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Zé Ricardo, exclusivo: “Meta no Brasileiro é tornar Flamengo mais criativo”
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André Rocha

De campeão da Copa São Paulo a técnico interino, de efetivado à vaga direta na Libertadores pelo Brasileiro que não vinha desde o título em 2009. Agora campeão carioca. Com o empate sem gols contra o Atlético-GO pela Copa do Brasil utilizando um time repleto de reservas, são 65 partidas. 37 vitórias, 17 empates e 11 derrotas. 65% de aproveitamento.

Mais que números, Zé Ricardo entrega desempenho de um Flamengo difícil de ser batido. Organizado e concentrado. Que levanta taça mesmo sem Diego, a principal estrela. Não se acomoda e, mirando o Campeonato Brasileiro que começa no fim de semana,  já pensa mais à frente, quando Conca estiver pronto. “Nosso primeiro pensamento é tornar o time mais criativo”.

Confira a entrevista exclusiva com o treinador, que fala também de Márcio Araújo como exemplo de força mental, aproveitamento da base, cabeça fervilhando de ideias e o que vê de bom no futebol pelo mundo. Inclusive confessando sua torcida na final da Liga dos Campeões entre Real Madrid e Juventus.

 

BLOG – Zé, é absurdo afirmar que a marca da trajetória do Flamengo sob seu comando, culminando com o título carioca, é a força mental – do técnico novato para lidar com pressão, do Marcio Araújo suportando as críticas, de todos para compensar a ausência do Diego, etc.?

ZÉ RICARDO – A concentração é nosso mantra. Eu nem preciso lembrar muito, os próprios atletas se cobram, porque todos se precisam. O jogador precisa saber o que fazer em qualquer circunstância, inclusive a mais inesperada.

Sobre o Márcio Araújo, sem dúvida é um exemplo para todos nós. A personalidade dele é impressionante! Não liga para críticas e elogios e faz isso sem esforço. É totalmente focado no campo. Quando o Rômulo chegou, eu disse ao Márcio que não era para barrá-lo. Com o Diego sendo convocado, eu imaginava trabalhar com os dois, mais o Willian Arão. Era uma possibilidade e aconteceu.

BLOG – E a utilização dos laterais Rodinei e Trauco em funções diferentes, também gerou pressão por usar quatro jogadores da mesma posição?

ZÉ RICARDO – O importante é ter convicção. Pelas características, eles se encaixam bem nessas funções e abrem espaço, por exemplo, para o Renê ganhar seqüência na lateral. Como o Marcelo Cirino estava para sair para o Internacional, e depois acabou saindo, trabalhei com o Rodinei como externo pela direita já no primeiro jogo oficial, contra o Boavista.

Mas tem que acreditar muito nos atletas, confiar. Porque é difícil passar pelas cobranças de quem não compreende a diferença entre posição e função. E eu sei que se não tivesse conseguido os resultados talvez eu não estivesse aqui hoje como técnico do Flamengo. Mas, assim como o Márcio, eu procuro agir com convicção para ter a consciência tranquila.

BLOG – O Márcio Araújo tem se arriscado mais à frente, fazendo inversões de jogo com passes longos. Isto é mais confiança ou treinamento?

ZÉ RICARDO – É trabalho. Um complemento desde a pré-temporada para a saída de bola não ser sempre curta. Também queria um passe mais profundo de trás para acionar a velocidade do Berrío, fazer o colombiano acelerar. Ele trabalhou e ganhou confiança. Antes era o passe de segurança, até para se preservar. Hoje ele já se projeta à frente dos outros dois meio-campistas. Como diz o Bielsa, com treinamento e confiança, dá para fazer tudo em termos táticos e estratégicos.

BLOG – Dá para encaixar o Diego na volta dele num 4-1-4-1, sem retornar ao 4-2-3-1?

ZÉ RICARDO – Perfeitamente. A opção de colocar Diego mais avançado foi para aproveitar todo seu potencial mais próximo do Guerrero. Conversei com ele para entrar na área, fazer gols. Mas é uma questão de conscientizar na fase sem posse de bola, no trabalho defensivo, e isso ele faz muito bem. Também pode ajudar na saída de bola, atuando mais recuado, na mesma linha do Arão.

BLOG – No início da temporada, você encaixou Mancuello como um meia atuando pela ponta visando preparar a equipe para receber Conca. Com a lesão de Diego, você voltou aos ponteiros velocistas. Qual o plano para quando tiver todos disponíveis? Ainda há o propósito de escalar Diego e Conca juntos?

