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Fim dos 100% do Brasil de Tite é compensado pelo valor do teste
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André Rocha

O calor e a umidade em Barranquilla foram obstáculos tão grandes quanto a boa atuação da Colômbia no segundo tempo, não por acaso coincidindo com a maior produção de James Rodríguez, o meia central do 4-2-3-1 armado por Jose Pekerman. Na jogada bem trabalhada do camisa dez com Arias contra Filipe Luís sem o suporte de Renato Augusto, o cruzamento na cabeça de Falcao García, que se antecipou a Marquinhos para empatar.

Um raro vacilo brasileiro dentro de uma atuação segura de acordo com o contexto. Tite acertou ao acrescentar Fernandinho e Roberto Firmino às mudanças obrigatórias – Thiago Silva no lugar do lesionado Miranda e Filipe Luís no lugar do suspenso Marcelo. Descansou Casemiro e guardou Gabriel Jesus para a segunda etapa na vaga de Firmino, que não brilhou mas novamente contribuiu coletivamente. Mais importante: experimentou sua equipe.

Manteve Willian entre os titulares e o ponteiro pela direita do 4-1-4-1 correspondeu com bom trabalho no setor, em dupla com Daniel Alves. E ainda apareceu no centro para receber passe de Neymar, após lançamento preciso de Fernandinho, para acertar um chutaço no ângulo de Ospina. Golaço único da primeira etapa, logo depois da parada para a retirada de um cachorro do gramado.

A assistência de Neymar foi o ápice de uma atuação mais solidária. No esforço na recomposição e, principalmente, por soltar mais rapidamente a bola e fazer o jogo fluir. Quando tentou as jogadas individuais era o único recurso, como na bela arrancada desde a intermediária brasileira até a área colombiana no segundo tempo. O craque voltando aos eixos, mesmo sem desequilibrar, foi uma boa notícia.

Também a confiança do treinador ao arriscar novamente Philippe Coutinho no lugar de Renato Augusto, mudando o desenho tático para o 4-2-3-1 com o recuo de Paulinho, novamente atuando mais avançado na linha de meias. O Brasil nunca abdicou de jogar e isto é sempre positivo e merece reconhecimento.

Assim como a manutenção do desempenho, mesmo com quase meio time alterado. O fim dos 100% de aproveitamento com Tite nas Eliminatórias era esperado, até pelo peso zero do resultado na classificação. Importante foi o valor do teste e a boa resposta de maturidade de uma seleção que parece pronto, mas ainda está em formação.


História mostra que favoritismo um ano antes da Copa do Mundo é pura ilusão
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André Rocha

Entre dezembro de 1981 e outubro de 1983, a Itália disputou 16 partidas. Nenhuma vitória nas seis primeiras, sem triunfos nas seis últimas. Venceu apenas quatro: Argentina, Brasil, Polônia e Alemanha. Exatamente as que lhe deram o terceiro título mundial na Copa da Espanha.

Favoritismo? Zero, mesmo com a manutenção de boa parte do grupo da Copa de 1978 que venceu a campeão e anfitriã Argentina e terminou em quarto perdendo dois jogos, para Holanda e Brasil, por detalhes. Mas nas Eliminatórias ficou atrás da antiga Iugoslávia. Não há dúvidas, era zebra. Até pelo escândalo de manipulação de resultados, o “Totonero”, que comprometeu o futebol do país.

Parecido com o de 2006 que rebaixou a campeã Juventus e também tirou qualquer favoritismo de uma Azzurra igualmente forte e talentosa comandada por Marcelo Lippi. Outro título inesperado, quando o Brasil era favorito.

Aliás, chegar como principal candidato só fez bem ao Brasil no Chile em 1962. Ainda assim, com superação da ausência de Pelé. Garrincha e o “apito amigo” contra a Espanha ajudaram a construir o bicampeonato. O último, sendo o outro em 1934/38 dos italianos.

A Alemanha pode repetir o feito na Rússia. A conquista da Copa das Confederações reforçou a impressão de que a renovação está sendo bem conduzida por Joachim Low. Com Kimmich no lugar de Lahm e Toni Kroos suprindo a aposentadoria de Schweinsteiger. Mais Draxler, Brant, Stindl, Werner, Hector se juntando a Ozil, Muller, Hummels, Neuer.

Se em 2014 a chegada de Pep Guardiola ao Bayern de Munique foi influência clara no modelo de jogo alemão, desta vez a inspiração, ou variação do estilo, parece vir da Inglaterra, mas de um treinador italiano: o 5-4-1/3-4-3 do Chelsea de Antonio Conte. Para propor o jogo ou reagir de acordo com as circunstâncias. Um time inteligente.

Como já era há três anos, mas foi um tanto menosprezado pelo revés na Eurocopa dois anos antes na semifinal contra a Itália de Balotelli. A ponto de transformar a final da Copa das Confederações entre Brasil e Espanha em uma espécie de “tira-teima” entre a campeã mundial e bi da Eurocopa e o anfitrião buscando recuperar protagonismo.

A seleção de Luiz Felipe Scolari venceu e foi mais uma a se iludir com a conquista. Como Dunga em 2009 e Parreira em 2005. A convicção de que o grupo estava fechado e o trabalho pronto só necessitando de manutenção foi ilusória. Porque o que define os rumos do Mundial é a temporada europeia que se encerra com a Copa.

Basta lembrar a queda de rendimento de Paulinho e Fred e o período de adaptação de Neymar no Barcelona que minaram as forças de um trabalho de um ano e meio, incompleto. Assim como o de Tite agora, que acabou de completar doze meses. Dois anos perdidos com Dunga que podem fazer falta.

