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Palmeiras na semifinal da Copa do Brasil já com toques do “método Felipão”
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André Rocha

A vitória por 1 a 0 sobre o Bahia no Pacaembu que coloca o Palmeiras na semifinal da Copa do Brasil contra o Cruzeiro é a segunda em mata-mata na volta de Luiz Felipe Scolari. A segunda com titulares num total de três em quatro jogos. Sem sofrer gols. O de Dudu foi o quarto marcado.

Pouco tempo. Mas o suficiente para perceber que já existem toques do “método Felipão” na equipe alviverde.

A começar pelo 4-2-3-1 que aproxima o meia central – Moisés, que deixa Lucas Lima no banco – de Borja, a referência do ataque. Exatamente para ser o jogador que pressiona o volante mais fixo na saída de bola do adversário. funciona como um desafogo na saída rápida em contragolpe e disputa pelo alto nas ligações diretas da defesa palmeirense quando pressionada. Certamente a estatura pesou a favor do camisa dez.

As bolas roubadas no campo do oponente continuam sendo uma arma importante quando surge a dificuldade para criar espaços. O contra-ataque mais perto da meta rival com a retaguarda desarrumada. Um recurso desde o Grêmio nos anos 1990, passando pelo Brasil campeão mundial em 2002. Quase rendeu gol em oportunidade clara de Willian após interceptação de Borja. Moisés também perdeu à frente do goleiro Anderson numa cobrança rápida de falta.

No primeiro tempo, a pressão no campo de ataque rendeu bola roubada por Borja que quase terminou em gol com Willian saindo à frente do goleiro Anderson. Velho recurso dos times de Felipão (reprodução SporTV)

Boas chances, mas construídas com pouco volume de jogo. Muito pela falta de aproximação no setor ofensivo. Willian e Dudu abertos, Moisés se juntando a Borja na maior parte do tempo e o espaço para a articulação sendo ocupado basicamente por Bruno Henrique, com um ou outro movimento de Moisés recuando para auxiliar.

O Bahia de Enderson Moreira no primeiro tempo foi um contraponto. No mesmo 4-2-3-1, porém com bola no chão e mobilidade do quarteto ofensivo. Zé Rafael saia da esquerda para dentro pensar o jogo com Vinícius e Edigar Júnio infiltrava em diagonal para se juntar a Gilberto. Assim saiu a melhor oportunidade na finalização na trave de Edigar, com Gilberto chutando no rebote em cima do próprio camisa onze e perdendo gol feito. Sorte de Felipão.

Antes do primeiro minuto da segunda etapa, Borja perdeu mais uma oportunidade cristalina tentando encobrir Anderson depois de um chutão de Edu Dracena. O Palmeiras voltou do intervalo com mais intensidade e concentração no trabalho defensivo, pressionando o adversário com a bola e melhor posicionado, especialmente Felipe Melo, para impedir a troca de passes na entrada da própria área.

Retomou domínio, ocupou o campo de ataque e chegou ao gol na melhor jogada trabalhada. Pela direita, com Mayke, que deixou Marcos Rocha no banco e foi o melhor passador da partida, tabelando com Moisés e cruzando na cabeça de Dudu. O camisa sete decisivo, mas que participava pouco do jogo. Combinação pelo flanco, cruzamento e ponta do lado oposto pisando na área para concluir, junto com Borja e Willian. Também uma prática comum dos times de Scolari.

Combinação rápida e precisa entre Mayke e Moisés e o cruzamento encontrando três palmeirenses na área adversária. Dudu completou e decidiu o jogo e a vaga nas semifinais da Copa do Brasil (reprodução SporTV).

Depois foi administrar com uma formação inusitada: Thiago Santos entrou na vaga de Borja e Hyoran substituiu Willian. Com isso, o 4-2-3-1 tinha Bruno Henrique como meia central, Moisés à direita e Hyoran mais adiantado. Força na marcação e um atacante descansado para correr sozinho na frente.

Deu certo. Triunfo com 60% de posse de bola, finalizando 13 vezes contra dez do Bahia – seis a quatro no alvo. Desarmando menos (15 a 19), porém interceptando mais (6 a 4). Também menos cruzamentos – 20 a 21 – e lançamentos – 37 a 39. O Palmeiras de Scolari não é exatamente moderno, mas tenta jogar.

Mesmo quando não consegue, tem como mérito nunca desistir. De tanto querer a vitória acaba aparecendo. Mais Felipão impossível.

