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O “segredo” de Tite que Carille retoma com sucesso no Corinthians
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André Rocha

A vitória por 2 a 0 sobre o Luverdense na Arena Pantanal encaminha a classificação do Corinthians para a quarta fase da Copa do Brasil. Também dá a chance do técnico Fabio Carille rodar o elenco no jogo da volta.

Se o desempenho ofensivo vai aos poucos ganhando criatividade e fluência com o encaixe de Jadson pelo lado direito na linha de meias no 4-1-4-1, salta aos olhos os números defensivos.

Nas três partidas pelo torneio nacional, nenhum gol sofrido. Sim, adversários frágeis. Mas a retaguarda também não foi vazada nos clássicos contra Palmeiras, Santos e São Paulo, este no torneio amistoso na Flórida. No Paulista, só quatro gols sofridos. Contra Santo André e Mirassol. Cinco partidas sem Cássio ser batido.

A solidez dos tempos de Tite, mesmo em 2013, ano do declínio antes do período sabático, voltou depois de fortes oscilações sob o comando de Cristóvão Borges e Oswaldo de Oliveira. Porque Carille resgatou uma solução que ajudou o atual técnico da seleção brasileira a se destacar no cenário nacional.

É o que o próprio chama de “última linha posicional”. Ou seja, a defesa com os zagueiros mais próximos dos laterais. Marcando por zona, tendo a bola e o espaço como as referências, não o jogador.

A grande sacada é criar uma espécie de cinturão à frente do goleiro. Uma adaptação da escola italiana, que Tite foi estudar na década passada. Nem tão adiantada, exposta e espaçada como a da escola espanhola, que depende demais da pressão sobre o jogador com a bola para “quebrar” o passe. Muito menos semelhante à brasileira, com marcação individual e zagueiros afundados, muito próximos da própria área e que precisam do desarme salvador ou da cobertura do zagueiro de sobra.

O bloqueio é estreito. Quando o adversário ataca por um lado, a linha faz uma espécie de diagonal. O lateral se adianta para marcar, o zagueiro fica atento na cobertura, o do outro lado fica pronto para cortar o cruzamento e o lateral do lado oposto recua e faz a diagonal de cobertura ou espera uma possível inversão da jogada.

Flagrante da linha de quatro do Corinthians no dérbi guardando a própria área: Arana fecha o lado atacado, Pablo fica ligado numa possível cobertura, Balbuena guarda a área e Fagner espera uma eventual inversão ou faz a diagonal de cobertura (reprodução TV Globo).

A ideia é evitar a bola longa pelo centro ou na diagonal que proporciona a conclusão. Assim induz o lançamento mais aberto e o lateral tem tempo para bloquear a ação ofensiva menos perigosa. O posicionamento compensa também eventuais erros de compactação dos homens do meio-campo.

O atacante brasileiro, mesmo o sul-americano, fica desconfortável com o cerco que espera o momento do bote. Na tomada de decisão costuma se atrapalhar e facilitar o defensor. Não é receita infalível, mas minimiza os gols sofridos e as chances criadas pelos adversários.

Na final da Libertadores de 2012 contra o Boca Juniors, a linha formada por Alessandro, Chicão, Leandro Castán e Fabio Santos mantém o posicionamento, mesmo com o buraco deixado pelos volantes permitindo o jogo entre as linhas do time argentino (Reprodução TV Globo).

Desde Alessandro, Chicão, Leandro Castán (depois Paulo André) e Fabio Santos em 2012, passando por Fagner, Felipe, Gil e Uendel no ano passado. Agora, Fagner, Balbuena, Pablo e Arana vão ganhando entrosamento, assimilando os movimentos que não são simples. Exigem inteligência, noção de espaços e concentração. Até aqui a resposta tem sido positiva. Também pelas orientações de Cássio, que conhece toda a mecânica defensiva.

Tite foi estudar e se reciclar em 2014. Voltou apostando em criatividade, movimentação e triangulações para criar superioridade numérica no setor em que está a bola. Uma mudança notável de conceitos ofensivos. Mas o trabalho sem a bola não muda. Nem no Corinthians campeão brasileiro de 2015, nem na seleção brasileira líder das Eliminatórias.

Setores compactos, “perde e pressiona”…e a última linha de defesa posicionada. O “segredo” de Tite que Carille, ex-auxilar que colaborava exatamente na montagem da retaguarda, retoma com sucesso neste início de temporada.