Porque haverá menos testes e chances de observação. Ou tempo para o amadurecimento da proposta de jogo. É um processo que vai queimando etapas por necessidade. O treinador assumiu precisando de resultados e evolução rápida. Pelo próprio mérito, as nove vitórias seguidas nas Eliminatórias alçaram a equipe diretamente do risco de ficar de fora de sua primeira Copa do Mundo à condição de uma das favoritas.

Mais rápido que isso só em 1993, quando os 2 a 0 sobre o Uruguai com atuação antológica de Romário levaram o escrete canarinho do futuro incerto ao protagonismo. Em uma partida, por conta de um atacante genial que depois confirmou seu estrelato com a taça que não vinha há 24 anos e a Bola de Ouro como melhor do mundo.

Mas a grande favorita era a Itália de Roberto Baggio, o grande jogador do ano anterior. Assim como em 2002 as apostas recaíam sobre Argentina e França, que em 1998 superou em casa o Brasil de Ronaldo, candidatíssimo ao bi. Sob o comando de Platini, os franceses eram os favoritos em 1986. Mas havia um Maradona pelo caminho. Gênio que colocou a Argentina na final em 1990, mas havia uma Alemanha na decisão para confirmar a alternância de poder.

Resumo da ópera: falar em favoritismo no ano anterior é puro chute. Até porque este Mundial tende a não repetir os dois últimos, com as vencedoras tendo como bases as melhores equipes do mundo à época. Espanha do Barcelona e Alemanha do Bayern de Munique. Com entrosamento, movimentos já executados de memória. Seleções maduras, com craques no esplendor.

Mesmo os espanhois em 2010 não chegaram com tal status. Nema conquista da Euro 2008 minimizou o fato de não fazer parte do seleto grupo de campeões. A derrota para os Estados Unidos que tirou a chance de um duelo contra o Brasil de Dunga no ano anterior fez da grande seleção daquele período uma incógnita. Talvez por isso tenha triunfado.

Agora a Alemanha titular, em tese, tem apenas Neuer, Kimmich, Hummels e Muller do time bávaro. Na Espanha,  Barcelona e Real Madrid dominam naturalmente, mas o time merengue bicampeão europeu também cede apenas quatro: Carvajal, Sergio Ramos, Isco e Asensio. A França poderia se basear em PSG e Monaco, mas as mudanças na janela de transferência pulverizaram qualquer chance de ter uma ou duas equipes como referências.

O Brasil, como bem disse Renato Augusto numa coletiva recente, está “no bolo”. É candidato, como foi até no fiasco de 1990. Um ano antes, vencera a Copa América e Itália e Holanda, outras favoritas. Mas sucumbiu no Mundial pela queda técnica e lesões de seus grandes destaques: Bebeto, Careca e Romário.

Contexto, circunstâncias, o imponderável.Tudo isso pesa em um ano. Por isso é tão difícil pensar em junho de 2018. O dinamismo do mundo atual já é absurdo. No futebol mais ainda. Mais prudente celebrar a evolução brasileira e evitar falar em grupo fechado, sistema definido ou qualquer coisa que sugira uma estabilidade que não se sustenta. Serve apenas como linha mestra para não se perder no planejamento.

A Copa não começa agora. Melhor segurar a ansiedade e respeitar a sequência e o tempo de cada seleção. A pressa, neste caso, é ainda mais inimiga.


Como o destino de Neymar pode interferir no futuro da seleção brasileira
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André Rocha

O colega Marcelo Bechler garimpou a notícia no Esporte Interativo e o mundo todo foi atrás: Neymar estaria seguindo o caminho de Daniel Alves rumo a Paris para jogar no PSG. E de fato há interesse de ambas as partes no negócio milionário, mesmo com o risco de esbarrar no fair play financeiro da UEFA.

A reapresentação no Barcelona para a pré-temporada nos Estados Unidos, porém, parece estar fazendo o craque repensar a decisão de deixar o clube catalão. Piqué, Messi e Suárez seriam os mais dedicados a convencer o companheiro a continuar onde está. Há portanto um dilema que deve ter mais um capítulo hoje com uma entrevista coletiva agendada pelos franceses.

Além da ótima proposta financeira, a impressão é de que Neymar busca um time para chamar de seu, fugindo da hierarquia que coloca Messi acima de todos os outros – inclusive na história do Barcelona. Com a renovação do contrato do argentino até 2021, as perspectivas de protagonismo até os 30 anos do camisa onze seriam remotas.

Por outro lado, Neymar já está adaptado à cidade e à maneira de jogar do Barça. Mesmo com a troca de Luis Enrique por Ernesto Valverde no comando técnico, a filosofia tende a continuar a mesma. Mais uma temporada do trio MSN deve afinar ainda mais a sintonia, com os atacantes sul-americanos jogando “de memória”.

Uma decisão para o craque, seu pai e staff. A grande questão para o torcedor brasileiro é como o destino da grande estrela da seleção brasileira pode interferir no trabalho de Tite pensando no Mundial da Rússia no ano que vem.

Bem, se Neymar seguir no Barcelona, o treinador receberá um atleta ainda mais consciente taticamente e no jogo coletivo. Para dar liberdade a Messi circulando por todo o ataque e se aproximando de Suárez, Neymar é praticamente um “winger” pela esquerda, fechando uma segunda linha de quatro quando a equipe perde a bola. Preenche praticamente todo o corredor esquerdo, indo e voltando. Mais assistente que finalizador.

Tite dá um pouco mais de liberdade, mas quer Neymar partindo deste setor. Recompondo na transição defensiva e arrancando para infiltrar em diagonal nas ações de ataque. O perigo é recebê-lo extenuado por uma temporada em que o Barça vai tentar arrancar do Real Madrid a hegemonia na Europa e recuperá-la na Espanha. Uma exigência brutal no físico e no mental.