(Estatísticas: Footstats)


Desta vez o Grêmio foi o “arame liso”. Flamengo passa no limite das forças
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André Rocha

O gol de Everton Ribeiro logo aos cinco minutos no Maracanã, completando assistência meio no susto de Lucas Paquetá, após falha do lateral Bruno Cortez, acabou decidindo o duelo parelho nas quartas de final. Mandou para casa o atual campeão da Libertadores e um dos maiores vencedores da Copa do Brasil.

Mas acabou condicionando o jogo e criando problemas para os dois times. O Flamengo recuou as linhas de seu 4-1-4-1, recuando demais os ponteiros Everton Ribeiro e Vitinho e ficando sem desafogo, já que Henrique Dourado continua com dificuldades para reter a bola na frente e dar sequências às jogadas. Quando não parava em Paquetá a bola batia e voltava.

Para o Grêmio tocar, tocar, tocar… até inverter da direita para esquerda, com Everton atraindo Rodinei para dentro e abrir para Cortez às costas de Everton Ribeiro. Mas foi pela direita a chance mais cristalina, mas concluída para fora por Everton, impedido. O time de Renato Gaúcho teve 60% de posse de bola. Finalizou oito vezes, duas no alvo. Faltou a chance cristalina.

Também por méritos do Fla. Na segunda etapa, coordenou melhor a proteção do setor direito. Rodinei subiu de produção, Paquetá passou a alternar com Everton Ribeiro na volta e negou os espaços. Com Luan sem inspiração, mesmo às vezes encontrando espaços às costas de Cuéllar, o Grêmio foi o autêntico “arame liso”, um problema recorrente do Fla nos últimos tempos. Cercou, cercou e não conseguiu furar o sistema defensivo rubro-negro que teve como principal virtude o resgate da concentração nos movimentos da última linha.

Foi o que sustentou a equipe de Maurício Barbieri, que parece estar no seu limite físico e mental. Por disputar a liderança do Brasileiro, o elenco está rodando pouco. Mas o maior problema é que o time faz muita força para jogar. Os ataques não fluem com facilidade, não há uma bola de segurança para os contragolpes – Vitinho voltou ao Brasil com uma lentidão incomum, a ponto de Marlos Moreno entrar e funcionar melhor como escape. Também não há um goleador que descomplica a disputa.

É um time sem respiro. Se desgasta para defender porque precisa da colaboração de todos para não sobrecarregar Cuéllar. Também cansa para atacar, porque normalmente precisa de muitas finalizações para ir às redes.

Desta vez conseguiu na primeira tentativa. Para “saber sofrer” por mais quase noventa em um jogo interessante em termos técnicos e táticos, porém muito tenso. Há muito a comemorar pelo valor do oponente, historicamente um rival duríssimo. Mas a questão é saber até quando o Fla vai suportar a luta como o único brasileiro com 100% de entrega em todas as frentes.

(Estatísticas: Footstats)


Já é hora de aceitar nossa alma copeira, caótica e amadora no futebol
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André Rocha

Você já foi voto vencido em decisão importante dentro da família, em reunião no trabalho ou de condomínio? Sempre vem aquela sensação de frustração, mas depois você costuma aceitar a conviver com aquilo que rejeita ou apenas discorda da prática.

Pois assim acontece também com quem sonha no futebol brasileiro com um calendário organizado, uma liga nacional forte e rentável. Por pontos corridos para a grande maioria das divisões visando garantir uma temporada completa viabilizando um planejamento de acordo com as receitas. Sem os estaduais, ou ao menos reduzindo bastante as datas e sendo tratados como torneios de pré-temporada para os times grandes.

Mas como pensar nisso se o chamado torcedor médio, ou a média do pensamento da maioria das torcidas, valoriza os torneios regionais, especialmente por causa dos clássicos, e estes geram boa audiência para a emissora que detém os direitos de transmissão que, por isto mesmo, paga uma boa cota?

Como convencer o dirigente a peitar a sua federação se ele prefere a aliança que pode dar uma vantagem aqui, uma arbitragem favorável acolá e fazer uma média com a torcida, podendo dizer no final do ano, se tudo der errado, que ao menos venceu algo na temporada e o rival não?

Como defender uma temporada inteira para o time de menor investimento se, na maioria das vezes, o dirigente pensa que é melhor se garantir com a cota do estadual e a chance de enfrentar os grandes mais vezes ao invés de buscar um crescimento sustentável, ainda que as partidas mais rentáveis se limitem aos possíveis confrontos na Copa do Brasil?

Como pensar em uma liga forte se os clubes que mais investem priorizam os torneios de mata-mata e escalam reservas no que deveria ser o principal campeonato? De que adianta Zinedine Zidane, tricampeão da Liga dos Campeões com o Real Madrid, dizer que considera o título da liga espanhola da temporada 2016/17 o mais importante da sua curta carreira como treinador porque, segundo ele, a disputa por pontos corridos é a que, de fato, premia o melhor trabalho?

