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Ventura? Itália brinca com a sorte e pune geração nem tão fraca assim
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André Rocha

Foto: Divulgação/FIGC

A Itália não tem uma geração talentosa para duelar com a renovada Espanha por uma vaga na Copa do Mundo. Mas não precisava de tanto assim para superar uma Suécia sem Ibrahimovic na repescagem das eliminatórias.

Buffon na meta, uma defesa experiente, Jorginho e Verratti no meio-campo e bons nomes como Bernardeschi, Belotti e Insigne na frente. Mais que suficiente para colocar a Azzurra em mais uma Copa do Mundo. O que aconteceria na sequência dependeria do sorteio e de como a seleção chegaria à Rússia.

Em 2010 chegou na África do Sul em crise. No Brasil em 2014, o calor e o grupo complicado, com a surpreendente Costa Rica terminando na liderança, frustraram os planos.

Mas há uma referência mais recente que mostra que a crise não deveria ser tão feia: a Eurocopa 2016. Da grande atuação contra a então envelhecida Espanha e do belo duelo tático contra a Alemanha nas quartas-de-final. Perdendo apenas nos pênaltis para a atual campeã mundial. Há pouco mais de um ano, com praticamente os mesmos jogadores. E Antonio Conte no comando técnico.

Eis o ponto de desequilíbrio. Ainda que a saída do treinador para o Chelsea tenha sido traumática, a escolha do sucessor não podia ter sido tão aleatória. Giampiero Ventura, aos 69 anos, assumiu a seleção quatro vezes campeã mundial com a seguinte sequências de times no currículo nos últimos dez anos: Verona, Pisa, Bari e Torino.

Com todo respeito que essas equipes merecem, principalmente a história do clube de Turim, é muito pouco para o peso do cargo. Ainda que se compreenda a lógica diferente na Europa, na qual os melhores treinadores trabalham em clubes e não nas seleções, a federação italiana foi, no mínimo, infeliz. Com um Maurizio Sarri ali tão perto…

O resultado prático foi uma seleção armada num 4-4-2 com jeito de 4-2-4, com o meio-campo esvaziado logo diante da Espanha de Busquets, Isco, Iniesta, David Silva.. Se não há tantas opções de qualidade é obrigatório fazer o simples: organização e eficiência nas transições, defensivas e ofensivas. O que a Itália ensinou para o mundo e virou sua marca, até um clichê para falar do futebol praticado no país. Difícil entender.

Na decisão contra a Suécia no San Siro, a escolha de Immobile, um atacante de velocidade que precisa de espaço para receber às costas da retaguarda, para enfrentar uma equipe com sistema defensivo posicionado na maior parte do tempo para administrar a vantagem mínima construída no jogo de ida. Nos minutos finais, a imagem patética do volante De Rossi apontando para Insigne, talvez o mais talentoso atacante, como o jogador que deveria entrar e não ele. Apenas mostrando o óbvio.

É claro que, ainda assim, era possível fazer dois gols nos suecos em Milão e ao menos garantir o básico. Mas a Itália brincou com a sorte ao escolher Ventura. Agora paga com as lágrimas de Buffon, que não merecia se aposentar com tamanha decepção, e um dos grandes vexames de sua história. Repetindo o insucesso de 1957 ao perder a vaga para o Mundial da Suécia para a Irlanda do Norte e superando o papelão da constrangedora eliminação para a Coréia do Norte na Copa de 1966.

Vão falar em “geração fraca”, crise no Calcio e outras teses apocalípticas. Mas a liga, apesar do domínio da Juventus, tem mostrado evolução no futebol jogado, não só por causa dos estrangeiros. Basta ver o Napoli para notar que os conceitos mais atuais do jogo estão presentes. O erro maior foi a falta de cuidado e respeito com a própria história na hora de definir quem lideraria um dos maiores patrimônios do futebol mundial à beira do campo. Pecado mortal.

 


Fernandinho na vaga de Renato Augusto é Tite definindo seus 15 “titulares”
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André Rocha

A Espanha foi campeã do mundo em 2010 utilizando 15 jogadores por ao menos três partidas em sete – de início ou saindo do banco de reservas. Seguindo este mesmo critério, Joachim Low trabalhou com 16 na campanha do tetra alemão no Brasil há três anos.

