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Só os 100% garantem a paz de Roger Machado no Palmeiras?
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André Rocha

O Palmeiras precisou de oito minutos de pressão e alta intensidade no Allianz Parque para marcar os gols de Antônio Carlos, aos três do primeiro tempo, e Borja aos cinco do segundo, que garantiram a vitória por 2 a 1 sobre o Santos no primeiro clássico do time em 2018. Aos sete da primeira etapa ainda carimbou a trave de Vanderlei na cobrança de falta de Lucas Lima em sua primeira partida contra o ex-clube.

Mas depois o time de Roger Machado abdicou um pouco do seu jogo, permitindo que o Santos tivesse a bola – terminou com 52% de posse, segundo o Footstats –  e ocupasse o campo de ataque. Mesmo finalizando dez vezes contra sete do rival, a postura cautelosa parece muito focada no resultado, que tinha sua importância, mas neste início de temporada não deve ser tratado como prioridade.

Mais valia seguir exercitando a saída de bola com Felipe Melo, o grande destaque individual neste início de trabalho, se juntando aos zagueiros Antônio Carlos e Thiago Martins e liberando os laterais Marcos Rocha e Victor Luís. Ou a troca de Lucas Lima e Tche Tche, com o meia recuando para qualificar o passe e o volante se aproximando do trio de ataque para acelerar as ações no último terço do campo.

Só que Roger sabe que precisa dos resultados para ganhar confiança. O time necessita, mas ele principalmente. “Se as coisas não acontecerem serei cobrado”, disse na coletiva depois do jogo. Escaldado pelo que aconteceu com Eduardo Baptista, ainda que agora não tenha uma sombra do tamanho da de Cuca, que esmagou seu sucessor/antecessor em 2017.

Precisa ser assim sempre? Por mais que time grande, ainda mais com tamanho investimento, viva de vitórias, será que é tão fundamental assim jogar por resultado na quinta partida do ano? Só os 100% garantem a paz do treinador para trabalhar?

Em março de 2015, o Santos venceu o Palmeiras pelos mesmos 2 a 1. Quem lembra deste primeiro clássico, ou mesmo da conquista do Paulista pelo alvinegro praiano nos pênaltis se na final mais importante, a da Copa do Brasil, o alviverde foi o campeão superando o rival? O mesmo vale para a semifinal do estadual em 2016. O Santos levou, mas o palmeirense não vai tratar como um fracasso no ano em que voltou a ser campeão brasileiro depois de 22 anos.

Será que vale dar ouvidos à histeria imediatista de torcedor e parte da imprensa sacrificando a oportunidade de exercitar o modelo de jogo que busca o protagonismo durante os noventa minutos e fazer experiências no estadual em nome dos três pontos que nem eram tão fundamentais assim, já que mesmo com derrota o time seguiria líder do Grupo C?

Impossível não lembrar de Dunga em sua segunda passagem pela CBF em 2014 como treinador. Vitórias em amistosos tratados como verdadeiras finais para “resgatar a imagem do futebol brasileiro” depois dos 7 a 1. De que valeu se no início da disputa das eliminatórias e nas edições da Copa América sua equipe fracassou em desempenho e resultados, fazendo a seleção brasileira perder dois anos de trabalho que podem custar caro a Tite na Rússia?

O próprio Roger teve experiência amarga no Atlético Mineiro. Campeão mineiro, melhor time da primeira fase da Libertadores. O treinador falou em “respaldo para trabalhar”. Mas bastou um começo hesitante no Brasileiro emendado com o vacilo contra o Jorge Wilstermann nas oitavas da Libertadores para vir a demissão. De que serviu o bom primeiro semestre se no dia 20 de julho estava desempregado?

O Palmeiras não precisa estar pronto agora. Pode dar mais minutos para Willian, Borja e Dudu afinarem a sintonia, com o camisa sete agora mais articulador acionando os dois companheiros finalizadores. E quando os ponteiros buscam a diagonal, Tche Tche aparece no espaço para buscar o fundo do campo, alternando com os laterais. Movimentos que precisam ganhar naturalidade até a estreia na Libertadores.

Sem essa urgência insana por vitórias. Quem vai lembrar no final do ano que o time era o único 100% da Série A nos cinco primeiros jogos da temporada se a equipe não for bem nas competições mais importantes?

Não é querer ser “parnasiano”, “romântico” ou “moderninho” por “desprezar” o resultado. Muito menos desrespeitar a história de um dos clássicos mais tradicionais do nosso futebol. Só uma questão de lógica. Estadual é sequência de pré-temporada. A evolução pensando no futuro vale mais que os pontos ganhos hoje. Ou deveria valer.

 


Pressionar qualquer time brasileiro agora é covardia. Cenário é dramático!
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André Rocha

Foto: Marcello Zambrana/AGIF

O ano virou com a constatação de que nossos times estavam atualizando seus conceitos no trabalho defensivo. Sem a bola vemos compactação, coordenação dos setores, concentração e preocupação em negar espaços ao adversário. Algo já ficando parecido com o que se vê pela TV nos grandes campeonatos do mundo.

Mas é nítido que falta organização para atacar. Tudo ainda fica entregue à intuição e ao talento. Vemos pouco jogo associativo, deslocamentos para dar opção ao companheiro, ultrapassagens apenas para atrair a marcação. Trabalho coletivo, fundamental exatamente para criar espaços em retaguardas sólidas e bem fechadas.