Aqui a lógica é que para vencer as copas bastam quatro ou oito jogos, enquanto no Brasileiro ainda falta um turno inteiro. “Dá tempo de recuperar”, “temos que pensar no tiro curto”. Imediatismo, urgência, torcidas “bipolares” e insanas querendo taças para ontem.

Como discutir trabalhos longos de treinadores se na maioria das vezes a “dança das cadeiras” beneficia a maior parte dos agentes no processo? O dirigente porque “não ficou parado vendo o barco afundar”, o jogador que se cansa dos métodos e da convivência desgastante e gosta do “fato novo”. Os próprios treinadores, ao menos os mais renomados, que reclamam, mas faturam nessa roda viva com bons salários e multas rescisórias altas. Ou mesmo a imprensa, que gera pautas e esquenta os noticiários com as demissões, especulações do novo nome e depois os debates se “agora vai” com o técnico da vez.

Como defender a renovação do mercado de treinadores se os jovens muitas vezes repetem os erros dos veteranos? Ou acabam se perdendo em idealizações, enquanto os mais vividos se adaptam à nossa realidade caótica. Como defender profissionais como Roger Machado e Fernando Diniz se os seus conceitos, ao menos por enquanto, não fizeram eco nos clubes pelos quais passaram e um Renato Gaúcho volta depois de dois anos curtindo a praia e usa seu carisma de maior ídolo da história do Grêmio para resolver com simplicidade problemas que parecem tão complexos? Como duvidar do “messias” Felipão no Palmeiras, ao menos no mata-mata?

Remar contra a maré às vezes cansa. Exigir organização e planejamento para que todas as partes de beneficiem é pregar no deserto enquanto cada um está preocupado apenas com o seu problema. É o nosso jeito, não é fácil mudar. Já é hora de entender, mesmo sem aceitar, a nossa alma no futebol. Copeira, caótica, amadora. Com espasmos aqui e ali de profissionalismo, mas sem algo mais duradouro. Não é acaso que aqui haja tanta “alternância de poder”, sem um clube construindo uma “dinastia”.

E tantos gostam por ter mais equilíbrio, sem a previsibilidade de outras grandes ligas pelo mundo. Ainda que o nível técnico não seja dos melhores. Aliás, o que mais tem por aqui é o fã do “futebol testosterona”. O jogo “pra macho”. Ou seja, porradaria, jogo direto, bola parada, lateral na área adversária, disputa física, ódio ao rival (leia-se inimigo), “contra tudo e todos”, inclusive a imprensa.

E tem que ser sofrido, senão não tem graça. Sem “nhenhenhe” de posse de bola, conceitinho, jogo bonito e outras “frescuras”. É o jogo de Libertadores! Não por acaso tantos odeiam Pep Guardiola e outros treinadores que tentam fazer diferente.

Então que seja! Uma hora a mão cansa de esmurrar a ponta da faca. Felizmente hoje temos acesso ao melhor que o futebol internacional pode oferecer – pela TV ou agora por streaming – para quem vê o jogo e os processos no esporte de outra forma. Dá para todo mundo ser feliz. Melhor assim.


Grêmio sofre com “Everton-dependência”, mas segue vivo na Libertadores
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André Rocha

O gol de Kannemann aos 43 minutos do primeiro tempo trouxe o Grêmio de volta a um jogo que parecia não tão complicado assim, mesmo no Centenário de Quilmes. Mas André perdeu gol feito e, na sequência, o jovem Juan Apaloaza acertou o efeito em um chute espetacular. Na bola parada, os 2 a 0 com o zagueiro Gaston Campi.

O Grêmio teve chances para empatar, com André e o seu substituto, Jael – escolha questionável de Renato Gaúcho, já que o centroavante que começou no banco foi muito bem contra o Flamengo e parecia com as características ideais para o contexto da partida. Com a expulsão do meio-campista Fernando Zuqui aos 31 minutos do segundo tempo, o tricolor gaúcho parecia muito perto do empate, mas não conseguiu transformar a pressão no gol que evitaria o revés.

Porque faltou Everton. Artilheiro do time na temporada com 11 gols, melhor relação finalização/gol do elenco, líder de dribles certos no Brasileiro. Partindo da esquerda é o homem da vitória pessoal, da infiltração em diagonal, do escape nos contragolpes. Com os adversários mais atentos e permitindo menos espaços entre meio-campo e defesa para Luan é o camisa 11 o jogador capaz de quebrar as linhas de marcação do oponente e transformar a posse de bola gremista em contundência na frente. Fundamental!