É a tônica nas Copas, não só entre as seleções que vencem. Um time titular inicial, quase sempre modificado ao longo do torneio em uma ou duas posições e outros dois ou três reservas utilizados na maioria das partidas. Ou seja, no mínimo sete jogadores entram em um ou dois jogos, no máximo. Normalmente naquela partida já definida ou no terceiro jogo da fase de grupos com o país já classificado.

Em 2010, Dunga utilizou 13 em pelo menos duas partidas num total de cinco. No Brasil, Luiz Felipe Scolari trabalhou com 17 em no mínimo três jogos. Ou seja, mesmo em seleções com irregularidade no desempenho e indefinição do treinador, a média não muda.

Tite sinaliza a entrada de Fernandinho na vaga de Renato Augusto para o amistoso de sexta-feira contra o Japão em Lille, na França. Ou seja, o volante que, em tese, seria o reserva de Casemiro entra na vaga de um dos meias por dentro no 4-1-4-1 brasileiro.

Nenhuma novidade para o meio-campista do Manchester City, que já atuou mais adiantado em outros momentos da carreira, inclusive no próprio clube inglês. Mas, principalmente, é o reconhecimento de Tite a um jogador marcado pelos 7 a 1 – injustamente, porque atuou mal porque ficou praticamente sozinho na intermediária brasileira levando botes seguidos de Khedira, Kroos e Schweinsteiger dentro de um time totalmente desorganizado – que evoluiu demais desde que passou a trabalhar com Pep Guardiola.

Na leitura de jogo, em especial. Inteligência para se posicionar, distribuir o jogo e ainda aparecer à frente, mesmo dividindo o setor com meias essencialmente ofensivos como Kevin De Bruyne e David Silva. Sabe mudar o comportamento no momento da perda da bola, logo pressionando e fechando linhas de passe. Acima de tudo, entende a necessidade de se apresentar como opção de apoio para os companheiros.

Com Casemiro, pode recuar para fazer a saída de bola e liberar o volante do Real Madrid, como Kroos e Modric fazem no plano de jogo de Zidane. Nada tão diferente do que Renato Augusto realiza, mas Tite tem razão em se preocupar com seu jogador de confiança que tem mostrado intensidade abaixo dos companheiros por disputar a liga chinesa, de menor exigência.

Para o próximo amistoso faz ainda mais sentido pela ausência de Diego Ribas, com dores musculares. O meia do Flamengo é tratado como reposição a Renato Augusto, mas a impressão que fica é de que se nada de excepcional acontecer até o Mundial, caso esteja na lista final fará parte dos sete ou oito que entrarão em campo poucas vezes ou nenhuma.

Porque o time base parece definido, com dúvidas no gol entre Alisson e Ederson, na zaga entre Marquinhos, Miranda e Thiago Silva e no meio-campo, exatamente pela inconstância de Renato Augusto, com Fernandinho correndo por fora.

Ou seja, 14 jogadores disputando posições. A outra opção que vem sendo frequentemente usada e não deve mudar é Willian. Sempre pela direita. No lugar de Philippe Coutinho, como deve ocorrer na sexta, ou de Renato Augusto, com Coutinho centralizando e o desenho tático variando para um 4-2-3-1. Ou até na vaga de Neymar, numa emergência. Neste caso, Coutinho inverteria o lado e atuaria pela esquerda.

Quinze “titulares” para o Mundial. Como o mais provável é que um goleiro seja definido como titular, pode ser que outro jogador durante a Copa seja um reserva utilizado com frequência para descansar titulares. Talvez Giuliano ou Roberto Firmino. Os outros oito apenas numa necessidade ou queda brusca de produção de um ou outro atleta entre os que iniciam as partidas.

Preocupante por essa consolidação tão precoce e pelo risco de precisar de jogadores sem muitos minutos com Tite e, em alguns casos, desempenho confiável para entrar no time em momentos decisivos. Mas é compreensível para um trabalho curto e com pouco tempo de maturação até a estreia na Rússia. O treinador deve monitorar e estimular ainda mais obsessivamente seus escolhidos para que o rendimento não caia.

