Blog do André Rocha

Arquivo : Chapecoense

A melhor atuação do Flamengo, e de Diego, no Brasileiro
Comentários Comente

André Rocha

No Brasil, este país tão pouco democrático, a crítica quase sempre é mal vista e confundida com perseguição. Nunca como algo construtivo, que só deseja a melhora ou o despertar do objeto das observações.

Diego fez a diferença com dois gols e uma assistência para Guerrero, que marcou três. A eficiência nas finalizações do meia já é conhecida e o primeiro foi uma conclusão espetacular. Já o passe teve a precisão que se espera de um jogador dotado tecnicamente. Ainda não é o toque criativo, aquele que abre o espaço, o que se pede no texto. Mas talvez não seja mesmo para ele, por característica. No elenco do Flamengo agora há Conca e Everton Ribeiro.

A melhor atuação do Flamengo no Brasileiro, porém, foi no estilo de 2016: na velocidade com os ponteiros. Desta vez Berrío e Everton. Com dificuldades na saída de bola ainda com Márcio Araújo e Willian Arão, compensadas com bons passes de Trauco. Com a falha de Thiago no gol de Victor Ramos em cobrança de lateral na área que ensaiou trazer a Chapecoense de novo para o jogo.

Mas fazendo as transições ofensiva e defensiva com velocidade partindo dos flancos para encontrar Diego e Guerrero que desta vez desequilibraram. Melhorando consideravelmente a relação finalizações x gols da equipe de Zé Ricardo. Cinco bolas nas redes em 17 conclusões. Dez no alvo.  Com menor posse (48%) e jogo mais vertical depois de construída a vantagem no placar.

Mais um triunfo na Arena da Ilha, a casa que o Flamengo não teve no ano passado. Para mudar a atmosfera e aliviar a pressão, mas partir para o salto de qualidade que se espera. Com Everton Ribeiro, o ponta articulador. Depois Geuvânio, o atacante agudo e finalizador. Sem a visão cômoda de que a equipe está acostumada a atuar desta forma. O elenco foi reforçado para mudar de patamar.

Assim como Diego apresentou nítida evolução em relação às demais partidas desde sua volta de lesão e merece elogios. Puxando junto o Flamengo para o desempenho mais consistente no campeonato. O desafio agora é construir uma sequência.

(Estatísticas: Footstats)

 

 


O toque de midas de Renato Gaúcho no Grêmio
Comentários Comente

André Rocha

Everton substituiu o lesionado Lucas Barrios aos 14 minutos da segunda etapa na Arena Condá. Aos 15 marcou o terceiro gol, no minuto seguinte o quarto e, depois do gol de pênalti de Reinaldo, transformou em goleada um jogo duríssimo até então, definido em bola parada e falhas dos goleiros Jandrei e Marcelo Grohe, aproveitadas por Michel (um golaço!) e Luiz Antonio.

Mais gols de Arthur Caike e Luan para fechar os 6 a 3. O Grêmio chega aos 12 pontos, supera a Chape e está atrás do Corinthians na tabela da Série A. Mas os titulares alcançam 100% de aproveitamento. Os reservas até abriram 2 a 0 sobre o Sport em Recife, mas acabaram sofrendo a virada. A intenção era guardar energias para a volta da Copa do Brasil no Maracanã contra o Fluminense. Nem foi preciso, no primeiro tempo o confronto já estava definido.

Porque Renato Gaúcho parece estar vivendo uma fase de Rei Midas, depois da frustração no Gauchão – o treinador chegou a poupar titulares na Libertadores para priorizar o torneio estadual, mas sequer chegou à decisão. Com tempo para treinar, preparou a equipe resgatando virtudes da arrancada que chegou ao título da Copa do Brasil.

Segue a impressão de que o encaixe do estilo do maior ídolo do clube ao trabalho que Roger Machado deixou foi perfeito. Ficaram os conceitos, o trabalho coletivo, o jogo entre linhas de Luan, o gosto pela troca de passes. Chegou o que faltava: gestão de vestiário, eficiência nas bolas paradas ofensivas e defensivas e mais efetividade no ataque.