Começa 2018 com suas não mais que duas semanas de pré-temporada e já temos times pressionados. Por torcida, imprensa, dirigentes… Ainda que a maioria dos adversários nos estaduais não joguem a Série A do Brasileiro e muitos sequer tenham divisão para disputar no segundo semestre, os treinadores também têm acesso às informações para qualificar o trabalho sem a bola. Aproximar setores ou mesmo estacionar um ônibus na frente da própria área.

Em 15, 20 dias de treinos e jogos não foi possível resolver os problemas de 2017. Ainda mais para quem trocou de treinador e mudou a base titular. Logo, o sofrimento para abrir defesas está lá. Muitas vezes em gramados ruins, com o calor do verão, etc.

É covardia cobrar demais agora. Não é passar pano ou blindar. Apenas ser razoável. Qualidade com regularidade neste início é utopia. Quem conseguir agora tem que se preocupar, porque pode faltar nos momentos mais importantes. Ainda que se trate como relevante a reta final dos estaduais.

Agora é o momento de testar, oscilar. Errar. Pedir a cabeça de Dorival Júnior no São Paulo pela estreia com derrota utilizando reservas no Paulista contra o São Bento só porque o time flertou com o Z-4 em 2017 e não ganha um título desde 2012 beira a insanidade. Ganhar do Novorizontino no Morumbi virou obrigação. Com o empate sem gols, vaias e mais cobranças. Dorival já sinaliza uma mudança no planejamento. Como questionar alguém que já se sente ameaçado em um ambiente já conturbado por conflitos políticos e outras particularidades?

O mesmo vale para todos os clubes, uns mais e outros nem tanto. Palmeiras, Flamengo e Internacional começaram com duas vitórias. Cada um com seu contexto. Mas também não estão isentos das mazelas de um calendário inchado, irresponsável. Inclusive podem pagar mais à frente pelo sucesso inicial. Porque não há tempo.

É obrigação vencer o pequeno. No clássico não pode perder. No Brasileiro todo jogo é importante. Libertadores é prioridade, Copa do Brasil é mata-mata, tiro curto, tem que dar tudo. Por mais que se alegue que na elite do futebol do país os salários estão muito acima da média do trabalhador comum e que muitos dariam a vida para ter como ofício algo tão prazeroso como jogar bola, a exigência é desproporcional. Massacrante.

Com o problema para criar espaços tudo fica ainda mais complexo. Então tome cruzamentos, na bola parada ou com ela rolando (ou voando)! Resultadismo para atender o imediatismo e seguir empregado, poder sair na rua, viver em paz.

Muitos dirão “quem não quer pressão que vá trabalhar em outra coisa”. Não estão de todo errados, é o ônus de tantas vantagens e privilégios. O que se questiona é a pouca inteligência de não entender os processos, exigir soluções mágicas e duradouras. Vencer sempre. Sem trégua. Se não atender, troca. E troca até “dar certo”.

Sem tempo não há trabalho, entrosamento e o produto final que pode resolver essa carência de ideias quando se está com a bola. A pressão por mudanças é o veneno tratado como remédio. Treinadores e jogadores não precisam de salvo conduto, cabide de emprego ou estabilidade de serviço público. Só de um pouco de paz. Sem gente histérica perseguindo, com ou sem microfone – ou teclado do computador ou celular com acesso às redes sociais.

O cenário já é dramático no final de janeiro! Pelo visto, serão mais onze meses no mesmo dilema.


Palmeiras e Flamengo, decepções em 2017 com caminhos opostos no novo ano
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André Rocha

Para o tamanho do investimento e a expectativa gerada, Palmeiras e Flamengo tiveram desempenho e resultados decepcionantes em 2017. Por mais que se compreenda que não basta ter dinheiro para construir um bom time de futebol, em nenhum momento as equipes apresentaram rendimento que as colocassem como favoritas na prática aos títulos que disputaram. Especialmente a Libertadores, tratada como prioridade. Apesar do vice brasileiro do alviverde e da Copa do Brasil pelos rubro-negros.

Portanto, o fim da temporada deveria servir para reflexões e ajustes na rota para o novo ano. Por força das circunstâncias, os clubes acabaram tomando caminhos opostos.

O Palmeiras agiu rápido. Manteve o interino Alberto Valentim até o fim da competição nacional, mas, antes disto, anunciou Roger Machado como treinador e começou o planejamento. Desta vez sem loucuras. Manutenção da base e reforços nas carências detectadas: laterais com Marcos Rocha e Diogo Barbosa e articulação com Lucas Lima.

O elenco ainda não se apresentou, mas é possível vislumbrar, dentro da visão do novo comandante, o Palmeiras num 4-2-3-1 com um meio-campista fazendo o lado direito da linha de meias. Como Giuliano no Grêmio e Elias no Atlético Mineiro. Para este que escreve Tchê Tchê seria interessante, por já ter atuado na lateral e a possibilidade de formar boa dupla com Marcos Rocha.

Do lado oposto, Dudu seria o ponteiro mais vertical, buscando as infiltrações em diagonal para se aproximar do centroavante que pode ser Borja, até porque todo treinador que chega fica tentado a buscar uma solução para a contratação milionária que não vingou antes dele. Deyverson e Willian seriam opções.