Sem ele, mesmo com o esforço do jovem Pepê – corretamente mantido por Renato depois da boa atuação nos 2 a 0 sobre o Flamengo, o Grêmio fica sem seu elemento desequilibrante, o que tenta algo diferente. E vem conseguindo. O time já havia sentido demais sua falta no segundo tempo em que foi empurrado para o próprio campo pelo Fla na Copa do Brasil e ficou sem a velocidade como desafogo até ceder o empate em casa. A falta de profundidade pela esquerda se agrava quando Marcelo Oliveira ocupa a lateral e não Bruno Cortez.

A “Everton-dependência” é mérito do jogador, mas também de Renato, que perdeu Pedro Rocha, destaque na reta final da conquista da Copa do Brasil em 2016, e ajudou a aprimorar o atacante para assumir a titularidade e ser um dos destaques do título continental. Agora o treinador precisa trabalhar Marinho para se adaptar rapidamente ao modelo de jogo da equipe para ser a reposição sem queda de competitividade – ainda que este tenha atuado bem no time reserva e marcado gol sobre o Fla no sábado.

De qualquer forma, a lesão muscular não é grave e Everton deve estar em campo nos jogos de volta das competições em mata-mata, prioridades do clube na temporada. Com seu atacante mais efetivo, o atual campeão da Libertadores fica mais forte para ir ao Maracanã buscar a vaga no torneio nacional e depois receber e pressionar o jovem time do Estudiantes para seguir na sua trajetória vencedora e já histórica.

(Estatísticas: Footstats)


Pratas da casa têm participação direta em 60% dos gols do Flamengo
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André Rocha

Foto: Gilvan de Souza/Flamengo

O Flamengo marcou 28 gols no Brasileiro, sete na Libertadores e dois na Copa do Brasil. Total de 37. Destes, 22 foram marcados ou aconteceram completando assistências de jovens oriundos da base do clube. Os pratas da casa. Ou seja, 60%.

O Carioca não entrou na conta porque no início da competição o clube usou só a garotada e também porque, pela fragilidade dos adversários, ainda que o time não tenha sido campeão, os números ficariam “mascarados”. Vale o nível mais alto.

Vinícius Júnior marcou seis gols e serviu três passes para gols. Lucas Paquetá foi às redes cinco vezes e deu quatro assistências. Mais três de Vizeu, um de Matheus Sávio, outro de Matheus Thuler e o de Lincoln que garantiu o empate por 1 a 1 com o Grêmio em Porto Alegre pelas quartas de final da Copa do Brasil.

É evidente que todos são jogadores do Flamengo e no resultado final não há distinção entre quem é criado no clube e os contratados. Normalmente isto é até nocivo para o ambiente no elenco. Mas também é inegável que salta aos olhos os números dos meninos.

O Fla que equacionou dívidas e desde Paolo Guerrero em 2015 faz pelo menos uma contratação de impacto por temporada – Diego em 2016, Everton Ribeiro no ano passado e agora Vitinho, que fez sua estreia na arena gremista – tem precisado mais de seus jovens que o esperado.

Especialmente nos gols e assistências decisivas. Vinicius Júnior garantiu com duas conclusões cirúrgicas uma vitória fundamental para a classificação do Flamengo para o mata-mata na Libertadores: 2 a 1 sobre o Emelec em Guayaquil. Sua arrancada espetacular no Independência para servir Everton Ribeiro no 1 a 0 sobre o Atlético-MG também foi marcante. Sem contar o gol no empate contra o Vasco. Vizeu decidiu contra o Corinthians, Matheus Thuler empatou com o Palmeiras fora de casa. Matheus Sávio encaminhou o triunfo sobre o Botafogo com gol e o cruzamento que terminou no gol de Paquetá.

Em Porto Alegre, Lincoln evitou com finalização precisa no último ataque uma derrota que seria bastante doída. E injusta por conta da melhor atuação coletiva do Flamengo sob o comando de Mauricio Barbieri. Num jogo grande e fora de casa há bem mais tempo o time não rendia tanto. 58% de posse, 20 finalizações contra 14 do Grêmio. Trinta minutos dos 45 e mais os acréscimos do segundo tempo encurralando o campeão da Libertadores dentro da sua casa.

Mas de novo a dificuldade para transformar chances em gols. Mais uma vez um garoto salvou o time. Considerando que eles são minoria na maioria das partidas – só contra o Palmeiras contou com seis jovens oriundos da base na formação inicial – é um dado impressionante.