Já a França é um mistério que pode ser inspirador pela mudança de ares. No PSG de Unai Emery, a possibilidade de atuar em uma equipe com estilo mais vertical e intenso. Pode também ganhar mais liberdade para circular no ataque, fazendo companhia a Cavani ou mesmo revezando com o uruguaio que é extremamente dedicado e tem condições de também recompor pela esquerda.

Se mentalmente a primeira temporada num novo clube com status de estrela será exigente para mudar o patamar, especialmente na Liga dos Campeões, e recuperar o domínio na França depois de perder o título para o Monaco, em termos físicos o desgaste certamente será menor. A diferença do PSG em relação aos demais na League 1 – talvez até ao atual campeão, que perdeu muitas peças fundamentais na janela de transferência – vai permitir ser poupado nas partidas que precisar.

Tite, então, receberia Neymar mais inteiro para voar na Copa do Mundo. Se não conseguir o enorme feito de dar o título da Champions ao Paris Saint-Germain já na sua primeira temporada, a chance mais clara a curto prazo de conquistar a sonhada Bola de Ouro é o Mundial da Rússia.

Uma mudança tática também pode fazer Tite flexibilizar um pouco a sua forte convicção, construída em conversas com Dorival Júnior, Muricy Ramalho, Adilson Baptista e Rogério Micale, de que o melhor posicionamento para Neymar é pela esquerda num 4-1-4-1. Testar novas possibilidades, até para dificultar e surpreender os adversários que estudarão detalhadamente o Brasil até o ano que vem, é mais que saudável. É necessário.

Mas não podemos descartar o pior cenário: problemas de adaptação, mesmo com tantos brasileiros no elenco, desavenças com o treinador ou qualquer outro obstáculo ao protagonismo de Neymar na França. Aí Tite teria que fazer da seleção o refúgio de um talento questionado, pressionado e com o desgaste emocional que afeta o desempenho de qualquer profissional, em qualquer atividade.

Por isso o treinador brasileiro estará muito atento aos movimentos em Paris e Barcelona. O futuro de Neymar é uma variável importante para sinalizar como será o escrete canarinho na disputa de sua 21ª Copa do Mundo.


Corinthians e Grêmio na “retranca”? Então o Brasil de 1970 também fazia
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André Rocha

Surpreendeu nas redes sociais e nos comentários dos posts deste blog acerca das vitórias de Corinthians e Grêmio sobre Palmeiras e Flamengo, respectivamente, as críticas aos vencedores por supostamente jogarem na “retranca”.

Além da natural vocação brasileira de desmerecer quem está vencendo, ainda mais se for o rival, chamou a atenção o total desconhecimento da maneira de atuar das equipes que ocupam o topo da tabela no Brasileiro. Como se fosse obrigatório chegar no Allianz Parque e na Arena da Ilha e encarar dois clássicos nacionais que já decidiram edições desta mesma competição de peito aberto.

O Corinthians, líder absoluto, tinha ainda menos motivos para se expor. Afinal, eram 13 pontos de vantagem sobre o rival. Já o Grêmio teve postura ofensiva até abrir o placar, depois recolheu as linhas para negar espaços e tentar aproveitar os cedidos pelo adversário. O nome disso é inteligência.

Ou capacidade de se adaptar ao que o jogo apresenta. É óbvio que os times da casa atacariam mais. Por estarem em seus estádios, acostumados com o gramado e empurrados por atmosferas favoráveis criadas pelas torcidas. No caso do oponente, jogar bem é aceitar o volume de quem ataca, mas controlar os espaços e negar as brechas para a infiltração que proporcionam a chance cristalina. As finalizações acontecem, mas sempre dificultadas pela marcação, o que facilita o trabalho do goleiro.

Com menos posse de bola, a solução ofensiva é ser prático e objetivo. Finalizar menos, porém melhor. Até pela liberdade desfrutada por quem cria e conclui, consequência dos espaços cedidos pelo mandante. Acontece em todo lugar do mundo, em qualquer partida equilibrada.

Mas Corinthians e Grêmio foram”condenados”. “Retranca”, ” joga por uma bola”, “futebol feio e chato”. Como se fosse o padrão das equipes de Fabio Carille e Renato Gaúcho e não algo circunstancial. O grande erro dos torcedores rivais, em geral é opinar sobre o time tendo como base apenas os dois confrontos com o seu clube de coração. O pior é que parte da imprensa também se comporta da mesma maneira.

Como ser “retrancado” com os dois ataques mais positivos? O Corinthians como o time mais efetivo nos passes e quarto em posse de bola. O Grêmio que ataca dentro ou fora de casa com volume de jogo e que aposta na ofensividade até de seus volantes, Michel e Arthur, que são verdadeiros meio-campistas, defendendo e atacando. Por estar em sua arena, partiu para cima do líder no duelo da 10ª rodada.

Se defender com todos os jogadores no próprio campo quando necessário for retranca, então a seleção brasileira de 1970, considerada a melhor de todos os tempos, também pode ser considerada assim.

Porque a ideia de Zagallo, depois do fracasso do escrete canarinho na Copa do Mundo de 1966, era bem simples: as seleções europeias, à época, só criavam problemas quando tinham espaços para trabalhar. Se o Brasil se fechasse eles se atrapalhariam, perderiam a bola e cederiam campo para o nosso talento sobressair ainda mais.

Se antes os três ou quatro atacantes ficavam na linha média sem funções defensivas apenas esperando o momento de receber a bola e partir para o ataque, em 1970 todos voltavam. Até Tostão, o centroavante móvel mais adiantado. Ainda que os principais responsáveis pelos desarmes, antecipações e interceptações fossem os quatro da última linha de defesa, Clodoaldo e, às vezes, Gérson, a concentração de jogadores em 35 metros, mesmo sem a compactação de hoje, criava problemas para os adversários.

