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É triste ver José Mourinho parado no tempo
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André Rocha

Foto: Lee Smith/Reuters

José Mourinho foi indiscutivelmente e com alguma sobra o melhor treinador do mundo de 2004 a 2010. O grande divulgador da periodização tática – resumindo bastante, uma metodologia em que todos os treinamentos, até os físicos, contribuem para a construção e manutenção de um modelo de jogo.

Nos tempos de Chelsea, em que os números do sistema tático eram mais valorizados e debatidos, o português afirmava em entrevistas que o 4-3-3 e o 4-3-1-2 eram os que melhor distribuíam os jogadores em campo. Mas na Internazionale mudou para o 4-2-3-1 e ganhou a tríplice coroa em 2009/10. Seu maior mérito era formar equipes intensas, com a coordenação quase perfeita entre os setores, linhas compactas e muito rápidas nas transições ofensiva e defensiva.

Nos  bastidores, seus “jogos mentais” que começavam na coletiva da véspera ou antevéspera de uma partida decisiva tiravam o foco e a pressão de seus jogadores, pilhavam os adversários e suas equipes, mais concentradas, quase sempre levavam vantagem também no aspecto emocional. Assim venceu Arsene Wenger, Alex Ferguson, Rafa Benítez e tantos outros, também colecionando inimizades.

Quando desafiado por Pep Guardiola, o outro grande expoente dos últimos 15 anos, radicalizou no trabalho defensivo, montou uma linha de handebol guardando a própria área e talvez tenha influenciado mais o futebol jogado no mundo que o rival catalão. Afinal, é mais fácil vermos equipes colocando em prática essa compactação defensiva do que o complexo jogo de posição. Na última Copa do Mundo ficou bem nítido.

Por tudo isso é muito triste ver Mourinho parado no tempo. Seu Manchester United é chato de ver jogar. Lento na circulação da bola, pouco intenso na pressão pós perda, sem ideias. Um elenco milionário que vive essencialmente de lampejos de Pogba e das vitórias pessoais de Lukaku contra a defesa adversária em bolas longas ou jogadas aéreas. Os movimentos em diagonal dos ponteiros – seja Rashford, Martial, Lingard ou Alexis Sánchez – são previsíveis. Só há alguma criatividade ou movimento quando joga Juan Mata, que não consegue manter uma consistência nas atuações. Há qualidade no meio com Fred e Andreas Pereira, mas Mourinho insiste com Fellaini…

Para complicar, o treinador repete em sua terceira temporada um fenômeno que vem desde o Real Madrid em 2012/13: exaure seus atletas mentalmente e desgasta a gestão de grupo com cobranças exageradas, muitas vezes públicas. Elege inimigos no vestiário, pressiona as estrelas com a intenção de desafiá-las e extrair melhor rendimento. Não funciona e ele insiste no erro.

A impressão que passa é de que Mourinho não conseguiu se livrar do personagem. O malvado, o “lado negro da força”, o expoente máximo do futebol pragmático. Ou seja, o anti-Guardiola. É como se obrigasse a ser a antítese do futebol ofensivo.

Sem notar que mesmo o treinador que comanda o rival dos Red Devils em Manchester vem mudando o seu estilo. Saindo de um extremo e vindo para o meio. Compreendendo que o futebol atual exige equipes versáteis e inteligentes. Que jogem por demanda, se adaptem a qualquer cenário.

O raciocínio é lógico: um grande time, com camisa pesada e tradição, terá que ser ofensivo na maioria das partidas. Afinal, o número de clubes de menor investimento e envergadura sempre será maior dentro de um campeonato. Até na Liga dos Campeões. Então a equipe precisa saber trabalhar a bola para criar espaços em sistemas defensivos cada vez mais organizados e fechados. Mas também deve estar preparada para jogar com transições ofensivas rápidas e matar o adversário nos contragolpes. Ou nas bolas paradas.

Assim Jupp Heynckes levou o Bayern de Munique à tríplice coroa em 2012/13 e o Real Madrid se consagrou com Carlo Ancelotti e depois Zinedine Zidane. Diego Simeone vai tentando adaptar o seu estilo a essa nova realidade no Atlético de Madrid. O mesmo com Jurgen Klopp no Liverpool. Cada um à sua maneira. Até o City de Guardiola busca definir as jogadas de maneira mais rápida, utiliza mais os contra-ataques e a bola parada.

Mourinho segue agarrado às suas convicções. Parece não aprender com as críticas dentro e fora do clube. Sua equipe não evolui nem encontra soluções. Como tem qualidade no elenco consegue se manter competitivo. Mas sem o salto não chega ao topo. Para um clube que disputa com Barcelona e Real Madrid o posto de mais rico do planeta é muito pouco.

Para quem foca tanto em resultados este início de temporada é decepcionante. Derrota para o Tottenham por 3 a 0, empate com o Wolverhampton, eliminação vexatória na Copa da Liga Inglesa para o Derby County e empate sem gols em casa pela Liga dos Campeões contra o Valencia, perdendo a liderança do Grupo H. É apenas o décimo colocado da Premier League.