ZÉ RICARDO – É o nosso primeiro e principal pensamento. A meta no Brasileiro é tornar o time mais criativo no último terço, quebrar as linhas de marcação. Coloquei, sim, o Mancuello pensando no Conca, também porque a concorrência no meio-campo era bem dura para ele. Foi até bem pelo lado. Depois foi para o meio, agora está machucado.

Com Diego e Conca disponíveis, eu tenho diversas possibilidades, a cabeça até fervilha (risos). Se o Conca jogar pelo lado direito, eu posso compor com Pará e Arão fechando em um trabalho mais forte de cobertura. Mas também posso abrir o Diego pela esquerda, com Berrío à direita e Conca centralizado, mais solto. Aí o Márcio junto com o Trauco fechariam mais o setor. O Diego já atuou assim, inclusive no Atlético de Madri, com o Simeone. São ideias, os treinamentos e jogos é que vão mostrar a melhor forma de aproveitar todo esse potencial.

Uma das possibilidades na cabeça de Zé Ricardo: Diego aberto pela esquerda, Conca mais livre no centro e Márcio Araújo dando suporte defensivo ao meia que mudaria de função para o encaixe do argentino vindo de longa inatividade. Tudo para dar mais criatividade ao setor ofensivo (Tactical Pad).

BLOG – Sei que você não fala em jogadores que não fazem parte do elenco que comanda, então farei uma pergunta genérica: quando você pensa em Everton Ribeiro num time qualquer, o visualiza na mesma função executada no Cruzeiro – ponta articulador pela direita jogando com pé invertido, o canhoto?

ZÉ RICARDO – Pensando até no time em que atua nos Emirados Árabes (Al Ahli), ele pode atuar nas três posições atrás do centroavante num 4-2-3-1. Ou mesmo num 4-1-4-1, até porque ele foi lateral quando surgiu na base do Corinthians.

BLOG – Se você tiver três meias de qualidade técnica, em plena forma, pode até abrir mão dos ponteiros?

ZÉ RICARDO – Como disse, tudo depende dos treinamentos, dos jogos, até das características dos adversários. Na base eu trabalhei com Cafu, Matheus Sávio e Paquetá atrás do Vizeu. Nenhum velocista típico. Você pode perder de um lado, mas ganhar de outro.

BLOG – Você reconhece que se tivesse Conca desde o início da temporada para testar durante o Carioca seria mais fácil do que tentar encaixá-lo agora, com Brasileiro e jogos decisivos em Libertadores e Copa do Brasil, caso o time se classifique?

ZÉ RICARDO – É óbvio. Mas foi uma oportunidade de mercado, contar com um jogador que dispensa maiores explicações sobre seu potencial técnico. Eu sei que haverá pressão. Eu vi pessoas exigindo a escalação do Ederson assim que o Diego se lesionou. Coloquei contra o Atlético-GO e todo mundo viu a dificuldade, natural pela falta de ritmo de jogo.

O Conca vai passar pelo mesmo, é quase um ano sem jogar. Felizmente a conquista do Carioca tira um pouco do peso das cobranças e há mais tranqüilidade e confiança para trabalhar e fazer testes, mesmo em meio a jogos tão duros. Mas isto acontece em toda temporada. O Brasileiro nem começou e tivemos cinco partidas decisivas em 15 dias!

BLOG – Eu tenho a impressão de que você, por conviver com todas essas pressões tendo subido há pouco das divisões de base como treinador, tem uma cautela até excessiva com os jovens que comandou, com temor que se queimem por conta de uma atuação ruim. Estou errado?

ZÉ RICARDO – Não. Eu reconheço o cuidado, que às vezes passa até do ponto. Me preocupo com a pressão. Porque há torcedores e jornalistas que têm uma paciência maior com quem vem da base. Mas também existem outros que acham que o garoto tem que dar resposta imediata e não é assim que funciona. Não dá para lançar todos ao mesmo tempo.

BLOG – Para finalizar, o que tem chamado sua atenção no futebol mundial?

ZÉ RICARDO – Ah, a Juventus! Como bom italiano (risos). Sem dúvida terá minha torcida na final da Liga dos Campeões. Nos meus estudos e observações noto que cada vez mais os times têm duas formas de controlar o jogo: pela posse ou pelo espaço. Contra o Barcelona no Camp Nou, eles negaram o meio para o adversário trabalhar, fecharam até com seis na última linha e não deram brecha. Mas também sabem ficar com a bola, se necessário. Aliás, esta é a maior mudança do futebol atual, porque culturalmente o italiano prioriza muito a defesa.

Me chama atenção também a intensidade do futebol alemão, a posse dos espanhóis, que admiro muito, e o 5-4-1 mais “duro” do Chelsea, que se sustenta muito na frente com o Diego Costa, que retém bem a bola e é ótimo finalizador.