Bola roubada, saída em velocidade. Os lances que ficaram na história, como os lançamentos de Gérson para Pelé e Jairzinho marcarem gols espetaculares, são em contra-ataques. Na velocidade e no ritmo possíveis há quase 40 anos e no calor do México. Mas essencialmente contragolpes.

Dos 19 gols marcados em seis partidas, oito foram construídos em típicos contragolpes. Seis destes nos jogos eliminatórios. Sem contar o lendário gol perdido por Pelé no drible de corpo no goleiro uruguaio Mazurkiewick . Também em transição ofensiva rápida. Mais dois de falta e dois construídos em cobranças de escanteio e de lateral.

Impossível falar em “jogo feio” com tantos talentos reunidos, sem contar o entrosamento construído em jogos e treinamentos para aquele Mundial. E a intenção, obviamente, não é fazer comparações individuais. Apenas a proposta de jogo, baseada em negar espaços e aproveitá-los no ataque. Prática do timaço de 1970 que Corinthians e Grêmio reproduzem com as devidas atualizações na intensidade e no desempenho atlético.

Por isso Vanderlei Luxemburgo não cansa de repetir, sempre que perguntado, que o Brasil de 1970 foi uma revolução mais influente que a Holanda de 1974. Porque antes recuar todos atrás da linha da bola era prática de times pequenos. Ou do “ferrolho” suíço de Karl Rappan na Copa de 1938. Nem os times e a seleção italiana recuavam até os atacantes no trabalho defensivo.

Se Zagallo tirou a vergonha da “retranca”, José Mourinho deu a ela ainda mais inteligência e coordenação nos movimentos no final da década passada. Exatamente para gerar uma resposta à atualização do “futebol total” de Rinus Michels nos anos 1970 criada por Pep Guardiola no Barcelona.

Se a ideia do jogo de posição do Barça era atacar em bloco com posse de bola, abrir dois pontas para esgarçar a marcação, aproveitar os espaços entre as linhas e minar as forças do adversário pressionando a marcação assim que perde a bola, Mourinho fechou sua Internazionale e depois o Real Madrid com os ponteiros recuando como laterais e os quatro homens da defesa bem próximos formando uma linha de seis. À frente dela, três meio-campistas e até o único atacante bloqueando a entrada da área e dificultando o trabalho dos criativos Xavi e Iniesta.

Bola recuperada, saída em velocidade com poucos toques para otimizar os 30% de posse que restavam. Se conseguisse criar duas oportunidades precisava matar o jogo. Algumas vezes conseguiu, outras não. Outros treinadores aprimoraram essa ideia na sequência e quem encontrou a resposta mais letal à proposta de Guardiola foi Carlo Ancelotti no Real Madrid que atropelou o Bayern de Munique comandado pelo catalão em 2014.

Ninguém à época chamou o time merengue de “retranqueiro”. Porque era a saída inteligente para o que o oponente apresentava. Corinthians e Grêmio realizaram o trabalho defensivo correto porque sabem se comportar. Vêm de trabalhos com uma linha de pensamento, uma filosofia. Ideias que Carille e Renato vão tentando aprimorar.

Identidade que tem sido mais valiosa que todo o dinheiro investido por Palmeiras e Flamengo em contratações de peso. Os jogadores entram em campo e sabem o que precisam fazer. Jogo a jogo, situação a situação. Defendendo e atacando conforme a necessidade.

Questão de leitura de jogo coletivo, algo que falta culturalmente ao brasileiro, que acredita no talento individual puro. Mesmo que Zagallo e seu time genial tenham dado uma aula há 47 anos. Pena que quase ninguém entendeu.


E Lionel Messi, enfim, foi Maradona. Tinha que ser no Bernabéu!
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André Rocha

Foto: Juan Carlos Hidalgo (EPA)

A imagem de Messi comemorando o gol da vitória por 3 a 2 sobre o Real Madrid rodou o mundo. No lance final, dentro do Santiago Bernabéu. Mostrando para a gente que reverencia Cristiano Ronaldo que ele estava ali. O camisa dez eterno do Barcelona. O maior de todos. Lionel.

Um gesto que vindo de Neymar, por exemplo, seria interpretado como arrogância. E foi mesmo. Mas desta vez como um desabafo de quem precisava, enfim, se manifestar como o melhor de uma era. E nos noventa minutos o que se viu em Messi foi um total e inédito inconformismo com a derrota.

Revés que viria até com o empate. Com todo o seu simbolismo: praticamente um adeus à disputa do título espanhol e, consequentemente, mais uma Bola de Ouro indo para Cristiano Ronaldo. A quinta. Empatando a disputa, algo que nunca aconteceu desde a afirmação do argentino como um gênio do esporte.

Por isso o que se viu em campo não foi apenas um Messi desequilibrante. Isso ele é desde o primeiro “triplete” da carreira, nos 3 a 3 contra o próprio time merengue em 2007. Passando pelos 6 a 2 em 2009 que foi a “gênese” do Messi “falso nove” que mudaria de patamar o promissor ponteiro canhoto formado nas canteras do clube.

Desta vez era um homem que não admitia sair de Madri derrotado. Ou sem provar que continua sendo o melhor. A entrega foi total, inclusive voltando para ajudar na defesa uma equipe desorganizada, sem Neymar e com Luis Suárez vivendo o momento menos produtivo no clube – já são cinco partidas sem ir às redes. Que precisava dele como nunca.

