oportunidade cristalina. Porque a jogada pelo flanco sempre fugia de Lucas Pratto e Wellington Nem, exatamente pela falta de sintonia. O cruzamento era impreciso ou o atacante estava mal posicionado para finalizar.

Pouco ou nada adianta a posse sempre acima dos 65%. Ou até atrapalha, pois dá ao adversário o conforto de jogar posicionado atrás e saindo em transições ofensivas rápidas aproveitando espaços em uma retaguarda adiantada. Time sem confiança, erra o passe e está exposto.

Foi o que aconteceu na segunda etapa, principalmente depois do gol de Tulio de Melo na jogada aérea, ainda uma opção ofensiva interessante na Chapecoense agora comandada por Vinicius Eutrópio. Mesmo sentindo os desfalques, especialmente do forte lado esquerdo com Reinaldo e Arthur Caike, o 4-1-4-1 encontrou em Apodi do lado oposto a melhor saída em velocidade.

Dorival Júnior trocou Wellington Nem, Cueva e Petros, colocando Marcinho, Lucas Fernandes e Denilson. Mas era uma equipe nitidamente insegura, com medo de errar e evitando o passe diferente para as infiltrações. A bola rodava, rodava e nada acontecia.

Até o erro, a bola retomada e o chute preciso de Lucas Marques. A 15ª finalização da equipe mais objetiva para decretar os 2 a 0. Resultado que redime a Chape, que respira se afastando do Z-4. O São Paulo sofre, Dorival Júnior vai penar para implementar seus conceitos em elenco tão heterogêneo e ainda se conhecendo, com o primeiro turno se aproximando do fim.

O desafio só aumenta.

(Estatísticas: Footstats)


Eu sei por que você me odeia
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André Rocha

O primeiro contato deste blogueiro com críticas a ídolos não veio do futebol. Até porque nos anos 1980 os veículos eram, digamos, “festeiros” demais para sequer fazer ressalvas a quem quer que fosse. Ainda mais a idolatrada, por vezes mimada, geração de 1982.

Foi na música mesmo, com a explosão do Rock Brasil. Era duro ler ou ouvir alguém detonando a banda ou o artista favorito. Dado Villa-Lobos, guitarrista da Legião Urbana, conta em seu livro “Memórias de um Legionário” que o jornalista José Augusto Lemos disse a ele que, por causa de uma crítica negativa ao disco “Dois”, lançado em 1986, ele recebeu 30 cartas iguais de um fã indignado. Uma por dia.

Outros tempos. Hoje, com quase todo mundo relativamente acessível nas redes sociais, fica mais fácil extravasar. E confesso que, naquela época, lá pelos 13, 14 anos, se pudesse mandar mensagens para os críticos da revista Bizz, especialmente o André Forastieri, eu seria insuportável e levaria um block implacável.

Ou seja, os haters só são um fenômeno atual pelos meios, não pelos indivíduos. Em qualquer segmento. Na música, na TV, no futebol. Em relação aos jornalistas, não é difícil entender essa aversão.

Porque nos enfiamos no meio dessa relação ídolo-fã, time do coração-torcedor. Que é lúdica por natureza. Uma válvula de escape para as agruras do dia após dia. Na qual tudo pode ser perfeito, nem que seja por uma noite. Um jogo. Um espetáculo. Um capítulo.

E o pior: entramos nessa “intimidade” querendo trazer racionalidade. O “não é bem assim” naquela vitória que fez o fanático ir às nuvens e querer ficar por lá. E nós puxando a perna do sujeito, trazendo à realidade de que no próximo jogo pode ser tudo diferente.

Pior ainda quando relativizamos o triunfo com erros de arbitragem. Ou informamos aqueles problemas na gestão do clube. “Não, está tudo perfeito!” Tem que estar tudo perfeito. Ora, quem pode contestar o dirigente que, mesmo sem dinheiro nos cofres e duplicando a dívida, trouxe aquele craque que me faz tão feliz?