Principalmente os 15 homens de Tite.

 


Hernanes, Bruno Henrique e Jô: destaques no Brasil, descartáveis na seleção
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Bruno Henrique chegou a 11 assistências com os dois passes para gols nos 3 a 1 sobre o Atlético Mineiro na Vila Belmiro. Um em cada tempo, um de cada lado do campo. É também o melhor driblador do Brasileiro. Jô agora é artilheiro do campeonato com 16 gols, igualando Henrique Dourado. Não perdeu uma no jogo aéreo contra os zagueiros palmeirenses no dérbi. Hernanes marcou seu nono gol em 16 partidas no triunfo são-paulino fora de casa sobre o Atlético-GO que praticamente garante o tricolor na primeira divisão e muda a equipe de patamar, sonhando até com vaga na Libertadores.

Destaques indiscutíveis que merecem elogios pelo desempenho e pela capacidade de desequilibrar. Mas que Tite pode tranquilamente descartar nas convocações da seleção brasileira.

O motivo é simples, embora magoe e ofenda os defensores do futebol jogado no país cinco vezes campeão do mundo: a nossa liga é fraca, medíocre. Nossas equipes são formadas por atletas medianos, jovens buscando espaço, refugos de experiências mal sucedidas em grandes centros, veteranos na reta final de carreira.

Bruno Henrique, com 26 anos, até teve alguns bons momentos do Wolfsburg, o mais notável na vitória por 2 a 0 sobre o Real Madrid nas quartas de final da Liga dos Campeões, dando um calor em Marcelo. Mais não fez e voltou ao Brasil. Hernanes estava na China, depois de sete anos no futebol italiano. Aos 32 anos, seu tempo já passou no futebol em alto nível. Suas Copas seriam as de 2010 ou 2014. Jô esteve no Mundial do Brasil, mas na reserva. Aos 30 anos, também passou pela China e agora é protagonista no Corinthians. Mas a curva também é descendente, não tem mais mercado na Europa.

Todos merecem respeito por suas trajetórias profissionais. Se Tite der oportunidades – como sinaliza com Hernanes, até pela carência de um articulador no meio-campo como reposição a Renato Augusto – podem até render. Não só pela motivação, mas por estar inserido em um grupo qualificado. O fato, porém, é que há opções mais confiáveis atuando em ligas mais competitivas.

Como seria Jorginho, destaque do Napoli, convocado pela seleção italiana. Joga à frente da defesa, mas tem o perfil de organizador. Meio-campista que pensa o jogo todo e não apenas na sua função em campo. Artigo raro, disputando a Série A do Calcio e Liga dos Campeões. Descartado sabe-se lá o porquê. Mas no setor da equipe de Maurizio Sarri ainda temos Allan, outro pedindo passagem.

No centro do ataque, Gabriel Jesus e Roberto Firmino, que disputam Premier League e Champions. Ponto, sem maiores discussões. Na ausência de um dos dois, pela carência no setor até seria possível pensar em um nome atuando no país. Nada mais que isso. Soa até como piada o menosprezo ao atacante do Liverpool em defesa de Jô, Fred e outros centroavantes mais “midiáticos”.

Nas pontas, a concorrência para Bruno Henrique é cruel: Willian, Coutinho, Neymar, Douglas Costa. Mesmo Taison ou Bernard do Shakhtar Donetsk seria mais interessante. Tite ainda tem os jovens Malcom, do Bordeaux, e Richarlison, do Watford, como alternativas jogando em ligas mais competitivas.

Sim, a Ligue 1, hoje, está acima do Brasileirão. Só pela simples presença de uma seleção mundial como o PSG. Mesmo o Monaco desmanchado, mas já na segunda colocação e ainda forte, com remanescentes do semifinalista da última Liga dos Campeões. Até os times de nível intermediário jogam um futebol mais atual e conectado aos principais centros que o nosso.