O resultado é o melhor futebol praticado no país nos últimos 30 dias. Com Leonardo Moura e Cortez, típicos alas, fazendo o trabalho como laterais, primeiro defendendo e depois atacando. Achando em Michel e Arthur os volantes que compensam as ausências de Walace e Maicon e por vezes até superam em desempenho a dupla do ano passado.

Tem Ramiro como chave tática como um volante aberto pela direita que auxilia Michel e Arthur, abre espaço para Léo Moura e os deslocamentos de Barrios e Luan às costas do lateral esquerdo adversário. Na esquerda, Pedro Rocha voando, infiltrando em diagonal.

Um jogo fluido, bonito de ver, que acelera e cadencia conforme a necessidade. Time inteligente, que encontra soluções de acordo com o que o jogo exige. Ataque mais positivo do Brasileirão, com média de três gols por rodada.

Mérito de Renato, que mantém o discurso boleiro e fanfarrão. Mas em campo há um jogo pensado, que não é construído em coletivos e rachões, na base da intuição. E aí entram a comissão técnica, o setor de inteligência e análise de desempenho. Trabalho em equipe.

Sim, são cinco rodadas. O Grêmio tem Libertadores e Copa do Brasil para desgastar física e mentalmente na sequência da temporada. Mas hoje o que Renato Portaluppi toca vira ouro. Como a entrada de Everton em Chapecó.


O time de Vagner Mancini por trás da simbólica liderança da Chapecoense
Comentários Comente

André Rocha

Exatos seis meses depois da tragédia na Colômbia, a Chapecoense que emergiu entre os escombros chega à liderança do Brasileiro. Algo nunca alcançado pelo clube, nem com os que partiram pela irresponsabilidade assassina e suicida de um piloto de avião.

Chegar ao topo da tabela neste momento significa bem pouco para a sequência do campeonato. Ano passado, como já dito e redito por aqui e por aí, Internacional e Santa Cruz dividiam a primeira colocação após três partidas e acabaram rebaixados.

Para a equipe catarinense, porém, tem todo o simbolismo de reconstrução. Se a filosofia do clube não mudou, e nada indica que tenha se alterado, a meta continuará a mesma: manter-se na Série A e, se possível, melhorar a posição em relação a 2016 – 11ª colocação.

Analisando o desempenho da equipe montada do zero por Vagner Mancini, o objetivo é plenamente possível de ser alcançado. Porque a Chape é competitiva. Mostrou isso no título estadual e na campanha da Libertadores, que no campo terminou em vaga. Uma noite ruim em Medellín pela Recopa contra o Atlético Nacional, mas que pode ser tratada como uma oscilação natural. Até por tudo que envolveu as partidas, inclusive emocionalmente.

A Chapecoense atua com linhas próximas, em um 4-3-3/4-1-4-1 que nunca abdica de jogar. Tem Apodi ainda voando pela direita, mas não como um ala. Mancini tem conseguido convencê-lo a ser um lateral, primeiro defendendo e depois apoiando. O mesmo com Reinaldo do lado oposto.

Os laterais têm o suporte nos momentos ofensivo e também defensivo dos ponteiros Rossi e Arthur Caike e dos meias Luiz e Antonio e Seijas, substituto do lesionado João Pedro, lateral improvisado no meio-campo. Na proteção, saída de bola e também chegada à frente, Andrei Girotto. O trio de meio-campistas alternam nas funções de defesa e ataque.

Retaguarda que ganhou zaga nova com Victor Ramos e Luiz Otávio, este envolvido na eliminação da Libertadores por escalação irregular, mas vem mostrando segurança atrás e aproveitando sua estatura (1,94) para se apresentar na área adversária como opção para as muitas jogadas aéreas da equipe, inclusive em cobranças de lateral.