Na zaga quem estiver melhor faz dupla com Mina, ao menos até o meio do ano. Na frente da defesa, Moisés deve ser recuado para que Lucas Lima atue na função em que se sente mais confortável. Mais fixo na proteção, Felipe Melo e Bruno Henrique devem disputar a titularidade em uma proposta baseada em protagonismo pela posse de bola, setores próximos e movimentação ofensiva.

Tudo ainda numa análise baseada em hipóteses, mas que já deixa claro que o time paulista pode até não conseguir resultados melhores e as conquistas esperadas. Desta vez, porém, o trabalho foi feito de forma mais racional e o grupo de jogadores parece mais homogêneo. Inclusive com as chegadas de Weverton e Emerson Santos. A melhor notícia é ter praticamente tudo definido na reapresentação.

Eis o dilema do Flamengo, que fechou 2017 em 13 de dezembro, perdendo a final da Copa Sul-Americana. Desde então convive desconfortavelmente com a indefinição do treinador Reinaldo Rueda, que ainda não confirmou se fica no clube em meio a sondagens e propostas de clubes e seleções sul-americanas.

Rueda tem o direito de resolver seu futuro com calma, mesmo com contrato em vigor. O problema mais grave é a insegurança da direção do clube no momento de contratar ou dispensar. Pode perder o timing na ida ao mercado.

Ainda que a base seja mantida, por convicção ou necessidade. A informação oficial é de que, no momento, só há cinco milhões de reais disponíveis para contratações. Os nomes de Zeca e Pablo surgem no noticiário como bem encaminhados, mas tudo parece em suspenso.

É possível pensar numa estrutura com Diego Alves na meta, Réver e Juan na zaga, Cuéllar no meio-campo, as incógnitas Diego Ribas e Everton Ribeiro na articulação, Lucas Paquetá e Vinícius Júnior pedindo passagem nas pontas do 4-2-3-1 e outra grande questão: quando Paolo Guerrero poderá retornar ao time? Sem ele, suspenso por doping até maio, Filipe Vizeu e Lincoln parecem verdes para assumir a responsabilidade no ataque.

Ainda assim, segue como um time que pode ser forte com Rueda ou outro treinador que consiga combinar melhor as características dos jogadores e fazer o time deixar de ser dependente das jogadas pelos flancos e dos muitos cruzamentos. É preciso sair do dilema de se obrigar a propor o jogo como filosofia – pela tradição do clube, exigência da torcida e por conta do investimento realizado – e ter atletas com estilo mais reativo, que necessitam do espaço para criar. A impressão é de que o Fla precisa de ruptura, um giro de 180 graus, e Rueda tem um estilo mais administrador, que faz ajustes sem alterar o modelo de jogo.

Em meio aos altos e baixos naturais no calendário brasileiro, ainda mais com uma Copa do Mundo no meio, trabalhar certo em janeiro não garante felicidade em dezembro, mas ajuda bastante. O Palmeiras sai na frente com inteligência e agilidade. Perder tempo era tudo que o Flamengo não precisava para começar 2018.

 


Cruzeiro de Mano passa o Grêmio e pode repetir Flu 2007, de Renato Gaúcho
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André Rocha

Foto: Denis Dias/Gazeta Press

O Cruzeiro foi o primeiro campeão brasileiro da era dos pontos corridos. O primeiro e único a vencer também a Copa do Brasil, no 2003 mágico da “tríplice coroa”. Quase repetiu o feito em 2014, mas o arquirrival Atlético impediu vencendo a final mineira da Copa do Brasil.

2017 foi o ano do penta no grande torneio nacional de mata-mata, nos pênaltis contra o Flamengo.  Pode também ser o de uma nova grande campanha no Brasileiro depois de duas edições após o bicampeonato flertando mais com Z-4 que com título ou vaga na Libertadores.

Com a vitória por 1 a 0 sobre o Grêmio em Porto Alegre, gol de Rafael Sóbis, eterno ídolo do Internacional, maior rival do adversário, o time de Mano Menezes ultrapassa Santos e o próprio time gaúcho para dormir na vice-liderança do Brasileiro. Se mantiver os bons resultados abrirá uma vaga na Libertadores dentro da competição por pontos corridos.

O mesmo que conseguiu o Fluminense em 2007. Campeão da Copa do Brasil em 6 de junho vencendo o Figueirense em Florianópolis, gol de Roger Machado, hoje treinador. Antecessor de Renato Gaúcho no Grêmio, comandante do tricolor carioca há uma década. O eterno falastrão que no ano seguinte diria que “brincaria” no Brasileiro se vencesse a Libertadores e, com a derrota nos pênaltis para a LDU no Maracanã, terminou o ano sem conquistas. Como corre o risco agora depois de tantas bravatas e autoelogios ao longo da temporada – mas também bom futebol, que parece cada vez mais perdido em funções de tantas alterações na equipe base.

Naquele 2007, porém, Renato conseguiu manter o Flu alerta e, mesmo com vaga assegurada no torneio continental e vendo o São Paulo disparar para o então bicampeonato que viraria tri no ano seguinte, fez ótimo segundo turno. Vencendo, inclusive, o incrível Flamengo de Joel Santana que acabou uma posição acima, pelo número de vitórias. Com isso abriu uma vaga na Libertadores que acabou caindo no colo…do Cruzeiro, à época comandado por Dorival Júnior.

