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Futebol inglês: ou muda calendário e tradições, ou vira piada na Europa
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André Rocha

Entre os oito classificados para as quartas-de-final da Liga dos Campeões, apenas um representado a Inglaterra: o Leicester City, atual campeão. Clube que teve como trunfo na temporada anterior estar totalmente focado na Premier League.

Agora, acusado de economizar suor na competição nacional por conta dos problemas de relacionamento com o ex-treinador, Claudio Ranieri, teve gás sobrando para a disputa do torneio continental e despachou o Sevilla no King Power Stadium.

O Chelsea, líder e virtual campeão inglês desta temporada, também leva vantagem na disputa da liga por não dividir atenções com nenhuma competição europeia. Segue vivo na Copa da Inglaterra depois de eliminar o Manchester United.

Time de José Mourinho que não deve ter reclamado muito. Campeão da Copa da Liga e o único do país ainda envolvido com a Liga Europa, luta para alcançar a zona de classificação para a próxima Champions League.

O campeonato inglês da primeira divisão é considerado o mais importante do planeta. Pelo equilíbrio de forças que passa fundamentalmente por uma divisão da receita mais justa e um aumento substancial das cotas de TV. Disputado em intensidade altíssima, num jogo físico que dura os noventa minutos e atrai os olhos do mundo pela imprevisibilidade.

O grande gargalo, porém, é o calendário, ainda fincado em tradições que fogem do contexto atual. Enquanto o mundo pára no final do ano, a bola rola no Boxing Day e em jogos encavalados. Tudo isso com o intuito de atrair os olhos do mundo, mas também garantir datas para as duas copas nacionais, enquanto a grande maioria dos países disputa uma só.

E ainda preservam o “replay”, jogo extra disputado em caso de empate na Copa da Inglaterra. O Manchester City perdeu tempo de preparação para a sequência da Premier League e da Liga dos Campeões para enfrentar o Huddersfield Town, da segunda divisão, pelas oitavas de final. Ao menos para esta temporada acabaram com os jogos extras nas quartas de final.

Mas é preciso rever ainda mais o calendário. Porque mais tradicional que as copas e os jogos na virada do ano é ver os times ingleses fortes na Liga dos Campeões. De 12 títulos, mas o último em 2012 com o Chelsea. Conquista improvável e baseada exatamente na prioridade dada ao torneio.

Desde 2008/09, quando colocou United, Chelsea e Arsenal nas semifinais, mas o título ficou com o Barcelona, só conseguiu emplacar um time entre os quatro primeiros: título com os Blues, vice dos Red Devils em 2011, o Chelsea de Mourinho entre os quatro em 2014 e o Manchester City na semifinal inédita na última edição contra o Real Madrid.

Para piorar, o Arsenal de Arsene Wenger leva um 10 a 2 no agregado do Bayern de Munique e é eliminado nas oitavas de final pela sétima vez consecutiva. Mesmo com alguns erros gritantes da arbitragem em Londres, não deixa de ser um vexame.

É muito pouco. Suscita dúvidas da real força da Premier League ver os espanhois dominando o continente há três temporadas com Barcelona, Real Madrid e Atlético de Madrid, mais o Sevilla tricampeão da Liga Europa. A Alemanha colocando Bayern de Munique e Borussia Dortmund novamente entre os oitos melhores.

E a Inglaterra apenas com o Leicester City, maior azarão do sorteio das quartas. Inusitado, mas tragicômico. O perigo é o futebol jogado no país virar piada na Europa.


City se afirma como o anti-Chelsea. Mas Blues têm duas grandes vantagens
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André Rocha

Quando Gabriel Jesus saiu lesionado aos 14 minutos de jogo em Bournemouth e Guardiola não perdeu tempo para colocar Aguero em campo, duas coisas ficaram claras: a importância do brasileiro para o treinador e a força do elenco do Manchester City.

A vitória por 2 a 0, com o 12º gol do argentino na Premier League, e a atuação consistente em boa parte do jogo alçam os citizens à segunda colocação e afirmam a equipe como a grande candidata a buscar o Chelsea no topo da tabela. São oito pontos de diferença.

Além da distância na matemática, a equipe de Antonio Conte tem duas grandes vantagens para administrar a liderança. A primeira é ter menos clássicos a disputar: Manchester United fora na 33ª rodada e a “decisão” contra o City duas rodadas antes. Em casa.

Já o time de Guardiola enfrenta uma sequência pesada antes de encarar os Blues: Liverpool em casa e Arsenal fora. Sem contar o clássico de Manchester com data a definir. Na penúltima rodada ainda encara o atual campeão Leicester, que luta contra o rebaixamento e pode chegar com a corda no pescoço.

Além dos duelos, em tese, mais complicados nas treze rodadas que faltam, o City ainda tem a Champions League para dividir atenções. A começar pelo ofensivo Monaco, líder do campeonato francês. O Chelsea adoraria estar nas oitavas do torneio continental, mas a campanha pífia na temporada passada entrega agora um foco que pode ser decisivo. Inclusive para faturar a taça com algumas rodadas de antecedência.

Seja como for, a recuperação no desempenho do City que se reflete nos resultados é um alento para Guardiola. Sua equipe se ajustou no 4-3-3 com laterais mais fixos ou apoiando por dentro e dando liberdade para o quinteto ofensivo que cresce com Sterling e Sané nas pontas, De Bruyne e David Silva na articulação e Jesus ou Aguero no centro do ataque. Mais Yaya Touré chegando de trás.

A missão de entregar um time competitivo, com estilo definido, ofensivo e combinando intensidade e posse de bola começa a ser cumprida. O City está forte. Com ou sem Gabriel Jesus.