Por pouco Jadson não paga o pato. Não é, nem pode ser Sassá Mutema
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André Rocha

Jadson perdeu a sua cobrança na decisão por pênaltis e podia ter sido o vilão de uma eliminação precoce na Copa do Brasil. Mesmo com o bom momento em resultados e a busca da evolução no desempenho do Corinthians de Fabio Carille, o tratamento dado ao meia veterano, de volta ao clube depois da fantástica jornada no Brasileiro de 2015, é do mágico que vai resolver.

O raciocínio é óbvio – eu diria simplista: Se o time vence apertado e sofre para criar jogadas, coloca lá o “dez” e…SHAZAN! Tudo resolvido.

Não vai solucionar todos os problemas ofensivos. Porque Carille tem o perfil do Tite antes do ano sabático de estudos, observações e reflexões. Ou seja, um treinador que quer seu time organizado (ou engessado) com a bola para, na perda da posse, estar ordenado na recomposição.

Tite notou que era melhor ganhar mobilidade e criatividade, mesmo que isso provocasse mais riscos atrás, que podem ser minimizados com pressão na perda e trabalho coletivo. Mas isso é conquista de um treinador experiente e antenado. Carille está no início do voo solo. Vai aprender.

Menos mal para ele que não foi com um vexame que seria a eliminação para o Brusque na segunda fase da Copa do Brasil. Como o Tolima foi para Tite em 2011. O Corinthians jogou mal, sofreu atrás e foi previsível nas ações ofensivas. Melhorou um pouco com a entrada do camisa 77 na segunda etapa.

Mas não é justo cobrar de Jadson a criatividade de meia central e único responsável pela articulação se seu melhor momento foi pela direita, com liberdade de movimentação e companheiros mais qualificados dando opções.

A articulação não pode ficar por conta de um só jogador. O tempo de Alex e Riquelme, os típicos meias centrais jogando à frente dos volantes “carimbando” todas as bolas, passou. Em 2017 o trabalho precisa ser dividido.

Jadson não é, nem pode ser Sassá Mutema, personagem de Lima Duarte na novela “O Salvador da Pátria”. Por pouco ele não pagou o pato em Brusque.


Fluminense de Abel é o primeiro time a encher os olhos no Brasil em 2017
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André Rocha

Santos e São Paulo fizeram um jogaço na Vila Belmiro. O Palmeiras, ao menos em tese, formou o elenco mais forte do país – talvez do continente – e sinaliza recuperação. Flamengo e Cruzeiro têm 100% de aproveitamento na temporada.

Mas nenhum time nesta pequena amostragem de 2017 no Brasil jogou um futebol tão bom e bonito quanto o Fluminense de Abel Braga. Nem tanto pelas seis vitórias e apenas a derrota com time praticamente reserva para o Internacional pela Primeira Liga.

Os 19 gols marcados e cinco sofridos também dizem pouco, até porque a fragilidade dos adversários, incluindo o Vasco na estreia do Carioca, não pode ser descartada na análise. O que enche os olhos é a qualidade, a fluidez e o volume de jogo do tricolor. Tirando todas as camadas de técnica, tática e estratégia, a verdade do campo diz que o Flu está jogando fácil.

Principalmente quando o quarteto Gustavo Scarpa-Sornoza-Douglas-Wellington Silva entra em ação com mobilidade, sintonia, inteligência na ocupação dos espaços que também pode incluir Henrique Dourado.

O menos técnico dos cinco da frente neste 4-1-4-1 que varia conforme o movimento de Douglas mais próximo do volante Orejuela para o 4-2-3-1 procura abrir espaços, participar das combinações como pivô e aparecer na área para finalizar. Já são seis gols de Dourado, quatro pelo Carioca e dois nos 5 a 2 sobre o Globo pela primeira fase da Copa do Brasil.

A combinação de características é a chave para um entendimento tão rápido. Gustavo Scarpa e o equatoriano Sornoza são meias que passam, se deslocam e finalizam. Funcionam no centro e também no flanco. Douglas tem senso de organização e boa finalização de média/longa distância. Já Wellington Silva é o contraponto mais agudo, rápido e driblador, procura as diagonais. Dourado complementa com força física e simplicidade na área adversária.

Os laterais também colaboram na construção dos ataques com velocidade, abrindo o jogo e buscando o fundo. Léo à esquerda e, principalmente, o redivivo Lucas. Pela direita, o ex-Botafogo que não vingou em Palmeiras e Cruzeiro aproveita o corredor deixado pelo canhoto Gustavo Scarpa. Quando Wellington cai no setor formam uma dupla de intensidade e rapidez.