Além do orgulho de bater no peito e repetir a falácia do “país do futebol”, muitos ainda confundem o pertencimento, a identificação e o equilíbrio de forças com qualidade. Nosso jogo até evoluiu no trabalho defensivo. Mas ainda é espaçado, lento e fraco tecnicamente. A intensidade ainda fica abaixo.

É compreensível que a mídia incense os jogadores atuando nos clubes daqui. Afinal, a presença deles entre os convocados atrai a audiência nas datas FIFA. Ainda mais agora que o campeonato tem uma pausa, o que motiva ainda mais o torcedor a exigir a presença do melhor jogador do seu time do coração, já que não será desfalque como antes. De novo a questão da identidade: uma seleção com jogadores atuando na Europa, ainda que as emissoras de TV fechada e eventualmente a aberta transmitam as partidas, parece “estrangeira”.

Não por acaso, os escretes que construíram o tricampeonato mundial, além da de 1982, habitam o imaginário popular até hoje e na época criaram uma comunhão com o povo. Todos estavam aqui. A da Copa da Espanha, então, com ídolos dos times mais populares do país, uniu ainda mais os torcedores. Outros tempos, outro contexto.

Hoje a lógica é clara, até óbvia: os países com mais capacidade financeira contratam os melhores jogadores e treinadores. Por consequência praticam futebol com mais qualidade. Em técnica e tática. Admitir isso não é ter complexo de vira-latas ou menos valia. Pelo contrário. Se temos brasileiros atuando nos principais campeonatos nacionais do planeta com desempenho satisfatório, estes devem ser os escolhidos por Tite. Para o bem da seleção.

A menos que surja um talento como Neymar ou Gabriel Jesus para assumir protagonismo ainda atuando aqui. Com projeção para se destacar na Espanha e na Inglaterra com rapidez. Hoje quem parece mais pronto para ser o prodígio a vestir a camisa verde e amarela e se afirmar, ainda com 21 anos e jogando no Grêmio, é Arthur.

Fora isso é aposta. Como os citados acima, os convocados Cássio, Rodrigo Caio e os Diegos, Souza e Ribas. Ou Luan, Geromel, Lucas Lima, Vanderlei, Dudu, Moisés, Gustavo Scarpa, Fagner, Thiago Neves, Fabio e outros.  Porque o protagonismo no Brasil não é credencial segura. Há algum tempo. Por mais que doa reconhecer isso.

(Estatisticas: Footstats)

 


Tite segue flertando com o perigo de repetir Dunga em 2010
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André Rocha

Dois de julho de 2010. Estádio Nelson Mandela Bay, em Porto Elizabeth. Quartas-de-final da Copa do Mundo de 2010, na África do Sul.

Vinte e sete minutos do segundo tempo. O Brasil perde para a Holanda de virada por 2 a 1, depois de sair na frente com Robinho e ter a chance de ampliar com Kaká, impedido por grande defesa de Stekelenburg. Está com um homem a menos após a expulsão de Felipe Melo.

Dunga, que pregou coerência nas convocações e deixou Paulo Henrique Ganso e Neymar no Brasil, se vira para o banco de reservas e depara com Kleberson, Josué, Julio Baptista, Grafite e Nilmar. O último entrou no lugar de Luis Fabiano. O treinador já havia trocado Michel Bastos por Gilberto. E morreu com uma substituição a fazer.

Voltemos a 2017. Tite divulga a lista para amistosos contra Japão e Inglaterra. A base titular mantida, sem problemas. Mas as opções seguem mais que questionáveis, especialmente no setor ofensivo: Giuliano, Taison e os Diegos, Souza e Ribas.

A impressão que fica é de que o treinador não quer criar dúvidas sobre a formação titular com a única variação utilizada até aqui: Willian no lugar de Philippe Coutinho ou Renato Augusto.

A ideia de consolidar o time titular com apenas um ano e três meses de trabalho e oito meses até o Mundial da Rússia é compreensível, até recomendável. Mas não pensar em um Plano B no caso da seleção ser mapeada, dissecada e bloqueada por um rival num jogo eliminatório é um enorme risco.