Ótimo para o clube, que forma, tem retorno técnico e financeiro, já que é inevitável perdê-los para os europeus. Mas fica uma pequena ressalva: os mais experientes e caros dentro de um dos elencos mais valiosos do país poderiam decidir mais e tornar o time de Barbieri ainda mais forte. Vizeu e Lincoln marcaram quatro gols, com o primeiro iniciando apenas um jogo como titular. Henrique Dourado, Guerrero e Uribe, começando bem mais partidas como titulares, conseguiram apenas oito. Entre as estrelas, o destaque é Everton Ribeiro com cinco gols e duas assistências.

Não é pouco, mas pode ser mais. O Fla tem mesmo que celebrar os frutos de mais investimento em estrutura e formação de talentos, porém deve cobrar também de suas estrelas. Na hora da dificuldade precisam assumir a responsabilidade e não apenas se limitar ao papel de coadjuvantes de luxo.

(Estatísticas: Footstats)

 

 


Cruzeiro pragmático vence Santos (ainda) sem identidade
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André Rocha

O duelo na Vila Belmiro com chuva pelas quartas da Copa do Brasil marcava a estreia de Cuca no Santos. Contra o trabalho mais longo da Série A: do Cruzeiro, com Mano Menezes no comando técnico desde julho de 2016.

Por isso as linhas avançadas e a marcação por pressão nos primeiros minutos do time mineiro, mesmo como visitante. No 4-2-3-1 habitual, com Robinho pela direita participando mais da articulação e dando liberdade a Thiago Neves e De Arrascaeta para se aproximarem de Hernán Barcos.

Mas aos poucos o Cruzeiro foi cedendo campo ao time mandante. Um pouco de insegurança por conta das derrotas para Corinthians e São Paulo depois das vitórias sobre América e Atlético-PR logo após a volta da Copa do Mundo. Muito pela grande marca de seu treinador: o pragmatismo.

Desde a primeira passagem, ainda em 2015, Mano Menezes deixa a impressão de que pode fazer seu time entregar mais, porém o time prioriza o resultado. Sem o “gol qualificado” no torneio, ir às redes fora de casa nem era tão importante assim.

Mas foi, com Raniel em bela virada. O substituto de Barcos deu mais rapidez e mobilidade no ataque. Não pode ser reserva, pois suas características casam melhor com as dos companheiros. Gol justamente quando o Santos era melhor em campo.

No primeiro tempo parecia clara a falta de identidade em campo do time da casa. O conflito entre a maneira de jogar de Jair Ventura e o que Cuca pensa e aplica em seus times. Por isso a opção pelo 4-1-4-1 que adiantava Renato como um meia ao lado de Diego Pituca e tinha Bruno Henrique pela esquerda no ataque e o revezamento entre Rodrygo e Gabriel Barbosa à direita e no centro do ataque. Dependia fundamentalmente das individualidades.

Na saída de bola, adiantava os laterais Victor Ferraz e Dodô e recuava Renato e Alison para ajudar os zagueiros David Braz e Gustavo Henrique. Dificuldade no início, mas aos poucos foi se ajustando e aproveitando o recuo gradativo do adversário. Cresceu quando Cuca trocou Renato, extenuado no campo molhado, por Daniel Guedes. A primeira intervenção do novo treinador foi deslocar Victor Ferraz para o meio-campo, talvez tendo em mente a prática de Dorival Júnior de fazer seu lateral direito apoiar por dentro.

Por ali saiu a jogada para a finalização de Gabriel que obrigou Fábio a grande defesa. Na primeira descida cruzeirense após o susto, o gol que encaminha a classificação que deve ser confirmada no Mineirão. Triunfo com 38% de posse cinco finalizações, duas no alvo, contra nove santistas – também apenas duas na direção da meta de Fábio. Não foi um grande jogo.

Típico do atual campeão do torneio. Pode não funcionar sempre e até dar a impressão de entregar menos que pode pela qualidade do elenco para o nível do futebol jogado no país. Mas é uma identidade e vem alcançando resultados.

Tudo o que Cuca não tem como “herança”. Por isto precisará de ainda mais trabalho. Recebeu terra arrasada e precisa reorganizar quase tudo. Olhando pelo lado positivo, a provável eliminação da Copa do Brasil pode dar o que o treinador campeão brasileiro de 2016 mais precisa: tempo. Até porque há Libertadores e mais de um turno no Brasileiro para salvar a temporada.

(Estatísticas: Footstats)


Volta de Felipão e “Caso Renato Gaúcho” têm semelhanças e diferenças
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André Rocha

Quando foi anunciada a volta de Luiz Felipe Scolari ao Palmeiras depois de seis anos para suceder o demitido Roger Machado, imediatamente surgiu nos debates esportivos e nas redes sociais a discussão sobre o recuo de um grande clube na busca por treinadores mais jovens e antenados.

