Blog do André Rocha

Arquivo : Chapecoense

Foco, tempo e até desespero devem nortear segundo turno do Brasileirão
Comentários Comente

André Rocha

O Corinthians está com o Brasileiro nas mãos. Até aqui, pelo menos, é aquele caso em que tudo conspira a favor. Inclusive a pausa entre um turno e outro para recuperar e treinar a equipe por conta da viagem da Chapecoense. Com Grêmio, Santos e Flamengo envolvidos em outras competições e Palmeiras na ressaca da eliminação da Libertadores com 14 pontos atrás que podem virar 17, o atual líder disparado pode até se planejar para buscar também o título da Sul-Americana.

Competição que ainda envolve outros cinco brasileiros. Com dois confrontos nacionais  – Sport x Ponte Preta e Flamengo x Chapecoense – que podem reduzir a quarto para as quartas de final. Mesmo número de times na disputa das semifinais da Copa do Brasil. Um a mais que nas quartas da Libertadores.

Dez times dividindo atenções, outros dez disputando somente o Brasileiro. Com apenas quatro rodadas de dezenove no meio da semana. Parece claro que o foco e o tempo para treinar têm grandes chances de fazer a diferença e até superar o nível técnico e tático das equipes.

Sem contar o desespero. Aquele que, pela dificuldade na tabela, torna o adversário difícil de ser batido. Sim, a fuga do Z-4. Que parece ter o Atlético-GO condenado, mas ainda matematicamente vivo, dependendo de uma arrancada que hoje soa improvável. Um olhar mais atento à tabela, porém, revela que o Fluminense, disputando a Sul-Americana, está apenas cinco pontos à frente da Chapecoense, 17ª colocada e com um jogo a menos.

Qualquer vacilo será fatal. É onde mora a esperança são-paulina. Mesmo com todos os equívocos e com a equipe oscilando até psicologicamente, há qualidade, especialmente de Hernanes desequilibrando nas últimas vitórias, e agora tempo para se preparar. O que Dorival Júnior mais precisava. E nada mais para distrair. Uma sequência de bons resultados e pode até sobrar uma vaga na Sul-Americana.

A disputa pelas seis primeiras colocações ganha novos postulantes, como os Atléticos, mineiro e paranaense. Os únicos junto com o Palmeiras entre os onze primeiros com foco absoluto na Série A. Uma vantagem considerável em meio a tanto equilíbrio, com exceção do Corinthians.

A Primeira Liga não deu certo pelo servilismo dos clubes à CBF e agora se encontra soterrada pelos demais torneios. Para muitos será um engodo, um problema de logística. Hoje soa como um prêmio de consolação, uma taça para não deixar 2017 de mãos abanando. Vale menos que o estadual.

O maior desafio, sem dúvida, é o do Botafogo. Com elenco não tão robusto, um clássico carioca no torneio nacional e um duelo brasileiro na Libertadores contra o Grêmio, uma das melhores equipes do país. A um ponto do G-6, que seria a garantia de volta ao torneio continental independentemente do desempenho no mata-mata. Mas a seis da zona de rebaixamento, o que exige um certo cuidado.

Neste cenário, o returno reserva alguns jogos que serão esvaziados pela utilização de reservas e outros que podem ganhar contornos épicos, com times até com tempo para se preparar, mas tão envolvidos emocionalmente que não resistirão ao maldito “jogo para ganhar e não para jogar”. Valendo a vida. Para quem gosta de emoção e não torce o nariz para a fórmula de pontos corridos será um prato cheio.

Se nos dois extremos da tabela os destinos de Corinthians e Atlético-GO parecem selados, todo o resto carrega suas dúvidas e um contexto construído jogo a jogo. Dependente de outras competições, que agora contemplam toda temporada. Vejamos o que o novo calendário reservará à nossa liga neste primeiro ano.


Dorival Júnior vai penar com um São Paulo sem confiança e entrosamento
Comentários Comente

André Rocha

Dorival Júnior resgatou o gosto pela posse de bola do trabalho de Rogério Ceni, em especial no início. O novo treinador quer um São Paulo protagonista, propondo o jogo. Mas está difícil. Porque são nove partidas sem vitória e time afundado na zona de rebaixamento, o que naturalmente abala a confiança.