Há uma década, o Grêmio, então sob o comando de Mano Menezes, chegou à final da Libertadores contra o Boca Juniors de forma até surpreendente. Foi, porém, superado pela equipe de Juan Roman Riquelme e não pôde retornar no ano seguinte. Por pouco, já que terminou o Brasileiro em sexto lugar. Dois pontos atrás… do Cruzeiro.

Em dez anos o mundo da bola girou e agora encontra clubes, personagens e contextos parecidos. Como será o desfecho desta vez? O Cruzeiro de Mano Menezes está sereno, o Grêmio de Renato tem motivos para se preocupar. Mas ainda pode virar o jogo bonito em 2017, inclusive encarando o Real Madrid nos Emirados Árabes Unidos. Quem vai saber?


A incompetência que trava o Flamengo bom pagador
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André Rocha

A estratégia dos preparadores de goleiros com Muralha definindo um mesmo canto em todas as cobranças de pênalti na decisão da Copa do Brasil, sem nenhuma inversão para surpreender os cobradores e, pior, com a informação chegando aos jogadores do Cruzeiro no Mineirão foi apenas mais um equívoco do departamento de futebol do Flamengo.

Um novo obstáculo para o clube no seu grande objetivo desde 2013: transformar as dívidas equacionadas e o aumento das receita em time forte, competitivo. Vencedor. Transformar investimento em desempenho e, consequentemente, resultado.

Mas ainda um erro pequeno diante de outros absurdos, como disputar um Brasileiro rodando o país sem considerar o enorme desgaste de viagens seguidas e jogando sem a vantagem real do mando de campo. Ou contratações mais que questionáveis, como Conca pela questões físicas, ainda que praticamente sem custos, e Berrío, que não era exatamente o ponteiro driblador e finalizador que Zé Ricardo havia pedido. Dois cartuchos queimados sem mudar o patamar da equipe.

Se a Copa do Brasil era uma meta de conquista em 2017, por que reforçar o elenco apenas quando as inscrições já estavam encerradas? No Brasileiro, o primeiro turno do Corinthians mostra que começar bem o campeonato pode ser uma vantagem a ser administrada no returno. Como, se o grupo de atletas só fica completo em agosto?

Exatamente quando a temporada afunila e não há tempo para treinar. O resultado é que o Flamengo, com estas práticas, acaba formando o time para vencer o Carioca. Aí, sim, os reforços ficam nivelados fisicamente e o tempo, ainda que não o ideal, para treinamentos melhora o entrosamento. Mas só mesmo para a disputa regional, porque o elenco disponível de fevereiro a maio não foi capaz de superar a fase de grupos da Libertadores. Mais um vexame continental.

Os muitos pecados podem ajudar a construir o seguinte cenário no final de 2017: sem títulos relevantes, talvez até sem o consolo da Sul-Americana, que agora é prioridade. E por colocar mais um torneio acima do Brasileiro, acabar sem uma vaga no G-6.

Em campo, como você já leu AQUI, o time segue “arame liso”, “pecho frio” e com elos fracos. Não mudou tanto assim com Reinaldo Rueda. Porque, como você também já viu neste blog, não há como esperar resultados diferentes com escolhas semelhantes.

O “gargalo” está na gestão. No presidente Bandeira de Mello que acumula a vice-presidência de futebol e já se mostrou mais político que executivo, no CEO Fred Luz que não tem experiência no esporte, no diretor de futebol Rodrigo Caetano sem poder de decisão e aparentemente acomodado e no gerente Mozer que parece sem função na prática.

Não há outro termo, por maior que seja o respeito aos profissionais e à uma administração que viabilizou financeiramente um clube que parecia ladeira abaixo rumo à insolvência: é a incompetência que trava o Flamengo em seus planos ambiciosos. É urgente mudar nomes e métodos antes que cheguem à tola conclusão de que o Fla campeão é o do caos e das dívidas, não o bom pagador.

Nem voltar ao inferno, nem seguir no limbo. Caminhar é preciso.

 


Atlético Mineiro 2017 é mais um típico projeto de ilusão fadado ao fracasso
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André Rocha

Foto: André Durão

Rogerio Micale foi demitido depois da derrota por 3 a 1 para o Vitória no Independência. Assumiu em julho com contrato até dezembro. Trabalho que não deu liga, assim como o de seu antecessor Roger Machado. Treinadores de perfis parecidos, que obviamente têm suas cotas de responsabilidade no fraco desempenho em 2017. A começar por terem aceitado o convite para um trabalho com poucas chances de dar certo.

Porque Marcelo Oliveira, com estilo e histórico totalmente distintos, também fracassou no ano anterior. Colocou na Libertadores via Brasileiro e na final da Copa do Brasil, mas a expectativa com o treinador bicampeão brasileiro com o Cruzeiro e ídolo do clube como jogador era de grandes conquistas.

Nem estudioso com pouca rodagem e, consequentemente, títulos. Nem o veterano com currículo e bom gestor de grupo. Simplesmente por ser um típico projeto fadado ao fracasso.