Na frente, Wellington Paulista trabalha como pivô, abre espaços e também se aproveita das jogadas pelos flancos para fazer seus gols. Marcou o segundo no Brasileiro nos 2 a 0 sobre o Avaí na Arena Condá, que continua sendo um trunfo para somar pontos. No ano, o aproveitamento em casa é de 70%.

A atuação mais consistente, porém, foi na estreia contra o Corinthians em Itaquera. Negou espaços, finalizou o triplo (15 a 5), mesmo com menos posse de bola. Poderia ter vencido uma das equipes que também somam sete pontos em nove possíveis e só perde no saldo de gols.

Uma prova de força e referência para a Chape seguir com seu estilo prático e objetivo, trabalhando jogo a jogo e só subindo a meta quando a inicial for alcançada. O campo vem mostrando que o clube acertou ao não aceitar proteção contra o rebaixamento. Também houve critério e cuidado para recusar as “ofertas” de clubes que só queriam se livrar de jogadores pouco úteis.

Quem chegou mostra comprometimento com a causa esportiva. Mas a Chapecoense não é só honra e garra. Tem uma equipe bem montada, ciente de suas fraquezas e, por isso, focada no trabalho coletivo para se colocar entre os grandes. Méritos de Vagner Mancini.

O 4-3-3/4-1-4-1 da Chapecoense de Vagner Mancini com linhas compactas, mobilidade na frente, apoio dos laterais e trabalho dos meio-campistas que defendem e atacam alternando funções (Tactical Pad).


Abertura da Série A sinaliza equilíbrio que deve ser a marca da competição
Comentários Comente

André Rocha

Dois bons jogos no Maracanã e na Arena em Itaquera. Em tática e no equilíbrio das ações.

O primeiro gol da Série A em 2017 saiu de uma jogada pela esquerda. Desde a divulgação das escalações, parecia claro que a opção de Zé Ricardo pelo Flamengo no 4-2-3-1 com Matheus Sávio seria para forçar o jogo no setor: Trauco, Everton e o jovem meia para cima de Carlos César, substituto de Marcos Rocha no Atlético Mineiro que não tinha o devido auxílio de Elias.

Cruzamento fechado de Sávio, Victor ficou atento a Guerrero e a bola entrou. Gol único de uma primeira etapa em que os visitantes tiveram a bola (terminaram com 58%), mas foram pouco efetivos. Faltava mobilidade, criatividade e chutes de fora da área, já que o sistema defensivo do Fla estava sólido, com concentração máxima.

O time rubro-negro foi mais incisivo, porém faltou novamente contundência. Também a tomada de decisão correta de Berrío em um contragolpe todo dele, mas o colombiano preferiu acionar Guerrero com caminho livre à frente para finalizar cruzado.

Em um jogo tão equilibrado, foi fatal. Roger Machado lançou mão de seu forte elenco trocando Otero, de atuação pluripatérica, por Cazares, que bagunçou a retaguarda rubro-negra e teve duas chances claras de empatar, mas Rafael Vaz salvou ambas sobre a linha.

O contestado zagueiro em tarde de heroi não pôde evitar o erro de Arão e Márcio Araújo na saída de bola, o “pé mole” de Rever na dividida que caiu nos pés de Robinho. Deste para Fred até chegar a Elias no gol de empate.

Zé Ricardo foi corajoso ao mandar a campo Ederson, vindo de longa inatividade, e Vinicius Junior, depois de apostar na formação inicial do último Fla-Flu quando trocou Sávio por Renê e Trauco voltou ao meio-campo. Mas o peruano caiu de produção e obrigou o treinador a mudar de novo.

A joia de 16 anos entrou com afobação natural, mas nada que comprometesse. Roger trocou Fred e Robinho por Rafael Moura e Maicosuel. Ganhou vigor físico, perdeu poder de decisão. Podia ter custado caro, mas Gabriel salvou gol certo de Guerrero.