Para piorar, o desentrosamento de um elenco muito mexido, com entradas e saídas de atletas. Na Arena Condá, o primeiro tempo de domínio, especialmente nas jogadas pela esquerda com aproximação de Junior Tavares, Jonatan Gómez e Cueva, não conseguiu proporcionar uma oportunidade cristalina. Porque a jogada pelo flanco sempre fugia de Lucas Pratto e Wellington Nem, exatamente pela falta de sintonia. O cruzamento era impreciso ou o atacante estava mal posicionado para finalizar.

Pouco ou nada adianta a posse sempre acima dos 65%. Ou até atrapalha, pois dá ao adversário o conforto de jogar posicionado atrás e saindo em transições ofensivas rápidas aproveitando espaços em uma retaguarda adiantada. Time sem confiança, erra o passe e está exposto.

Foi o que aconteceu na segunda etapa, principalmente depois do gol de Tulio de Melo na jogada aérea, ainda uma opção ofensiva interessante na Chapecoense agora comandada por Vinicius Eutrópio. Mesmo sentindo os desfalques, especialmente do forte lado esquerdo com Reinaldo e Arthur Caike, o 4-1-4-1 encontrou em Apodi do lado oposto a melhor saída em velocidade.

Dorival Júnior trocou Wellington Nem, Cueva e Petros, colocando Marcinho, Lucas Fernandes e Denilson. Mas era uma equipe nitidamente insegura, com medo de errar e evitando o passe diferente para as infiltrações. A bola rodava, rodava e nada acontecia.

Até o erro, a bola retomada e o chute preciso de Lucas Marques. A 15ª finalização da equipe mais objetiva para decretar os 2 a 0. Resultado que redime a Chape, que respira se afastando do Z-4. O São Paulo sofre, Dorival Júnior vai penar para implementar seus conceitos em elenco tão heterogêneo e ainda se conhecendo, com o primeiro turno se aproximando do fim.

O desafio só aumenta.

(Estatísticas: Footstats)


Eu sei por que você me odeia
Comentários Comente

André Rocha

O primeiro contato deste blogueiro com críticas a ídolos não veio do futebol. Até porque nos anos 1980 os veículos eram, digamos, “festeiros” demais para sequer fazer ressalvas a quem quer que fosse. Ainda mais a idolatrada, por vezes mimada, geração de 1982.

Foi na música mesmo, com a explosão do Rock Brasil. Era duro ler ou ouvir alguém detonando a banda ou o artista favorito. Dado Villa-Lobos, guitarrista da Legião Urbana, conta em seu livro “Memórias de um Legionário” que o jornalista José Augusto Lemos disse a ele que, por causa de uma crítica negativa ao disco “Dois”, lançado em 1986, ele recebeu 30 cartas iguais de um fã indignado. Uma por dia.

Outros tempos. Hoje, com quase todo mundo relativamente acessível nas redes sociais, fica mais fácil extravasar. E confesso que, naquela época, lá pelos 13, 14 anos, se pudesse mandar mensagens para os críticos da revista Bizz, especialmente o André Forastieri, eu seria insuportável e levaria um block implacável.

Ou seja, os haters só são um fenômeno atual pelos meios, não pelos indivíduos. Em qualquer segmento. Na música, na TV, no futebol. Em relação aos jornalistas, não é difícil entender essa aversão.

Porque nos enfiamos no meio dessa relação ídolo-fã, time do coração-torcedor. Que é lúdica por natureza. Uma válvula de escape para as agruras do dia após dia. Na qual tudo pode ser perfeito, nem que seja por uma noite. Um jogo. Um espetáculo. Um capítulo.

E o pior: entramos nessa “intimidade” querendo trazer racionalidade. O “não é bem assim” naquela vitória que fez o fanático ir às nuvens e querer ficar por lá. E nós puxando a perna do sujeito, trazendo à realidade de que no próximo jogo pode ser tudo diferente.

Pior ainda quando relativizamos o triunfo com erros de arbitragem. Ou informamos aqueles problemas na gestão do clube. “Não, está tudo perfeito!” Tem que estar tudo perfeito. Ora, quem pode contestar o dirigente que, mesmo sem dinheiro nos cofres e duplicando a dívida, trouxe aquele craque que me faz tão feliz?