Mourinho não repete escalação há 43 partidas. Parece perdido, embora tente manter a imagem de líder frio e inabalável. A pergunta é até quando o Manchester United será capaz de suportar. A julgar pelas vaias da torcida e críticas de ídolos do clube, o futuro não parece tão promissor.

 


Empate entre a força do elenco do Liverpool e o Chelsea pragmático de Sarri
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André Rocha

Maurizio Sarri não fez o Chelsea voltar a utilizar a linha de cinco na defesa dos tempos de Antonio Conte, especialmente na conquista do título inglês na temporada 2016/17, para encarar o lider Liverpool, então com 100% de aproveitamento na Premier League.

Os Blues atuaram no habitual 4-3-3 dentro do Stamford Bridge, com Jorginho “regista” protegido por Kanté e Kovacic. Valorizando a posse de bola, mas com cuidados defensivos condizentes com a qualidade e o volume de jogo do adversário.

Porque a equipe de Jurgen Klopp domina o jogo pela pressão no campo do oponente, controle dos rebotes e por finalizar muito dentro do seu estilo de definir rapidamente as jogadas, acelerando em busca do tridente Salah-Firmino-Mané. Sempre um perigo, mesmo com a atuação sem brilho do atacante egípcio, que perdeu chance cristalina no primeiro tempo e mais tarde deu lugar a Shaqiri. Suíço que perdeu gol feito na segunda etapa.

Hazard também perdeu, ao receber de Kanté, disparar livre, mas ter o ângulo da finalização fechado pelo goleiro Alisson. No primeiro tempo, porém, o camisa dez belga concluiu com precisão num chute cruzado em rápida transição ofensiva que começou com um “tapa” dele mesmo, passe de Jorginho para Kovacic, que encontrou Hazard na frente. De novo desequilibrante.

O time da casa recolheu as linhas, teve apenas 47% de posse e nove finalizações – quatro no alvo. Tentou acelerar contragolpes com Moses na vaga de Willian, que também perdeu boas chances em contra-ataques, Morata no lugar de Giroud e ainda Barkley substituindo Kovacic. Marcos Alonso, sempre ofensivo, só pisou na área dos Reds em bolas paradas.

O Liverpool com a fome de sempre, em qualquer campo. Klopp ainda trocou Henderson e Milner por Keita e Sturridge. Uma mostra da força do elenco que o treinador alemão não ostentava na temporada passada. Fez o goleiro Kepa trabalhar e David Luiz salvar sobre a linha cabeçada de Firmino.

Intimidou os donos da casa com autoridade até o golaço de Sturridge, encobrindo Kepa. Ao menos para manter a invencibilidade na liga, comprovar a força e se redimir da derrota na Copa da Liga Inglesa por 2 a 1. Um ponto precioso em sequência complicada que terá Napoli fora de casa pela Liga dos Campeões e o duelo com o Manchester City de Guardiola, o novo/velho líder pelo saldo de gols, em Anfield Road.

O Chelsea tentou ser mais pragmático. Ou não teve outra opção. Podia ter resolvido o jogo, mas pelo valor do rival não pode tratar o empate como dois pontos perdidos. Longe disso.

(Estatísticas: BBC)


Classe de Jorginho no Chelsea de Sarri mostra o tamanho do vacilo de Tite
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André Rocha

Não foi surpresa para quem acompanhava  o Napoli comandado por Maurizio Sarri, que só não venceu o Italiano porque existe a Juventus. Na estreia pelo Chelsea na Premier League, o ítalo-brasileiro Jorginho ditou o ritmo no meio-campo atuando fixo à frente da defesa e ainda marcou o segundo gol sobre o Huddersfield cobrando pênalti.

O primeiro da vitória por 3 a 0 fora de casa foi de Kanté, jogando como meia pela direita no 4-3-3. Pisando na área adversária para finalizar bela jogada pela esquerda de Willian, já que Hazard, voltando de férias, começou no banco de reservas. Entrou na vaga do brasileiro e num rápido contragolpe serviu Pedro para fechar o placar.

Para quem viu o Milan da “árvore de Natal” de Carlo Ancelotti e com Kaká no auge vai lembrar de Pirlo armando o jogo de trás e Gattuso e Ambrosini marcando por ele para que o “regista” recebesse a bola limpa. É a mesma lógica com Jorginho, Kanté e Barkley. O primeiro é o que pensa. Com classe e inteligência.

Ainda que a dinâmica do futebol atual, especialmente o inglês, não garanta tanta liberdade para os jogadores mais recuados. Há muito mais pressão, no campo todo. O Chelsea de Sarri teve alguns problemas para transformar a posse de bola (64%) em infiltrações.

Subiu de três finalizações para doze,  quatro no alvo, na segunda etapa com mais espaços para os contragolpes. Mas ainda precisa se adaptar ao jogo de transições, bate-volta na Inglaterra. Para uma estreia como visitante, porém, já foi bem interessante. Inclusive para o goleiro Kepa, milionária reposição a Courtois. David Luiz também foi bem na última linha defensiva, agora com quatro homens. Mais responsável no balanço defensivo.