Impossível não associar ao “Caso Renato Gaúcho”. Não tão vivido quanto Felipão, mas que também parecia fora do mercado brasileiro e se transformou no treinador mais vitorioso dos últimos dois anos em sua volta triunfal ao Grêmio com títulos da Copa do Brasil, Libertadores, Recopa Sul-Americana e Campeonato Gaúcho.

Os casos têm semelhanças, mas também diferenças marcantes. A começar pelo tempo de inatividade. Renato deixou o Fluminense em 2014 depois de um trabalho muito aquém das expectativas e ficou mais de dois anos parado. Já Scolari estava desde 2015 no Guangzhou Evergrande e empilhou títulos: campeão asiático em 2015, tri chinês e mais a Copa e o bi da Supercopa do país. Mesmo em uma liga menos competitiva é um retrospecto respeitável.

Mas Renato tinha algumas vantagens no tricolor gaúcho. É o maior ídolo da história do clube e, principalmente, desenvolveu bons trabalhos nas passagens em 2011 e 2013, garantindo vaga para a Libertadores em campanhas de recuperação. Ao contrário de Felipão no Palmeiras, o treinador encontrou o legado de um trabalho mais estruturado e longo de Roger Machado. Sem contar que num contrato inicial de apenas três meses por conta da eleição no clube não havia tanta pressão para tirar o Grêmio do jejum de 15 anos sem uma conquista relevante desde a Copa de Brasil de 2001.

Por outro lado, Felipão pode repetir com Paulo Turra, seu auxiliar junto com Carlos Pracidelli depois que Murtosa desistiu de acompanhar a comissão técnica do treinador, a parceria mais que bem sucedida de Renato com Alexandre Mendes. Enquanto o assistente, mais estudioso, trabalha na metodologia de treinamentos para manutenção do modelo de jogo, o técnico cuida dos detalhes estratégicos da equipe e, especialmente, da gestão de grupo para manter todos mobilizados. Sem contar o carisma e a coragem para lidar com imprensas e as pressões internas e externas.

Só que a última passagem de Scolari pelo clube paulista em 2012 teve dois lados bem distintos: conquista da Copa do Brasil com uma equipe limitadíssima, mas também a campanha pífia no Brasileiro que encaminhou o rebaixamento. Uma mancha que coloca uma ponta de dúvida no torcedor, assim como o emblemático 7 a 1 para a Alemanha pela seleção brasileira.

O trabalho no Grêmio em 2014/15, também não terminou bem. Abriu espaço para Roger Machado, sucedido por Renato. Agora é Scolari quem substitui Roger, mas em um cenário bem mais complexo. No olho do furacão.

O treinador da conquista da Libertadores em 1999, porém, tem muitos créditos e chega com aura de messias. Um toque de sebastianismo em ambiente político conturbado. O típico “escudo” que todo dirigente quer para sair do foco da ira de um torcedor que quer ver o alto investimento se traduzindo em títulos e se desiludiu com a volta frustrante de Cuca no ano passado. A cobrança será proporcional à esperança.

Mas tem boas chances de funcionar, especialmente nas disputas de mata-mata. No nosso futebol brasileiro passional e um tanto caótico, já está claro que se houver química e a dosagem certa de razão e emoção tudo pode dar muito certo. Aconteceu com Renato Gaúcho, por que não com Felipão?


São Paulo cruza tempestade com nove pontos em doze. Agora é com o Flamengo!
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André Rocha

A sequência dura para o São Paulo veio na volta da parada para a Copa do Mundo: o próprio time carioca no Maracanã, clássico contra o Corinthians, Grêmio em Porto Alegre e Cruzeiro no Mineirão. Sequência em que não seria nenhuma catástrofe somar quatro ou cinco pontos. O time de Diego Aguirre conseguiu nove!

Os três últimos num daqueles jogos de afirmação como candidato ao título. Logo após uma derrota doída de virada para o atual campeão da Libertadores, com um dia a menos de descanso que o adversário, sem os suspensos Militão, Arboleda e Hudson, mais o lesionado Jucilei. Diante de um Cruzeiro precisando de recuperação depois da derrota para o Corinthians em São Paulo, mesmo cumprindo boa atuação.

O tricolor paulista foi pragmático: Araruna na lateral direita, Bruno Alves na zaga, Liziero e o garoto Luan na proteção da defesa no mesmo 4-2-3-1. Novamente muita eficiência nos contragolpes. O primeiro de manual, no rebote da bola parada: partindo de Reinaldo pela direita, invertendo para Rojas deslocado pela esquerda. Assistência do equatoriano e gol de Diego Souza. No segundo tempo, outra saída rápida. De Rojas para Reinaldo, que chutou e, no rebote de Fabio, serviu Everton em condição legal.