Já aconteceu tantas vezes e não aprendemos – e aí este que escreve se inclui como analista. Em 1985 o Corinthians torrou a grana da venda de Sócrates para a Fiorentina montando times caros, tirando Serginho Chulapa do Santos e Hugo De León do Grêmio, e nada conseguindo. O Flamengo de Edmundo, Sávio e Romário em 1995 é outro exemplo, assim como o bancado pela falida ISL em 200, que reuniu Alex, Denilson, Edilson, Gamarra e Petkovic.

Há também os bem sucedidos, como os Palmeiras de Luxemburgo e Scolari na Era Parmalat. Mas com uma diferença: o investimento era feito em jogadores talentosos e promissores, mas ainda com “fome” na carreira. Oferecendo boas condições de trabalho.

Estrutura nem é o problema do Galo e sua Cidade. O erro é contratar baseado mais na grife, na esperança do jogador consagrado resgatar o desempenho de seu auge anos atrás. Pior ainda é ganhar o selo de favorito aos títulos que disputa não pelo que os atletas construíram juntos, mas por conta do status de cada jogador em separado.

Não é possível juntar o Leonardo Silva de 2013, o Fabio Santos e o Fred de 2012, o Elias de 2009 e o Robinho de 2004. Estamos em 2017. E outra má notícia: se trouxe tem que botar para jogar. Porque o veterano consagrado não costuma lidar bem com o banco de reservas.

Logo vem os questionamentos: o titular, mais jovem e produtivo, “chupou laranja com quem?” Como tirar do time o “presidente da resenha”, o craque que os mais jovens tinham no videogame? Como descartar quem estaciona o carro mais luxuoso na garagem, recebe visitas de outros craques midiáticos na sede e tem um staff que parece um outro time de futebol?

No Galo, o pecado maior foi reunir Robinho e Fred sem entender que no futebol atual ou você tem um típico centroavante com velocidade e intensidade ao redor para acioná-lo, ou tem o atacante veterano que compensa a falta de mobilidade de outros tempos com inteligência e técnica. Mas vai precisar de alguém na frente com mais dinâmica.

Os dois juntos exigem mais sacrifícios dos demais. E logo atrás há um Elias em fase parecida na carreira, um Cazares e Otero buscando protagonismo no futebol brasileiro. Um Yago querendo espaço. Difícil correr sabendo que na mídia, se o time vencer, serão as principais estrelas a ganhar os holofotes. É humano.

Assim como é natural a expectativa criada. O “agora vai!”, a esperança de que será diferente. Mesmo que as características dentro e fora de campo não combinem. E só pelos nomes se transfira uma responsabilidade de conquistas que, no fundo, é irreal.

Porque em 2017 não dá mais para aceitar a contratação sem avaliação criteriosa. Só pelo nome é enorme risco. Assim como contratar o treinador na tentativa e erro, no “vai que cola”. Não é só questão de sorte. Trabalho e estudo sempre ajudam.

Foi o que faltou ao Atlético. Jogou para a galera. A mesma que agora cobra do presidente Daniel Nepomuceno ao funcionário mais humilde. Ninguém engole mais a transferência de responsabilidades, o “contratei os melhores, se não deu certo não é problema meu”. É problema de todos.

E fica novamente o questionamento deste blog: vale tratar estadual como prioridade em abril e maio e se achar superior ao rival com o título, se em dezembro este pode estar celebrando uma conquista de Copa do Brasil ou a vaga do G-6 que parecia reservada para si mesmo, o “favoritão”?

Os nove pontos de distância em relação ao Botafogo, sexto colocado, e os três de vantagem sobre o São Paulo, 17º, dão a dimensão dos objetivos do Galo, agora sem treinador, até o fim do ano. Depois de ser eliminado da Libertadores pelo Jorge Wilstermann que levou oito do River Plate e da Copa do Brasil pelo Bota de orçamento muito inferior.

Neste cenário é até difícil tratar a Primeira Liga como um título relevante. E ainda há a chance de novo revés como favorito contra o Londrina que está no meio da tabela na Série B. Outro vexame?

Certeza só de que era fiasco anunciado, com o dom de iludir. Mais um. Será que agora aprendemos todos?


Flamengo de Rueda repete velhos erros. Cruzeiro ganha gol e favoritismo
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André Rocha

Se as dúvidas ou mudanças não confirmadas por Reinaldo Rueda estavam na meta e no ataque – Thiago e Lucas Paquetá iniciaram o jogo – a maior surpresa na escalação do Flamengo foi a entrada de Márcio Araújo no lugar de Cuéllar, melhor nos 180 minutos da semifinal contra o Botafogo e em boas condições físicas. Opção.

O resultado foi uma equipe com mais dificuldade no início da construção das jogadas, com Arão e Diego recuando muito para ajudar. Melhorou quando Paquetá passou a recuar e abrir espaços para as infiltrações de Berrío e Willian Arão. Mas de novo a equipe se mostrou “arame liso”, sem contundência no ataque. Faltou a chance cristalina.

Já o Cruzeiro sofreu com Rafael Sóbis na frente, tirando velocidade dos contragolpes – a entrada de Raniel na segunda etapa criou mais problemas para a retaguarda do oponente. Os erros de Robinho saindo da direita não ajudavam Thiago Neves na articulação. Diogo Barbosa era o destaque, negando espaços a Berrío e centrando para Alisson, no início do segundo tempo, para a primeira oportunidade clara do jogo. Grande defesa de Thiago.

