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Classificação do Leicester é obra de Ranieri, não de Shakespeare
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André Rocha

Mesmo com todo o discurso pé no chão da diretoria do Leicester City, focando apenas na manutenção na Premier League, a Liga dos Campeões foi tratada com sonho realizado no clube desde a confirmação da vaga na campanha do título.

A boa campanha na fase de grupos aumentou a sensação de que era possível. Reforçada pelo cruzamento com o Sevilla, que comparado com os gigantes europeus parecia acessível. E foi.

O atual campeão inglês, a rigor, perdeu apenas Kanté dos titulares na campanha vencedora. Desfalque seríssimo, mas que num torneio de mata-mata acaba sendo diluído pela capacidade de superação. Ainda mais pela entrega de Ndidi.

Logo, nada há de romântico nesta classificação do Leicester. Muito menos depois da nítida mudança de “humor” no campeonato inglês depois da demissão de Claudio Ranieri. Onde a gratidão e a lealdade se esvaneceram por um sanduíche de frango.

O time foi o de sempre no King Power Stadium. Duas linhas de quatro compactas, só teve posse de bola enquanto precisou construir o resultado. A partir do gol de Morgan recuou as linhas, abusou das ligações diretas, achou o segundo com Albrighton  e precisou do goleiro Kasper Schmeichel, inclusive na péssima cobrança de pênalti de N’Zonzi.

Também contou com a noite pouco feliz de Jorge Sampaoli na montagem do seu 3-4-2-1 e com a insanidade de Nasri, que se enroscou infantilmente com Vardy com a bola rolando, na frente do árbitro Daniele Orsato. Tola expulsão que merece multa e um chá de banco no Espanhol.

O Leicester sabe jogar como azarão, especulando. Vai entregar tudo contra qualquer um nas quartas da Liga dos Campeões e deve dar trabalho, mesmo aos gigantes.

A classificação é histórica, mas não épica – termo da moda na mídia histriônica que precisa gritar e superdimensionar tudo para chamar atenção. Porque tem como pano de fundo uma traição das mais torpes.

Tudo de melhor que este time puder construir não é obra de Shakespeare, o Craig, interino que assumiu o time. É de Claudio Ranieri.

 


Cinco razões para o fim do “conto de fadas” do Leicester City
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André Rocha

A demissão de Claudio Ranieri passa fundamentalmente pelo risco real de rebaixamento do Leicester City na Premier League com as cinco derrotas seguidas. A última para o Swansea, rival direto pela permanência na primeira divisão, por 2 a 0. Na 17ª colocação, está apenas um ponto a frente do Hull City, primeiro na zona do descenso.

Na Liga dos Campeões a situação nem é tão desesperadora, já que a derrota fora de casa por 2 a 1 para o Sevilla, com boa atuação no segundo tempo, torna viável a classificação para as quartas-de-final. Mas o foco da direção do clube desde o início era o mesmo da temporada passada: continuar na elite.

A grande questão é: o que fez o campeão inglês cair tanto de produção e virar do avesso em desempenho e resultado? O blog lista cinco possíveis razões para o fim do “conto de fadas”:

1 – Acabou a surpresa

O que Kanté, Mahrez e Vardy fizeram em suas carreiras que pudesse ser destacado antes do mundo descobri-los no Leicester City?  Quando um grupo de jogadores consegue combinar tão bem suas características a ponto do jogo coletivo potencializar suas qualidades ao mesmo tempo é o momento mágico de qualquer equipe.

Mais ainda quando pega os adversários de surpresa. Era difícil segurar aquele 4-4-2 intenso, sólido defensivamente e letal nos contragolpes, com eficiência absurda nas finalizações, especialmente de Jamie Vardy – sem contar os 17 gols e as 11 assistências de Riyad Mahrez. Com os holofotes da conquista veio também o estudo minucioso dos adversários e aí faltou capacidade de treinador e jogadores para encontrar novas soluções.

2 – Reconstrução dos grandes ingleses

A temporada 2015/16 foi de entressafra no comando técnico dos grandes ingleses, com a exceção do “imortal” Arsene Wenger no Arsenal: Brendan Rodgers foi demitido no Liverpool para a chegada de Jurgen Klopp; Mourinho implodiu o próprio trabalho no Chelsea e deu lugar a Guus Hiddink; Manuel Pellegrini encerrava seu ciclo para a chegada de Guardiola no City e Van Gaal desgastava-se dia a dia no Manchester United. Foi nesse “vácuo” que o Leicester se infiltrou.

Com a chegada de Antonio Conte e Guardiola, a ida de Mourinho para o United e a sequência com pré-temporada de Klopp nos Reds, além da afirmação de Mauricio Pochettino no Tottenham, natural que o Leicester de Ranieri deixasse o protagonismo.

3 – Saída de Kanté

O meio-campista francês não é craque, longe disso. Mas a combinação de um impressionante vigor físico com notável leitura de jogo faz de Kanté um jogador especial, especialmente para o alucinante futebol jogado na Inglaterra. Atuando de área a área sem cansar durante os noventa minutos. Desarmando, interceptando, antecipando com velocidade. Com a bola joga simples, ciente de suas limitações, sendo um facilitador dos companheiros com incrível mobilidade para se apresentar como opção de passe.

No Leicester sua média de desarmes era ainda maior que a atual. Segundo o site Whoscored.com, o jogador contrato ao modesto Caen alcançou média de 4,7 desarmes contra 3,6 e 4,2 interceptações contra 2,4 no Chelsea. Sua saída ajudou a desmontar a proposta de jogo de Ranieri.