É nossa função. Claro, com as exceções que confirmam a regra. Os mal intencionados, com desvio de caráter mesmo. Ou os que não conseguem disfarçar a torcida – a favor do seu e contra os rivais. Ou aqueles que declaram as cores que amam e, no vício do ofício de trazer o discurso para o equilíbrio, passam a ser mais críticos do que com o resto. Estes também viram alvos.

A “vingança” mais comum é tentar nos excluir: “Nunca jogou bola e quer opinar!” Isso vale para o clube que se ama e o jogador que se idolatra e normalmente existe o sonho de ser igual. Até imitando na pelada. Como alguém ousa dizer que ele não é o maior de todos os tempos (da última semana)?

Sabemos, ou devemos saber, da nossa insignificância dentro do espetáculo. Jogadores e torcida são os protagonistas. Hoje, treinadores e dirigentes entraram nesse bolo – para este que escreve, um equívoco. Nós estamos de fora, sim. Mas temos o direito de informar, opinar e ajudar a construir a visão do espectador. E às vezes interferimos no jogo.

Seja para o craque criticado que se motivou e arrebentou no jogo para “calar a bola de quem falou besteira”, seja naquela observação que incomoda e gera protestos públicos, mas também a reflexão e até a mudança de atitude no silêncio do orgulho. Algo que jornalista não pode ter para também mudar de opinião. Ainda que seja depois chamado de “incoerente” ou “picolé de chuchu” por não seguir com a convicção que já tinha se transformado em teimosia.

Na essência somos desimportantes. Mas lembre-se: quando terminou o doído 7 a 1, muitos deixaram a TV ligada ou correram para a internet para que ajudassem a explicar o que havia acontecido. Quando a tragédia da Chapecoense abalou os corações foi o jornalismo que trouxe tanto a informação que todos preferiam que não existisse quanto o conforto e o abraço da Dona Ilaídes, mãe do goleiro Danilo. Em um repórter.

O mundo ainda segue a fábula do rei que ao receber uma má notícia manda matar o mensageiro. Compreensível. É preciso descontar em alguém. E o bom jornalismo incomoda quem quer manter o status quo que o privilegia. Acredite: sem imprensa, seria bem pior do que é. Por pior que ela seja ou que você ache. A história mostra.

Eu sei por que você me odeia. Até entendo. Mas tenha certeza de que não é minha intenção. Só o meu trabalho.


A melhor atuação do Flamengo, e de Diego, no Brasileiro
Comentários Comente

André Rocha

No Brasil, este país tão pouco democrático, a crítica quase sempre é mal vista e confundida com perseguição. Nunca como algo construtivo, que só deseja a melhora ou o despertar do objeto das observações.

Diego fez a diferença com dois gols e uma assistência para Guerrero, que marcou três. A eficiência nas finalizações do meia já é conhecida e o primeiro foi uma conclusão espetacular. Já o passe teve a precisão que se espera de um jogador dotado tecnicamente. Ainda não é o toque criativo, aquele que abre o espaço, o que se pede no texto. Mas talvez não seja mesmo para ele, por característica. No elenco do Flamengo agora há Conca e Everton Ribeiro.

A melhor atuação do Flamengo no Brasileiro, porém, foi no estilo de 2016: na velocidade com os ponteiros. Desta vez Berrío e Everton. Com dificuldades na saída de bola ainda com Márcio Araújo e Willian Arão, compensadas com bons passes de Trauco. Com a falha de Thiago no gol de Victor Ramos em cobrança de lateral na área que ensaiou trazer a Chapecoense de novo para o jogo.

Mas fazendo as transições ofensiva e defensiva com velocidade partindo dos flancos para encontrar Diego e Guerrero que desta vez desequilibraram. Melhorando consideravelmente a relação finalizações x gols da equipe de Zé Ricardo. Cinco bolas nas redes em 17 conclusões. Dez no alvo.  Com menor posse (48%) e jogo mais vertical depois de construída a vantagem no placar.

Mais um triunfo na Arena da Ilha, a casa que o Flamengo não teve no ano passado. Para mudar a atmosfera e aliviar a pressão, mas partir para o salto de qualidade que se espera. Com Everton Ribeiro, o ponta articulador. Depois Geuvânio, o atacante agudo e finalizador. Sem a visão cômoda de que a equipe está acostumada a atuar desta forma. O elenco foi reforçado para mudar de patamar.