Apocalipse de Fábregas é “mimimi” pelo banco no Chelsea e não faz sentido
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André Rocha

Fabregas_Chelsea

“Hoje em dia é mais difícil para um jogador talentoso ter sucesso. Não sou forte a nível físico, não sou o mais rápido, não sou o mais forte, pelo que tenho de tentar estar à frente de outro modo. Sei que para ter sucesso hoje em dia é preciso ser muito forte, correr muito e isso não é fácil. O futebol está a mudar e cada dia que passa vemos menos talento e mais poder físico”.

Palavras de Cesc Fábregas à televisão oficial do Chelsea. Um nítido incômodo por estar na reserva de Matic e Kanté no 3-4-3 de Antonio Conte no time londrino. Uma crítica que se mostra sem sentido na prática. Como se o seu problema fosse o de todos os meio-campistas das principais equipes.

Como se o atual campeão europeu não tivesse Modric, Kroos ou mesmo Casemiro entre os titulares. Ou a recuperação do Manchester City na Premier League não fosse marcada pela efetivação no meio-campo de Yaya Touré, De Bruyne e David Silva. No meio-campo do Barcelona e do Bayern de Munique não há nenhum Kanté.

Tudo depende da proposta de jogo. No Chelsea de Conte, os zagueiros, especialmente David Luiz, são os responsáveis pelos passes longos de trás. Na frente, a criatividade fica por conta de Eden Hazard. Em contragolpes ou trabalhando em pequenos espaços quando os Blues ocupam o campo de ataque.

Com este estilo vertical, não há a necessidade de um meio-campista com características de “regista”, como Pirlo na própria Juventus de Conte, nem o “trequartista”, o meia criativo. Ou seja, não há vaga para Fábregas.

Mas o meia espanhol, antes de partir para a crítica direta, deveria refletir e lembrar que no Barcelona de Guardiola, Xavi e Iniesta, que privilegiava o talento, Fábregas também oscilou e não se firmou como titular absoluto e importante. E o treinador bem que tentou, inclusive tirando Messi da função de “falso nove”.

A equipe caiu de produção e os reveses para o Real Madrid de Mourinho desgastaram Guardiola. Sim, soa cruel responsabilizar Fábregas pela fase sem títulos. Mas, coincidência ou não, a equipe catalã voltou a vencer a Liga dos Campeões e a tríplice coroa exatamente na temporada depois da saída do meia para o Chelsea.

Há espaço para o talento e sempre haverá. Mas sem intensidade e consistência, a qualidade é praticamente inútil. Vide Ganso sem espaço no Sevilla. Fábregas não é tão lento, mas no modelo de jogo do Chelsea tem que aceitar, ao menos por enquanto, em ser uma opção de variação tática.

Sem apocalipse ou”mimimi”. Fica feio.


As cinco chaves da liderança absoluta do Chelsea de Conte no Inglês
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André Rocha

Crédito: Reuters

Crédito: Reuters

A derrota por 3 a 0 para o Arsenal no turno fez Antonio Conte mudar o desenho tático do Chelsea para o 5-4-1/3-4-3 que revolucionou o futebol jogado na Inglaterra e já faz eco em várias partes do mundo.

Os 3 a 1 no Stamford Bridge, ainda que o gol de Giroud no final tenha atrapalhado a devolução do placar clássico, é muito simbólico para a afirmação do melhor time da Premier League com sobras. Ainda mais com o golaço de Cesc Fábregas, ex-Arsenal, encobrindo Petr Cech, ex-Chelsea. Abrindo doze pontos na liderança, ao menos temporariamente.

É a equipe de Courtois, David Luiz, Diego Costa. Do forte trabalho coletivo. Mas a combinação de resultado e desempenho tão consistente tem cinco chaves:

Time adaptável – Em uma liga tão equilibrada como a inglesa é impossível disputar os 90 minutos de todas as partidas com uma mesma proposta de jogo. Em casa contra um time de menor investimento será preciso atacar em massa. Fora de casa diante de um rival direto na disputa do título, o trabalho defensivo é fundamental.

O Chelsea de Conte se comporta bem das duas formas. Defende num 5-4-1, desmembra-se num 3-4-3 quando faz a transição ofensiva. Sabe se instalar no campo de ataque, fazer pressão alta e rodar a bola se necessário, mas também joga de forma rápida, vertical e prática como ninguém hoje na Europa. Um “camaleão” muito duro de ser batido, também por seus personagens e virtudes.

Marcos Alonso – O espanhol tem rara leitura de jogo. Sabe se comportar como lateral e ala e, melhor do que Moses, o atacante adaptado do lado oposto, consegue se infiltrar na área adversária como elemento surpresa. Foi assim no primeiro gol sobre o Arsenal, em lance que derrubou o Bellerín com cotovelada – involuntária para este que escreve.

Defende como lateral fazendo diagonal de cobertura, abre o jogo como ala e aparece na área quando a jogada é criada do lado oposto. Fundamental.

N’Golo Kanté – O campeão Leicester luta para não cair nesta temporada, o Chelsea praticamente com a mesma equipe da temporada passada que não pontuou sequer para jogar a Liga Europa é líder com folga. Não pode ser acaso.

O volante francês é um fenômeno de condição física e leitura de jogo. Corre, desarma, antecipa, intercepta. Enche o meio-campo. Com a bola joga bem simples, o básico sem comprometer. Conduz a bola e entrega para os alas ou para o trio de ataque. Faz a diferença, mesmo sem talento.

Eden Hazard – A chave do sucesso ofensivo. Conte recuperou o craque da Premier League 2014/15 e hoje o belga é o ponta que volta para compor a linha de quatro no meio e quando recupera a bola é a reserva de talento da equipe.