Apesar da maior posse e das 13 finalizações do Atlético contra dez do Fla, ninguém merecia perder no Maracanã.

Nível mantido em São Paulo. Com uma Chapecoense organizada num 4-1-4-1, com linhas compactas e sem abdicar do jogo, mesmo fora de casa. Com Apodi, que era um típico ala “peladeiro” há alguns anos atuando como lateral, um defensor de última linha. Podia ter marcado com Arthur.

O Corinthians foi às redes quando a jogada individual de Fagner quebrou as linhas de marcação e Rodriguinho, de novo mais avançado no 4-2-3-1 de Fabio Carille, serviu Jô. Descomplicando uma disputa dura, de bom nível tático e estratégico.

Complicada pela lesão de Pablo ainda no primeiro tempo. Pedro Henrique entrou e não comprometeu, mas sempre há uma perda na coordenação da última linha posicional com qualquer mudança nas peças.

O time de Carille novamente se complicou quando precisou ter a bola, mesmo com Jadson saindo mais do lado direito para circular e ajudar Rodriguinho e Maycon na armação das jogadas. Ainda assim, não há fluência para criar a chance cristalina.

A desvantagem não desmanchou mentalmente o time catarinense, que seguiu fiel à sua proposta de defender com organização e trabalhar pelos flancos. Sem muita criatividade no meio com Luiz Antonio e João Pedro, mas levando vantagem pela direita com Apodi e Rossi para cima de Arana e Romero.

Paraguaio que errou em um contragolpe de três contra um, depois cinco contra dois no mesmo lance. O futebol costuma punir. O golpe veio no gol de Wellington Paulista no rebote de nova jogada pela direita que encontrou Arthur Caike contra Fagner e a cabeçada no travessão.

O Corinthians tentou um abafa final com Kazim e Jô na área adversária e Leo Jabá pela esquerda – saíram Gabriel e Romero. Vagner Mancini fechou sua equipe apenas nos minutos finais. Terminou com 41% de posse, mas 15 finalizações, o triplo do anfitrião – quatro a dois no alvo.

Empates em jogos iguais. Mesmo descontando a empolgação e a tensão naturais em estreias, as partidas deixaram bem claro que a evolução tática chegou ao país. Com atraso, mas chegou. Com equipes mais coletivas e organizadas, a tendência é o campeonato ficar ainda mais parelho. O que já é sua marca.

Melhor para todos. Ótimo para quem assistiu às duas partidas com poucos gols, mas bom futebol.

(Estatísticas: Footstats)


Uma vitória que simboliza a reconstrução com dignidade da Chapecoense
Comentários Comente

André Rocha

Mais que todas as homenagens, lágrimas, palavras de esperança e gestos de solidariedade e gratidão antes, durante e depois da bola rolar, o que fica de lição deste Chapecoense x Atlético Nacional é a vaia da torcida para o desentendimento entre Macnelly Torres e Moisés no segundo tempo. Algo que normalmente é exaltado nos campos brasileiros como “futebol de verdade”. Que sirva de exemplo.

Em campo, a sexta vitória consecutiva na temporada da equipe montada do zero sob o comando de Vagner Mancini significa bem mais que a vantagem do empate na partida de volta pela Recopa Sul-Americana.

Simboliza uma reconstrução com a dignidade que virou marca do clube catarinense. Planejamento dentro da realidade, sem projetos megalomaníacos. Sabendo exatamente onde pode pisar. Também sem exigir caridade.

Sim, é preciso olhar pelas famílias dos que se foram na tragédia do ano passado, mas o tamanho da perda e a necessidade de reagir rápido para estar minimamente pronto em 2017 justificam o estabelecimento de prioridades. Não há parâmetros para medir a dor e o desatino.

Em campo, a  nova Chape parte de uma proposta pragmática para ser competitiva de forma mais rápida. Nos jogos grandes se baseia em concentração defensiva, velocidade nos contragolpes e muito foco nas jogadas aéreas com bola parada.