Tudo no ritmo de Jorginho. O volante que pensa e passa. Que o futebol brasileiro não vinha produzindo até Arthur. O novo camisa cinco dos Blues foi moldado na Itália. Mesmo antenado e atento ao que acontece nas principais ligas europeias, Tite demorou a perceber. Quando notou, ele já estava identificado com o futebol italiano e percebeu mais chances de ser titular na Azzurra. Mesmo ficando fora da Copa do Mundo. Um vacilo sem tamanho do treinador da CBF e sua comissão técnica.

Não que a seleção possa abrir mão de Casemiro, mas seria possível compor, adaptar. Bastava demonstrar interesse real de contar com ele entre os convocados com regularidade. Não deu tempo. Como atenuante para Tite, o fato de assumir com dois anos de atraso e gastar um ano para colocar o Brasil na Copa e outro para se colocar como uma seleção competitiva em alto nível. Sem muitas brechas para experiências.

Seja como for, a boa atuação no Chelsea é a prova de que adaptação rápida não é problema para Jorginho. Desfrutemos então de sua classe pela TV no futebol europeu. É o que resta.

(Estatísticas: BBC)

 


Messi, CR7 e Champions são “culpados” pela disparidade nas ligas europeias
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André Rocha

Foto: Sergio Perez / Agência Reuters

O Bayern de Munique garantiu o sexto título consecutivo da Bundesliga, conquista inédita, com cinco rodadas de antecedência. Na França, o Paris Saint-Germain retomou do Monaco a hegemonia também disparando e confirmando matematicamente faltando cinco rodadas. A Juventus na Itália teve mais dificuldades, porém superou o Napoli e faturou o heptacampeonato nacional.

Na Premier League há maior alternância de poder, mas o Manchester City de Pep Guardiola liderou de ponta a ponta e empilhou recordes: chegou aos 100 pontos em 38 jogos e ainda fez história com mais vitórias (32), triunfos consecutivos (18), gols marcados (105), saldo (+79) e os 19 pontos de vantagem sobre o segundo colocado.

Se somarmos tudo isso ao domínio do Barcelona nesta edição da liga espanhola, com a invencibilidade perdida apenas na penúltima rodada com vários reservas e uma atuação desastrosa do colombiano Yerri Mina nos 5 a 4 do Levante. mas título confirmado faltando quatro jogos, temos um cenário em que as principais ligas da Europa não reservaram disputas mais acirradas.

A senha para os disseminadores do “ódio ao futebol moderno”, muitos confundindo equilíbrio com qualidade, protestassem contra este cenário em que, para eles, apenas a disparidade econômica justifica essa vantagem dos campeões.

O grande equívoco é desprezar a enorme competência e know-how desses clubes. O Bayern ostenta a melhor geração de sua história ao lado da de Beckenbauer, Gerd Muller e Sepp Maier nos anos 1970. O mesmo vale para a Juventus. O PSG nem há como comparar e no caso do Manchester City há um retrospecto de conquistas na década, mas principalmente a presença do “rei das ligas” Guardiola, com sete conquistas em nove temporadas por três clubes e países diferentes.

Sem contar Barcelona e Real Madrid com os grandes times de sua história. E os maiores jogadores de todos os tempos nos dois clubes. Competindo na mesma época. Eis a chave para todo este cenário.

Messi e Cristiano Ronaldo venceram as quatro últimas edições da Liga dos Campeões. Se considerarmos desde 2007/08, dez anos, são sete: Manchester United com uma, Barcelona e Real Madrid com três. E os merengues em mais uma decisão podendo ampliar este retrospecto.

Em tempos recentes nunca houve nada parecido. Um fenômeno que subiu o patamar da Champions para níveis estratosféricos. De interesse, inclusive, pela sedução de se medir entre grandes da história. Com isso, o sarrafo foi parar no topo. Para desafiá-los é preciso estar em um nível de excelência em desempenho. Em todos os aspectos – físico, técnico, tático, mental, logística…

Resta aos desafiantes investir. Em elenco, comissões técnicas, estrutura…Internazionale, Chelsea e Bayern de Munique conseguiram superá-los, com os alemães ainda acumulando dois vices e os ingleses um. Manchester United, ainda com CR7, Borussia Dortmund, Juventus e Atlético de Madri chegaram às decisões, mas não conseguiram equilibrar forças em jogo único. PSG e City seguem lutando para furar a casca e entrar no grupo de clubes mais tradicionais. O Liverpool, finalista depois de onze anos, tenta voltar à elite. Mas não é fácil.

Com esse nível tão alto, quem não consegue acompanhar vai perdendo o bonde da história. E os gigantes trabalham para ficar cada vez melhores de olho no principal torneio de clubes, dominado por Messi e Cristiano Ronaldo com seus históricos Barcelona e Real Madrid, mesmo com o time blaugrana de fora das últimas três semifinais.