Porque na tensão de uma partida de quartas de final ou semifinal é preciso ter jogadores com alto desempenho e confiança. Quem observa com atenção o futebol jogado na Europa sabe que Fabinho,Allan, Jorginho, Malcom, Richarlison e até William José e Anderson Talisca estão rendendo mais. Merecem ao menos um teste. Abrir o leque. Ainda que não tenhamos um Neymar explodindo em algum clube brasileiro.

O momento do futebol jogado no país não é para confiar no desempenho dos atletas. Muito menos de quem não vem se destacando, como os Diegos. Qualquer liga europeia de nível intermediário oferece opções mais confiáveis. É duro reconhecer, mas não há como fugir.

Afinal, é meritocracia ou experiência e ser jogador de confiança que vale? A insistência com certos nomes desconstroi o discurso de disputa aberta e comissão atenta a todos os jogadores. Difícil entender.

De positivo, o retorno de Douglas Costa como opção ofensiva. Que ele não se contunda desta vez, ainda que não viva na Juventus um momento tão bom como no Bayern de Munique sob o comando de Pep Guardiola.

No mais, Tite segue flertando com o perigo de repetir Dunga em 2010, o que seria um enorme desperdício de qualidade. Dentro e fora de campo.

 


Tite é mais 1994 que 1982 e 2002
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André Rocha

No programa “Boa Noite Fox” na segunda-feira, Tite disse que entre vencer como em 1994 e perder como em 1982 ele prefere ser campeão como em 2002. Resposta diplomática, fugindo da grande discussão do futebol brasileiro há mais de 20 anos. Que perdura exatamente porque o quinto título mundial conquistado na Ásia não trouxe respostas e foi tratado como um caso isolado, sem legado. Mesmo com sete vitórias.

Aquela equipe de Luiz Felipe Scolari foi montada às pressas, combinando o time que vencera a Venezuela e garantira a vaga no Mundial apenas na última rodada das Eliminatórias e uma ideia guardada por Felipão desde 1999, quando a seleção, então comandada por Vanderlei Luxemburgo, atropelou a Argentina em Porto Alegre por 4 a 2: unir Ronaldo Fenômeno, Ronaldinho Gaúcho e Rivaldo no ataque.

Tite fala tanto em mérito e vencer jogando limpo, que não quer arbitragem ajudando nem prejudicando. Difícil, então, aprovar uma campanha de 100% apoiada em dois grandes erros de arbitragem: o pênalti sobre Luizão convertido por Rivaldo na virada por 2 a 1 sobre a Turquia na estreia e, principalmente, o gol de Wilmots para a Bélgica no primeiro tempo da partida pelas oitavas de final muito mal anulado pela arbitragem do jamaicano Peter Prendergast, que alegou falta do atacante sobre Roque Junior. Um absurdo que facilitou a construção dos 2 a 0 na segunda etapa em lampejos de Rivaldo e Ronaldo.

Brasil 2002 que dependia dos talentos para decidir na frente. Defensivamente, marcava por encaixe e Edmilson variava como zagueiro e volante de acordo com o número de atacantes do adversário. Fazia perseguições individuais e, consequentemente, sofria com buracos na retaguarda. Tudo que Tite não faz.

Então aparecia o goleiro Marcos para salvar. Inclusive na decisão contra uma Alemanha enfraquecida sem Michael Ballack. Antes dos gols de Ronaldo o arqueiro precisou trabalhar para evitar que o adversário abrisse vantagem. Também brilhou no sofrido primeiro tempo contra os belgas.

A seleção de Tite combina muito mais com a de 1994. Não só por ter Taffarel em sua comissão técnica. Questionada pelos resultados apertados e por ter sido a primeira campeã na disputa por pênaltis na história das Copas. Mas que prezava a segurança defensiva, marcava por zona e trabalhava coletivamente, com bola no chão, para potencializar o talento de Bebeto e Romário no ataque.

Só não teve mais posse de bola que a Holanda nas quartas de final. Jogo com o único erro de arbitragem favorável à equipe de Carlos Alberto Parreira: a falta cavada e cobrada por Branco que colocou a mão no rosto de Overmars. Decisiva nos 3 a 2. Mas nos 90 minutos controlou o jogo, abriu 2 a 0 com tranquilidade e permitiu o empate num lapso de desconcentração.