Abel Braga fala em praticamente todas as suas entrevistas sobre caráter e respeito às três cores do clube. Quem conhece o treinador sabe que o controle do vestiário é sua prioridade na gestão e ele não aceita menos que 100% de entrega. Mas o maior mérito até aqui é estimular o jogo ofensivo, a pressão no campo de ataque e não reprimir a beleza das jogadas que saem com naturalidade.

É óbvio que falta um teste mais consistente para avaliar as reais possibilidades na temporada. Pode vir na sequência da Primeira Liga ou no Carioca contra Flamengo e Botafogo. Interessante para observar se as ações de ataque conseguem manter o alto nível e se há evolução no sistema defensivo que tem falhas na compactação e no jogo aéreo.

Mas se futebol é momento, entre os grandes brasileiros o único que já desperta prazer de ir ao estádio ou ligar a TV para ver jogar é o Fluminense.

A variação de 4-1-4-1 para 4-2-3-1 do Fluminense de Abel Braga, de acordo com o posicionamento de Douglas no meio-campo. Tricolor é envolvente pela combinação de características do quinteto ofensivo, mais as descidas dos laterais. A proposta de jogo é ofensiva e o volume de jogo chama atenção neste início de temporada (Tactical Pad).


Conhecimento: a arma de Eduardo Baptista para convencer no Palmeiras
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André Rocha

Eduardo Baptista Palmeiras

Tite aceitou a proposta da CBF e sua primeira missão foi estudar os jogos da seleção brasileira desde 2013 e depois mapear detalhadamente o que cada atleta no radar estava fazendo em seu clube.

Eduardo Baptista chega ao Palmeiras campeão brasileiro e inicia a temporada depois de dissecar a equipe de Cuca nos 38 jogos da competição nacional, além de analisar informações detalhadas de seus novos comandados, inclusive os novos contratados.

Tite é campeão mundial com o Corinthians, mas se comparado com Guardiola, Ancelotti, Mourinho e outros treinadores que comandam as estrelas do escrete canarinho, sua situação era parecida com a do filho de Nelsinho Baptista, jovem treinador sem grandes títulos no currículo, em um time vencedor.

Um técnico começa a vencer quando convence seus jogadores de que sua ideia é viável. Se não há tanto carisma e títulos para apresentar, o conhecimento é fundamental. Porque hoje o jogador, com staff e empresário a tiracolo, não precisa de um pai. Apenas de um treinador que deixe duas coisas bem claras: o que ele precisa fazer em campo e por que ele é titular ou reserva da equipe.

Gestão de grupo é ser franco e direto. Todos podem elogiar Tite na seleção por ter mudado o clima pesado dos tempos de Dunga. Mas se não houvesse trabalho e informação, a ponto de surpreender os atletas, o sucesso imediato em campo seria mais difícil.

Eis a arma de Baptista. Diante de Felipe Melo – jogador inteligente, de personalidade forte e que entende o futebol atual – e de Guerra, melhor da última Libertadores, além dos campeões de Copa do Brasil e Brasileiro dos últimos anos, se não houver convicção e conteúdo para apresentar virá a pergunta cruel: “ganhou o quê?” Exatamente o que inviabilizou sua permanência no Fluminense de Fred.

O técnico terá que fazer entender as razões para mudar das perseguições individuais dos tempos de Cuca para a marcação por zona e, com a bola, construir um jogo mais apoiado, com bola no chão e transição ofensiva rápida para surpreender o adversário. No mesmo 4-3-3/4-1-4-1 da campanha vencedora no ano passado.

Falta o centroavante para repor Gabriel Jesus e fechar o elenco que Alexandre Mattos começou a remontar ainda em 2016. Pensando em Cuca, agora com Eduardo Baptista. O maior desafio da carreira do novo comandante. Uma incógnita que pode dar certo através do conhecimento.


Por que Marinho é o “Dudu” do futebol brasileiro para 2017
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André Rocha

Marinho_Vitoria

No início de 2015, a pauta era a disputa entre São Paulo, Corinthians e Palmeiras por Dudu, que acabou indo para o alviverde e foi decisivo nas conquistas da Copa do Brasil e do Brasileiro.

Na época a questão era se a disputa pelo atacante do Dínamo de Kiev emprestado ao Grêmio não era exagerada, a ponto do “chapéu” do Palmeiras nos rivais ser comemorado como um título.