Como consequência sobram em seus países. Elenco numerosos, estruturas fantásticas, ótimas comissões técnicas. Nos casos específicos de Bayern de Munique e Juventus, os títulos consecutivos acontecem também porque não há como se acomodar com as conquistas nacionais. Não são a prioridade. Então mesmo sobrando os processos são revistos e aprimorados, o elenco ainda mais qualificado. O time que está ganhando se mexe e fica ainda melhor. Pensando em Barça e Real Madrid.

Mas não basta só dinheiro. Ou o Borussia Dortmund de Jurgen Klopp não seria bicampeonato alemão de 2010 a 2012, o Atlético de Madri não teria superado os gigantes na Espanha em 2014. O mesmo com o Monaco contra o PSG na temporada passada e, caso a Juve não tivesse deixado a Champions ainda nas quartas eliminada pelo Real Madrid e dividisse esforços por mais tempo, o Napoli poderia ter fôlego para terminar na frente. Sem contar o fenômeno Leicester City na liga mais valiosa do mundo em 2015/16. Se não jogar muito não vence. A tese do “piloto automático” é furada.

Mais do que nunca o futebol no mais alto nível exige superação constante. Com regularidade, consistência. “Culpa” de Messi, Cristiano Ronaldo e da Liga dos Campeões que levam o esporte para outra galáxia. Ainda bem que estamos vivos para ver a história sendo escrita. E até os que hoje reclamam vão sentir saudades, mesmo que não admitam.

 

 


Real Madrid se sai melhor que o Liverpool nos clássicos antes de Kiev
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André Rocha

Havia muito em jogo para Real Madrid e Liverpool contra Barcelona e Chelsea, respectivamente, na reta final das ligas nacionais, impedindo que os times pudessem se dedicar exclusivamente à final da Liga dos Campeões no dia 26 em Kiev.

Para os Reds era a chance de confirmar a vaga na próxima edição do principal torneio do continente. No Stamford Bridge contra um adversário direto na Premier League. Já o time merengue entraria no Camp Nou com a missão de impedir o título espanhol invicto do rival Barcelona e ainda “carimbar” a despedida de Iniesta do clássico.

Tirando tudo que foi desnecessário no duelo entre os últimos campeões espanhois e europeus, desde o Real se recusando a recepcionar em campo o adversário que confirmou a conquista na rodada anterior até as brigas, chutes e pontapés que tiraram muito da beleza de um jogo sempre especial, não é absurdo dizer que a equipe de Zinedine Zidane deu mais uma demonstração de força.

Por iniciar pressionado pela dupla Messi-Suárez mais acesa que o habitual e pelo gol do uruguaio logo aos nove minutos em saída rápida bem engendrada com assistência de Sergi Roberto. Mas responder rapidamente com jogada coletiva ainda mais bela: calcanhar de Cristiano Ronaldo para Kroos, centro do alemão para Benzema preparar e o gênio português finalizar a obra que iniciou. O 25º do vice artilheiro da competição.

Real com uma “velha novidade” de Zidane: o trio “BBC”, fazendo a variação do 4-3-3 para as duas linhas de quatro sem a bola com o recuo de Gareth Bale pela direita. Na transição ofensiva, muita movimentação dos três, enchendo mais a área adversária. Ao menos por 45 minutos, já que Cristiano Ronaldo, por precaução, teve que sair no intervalo, substituído por Asensio.

Não só porque sentiu uma entrada dura, aparentemente maldosa, de Piqué justamente no lance do gol que empatou a disputa. Também por conta da pancadaria que tomou conta do jogo, muito mal conduzido pelo árbitro Alejandro José Hernandez, que culminou na expulsão de Sergi Roberto, que ingenuamente agrediu Marcelo na frente do juiz.

Desta vez o Real pode reclamar muito das decisões da arbitragem. Principalmente pela falta clara de Suárez na disputa com Varane que terminou no golaço de Messi quanto na falta dentro da área do Barça não menos nítida de Jordi Alba em Marcelo. Podia ter mudado o clássico e complicado a vida e a invencibilidade do time da casa muito mais que o golaço de Bale, completando assistência de Asensio. Foram 17 finalizações contra 11 do time blaugrana.

Mesmo com os 2 a 2, a força mental e a cultura de vitória se fizeram presentes. O desempenho geral também foi satisfatório. Confirmando algo que já virou senso comum: é difícil superar este Real Madrid em jogo grande.

O Liverpool também costuma crescer neste tipo de confronto, mas não foi o caso do duelo em Londres. Porque o time de Jurgen Klopp, ainda que mantenha a proposta ofensiva longe do Anfield Road, não consegue reproduzir o “arrastão” num ciclo de pressão pós-perda, acelerar a circulação da bola e acionar o seu trio de ataque.

Salah, Firmino e Mané também pagam um pouco o preço do sucesso e da visibilidade. Estão mais estudados e, consequentemente, vigiados em campo. Ainda mais contra o time de Antonio Conte com sua linha de cinco defensores e mais Kanté e Bakayoko na proteção.

