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Premier League já começa insana, mas não pode virar um fim em si mesma
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André Rocha

A liga mais forte do mundo começou com a incrível virada em Londres do Arsenal do inesgotável Arsene Wenger por 4 a 3 sobre o Leicester City. Gol da vitória marcado por Giroud, vindo do banco, aos 39 minutos do segundo tempo. Dois minutos antes, o empate com Ramsey, que também iniciou na reserva. Já no primeiro ato, um jogo típico da Premier League: intenso, maluco, imprevisível.

Com a grana farta da TV dividida de uma maneira mais equânime, os times médios e até os pequenos têm condições de investir em contratações e isso vem tornando o campeonato inglês cada vez mais equilibrado.

Se não conseguiu até aqui seduzir Messi e Cristiano Ronaldo, os gênios desta era, ao menos os treinadores com mais hype estão por lá: Guardiola, Mourinho, Klopp, Conte, Pochettino…Com exceção do fenômeno Zidane, bicampeão da Liga dos Campeões, apenas Carlo Ancelotti entre os mais vencedores dos últimos tempos não esteja por lá.

Por tudo isso se tornou uma competição de difícil prognóstico em relação a favoritismo ao título e às vagas nas competições europeias. Ótimo para a liga em si. Mas nem tanto para os clubes.

Porque enquanto Barcelona, Real Madrid, Juventus, Bayern de Munique, PSG e outros conseguem administrar seu calendário com respiros e uso de reservas, os ingleses precisam jogar no volume máximo durante toda a temporada. Muitas vezes não é possível dosar energias nem durante as partidas. Se baixar a guarda diante de uma equipe na zona de rebaixamento pode ser surpreendido.

Se juntar isso às copas nacionais com sua tradição e seus “replays” em caso de empate, aliviados pela federação com o cancelamento da prática nas quartas-de-final da Copa da Inglaterra, o cenário é ainda mais complexo. Ajudam a exaurir as forças, mesmo em elencos robustos. Sem contar os jogos em sequência no final de um ano e o início do seguinte, enquanto a grande maioria faz uma pausa para as festas de Natal e reveillón.

O resultado prático é que desde 2012, com o Chelsea, a Inglaterra não tem um vencedor da Champions. Mesmo considerando o domínio de Real Madrid e Barcelona, que contam com grandes times de sua história, é preocupante. Ainda que os próprios Blues e o Manchester United, neste período de seca, tenham conquistado a Liga Europa.

Fica a impressão de que faltam pernas e força mental para se concentrar na disputa do maior torneio de clubes do planeta porque o campeonato nacional exige demais semanalmente. Quem tenta dividir atenções vem sofrendo nas duas frentes. Não por acaso, Leicester e Chelsea venceram as duas últimas edições da Premier League por não estarem envolvidos em competições europeias. Tiveram semanas para repouso e treinamentos.

Mourinho preferiu arriscar tudo na Liga Europa na temporada passada ao perceber que os Red Devils não conseguiriam sequer a vaga de qualificação para a Champions. É uma disputa tão insana que não há garantias, uma margem mínima para planejar a temporada seguinte. Não há como fugir do clichê “pensar jogo a jogo” até que as pretensões possíveis fiquem mais claras. Hoje, imaginar um clube ganhando inglês e Liga dos Campeões é utopia.

Em campo, a consequência da loucura da Premier League é a dificuldade para controlar jogos, desacelerar. Como o City de Guardiola que não conseguiu conter a reação do Monaco no jogo da volta das oitavas de final da UCL depois dos 5 a 3 em Manchester. No jogo bate-volta, só há ataque e defesa, sem longos períodos entre as intermediárias. Sem pausas.

Os clubes mais poderosos vivem um dilema. Ostentam orçamentos de gigantes europeus, mas não conseguem ser tão competitivos além de suas fronteiras como gostariam porque se esfolam na luta doméstica.

É óbvio que o titulo inglês é sinônimo de prestígio, visibilidade e uma fatia maior do bolo das receitas de TV. Mas o asiático hoje prefere Barça e Real. Com Neymar no PSG isso talvez piore. Para manter ou ampliar o alcance global é preciso voltar a ser protagonista na Liga dos Campeões. Para isso é urgente repensar o calendário. Ou transferir o risco para a própria liga priorizando a Champions.