Assim como Diego apresentou nítida evolução em relação às demais partidas desde sua volta de lesão e merece elogios. Puxando junto o Flamengo para o desempenho mais consistente no campeonato. O desafio agora é construir uma sequência.

(Estatísticas: Footstats)

 

 


O toque de midas de Renato Gaúcho no Grêmio
Comentários Comente

André Rocha

Everton substituiu o lesionado Lucas Barrios aos 14 minutos da segunda etapa na Arena Condá. Aos 15 marcou o terceiro gol, no minuto seguinte o quarto e, depois do gol de pênalti de Reinaldo, transformou em goleada um jogo duríssimo até então, definido em bola parada e falhas dos goleiros Jandrei e Marcelo Grohe, aproveitadas por Michel (um golaço!) e Luiz Antonio.

Mais gols de Arthur Caike e Luan para fechar os 6 a 3. O Grêmio chega aos 12 pontos, supera a Chape e está atrás do Corinthians na tabela da Série A. Mas os titulares alcançam 100% de aproveitamento. Os reservas até abriram 2 a 0 sobre o Sport em Recife, mas acabaram sofrendo a virada. A intenção era guardar energias para a volta da Copa do Brasil no Maracanã contra o Fluminense. Nem foi preciso, no primeiro tempo o confronto já estava definido.

Porque Renato Gaúcho parece estar vivendo uma fase de Rei Midas, depois da frustração no Gauchão – o treinador chegou a poupar titulares na Libertadores para priorizar o torneio estadual, mas sequer chegou à decisão. Com tempo para treinar, preparou a equipe resgatando virtudes da arrancada que chegou ao título da Copa do Brasil.

Segue a impressão de que o encaixe do estilo do maior ídolo do clube ao trabalho que Roger Machado deixou foi perfeito. Ficaram os conceitos, o trabalho coletivo, o jogo entre linhas de Luan, o gosto pela troca de passes. Chegou o que faltava: gestão de vestiário, eficiência nas bolas paradas ofensivas e defensivas e mais efetividade no ataque.

O resultado é o melhor futebol praticado no país nos últimos 30 dias. Com Leonardo Moura e Cortez, típicos alas, fazendo o trabalho como laterais, primeiro defendendo e depois atacando. Achando em Michel e Arthur os volantes que compensam as ausências de Walace e Maicon e por vezes até superam em desempenho a dupla do ano passado.

Tem Ramiro como chave tática como um volante aberto pela direita que auxilia Michel e Arthur, abre espaço para Léo Moura e os deslocamentos de Barrios e Luan às costas do lateral esquerdo adversário. Na esquerda, Pedro Rocha voando, infiltrando em diagonal.

Um jogo fluido, bonito de ver, que acelera e cadencia conforme a necessidade. Time inteligente, que encontra soluções de acordo com o que o jogo exige. Ataque mais positivo do Brasileirão, com média de três gols por rodada.

Mérito de Renato, que mantém o discurso boleiro e fanfarrão. Mas em campo há um jogo pensado, que não é construído em coletivos e rachões, na base da intuição. E aí entram a comissão técnica, o setor de inteligência e análise de desempenho. Trabalho em equipe.

Sim, são cinco rodadas. O Grêmio tem Libertadores e Copa do Brasil para desgastar física e mentalmente na sequência da temporada. Mas hoje o que Renato Portaluppi toca vira ouro. Como a entrada de Everton em Chapecó.


O time de Vagner Mancini por trás da simbólica liderança da Chapecoense
Comentários Comente

André Rocha

Exatos seis meses depois da tragédia na Colômbia, a Chapecoense que emergiu entre os escombros chega à liderança do Brasileiro. Algo nunca alcançado pelo clube, nem com os que partiram pela irresponsabilidade assassina e suicida de um piloto de avião.

Chegar ao topo da tabela neste momento significa bem pouco para a sequência do campeonato. Ano passado, como já dito e redito por aqui e por aí, Internacional e Santa Cruz dividiam a primeira colocação após três partidas e acabaram rebaixados.

Para a equipe catarinense, porém, tem todo o simbolismo de reconstrução. Se a filosofia do clube não mudou, e nada indica que tenha se alterado, a meta continuará a mesma: manter-se na Série A e, se possível, melhorar a posição em relação a 2016 – 11ª colocação.