 


Zé Ricardo testa Mancuello como “dublê” de Conca no Flamengo
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André Rocha

Crédito: Gilvan de Souza (Flamengo)

Crédito: Gilvan de Souza (Flamengo)

Dario Conca já trabalha na recuperação da séria lesão no joelho para poder estar apto o quanto antes para estrear no Flamengo.

Desde a primeira entrevista depois da confirmação da chegada do meia argentino, o técnico Zé Ricardo deixa claro que pensa no time com o reforço e Diego juntos na armação das jogadas, partindo a princípio do mesmo 4-2-3-1 que se afirmou no ano passado.

Ou seja, um dos dois meias seria o ponta articulador, que sai do lado do campo e circula pelo setor ofensivo com liberdade para deixar o desenho tático menos engessado que com os dois ponteiros fixos. Zé Ricardo sinaliza a montagem do time para que os movimentos já estejam assimilados até a entrada de Conca.

Para isso é preciso uma espécie de “dublê” e, pelo visto no início dos trabalhos, ele já está escolhido. Também argentino e canhoto.

Federico Mancuello foi contratado no início de 2016 porque a ideia de Muricy Ramalho era montar um meio-campo sem o típico camisa dez num 4-3-3 inspirado no Barcelona. O argentino não é volante nem meia, mas um meio-campista de área a área.

Com o time claudicante, os próprios problemas físicos e depois a chegada de Diego, Mancuello perdeu espaço. Mesmo sendo um dos melhores finalizadores do elenco. Com o time titular sofrendo para ir às redes no Brasileiro parecia um absurdo. Ainda mais porque, quando entrou, o argentino fez gols importantes, contra Atlético-PR, Cruzeiro e Chapecoense.

O problema era a adaptação à função pelo lado. Mancuello entrava bem na vaga de Márcio Araújo, com o time precisando atacar. Quando testado na ponta tinha dificuldades. Sem tempo para trabalhar com viagens e jogos decisivos, Zé Ricardo arquivou a ideia depois da atuação coletiva ruim no primeiro tempo dos 2 a 2 contra o Corinthians na volta ao Maracanã, com Mancuello pela esquerda. Até tentou um losango no meio contra o Coritiba, mas o desempenho também não agradou.

Agora, com calma e a vontade do jogador de tentar novamente, mas principalmente pelo “fator Conca”, Zé Ricardo testa Mancuello nos treinos aberto pela direita. A ideia é que ele corte para dentro com a canhota, se junte a Diego no centro e deixe o corredor para o apoio de Pará ou mesmo Arão. Do lado oposto, Everton fica mais aberto e usa a velocidade, até porque Jorge é um lateral que ataca mais por dentro, não busca tanto o fundo.

A recomposição e a pressão no campo de ataque também precisam ser repensadas sem a intensidade e a rapidez de um ponteiro velocista como Gabriel, Fernandinho ou Cirino. Talvez sacrificar um pouco Pará, Arão e o volante mais plantado, que deve ser Romulo, para ganhar criatividade e poder de fogo na frente.

Sem tanta pressão no início do ano é possível experimentar mais, enquanto o clube não contrata o atacante de lado mais agudo, que ainda pode ser Berrío ou Vargas. Por isso Mancuello é a novidade na base mantida para 2017. O “dublê” de Conca.

 

 

 


Diego e Conca no Fla, Montillo e Camilo no Bota. Há espaço para dois “dez”
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André Rocha

Primeiro o Botafogo anunciou Montillo. Agora o Flamengo confirma a contratação de Conca. Argentinos acima dos 30 anos, com experiência de Libertadores.

Com Camilo no alvinegro e Diego vestindo vermelho e preto, a questão é como abrigar dois meias criativos no time. Surgem as perguntas de sempre: “Quem é que marca?”, “Um não vai tomar o espaço do outro?”, “O time não fica mais lento?”

O futebol mudou. Fla e Bota tem jovens treinadores, antenados e estudiosos. Depois de uma temporada estafante, de mudanças radicais na vida de ambos, estavam no curso de técnicos da CBF. Zé Ricardo e Jair Ventura trabalham com marcação por zona, sabem que o jogo hoje se baseia muito mais em ocupação de espaços que na capacidade de desarmar.

Poucos times no mundo podem se comparar individualmente ao Barcelona do trio MSN, mas em termos de dinâmica ofensiva a equipe catalã virou referência usando Messi como um ponta articulador partindo da direita e Neymar mais agudo no lado oposto.

