Blog do André Rocha

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Abertura da Série A sinaliza equilíbrio que deve ser a marca da competição
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André Rocha

Dois bons jogos no Maracanã e na Arena em Itaquera. Em tática e no equilíbrio das ações.

O primeiro gol da Série A em 2017 saiu de uma jogada pela esquerda. Desde a divulgação das escalações, parecia claro que a opção de Zé Ricardo pelo Flamengo no 4-2-3-1 com Matheus Sávio seria para forçar o jogo no setor: Trauco, Everton e o jovem meia para cima de Carlos César, substituto de Marcos Rocha no Atlético Mineiro que não tinha o devido auxílio de Elias.

Cruzamento fechado de Sávio, Victor ficou atento a Guerrero e a bola entrou. Gol único de uma primeira etapa em que os visitantes tiveram a bola (terminaram com 58%), mas foram pouco efetivos. Faltava mobilidade, criatividade e chutes de fora da área, já que o sistema defensivo do Fla estava sólido, com concentração máxima.

O time rubro-negro foi mais incisivo, porém faltou novamente contundência. Também a tomada de decisão correta de Berrío em um contragolpe todo dele, mas o colombiano preferiu acionar Guerrero com caminho livre à frente para finalizar cruzado.

Em um jogo tão equilibrado, foi fatal. Roger Machado lançou mão de seu forte elenco trocando Otero, de atuação pluripatérica, por Cazares, que bagunçou a retaguarda rubro-negra e teve duas chances claras de empatar, mas Rafael Vaz salvou ambas sobre a linha.

O contestado zagueiro em tarde de heroi não pôde evitar o erro de Arão e Márcio Araújo na saída de bola, o “pé mole” de Rever na dividida que caiu nos pés de Robinho. Deste para Fred até chegar a Elias no gol de empate.

Zé Ricardo foi corajoso ao mandar a campo Ederson, vindo de longa inatividade, e Vinicius Junior, depois de apostar na formação inicial do último Fla-Flu quando trocou Sávio por Renê e Trauco voltou ao meio-campo. Mas o peruano caiu de produção e obrigou o treinador a mudar de novo.

A joia de 16 anos entrou com afobação natural, mas nada que comprometesse. Roger trocou Fred e Robinho por Rafael Moura e Maicosuel. Ganhou vigor físico, perdeu poder de decisão. Podia ter custado caro, mas Gabriel salvou gol certo de Guerrero.

Apesar da maior posse e das 13 finalizações do Atlético contra dez do Fla, ninguém merecia perder no Maracanã.

Nível mantido em São Paulo. Com uma Chapecoense organizada num 4-1-4-1, com linhas compactas e sem abdicar do jogo, mesmo fora de casa. Com Apodi, que era um típico ala “peladeiro” há alguns anos atuando como lateral, um defensor de última linha. Podia ter marcado com Arthur.

O Corinthians foi às redes quando a jogada individual de Fagner quebrou as linhas de marcação e Rodriguinho, de novo mais avançado no 4-2-3-1 de Fabio Carille, serviu Jô. Descomplicando uma disputa dura, de bom nível tático e estratégico.

Complicada pela lesão de Pablo ainda no primeiro tempo. Pedro Henrique entrou e não comprometeu, mas sempre há uma perda na coordenação da última linha posicional com qualquer mudança nas peças.

O time de Carille novamente se complicou quando precisou ter a bola, mesmo com Jadson saindo mais do lado direito para circular e ajudar Rodriguinho e Maycon na armação das jogadas. Ainda assim, não há fluência para criar a chance cristalina.

A desvantagem não desmanchou mentalmente o time catarinense, que seguiu fiel à sua proposta de defender com organização e trabalhar pelos flancos. Sem muita criatividade no meio com Luiz Antonio e João Pedro, mas levando vantagem pela direita com Apodi e Rossi para cima de Arana e Romero.

Paraguaio que errou em um contragolpe de três contra um, depois cinco contra dois no mesmo lance. O futebol costuma punir. O golpe veio no gol de Wellington Paulista no rebote de nova jogada pela direita que encontrou Arthur Caike contra Fagner e a cabeçada no travessão.