Deram algum trabalho ao goleiro Courtois na primeira etapa, mas nos minutos finais apelaram para os muitos cruzamentos procurando Solanke, que entrou na vaga do lateral esquerdo Robertson, e o zagueiro Van Dijk, que se transformou em um segundo centroavante. Sem ideias, sem brilho. Os torcedores podem até desdenhar, mas quando os espaços diminuem o fato é que Philippe Coutinho faz muita falta aos Reds.

Assim como a equipe se ressente de uma maior solidez defensiva, especialmente pelo alto. No centro da direita, Giroud subiu mais que Lovren para marcar o gol único do duelo, ainda no primeiro tempo. Na ausência do lesionado Oxlade-Chamberlain, Klopp deixou Henderson no banco e arriscou uma formação com Alexander-Arnold formando o meio-campo com Wijnaldum e Milner e Clyne entrando na lateral direita. Podia ter sido melhor.

Apesar dos 68% de posse, foram apenas dez finalizações dos visitantes contra 12 dos Blues, que também foram superiores em desarmes e no jogo aéreo. Resultado coerente com o que foi a partida disputada com a intensidade típica do Campeonato Inglês.

Agora é obrigatório vencer o Brighton em Anfield para chegar aos 75 pontos e garantir ao menos a quarta colocação. A menos que venha a apoteose na Ucrânia com o sexto título da Champions. Depois de onze anos sem chegar a uma decisão e treze da última conquista.

Missão que já era complicada por enfrentar o atual bicampeão e maior vencedor da história. Depois dos clássicos fica a impressão de que a tarefa ficou ainda mais difícil.

(Estatísticas: Whoscored.com)

 


O que é Lionel Messi?
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André Rocha

O Chelsea de Antonio Conte fez o que pôde. Lutou, executou bem a transição do 5-4-1 sem a bola para o 3-4-3 para o ataque, muitas vezes empurrou as linhas do Barcelona para trás no Camp Nou. Criou chances, pode reclamar de um pênalti de Piqué sobre Marcos Alonso no primeiro tempo e lamentar a falta de concentração no início do jogo.

Mas o que fazer quando Messi entra em campo descansado, depois de 10 dias sem jogar, motivado pelo nascimento do terceiro filho e, por isto, inspirado como poucas vezes se viu?

Ernesto Valverde ajudou escalando Dembelé de início e voltando à sua ideia do início da temporada: 4-4-2 com o atacante abrindo o campo pela direita e Jordi Alba fazendo o mesmo à esquerda contando com a cobertura de Umtiti. Sergi Roberto mais contido na lateral direita e Busquets mais fixo na proteção. Peças mais bem distribuídas em campo, características combinadas de um modo mais justo.

E mais espaço para Messi circular. Pela direita para marcar o primeiro depois de passe de Suárez e do lado oposto para a fantástica arrancada ganhando de Fábregas, driblando Christensen e Azpilicueta para servir Dembelé no segundo. Também o terceiro em transição rápida e novo passe de Suárez. Dois chutes entre as pernas de Courtois.

Um gol logo aos três minutos para descomplicar, outros dois em saídas rápidas. Típico do Barcelona mais pragmático que controlou o jogo com a bola – terminou com 53% de posse e 86% de efetividade nos passes –  e concentrado defensivamente para não facilitar a vida dos Blues nem cair na armadilha de outras eliminações: ter a posse e ser surpreendido nos espaços às costas da defesa.

Foram oito finalizações, sete no alvo. Três nas redes. O Chelsea tentou treze vezes e acertou duas. Duas nas traves de Ter Stegen. 3 a 0 foi cruel. Mas o Barcelona foi letal.

Mantém a escola, porém foca mais no resultado. Organização defensiva, inteligência…e bola para Messi. 100 gols na Liga dos Campeões. Arte, objetividade. Construção e acabamento. O argentino tem domínio de todos os processos de um jogo.

A pergunta não é mais quem é Lionel Messi, mas o que é esse gênio da história do futebol.

(Estatísticas: Footstats)


Gols de Willian e Messi mostram que planos de Chelsea e Barça deram errado
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André Rocha

Desde que as bolinhas apontaram mais um confronto Chelsea x Barcelona pela Liga dos Campeões, o cenário previsto era claro e lógico: time catalão com a bola e a equipe londrina fechada e saindo em velocidade explorando os espaços às costas da adiantada defesa do rival. Com a afirmação de um Barça mais pragmático na Espanha e a necessidade de uma vitória dos Blues no Stamford Bridge para resgatar a confiança abalada imaginou-se uma alteração nas propostas das equipes.

Ledo engano. Tão logo rolou a bola o Barcelona se instalou no campo de ataque, girando e tocando em busca de um espaço para Messi entre as linhas do 5-4-1 montado por Antonio Conte. Paulinho voltava pela direita no 4-4-1-1 habitual de Ernesto Valverde, mas atacava por dentro tentando criar superioridade numérica no meio e sobrecarregar Kante e Fábregas no cerco a Messi.