Circula por todo ataque, procura Pedro ou Willian e Diego Costa. Consegue ser organizador, velocista e finalizador quando necessário. Com espaços é capaz de explodir como no golaço que praticamente decidiu o clássico londrino pulverizando o sistema defensivo dos Gunners. Desequilibra.

Sequência sem lesões e com menos jogos- A chave mais importante. Desde a mudança de sistema e afirmação de um time base, a formação se alterou muito pouco. Especialmente na última linha defensiva. No meio, Fábregas no lugar de Matic e Willian na vaga de Pedro e na ausência de Diego Costa.

A ausência nas competições europeias é algo que não se deseja para a imagem e o investimento dos Blues. Mas ajuda a não desgastar nem desviar o foco. Ainda mais em um calendário com duas copas nacionais e o futebol mais intenso do planeta. A proposta de jogo de Conte exige fisicamente e o elenco está voando.Uma grande vantagem em relação aos rivais.


“Declínio técnico”? O Corinthians caiu tanto que precisa de um Drobga
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André Rocha

O nosso Dassler Marques trouxe a informação de que o Corinthians está se movimentando para trazer Didier Drogba. A ação agrada ao departamento de marketing, mas os profissionais do futebol estão resistindo à ideia alegando “declínio técnico”.

Físico também, mas este é óbvio para um jogador que vai completar 39 anos em março. O curioso é o clube que em um ano perdeu praticamente toda a comissão técnica e o elenco campeão brasileiro de 2015, efetivou o técnico Fabio Carille sem a mínima convicção depois da aventura com Oswaldo de Oliveira e que até aqui anunciou para o ataque nomes como Jô, Luidy e Kazim usar critérios técnicos para descartar um atacante que já foi um dos melhores do planeta.

De fato, o marfinense já não tem muito a entregar no mais alto nível do futebol mundial. Mas na MLS, enquanto teve foco, mostrou desempenho: 11 gols em 11 partidas pelo Montreal Impact. Depois quase voltou ao Chelsea, enfrentou problemas com a grama sintética, discutiu com torcedores e se recusou a ficar no banco. Ainda assim marcou dez gols. Só Romero, com 13, foi às redes mais vezes em 2016.

A personalidade forte faz parte do “combo”. Em campo, a equipe precisaria de uma referência de velocidade no ataque pois Drogba já não tem a mobilidade e o vigor de outros tempos. Mas o que Jô produziu desde o título da Libertadores com o Galo em 2013? Passagens sem brilho e conquistas por Al-Shabab e Jiangsu Suning. São nove anos a menos em relação ao avante africano, mas as perspectivas não são tão melhores.

Usar os jovens da base poderia ser solução, mas para quem tem o promissor Maycon para o meio-campo e contrata Fellipe Bastos, o aproveitamento das crias da casa não parece ser prioridade. Só William Pottker, um dos artilheiros do Brasileiro com 14 gols e ainda no radar corintiano, seria um atacante com boas perspectivas de corresponder.

Em um time estruturado, com base sólida e ídolos no auge, de fato o marfinense seria uma peça totalmente descartável. Mas para a nau à deriva que é o Corinthians, fora da Libertadores e até aqui sem notícias muito animadoras para 2017, pode ser nome interessante, dentro e fora de campo. Com parcerias, sem complicar o orçamento e usando com inteligência o potencial de marketing de um astro internacional.

O Corinthians caiu tanto que precisa de um craque, mesmo decadente.

 


David Luiz não é líbero, nem sobra no Chelsea e pode voltar à seleção
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André Rocha

David Luiz Chelsea

Bastou o técnico Antonio Conte utilizar o esquema com três defensores e encaixar David Luiz na zaga do Chelsea para começar a surgir aqui e ali a tese de que o brasileiro está rendendo porque atua protegido como líbero ou zagueiro de sobra.

Nem uma coisa, nem outra. Os Blues se defendem no 5-4-1, com a linha de cinco atrás formada por Moses, Azpilicueta, David Luiz, Cahill e Alonso. Marcam por zona, posicionados. Não é raro observar a equipe ser atacada pelo seu lado esquerdo e Alonso sair no combate, Cahill ficar na cobertura, Azpilicueta e David Luiz guardarem a área e Moses, o ala/ponta aparecer como lateral na diagonal de cobertura. Ou seja, a sobra naquela ação defensiva. O último homem a bloquear o ataque adversário.

De fato, David Luiz vem atuando mais protegido. Inclusive por ele mesmo, sem as saídas tresloucadas da defesa e um sistema de cobertura, tanto para armar o jogo quanto caçar os atacantes na intermediária. Conte usa a rapidez do zagueiro nas recuperações e coberturas e aproveita seu passe longo para acionar os atacantes de forma mais direta e prática.

Mas não é líbero. Para entender melhor é preciso resgatar os conceitos e a história desta função.

O primeiro time que se tem notícia de usar um jogador atrás da linha defensiva foi a Suíça do austríaco Karl Rappan na Copa de 1938, que eliminou a Alemanha de Hitler com seu “ferrolho”, espécie de 5-4-1. A estratégia, junto aos aspectos táticos do “Metodo” de Vittorio Pozzo nos títulos mundiais italianos de 1934 e 1938, formou a base do “Catenaccio” que Nereo Rocco implantou na Triestina, depois Milan nos anos 1940, e Helenio Herrera consagrou na Internazionale bicampeã europeia nos anos 1960.

O raciocínio era simples: em tempos de marcação individual e WM (3-2-2-3), três defensores cuidavam do trio de ataque. Pela direita, o “terzino destro” cuidava do ponta-esquerda, no centro o “stopper” marcava o centroavante e o “terzino sinistro” pegava o ponta-direita. Ou seja, uma vitória pessoal do atacante e só sobrava o goleiro.