É nossa função. Claro, com as exceções que confirmam a regra. Os mal intencionados, com desvio de caráter mesmo. Ou os que não conseguem disfarçar a torcida – a favor do seu e contra os rivais. Ou aqueles que declaram as cores que amam e, no vício do ofício de trazer o discurso para o equilíbrio, passam a ser mais críticos do que com o resto. Estes também viram alvos.

A “vingança” mais comum é tentar nos excluir: “Nunca jogou bola e quer opinar!” Isso vale para o clube que se ama e o jogador que se idolatra e normalmente existe o sonho de ser igual. Até imitando na pelada. Como alguém ousa dizer que ele não é o maior de todos os tempos (da última semana)?

Sabemos, ou devemos saber, da nossa insignificância dentro do espetáculo. Jogadores e torcida são os protagonistas. Hoje, treinadores e dirigentes entraram nesse bolo – para este que escreve, um equívoco. Nós estamos de fora, sim. Mas temos o direito de informar, opinar e ajudar a construir a visão do espectador. E às vezes interferimos no jogo.

Seja para o craque criticado que se motivou e arrebentou no jogo para “calar a bola de quem falou besteira”, seja naquela observação que incomoda e gera protestos públicos, mas também a reflexão e até a mudança de atitude no silêncio do orgulho. Algo que jornalista não pode ter para também mudar de opinião. Ainda que seja depois chamado de “incoerente” ou “picolé de chuchu” por não seguir com a convicção que já tinha se transformado em teimosia.

Na essência somos desimportantes. Mas lembre-se: quando terminou o doído 7 a 1, muitos deixaram a TV ligada ou correram para a internet para que ajudassem a explicar o que havia acontecido. Quando a tragédia da Chapecoense abalou os corações foi o jornalismo que trouxe tanto a informação que todos preferiam que não existisse quanto o conforto e o abraço da Dona Ilaídes, mãe do goleiro Danilo. Em um repórter.

O mundo ainda segue a fábula do rei que ao receber uma má notícia manda matar o mensageiro. Compreensível. É preciso descontar em alguém. E o bom jornalismo incomoda quem quer manter o status quo que o privilegia. Acredite: sem imprensa, seria bem pior do que é. Por pior que ela seja ou que você ache. A história mostra.

Eu sei por que você me odeia. Até entendo. Mas tenha certeza de que não é minha intenção. Só o meu trabalho.


A melhor atuação do Flamengo, e de Diego, no Brasileiro
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André Rocha

No Brasil, este país tão pouco democrático, a crítica quase sempre é mal vista e confundida com perseguição. Nunca como algo construtivo, que só deseja a melhora ou o despertar do objeto das observações.

Diego fez a diferença com dois gols e uma assistência para Guerrero, que marcou três. A eficiência nas finalizações do meia já é conhecida e o primeiro foi uma conclusão espetacular. Já o passe teve a precisão que se espera de um jogador dotado tecnicamente. Ainda não é o toque criativo, aquele que abre o espaço, o que se pede no texto. Mas talvez não seja mesmo para ele, por característica. No elenco do Flamengo agora há Conca e Everton Ribeiro.

A melhor atuação do Flamengo no Brasileiro, porém, foi no estilo de 2016: na velocidade com os ponteiros. Desta vez Berrío e Everton. Com dificuldades na saída de bola ainda com Márcio Araújo e Willian Arão, compensadas com bons passes de Trauco. Com a falha de Thiago no gol de Victor Ramos em cobrança de lateral na área que ensaiou trazer a Chapecoense de novo para o jogo.

Mas fazendo as transições ofensiva e defensiva com velocidade partindo dos flancos para encontrar Diego e Guerrero que desta vez desequilibraram. Melhorando consideravelmente a relação finalizações x gols da equipe de Zé Ricardo. Cinco bolas nas redes em 17 conclusões. Dez no alvo.  Com menor posse (48%) e jogo mais vertical depois de construída a vantagem no placar.