O Corinthians tentou um abafa final com Kazim e Jô na área adversária e Leo Jabá pela esquerda – saíram Gabriel e Romero. Vagner Mancini fechou sua equipe apenas nos minutos finais. Terminou com 41% de posse, mas 15 finalizações, o triplo do anfitrião – quatro a dois no alvo.

Empates em jogos iguais. Mesmo descontando a empolgação e a tensão naturais em estreias, as partidas deixaram bem claro que a evolução tática chegou ao país. Com atraso, mas chegou. Com equipes mais coletivas e organizadas, a tendência é o campeonato ficar ainda mais parelho. O que já é sua marca.

Melhor para todos. Ótimo para quem assistiu às duas partidas com poucos gols, mas bom futebol.

(Estatísticas: Footstats)


Uma vitória que simboliza a reconstrução com dignidade da Chapecoense
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André Rocha

Mais que todas as homenagens, lágrimas, palavras de esperança e gestos de solidariedade e gratidão antes, durante e depois da bola rolar, o que fica de lição deste Chapecoense x Atlético Nacional é a vaia da torcida para o desentendimento entre Macnelly Torres e Moisés no segundo tempo. Algo que normalmente é exaltado nos campos brasileiros como “futebol de verdade”. Que sirva de exemplo.

Em campo, a sexta vitória consecutiva na temporada da equipe montada do zero sob o comando de Vagner Mancini significa bem mais que a vantagem do empate na partida de volta pela Recopa Sul-Americana.

Simboliza uma reconstrução com a dignidade que virou marca do clube catarinense. Planejamento dentro da realidade, sem projetos megalomaníacos. Sabendo exatamente onde pode pisar. Também sem exigir caridade.

Sim, é preciso olhar pelas famílias dos que se foram na tragédia do ano passado, mas o tamanho da perda e a necessidade de reagir rápido para estar minimamente pronto em 2017 justificam o estabelecimento de prioridades. Não há parâmetros para medir a dor e o desatino.

Em campo, a  nova Chape parte de uma proposta pragmática para ser competitiva de forma mais rápida. Nos jogos grandes se baseia em concentração defensiva, velocidade nos contragolpes e muito foco nas jogadas aéreas com bola parada.

No 4-1-4-1 com Andrei Girotto atento à cobertura de Apodi, mesmo com este trabalhando mais como lateral e não como o ala de outros tempos. João Pedro, ex-Palmeiras, virou meia com Luiz Antonio no centro e Rossi e Arthur Caike nas pontas, deixando Tulio de Melo à frente.

A Chape deixava os zagueiros do Atlético Nacional saírem jogando e começava o bloqueio a partir de zagueiros e laterais para ter superioridade numérica onde estava a bola quando o adversário entrasse no seu campo. Mesmo assim teve dificuldades.

Porque o campeão da Libertadores, apesar das muitas mudanças na base vencedora de Reinaldo Rueda, continua muito forte. Trabalha a bola, tem mobilidade e variação tática – do 4-2-3-1 para o 4-4-2 quando o atacante Dayro Moreno se junta ao centroavante Luis Carlos Ruiz e Bernal ocupava o lado direito no meio.

Jogo igual, definido na bola parada pelo time menos ajustado. Pênalti bem cobrado por Reinaldo e o golpe de cabeça de Luiz Otávio, substituto do lesionado Douglas Grolli. O empate do Atlético na jogada trabalhada finalizada por Macnelly Torres.

Ao contrário do que diz o clássico de Jackson do Pandeiro, este jogo bem que podia terminar 1 a 1. Com todos vencedores, o que não deixou de acontecer na alma de cada um. Mas se no jogo da gratidão o Atlético não entregou o resultado como fez com a Copa Sul-Americana, a Chapecoense precisava mais do triunfo.

Para consolidar um novo tempo. De entrega de todos que fazem um novo time para o clube emergente. De vontade de seguir vencendo independentemente da compaixão inevitável quando os olhos miram a Arena Condá.


Novo Palmeiras sofre com a bola parada: o jogo dentro do jogo
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André Rocha

O propósito maior do jogo na Arena Condá estava fora das quatro linhas e o simbolismo da partida tirou até o espírito de competição que surge naturalmente, mesmo em um amistoso. Felipe Melo ilustrou bem ao afirmar que perdeu a concentração ao ver uma criança chorando. Ainda mais ele, que esteve tão distante geograficamente da tragédia e todos os seus desdobramentos.