Casemiro abriu o placar na sempre mortífera jogada aérea do time de Zidane. A resposta veio em um golaço enfileirando dentro da área antes de tirar de Navas. A jogada que termina no petardo no ângulo de Rakitic inicia com Messi tentando de novo romper a defesa e o desarme parando nos pés do croata. O triunfo de virada parecia encaminhado com a expulsão de Sergio Ramos após entrada criminosa. Em Messi, que também levou cotovelada de Marcelo. Sangrou e seguiu correndo, tentando.

Tudo pareceu ruir em nova falha defensiva e o gol de James Rodríguez. Um protagonista improvável para o gol que praticamente garantiria a conquista da liga nacional depois de cinco anos. Não podia ser o colombiano.

O Real se empolgou com as chances seguidas, lembrando o jogo de ida contra o Bayern em Munique, e seguiu no ataque. Só que daquela vez era o time alemão que estava com um homem a menos. E Carlo Ancelotti não tinha Messi.

Contragolpe letal, com vantagem numérica. Iniciado com uma arrancada de Sergi Roberto, que podia ter sido contida com falta por Marcelo. Parou nas redes em um chute típico de Messi.

Inusitada e inesperada foi a comemoração. O gênio argentino, enfim, lembrou Diego Maradona. Na arrogância de quem sempre se achou o melhor. O primeiro a desafiar publicamente o reinado antes inquestionável de Pelé, defendido pelos que jogaram antes e depois do brasileiro.

Astro que disputou quatro Copas do Mundo. Na que venceu saiu do Estádio Azteca acariciando a taça. Mas em 1982 perdeu a cabeça e a esportiva no Estádio Sarriá dando um coice em Batista nos 3 a 1 do time de Telê Santana que mandou para casa a albiceleste campeã quatro anos antes em casa.

Em 1990, chorou com o vice-campeonato reclamando da arbitragem que, de fato, inventou o pênalti cobrado por Brehme que deu o tricampeonato mundial aos alemães. Quatro anos depois, botou a culpa de seu doping em João Havelange por um suposto favorecimento ao Brasil tirando do caminho o craque que eliminara a seleção de Lazaroni na Itália com uma arrancada genial e assistência para Caniggia.

No Argentinos Juniors, Boca, na seleção, no Napoli e até no próprio Barcelona, uma insana sensação de onipotência. A certeza de ser a estrela mais brilhante e a vontade de mostrar isso para o universo. Bem diferente da postura blasé de Messi em tantas ocasiões. Até quando chora ao perder a Copa para a Alemanha no Maracanã ou as duas Copas América para o Chile. Mesmo lutando em campo e às vezes até tentando definir sozinho, como fazia Diego.

Mas sem o brilho no olhar que fez luz no Bernabéu. Pela 14ª vez no estádio, dentre os 23 gols em 34 partidas que faz dele o maior goleador do clássico que atrai os olhos do mundo desde que Cristiano Ronaldo desembarcou na Espanha para desafiar mais de perto e em mais jogos quem o planeta sabe que é o melhor desta era.

Lionel Messi. Aquele que sem fazer muito esforço, às vezes parecendo indiferente, jogando a toalha antes de Neymar nos 6 a 1 sobre o PSG e falhando no duelo com Buffon e a defesa da Juventus, tem 47 gols em 46 jogos na temporada pelo Barça. 31 no Espanhol, abrindo vantagem na disputa da Chuteira de Ouro que pode ser a quarta da carreira. Agora 500 pelo clube. Se Cristiano Ronaldo falhar nas conquistas coletivas com o Real, a chance da sexta Bola de Ouro.

Era isso que estava em jogo no Bernabéu. Por isso Messi saiu de seu universo particularíssimo, foi humano como nunca e mostrou para o estádio do rival e para o mundo as cores do seu clube, o número de sua camisa e o nome ali escrito. Que já é uma lenda, como Maradona. Por caminhos diferentes que se cruzaram em Madri para ficar na eternidade de um gesto. Simbólico e emblemático.

 


Seleção de Tite é o Brasil que dá certo
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André Rocha

Era o que se dizia nos sombrios anos 1980 sobre Nelson Piquet, depois Ayrton Senna no automobilismo. Mais recentemente, Carlos Alberto Parreira já não foi tão feliz ao se referir à CBF.

Mas na crise em todas as instâncias que vive o Brasil, ver a seleção de Tite com a segurança de quem sabe o que precisa fazer, unindo serenidade, conhecimento e confiança, é inspirador.

Compensando os erros de um Marcelo em noite nada produtiva. Falha grotesca no recuo para Alisson que Cavani entrou na frente para sofrer e converter o pênalti que abriu o placar. Pela primeira vez o Brasil de Tite saía atrás. No Centenário. Com nove minutos de jogo.

Mas a organização transmite segurança. As linhas próximas no 4-1-4-1 dão opções de passe para sair da marcação pressão do rival. Conceitos bem assimilados não permitem que a equipe se desmanche mentalmente.

Arrancada de Neymar, Paulinho recebe entre as linhas e empata com um golaço. Uma das três finalizações em 45 minutos, duas no alvo. Com 76% de posse. Ainda com dificuldades para conter o jogo físico uruguaio que proporcionou seis finalizações, mas apenas uma na direção da meta do Alisson.

O segundo tempo foi um primor. Roberto Firmino, nitidamente desconfortável na primeira etapa, enfim acertou o pivô, girou e finalizou. No rebote, o segundo de Paulinho. O contestado meio-campista que completou o triplete no último lance da partida e consolidou sua condição de melhor em campo. Atuando mais à frente com o recuo de Renato Augusto para ajudar Marcelo no combate e na saída de bola.