Personagem da partida pela falha ao dar rebote no chute de Hudson para De Arrascaeta, substituto de Thiago Neves, empatar. Muralha faria o mesmo? Nunca saberemos, assim como a ótima intervenção na primeira etapa. Fica a impressão de que Thiago podia ter atuado na partida contra o Paraná pela Primeira Liga para ganhar mais ritmo de competição. Virou vilão.

O jovem goleiro negou o protagonismo a Paquetá, meia que foi às redes num “abafa” como típico centroavante – e impedido pelo toque de Arão desviando o chute. Depois de muita pressão após a mudança de Rueda, trocando Rodinei por Vinicius Júnior, recuando Everton para a lateral e invertendo o lado de Pará no mesmo 4-2-3-1. Depois Cuéllar, enfim, entrando no meio-campo para aumentar o volume de jogo.

Tudo em vão. Porque mais um erro individual inviabiliza o triunfo rubro-negro em jogo decisivo. Que custa caro por não transformar 59% de posse e 14 finalizações, a metade no alvo, em mais gols. Velhos problemas que transferem moral e favoritismo ao Cruzeiro para a volta no Mineirão, no dia 27. Mas no futebol brasileiro em que visitantes, normalmente com menos posse, se impõem, as chances do Flamengo não podem ser descartadas.

(Estatísticas: Footstats)

 

 


Muralha e Sóbis: vale apostar na experiência numa final, mesmo em má fase?
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André Rocha

Alex Muralha tem 27 anos, títulos estaduais por Figueirense e Flamengo e passagem pela seleção brasileira no ano passado, mas sem atuar. Nenhuma decisão nacional na carreira. Thiago tem 21 anos, também é campeão carioca. Mas na reserva de Muralha. Foi campeão e melhor goleiro da Copa SP do ano passado. Serviu à seleção no Sub-15 e Sub-17, mas também sem jogar.

Rafael Sóbis tem 32 anos, duas Libertadores pelo Internacional e um Brasileiro pelo Fluminense no currículo, além de convocações e gols pela seleção, principal e olímpica. De Arrascaeta tem 23 anos, Raniel dois a menos.

Reinaldo Rueda e Mano Menezes carregam algumas dúvidas para a ida da final da Copa do Brasil no Maracanã. Ou ao menos não revelam as escalações de Flamengo e Cruzeiro. O treinador colombiano também não divulgou quem ocupa o comando de ataque – Lucas Paquetá ou Orlando Berrío, com Vinicius Junior entrando na ponta.

Mas na meta rubro-negra e no ataque celeste a indecisão foi motivada por um raciocínio muito comum no meio do futebol, em qualquer canto: a vivência e a bagagem de experiências de um atleta contam como fatores positivos para a disputa de uma grande final.

Algo que se confirmou tantas vezes, mas não todas, que vira uma “verdade”, um fato inquestionável na escolha de um jogador, pesando mais que a condição técnica ou as valências do atleta. Afinal, a decisão tem um componente emocional, no mínimo, diferente. A atmosfera pode fazer o jogador se agigantar ou intimidar. Mas será que precisa decidir assim sempre? Muralha foi afastado por deficiência técnica pelo treinador Zé Ricardo, o jovem Thiago assumiu a posição às pressas, tão rápida como a contratação de Diego Alves.

Exatamente pela constatação de que disputar no mais alto nível os principais títulos seria complicado sem um arqueiro confiável. Agora, por conta de uma provocação (infeliz) do jornal Extra, Muralha volta ao centro das atenções e passa a concorrer a uma vaga na meta. Mais pela visibilidade e uma fé de que ele será capaz de se superar para calar os críticos do que por uma evolução técnica – até porque na última partida falhou no gol do Paraná  nas quartas da Primeira Liga e mostrou a ineficiência costumeira na disputa por pênaltis.

Já Thiago errou bem menos quando exigido e não foi vazado no clássico contra o Botafogo na semifinal no Maracanã. Portanto, a dúvida só pode existir por conta da diferença de idade entre os goleiros. Bem questionável.

O mesmo vale para Rafael Sóbis na equipe mineira. Atuando como referência, se sacrifica pela equipe abrindo espaços. Mas vem devendo no desempenho, o que é mais grave que não ir às redes desde 25 de junho, embora seja um dos artilheiros da Copa do Brasil com cinco gols. Tem a confiança de Mano, mas não está confirmado entre os titulares.

Porque o jovem Raniel transferiu ao setor ofensivo maior presença física na área e mais profundidade, inclusive na vitória sobre o Grêmio no Mineirão pela semifinal. É jovem, porém. Um “obstáculo” neste momento. Assim como a incerteza da capacidade física de De Arrascaeta, além da dúvida de como será a presença do uruguaio como “falso nove” em um trabalho com maior mobilidade e rapidez nas transições ofensivas.

Incógnitas para a disputa num Maracanã lotado e elétrico. Decisão para escrever histórias de vilões e herois. Invertendo lógicas, surpreendendo. Muralha e Sóbis terão a chance de virar o jogo da vida e fazer valer a aposta? Ou Thiago e Raniel ou Arrascaeta vão escrever novas páginas no primeiro duelo de gigantes valendo o penta do Cruzeiro ou o tetra do Flamengo?