O “libero” jogava na sobra da retaguarda. Mas com uma função primordial: aproveitar essa liberdade na construção do jogo. Se cada um pegasse o seu, quem marcaria esse jogador de trás? Era a chance de quebrar o sistema defensivo do adversário.

Apesar da origem italiana e a excelência de nomes como Giovani Trapattoni, Ivano Blason, Armando Picchi, Gaetano Scirea e Franco Baresi, ninguém exerceu melhor a função que um alemão: Franz Beckenbauer. Saiu do meio para estar em todo o campo, na seleção e no Bayern de Munique. Mas inspirado em um outro jogador da Azzurra: Giacinto Facchetti, lateral esquerdo da Internazionale e vice-campeão mundial em 1970.

“Ele marcava bem e atacava ainda melhor quando se projetava à frente, pela lateral. Pensei, então, que atuando atrás dos zagueiros, saindo para o jogo, eu teria a vantagem de atacar pelos dois lados”, lembra o Kaiser (trecho do livro “As Melhores Seleções Estrangeiras de Todos os Tempos”, de Mauro Beting).

David Luiz também não é zagueiro de sobra. Função que se confunde com o líbero no Brasil, especialmente depois da criação do sistema com três zagueiros nos anos 1980. Tempos também de marcação individual. Já que quase todos atuavam com dois atacantes, cada um era vigiado por um defensor e outro sobrava.

Brown na Argentina de Bilardo jogava atrás de Cuciuffo e Ruggeri, só aparecia no ataque em bolas paradas – como no gol da final da Copa de 1986 sobre a Alemanha. Já Morten Olsen na Dinamarca de Sepp Piontek, era o primeiro articulador, iniciando a saída de bola e aparecendo na frente.

Na seleção brasileira da Copa de 1990, com Sebastião Lazaroni, Mauro Galvão era chamado de líbero e, no ano anterior, chegou a ser comparado a Baresi pelas ótimas atuações com a camisa canarinho. Mas atuava na sobra.

“Era uma função diferente. Eu e os outros dois zagueiros tínhamos que cobrir os laterais, então eu não saía muito, ficava mais fixo”, explica o ex-defensor e agora técnico.

Valdir Espinosa, treinador de Galvão no Botafogo, lembra que no time campeão carioca de 1989, depois de 21 anos de jejum, o zagueiro cumpria mais a função de líbero: “No Botafogo ele armava o time de trás e tinha a cobertura do volante Carlos Alberto Santos. Eu repeti naquela equipe o que fiz no Grêmio campeão da Libertadores e Mundial em 1983: Hugo De Leon subia e o volante China ficava. Isso, sim, é ser líbero”.

Outros brasileiros atuaram desta forma, como Marinho Peres, no Barcelona de Rinus Michels e no Internacional de Rubens Minelli nos anos 1970, e Luis Pereira no Palmeiras no mesmo período e no início dos anos 1980. Todos inspirados em Beckenbauer. Marcando e armando o jogo.

David Luiz até cumpre as duas funções, mas em outro sistema, outra dinâmica. Atuando com mesma seriedade e simplicidade, pode voltar à seleção brasileira. Como opção, claro. Se até Thiago Silva precisa esperar sua vez por conta do ótimo momento de Marquinhos e Miranda sob o comando de Tite, imagine quem tem no currículo atuações pluripatéticas, como nos 7 a 1, tentando bancar o heroi, e no empate contra o Uruguai pelas eliminatórias, sofrendo como quase sempre contra Luis Suárez.

No 4-1-4-1 bem executado e com Casemiro na proteção, David Luiz pode simplesmente ser um defensor. Que cresce quando não se arrisca. Como no Chelsea das 12 vitórias seguidas e apenas dois gols sofridos nesta sequência de triunfos. Como sempre deveria ter sido.


Futebol “líquido” e calendário inchado. Esta conta não vai fechar
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André Rocha

gianni infantino

A proposta deste post é cruzar informações para provocar a reflexão.

Está no ótimo blog FastFut, de Celso Miranda, o protesto de Pep Guardiola contra a proposta de Gianni Infantino de aumentar de 32 para 48 o número de seleções na disputa da Copa do Mundo e a confirmação da UEFA, inclusive com divulgação do regulamento, da Liga das Nações: competição envolvendo 55 seleções europeias a ser disputada de quatro em quatro anos a partir de 2018.

E ainda podemos ter a ampliação do Mundial Interclubes para 16 ou 32 times. Sem contar a prática cada vez mais habitual dos clubes de levar os jogadores para períodos de pré-temporada com amistosos e torneios para cumprir os compromissos comerciais de clubes globais.

Com isso, podemos ter as principais estrelas do futebol mundial entrando em campo, dependendo do desempenho de seus clubes e seleções, mais de 80 partidas em uma temporada.

É legítimo pensar que profissionais que faturam milhões e vivem essa rotina por no máximo vinte anos têm mais é que trabalhar muito mesmo. Mas há algo acontecendo em paralelo dentro de campo que será um fator complicador.

Quem traz a ideia à tona é Marti Perarnau, catalão que escreveu “Guardiola Confidencial” e agora lança “Pep Guardiola – La Metamorfosis”.

Segundo a visão do jornalista, corroborada por Paco Seirul lo, ex-preparador físico do Barcelona e agora responsável pela metodologia de treinamento do clube, o Barcelona não seria um time sólido, mas “líquido”.

As aspas estão na coluna de André Kfouri para a Editora Grande Área: “Os líquidos são menos vulneráveis do que os sólidos. Do sólido, pode-se conhecer tudo, inclusive seus pontos débeis. Você golpeia um ponto débil e o quebra. O líquido, não”. Leia o texto completo AQUI.