Analisando o desempenho da equipe montada do zero por Vagner Mancini, o objetivo é plenamente possível de ser alcançado. Porque a Chape é competitiva. Mostrou isso no título estadual e na campanha da Libertadores, que no campo terminou em vaga. Uma noite ruim em Medellín pela Recopa contra o Atlético Nacional, mas que pode ser tratada como uma oscilação natural. Até por tudo que envolveu as partidas, inclusive emocionalmente.

A Chapecoense atua com linhas próximas, em um 4-3-3/4-1-4-1 que nunca abdica de jogar. Tem Apodi ainda voando pela direita, mas não como um ala. Mancini tem conseguido convencê-lo a ser um lateral, primeiro defendendo e depois apoiando. O mesmo com Reinaldo do lado oposto.

Os laterais têm o suporte nos momentos ofensivo e também defensivo dos ponteiros Rossi e Arthur Caike e dos meias Luiz e Antonio e Seijas, substituto do lesionado João Pedro, lateral improvisado no meio-campo. Na proteção, saída de bola e também chegada à frente, Andrei Girotto. O trio de meio-campistas alternam nas funções de defesa e ataque.

Retaguarda que ganhou zaga nova com Victor Ramos e Luiz Otávio, este envolvido na eliminação da Libertadores por escalação irregular, mas vem mostrando segurança atrás e aproveitando sua estatura (1,94) para se apresentar na área adversária como opção para as muitas jogadas aéreas da equipe, inclusive em cobranças de lateral.

Na frente, Wellington Paulista trabalha como pivô, abre espaços e também se aproveita das jogadas pelos flancos para fazer seus gols. Marcou o segundo no Brasileiro nos 2 a 0 sobre o Avaí na Arena Condá, que continua sendo um trunfo para somar pontos. No ano, o aproveitamento em casa é de 70%.

A atuação mais consistente, porém, foi na estreia contra o Corinthians em Itaquera. Negou espaços, finalizou o triplo (15 a 5), mesmo com menos posse de bola. Poderia ter vencido uma das equipes que também somam sete pontos em nove possíveis e só perde no saldo de gols.

Uma prova de força e referência para a Chape seguir com seu estilo prático e objetivo, trabalhando jogo a jogo e só subindo a meta quando a inicial for alcançada. O campo vem mostrando que o clube acertou ao não aceitar proteção contra o rebaixamento. Também houve critério e cuidado para recusar as “ofertas” de clubes que só queriam se livrar de jogadores pouco úteis.

Quem chegou mostra comprometimento com a causa esportiva. Mas a Chapecoense não é só honra e garra. Tem uma equipe bem montada, ciente de suas fraquezas e, por isso, focada no trabalho coletivo para se colocar entre os grandes. Méritos de Vagner Mancini.

O 4-3-3/4-1-4-1 da Chapecoense de Vagner Mancini com linhas compactas, mobilidade na frente, apoio dos laterais e trabalho dos meio-campistas que defendem e atacam alternando funções (Tactical Pad).


Abertura da Série A sinaliza equilíbrio que deve ser a marca da competição
Comentários Comente

André Rocha

Dois bons jogos no Maracanã e na Arena em Itaquera. Em tática e no equilíbrio das ações.

O primeiro gol da Série A em 2017 saiu de uma jogada pela esquerda. Desde a divulgação das escalações, parecia claro que a opção de Zé Ricardo pelo Flamengo no 4-2-3-1 com Matheus Sávio seria para forçar o jogo no setor: Trauco, Everton e o jovem meia para cima de Carlos César, substituto de Marcos Rocha no Atlético Mineiro que não tinha o devido auxílio de Elias.

Cruzamento fechado de Sávio, Victor ficou atento a Guerrero e a bola entrou. Gol único de uma primeira etapa em que os visitantes tiveram a bola (terminaram com 58%), mas foram pouco efetivos. Faltava mobilidade, criatividade e chutes de fora da área, já que o sistema defensivo do Fla estava sólido, com concentração máxima.

O time rubro-negro foi mais incisivo, porém faltou novamente contundência. Também a tomada de decisão correta de Berrío em um contragolpe todo dele, mas o colombiano preferiu acionar Guerrero com caminho livre à frente para finalizar cruzado.