Duas das quatro finalizações no alvo em um total de oito. 48% de bola. Também sorte na cobrança de pênalti de Barcos no travessão de Sidão com o placar em 1 a 0. O time mineiro finalizou também quatro no alvo, mas em um total de 15. O São Paulo, mais uma vez, foi letal.

E tem a chance de tomar a liderança do Brasileiro em agosto. Eliminado na Copa do Brasil, terá apenas a Copa Sul-Americana em paralelo. Dependendo do que acontecer no jogo de ida na quarta no Morumbi pode até priorizar totalmente a competição nacional. Encara Vasco, Chapecoense e Ceará em casa e sai contra Sport e Paraná. Todos na metade de baixo da tabela, Três na zona de rebaixamento antes do início da 16ª rodada. Em cinco jogos pode sonhar com 11 ou 12 pontos.

Já o Flamengo, que manteve os dois pontos de vantagem na dianteira, terá um mês insano. Com uma particularidade: enfrenta no Brasileiro os adversários nas quartas da Copa do Brasil e nas oitavas da Libertadores. Ou seja, três duelos contra Grêmio e Cruzeiro. Dois fora contra os gaúchos e dois em casa diante dos mineiros.

Com desgaste emocional, rivalidade, questões de arbitragem, entradas duras e discussões transferidos de um jogo para o outro. Sem contar a necessidade de rodar um elenco que até aqui não demonstrou força e versatilidade para a empreitada. Ainda América-MG e Atlético-PR fora. O único jogo tranquilo, em tese, seria o Vitória no Rio de Janeiro. Nove partidas contra sete do principal concorrente.

Uma missão que não é impossível e a atuação nos 4 a 1 sobre o Sport, com destaque para Marlos Moreno e Everton Ribeiro, somada à chegada de Vitinho credencia o rubro-negro a sair vivo no mata-mata e nos pontos corridos. A questão é se entra setembro ainda no topo da tabela do Brasileiro. Porque o São Paulo mostrou resistência ao cruzar a tempestade e agora espera o céu de brigadeiro para chegar à primeira colocação e até tentar abrir vantagem. Como duvidar?

(Estatísticas: Footstats)


Romero é a marca da “identidade Corinthians” em mais uma reconstrução
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André Rocha

Fabio Carille teve oportunidades como interino antes de ser efetivado como treinador do Corinthians em 2017. Quando saiu com status de vencedor, o sucessor Osmar Loss não desfrutou de tempo para “estágio”. Mesmo em um time campeão brasileiro e bi do Paulista não é uma transição simples.

Para piorar, a continuação de mais um desmanche por conta dos problemas financeiros do clube. Antes Pablo, Jô e Guilherme Arana, depois Balbuena, Sidcley, Maycon. Por último, Rodriguinho. Protagonista e melhor finalizador. Como único contraponto, a permanência de Jadson.

A solução foi manter a identidade de organização e concentração defensiva, mesmo com muitos erros individuais e natural desentrosamento na última linha da retaguarda, e buscar a melhor reposição possível. Na lateral esquerda, Danilo Avelar vai ganhando confiança e encaixe. No meio, Douglas tem passe mais qualificado que Renê Júnior e melhora a dinâmica e a construção de jogadas.

Na frente, com Roger lesionado e Jonathas ainda se adaptando, Loss recorreu ao 4-4-2 sem centroavante dos tempos de Carille. Na frente, o retorno de Jadson e liberdade para o grande personagem desta tentativa de reação no Brasileiro com as vitórias por 2 a 0 sobre o Cruzeiro em Itaquera e 4 a 1 contra o Vasco no Mané Garrincha.

Ángel Romero marcou cinco dos seis gols da equipe, mas não só isso. Muita mobilidade quando atua solto na frente, sempre rondando a área adversária, e a já conhecida eficiência nas finalizações. Ainda a volta pela direita para compensar a intensidade e a resistência não tão altas de Pedrinho para fazer a função pelo lado. Dá liberdade ao jovem talentoso, mas não deixa de participar das ações ofensivas.

No segundo tempo em Brasília, a melhor atuação corintiana sob o comando de Loss. Com algumas marcas da maneira de jogar construída por Mano Menezes e Tite e ratificada por Carille: apenas 47% de posse e nove finalizações. Seis no alvo, quatro gols. Apenas oito desarmes certos contra 23 do Vasco. Mas oito interceptações corretas e nenhuma do adversário. Consequência de um time melhor posicionado. A “identidade Corinthians”.