Dudu respondeu em campo com personalidade e, principalmente, por suas características: ponteiro de velocidade, que funciona também como um atacante circulando atrás do centroavante. Chama lançamento, arrisca o drible, infiltra em diagonal e finaliza.

Certamente o atual campeão brasileiro não se arrepende do negócio. O encaixe na equipe e a sintonia com Gabriel Jesus foram perfeitas e o rendimento médio de altíssimo nível para o futebol praticado no país. Não é o craque do time, mas facilita o trabalho de todos.

Agora em 2017 o alvo é Marinho. Cria da base do Fluminense em Xerém, rodou até se destacar no Ceará. Pela bola jogada e por uma entrevista folclórica. Passou pelo Cruzeiro e amadureceu de vez no Vitória, aos 26 anos.

Salvou o rubro-negro baiano do rebaixamento no Brasileiro com 12 gols e seis assistências, líder nos dribles certos e nas faltas sofridos. Um dos principais finalizadores da competição. Decisivo partindo da ponta para a jogada pessoal e a conclusão.

Ponteiro forte na jogada individual e preciso nos chutes. Artigo raríssimo. Por isso Santos, Flamengo, Grêmio e agora o futebol chinês querem contar com o atacante mais desequilibrante das últimas cinco rodadas do Brasileiro.

Exatamente o que faltou ao Fla de Gabriel, Everton, Cirino, Fernandinho e Emerson durante toda a temporada e ao Santos depois da saída de Gabigol. O Grêmio teve Pedro Rocha e Everton fundamentais na conquista da Copa do Brasil, mas Marinho seria uma mudança de patamar.

A tendência, porém, é que o novo centro milionário o seduza. Até porque a multa de 17 milhões de reais é praticamente inviável por estas bandas. Deve rolar um chapéu da China.

Assim como Dudu, Marinho não é um extra classe, um craque para atuar nos grandes centros da Europa. Mas para o futebol jogado aqui, por suas valências, vale o sacrifício, sem irresponsabilidades, dos clubes brasileiros.

(Estatísticas: Footstats)


O campeão tem sempre razão?
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André Rocha

Renato Gaucho Gremio campeao

Final da Copa do Mundo de 1954 no Estádio Wankdorf em Berna, Suíça. 43 minutos do segundo tempo. A lenda húngara, Ferenc Puskas, mesmo com o tornozelo inchado que quase o tirou da final por uma pancada na goleada por 8 a 3 sobre a mesma Alemanha da decisão, marca o gol que seria do empate.

A arbitragem marca impedimento. Para muitos inexistente, inclusive o saudoso jornalista Luiz Mendes, presente no estádio como único locutor brasileiro. Podia ter evitado o “Milagre de Berna” e quem sabe o que aconteceria depois?

Estádio Sarriá, Barcelona. Último lance de Itália 3×2 Brasil. Jogando pelo empate, a seleção de Telê Santana parte para o abafa derradeiro. Cobrança de falta de Eder, o zagueiro Oscar sobe mais que todos e acerta um golpe de cabeça no canto. Seria o gol da classificação da equipe que encantou o mundo na Copa de 1982.

Não foi por uma das mais impressionantes defesas da história das Copas. A mais incrível sem rebote. Dino Zoff pegou de um jeito inusitado, parando a bola num movimento de cima para baixo e evitou que ela cruzasse a linha e também a chegada de Sócrates e Zico.

Stamford Bridge, maio de 2009. O Chelsea vencia o Barcelona por 1 a 0 e, com o empate sem gols no Camp Nou, se classificaria para a final da Liga dos Campeões não fosse um golaço de Iniesta já nos acréscimos.

Jogo com uma das arbitragens mais polêmicas de todos os tempos, com pelo menos três pênaltis claros não marcados para os Blues, que colocou o time de Guardiola e Messi na decisão do torneio continental que garantiria a tríplice coroa e o início da trajetória de um dos maiores times de todos os tempos.

Três entre tantos exemplos de partidas definidas em detalhes, em fatos aleatórios. Uma bola que separou campeões e derrotados. Que criou ou destruiu legados, fez heróis, mudou a história do esporte.

Corte para 2016. O Grêmio de Renato Gaúcho conquista a Copa do Brasil e encerra um duro período de 15 anos sem títulos nacionais. Campanha sólida, especialmente fora de casa na reta final. Melhor equipe da competição. Incontestável.