Líquido tem a ver com fluidez. E para fluir no futebol atual precisa ser jogado de memória, com movimentos mecanizados e numa velocidade cada vez maior. Um jogo mais rápido através de passes e deslocamentos. Sem a bola, reação imediata: “perde e pressiona”. A resposta cada vez mais rápida e intensa.

Esse futebol “líquido”, alucinante já se vê na Premier League e na Bundesliga com o Liverpool de Jurgen Klopp, o Borussia Dortmund de Thomas Tuchel, o Chelsea de Antonio Conte, o surpreendente Leipzig e outros.

O ponto não está na quilometragem percorrida pelos atletas. Não deve ultrapassar os 15 quilômetros por partida. A complexidade é aumentar exponencialmente as ações de alta intensidade. Ou seja, os sprints, a explosão da mudança de comportamento no momento com a bola e, logo após a perda, o pique para abafar a saída do adversário. Também a movimentação, a mudança de direção para fugir da marcação, entre outras.

No último parágrafo, Kfouri aborda a preparação física: “Além dos conceitos avançados e de sua aplicação em treinamentos que devem acompanhar a necessidade de novos objetivos, uma das fronteiras do jogo do futuro é a questão física. O nível de exigência para que jogadores sejam capazes de “liquidificar” times é brutal. Talvez seja por isso que técnicos como Guardiola, Klopp, Tuchel e Antonio Conte sejam obsessivos com a preparação nutricional e o descanso de seus atletas. O futebol líquido exigirá máquinas para processá-lo”.

Descanso. Preocupação dos técnicos com a QUALIDADE do jogo que vai de encontro aos interesses das federações que fazem política e querem aumentar a QUANTIDADE de partidas.

Por isso o protesto de Guardiola, que também quer o seu Manchester City com fluidez no jogo. Para fluir precisa treinar e memorizar. Exercício também mental. Mas como, sendo obrigado a viajar e dividir ainda mais a atenção com as seleções envolvidas em mais competições?

Tudo isso temperado com pressão cada vez maior por resultados. Jogadores milionários e midiáticos não devem ser mimados nem tratados como vítimas. Só que a exigência está desproporcional.

Porque com a evolução do esporte no mais alto nível não há mais a menor chance de usarmos aquela tese de mesa de bar: “Amadores jogam seis peladas por semana e não se cansam”. O futebol “líquido” já está aumentando exponencialmente a distância competitiva entre jogos e brincadeiras entre amigos.

Ou seja, esta conta não vai fechar. Guardiola sugere o aumento do número de substituições para rodar o elenco. Ajudaria, mas não parece o suficiente.

Como será o amanhã? Com clubes se rebelando contra FIFA e UEFA a ponto de partir para a desfiliação, organizando as próprias competições e negociando com mais autonomia a cessão de seus jogadores para as seleções? Difícil prever.

A única certeza é que o cenário que se apresenta com mais jogos cada vez mais intensos fica nebuloso para atletas e, consequentemente, para o espetáculo em si, que precisa de bilheteria e grana da TV. Se jogadores já se arrastam nas disputas de Copa do Mundo, Copa América e Eurocopa logo depois das temporadas europeias, a tendência é piorar.

Porque jogadores não são máquinas. Voltando ao  FastFut, palavras de Guardiola: “Os jogadores não descansam e vivem constantemente sobre pressão, ninguém pode ser saudável e ter um bom desempenho dessa forma.”

Será preciso alguém morrer em campo para que eles enfim sejam a prioridade como protagonistas e não engravatados no conforto de suas salas com ar condicionado? Tomara que não.


O campeão tem sempre razão?
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André Rocha

Renato Gaucho Gremio campeao

Final da Copa do Mundo de 1954 no Estádio Wankdorf em Berna, Suíça. 43 minutos do segundo tempo. A lenda húngara, Ferenc Puskas, mesmo com o tornozelo inchado que quase o tirou da final por uma pancada na goleada por 8 a 3 sobre a mesma Alemanha da decisão, marca o gol que seria do empate.

A arbitragem marca impedimento. Para muitos inexistente, inclusive o saudoso jornalista Luiz Mendes, presente no estádio como único locutor brasileiro. Podia ter evitado o “Milagre de Berna” e quem sabe o que aconteceria depois?

Estádio Sarriá, Barcelona. Último lance de Itália 3×2 Brasil. Jogando pelo empate, a seleção de Telê Santana parte para o abafa derradeiro. Cobrança de falta de Eder, o zagueiro Oscar sobe mais que todos e acerta um golpe de cabeça no canto. Seria o gol da classificação da equipe que encantou o mundo na Copa de 1982.

Não foi por uma das mais impressionantes defesas da história das Copas. A mais incrível sem rebote. Dino Zoff pegou de um jeito inusitado, parando a bola num movimento de cima para baixo e evitou que ela cruzasse a linha e também a chegada de Sócrates e Zico.

Stamford Bridge, maio de 2009. O Chelsea vencia o Barcelona por 1 a 0 e, com o empate sem gols no Camp Nou, se classificaria para a final da Liga dos Campeões não fosse um golaço de Iniesta já nos acréscimos.

Jogo com uma das arbitragens mais polêmicas de todos os tempos, com pelo menos três pênaltis claros não marcados para os Blues, que colocou o time de Guardiola e Messi na decisão do torneio continental que garantiria a tríplice coroa e o início da trajetória de um dos maiores times de todos os tempos.

Três entre tantos exemplos de partidas definidas em detalhes, em fatos aleatórios. Uma bola que separou campeões e derrotados. Que criou ou destruiu legados, fez heróis, mudou a história do esporte.