Mas de tudo que foi possível observar nos 2 a 2 entre Chapecoense e Palmeiras, além do novo time do clube catarinense jogando com fibra e entrega impressionantes e o potencial de Raphael Veiga e Vitinho, sem contar a afirmação da qualidade de Tchê Tchê no novo 4-1-4-1 palmeirense, chamou atenção o desempenho dos times na bola parada.

Mesmo descontando o fato do campeão brasileiro estar sem Mina e Vitor Hugo, sua zaga titular, e Eduardo Baptista ter pouquíssimo tempo de trabalho, saltou aos olhos as falhas defensivas. Não só nos gols de Douglas Grolli e Amaral, mas em praticamente todas as disputas pelo alto.

Compreensível também a ênfase da Chape nesta jogada. Afinal, com um time novo e, consequentemente desentrosado, este tipo de recurso seria uma arma interessante para Vágner Mancini.

Porque a bola parada é um jogo dentro do jogo de futebol. Tem outro posicionamento, outra dinâmica. A ponto dos treinadores tratarem como um quinto momento, além do defensivo, do ofensivo, da transição defensiva – o que você faz assim que perde a bola – e da transição ofensiva – a ação imediata assim que a recupera.

Jogada decisiva, cheia de detalhes. Capaz de igualar forças das equipes, até compensar desvantagem numérica. Depende mais de movimentos coordenados do que do talento do cobrador e dos companheiros na área para concluir.

Quantas finais ou disputas cercadas de expectativas entre times e seleções já foram dissecadas previamente com sistemas táticos, modelos de jogo, estatísticas dos jogadores e, no final, se resolveram numa bola parada? O Real Madrid de Sergio Ramos que o diga.

Eduardo Baptista é treinador detalhista, minucioso. Inclusive neste tipo de jogada. Certamente percebeu a deficiência e vai trabalhar para corrigi-la. Porque ela ajuda a derrubar treinador.

O problema crônico no Flamengo minou os trabalhos de Cristóvão Borges e Oswaldo de Oliveira em 2015. No ano passado, Roger Machado no Grêmio foi o caso mais marcante. Houve problema de gestão de vestiário, mas, no campo, os muitos gols sofridos em jogadas aéreas nas faltas laterais e escanteios empurraram o bom treinador para fora do comando técnico do time gaúcho.

Renato Gaúcho chegou, fez o simples e, com marcações individuais bem definidas, resolveu o problema. Como Cuca adotava a mesma prática no Palmeiras, com bola rolando ou parada, cabe a Eduardo Baptista perceber se os jogadores se adaptam melhor ao bloqueio por zona ou ao tradicional “cada um pega o seu”.

Há tempo para isso. O foco absoluto é na Libertadores, que começa em março. Até lá, com time completo, trabalho e conversa é possível acertar o Palmeiras em todos os detalhes para começar a competir em alto nível, fazendo jus ao poder de investimento do clube.


O mundo cão volta a latir alto para a Chapecoense
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André Rocha

Wagner Mancini Chape

Primeiro foram as declarações lamentáveis de Marco Polo Del Nero, Fernando Carvalho e Vitório Piffero ainda na dor recente da tragédia. Depois algumas homenagens prometidas que não aconteceram por detalhes tão pequenos diante da enorme perda, em contraste com toda a generosidade do Atlético Nacional , dos colombianos, do Barcelona e de outros cantos do planeta.

Agora, com a Chapecoense definindo diretoria e comissão técnica, as declarações do novo técnico Wagner Mancini lamentando a postura de times da Série A que inicialmente se colocaram à disposição para colaborar na reconstrução do elenco e agora disponibilizam apenas as peças descartáveis de sua folha salarial.

Como quem no final do ano revira o guarda-roupa e os armários para doar  sapatos velhos e camisetas furadas, como se o necessitado fosse uma lixeira do que não se quer mais. Tudo para passar o Natal com a “consciência tranquila”.