No 4-1-4-1 com Andrei Girotto atento à cobertura de Apodi, mesmo com este trabalhando mais como lateral e não como o ala de outros tempos. João Pedro, ex-Palmeiras, virou meia com Luiz Antonio no centro e Rossi e Arthur Caike nas pontas, deixando Tulio de Melo à frente.

A Chape deixava os zagueiros do Atlético Nacional saírem jogando e começava o bloqueio a partir de zagueiros e laterais para ter superioridade numérica onde estava a bola quando o adversário entrasse no seu campo. Mesmo assim teve dificuldades.

Porque o campeão da Libertadores, apesar das muitas mudanças na base vencedora de Reinaldo Rueda, continua muito forte. Trabalha a bola, tem mobilidade e variação tática – do 4-2-3-1 para o 4-4-2 quando o atacante Dayro Moreno se junta ao centroavante Luis Carlos Ruiz e Bernal ocupava o lado direito no meio.

Jogo igual, definido na bola parada pelo time menos ajustado. Pênalti bem cobrado por Reinaldo e o golpe de cabeça de Luiz Otávio, substituto do lesionado Douglas Grolli. O empate do Atlético na jogada trabalhada finalizada por Macnelly Torres.

Ao contrário do que diz o clássico de Jackson do Pandeiro, este jogo bem que podia terminar 1 a 1. Com todos vencedores, o que não deixou de acontecer na alma de cada um. Mas se no jogo da gratidão o Atlético não entregou o resultado como fez com a Copa Sul-Americana, a Chapecoense precisava mais do triunfo.

Para consolidar um novo tempo. De entrega de todos que fazem um novo time para o clube emergente. De vontade de seguir vencendo independentemente da compaixão inevitável quando os olhos miram a Arena Condá.


Novo Palmeiras sofre com a bola parada: o jogo dentro do jogo
Comentários Comente

André Rocha

O propósito maior do jogo na Arena Condá estava fora das quatro linhas e o simbolismo da partida tirou até o espírito de competição que surge naturalmente, mesmo em um amistoso. Felipe Melo ilustrou bem ao afirmar que perdeu a concentração ao ver uma criança chorando. Ainda mais ele, que esteve tão distante geograficamente da tragédia e todos os seus desdobramentos.

Mas de tudo que foi possível observar nos 2 a 2 entre Chapecoense e Palmeiras, além do novo time do clube catarinense jogando com fibra e entrega impressionantes e o potencial de Raphael Veiga e Vitinho, sem contar a afirmação da qualidade de Tchê Tchê no novo 4-1-4-1 palmeirense, chamou atenção o desempenho dos times na bola parada.

Mesmo descontando o fato do campeão brasileiro estar sem Mina e Vitor Hugo, sua zaga titular, e Eduardo Baptista ter pouquíssimo tempo de trabalho, saltou aos olhos as falhas defensivas. Não só nos gols de Douglas Grolli e Amaral, mas em praticamente todas as disputas pelo alto.

Compreensível também a ênfase da Chape nesta jogada. Afinal, com um time novo e, consequentemente desentrosado, este tipo de recurso seria uma arma interessante para Vágner Mancini.

Porque a bola parada é um jogo dentro do jogo de futebol. Tem outro posicionamento, outra dinâmica. A ponto dos treinadores tratarem como um quinto momento, além do defensivo, do ofensivo, da transição defensiva – o que você faz assim que perde a bola – e da transição ofensiva – a ação imediata assim que a recupera.

Jogada decisiva, cheia de detalhes. Capaz de igualar forças das equipes, até compensar desvantagem numérica. Depende mais de movimentos coordenados do que do talento do cobrador e dos companheiros na área para concluir.

Quantas finais ou disputas cercadas de expectativas entre times e seleções já foram dissecadas previamente com sistemas táticos, modelos de jogo, estatísticas dos jogadores e, no final, se resolveram numa bola parada? O Real Madrid de Sergio Ramos que o diga.