 


Flamengo com Rueda: sem “mágica”, só o impacto da mudança. Por enquanto
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André Rocha

Três vitórias, um empate. Nenhum gol sofrido. Classificação para a final da Copa do Brasil. Não há como negar que o saldo do início do trabalho de Reinaldo Rueda no Flamengo é bem positivo.

Só que a análise tendo como base apenas resultados e números frios carregam algumas convicções um tanto distorcidas. A maior delas de que houve uma transformação “mágica” no modelo de jogo em duas semanas, sem tempo para treinamentos, com duas partidas a cada sete dias, sendo uma com time praticamente reserva. Apenas no papo e no carisma.

É preciso primeiro analisar o contexto. A saída de Zé Ricardo marcou o fim de um período de desgaste absurdo, com o treinador sendo questionado em praticamente todas as suas decisões, jogadores perseguidos e problemas claros, evidentes, porém não corrigidos.

Tudo isso com um clássico estadual valendo vaga na decisão de um grande torneio nacional. Reinaldo Rueda chegou com aval de boa parte da torcida, que inclusive fez campanha para a sua contratação nas redes sociais. Ou seja, a mobilização estava construída.

Efeito imediato: atletas que não vinham ganhando oportunidades renovaram o ânimo, titulares absolutos temendo perder espaço voltaram a se concentrar. Todos atentos, com um objetivo a curtíssimo prazo e sem terra arrasada, já que o trabalho de Zé Ricardo, se analisado no todo, deixou ao menos uma ideia de como aproveitar melhor as peças do elenco.

Nem que seja por seus erros. O experiente Rueda já tinha a solução para a grande discordância do torcedor com o comandante anterior: Márcio Araújo. O colombiano conhecia bem Cuéllar, havia indicado o compatriota ao Atlético Nacional e a mudança foi natural.

Rafael Vaz foi aproveitado apenas na lateral-esquerda contra o Atlético-GO. Outro elo fraco no banco. Alex Muralha, que iniciou a primeira partida da semifinal da Copa do Brasil acabou expulso e deixou a vaga para Thiago. No Brasileiro, Diego Alves é absoluto. Mais um problema resolvido.

Para corrigir as deficiências no trabalho defensivo, soluções simples: acabou com a saída de bola “lavolpiana”, com zagueiros abrindo, volante recuando e laterais se projetando e se expondo demais no caso de perder a bola. Agora a equipe sai com jogadores mais próximos, de forma cuidadosa. Willian Arão recua com Cuéllar para dar opção.

Os laterais apoiam alternadamente. Com a lesão de Renê e a falta de confiança em Trauco depois da atuação catastrófica na derrota para o Atlético Mineiro que Rueda assistiu no estádio em Belo Horizonte, a efetivação de Pará foi o símbolo dessa busca por mais segurança.

Rodinei também adota posicionamento mais conservador pela direita. Mas as dificuldades ainda estão lá, como olhar a bola e esquecer o atacante na disputa com Guilherme no início da segunda semifinal no Maracanã. Um gol do Botafogo podia ter mudado a história do confronto.

Ofensivamente, a estrutura da equipe titular, até pela impossibilidade de escalar Everton Ribeiro e Geuvânio na Copa do Brasil, se manteve como nos tempos de Zé Ricardo: quarteto ofensivo do 4-2-3-1 com Diego centralizado atrás de Guerrero e dois ponteiros. Um Berrío confiante com a chegada do treinador com quem ganhou tudo no Atlético Nacional e Everton do lado oposto.

Outra mudança básica atendendo a pedidos, ou porque saltava aos olhos mesmo: reduzir o número de cruzamentos. A equipe rubro-negra retomou a ideia de trabalhar mais as jogadas com triangulações pelos flancos. Rodinei, Berrío e Arão pela direita; Pará, Everton e Diego à esquerda. De mais de quarenta caiu para 25 na média.

Se ganhou as infiltrações do redivivo Arão e não depende mais tanto do pivô de Guerrero, Diego continua com dificuldades para fazer o jogo fluir mais rápido. Apesar dos gols contra Botafogo e Atlético-PR, o meia segue atrasando boa parte das ações ofensivas ao dominar, girar, dar mais um toque e só então soltar a bola. Quando não é desarmado pela marcação pressionada do adversário. Mesmo respeitando as características do jogador é algo a ser minimizado, ao menos.

Ou seja, não há mágica. Elenco motivado, torcida apoiando, um grande treinador dando seus toques e efetuando correções para erros grosseiros. Como um segundo olhar na revisão de um texto ou a opinião de alguém de fora de um problema. Sem transformações, porém. Por enquanto.

Para usar o exemplo mais impressionante dos últimos doze meses, Tite conseguiu vitórias fundamentais no início do trabalho na seleção brasileira, mas o salto de desempenho veio na sequência, depois de um período maior de observação e análise e mais sessões de treinamentos.

Sem a intenção de comparar currículos e contextos, cabe lembrar as cinco vitórias seguidas do Flamengo sob o comando de Vanderlei Luxemburgo em 2014 e as seis de Oswaldo de Oliveira no ano seguinte para ilustrar e reforçar a ideia de que o impacto de uma mudança no comando técnico pode ser algo efêmero, circunstancial. Movido mais pela motivação e que pode ser diluído se o trabalho não for consistente.