Na comemoração, o sempre bravateiro Renato Gaúcho chamou para si todas as atenções ao afirmar: “quem sabe, sabe; quem não sabe vai para a Europa estudar”. Gerou enorme polêmica, mas nem ele deve acreditar nisso. Sem contar que o propósito de estudar e se aperfeiçoar é algo pessoal, de foro íntimo. Uma escolha.

O blog prefere um outro recorte da fala do maior ídolo gremista: “Disseram que estavam trazendo um treinador que estava jogando futevôlei. E agora? E aí?”

Eis o ponto: a taça encerra qualquer discussão? O campeão tem sempre razão? Renato é um fanfarrão desde os tempos de jogador, um personagem sensacional que nunca se levou muito a sério nem devemos dissecar o que ele diz, ainda mais no calor da conquista. Mas vale a reflexão.

E o contexto da base montada pelo trabalho de Roger? E a importância de Valdir Espinosa e outros profissionais? E a prioridade que o Palmeiras deu ao Brasileiro tornando a disputa nas quartas-de-final menos complicada? E a desorganização do Atlético Mineiro com Marcelo Oliveira no jogo de ida da decisão em Belo Horizonte?

Aliás, cabe um parêntese: o técnico mais vencedor do futebol brasileiro nos últimos quatro anos, com dois títulos brasileiros e uma Copa do Brasil, deixou o Galo coberto de críticas e com cinco minutos de jogo em Porto Alegre já foi possível perceber uma equipe com setores mais bem coordenados pelo jovem técnico Diogo Giacomini.

Em um esporte absolutamente imprevisível, por isso tão arrebatador, no qual vitórias e glórias se definem numa bola que bate no travessão e cruza ou não a linha, numa decisão da arbitragem em fração de segundos e em tantos outros mínimos detalhes, o troféu, ainda que seja o objetivo final de qualquer competição, é sempre um argumento sem resposta?

A história mostra que alguns derrotados no placar final colaboraram mais com a evolução do futebol e são mais lembrados que os campeões. Alguns vencedores são até hoje questionados por seus métodos. Multicampeões pragmáticos quando citados nada mais têm a oferecer do que as conquistas. É suficiente?

Renato merece respeito por sua história e faz mesmo jus a uma estátua na Arena do Grêmio. Que vá comemorar com amigos, a filha Carol e curtir as férias. O torcedor mais motivos ainda tem para celebrar, zoar os rivais. Vencer é delicioso e fundamental na formação de novos torcedores. Sem contar a visibilidade, novas receitas e tantas outras coisas.

Mas futebol não é só isso. Nem pode ser. Por isso o post se encerra com trecho de uma reflexão de Marcelo Bielsa no livro “Los 11 caminos ao gol”, de Eduardo Rojas, muito bem resgatada pelo colega Gustavo Carratte no perfil do seu ótimo Conexão Fut no Twitter. Um técnico com um currículo mais recheado de ensinamentos que títulos.

“Na vida há muito mais derrotas que vitórias e é preciso entender isso. Portanto, endeusar alguém que acaba de triunfar, alçando-o a um patamar acima dos demais acaba confundindo quem o vê fazendo isso. As pessoas são indecisas sobre as coisas e quando forem questionadas sobre como alcançar os êxitos elas só saberão que é preciso vencer, sendo incapazes de dizer quais valores cultivar e o que fazer para chegar até lá”.


Viva o campeão! Agora é hora do Palmeiras pensar além do resultado
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André Rocha

Quando o Palmeiras empatou com o Atlético Paranaense no recém inaugurado Allianz Parque na última rodada do Brasileiro de 2014 e só não caiu porque o Santos, cumprindo tabela, venceu o Vitória no Bahia, era consenso que o clube precisava recuperar sua capacidade de competir em alto nível.

Os dois rebaixamentos, em especial o último em 2012, doíam muito numa geração de jovens torcedores que, a rigor, só tinham visto as conquistas do Paulista de 2008 e da Copa do Brasil manchada pelo descenso há quatro anos e um tanto desvalorizada por ter sido a última sem os times envolvidos na Libertadores.

Algo precisava ser feito e o presidente Paulo Nobre, como um mecenas, investiu o próprio dinheiro em um primeiro momento. Mas criando recursos para andar com as próprias pernas. Leia-se sócio-torcedor e receitas com o estádio. Alexandre Mattos veio do Cruzeiro, reformulou o elenco. Mais tarde, a contratação de Marcelo Oliveira, técnico bicampeão brasileiro.