Em um jogo tão equilibrado, foi fatal. Roger Machado lançou mão de seu forte elenco trocando Otero, de atuação pluripatérica, por Cazares, que bagunçou a retaguarda rubro-negra e teve duas chances claras de empatar, mas Rafael Vaz salvou ambas sobre a linha.

O contestado zagueiro em tarde de heroi não pôde evitar o erro de Arão e Márcio Araújo na saída de bola, o “pé mole” de Rever na dividida que caiu nos pés de Robinho. Deste para Fred até chegar a Elias no gol de empate.

Zé Ricardo foi corajoso ao mandar a campo Ederson, vindo de longa inatividade, e Vinicius Junior, depois de apostar na formação inicial do último Fla-Flu quando trocou Sávio por Renê e Trauco voltou ao meio-campo. Mas o peruano caiu de produção e obrigou o treinador a mudar de novo.

A joia de 16 anos entrou com afobação natural, mas nada que comprometesse. Roger trocou Fred e Robinho por Rafael Moura e Maicosuel. Ganhou vigor físico, perdeu poder de decisão. Podia ter custado caro, mas Gabriel salvou gol certo de Guerrero.

Apesar da maior posse e das 13 finalizações do Atlético contra dez do Fla, ninguém merecia perder no Maracanã.

Nível mantido em São Paulo. Com uma Chapecoense organizada num 4-1-4-1, com linhas compactas e sem abdicar do jogo, mesmo fora de casa. Com Apodi, que era um típico ala “peladeiro” há alguns anos atuando como lateral, um defensor de última linha. Podia ter marcado com Arthur.

O Corinthians foi às redes quando a jogada individual de Fagner quebrou as linhas de marcação e Rodriguinho, de novo mais avançado no 4-2-3-1 de Fabio Carille, serviu Jô. Descomplicando uma disputa dura, de bom nível tático e estratégico.

Complicada pela lesão de Pablo ainda no primeiro tempo. Pedro Henrique entrou e não comprometeu, mas sempre há uma perda na coordenação da última linha posicional com qualquer mudança nas peças.

O time de Carille novamente se complicou quando precisou ter a bola, mesmo com Jadson saindo mais do lado direito para circular e ajudar Rodriguinho e Maycon na armação das jogadas. Ainda assim, não há fluência para criar a chance cristalina.

A desvantagem não desmanchou mentalmente o time catarinense, que seguiu fiel à sua proposta de defender com organização e trabalhar pelos flancos. Sem muita criatividade no meio com Luiz Antonio e João Pedro, mas levando vantagem pela direita com Apodi e Rossi para cima de Arana e Romero.

Paraguaio que errou em um contragolpe de três contra um, depois cinco contra dois no mesmo lance. O futebol costuma punir. O golpe veio no gol de Wellington Paulista no rebote de nova jogada pela direita que encontrou Arthur Caike contra Fagner e a cabeçada no travessão.

O Corinthians tentou um abafa final com Kazim e Jô na área adversária e Leo Jabá pela esquerda – saíram Gabriel e Romero. Vagner Mancini fechou sua equipe apenas nos minutos finais. Terminou com 41% de posse, mas 15 finalizações, o triplo do anfitrião – quatro a dois no alvo.

Empates em jogos iguais. Mesmo descontando a empolgação e a tensão naturais em estreias, as partidas deixaram bem claro que a evolução tática chegou ao país. Com atraso, mas chegou. Com equipes mais coletivas e organizadas, a tendência é o campeonato ficar ainda mais parelho. O que já é sua marca.

Melhor para todos. Ótimo para quem assistiu às duas partidas com poucos gols, mas bom futebol.

(Estatísticas: Footstats)


Uma vitória que simboliza a reconstrução com dignidade da Chapecoense
Comentários Comente

André Rocha

Mais que todas as homenagens, lágrimas, palavras de esperança e gestos de solidariedade e gratidão antes, durante e depois da bola rolar, o que fica de lição deste Chapecoense x Atlético Nacional é a vaia da torcida para o desentendimento entre Macnelly Torres e Moisés no segundo tempo. Algo que normalmente é exaltado nos campos brasileiros como “futebol de verdade”. Que sirva de exemplo.

Em campo, a sexta vitória consecutiva na temporada da equipe montada do zero sob o comando de Vagner Mancini significa bem mais que a vantagem do empate na partida de volta pela Recopa Sul-Americana.