O volante-meia brasileiro só apareceu numa cabeçada completando centro de Messi pela esquerda. Uma das três finalizações do Barça na primeira etapa, nenhuma no alvo. Mesmo com 90% de aproveitamento nos passes. O Chelsea concluiu o dobro. Uma na direção da meta de Ter Stegen e dois chutes de Willian nas traves.

Tudo isso com 29% do tempo com a bola. E a curiosidade: mesmo com uma formação moldada para os contragolpes com Hazard no centro do ataque, Willian e Pedro nas pontas e sem uma referência na frente, o time de Conte foi mais envolvente e perigoso atacando em bloco.

Abriu o placar na segunda etapa com uma marca do Barça de outros tempos, principalmente da Era Guardiola: escanteio curto. Hazard encontrou Willian livre na entrada da área e na terceira tentativa ele não falhou. Falha primária do sistema defensivo do time visitante que é montado para atacar, ter a bola e roubá-la na pressão no campo adversário. Quando pressionado sempre sofre.

Então por que o time da casa não tentou se impor mais? Com 40% de posse e mais coragem poderia ter construído um placar para, aí sim, administrar no Camp Nou. Subiu um pouco a posse na segunda etapa (32%) e finalizou mais quatro vezes, uma no alvo – o gol de Willian. Podia ter se arriscado mais.

Pagou no erro na saída de bola do zagueiro Christensen, que pela esquerda cruzou uma bola em frente à própria área que, forte, passou por Fábregas, mas encontrou Iniesta antes de Azpilicueta. Resposta rápida do time da paciência com a bola e passe do meia para Messi empatar. Quarto gol na Liga dos Campões, primeiro na carreira contra os Blues.

Rara oportunidade em que o gênio argentino teve espaço. Ele depende disto para criar e finalizar. Com Alba, a válvula de escape pela esquerda, bem vigiado por Moses e Willian, além da cobertura de Azpilicueta, o camisa dez sofreu mais ainda. Porque ele é senhor, mas também “escravo” do jogo entrelinhas – relembre AQUI.

Então por que não recuar eventualmente as linhas para atrair o adversário em sua casa para dar a Messi as lacunas entre os setores do adversário que precisa para desequilibrar? Talvez a mudança de mentalidade faça a equipe até se defender melhor…

Ou seja, os gols e o jogo em si mostraram que os planos de jogo foram engessados e previsíveis. E deram errado. Quando o contexto do jogo apresentou situações diferentes, Willian e Messi colocaram nas redes. Lições que ficam para a volta de um confronto muito aberto.

Porque o Chelsea pode complicar muito a vida do adversário se sair mais para jogar. Assim como o Barça, com o placar inicial favorável, pode resgatar uma ideia mais cuidadosa que vem utilizando eventualmente na temporada e matar o duelo e o confronto nos contragolpes com Messi e Suárez.

Quem se adaptar melhor ao contexto sai na frente pela vaga nas quartas de final da Champions.

(Estatísticas: UEFA)


O primeiro gol de Philippe Coutinho pelo Barcelona, com a “benção” de Messi
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André Rocha

Ernesto Valverde precisou de 45 minutos para perceber que o futebol coletivo do Barcelona era prejudicado pela nulidade de André Gomes jogando aberto pela direita na linha de meio-campo. Por isso sua equipe teve problemas no primeiro tempo no Estádio Mestalla pela semifinal da Copa do Rei.

Também porque o Valencia, necessitando reverter desvantagem de 1 a 0 construída no Camp Nou, se arriscou com o brasileiro naturalizado espanhol Rodrigo Moreno atuando como uma espécie de “falso nove” tentando alimentar Zaza e Vietto na frente. Dinâmica que dificultava a saída de Jordi Alba para atacar pela esquerda com a cobertura de Umtiti e Busquets centralizado na proteção.

A retaguarda sofria e os ataques pela direita eram previsíveis, dependentes do apoio de Sergi Roberto e das aparições de Messi no setor. Faltou fluência ofensiva, mesmo com o controle da posse de bola – importante para administrar a vantagem no confronto.

Tudo mudou em três minutos com Philippe Coutinho em campo na vaga do português na volta do intervalo. Ainda que o brasileiro não se sinta confortável pela direita, no primeiro ataque apareceu na segunda trave para completar centro de Suárez pela esquerda e encaminhar a classificação do Barça para a 10ª final do torneio em 13 anos. Primeiro gol pelo novo clube. Já sendo decisivo.

Interessante notar que até Paulinho entrar no lugar de Iniesta e Coutinho enfim ser deslocado para o lado esquerdo, Messi novamente usou toda sua leitura de jogo para permitir que o camisa 14 saísse da direita para circular pelo centro às costas dos volantes adversários, como faz na seleção. Exatamente no espaço em que o gênio argentino gosta de atuar.

Para gerar o espaço, Messi ficava aberto pela direita recebendo e acionando os companheiros. De certa forma também descansando em campo. Mas dando uma prova de que entende a importância do talentoso meia brasileiro no elenco de Valverde. Uma espécie de aval do craque do time.