Nos outros jogos dominou os adversários, mesmo no empate por 1 a 1 com a Suécia na primeira fase ou com um homem a menos após a expulsão de Leonardo na vitória sobre os Estados Unidos no dia 4 de julho. Até na final contra a Itália no Estádio Rose Bowl. Paradoxalmente, Romário, o craque da Copa, podia também ter sido o artilheiro e tornado a campanha mais sólida em resultados. Perdeu vários gols, inclusive dois feitos, na semifinal e na grande decisão, já na prorrogação.

Pela falta de um craque no meio-campo ganhou o rótulo de “retranqueira”. Mas tinha solidez defensiva, mesmo com a zaga formada pelos reservas Aldair e Márcio Santos, e criava tantos pelos flancos com as duplas Jorginho-Mazinho e Leonardo/Branco-Zinho como pelo centro com Bebeto e Romário. Todos alimentados pelos ótimos passes de Dunga, outra peça fundamental subestimada.

Tite também tem mais a ver com o universo de 1994 do que com o de 1982, que tanto exalta. Primeiro porque dificilmente veremos sua seleção na Rússia com uma formação que nunca havia estado em campo, como Telê Santana fez na Espanha com o meio-campo formado por Cerezo, Falcão, Sócrates e Zico com o suporte de Eder pela esquerda e Serginho na frente.

Muito menos observaremos todos no ataque na base da intuição deixando generosos espaços para os adversários. E como em 2002, erros graves de arbitragem favoreceram o escrete canarinho, como os pênaltis do zagueiro Luisinho não marcados na estreia contra a então União Soviética e o claríssimo de Junior sobre Maradona quando o placar estava 1 a 0 para os brasileiros sobre os argentinos no Estádio Sarriá.

Para alguém com a leitura de jogo do treinador da seleção brasileira a resposta soou estranha. Talvez seja uma maneira de exaltar Felipão e buscar uma reaproximação com quem admirou tanto e depois se transformou em desafeto.  Mas, honestamente, pensando no que aconteceu em campo e na visão de futebol de Tite é difícil encontrar alguma lógica.


A “camisa de força” que tirou a Holanda da Copa e aposenta Arjen Robben
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André Rocha

ESCREVE FELIPE DOS SANTOS SOUZA (colunista de futebol holandês no site Trivela e criador do blog Espreme a Laranja, sobre o mesmo assunto)

Por muito tempo, a Holanda teve o status de ser “o país da tática”. Justo: um país cuja extensão territorial é seis vezes menor do que a do estado de São Paulo teve a sorte de ter dois papas, em Rinus Michels e Johan Cruyff. Papas que aprenderam tudo com quem deixou sementes – como os técnicos Vic Buckingham e Jack Reynolds, que treinaram Michels no Ajax.

Papas que tiveram contemporâneos de inteligência tática também avançada, no banco (Ernst Happel e Wiel Coerver, antíteses de Michels) e no campo (Ruud Krol e Willem van Hanegem). Papas que deixaram ideias, até para que fossem questionadas, como foram por Louis van Gaal, a grande nêmesis de Cruyff, campeoníssimo com o Ajax nos anos 1990 – jogando de modo totalmente diferente do Futebol Total dos ‘70. E acima de tudo, papas que mudaram conceitos no modo como o futebol é jogado.

Mas tudo isso acabou.

A ausência da Holanda na Euro 2016 já deixava sinais da defasagem tática que o país vive em campo. E a confirmação veio com a primeira ausência em Copas da Laranja desde 2002 – fora de uma sequência Euro-Copa pela primeira vez desde o torneio europeu de 1984 e o Mundial de 1986. Há muitos fatores que podem explicar a derrocada holandesa. Mas dentro de campo, o principal deles é o apego excessivo aos velhos cânones holandeses: o 4-3-3 com pontas e a incessante troca de passes para tentar manter a posse de bola.