Na prática, os clubes querem empurrar os próprios problemas para quem está precisando de ajuda. Não seria nada complicado se os “coirmãos” se reunissem e cada um disponibilizasse um reserva com potencial ou um jovem promissor. Com o devido cuidado para equilibrar o elenco por faixa etária e posição.

A Chapecoense não perdeu “apenas” 19 jogadores. Boa parte do planejamento também se foi com os dirigentes que estavam no avião da Lamia, sem contar a comissão técnica. Então até mesmo uma certa hesitação neste início na avaliação das possíveis contratações é mais que compreensível.

A maior tragédia da história dos esportes deixa um trauma ainda difícil de dimensionar. A falta de confiança nos pares também prejudica na hora de analisar as ofertas. Está claro que a missão não é, nem será fácil.

Não é tratar como “coitadinho”, mas entender o impacto do ocorrido na vida de uma instituição ainda jovem, sem o lastro de outras e ganhando visibilidade maior agora por algo que ninguém gostaria que tivesse acontecido.

Por isto o blog insiste com a ideia de imunizar a Chapecoense de rebaixamento ao menos no ano que vem. No Brasileiro e também no estadual, pois está claro que o início da reformulação terá uma enorme complexidade. É hora de mostrar as duas grandes virtudes que levaram o clube ao seu auge: humildade sem complexo de inferioridade e noção de suas possibilidades.

Triste ver que depois dos corpos enterrados o mundo cão volta a latir alto e forte para quem ainda necessita tanto de um abraço. Sincero e solidário. A Chape vai precisar de toda força do mundo inteiro para se reerguer.

 


O Atlético Nacional não merecia! Time, torcida, povo…
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André Rocha

A semifinal do novo formato do Mundial Interclubes costuma ser cruel para o campeão da Libertadores, pela tensão de uma estreia com tamanho favoritismo. Mesmo para o Corinthians, último sul-americano que conquistou o planeta em 2012.

Mas foi duro ver o Atlético Nacional sofrer a maior derrota de um campeão do nosso continente. Justo o clube colombiano que emocionou o Brasil e o mundo com tanta solidariedade na tragédia da Chapecoense.

Em campo é possível lamentar muita coisa, principalmente o bom primeiro tempo com 60% de posse, 16 finalizações e duas bolas na trave. Muito volume de jogo com o volante Uribe se juntando a Macnelly Torres e aparecendo na área adversária e finalizar, os ponteiros Berrio e Mosquera buscando as diagonais e o pivô de Borja, deixando as jogadas de fundo para os laterais Bocanegra e Díaz.

Mas tanta volúpia ofensiva cobrava um preço: apenas os zagueiros Aguilar e Henríquez, este muito lento e estabanado, e o volante Arias ficavam atrás para conter os contragolpes do Kashima Antlers. Há tempos o futebol japonês não se resume à correria. Inclusive em tempos recentes a seleção e alguns clubes pecaram por caminharam direção contrária: ficaram previsíveis e lentos pelo excesso na troca de passes.

O campeão japonês comandado por Ishi Masatada parece combinar melhor a qualidade no passe e a rapidez nas transições ofensivas. Sem contar a disciplina e a concentração já conhecidas para a execução do esquema com as linhas de quatro bem próximas e sabendo adiantar a marcação. Ainda assim, cedeu espaços e poderia ter saído atrás no placar.

Mas foi às redes no pênalti polêmico, com o uso do recurso eletrônico. Depois da jogada finalizada. Falta clara de Berrio em Nishi, mas com o zagueiro japonês impedido. Que não participou do lance porque foi derrubado. Se chegasse na bola, o ataque seria anulado. Prova de que o uso do vídeo é mais que válido, mas não vai resolver tudo.

A cobrança precisa de Shoma Doi é que começou a definir a semifinal. Porque o Atlético sentiu o golpe, voltou do intervalo mais desorganizado e menos fluente na frente. Piorou com a entrada de Guerra no lugar de Arias que recuou Uribe. Ainda assim, o empate só não veio porque Cristian Dájome perdeu à frente do goleiro Sogahata.