O título da Copa do Brasil valeu para se impor na rivalidade recente com o Santos e, principalmente, para celebrar uma conquista relevante no novo estádio. Foi importante vencer. Ainda que com um futebol taticamente paupérrimo, que dependeu das individualidades e venceu na fibra e nas mãos de Fernando Prass o torneio nacional.

Com 2016 veio Cuca após Marcelo Oliveira não entregar resultado nem desempenho, mesmo com uma pré-temporada. Não deu tempo de recuperar no Paulista nem na Libertadores. O novo técnico, então, prometeu o título brasileiro. Afinal, havia elenco, estrutura e força em casa para isso.

Cuca fez sua equipe entregar bom futebol no primeiro turno, com Roger Guedes e Gabriel Jesus voando na frente. Mas quando o título pareceu de fato mais perto com a manutenção da liderança e a disputa ficou mais dura, ponto a ponto com os concorrentes, o Palmeiras aderiu a um pragmatismo focado no resultado poucas vezes visto. Mesmo na era dos pontos corridos.

Há várias rodadas o mantra “jogo pra ganhar, não pra jogar” ganhou força. O projeto pessoal de Cuca e a vontade geral de encerrar o jejum de 22 anos, com os rivais paulistas vencendo nada menos que dez títulos, se transformaram em obsessão. Toda partida foi tratada como uma tensa decisão e instaurou-se uma espécie de surto coletivo.

Até compreensível pelo contexto e que aliviou contra Botafogo e na vitória sobre a Chapecoense por 1 a 0 que garantiu matematicamente a conquista com mais posse de bola e volume de jogo. A angústia chega ao fim e agora é momento da justa catarse pelo título.

O torcedor tem todo o direito de extravasar, encher a internet de memes e zoar os rivais. Levantar a cabeça, bater no peito e dizer que sempre foi grande e voltou a ser gigante. Disparado o mais regular do Brasileiro de 2016, sem vacilar nos momentos decisivos.

Mas para o ano que vem é preciso pensar além do resultado. A tradição do clube é de grandes times, que jogam bom futebol. Querer jogar, ser protagonista, dominar os adversários. A gestão seguirá a mesma com Mauricio Galiotte, sucessor de Nobre. Dinheiro não vai faltar. Da venda de Gabriel Jesus, do novo contrato de patrocínio master, o maior do Brasil, e das fontes de receita que já existem e tendem a crescer.

Por isso já sai na frente dos concorrentes e vai montando seu elenco, mesmo sem a confirmação da permanência de Cuca. O técnico acerta ao buscar conhecimento, ainda que a Itália não seja o principal centro da Europa. É preciso seguir evoluindo.

A equipe campeã brasileira já dá sinais dos progressos do treinador: meio-campo mais técnico, com Moisés e Tchê Tchê, sem o volante marcador que sempre caracterizou suas equipes. Menos ligações diretas como nos tempos de Jô no Atlético Mineiro. Até as jogadas aéreas diminuíram na média.

Para este que escreve ainda falta aderir à marcação por zona, que é mais inteligente por desgastar menos os jogadores. O time se defende posicionado e não correndo. Ainda funciona por aqui, mas já na competição sul-americana pode complicar.

Se Cuca não ficar, que chegue um técnico que preze mais o jogo. Porque se o objetivo é vencer além das fronteiras brasileiras vai ser preciso entregar mais. Jogar bem, não necessariamente bonito. Algo condizente com as ambições do clube.

É mais que possível. O Palmeiras precisa e o futebol brasileiro também. Primeiro os títulos da redenção, agora é ter o que celebrar além dos três pontos.

 


O patrão ficou maluco! E não é Black Friday
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André Rocha

Daniel Nepomuceno Galo

Primeiro foi Levir Culpi, demitido do Fluminense faltando quatro rodadas para o final do campeonato.  Entrou o eterno interino Marcão. Todos imaginavam que seria a última dispensa de treinador do Brasileiro 2016.

Mas na rodada seguinte o Internacional trocou Celso Roth por “Lisca Doido”. Para ter a primeira finalização contra o Corinthians em Itaquera aos 15 minutos do segundo tempo. Precisando da vitória.

Agora o São Paulo, depois de garantir Ricardo Gomes no cargo com os 4 a 0 sobre o Corinthians no Morumbi, muda os planos e demite o treinador para dar a primeira oportunidade a Rogério Ceni. Uma clara decisão política porque não há como imaginar o desempenho do ídolo na nova função.