Obviamente, tais hábitos não são problemas. Basta citar que, nos mais badalados times europeus, jogar com três atacantes tem sido até habitual, seja falando de Bale-Cristiano Ronaldo-Asensio ou de Neymar-Cavani-Mbappé. A diferença: não há como jogar com três atacantes se a velocidade dos setores de trás não ajudar na marcação.

Eis um dos males da seleção holandesa: a lentidão do 4-3-3 habitual é exasperante. Em regra, a equipe tenta atacar pelas pontas, usando principalmente os laterais – normalmente, Daley Blind pela esquerda e a aposta da vez pela direita (ora o ofensivo Kenny Tete, que começou bem no Lyon, ora o mais defensivo Daryl Janmaat). Porém, em geral, os adversários estão bem compostos defensivamente. Resultado: os laterais precisam recuar a bola para os zagueiros, que recuam para os goleiros, que recomeçam as jogadas… e assim sucessivamente.

Holanda contra França: com adversário bem posicionado, saída de bola fica prejudicada (imagem: reprodução Sky Sports)

Quando enfim surge um espaço para atacar, novamente há prejuízo. Claro que o meio-campo tenta ajudar, com a volta dos volantes (Strootman e Wijnaldum) para buscarem a bola. Todavia, isso não acontece com os atacantes, que não voltam para oferecerem opções de jogada. Janssen fica preso entre as linhas, sendo mais hábil para tentar o pivô do que para finalizar, quesito em que tem falhado. Resta Robben. Cuja jogada “padrão” está cada vez mais manjada: ao preparar o corte para a perna esquerda, geralmente já há um zagueiro em cima dele – e outro na cobertura. Sendo assim, com os atacantes sem espaço para movimentação, a Holanda fica sem ação ofensiva. E com um buraco aberto no meio, pela demora de Strootman e Wijnaldum na recomposição, a Holanda vira presa fácil para contra-ataques.

Qualquer perda de bola no meio-campo rende espaço para contra-ataques adversários (imagem: reprodução Sky Sports)

Na defesa, a marcação por zona está absolutamente desorganizada. Basta citar o gol de empate de Belarus, na penúltima rodada: uma inversão de jogo simples pegou Maksim Volodko livre na esquerda, sem marcação, para chegar à área e vazar Cillessen.

Contra Belarus, Janmaat não fechou a direita. E Valadko ficou livre para o empate (imagem: reprodução Sky Sports)

E a Holanda não conseguiu criar alternativas de jogo para reagir. Um dado do jogo contra Belarus prova isso: a Laranja tentou sete chutes a gol durante o primeiro tempo. Em seis deles, Robben participou da jogada. Isto é: mesmo aos 33 anos, já perto da fase final da carreira, o atacante do Bayern ainda era indispensável. Era, porque ele se aposenta da seleção sem Mundial a disputar.

Portanto, já não deveria ser tão fundamental assim. Até porque a Holanda já teve, recentemente, uma prova de como rever conceitos táticos pode dar certo: a Copa de 2014. Jogando em seu estilo (4-3-3, bem aberta), num amistoso contra a França, em março daquele ano, a equipe de Louis van Gaal foi facilmente superada: o placar ficou no 2 a 0 para os Bleus, e poderia ter sido até maior, tal a superioridade dos mandantes em Saint-Denis.

Porém, no primeiro tempo daquele amistoso, Strootman – peça-chave no meio-campo de Van Gaal – lesionou um dos joelhos. Arriscou jogar no final de semana seguinte, defendendo a Roma pelo Campeonato Italiano, sobrecarregou o outro joelho e rompeu o ligamento cruzado. O volante estava fora da Copa. A partir daquele momento, Van Gaal teve de queimar as pestanas para achar um jeito de tornar a Holanda competitiva. Até porque ainda se acreditava na Espanha – e o Chile já dava claros sinais de evolução.

O treinador da seleção holandesa, então, engoliu em seco seu desejo de ofensividade. Entendeu: com o que tinha em mãos, ou protegia a defesa, ou a Holanda ficaria na primeira fase da Copa (palpite que muitos tinham, aliás). Daí, a preferência pelo 5-3-2, com três zagueiros e Nigel de Jong como o “cão de guarda” habitual no meio-campo. Com um tanto de dedicação e outro tanto de sorte – quem diria que Robben teria alguns dos melhores dias de sua carreira no Brasil? -, a Holanda conseguiu um terceiro lugar surpreendente e elogiável.