Entre eles, a pintura de Neymar ganhando de Coates e tocando por cima de Martín Silva em um contragolpe mortal. Para coroar uma atuação essencialmente sólida. Finalizou menos, mas de onze acertou sete e colocou quatro nas redes. Precisou de só cinco desarmes certos contra 16 uruguaios. Porque o posicionamento é preciso.

Classificação garantida para o Mundial da Rússia. No continente está claro que não há concorrentes. É hora de encarar as principais seleções do mundo para o polimento e as observações que faltam.

Por ora, os resultados sustentados pelo desempenho são um alento. Em tempos tão cinzentos, o Brasil de Tite é um facho de luz que iluminou a noite em Montevidéu.

(Estatísticas: Footstats)


O mito dos cinco camisas dez no Brasil de 1970
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André Rocha

Brasil 1970 camisas dez

Com a contratação de Conca pelo Flamengo – ainda que o argentino só vá jogar daqui a, no mínimo, 60 dias – a pauta não só aqui neste blog foi a possibilidade do reforço rubro-negro fazer companhia a Diego na articulação das jogadas do time de Zé Ricardo.

Nas redes sociais e nos programas de debate nas emissoras de TV fechada surgiu o velho exemplo, que virou clichê, de quando se questiona a escalação de jogadores que costumam exercer a mesma função: os cinco camisas dez em seus clubes que se reuniram na mítica seleção de 1970.

Gerson no São Paulo, Rivelino no Corinthians, Jairzinho no Botafogo, Tostão no Cruzeiro e Pelé, que obviamente ficou com o número durante o Mundial. Até porque foi ele quem criou a imagem que associa a camisa ao craque do time, ainda no final dos anos 1950.

De fato, todos usavam a dez. Mas não eram o “10” em campo. Porque nos anos 1960 e 1970, em muitas equipes, o craque do time e camisa dez era o meia-armador. Jogador cerebral, capaz de longos lançamentos, chutes fortes e precisos de longa distância. O pensador que atuava de uma intermediária à outra, pouco à frente do volante – ou “cabeça-de-área”.

No tricolor paulista o ponta-de-lança, meia que jogava praticamente como atacante, num 4-2-4, era Paulo, que vestia a oito e fazia dupla na área com o artilheiro Toninho Guerreiro. No ano seguinte chegou Pedro Rocha, craque uruguaio. Gerson seguiu como o meia-armador e com a dez. Na seleção, a mesma função, mas com a oito.

O mesmo com Rivelino no Corinthians. Fazia gols com sua canhota impressionante, mas era o organizador com a dez. A tarefa de se juntar ao trio de ataque era de Ivair, o “Príncipe”, camisa oito contratado à Portuguesa. Na seleção, Rivelino foi adaptado na função de “falso ponta” pela esquerda. Camisa onze. Contra a Inglaterra, com a ausência de Gerson, atuou em sua posição original e Paulo César Caju entrou pela esquerda. Mas normalmente sua principal atribuição era voltar para armar com Gerson e deixava o espaço no flanco para Tostão.

Camisa nove que atuava no Cruzeiro como uma espécie de falso centroavante, revezando com Dirceu Lopes na chegada ao ataque e formando o primeiro “quadrado” no meio-campo que se tem notícia, com Piazza e Zé Carlos como volantes. Ou seja, era um ponta-de-lança, mas que conhecia bem a dinâmica de jogar abrindo espaços para os companheiros.

Jairzinho era o dez do Botafogo, mas na seleção era reserva de Garrincha e assumiu a posição na ponta direita. Era veloz, tinha incrível explosão para a época. No alvinegro era praticamente um segundo centroavante, formando o ataque com Rogério, Roberto Miranda e Caju. Não possuía, porém, as características de Tostão e Pelé. Era versátil. Jogar aberto e arrancar em diagonal não era novidade para o “Furacão da Copa”.

Portanto, a tese de que os jogadores, mesmo atuando na mesma posição, se ajustam em campo naturalmente usando o exemplo de 1970 é um tanto fantasiosa. É preciso conhecer o contexto, as características dos jogadores envolvidos e o que Zagallo queria de cada um.

O próprio treinador, trinta anos depois, chegou ao Flamengo para tentar abrigar no mesmo ataque Edilson, Alex, Petkovic e Denilson. Era o time da fracassada parceria com a empresa ISL que também sucumbiu no campo em 2000. É claro que todos os problemas financeiros e de bastidores contribuíram, mas nem sempre juntar os craques é tarefa simples.

Zagallo conseguiu em 1970 fazendo ajustes na base de João Saldanha. A única inserção no quarteto ofensivo foi Rivelino. Havia entrosamento e bastante tempo para se preparar. Mas, principalmente, os estilos combinavam, cada um em sua função.

O resto é mito. Porque futebol, mesmo sendo mágico, não se faz com um estalar de dedos.


Palmeiras, Flamengo e a falácia do “jogar pra ganhar”
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André Rocha

Outro dia este que escreve ouviu o comentarista Alexandre Oliveira da ESPN Brasil analisando a situação do São Paulo no programa “Bate Bola” da hora do almoço e concluindo que Ricardo Gomes deveria esquecer sua visão de futebol, não pensar em jogar bem e tentar “arrumar um jeito de ganhar”.

Obviamente que o colega não sugeriu nada ilícito, mas o blogueiro aqui ficou imaginando, como o Bobby no seu Fantástico Mundo, o técnico do tricolor em uma espécie de videogame usando uma combinação de teclas, o velho “macete”, para alterar o placar para 1 a 0 a favor do seu time. Sem jogar.

Porque para vencer tem que jogar. E quem joga bem normalmente está mais próximo da vitória. A menos que o adversário faça ainda melhor. O “jogar bonito” é outra discussão, mais subjetiva. O que é belo para um pode ser chato e enfadonho para outro. A Espanha campeão do mundo em 2010 é um bom exemplo dessa dicotomia.