Corte para 2016. O Grêmio de Renato Gaúcho conquista a Copa do Brasil e encerra um duro período de 15 anos sem títulos nacionais. Campanha sólida, especialmente fora de casa na reta final. Melhor equipe da competição. Incontestável.

Na comemoração, o sempre bravateiro Renato Gaúcho chamou para si todas as atenções ao afirmar: “quem sabe, sabe; quem não sabe vai para a Europa estudar”. Gerou enorme polêmica, mas nem ele deve acreditar nisso. Sem contar que o propósito de estudar e se aperfeiçoar é algo pessoal, de foro íntimo. Uma escolha.

O blog prefere um outro recorte da fala do maior ídolo gremista: “Disseram que estavam trazendo um treinador que estava jogando futevôlei. E agora? E aí?”

Eis o ponto: a taça encerra qualquer discussão? O campeão tem sempre razão? Renato é um fanfarrão desde os tempos de jogador, um personagem sensacional que nunca se levou muito a sério nem devemos dissecar o que ele diz, ainda mais no calor da conquista. Mas vale a reflexão.

E o contexto da base montada pelo trabalho de Roger? E a importância de Valdir Espinosa e outros profissionais? E a prioridade que o Palmeiras deu ao Brasileiro tornando a disputa nas quartas-de-final menos complicada? E a desorganização do Atlético Mineiro com Marcelo Oliveira no jogo de ida da decisão em Belo Horizonte?

Aliás, cabe um parêntese: o técnico mais vencedor do futebol brasileiro nos últimos quatro anos, com dois títulos brasileiros e uma Copa do Brasil, deixou o Galo coberto de críticas e com cinco minutos de jogo em Porto Alegre já foi possível perceber uma equipe com setores mais bem coordenados pelo jovem técnico Diogo Giacomini.

Em um esporte absolutamente imprevisível, por isso tão arrebatador, no qual vitórias e glórias se definem numa bola que bate no travessão e cruza ou não a linha, numa decisão da arbitragem em fração de segundos e em tantos outros mínimos detalhes, o troféu, ainda que seja o objetivo final de qualquer competição, é sempre um argumento sem resposta?

A história mostra que alguns derrotados no placar final colaboraram mais com a evolução do futebol e são mais lembrados que os campeões. Alguns vencedores são até hoje questionados por seus métodos. Multicampeões pragmáticos quando citados nada mais têm a oferecer do que as conquistas. É suficiente?

Renato merece respeito por sua história e faz mesmo jus a uma estátua na Arena do Grêmio. Que vá comemorar com amigos, a filha Carol e curtir as férias. O torcedor mais motivos ainda tem para celebrar, zoar os rivais. Vencer é delicioso e fundamental na formação de novos torcedores. Sem contar a visibilidade, novas receitas e tantas outras coisas.

Mas futebol não é só isso. Nem pode ser. Por isso o post se encerra com trecho de uma reflexão de Marcelo Bielsa no livro “Los 11 caminos ao gol”, de Eduardo Rojas, muito bem resgatada pelo colega Gustavo Carratte no perfil do seu ótimo Conexão Fut no Twitter. Um técnico com um currículo mais recheado de ensinamentos que títulos.

“Na vida há muito mais derrotas que vitórias e é preciso entender isso. Portanto, endeusar alguém que acaba de triunfar, alçando-o a um patamar acima dos demais acaba confundindo quem o vê fazendo isso. As pessoas são indecisas sobre as coisas e quando forem questionadas sobre como alcançar os êxitos elas só saberão que é preciso vencer, sendo incapazes de dizer quais valores cultivar e o que fazer para chegar até lá”.


Cinco na defesa pode ser bom. Bem pior é não querer jogar
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André Rocha

Atlético-MG 0x3 Corinthians. 1º de novembro de 2015. Vitória emblemática que praticamente confirmou o título e uma das atuações mais consistentes, especialmente no segundo tempo, do melhor campeão brasileiro desta década.

Repare na imagem abaixo. A equipe de Tite se posiciona atrás com os quatro defensores da última linha bem próximos e centralizados e os ponteiros Jadson e Malcom recuando e fechando os flancos praticamente como laterais. Neste recorte são seis homens alinhados guardando a meta de Cássio. Não é sinônimo de retranca ou antijogo. Apenas um comportamento sem a bola.

Flagrante do Corinthians de Tite se defendendo com seis homens na última linha diante do Atlético Mineiro no Independência: Fagner, Felipe, Gil e Guilherme Arana mais centralizados, os pontas Jadson e Malcom bloqueando os flancos como laterais (reprodução TV Globo).

Flagrante do Corinthians de Tite se defendendo com seis homens na última linha diante do Atlético Mineiro no Independência: Fagner, Felipe, Gil e Guilherme Arana mais centralizados, os pontas Jadson e Malcom bloqueando os flancos como laterais (reprodução TV Globo).

Nos 3 a 1 do Chelsea de virada sobre o City em Manchester houve um choque geral ao se deparar com as duas equipes atuando no 5-4-1 sem a bola. Principalmente o time de Pep Guardiola, o símbolo do futebol ofensivo e vistoso.

O grande paradoxo é que esta linha de cinco ou seis homens na defesa é uma mera consequência da revolução que o treinador catalão promoveu no esporte nestes últimos oito anos. Porque a essência do jogo posicional é fazer a saída de bola com qualidade para se instalar no campo de ataque.

Com o adversário acuado, trocar passes sempre buscando um homem livre, criando superioridade numérica em todas as fases de construção do jogo. Até encontrar uma brecha no último terço do campo e fazer a infiltração com assistência e movimentação ou no drible, na vitória pessoal.