Já o Galo dispensa Marcelo Oliveira antes do segundo jogo da decisão da Copa do Brasil e com o time ainda com chances de G-3 no Brasileiro. Assume Diego Giacomini, da base. Precisou levar um gol “de rachão” de Pedro Rocha e cair a mística de imbatível em Belo Horizonte para acordar.

O que mais impressiona é que, com exceção de Rogério Ceni, nenhum dos substitutos foi escolhido já pensando no planejamento de 2017, o que seria o mais lógico. No caso do Colorado é desespero mesmo.

A visão imediatista de dirigentes, torcedores e jornalistas já é notória, até virou clichê. Mas desta vez os clubes se superaram. Talvez o sucesso de Renato Gaúcho, contratado por apenas três meses e muito próximo de conquistar o título que o Grêmio busca há 15 anos, esteja influenciando nessas decisões intempestivas de contratar a curto prazo. Mas é uma exceção à regra, com todos as suas particularidades.

De tudo que foi dito sobre estas demissões, o que mais chamou a atenção foi a declaração de Daniel Nepomuceno, presidente do Galo: “A gente está vendo o processo. Ah, demitiu, mas demitiu tarde, ah, mas demitiu cedo. Não é simples assim. Nunca é 100%. Para quem acompanha futebol há tantos anos como vocês não é fácil.”

Alguém entendeu?

O patrão ficou maluco! E não é Black Friday…

 


O que é de Roger, o que é de Renato. O que não é de Marcelo Oliveira
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André Rocha

Era difícil acreditar na redenção de Renato Gaúcho em um trabalho de três meses. Sem estudo e maiores atualizações para comandar uma equipe trabalhada por Roger Machado em conceitos modernos.

O futebol é espetacular porque não tem verdades absolutas. Foi exatamente na combinação do que o antecessor deixou com o polimento do olhar mais vivido do maior ídolo da história do clube que o Grêmio se arrumou para buscar o título nacional que não vinha há quinze anos.

De Roger, os movimentos já memorizados de apoio ao jogador com a bola, criação de linhas de passe, profundidade, abrir o jogo para espaçar a marcação adversária. De Renato, a gestão de grupo, o carisma que mobiliza, o ajuste defensivo com soluções mais simples, embora se note a compactação dos melhores momentos da campanha surpreendente no ano passado. As correções nas jogadas aéreas. O que era preciso.

Por isso não é justo tirar méritos do atual treinador, mas seria cruel não lembrar da semente plantada por Roger. O resultado prático é um time bem coordenado, com Walace e Maicon qualificando a saída e negando espaços à frente da defesa. Volantes passadores e eficientes.

As linhas de quatro sem a bola deixando Douglas e Luan participando sem a bola mais na pressão sobre os defensores. Ramiro é muito mais um volante que atua aberto e ajuda Edilson a bloquear pelo setor direito e deixou o time um pouco mais equilibrado, sem esvaziar o meio-campo. Já Pedro Rocha é o ponta agudo na transição ofensiva, partindo em diagonal a partir da esquerda para finalizar.

O ponteiro foi o personagem dos 3 a 1 sobre o Atlético no Mineirão que encaminha a conquista tão esperada. Dois gols aproveitando a bagunça defensiva do oponente, uma chance cristalina perdida à frente de Victor e a tola expulsão que trouxe o Galo de volta ao jogo na segunda etapa.

Porque só o acaso, os eventos aleatórios que tornam o futebol tão previsível e apaixonante poderiam recolocar a equipe de Marcelo Oliveira na disputa. O treinador vencedor, bom gestor de grupo, que incentiva o talento e a improvisação de seus jogadores. Mas que não consegue organizar minimamente um sistema defensivo nem fazer seu time controlar o jogo.

Não é raro ver o Galo se defendendo com apenas seis jogadores, setores distantes, sem pressão, com erros graves de posicionamento. Capaz de levar numa decisão de torneio nacional um gol de fim de pelada, o segundo de Pedro Rocha arrancando sozinho e com incrível facilidade.

Aí não há garra de Leandro Donizete, talento de Robinho, presença de área de Pratto, o apoio de Júnior Urso e defesas de Victor que resolvam sempre. Nem o belo gol do zagueiro Gabriel que alimentou uma esperança de novo “milagre”. É claro que Luan, Otero e Fred fizeram falta, mas a facilidade com que o Grêmio atuou, especialmente no primeiro tempo, é inviável no futebol atual. Ainda mais numa final.

