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Sofrer como favorito e sobrar como “zebra”. Mais Uruguai impossível
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André Rocha

O treinador russo Stanislav Cherchesov facilitou um pouco a tarefa ao rodar o grupo e deixar titulares no banco. Compreensível pela intensidade absurda aplicada pelos donos da casa nas duas primeiras rodadas. Até porque o objetivo inicial era garantir classificação e, na prática, não há muita diferença em enfrentar nas oitavas Espanha ou Portugal, os prováveis classificados do Grupo B.

Mas o Uruguai acabou seguindo um roteiro bem conhecido de sua história. Quando entra como favorito, pela história ou por contar com mais qualidade técnica, costuma se complicar. Ainda mais esta seleção de Óscar Tabárez, dependente de espaços para acionar sua dupla Suárez-Cavani.

Contra Egito e Arábia Saudita, triunfos sem brilho. Na estreia, o sofrimento no gol no final de Giménez. Contra os árabes, expectativa de goleada frustrada mesmo com o gol de Suárez logo aos 20 minutos do primeiro tempo. O peso da responsabilidade não costuma fazer bem. Mais confortável a condição de “zebra” para colocar a tradicional fibra e o conhecido poder de superação.

Contra os russos, se a história de bicampeão mundial não permite ser tratado como uma seleção menor, o desempenho das equipes nas duas primeiras rodadas e, principalmente, a condição de visitante entregava ao Uruguai o papel de coadjuvante no espetáculo. Na prática, porém, os sul-americanos novamente subverteram tudo.

Os gols de Suárez e contra de Cheryshev, desviando chute de Laxalt, em 23 minutos condicionaram o jogo na Arena Samara e a expulsão de Smolnikov aos 36 minutos praticamente tirou qualquer chance de reação russa. O segundo tempo chegou a ter momentos de ritmo de treino.

Mas o Uruguai teve boa atuação, a melhor neste Mundial. Retornando a um desenho costumeiro de Tabárez neste ciclo de 12 anos na seleção: o 4-3-1-2, com meio-campo em losango formado por Torreira à frente da defesa, Nández pela direita, Vecino à esquerda e Betancur mais adiantado na ligação com o ataque. Pelas laterais, Cáceres mais contido à direita no suporte a Coates, substituto de Giménez, e Laxalt com liberdade para descer pelo corredor esquerdo.

O jogo ficou mais fluido, com volume e chegando mais vezes aos atacantes. Foram 56% de posse de bola com 87% de efetividade nos passes e 17 finalizações, sete na direção da meta de Akinfeev. Valeu também para Cavani marcar no fim, fechando os 3 a 0, e tirar a ansiedade do artilheiro sem ir às redes.

Tudo certo para as oitavas. Para ambos. É óbvio que os russos vão deixar tudo em campo contra quem vier, mas parece claro que há a sensação de missão cumprida como anfitriã. Já os uruguaios devem entrar bem confortáveis caso os favoritos confirmem suas vagas definindo a classificação pelo saldo de gols.

Diante de Cristiano Ronaldo e os campeões europeus ou da rediviva Espanha dos craques e da posse de bola, a Celeste jogará serena, no cenário que mais aprecia. Para contrariar as previsões.

(Estatísticas: FIFA)


Ingenuidade árabe é a primeira surpresa da Copa. Melhor para a Rússia
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André Rocha

Juan Antonio Pizzi, campeão da Copa América Centenário com o Chile em 2016, fez treinadores idealistas como Paco Jémez, Juan Manuel Lillo, Zdenek Zeman e o nosso Fernando Diniz parecerem pragmáticos na abertura da Copa do Mundo.

Sua Arábia Saudita contrariou todas as previsões de seleções menos tradicionais e jogando como “zebras” fechando espaços com linha de cinco atrás e muita gente protegendo a própria área. Ainda que já tivesse apresentado ao mundo a proposta de tentar jogar. Adiantou os setores e fez saída “lavolpiana” com o volante Abdullah Otayf recuando para auxiliar os zagueiros no início da construção do jogo.

Mas que jogo? As limitações técnicas saltavam aos olhos. Seria como se em 1999 Vanderlei Luxemburgo escalasse na seleção brasileira os “zagueiros-zagueiros” Odvan e João Carlos e o “volante-volante” Nasa do Vasco para trocarem passes e os demais jogadores no campo adversário esperando a bola chegar. Suicídio.

Melhor para a Rússia, insegura como anfitriã e tensa numa estreia do Mundial que sedia. A equipe de Stanislav Cherchesov, numa variação básica do 4-2-3-1 para as duas linhas de quatro sem bola, foi ganhando confiança nos muitos erros dos árabes e, principalmente, com o gol de Gazinsky logo aos 11 minutos.

Cheryshev, que substituiu o lesionado Dzagoev aos 22 minutos, aproveitou bem os espaços deixados entre os setores adversários para marcar dois gols. Mário Fernandes, o brasileiro naturalizado, teve algum trabalho na defesa com Al Dawsari e Al Faraj, mas mostrou a habitual desenvoltura nas descidas ao ataque aproveitando todo o corredor direito.

E a Arábia tentando jogar num 4-1-4-1 que sacrificava Otayf sozinho na proteção de uma defesa escancarada. Uma seleção mais qualificada teria feito mais que os 5 a 0 – como, por exemplo, o Uruguai de Cavani e Suárez. Mas para os russos os gols de Dzyuba e Golovin foram motivos para muita festa e algum otimismo para a luta pelas duas vagas do Grupo A.

Porque os árabes e Pizzi mostraram que ainda existe bobo no futebol. A ingenuidade foi a primeira grande surpresa da Copa de 2018.


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