Qual foi a resposta dos oponentes, primeiro com José Mourinho? Ok, eu não consigo bloquear o toque no meio pela excelência de Busquets, Xavi, Iniesta e Messi recuando como “falso nove”. Então fique com a bola! Chegue a 80% de posse. Toque, toque, toque…Meu time vai concentrar seus esforços em evitar a profundidade. Quatro, até cinco homens negando espaços pelo centro, dois abertos atentos às ultrapassagens dos laterais ou dos pontas.

Com o tempo a ideia foi sendo burilada e surgiu a preocupação de também dificultar o início do processo. Coragem para adiantar linhas e pressionar a saída de bola para evitar o passe limpo e, caso a bola fosse roubada, surpreender uma defesa aberta.

Porque a saída “lavolpiana”, popularizada pelo técnico argentino Ricardo La Volpe na seleção mexicana, é produtiva se bem executada. Uma bola perdida, com seus zagueiros bem abertos, um volante centralizado e os laterais espetados no campo de ataque ou posicionados por dentro como meias, tende a ser um desastre.

O que se viu no sábado no Etihad Stadium foi a exacerbação desta disputa de área a área. Pressionar nos primeiros vinte metros e fechar espaços nos últimos vinte. Por isso os times “mutantes”, variando do 5-4-1 para o 3-4-3.

Um trio de atacantes para abafar os três defensores que fazem a saída de bola. Os alas saem para bloquear os laterais e os dois meio-campistas avançam para fechar o meio. Se o adversário consegue sair dessa pressão, a missão é dificultar, até mesmo com faltas, a transição rápida para que haja tempo do time se reorganizar em duas linhas, uma de cinco e uma de quatro, para guardar a própria área. Defende preparando o ataque e ataca pronto para defender.

Flagrante da linha de cinco defensores do Chelsea postada. O ala esquerdo Alonso fecha seu lado como lateral e Moses faz a diagonal de cobertura do outro lado, dando suporte a Azpilicueta, David Luiz e Cahill (reprodução ESPN Brasil).

Flagrante da linha de cinco defensores do Chelsea postada. O ala esquerdo Alonso fecha seu lado como lateral e Moses faz a diagonal de cobertura do outro lado, dando suporte a Azpilicueta, David Luiz e Cahill para negar espaços ao ataque do Manchester City (reprodução ESPN Brasil).

Mas sempre querendo jogo, sem especulação. Os Blues venceram porque estão mais habituados a este modelo e, principalmente, porque aproveitaram as oportunidades criadas. Mas podiam ter sido superados se Aguero e De Bruyne não tivessem perdido chances cristalinas. A disputa foi igual, mas Diego Costa, Willian e Hazard resolveram.

O Chelsea é lider da Premier League por sua versatilidade e capacidade de aproveitar o que tem de melhor. Azpilicueta é o zagueiro pela direita, mas se o time precisa ser ofensivo ele vira lateral, sua posição de origem, e adianta o ala Moses como ponta. O movimento libera Pedro ou Willian para sair do lado e circular, buscando as diagonais.

A utilização dos alas tem a sua lógica. Se a ideia é que um dos ponteiros seja um armador para desarticular a marcação e o outro seja praticamente um atacante se juntando ao centroavante, o ideal é que esses homens estejam mais liberados para circular, procurar o centro. Cabe aos alas ficarem abertos para espaçar a marcação e criar espaços.

O polêmico David Luiz rende porque o técnico italiano cobra posicionamento preciso e ele não sai como um tresloucado para caçar os atacantes na intermediária. E ainda aproveita o que tem de melhor: o passe longo. Conte não faz questão de ficar muito tempo com a bola entre as intermediárias. Prefere investir em lançamentos.

Não chutões. Algo treinado, pensado e aprimorado. Desde a Juventus com Bonucci e Pirlo, agora com David Luiz e Fábregas, que jogou no lugar de Matic e meteu uma bola de trinta metros para Diego Costa ganhar de Otamendi e empatar em Manchester. Um jogaço.

Porque a ideia dos cinco defensores é bem diferente da que vigorou no final dos anos 1980 e chegou ao fundo do poço na Copa de 1990 na Itália. A “inversão da pirâmide” que o jornalista inglês Jonathan Wilson tão bem explica em seu livro que agora recebe uma tradução para o português pelas mãos de André Kfouri para a Editora Grande Área.

Do 2-3-5 para o 5-3-2. Mas lá atrás privilegiando o antijogo. Inspirado nas vitórias da Itália de 1982, com Scirea de líbero e Gentile colado no craque adversário, e da Argentina em 1986, com Brown na sobra e Batista como o cão de guarda à frente da defesa, o campo virou uma grande batalha de perseguições individuais: um zagueiro na sobra, ala batendo com ala e muitas ligações diretas para que, enquanto a bola viajava, os times se reorganizassem minimamente depois de marcar correndo e não posicionado.

Se alguém fizesse um gol o jogo virava uma modorrenta sequência de passes entre os três zagueiros e bolas recuadas para os goleiros, que esperavam a chegada do atacante adversário e seguravam com as mãos – na época a regra permitia.

Uma época cinzenta que só via brilho com o Milan de Arrigo Sacchi. Marcando por zona, com setores próximos, fazendo o “pressing” e valorizando a técnica, especialmente da dupla holandesa Gullit-Van Basten no ataque. Uma das inspirações de Guardiola.

Hoje, com linhas tão compactas a diferença entre quatro ou cinco na defesa é nenhuma. Vale mais a proposta de jogo. Como dizer que a vitória do Chelsea foi “feia” e a do Brasil sobre a Argentina no Mineirão foi um “espetáculo” se as ideias foram bem parecidas? Reveja o segundo gol, de Neymar. Transição rápida e letal como as que o Chelsea fez. O City também, só não conseguiu colocar nas redes.