Evolução importante para um momento fundamental da temporada, com as disputas de mata-mata na Copa do Brasil e na Libertadores chegando. Com tantas mudanças recentes é difícil vislumbrar regularidade suficiente para ser competitivo em três frentes. Mas a impressão é de que mais uma vez o Corinthians pode minimizar em campo os problemas crônicos de gestão.

Com mais um que “herda” protagonismo: já foi Jadson, depois Jô, Rodriguinho… Agora é a vez de Romero. Antes desprezado e até motivo de chacota, agora a estrela de mais uma reconstrução do atual campeão brasileiro.

(Estatísticas: Footstats)


Santos de Jair Ventura é o time mais previsível do Brasil
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André Rocha

O Santos está nas quartas de final da Copa do Brasil e terminou com líder do Grupo 6 da Libertadores. Começou mal o Brasileiro, mas em seis rodadas e com uma parada para a Copa do Mundo pela frente o impacto é menor. O clube, porém, vive uma crise. Quase existencial.

Jair Ventura fala em “cobrança por show”, Gabigol critica vaias da torcida. Mas o fato é que a desconfiança que existia em relação à capacidade do treinador fazer sua equipe jogar com posse de bola no campo de ataque quando necessário, mesmo com elenco mais qualificado em relação ao Botafogo, se transformou num fato. Inquestionável.

Muito simples jogar tudo na conta da ausência de um “camisa dez” para justificar a criatividade quase nula e dependência de espaços e falhas do adversário para chegar na frente em condições de finalizar. Mas o que falta ao time, de fato, é o chamado jogo entre linhas.

Eduardo Sasha e Gabigol, mais que o garoto Rodrygo, tentam compensar voltando pelo centro para ajudar Vitor Bueno ou Jean Mota na articulação. Mas há pouca mobilidade e fluência entre a defesa e o meio-campo adversários. Sem triangulações, busca do homem livre. O time roda a bola, que chega nos laterais Daniel Guedes ou Victor Ferraz e Dodô e sai o cruzamento. Ou a tentativa de um lançamento às costas da defesa para um dos três atacantes. Ou tentar na bola parada. Sem espaços o time toca, gira e até finaliza, mas não consegue criar a chance cristalina, que facilita a conclusão.

Com isso temos o time mais previsível do Brasil entre os grandes clubes. Não é ser “retranqueiro”, mas sim sofrer para jogar como protagonista. Algo obrigatório na maioria dos jogos pela camisa santista, a condição de grande. O “DNA” vem na carona, na cultura do clube e na preferência do torcedor. A questão está longe de ser estética. O desempenho simplesmente não satisfaz, apesar dos resultados nos torneios de mata-mata que vão dando sobrevida ao treinador.

Jair sempre cita Diego Simeone como sua referência. O treinador argentino também conviveu com problemas para fazer seu Atlético de Madri criar espaços. Resolveu com mudança no perfil de contratações e de captação nas divisões de base, mas também na dinâmica da equipe. Hoje Griezmann é um dos “reis” do jogo entrelinhas na Europa, circulando fácil às costas do meio-campo do oponente. Questão de tempo, aprendizado, evolução.

É óbvio que a volta de Bruno Henrique e a contratação de um meia criativo podem dar um encaixe melhor à equipe e Jair Ventura, um jovem treinador em ascensão, pode evoluir e encontrar soluções criativas tornar a posse de bola da equipe mais objetiva. Mas o rendimento ofensivo até aqui beira a indigência.

Em um grupo que se mostrou acessível, apesar de clubes tradicionais como Estudiantes e Nacional, marcar apenas seis gols no mesmo número de partidas chega a ser ridículo. Nenhum no fraquíssimo Real Garcilaso. Apenas um ponto conquistado contra o time peruano. Justamente pela dificuldade por conta da obrigação de atacar. Sintomático.

Nas estatísticas do torneio continental é apenas o 18º que mais finaliza. Os melhores números estão nos passes certos: 92,2%  de efetividade, o sexto melhor. Muito por conta dos toques laterais, simples. Que são importantes, mas apenas como uma circulação de bola em busca do essencial: a infiltração. De preferência no funil, na zona mais perigosa – pode dentro ou nas penetrações em diagonal. Raridade no alvinegro praiano.

Uma das camisas que mais “fedem” a gol no planeta vive um período de ocaso. O primeiro passo para a mudança é admitir o problema, ainda que só internamente. A carência é de ideias, mais que de peças. O Santos precisa voltar a se reconhecer em campo.

(Estatísticas: Footstats)