Qualquer coisa para não tornar a Premier League um fim em si mesmo.

 


As cinco chaves da liderança absoluta do Chelsea de Conte no Inglês
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André Rocha

Crédito: Reuters

Crédito: Reuters

A derrota por 3 a 0 para o Arsenal no turno fez Antonio Conte mudar o desenho tático do Chelsea para o 5-4-1/3-4-3 que revolucionou o futebol jogado na Inglaterra e já faz eco em várias partes do mundo.

Os 3 a 1 no Stamford Bridge, ainda que o gol de Giroud no final tenha atrapalhado a devolução do placar clássico, é muito simbólico para a afirmação do melhor time da Premier League com sobras. Ainda mais com o golaço de Cesc Fábregas, ex-Arsenal, encobrindo Petr Cech, ex-Chelsea. Abrindo doze pontos na liderança, ao menos temporariamente.

É a equipe de Courtois, David Luiz, Diego Costa. Do forte trabalho coletivo. Mas a combinação de resultado e desempenho tão consistente tem cinco chaves:

Time adaptável – Em uma liga tão equilibrada como a inglesa é impossível disputar os 90 minutos de todas as partidas com uma mesma proposta de jogo. Em casa contra um time de menor investimento será preciso atacar em massa. Fora de casa diante de um rival direto na disputa do título, o trabalho defensivo é fundamental.

O Chelsea de Conte se comporta bem das duas formas. Defende num 5-4-1, desmembra-se num 3-4-3 quando faz a transição ofensiva. Sabe se instalar no campo de ataque, fazer pressão alta e rodar a bola se necessário, mas também joga de forma rápida, vertical e prática como ninguém hoje na Europa. Um “camaleão” muito duro de ser batido, também por seus personagens e virtudes.

Marcos Alonso – O espanhol tem rara leitura de jogo. Sabe se comportar como lateral e ala e, melhor do que Moses, o atacante adaptado do lado oposto, consegue se infiltrar na área adversária como elemento surpresa. Foi assim no primeiro gol sobre o Arsenal, em lance que derrubou o Bellerín com cotovelada – involuntária para este que escreve.

Defende como lateral fazendo diagonal de cobertura, abre o jogo como ala e aparece na área quando a jogada é criada do lado oposto. Fundamental.

N’Golo Kanté – O campeão Leicester luta para não cair nesta temporada, o Chelsea praticamente com a mesma equipe da temporada passada que não pontuou sequer para jogar a Liga Europa é líder com folga. Não pode ser acaso.

O volante francês é um fenômeno de condição física e leitura de jogo. Corre, desarma, antecipa, intercepta. Enche o meio-campo. Com a bola joga bem simples, o básico sem comprometer. Conduz a bola e entrega para os alas ou para o trio de ataque. Faz a diferença, mesmo sem talento.

Eden Hazard – A chave do sucesso ofensivo. Conte recuperou o craque da Premier League 2014/15 e hoje o belga é o ponta que volta para compor a linha de quatro no meio e quando recupera a bola é a reserva de talento da equipe.

Circula por todo ataque, procura Pedro ou Willian e Diego Costa. Consegue ser organizador, velocista e finalizador quando necessário. Com espaços é capaz de explodir como no golaço que praticamente decidiu o clássico londrino pulverizando o sistema defensivo dos Gunners. Desequilibra.

Sequência sem lesões e com menos jogos- A chave mais importante. Desde a mudança de sistema e afirmação de um time base, a formação se alterou muito pouco. Especialmente na última linha defensiva. No meio, Fábregas no lugar de Matic e Willian na vaga de Pedro e na ausência de Diego Costa.

A ausência nas competições europeias é algo que não se deseja para a imagem e o investimento dos Blues. Mas ajuda a não desgastar nem desviar o foco. Ainda mais em um calendário com duas copas nacionais e o futebol mais intenso do planeta. A proposta de jogo de Conte exige fisicamente e o elenco está voando.Uma grande vantagem em relação aos rivais.


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