Simboliza uma reconstrução com a dignidade que virou marca do clube catarinense. Planejamento dentro da realidade, sem projetos megalomaníacos. Sabendo exatamente onde pode pisar. Também sem exigir caridade.

Sim, é preciso olhar pelas famílias dos que se foram na tragédia do ano passado, mas o tamanho da perda e a necessidade de reagir rápido para estar minimamente pronto em 2017 justificam o estabelecimento de prioridades. Não há parâmetros para medir a dor e o desatino.

Em campo, a  nova Chape parte de uma proposta pragmática para ser competitiva de forma mais rápida. Nos jogos grandes se baseia em concentração defensiva, velocidade nos contragolpes e muito foco nas jogadas aéreas com bola parada.

No 4-1-4-1 com Andrei Girotto atento à cobertura de Apodi, mesmo com este trabalhando mais como lateral e não como o ala de outros tempos. João Pedro, ex-Palmeiras, virou meia com Luiz Antonio no centro e Rossi e Arthur Caike nas pontas, deixando Tulio de Melo à frente.

A Chape deixava os zagueiros do Atlético Nacional saírem jogando e começava o bloqueio a partir de zagueiros e laterais para ter superioridade numérica onde estava a bola quando o adversário entrasse no seu campo. Mesmo assim teve dificuldades.

Porque o campeão da Libertadores, apesar das muitas mudanças na base vencedora de Reinaldo Rueda, continua muito forte. Trabalha a bola, tem mobilidade e variação tática – do 4-2-3-1 para o 4-4-2 quando o atacante Dayro Moreno se junta ao centroavante Luis Carlos Ruiz e Bernal ocupava o lado direito no meio.

Jogo igual, definido na bola parada pelo time menos ajustado. Pênalti bem cobrado por Reinaldo e o golpe de cabeça de Luiz Otávio, substituto do lesionado Douglas Grolli. O empate do Atlético na jogada trabalhada finalizada por Macnelly Torres.

Ao contrário do que diz o clássico de Jackson do Pandeiro, este jogo bem que podia terminar 1 a 1. Com todos vencedores, o que não deixou de acontecer na alma de cada um. Mas se no jogo da gratidão o Atlético não entregou o resultado como fez com a Copa Sul-Americana, a Chapecoense precisava mais do triunfo.

Para consolidar um novo tempo. De entrega de todos que fazem um novo time para o clube emergente. De vontade de seguir vencendo independentemente da compaixão inevitável quando os olhos miram a Arena Condá.


Novo Palmeiras sofre com a bola parada: o jogo dentro do jogo
Comentários Comente

André Rocha

O propósito maior do jogo na Arena Condá estava fora das quatro linhas e o simbolismo da partida tirou até o espírito de competição que surge naturalmente, mesmo em um amistoso. Felipe Melo ilustrou bem ao afirmar que perdeu a concentração ao ver uma criança chorando. Ainda mais ele, que esteve tão distante geograficamente da tragédia e todos os seus desdobramentos.

Mas de tudo que foi possível observar nos 2 a 2 entre Chapecoense e Palmeiras, além do novo time do clube catarinense jogando com fibra e entrega impressionantes e o potencial de Raphael Veiga e Vitinho, sem contar a afirmação da qualidade de Tchê Tchê no novo 4-1-4-1 palmeirense, chamou atenção o desempenho dos times na bola parada.

Mesmo descontando o fato do campeão brasileiro estar sem Mina e Vitor Hugo, sua zaga titular, e Eduardo Baptista ter pouquíssimo tempo de trabalho, saltou aos olhos as falhas defensivas. Não só nos gols de Douglas Grolli e Amaral, mas em praticamente todas as disputas pelo alto.

Compreensível também a ênfase da Chape nesta jogada. Afinal, com um time novo e, consequentemente desentrosado, este tipo de recurso seria uma arma interessante para Vágner Mancini.

Porque a bola parada é um jogo dentro do jogo de futebol. Tem outro posicionamento, outra dinâmica. A ponto dos treinadores tratarem como um quinto momento, além do defensivo, do ofensivo, da transição defensiva – o que você faz assim que perde a bola – e da transição ofensiva – a ação imediata assim que a recupera.