Com linhas adiantadas e no desespero, o Atlético deixou espaços generosos para os contragolpes que terminaram no gol de calcanhar de Endo e o golpe final de Suzuki. 3 a 0 ficou pesado demais para quem teve 61% de posse e 24 conclusões contra apenas dez dos japoneses.

O Atlético não merecia…time, torcida e povo que foram puro coração com os brasileiros. Mas no Japão o emocional também atrapalhou. Uma pena.

 

 

 


É hora da Chape aceitar a imunidade e continuar sendo grande pela humildade
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André Rocha

A dor ainda vai durar muito tempo, as cicatrizes serão eternas. Mas a vida da Chapecoense precisa seguir com o início do processo de reconstrução do futebol do clube.

Difícil, pois a tarefa de refazer o elenco é complexa. Mais ainda sem um treinador que já conheça o clube. Muito pior com a ausência de presidente e diretores que deram o suporte para a incrível ascensão recente.

Começar quase do zero. Sim, com auxílio, ao menos neste primeiro momento, de muitos clubes e federações além da tocante fraternidade do Atlético Nacional e da Colômbia. Com boas perspectivas de receitas e visibilidade para 2017 com a participação na Libertadores e na Copa Suruga.

Mas, na prática, quando entrar em campo para o primeiro compromisso do ano que vem a Chape será outra. Pode ressurgir mais forte, obviamente. Até porque a saga viraria filme com final feliz. Mas por enquanto é uma enorme incógnita.

Por isso é importante a proteção ao rebaixamento. Se o período de três anos inicialmente aventado agora parece exagerado, que seja apenas em 2017. Para não correr riscos. É compreensível a postura do presidente em exercício, Ivan Tozzo, ao descartar no discurso a ajuda e não querer que o clube seja tratado como “coitadinho” no âmbito esportivo.

A realidade, porém, sugere cautela. Já vimos emergentes desaparecerem por muito menos. A diretoria que assumirá naturalmente não terá o domínio de todos os processos e das etapas do planejamento a médio prazo. São 19 peças para repor no elenco. Os que ficaram não têm como formar uma base minimamente sólida.

É dolorido, mas impossível negar: a situação pede cuidado para o futuro imediato. O momento é de continuar sendo grande pela humildade, pelos pés no chão. Aceitando ou mesmo pleiteando a imunidade para que o esforço dos que se foram não seja em vão.

Quando a roda começar a girar, a história mostra que a piedade da maioria agora tende a se transformar na competição tantas vezes cruel. Já tivemos uma prévia com as declarações infelizes dos dirigentes do Internacional tratando a tragédia primeiro como um problema, depois como uma possível solução. Com cada um cuidando do seu, a Chapecoense pode se ver isolada, como um “pato novo” que acaba de subir e sofre para se manter na Série A.

Não é justo nem saudável. Seria mais uma página do nosso futebol do qual não nos orgulharíamos. Que a Chapecoense siga com a enorme nobreza que é admitir que precisa de ajuda na dificuldade. A maior de seus 43 anos de existência. A mais devastadora da história do esporte.

 


Entre corpos e corporações
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André Rocha

O mundo corporativo moderno manda maximizar o lucro e minimizar os custos.

O piloto da Lamia, Miguel Quiroga, preferia economizar alguns dólares viajando no limite do combustível do avião.

O mundo corporativo moderno ordena que se coloque os interesses da empresa acima de qualquer outro.

O piloto Miguel Quiroga, sócio da Lamia, conseguiu aprovar um plano de voo irresponsável para não perder o cliente.

O mundo corporativo moderno exige sangue frio para gerenciar crises e tomar decisões difíceis que beneficiem a companhia, ainda que contrariem os interesses dos demais.

O piloto da Lamia, Miguel Quiroga, administrou a falta de combustível em silêncio, temendo multas e sanções, e sequer deu a chance aos passageiros do avião de se protegerem da queda inevitável.

O mundo corporativo moderno não se incomoda em sacrificar vidas, explorando a mão de obra até que a depressão, a estafa, as LER e outras mazelas levem à exaustão, quando não há o trabalho escravo.

O piloto Miguel Quiroga era responsável por dezenas de vidas, inclusive a própria, e preferiu correr o risco de uma pane seca a aumentar seus custos de viagem ou mesmo se recusar a prestar o serviço por falta de recursos.