O terceiro gol, num contragolpe no final do jogo em bela jogada do ótimo Geromel que encontrou Everton livre é aceitável pelo contexto. Ainda que o time mineiro contasse com um homem a mais. Mas para a volta na Arena do Grêmio parece a pá de cal. Só não dá para garantir a quinta Copa do Brasil do tricolor gaúcho porque isso é futebol.

Até a capacidade de reação do Galo nas conquistas recentes precisa ser relativizada, porque as viradas sempre aconteceram em Belo Horizonte. Como visitante fica quase impossível. Também por conta do que faltou taticamente à equipe de Marcelo Oliveira.

Sobrou o Grêmio. De Renato e de Roger. Moderno e com alma. Com jeito de campeão.

 

 


O “Galo Tyson”, do jogo aleatório, está em mais uma decisão
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André Rocha

Cuca fundou a Era “Galo Doido” no Atlético. Um time que se fosse um boxeador seria no estilo Mike Tyson. Sem jogo de pernas e calma para controlar a luta. Esquiva? Só para preparar o golpe seguinte. Só quer atacar e bater mais forte para vencer.

Paulo Autuori herdou a equipe campeão da Libertadores e tentou organizar e transferir um mínimo de cadência. Sem sucesso. Levir Culpi assumiu, buscou algum controle e foi soltando aos poucos. Venceu a Copa do Brasil na intensidade máxima.

Superou o Cruzeiro campeão brasileiro. Com Marcelo Oliveira. Um técnico à moda antiga, da escola Telê Santana. Que acredita no entrosamento adquirido na sequência de treinos coletivos e jogos. Num clima de paz e cordialidade entre os jogadores.

Mas no time celeste bicampeão brasileiro havia intensidade, mas também inteligência e dosagem de ritmo. Um meio-campo com Lucas Silva e Everton Ribeiro não pode viver desse “bate e volta”.

No Palmeiras, sim. Pelas características dos jogadores e por todo um contexto que levou à conquista da Copa do Brasil. A primeira de Marcelo. Jogando no modo “aleatório”.

Foi esse encontro do treinador que enfim ganhou o torneio mata-mata depois de três finais com o time acostumado a jogar como quem parte para uma briga de rua, só trocando golpes, que manteve o “Galo Doido” em rotação. Depois de Aguirre também tentar coordenar melhor e falhar.

Atlético que está na final da Copa do Brasil após eliminar um Internacional repleto de reservas e priorizando a fuga do rebaixamento. Vencendo no Beira-Rio, empatando com muitos sustos no Independência.

Porque jogou aberto o tempo todo. Não é por acaso que Rafael Carioca, um dos melhores passadores do país lembrado por Tite na seleção, esteja no banco para Leandro Donizete e Júnior Urso. Um leão na marcação, outro que se junta ao quarteto ofensivo e corre demais. Só aceleração. Com linhas espaçadas, encaixe de marcação. Sem muita ordem.

Na frente, os responsáveis pelos “diretos nos queixos” dos rivais: De Pratto para Robinho, de Robinho para Pratto nos dois gols. Isso porque Fred não pode disputar o torneio por ter jogado pelo Fluminense.

Mas sofreu atrás com o gol de Aylon, a falha grotesca de Victor que entregou a bola nos pés de Anderson. Duas das quatro finalizações no alvo do time de Celso Roth. Total de 13 conclusões. Demais para um Galo que teve 62% de posse. De volume, zero controle.

No seu estilo está em mais uma decisão. Em grandes torneios, a terceira em quatro anos. Fora a conquista da Recopa Sul-Americana, os dois vice-campeonatos no Brasileiro de pontos corridos. O período mais vencedor da história do clube, sem dúvida.

Construído com grandes histórias de viradas, de “Eu acredito!”, de apoteoses da massa atleticana. No Mineirão ou no Horto. Também de momentos não tão felizes assim, como o vexame contra o Raja Casablanca no Mundial de Clubes, a eliminação para o Internacional de Aguirre na Libertadores 2015 e os humilhantes 3 a 0 para o Corinthians no Brasileiro. Alguns James “Buster” Douglas pelo caminho.

Contra o Grêmio, a busca de mais uma taça. A quinta final de Marcelo Oliveira. No jogo aleatório, querendo o nocaute mais que a vitória por pontos, não se importando em ser golpeado também. O “Galo Tyson”.

(Estatísticas: Footstats)