4 – Liga dos Campeões

Assim como o Chelsea nesta temporada, o Leicester não precisou dividir atenções com nenhum torneio continental e, com a chance de disputar na parte de cima da tabela, a Premier League se transformou na prioridade absoluta. Agora o clube viveu, e ainda vive, o sonho de participar da principal competição de clubes do planeta. Para aumentar as esperanças, caiu num grupo mais que acessível, com Porto, Copenhague e Club Brugge, e terminou na liderança.

Mesmo com o discurso pé no chão da diretoria do clube, impossível não se envolver emocionalmente com essa participação histórica e tratá-la com carinho e dedicação. Só que não há qualidade no elenco para manter o desempenho e a sequência desgastante, especialmente na virada do ano, minou as forças do grupo.

5 – Gestão de grupo

É incrível como os italianos começam e terminam tudo com comida. Nas muitas entrevistas celebrando o título inglês, Ranieri contou que a arrancada para o título iniciou com os jogadores preparando a massa e comendo pizza depois da vitória por 1 a 0 sobre o Crystal Palace, a primeira sem sofrer gols. Segundo o treinador, após essa reunião que uniu treinador e atletas o time decolou.

Agora o veto de Ranieri aos sanduíches de frango que eram servidos aos atletas depois dos jogos, segundo os jornais e sites ingleses, teria sido o grande agente catalisador da crise de relacionamento que tornou inviável a permanência do técnico que entrou para a história do futebol mundial com a conquista improvável no ano passado. Coisas que só o futebol é capaz de construir e desmanchar.


Modelo não, exceção! Por que o Leicester pode fazer mal ao nosso futebol
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André Rocha

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Na liga mais valiosa do mundo, um candidato ao rebaixamento antes da primeira rodada ocupa o topo da tabela a seis jogos do final, com cinco pontos de vantagem. Jogadores desacreditados e um treinador ridicularizado em incrível simbiose.

O Leicester City 2015/16 já é histórico. Mesmo se permitir uma reação do Tottenham, outra surpresa da temporada. A esta altura, vencer ou perder o título da Premier League causará comoção no planeta bola. Porque o impossível agora é provável. A virada na confiança foi nos 3 a 1 sobre o City em Manchester. Com autoridade.

Com Mahrez, 16 gols e 11 assistências, conseguindo atuações de melhor “winger” do mundo, Vardy com incrível felicidade nas finalizações – 19 bolas nas redes, duas a menos que o goleador máximo Harry Kane. Kanté se multiplicando no meio-campo. Especialmente Cláudio Ranieri dando uma aula de fazer mais com menos.

Eis o ponto. O Leicester encanta pela imprevisibilidade, pelo mito Davi x Golias. Por aproveitar o vácuo dos times de Manchester em transição, o tempo perdido do Chelsea com José Mourinho, a chegada tardia de Jurgen Klopp no Liverpool e a hesitação costumeira do Arsenal de Wenger.

O estilo, porém, é pragmático até a medula. Não quer a posse, só o erro do rival, a transição rápida e arriscada com passes verticais até acertar o contragolpe perfeito. Sim, soa uma heresia no calor da campanha lendária. Mas o Leicester joga feio. Não tem mais o ataque mais positivo, nem a defesa menos vazada. É o que mais pontua, porém.

Estratégia legítima pelo contexto do clube e dos concorrentes. O problema é se transformar em referência. Um duelo entre dois exemplares da equipe de Ranieri pode até ser eletrizante. Mas quem erraria na tentativa de propor o jogo, com linhas avançadas, para viabilizar as transições rápidas? Uma força anularia outra semelhante?

Se considerarmos que o Barcelona do trio MSN, Pep Guardiola e mesmo o Real de Cristiano Ronaldo, com todas as suas oscilações, são exceções na história do esporte, o Leicester é um modelo mais viável.

E já habita o imaginário popular do brasileiro que desde 1982 fala em vencer feio e perder bonito como se fossem as únicas opções. Injustiça com 1994, mais ainda com 2002.

A história mostra que os vencedores ditam as regras. No passado ainda mais pelo acesso restrito à informação. A Itália campeão na Espanha há quase 34 anos, até por ter a liga mais competitiva do mundo à época, fez o futebol mais prático e menos plástico. O líbero Scirea foi influência para o 3-5-2 que viria com a Dinamarca e a Argentina. A proposta de Carlos Bilardo era garantir solidez defensiva, saída em velocidade e bola para Maradona.

Acabou na Copa de 1990 com as seleções, inclusive a Alemanha, invertendo o 2-3-5 dos primórdios para cinco na defesa, três no meio e dois no ataque. Ou apenas um. Era de sombras, apesar do Milan de Arrigo Sacchi. Uma exceção como os times dominantes de agora.

O Leicester é mais palpável. Em terra brasilis, sem tempo para treinar, com exigência de resultados imediatos e jogadores que não foram preparados para jogar coletivamente em benefício do talento e não dependente dele, os modelos Barcelona e Bayern, construídos com paciência e outra cultura tática, são realidades distantes. Mas adaptáveis, como o Corinthians de Tite, o melhor exemplo.

O perigo é a equipe de Ranieri virar moda por aqui. Inclusive ressuscitando treinadores obsoletos, como era o caso do italiano. Mas podem voltar ao mercado colocando em prática uma maneira de jogar que não é totalmente estranha, só precisaria de uma atualização em compactação e marcação por zona. Nada muito complexo. Mas um retrocesso que faria mal ao nosso futebol.

Porque o que ocorre na Inglaterra não é revolução, mas uma conjunção de astros. A exceção que confirma a regra. Lindo de ver e, talvez, torcer. Nem tanto de copiar.


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