A cada imagem dos familiares das vítimas em desespero, a cada homenagem mundo afora à Chapecoense, toda vez que imaginarmos a dureza que será a reconstrução do clube e das famílias abaladas por esta estupidez é dever nosso refletir sobre o rumo que estamos tomando.

De nossas escolhas pragmáticas, do nosso embrutecimento em busca de resultados. Da nossa visão do outro como cliente ou fornecedor e não um semelhante, Gente como a gente.

Sim, a tragédia na Colômbia é a exceção, um caso particularíssimo com um contexto cada vez mais nebuloso. Mas a soma das pequenas decisões que levaram à queda do avião diz muito sobre o nosso cotidiano profissional. Das escolhas que fazem por nós.

Das corporações que não se importam com os corpos dilacerados e as almas destruídas. Que sejamos mais humanos, menos “profissionais”. Pela nossa sobrevivência. Por nós e por todo mundo.


“Vamos, vamos Chape!” e a noite da pureza em Medellín
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André Rocha

Atanasio Girardot Chape

O Atanásio Girardot virou Arena Condá aos gritos de “Vamos, vamos Chape!”, o canto que rodou o mundo no vídeo da comemoração no vestiário depois da classificação do clube catarinense para a decisão da Copa Sul-Americana.

Impossível não derramar lágrimas no momento mais tocante de uma noite mágica, ainda que vista por este que escreve pela televisão. Uma atmosfera de generosidade com velas e flores que alcançou a todos. Um evento capaz de fazer repensar a vida, os valores, a postura diante das disputas esportivas.

52 mil pessoas dentro do estádio, outra multidão ainda maior fora. Dispondo de seu tempo apenas para homenagear um clube distante, outrora desconhecido, que seria adversário e virou um coirmão na acepção mais pura da palavra. Na noite da pureza em Medellín.

Cidade marcada pelo sangue da barbárie protagonizada por narcotraficantes, que ganhou notoriedade no planeta por causa de Pablo Escobar e suas atrocidades. Rotulada de violenta e perigosa. Capaz de um gesto de grandeza sem precedentes na história do esporte.

Em Chapecó, um estádio também lotado chorava pelos seus herois que partiram. Igualmente tocante e inesquecível. Mas eram os seus. O surpreendente neste mundo tão pragmático e egocêntrico é fazer tanto pelo outro. Sem nenhuma ligação direta além da compaixão e do amor de uma nova família que nasce.

O Atlético Nacional nem precisa mais disputar o Mundial Interclubes agora em dezembro. O planeta já é seu. E Medellín é aqui.

 


É no sofrimento que se vê quem é quem
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André Rocha

Mensagens de apoio do mundo todo, solidariedade de jogadores e torcedores de outros clubes do Brasil, a avalanche de solicitações para a campanha de sócio-torcedor da Chapecoense, as lágrimas de Renato Gaúcho e todo o altruísmo do Atlético Nacional em Medellín e junto à Conmebol, abrindo mão de um título internacional.

Tantos outros movimentos para amparar e oferecer o ombro aos atingidos pela tragédia que ficaram, em memória aos que se foram. Atos que mostram que não podemos generalizar na descrença na humanidade. O que dói é que também não foi preciso um dia para termos os primeiros sinais do quanto temos de pequenos e mesquinhos.

Como Marco Polo Del Nero pressionando a Chapecoense nas entrelinhas a colocar um time em campo na rodada final do Brasileiro contra o Atlético Mineiro na Arena Condá. Semana que vem. No mundo ideal não haveria mais futebol no país em 2016. Para Del Nero a dor é um detalhe menor. Não surpreende vindo de quem tem a frieza de seguir a vida e não abdicar do comando do futebol brasileiro, mesmo com o risco de ser preso caso se aventure numa viagem internacional.

Quase tão cruel, mas igualmente infeliz foi Fernando Carvalho, vice de futebol do Internacional. Na espontaneidade da afirmação sem pensar na repercussão, ao falar o que pensa e sente, revelou a indiferença à dor humana e a preocupação apenas com seu quintal. E desta vez nem a rivalidade com o eixo Rio-São Paulo estava em jogo, era um par do sul do país.