Jogada decisiva, cheia de detalhes. Capaz de igualar forças das equipes, até compensar desvantagem numérica. Depende mais de movimentos coordenados do que do talento do cobrador e dos companheiros na área para concluir.

Quantas finais ou disputas cercadas de expectativas entre times e seleções já foram dissecadas previamente com sistemas táticos, modelos de jogo, estatísticas dos jogadores e, no final, se resolveram numa bola parada? O Real Madrid de Sergio Ramos que o diga.

Eduardo Baptista é treinador detalhista, minucioso. Inclusive neste tipo de jogada. Certamente percebeu a deficiência e vai trabalhar para corrigi-la. Porque ela ajuda a derrubar treinador.

O problema crônico no Flamengo minou os trabalhos de Cristóvão Borges e Oswaldo de Oliveira em 2015. No ano passado, Roger Machado no Grêmio foi o caso mais marcante. Houve problema de gestão de vestiário, mas, no campo, os muitos gols sofridos em jogadas aéreas nas faltas laterais e escanteios empurraram o bom treinador para fora do comando técnico do time gaúcho.

Renato Gaúcho chegou, fez o simples e, com marcações individuais bem definidas, resolveu o problema. Como Cuca adotava a mesma prática no Palmeiras, com bola rolando ou parada, cabe a Eduardo Baptista perceber se os jogadores se adaptam melhor ao bloqueio por zona ou ao tradicional “cada um pega o seu”.

Há tempo para isso. O foco absoluto é na Libertadores, que começa em março. Até lá, com time completo, trabalho e conversa é possível acertar o Palmeiras em todos os detalhes para começar a competir em alto nível, fazendo jus ao poder de investimento do clube.


O mundo cão volta a latir alto para a Chapecoense
Comentários Comente

André Rocha

Wagner Mancini Chape

Primeiro foram as declarações lamentáveis de Marco Polo Del Nero, Fernando Carvalho e Vitório Piffero ainda na dor recente da tragédia. Depois algumas homenagens prometidas que não aconteceram por detalhes tão pequenos diante da enorme perda, em contraste com toda a generosidade do Atlético Nacional , dos colombianos, do Barcelona e de outros cantos do planeta.

Agora, com a Chapecoense definindo diretoria e comissão técnica, as declarações do novo técnico Wagner Mancini lamentando a postura de times da Série A que inicialmente se colocaram à disposição para colaborar na reconstrução do elenco e agora disponibilizam apenas as peças descartáveis de sua folha salarial.

Como quem no final do ano revira o guarda-roupa e os armários para doar  sapatos velhos e camisetas furadas, como se o necessitado fosse uma lixeira do que não se quer mais. Tudo para passar o Natal com a “consciência tranquila”.

Na prática, os clubes querem empurrar os próprios problemas para quem está precisando de ajuda. Não seria nada complicado se os “coirmãos” se reunissem e cada um disponibilizasse um reserva com potencial ou um jovem promissor. Com o devido cuidado para equilibrar o elenco por faixa etária e posição.

A Chapecoense não perdeu “apenas” 19 jogadores. Boa parte do planejamento também se foi com os dirigentes que estavam no avião da Lamia, sem contar a comissão técnica. Então até mesmo uma certa hesitação neste início na avaliação das possíveis contratações é mais que compreensível.

A maior tragédia da história dos esportes deixa um trauma ainda difícil de dimensionar. A falta de confiança nos pares também prejudica na hora de analisar as ofertas. Está claro que a missão não é, nem será fácil.

Não é tratar como “coitadinho”, mas entender o impacto do ocorrido na vida de uma instituição ainda jovem, sem o lastro de outras e ganhando visibilidade maior agora por algo que ninguém gostaria que tivesse acontecido.

Por isto o blog insiste com a ideia de imunizar a Chapecoense de rebaixamento ao menos no ano que vem. No Brasileiro e também no estadual, pois está claro que o início da reformulação terá uma enorme complexidade. É hora de mostrar as duas grandes virtudes que levaram o clube ao seu auge: humildade sem complexo de inferioridade e noção de suas possibilidades.

Triste ver que depois dos corpos enterrados o mundo cão volta a latir alto e forte para quem ainda necessita tanto de um abraço. Sincero e solidário. A Chape vai precisar de toda força do mundo inteiro para se reerguer.