A mobilização continua com a primeira final da Copa do Brasil contra o Cruzeiro no dia sete de setembro, os confrontos com a Chapecoense na Sul-Americana e até mesmo o pequeno sopro de esperança no Brasileiro com as derrotas do líder Corinthians.

Cabe a Rueda seguir trabalhando para adicionar conteúdo, afinar a sintonia com os comandados e, enfim, estabelecer sua filosofia de jogo. Consolidar uma evolução. O início já se mostra promissor. Mas é só um começo, sem magia ou milagre.


Grêmio perde leveza “praiana”, Cruzeiro de Mano Menezes vence duelo tático
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André Rocha

Foto: Washington Alves/Light Press

Você já leu neste blog algumas vezes nos últimos meses elogios à naturalidade com que o Real Madrid de Zinedine Zidane propõe e executa sua maneira de jogar. No Brasil, sem nenhum tipo de comparação, quem chega mais perto disto é o Grêmio. Muito por conta do modelo já bem trabalhado e assimilado.

Em casa ou fora, a equipe de Renato Gaúcho costuma trabalhar a bola ou acelerar os contragolpes conforme a necessidade com um estilo fluido, leve. Mesmo com a vantagem depois da vitória por 1 a 0 em sua arena, foi o que se viu no primeiro tempo do Mineirão.

Lembrava a espontaneidade do confronto do ano passado na mesma fase da Copa do Brasil. Nos 2 a 0 no mesmo Mineirão. Sem Douglas distribuindo as jogadas e indo às redes, mas com Luan circulando e achando Barrios livre no lance chave que podia ter mudado a história do duelo. O paraguaio desperdiçou.

Mano Menezes tentou conter o volume de jogo gremista preenchendo o meio-campo. Henrique, Hudson e Robinho. Elber e Alisson nas pontas. Thiago Neves como “falso nove”. Talvez para ficar mais próximo da meta adversária. Ou preocupar os volantes Michel e Arthur e indefinir as ações da zaga sem Geromel e com Bressan ao lado de Kannemann.

Funcionou pouco porque Neves, mesmo com a inegável qualidade nas finalizações e sua capacidade criativa, não é jogador com leitura de jogo e de espaços para executar a função. Em muitos lances se enfiava como centroavante e ficava de costas para a defesa. Ainda assim, incomodou Marcelo Grohe com um chute perigoso.

Como Elber e Alisson são condutores de bola e não se projetam à frente ou em diagonal chamando lançamentos como Pedro Rocha costuma fazer do lado gaúcho, o Cruzeiro não tinha profundidade nas ações ofensivas. Ainda assim, teve mais posse de bola (54%) e finalizou seis vezes contra quatro.

E aí Renato Gaúcho, contaminado pela praga do “jogo para ganhar (ou classificar) e não jogar” e talvez preocupado com a responsabilidade que assumiu junto com a direção do clube de apostar tudo no mata-mata – Copa do Brasil e Libertadores – deixando o Brasileiro de lado, fez seu time perder a naturalidade e priorizar o resultado na segunda etapa.

Pecado capital. Mano trocou Elber por Raniel e ganhou mais presença física na frente, liberando Thiago Neves para chegar de trás. Mas o camisa trinta foi decisivo mesmo na cobrança de escanteio pela direita que encontrou Hudson para marcar o gol único da partida.

Renato não fez substituições conservadoras. Trocou Bressan por Bruno Rodrigo no final, mas antes mandou a campo Fernandinho e Everton nas vagas de Ramiro e Barrios para acelerar as transições ofensivas. O Grêmio, porém, não finalizou na segunda etapa. Foi dominado. O time mineiro repetiu as seis conclusões do primeiro tempo, mas desta vez apenas duas no alvo.

Podia ter definido a vaga com Raniel e Arrascaeta, que entrou na vaga de Alisson. Sobis substituiu Hudson nos últimos minutos para buscar uma pressão final ou bater pênalti. Abriu a série acertando, assim como Fernandinho.

Edilson e Everton acertaram as traves, Grohe pegou as cobranças de Robinho e Murilo. Arthur e Raniel foram precisos. No duelo dos talentos, Luan novamente falhou em um pênalti decisivo e a defesa de Fabio foi a senha para a festa depois que Thiago Neves deslocou Grohe.

Cruzeiro na decisão do torneio nacional. A sua sétima. Vai tentar superar novamente o Flamengo, como em 2003. Desta vez sem o timaço da tríplice coroa, a única da história – campeão estadual, brasileiro e da Copa do Brasil. Mas com  recuperação na temporada, enfim mostrando mais consistência no desempenho.

Méritos de Mano Menezes, que venceu o duelo tático quando Renato resolveu duelar na estratégia, no jogo mais denso e fez seu Grêmio perder as maiores virtudes: leveza e naturalidade. Como uma tarde de verão na praia que o ídolo gremista tanto ama.

A noite terminou pesada. Resta a obrigação de ir bem na Libertadores, objetivo maior e agora único. A menos que o Brasileiro volte a ser importante. Ainda que pareça tarde demais.

(Estatísticas: Footstats)