Eduardo Baptista é treinador detalhista, minucioso. Inclusive neste tipo de jogada. Certamente percebeu a deficiência e vai trabalhar para corrigi-la. Porque ela ajuda a derrubar treinador.

O problema crônico no Flamengo minou os trabalhos de Cristóvão Borges e Oswaldo de Oliveira em 2015. No ano passado, Roger Machado no Grêmio foi o caso mais marcante. Houve problema de gestão de vestiário, mas, no campo, os muitos gols sofridos em jogadas aéreas nas faltas laterais e escanteios empurraram o bom treinador para fora do comando técnico do time gaúcho.

Renato Gaúcho chegou, fez o simples e, com marcações individuais bem definidas, resolveu o problema. Como Cuca adotava a mesma prática no Palmeiras, com bola rolando ou parada, cabe a Eduardo Baptista perceber se os jogadores se adaptam melhor ao bloqueio por zona ou ao tradicional “cada um pega o seu”.

Há tempo para isso. O foco absoluto é na Libertadores, que começa em março. Até lá, com time completo, trabalho e conversa é possível acertar o Palmeiras em todos os detalhes para começar a competir em alto nível, fazendo jus ao poder de investimento do clube.


O mundo cão volta a latir alto para a Chapecoense
Comentários Comente

André Rocha

Wagner Mancini Chape

Primeiro foram as declarações lamentáveis de Marco Polo Del Nero, Fernando Carvalho e Vitório Piffero ainda na dor recente da tragédia. Depois algumas homenagens prometidas que não aconteceram por detalhes tão pequenos diante da enorme perda, em contraste com toda a generosidade do Atlético Nacional , dos colombianos, do Barcelona e de outros cantos do planeta.

Agora, com a Chapecoense definindo diretoria e comissão técnica, as declarações do novo técnico Wagner Mancini lamentando a postura de times da Série A que inicialmente se colocaram à disposição para colaborar na reconstrução do elenco e agora disponibilizam apenas as peças descartáveis de sua folha salarial.

Como quem no final do ano revira o guarda-roupa e os armários para doar  sapatos velhos e camisetas furadas, como se o necessitado fosse uma lixeira do que não se quer mais. Tudo para passar o Natal com a “consciência tranquila”.

Na prática, os clubes querem empurrar os próprios problemas para quem está precisando de ajuda. Não seria nada complicado se os “coirmãos” se reunissem e cada um disponibilizasse um reserva com potencial ou um jovem promissor. Com o devido cuidado para equilibrar o elenco por faixa etária e posição.

A Chapecoense não perdeu “apenas” 19 jogadores. Boa parte do planejamento também se foi com os dirigentes que estavam no avião da Lamia, sem contar a comissão técnica. Então até mesmo uma certa hesitação neste início na avaliação das possíveis contratações é mais que compreensível.

A maior tragédia da história dos esportes deixa um trauma ainda difícil de dimensionar. A falta de confiança nos pares também prejudica na hora de analisar as ofertas. Está claro que a missão não é, nem será fácil.

Não é tratar como “coitadinho”, mas entender o impacto do ocorrido na vida de uma instituição ainda jovem, sem o lastro de outras e ganhando visibilidade maior agora por algo que ninguém gostaria que tivesse acontecido.

Por isto o blog insiste com a ideia de imunizar a Chapecoense de rebaixamento ao menos no ano que vem. No Brasileiro e também no estadual, pois está claro que o início da reformulação terá uma enorme complexidade. É hora de mostrar as duas grandes virtudes que levaram o clube ao seu auge: humildade sem complexo de inferioridade e noção de suas possibilidades.

Triste ver que depois dos corpos enterrados o mundo cão volta a latir alto e forte para quem ainda necessita tanto de um abraço. Sincero e solidário. A Chape vai precisar de toda força do mundo inteiro para se reerguer.