O debate não é novo. Por aqui se intensificou em 1994 depois da conquista do título mundial que a seleção de 1982 não conseguiu. O trauma da derrota na Espanha criou uma falácia de que só havia dois caminhos: jogar bem e perder ou jogar pelo resultado e levar a taça para casa.

Como se o time de Telê Santana abrisse mão dos dois pontos à época – e não sofresse o terceiro gol de Paolo Rossi no Sarriá com todos os jogadores postados na defesa – ou a seleção de Parreira não tivesse sido superior e com mais posse de bola que todos os adversários na disputa nos Estados Unidos.

Agora a polêmica volta com a disputa entre Palmeiras e Flamengo pela liderança do Brasileiro. Nos últimos jogos, um discurso em comum: “o que importa é ganhar”. Não por acaso, o desempenho caiu. Contra América e Santa Cruz, os dois piores times da competição, vitórias construídas sem brilho. Na última rodada, sofrimento diante de Cruzeiro e Fluminense. O alviverde deixou dois pontos pelo caminho.

Cuca é uma pessoa ansiosa e passa isso para seus times, que quando estão vencendo ficam mais à vontade e praticam um futebol mais fluido. Mas até construir a vantagem normalmente apelam para o “atalho” do abafa e das jogadas ensaiadas. Como para abreviar o sofrimento.

Legítimo, mas se demora a acontecer a tensão fica no ar. Contra o Cruzeiro de Mano Menezes na Fonte Luminosa o gol não saiu no primeiro tempo de domínio e a proposta de jogo degringolou na segunda etapa e Zé Roberto salvou o gol de Robinho.

Já o Fla de Zé Ricardo perdeu um pouco da paciência de quem prefere trocar passes e controlar a bola. Teve menos posse que o Fluminense em Volta Redonda porque tentou decidir mais rapidamente as jogadas. Venceu em duas falhas tricolores, mas podia ter cedido o empate se Sandro Meira Ricci tivesse validado o gol em impedimento de Henrique ou se Muralha não salvasse chance cristalina de Wellington Silva no final.

Porque jogar bem e jogar para vencer deveriam ser sinônimos. Mas o embate 1982 x 1994 não morre. Nem o título de 2002 conquistado com sete vitórias e um estilo competitivo com momentos de beleza foi capaz de arrefecer. Nem com o exemplo recente de Tite, que focou na melhora de desempenho da seleção e conseguiu as quatro vitórias nas Eliminatórias que passaram longe do time de Dunga, que priorizava resultado até em amistoso.

É claro que todo mundo deseja a vitória. Não fosse assim, o último confronto entre Pep Guardiola e José Mourinho não terminaria com o catalão, símbolo do jogo vistoso, enfiando cinco na última linha de defesa no Manchester City e o português, adepto do “ônibus” protegendo sua meta, buscando o empate com um United cheio de atacantes. Algo circunstancial dentro de linhas de trabalho e pensamentos antagônicos.

O Cruzeiro de 2003, de Vanderlei Luxemburgo e Alex foi o melhor time da era dos pontos corridos no país. Dos 100 pontos e dos 102 gols em 46 partidas. Mas na reta final conquistou algumas vitórias sofridas, arrancadas meio à forceps. Quando o adversário joga a vida, o time que se destaca está mais que estudado e é preciso marcar um gol para depois administrar os três pontos. Normal. Mas deve ser exceção, não regra. Até porque o risco é maior.

Entre Palmeiras e Flamengo, separados por apenas um ponto, quem voltar a olhar para o campo e buscar melhorar o próprio jogo terá mais chances de terminar no topo. Porque “arrumar um jeito de ganhar” é para os medíocres. Como o São Paulo de hoje, lutando para não cair. Como não podem ser os candidatos ao título mais importante do país cinco vezes campeão mundial.

 


Eder consagrou CR7. Lembre outros coadjuvantes que eternizaram gênios
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André Rocha

Cristiano Ronaldo mudou de patamar na história do futebol com a conquista da Eurocopa. Ficou maior. Se Messi não mais jogar pela seleção argentina, este título do português pode colocá-lo acima do seu grande rival nos tantos rankings e eleições individuais que aparecem por aí e sempre existirão.

Porque comparar é um hábito milenar do ser humano, até para criar modelos, padrões e organizar os pensamentos, se situar.

Só que estamos falando de um esporte coletivo. Não há vitória solitária. A frase “Cristiano Ronaldo ganhou a Eurocopa” passa pelo gol de Eder na decisão. Ou o de Traustason, da Islândia contra a Áustria, que jogou o hesitante Portugal da fase de grupos no chaveamento mais acessível, saindo da rota de Itália e Alemanha antes da final.

Os livros estão repletos de casos de coadjuvantes que salvaram gênios da bola eternizados por suas grandes vitórias. Vamos lembrar:

1 – Pelé/Clodoaldo

Copa de 1970, semifinal contra o Uruguai.  Tensão pelo confronto com o algoz em 1950. Gol de Cubilla em falhas de Brito e Félix, primeiro tempo se arrastando para o final e a lendária seleção brasileira a ponto de se desmanchar mentalmente. Atuação sem brilho do Rei, o grande destaque individual no México.

Gerson, meia-armador e organizador da equipe, está bem vigiado e não consegue abastecer o ataque. Em uma conversa rápida com os companheiros surge a ideia: trocar com Clodoaldo e passar a ser volante, atraindo a marcação e desarrumando o meio-campo adversário.