Bem pior é não querer jogar. É o pragmatismo focado apenas no resultado, que busca os três pontos sem grandes ideias além de fazer tudo para evitar o gol do rival e buscar o seu através de bolas paradas, jogadas aéreas. Uma vez conquistada a vantagem o jogo acaba porque não há confronto de ideias ou de propostas. Só há o placar final. Legítimo e eficiente, mas o que acrescenta?

Não foi o que vimos em Manchester nem em outras partidas com equipes atuando com cinco na defesa. Nem nos seis corintianos no Horto há pouco mais de um ano. Porque os times mais modernos são dinâmicos, adaptáveis. Inteligentes. Sem abrir mão da técnica, do jogar bem. A vitória é mera consequência.

 


A diferença entre jogar bem e jogar bonito
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André Rocha

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Este que escreve sempre deu preferência ao bom futebol que a seu time de coração. A ponto de fazer algo que muitos condenariam eternamente: assistir a um clássico na torcida do rival e desejando a vitória deste por ter um time fantástico e muito superior ao que representava suas cores.

Mas também sempre soube respeitar e admirar quem tinha uma proposta de jogo mais pragmática, porém bem executada. Impossível esquecer a doce rotina no final de 1984: acompanhar o histórico Hellas Verona de Briegel, Pietro Fanna e Elkjaer, campeão italiano naquela temporada transmitida pela Rede Globo e depois ir ao Maracanã ver o Fluminense de Romerito, Branco, Ricardo Gomes, Deley e o “Casal 20” Washington & Assis. Campeão brasileiro e carioca naquele ano.

Tempos em que o futebol era a única preocupação e a paixão maior. O amor pelo esporte está intacto. E o respeito por quem joga bem.

Jogar bem não é necessariamente apresentar um futebol vistoso, ofensivo, com jogadas técnicas exuberantes. É ter uma proposta, ainda que reativa e baseada mais na solidez defensiva, e colocar em prática de modo que seu time sempre pareça mais próximo da vitória.

Ameaçando o adversário constantemente e correndo poucos riscos. Sem apelar para faltas sem a bola e um jogo aleatório demais, com seguidos cruzamentos quando o oponente está postado na defesa porque faltam ideias.

Na Europa hoje há dois exemplos, longe dos óbvios Barcelona, Real Madrid, Bayern de Munique e agora o Manchester City, por ter Pepe Guardiola no comando.

O Atlético de Madrid de Simeone vai aprimorando seu modelo de jogo. Mantém a solidez defensiva, a forte compactação dos setores no trabalho defensivo. Porém investe mais em qualidade na frente. Nos 4 a 2 sobre o Málaga, Griezmann e Gameiro na frente, Nico Gaitán e Carrasco nas pontas e ainda Saúl Ñiguez na linha do meio-campo.

Um pouco mais de posse e criatividade, ao menos diante de equipes de menor investimento. Antes o recurso único nos momentos difíceis era a bola alta para Godín. Uma ressalva ao enorme mérito de encarar os gigantes espanhois e continentais. Agora foi às redes 25 vezes em dez partidas no Espanhol, só atrás dos ataques BBC e MSN.

O outro é o Chelsea, em reconstrução com Antonio Conte. Fora das competições europeias, o técnico italiano tem mais tempo para implantar sua filosofia que se baseia em três defensores, mas não é tão reativa. Gosta da bola, quando possível.

Quatro vitórias seguidas que fizeram os Blues colarem nos líderes. Num 3-4-3 funcional e “mutante”. Porque conta com Azpilicueta como um zagueiro pela direita que forma muitas vezes uma linha de quatro com David Luiz, Cahill e Alonso, que é mais lateral que ala.

Ao contrário de Moses, que tem como função abrir bem o jogo à direita para esgarçar a marcação adversária e abrir espaços para as diagonais de Pedro, que procura Diego Costa e Hazard, que é o articulador de fato da equipe que conta com Matic e Kanté na proteção.

Equipe de transição rápida, mas que valoriza a precisão nos passes. Bem ao estilo de Conte, que com a Itália deu espetáculo na última Eurocopa quando eliminou a então bicampeã Espanha e só parou nos pênaltis após disputa equilibrada com a Alemanha campeã mundial.

Nos 4 a 0 sobre o Manchester United, uma grande atuação dentro do seu plano. Jogou muito bem. Sem a posse do Barcelona de Guardiola nem a beleza estética dos contragolpes do Arsenal campeão inglês invicto em 2003/2004.

No Brasil há uma visão simplista de que se venceu é porque jogou bem. Um foco desmedido no resultado sem perceber que se a produção cai uma hora a derrota vem. E torna qualquer conquista esquecível a longo prazo. Só serve para calar o rival de qualquer provocação se encerra um período sem conquistas relevantes.

É pouco. Por isso a exigência de jogar bem. Por isso o imenso respeito às cores e às tradições do Palmeiras que não pode se contentar apenas com a taça. Até porque já venceu a Copa do Brasil entregando um futebol ruim. Todo o investimento e toda a paixão da torcida que lota o Allianz Parque não merecem só isso.

Talvez haja até um ou outro exagero neste blog, mas é por conta da noite não dormida depois dos 7 a 1 e a promessa de que, onde estivesse, seria uma trincheira de defesa do bom futebol. Não necessariamente belo, mas bem jogado.

Nunca mais o culto à mediocridade! Nunca mais “o importante são os três pontos”! Nunca mais o “quer espetáculo? Vá ao teatro!” Nunca mais as frases que levaram todos nós ao maior vexame da história do futebol brasileiro. Minha paixão desde a infância e que não morre.