 


O Atlético Nacional não merecia! Time, torcida, povo…
Comentários Comente

André Rocha

A semifinal do novo formato do Mundial Interclubes costuma ser cruel para o campeão da Libertadores, pela tensão de uma estreia com tamanho favoritismo. Mesmo para o Corinthians, último sul-americano que conquistou o planeta em 2012.

Mas foi duro ver o Atlético Nacional sofrer a maior derrota de um campeão do nosso continente. Justo o clube colombiano que emocionou o Brasil e o mundo com tanta solidariedade na tragédia da Chapecoense.

Em campo é possível lamentar muita coisa, principalmente o bom primeiro tempo com 60% de posse, 16 finalizações e duas bolas na trave. Muito volume de jogo com o volante Uribe se juntando a Macnelly Torres e aparecendo na área adversária e finalizar, os ponteiros Berrio e Mosquera buscando as diagonais e o pivô de Borja, deixando as jogadas de fundo para os laterais Bocanegra e Díaz.

Mas tanta volúpia ofensiva cobrava um preço: apenas os zagueiros Aguilar e Henríquez, este muito lento e estabanado, e o volante Arias ficavam atrás para conter os contragolpes do Kashima Antlers. Há tempos o futebol japonês não se resume à correria. Inclusive em tempos recentes a seleção e alguns clubes pecaram por caminharam direção contrária: ficaram previsíveis e lentos pelo excesso na troca de passes.

O campeão japonês comandado por Ishi Masatada parece combinar melhor a qualidade no passe e a rapidez nas transições ofensivas. Sem contar a disciplina e a concentração já conhecidas para a execução do esquema com as linhas de quatro bem próximas e sabendo adiantar a marcação. Ainda assim, cedeu espaços e poderia ter saído atrás no placar.

Mas foi às redes no pênalti polêmico, com o uso do recurso eletrônico. Depois da jogada finalizada. Falta clara de Berrio em Nishi, mas com o zagueiro japonês impedido. Que não participou do lance porque foi derrubado. Se chegasse na bola, o ataque seria anulado. Prova de que o uso do vídeo é mais que válido, mas não vai resolver tudo.

A cobrança precisa de Shoma Doi é que começou a definir a semifinal. Porque o Atlético sentiu o golpe, voltou do intervalo mais desorganizado e menos fluente na frente. Piorou com a entrada de Guerra no lugar de Arias que recuou Uribe. Ainda assim, o empate só não veio porque Cristian Dájome perdeu à frente do goleiro Sogahata.

Com linhas adiantadas e no desespero, o Atlético deixou espaços generosos para os contragolpes que terminaram no gol de calcanhar de Endo e o golpe final de Suzuki. 3 a 0 ficou pesado demais para quem teve 61% de posse e 24 conclusões contra apenas dez dos japoneses.

O Atlético não merecia…time, torcida e povo que foram puro coração com os brasileiros. Mas no Japão o emocional também atrapalhou. Uma pena.

 

 

 


É hora da Chape aceitar a imunidade e continuar sendo grande pela humildade
Comentários Comente

André Rocha

A dor ainda vai durar muito tempo, as cicatrizes serão eternas. Mas a vida da Chapecoense precisa seguir com o início do processo de reconstrução do futebol do clube.

Difícil, pois a tarefa de refazer o elenco é complexa. Mais ainda sem um treinador que já conheça o clube. Muito pior com a ausência de presidente e diretores que deram o suporte para a incrível ascensão recente.

Começar quase do zero. Sim, com auxílio, ao menos neste primeiro momento, de muitos clubes e federações além da tocante fraternidade do Atlético Nacional e da Colômbia. Com boas perspectivas de receitas e visibilidade para 2017 com a participação na Libertadores e na Copa Suruga.

Mas, na prática, quando entrar em campo para o primeiro compromisso do ano que vem a Chape será outra. Pode ressurgir mais forte, obviamente. Até porque a saga viraria filme com final feliz. Mas por enquanto é uma enorme incógnita.