O camisa cinco se lança ao ataque, recebe lançamento de Tostão e marca o gol de empate que seria a senha para a virada espetacular no segundo tempo, com atuação mágica de Pelé, que quase marcou um gol antológico, fintando o goleiro Mazurkiewicz sem tocar na bola e por pouco não surpreendeu o goleiro numa saída de bola equivocada.

Caminho aberto para o tri e a consagração do camisa dez. Graças ao companheiro menos badalado do Santos.

2 – Maradona/Olarticoechea

A lembrança marcante como coadjuvante do “Pibe” é de Burruchaga marcando o gol do título sobre a Alemanha na decisão no Estadio Azteca. Mas sem a presença do ala pela esquerda de nome esquisito, talvez a história do jogo mais emblemático da conquista da Argentina em 1986 tivesse sido diferente.

Na memória do planeta, um gol de mão e outro simplesmente o mais espetacular de todas as Copas. Maradona, o herói do triunfo que transcendeu o futebol como vingança por conta da Guerra das Malvinas. Só que o jogo não acabou com o segundo toque de Diego para as redes inglesas.

John Barnes entrou aos 29 minutos do segundo tempo. Em 1984 havia marcado um golaço no Maracanã enfileirando brasileiros na vitória inglesa por 2 a 0. Um ponta talentoso, mas descartado por ser negro. Fez a jogada do gol de Lineker, o sexto do artilheiro daquele Mundial. E faria o do empate, em nova arrancada de Barnes, não fosse o toque salvador de Olarticoecha, tirando do camisa dez inglês que já havia se desmarcado do zagueiro Ruggeri.

O detalhe: quem perdeu a bola na intermediária que gerou esse contragolpe foi…Maradona. Já exausto, assim como seus companheiros. Com o empate, como seria a prorrogação? Não houve. Porque Olarticoecha salvou o “Dios” argentino.

3 – Zidane/Blanc

Zinedine Zidane não perdeu a cabeça e foi expulso apenas na tão tola quanto lendária cabeçada no peito de Materazzi na final da Copa de 2006.

Em 1998, na vitória tranquila por 4 a 0 sobre a Arábia Saudita ainda na segunda partida da fase de grupos pisou em um adversário sem nenhuma necessidade e levou o cartão vermelho. Suspenso por dois jogos.

Ou seja, ficou de fora do duelo contra o Paraguai de Chilavert e Gamarra nas oitavas-de-final. Um dos sistemas defensivos mais sólidos e organizados daquela Copa. Zidane viu sua seleção rondar a área, sofrer e ser obrigada a já na primeira disputa eliminatória jogar uma prorrogação com “morte súbita”.

Um gol paraguaio e o camisa dez que pulverizaria o Brasil na decisão e entraria para o olimpo da bola iria para casa. Mas Laurent Blanc – sim, o ex-técnico do Paris Saint-Germain e ótimo zagueiro – fez o primeiro “golden goal” da história das Copas e salvou a pele de seu compatriota. Oito anos depois, Zizou não teve a mesma sorte e a Itália venceu nos pênaltis.

4 – Beckenbauer/Vogts

Até a decisão da Copa de 1974 em Munique, o craque do torneio era Johan Cruyff, gênio do “Carrossel Holandês”, a última grande revolução do esporte arquitetada fora do campo por Rinus Michels.

No primeiro minuto da final, justificou o status com uma arrancada desde a defesa  – era o último homem quando recebeu a bola! – e ser derrubado por Schwarzenbeck. Pênalti convertido por Neeskens. O primeiro a ser driblado foi Bert Vogts. Lateral direito de origem, mas que por ser um abnegado e incansável marcador foi designado para perseguir o falso centroavante holandês por todos os campos.

Mais ou menos o que Gentile faria com Zico e Maradona oito anos depois. Tempos de marcação individual. Deu certo. Vogts anulou Cruyff, facilitou a vida do líbero Franz Beckenbauer, que liderou sua seleção para a virada por 2 a 1 e consagrou o “Kaiser” com seu único título mundial como jogador.

Em 1990 seria o segundo, depois de Zagallo, a ser campeão como jogador e treinador. Talvez a história tivesse sido bem menos generosa com Beckenbauer se não fosse a dedicação de Vogts no cerco a Cruyff.

5 – Romário/Branco

Quando se fala de grandes atuações individuais em Copas do Mundo, as lembranças recaem sobre Maradona em 1986, Garrincha em 1962 e Romário em 1994, tal a dependência da seleção brasileira treinada por Carlos Alberto Parreira.

Nos Estados Unidos, o camisa onze foi protagonista em praticamente todas as partidas. Na final contra a Itália perdeu gol feito, mas carregava o mundo nas costas naquela tarde tórrida no Rose Bowl. Foi corajoso na decisão por pênaltis ao pedir para bater sem ser um dos cobradores escolhidos.

Mas, a rigor, a sólida equipe só se viu fragilizada em um único momento daquela Copa: as quartas-de-final contra a Holanda: 2 a 0, com golaço de Romário, que virou 2 a 2 em poucos minutos por total desconcentração da defesa. Os 24 anos sem títulos pesaram como nunca. Time desorganizado e exposto.

Até Branco cavar uma falta em um lance que mais pareceu infração do lateral esquerdo, que largou a mão no rosto de um adversário. Cobrança forte e precisa, choro do gaúcho que superou problemas físicos para substituir Leonardo, expulso nas oitavas contra os Estados Unidos.

Romário fez contorcionismo para sair da bola. Imaginem se ela explodisse nas costas do Baixinho e fosse para fora…

Nunca saberemos. Porque o futebol é imprevisível como a vida. E nas pequenas vitórias do cotidiano dependemos de tanta gente…Assim como os gênios da bola precisaram de companheiros menos famosos para ocuparem seus tronos. Vale a lembrança.

 


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