Tite adaptou a ideia ao Corinthians no título brasileiro de 2015 usando Jadson, um típico camisa dez, aberto à direita e se juntando aos meias para armar as jogadas e o jovem Malcom pela esquerda infiltrando em diagonal e se aproximando de Vagner Love no ataque. Virou tendência que o técnico levou para a seleção brasileira, com Coutinho de um lado e Neymar do outro.

Zé Ricardo tentou encontrar esse elemento no elenco montado por Muricy Ramalho para ajudar Diego, que é um “dez” de condução de bola e finalização. Não encontrou em Mancuello, Ederson e Alan Patrick, por isso seguiu com os ponteiros velocistas até o final da temporada.

Conca chega como um meia mais passador. Já atuou pelos flancos ao longo da carreira, mas por conta dos seus 33 anos e dos problemas no joelho que devem adiar sua estreia para março ou abril, a tendência é que jogue mais centralizado e sem tantas responsabilidades sem a bola. O time fecha em duas linhas de quatro e o argentino ficaria à frente, mais próximo de Guerrero.

Em tese, Diego seria o sacrificado sem a bola, voltando pelo lado. Não acompanhando lateral, mas guardando seu posicionamento. Já jogou assim pelo Atlético de Madrid com Simeone e com a pré-temporada pode ganhar resistência para a função.

Com a chegada de Conca, Diego pode fazer a função de ponta articulador, cortando para dentro e ajudando o meia central na armação, deixando para o ponteiro do lado oposto a missão de acelerar e infiltrar em diagonal. Sem a bola, os jogadores de flanco voltam e liberam o argentino a ficar mais próximo de Guerrero (Tactical Pad).

Com a chegada de Conca, Diego pode fazer a função de ponta articulador, cortando para dentro e ajudando o meia central na armação, deixando para o ponteiro do lado oposto a missão de acelerar e infiltrar em diagonal. Sem a bola, os jogadores de flanco voltam e liberam o argentino a ficar mais próximo de Guerrero (Tactical Pad).

Já no Bota, até por característica, a tendência é que o próprio Montillo exerça esta função pelo flanco, deixando o centro para Camilo. A grande sacada desse armador pela ponta é a liberdade para circular por todos os setores, criando superioridade numérica no meio e abrindo o corredor para o lateral ou outro companheiro atacar e buscar o fundo.

Na recomposição não é preciso acompanhar o lateral até a linha de fundo. O jogador fecha o setor, o lateral do próprio time não é arrastado pelo adversário e deixa o espaço livre. É ele quem vai tentar bloquear o cruzamento. O meia mais aberto ou o ponteiro tem como função primordial sem a bola evitar que a virada de jogo encontre um oponente livre ou fazer pressão no campo de ataque, de acordo com a proposta de jogo.

Quanto à velocidade na transição ofensiva, reparem que os dois clubes cariocas estão no mercado atrás de atacantes mais agudos. O Fla busca Marinho do Vitória, o Bota tentou Osvaldo e agora mira Lucca – reserva de Malcom no Corinthians de 2015. Não é por acaso. De um lado o meia para organizar, do outro o atacante para ser a referência de velocidade para os contragolpes e uma companhia para a referência na frente.

Se no Fla não mudaria tanto a execução do 4-2-3-1, no Bota a tendência é de uma postura mais ofensiva, desmontando o losango no meio que varia para duas linhas de quatro sem a bola. A menos que Jair pense numa dupla de armadores atrás de um centroavante rápido que ainda pode ser William Pottker da Ponte Preta.

Jair Ventura pode optar pela manutenção da estrutura tática de 2016 e encaixar Montillo numa função parecida com a de Neilton, ficando mais solto com Camilo para pensar o jogo e deixando a velocidade para o atacante de referência (Tactical Pad).

Jair Ventura pode optar pela manutenção da estrutura tática de 2016 e encaixar Montillo numa função parecida com a de Neilton, ficando mais solto com Camilo para pensar o jogo e deixando a velocidade para o atacante de referência (Tactical Pad).

Tudo com muita movimentação, sem posições fixas. O “caos” na frente e a organização atrás, com linhas compactas e jogadores mais próximos. Como manda o futebol atual. Como pensam Zé Ricardo e Jair Ventura nos cariocas que disputam a Libertadores. O filho de Jairzinho com um pouco mais de urgência porque o torneio continental começa mais cedo.

Impossível garantir que dará certo, pois é uma questão que envolve entrosamento, sintonia, sequência de jogos sem lesões, gestão de vestiário…A boa notícia fora de campo é que são contratações dentro da realidade do orçamento dos clubes, sem loucuras.

Dentro das quatro linhas, a opção de reunir dois meias criativos, ou “camisas dez”, é mais que viável no futebol atual. Podem e devem jogar juntos.


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