Depois bastou ao Barcelona seguir controlando o jogo com posse e sofrendo apenas um ataque mais contundente, com Cillessen fazendo grande defesa. No final, falha do zagueiro Gabriel Paulista, mais uma assistência de Suárez e gol de Rakitic. Ainda houve tempo para estreia de Yerri Mina entrando no lugar de Piqué.

Com vaga na decisão da Copa nacional e o título espanhol bem encaminhado pela larga vantagem na liderança, o Barça pode concentrar todos os esforços no duelo com o Chelsea pelas oitavas de final da Liga dos Campeões. Favoritismo natural pelo bom momento contrastando com a séria crise no time inglês, mas a história mostra que costuma ser um duelo perigoso.

Mais ainda sem a opção de Coutinho, ainda que no banco. Resta ao brasileiro seguir seu processo de adaptação ao novo clube. Com gols e a “benção” de Lionel Messi.


Com goleada sobre o Betis, Valverde rasga de vez o “Manual Barcelona”
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André Rocha

O Barcelona já venceu ou construiu goleadas utilizando os contra-ataques. Segundo o site Whoscored.com, o time catalão terminou o jogo em Sevilla com 51% de posse. Ou seja, ainda que com vantagem mínima teve o controle da bola.

Mas nenhuma vitória foi tão emblemática como os 5 a 0 no Estádio Benito Villamarín para mostrar que o time de Ernesto Valverde, mesmo com a base de Luis Enrique e alguns remanescentes da Era Guardiola, pensa e executa futebol diferente do que ficou conhecido como a “Escola Barça”.

Um primeiro tempo sofrendo com a marcação adiantada e com muita pressão do time da casa e dificuldade para chegar ao ataque. Segunda etapa matadora com quatro gols de contragolpes. O primeiro de Rakitic, aproveitando passe em profundidade de Luis Suárez.

Depois o croata retribuiria a assistência no terceiro, com um belo cruzamento da direita para finalização ainda mais bela do camisa nove uruguaio, que fecharia a goleada aproveitando arrancada e passe de Messi.

O gênio argentino mais uma vez cresceu com os espaços cedidos pelo adversário. Dois gols, além da assistência que fechou a goleada – a nona na liga espanhola. O primeiro gol foi o maior símbolo desta mudança de mentalidade: bola roubada por Sergio Busquets e o camisa cinco, que costuma ser um jogador de controle de jogo com o passe mais horizontal, de lado, acionou diretamente Messi. Vertical, simples e objetivo, como a conclusão do artilheiro da competição com 19 gols.

Messi faria o terceiro em outro contragolpe, do jeito que gosta: recebendo na meia direita com espaço para limpar os marcadores até encontrar o melhor ângulo para o chute. Se o craque da equipe é ainda mais desequilibrante com espaços, por que forçar sempre um jogo de posição que instala o adversário no seu próprio campo para justamente negar essas brechas?

Um Barcelona do 4-4-2 mais “duro”, com uma segunda linha que teve Sergi Roberto mais adiantado aberto à direita, com Semedo ocupando a lateral, Rakitic e Busquets no centro e André Gomes pela esquerda. Pragmático para superar um rival complicado da maneira que era mais viável. Sem imposição de filosofia. O comportamento foi de acordo com a demanda.

Assim abre 11 pontos sobre o vice-líder Atlético de Madri. Desta forma pode dar um nó na cabeça de Antonio Conte para o duelo com o Chelsea pelas oitavas de final da Liga dos Campeões. Porque o confronto ataque x defesa que parecia previsível e puniu o Barça de Guardiola contra os mesmos Blues em 2012 deve ganhar outras nuances.

Ernesto Valverde rasga de vez o “Manual Barcelona” e cria um problema para os adversários: ninguém mais sabe o que esperar do time de Messi e Suárez.


Se fosse só dinheiro, Palmeiras ou Flamengo estariam no lugar do Grêmio
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André Rocha

Transformação curiosa ocorreu depois do apito final do Mundial de Clubes em Abu Dhabi. Os mesmos que viam o Grêmio com condições de jogar de igual para igual e vencer o Real Madrid, que nas comparações posição por posição – algo cada vez mais sem sentido em um futebol cada vez mais coletivo – faziam projeções equilibradas (6×6, incluindo Renato Gaúcho melhor treinador que Zidane), de repente passaram a questionar o abismo de qualidade entre os clubes da Europa e os demais e sugerir até a mudança na fórmula de disputa da competição.

Entre os motivos apresentados, o mais presente é o poderio financeiro. Inegável, obviamente. Mas a própria temporada no Brasil mostrou que futebol não se faz só com dinheiro. Se fosse assim, Palmeiras ou Flamengo, que também disputaram a Libertadores, estaria no lugar do Grêmio. Nem é preciso apelar para a frieza dos números para provar a distância nos valores das receitas. E se colocarmos no bolo os demais clubes sul-americanos a vantagem é ainda maior. Mas só voltamos a vencer agora, depois de três anos sequer chegando à decisão.