Lamentar o adiamento da rodada e falar em “tragédia particular” chega a ser ridículo, porque o Inter convive com o Z-4 por sua própria incompetência. Nenhuma fatalidade. Falar que “como a consternação é geral, como a solidariedade é unânime de todo mundo, não é hora de reclamar” faz entender que se houvesse uma brecha, se não pegasse tão mal, se não desgastasse tanto a imagem do clube, Fernando Carvalho pensaria em protestar.

Sem contar o nosso Congresso Nacional, que aproveitou nossa dor para, na calada da noite, aprovar o que não teria coragem de fazê-lo no centro das atenções. Ou até teriam, tamanha a desfaçatez. Enquanto chorávamos veio a facada pelas costas.

É triste, mas não assusta. Porque quem vive no próprio mundinho é incapaz de se colocar no lugar do outro. Até quando esse outro está ferido de morte. Se entrar na frente dos próprios interesses se transforma num obstáculo a ser ultrapassado. Nem que seja com hipocrisia.

Porque não somos todos bondade, mas felizmente a dor ainda nos une. Não a todos. Porque é no sofrimento que se vê quem é quem.

 


Precisamos falar sobre a Chapecoense, um exemplo de consciência
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André Rocha

No dia 24 de junho deste ano, o chão tremeu em Chapecó com a saída do técnico Guto Ferreira para o Bahia. O profissional optou pela melhor proposta financeira e, óbvio, pela maior visibilidade num clube bicampeão brasileiro. Ajudava a explicar a incoerência de abandonar um trabalho consolidado na Série A para colocar o currículo em jogo numa campanha de recuperação na segunda divisão.

No dia seguinte, este que escreve teve a oportunidade de, junto com o colega Giovani Martinello no Esporte Interativo, entrevistar Mauro Stumpf,  vice de futebol do time catarinense. No meio de uma crise grave, que poderia colocar em risco a temporada e todo um planejamento, chamou a atenção a serenidade de encarar o processo com naturalidade, Sem vitimização ou culpar Guto. Nem planos mirabolantes.

Aproveitou para anunciar Caio Júnior como substituto, de volta ao Brasil após dois anos no Al-Shabab. Também confirmou a impressão de que a ideia era encaixar na engrenagem um treinador com perfil semelhante e que tivesse a humildade de se inserir nos processos sem tentar colocar sua assinatura e desvirtuar o planejamento para 2016. O novo técnico já havia provado no Flamengo em 2008, sucedendo Joel Santana, ao não se incomodar em manter uma estrutura consolidada.

Mauro também afirmou que a meta continuava sendo a manutenção na Série A e tentar superar as campanhas de 2014 (15º) e 2015 (14º).  Para confirmar a evolução e o aprendizado de atuar entre os grandes. Com gestão financeira responsável e cuidado com o clube.

Quase três meses depois, a Chapecoense chega à nona colocação do campeonato com uma vitória emblemática: 2 a 1 sobre o Fluminense. De virada. Em Edson Passos, casa da recuperação do time carioca no Brasileiro. Com o gol de Lourency, aos 43 minutos do segundo tempo e encerrando a invencibilidade do tricolor no estádio.

Um triunfo maiúsculo, mantendo o retrospecto sem derrotas para o Flu nos seis confrontos – cinco vitórias e um empate. Mais ainda, a consolidação do modelo de jogo. Atual e executado com correção. Com mudanças pontuais em formação, desenho tático e proposta, mas seguindo uma linha, um norte.

Com a Arena Condá para mandar seus jogos, mas agora sendo forte também fora de seus domínios.  Desta vez sem goleadas como os 5 a 0 sobre o Internacional, 5 a 1 no Palmeiras e os 4 a 1 sobre o próprio Fluminense. Porém com uma campanha mais sólida e regular.

Exemplo a ser seguido por pensar em continuidade, mesmo na roda-viva do futebol brasileiro. Sim, sem a pressão dos grandes clubes, sempre no olho do furacão. Mas ainda assim não apelando para imediatismos, euforia ou desespero.

No país em que tantos se acham gigantes, a Chapecoense se destaca por saber exatamente o seu tamanho e o quanto pode crescer. Um modelo de consciência.