Por isso é importante a proteção ao rebaixamento. Se o período de três anos inicialmente aventado agora parece exagerado, que seja apenas em 2017. Para não correr riscos. É compreensível a postura do presidente em exercício, Ivan Tozzo, ao descartar no discurso a ajuda e não querer que o clube seja tratado como “coitadinho” no âmbito esportivo.

A realidade, porém, sugere cautela. Já vimos emergentes desaparecerem por muito menos. A diretoria que assumirá naturalmente não terá o domínio de todos os processos e das etapas do planejamento a médio prazo. São 19 peças para repor no elenco. Os que ficaram não têm como formar uma base minimamente sólida.

É dolorido, mas impossível negar: a situação pede cuidado para o futuro imediato. O momento é de continuar sendo grande pela humildade, pelos pés no chão. Aceitando ou mesmo pleiteando a imunidade para que o esforço dos que se foram não seja em vão.

Quando a roda começar a girar, a história mostra que a piedade da maioria agora tende a se transformar na competição tantas vezes cruel. Já tivemos uma prévia com as declarações infelizes dos dirigentes do Internacional tratando a tragédia primeiro como um problema, depois como uma possível solução. Com cada um cuidando do seu, a Chapecoense pode se ver isolada, como um “pato novo” que acaba de subir e sofre para se manter na Série A.

Não é justo nem saudável. Seria mais uma página do nosso futebol do qual não nos orgulharíamos. Que a Chapecoense siga com a enorme nobreza que é admitir que precisa de ajuda na dificuldade. A maior de seus 43 anos de existência. A mais devastadora da história do esporte.

 


Entre corpos e corporações
Comentários Comente

André Rocha

O mundo corporativo moderno manda maximizar o lucro e minimizar os custos.

O piloto da Lamia, Miguel Quiroga, preferia economizar alguns dólares viajando no limite do combustível do avião.

O mundo corporativo moderno ordena que se coloque os interesses da empresa acima de qualquer outro.

O piloto Miguel Quiroga, sócio da Lamia, conseguiu aprovar um plano de voo irresponsável para não perder o cliente.

O mundo corporativo moderno exige sangue frio para gerenciar crises e tomar decisões difíceis que beneficiem a companhia, ainda que contrariem os interesses dos demais.

O piloto da Lamia, Miguel Quiroga, administrou a falta de combustível em silêncio, temendo multas e sanções, e sequer deu a chance aos passageiros do avião de se protegerem da queda inevitável.

O mundo corporativo moderno não se incomoda em sacrificar vidas, explorando a mão de obra até que a depressão, a estafa, as LER e outras mazelas levem à exaustão, quando não há o trabalho escravo.

O piloto Miguel Quiroga era responsável por dezenas de vidas, inclusive a própria, e preferiu correr o risco de uma pane seca a aumentar seus custos de viagem ou mesmo se recusar a prestar o serviço por falta de recursos.

A cada imagem dos familiares das vítimas em desespero, a cada homenagem mundo afora à Chapecoense, toda vez que imaginarmos a dureza que será a reconstrução do clube e das famílias abaladas por esta estupidez é dever nosso refletir sobre o rumo que estamos tomando.

De nossas escolhas pragmáticas, do nosso embrutecimento em busca de resultados. Da nossa visão do outro como cliente ou fornecedor e não um semelhante, Gente como a gente.

Sim, a tragédia na Colômbia é a exceção, um caso particularíssimo com um contexto cada vez mais nebuloso. Mas a soma das pequenas decisões que levaram à queda do avião diz muito sobre o nosso cotidiano profissional. Das escolhas que fazem por nós.

Das corporações que não se importam com os corpos dilacerados e as almas destruídas. Que sejamos mais humanos, menos “profissionais”. Pela nossa sobrevivência. Por nós e por todo mundo.