Há muita competência na supremacia recente na Europa de Barcelona e Real Madrid. Passa por Messi e Cristiano Ronaldo, mas não só eles. São clubes que sabem vender sua marca para o mundo, construir uma identidade. A ponto de conquistar a preferência de jovens como Vinicius Júnior em detalhes como a força do time no videogame. Se outro time iguala a proposta, o menino prefere os gigantes espanhois.

Porque construíram times que estão entre os melhores da história dos clubes. Mas também já torraram muito dinheiro sem conseguir formar uma equipe competitiva. Basta lembrar o Real galáctico do início do século, ou mesmo o do primeiro ano da Era Cristiano Ronaldo, que não conseguiu superar as oitavas de final da Liga dos Campeões.

A resposta precisa vir no campo. Mesmo nesta fase gloriosa da dupla, em 2014 falharam na liga nacional e viram o Atlético de Madri campeão espanhol. Assim como o Bayern de Munique, soberano na Alemanha, viu o Borussia Dortmund de Jurgen Klopp ser bicampeão com orçamento bem inferior. Para não falar do Leicester City na Inglaterra no ano passado.

Por mais que o Grêmio tenha mostrado um futebol ofensivo e atual em 2017, ainda é um mero rascunho diante das equipes mais qualificadas do planeta. O Real, com a cabeça no Barcelona e freio de mão puxado, conseguia numa rápida ação de perder e pressionar retomar com facilidade. A circulação da bola é mais inteligente, fluida. Há mais leitura de jogo coletivo. Basta ver Modric em campo. A bola mal saiu de seus pés e o croata já se transforma em opção de passe no espaço certo.

Aqui a visão é ainda simplista: quem tem dinheiro compra os melhores e vence. Uma noção de futebol fragmentada e muito focada no individual. Só se falou na atuação ruim de Luan. Mas sua movimentação entre as linhas defensivas do adversário por aqui é mais facilmente bloqueada por quem está acostumado a enfrentar Messi, Neymar, De Bruyne e outros craques.

Por isso e tantos outros motivos o Kashima Antlers foi um adversário mais perigoso para o Real Madrid no ano passado. Vitória por 4 a 2, mas só na prorrogação. Arthur fez falta ao Grêmio, sim. Mas nunca saberemos se ele seria outro a sentir os efeitos deste abismo, ainda mais no setor de Casemiro, Modric, Kroos e Isco.

Nosso último título mundial veio pela feliz coincidência de termos o Corinthians de Tite, time mais sólido e organizado desta década, enfrentando o Chelsea que não era o melhor europeu nem quando venceu a Liga dos Campeões, estava em declínio sob o comando de Rafa Benítez e, ainda assim, fez do goleiro Cássio o melhor em campo. Méritos inegáveis dos brasileiros, mas o contexto há cinco anos ajudou.

Não adianta pregar ódio ao futebol moderno, ao menos dentro de campo. O esporte se transformou e não há como fugir. Precisamos evoluir na mentalidade, ter humildade. Não rir do nível técnico de outras ligas, especialmente a francesa, quando a nossa é desprezada pelo mundo. Por mais eurocentrista que seja o povo do Velho Continente, é ridículo que eles saibam tão pouco do Grêmio tricampeão sul-americano.

Que os clubes peitem a CBF, que só quer saber de vender a imagem da seleção brasileira. Que os profissionais se qualifiquem, aceitem que precisam aprender e não podem mais deixar tudo por conta do talento individual. Que os times criem uma identidade e a desenvolvam desde as divisões de base.  Que tomemos decisões mais técnicas e menos políticas e manchadas por corrupção em todos os níveis. Mais meritocracia e menos grife na hora de contratar. E, principalmente, que deixemos esse mimimi “ah, eles são ricos e nós os pobres neste mundo injusto e cruel!”

Ninguém vai revogar a Lei Bosman e dificilmente o real valerá mais que o euro ou o dólar. Ainda assim, podemos fazer melhor, sermos mais competitivos. Dar trabalho e não passar a vergonha de apenas uma finalização gremista na decisão do Mundial com o Real em ritmo de treino na maior parte do tempo. É muito pouco.

Não adianta encher a boca para falar dos cinco títulos em Copas do Mundo e esquecer que a grandeza do futebol de um país se mede pela força de seus clubes. A nós, jornalistas, cabe a tarefa de cobrar e conscientizar e não jogar para a galera um mundo fantasioso de “eles não são isso tudo!” e “isso aqui é Brasil!” É sedutor falar ou escrever o que o torcedor quer ouvir/ler, mas em nada contribui para o desenvolvimento do esporte.

Que o passeio do Real não seja minimizado pelo placar magro. O Grêmio teve dignidade, mas jogou mal. Porque o adversário é superior e não deixou, mas também porque as ideias para fazer melhor ainda são pobres. Não é só dinheiro, definitivamente. Só não vê quem não quer.