Mais um triunfo na Arena da Ilha, a casa que o Flamengo não teve no ano passado. Para mudar a atmosfera e aliviar a pressão, mas partir para o salto de qualidade que se espera. Com Everton Ribeiro, o ponta articulador. Depois Geuvânio, o atacante agudo e finalizador. Sem a visão cômoda de que a equipe está acostumada a atuar desta forma. O elenco foi reforçado para mudar de patamar.

Assim como Diego apresentou nítida evolução em relação às demais partidas desde sua volta de lesão e merece elogios. Puxando junto o Flamengo para o desempenho mais consistente no campeonato. O desafio agora é construir uma sequência.

(Estatísticas: Footstats)

 

 


O toque de midas de Renato Gaúcho no Grêmio
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André Rocha

Everton substituiu o lesionado Lucas Barrios aos 14 minutos da segunda etapa na Arena Condá. Aos 15 marcou o terceiro gol, no minuto seguinte o quarto e, depois do gol de pênalti de Reinaldo, transformou em goleada um jogo duríssimo até então, definido em bola parada e falhas dos goleiros Jandrei e Marcelo Grohe, aproveitadas por Michel (um golaço!) e Luiz Antonio.

Mais gols de Arthur Caike e Luan para fechar os 6 a 3. O Grêmio chega aos 12 pontos, supera a Chape e está atrás do Corinthians na tabela da Série A. Mas os titulares alcançam 100% de aproveitamento. Os reservas até abriram 2 a 0 sobre o Sport em Recife, mas acabaram sofrendo a virada. A intenção era guardar energias para a volta da Copa do Brasil no Maracanã contra o Fluminense. Nem foi preciso, no primeiro tempo o confronto já estava definido.

Porque Renato Gaúcho parece estar vivendo uma fase de Rei Midas, depois da frustração no Gauchão – o treinador chegou a poupar titulares na Libertadores para priorizar o torneio estadual, mas sequer chegou à decisão. Com tempo para treinar, preparou a equipe resgatando virtudes da arrancada que chegou ao título da Copa do Brasil.

Segue a impressão de que o encaixe do estilo do maior ídolo do clube ao trabalho que Roger Machado deixou foi perfeito. Ficaram os conceitos, o trabalho coletivo, o jogo entre linhas de Luan, o gosto pela troca de passes. Chegou o que faltava: gestão de vestiário, eficiência nas bolas paradas ofensivas e defensivas e mais efetividade no ataque.

O resultado é o melhor futebol praticado no país nos últimos 30 dias. Com Leonardo Moura e Cortez, típicos alas, fazendo o trabalho como laterais, primeiro defendendo e depois atacando. Achando em Michel e Arthur os volantes que compensam as ausências de Walace e Maicon e por vezes até superam em desempenho a dupla do ano passado.

Tem Ramiro como chave tática como um volante aberto pela direita que auxilia Michel e Arthur, abre espaço para Léo Moura e os deslocamentos de Barrios e Luan às costas do lateral esquerdo adversário. Na esquerda, Pedro Rocha voando, infiltrando em diagonal.

Um jogo fluido, bonito de ver, que acelera e cadencia conforme a necessidade. Time inteligente, que encontra soluções de acordo com o que o jogo exige. Ataque mais positivo do Brasileirão, com média de três gols por rodada.

Mérito de Renato, que mantém o discurso boleiro e fanfarrão. Mas em campo há um jogo pensado, que não é construído em coletivos e rachões, na base da intuição. E aí entram a comissão técnica, o setor de inteligência e análise de desempenho. Trabalho em equipe.

Sim, são cinco rodadas. O Grêmio tem Libertadores e Copa do Brasil para desgastar física e mentalmente na sequência da temporada. Mas hoje o que Renato Portaluppi toca vira ouro. Como a entrada de Everton em Chapecó.