A lição estava dada. Mas nenhum dos sucessores quis segui-la: nem Guus Hiddink, nem Danny Blind, nem Dick Advocaat. Seguiu-se o 4-3-3, os pontas, a aposta no que os holandeses chamam “toevalsspel”, o jogo da coincidência. Trocando em miúdos: acreditar que, a qualquer momento, uma arrancada de Robben poderá definir as coisas.

Não pode mais. Pelo menos sem uma organização, não pode. E por causa de um orgulho tático que já não tem mais razão de ser, a Holanda ficou fora da Euro e da Copa do Mundo. Com uma geração de jogadores de nível mediano, e um campeonato de nível técnico trágico (PSV e Ajax foram eliminados nas fases preliminares dos torneios europeus, e o Feyenoord teve duas atuações terríveis na Liga dos Campeões), é a hora exata para uma das seleções mais tradicionais do mundo se reformular. Aprender não só a criar jogadores mais capacitados para as exigências atuais do futebol, mas também saber que o 4-3-3 é apenas uma possível opção, não a única.

É isso. Ou então, viver de passado. O pior é que nem é possível falar em “passado de glórias”, já que a Holanda só tem a Euro 1988 em sua galeria.

ESCREVEU FELIPE DOS SANTOS SOUZA


Vitória à prova de clichês reforça: Brasil será sério sempre até a Rússia
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André Rocha

A seleção brasileira tinha todo direito de escalar reservas e não se preocupar com o resultado que beneficiaria o Chile e poderia complicar a grande rival Argentina na última rodada das Eliminatórias.

Tite podia ter sacado Philippe Coutinho e Neymar no intervalo de uma disputa tensa, especialmente para o adversário, por estarem com um cartão amarelo, para evitar a expulsão e a suspensão para a estreia do Mundial na Rússia.

As 41 mil pessoas no Allianz Parque podiam ter testemunhado uma despedida em ritmo de treino do líder absoluto nas Eliminatórias. Mas esse Brasil de Tite é à prova de clichês. Refuta o comodismo, a indolência. O jogar só se for para valer.

Não está pronto para ser favorito ao hexa. É um dos candidatos pelos motivos de sempre: maior campeão, único presente em todas as edições. Tem qualidade e comando. Mas perdeu dois anos de gestão, processos, experiências, jogos. Nunca podemos esquecer o objetivo inicial quando a CBF enfim se curvou ao óbvio e deu a chance que Tite esperava desde 2014: não ficar de fora da Copa.

Mas ninguém pode dizer que essa equipe, incluindo comissão e jogadores, não entrega 100%. Cada um em seu ofício. Teve a melhor atuação brasileira na altitude de La Paz pelas eliminatórias que este que escreve lembra ter visto, superior até à última vitória na Bolivia (Santa Cruz de La Sierra) – 2 a 0 em 1985, gols de Casagrande. Só faltou o gol, porém não manchou o bom desempenho.

Na despedida, triunfo com autoridade e profissionalismo que manda para casa o campeão das últimas edições da Copa América. Paulinho para descomplicar na segunda etapa um primeiro tempo difícil no rebote da bola parada, Gabriel Jesus ganhando presentes na volta ao estádio do Palmeiras. De Neymar e Willian em contragolpes  de manual. No primeiro, lançamento primoroso de Coutinho. No último, defendendo a meta do estreante Ederson como se valesse a vida, a vaga no Mundial. Seriedade máxima.

Uma carta de intenções para a sequência de trabalho até a Copa. O Brasil pode voltar sem taça, mas será forte e sério. Sempre. Melhor assim.

 


Fim dos 100% do Brasil de Tite é compensado pelo valor do teste
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André Rocha

O calor e a umidade em Barranquilla foram obstáculos tão grandes quanto a boa atuação da Colômbia no segundo tempo, não por acaso coincidindo com a maior produção de James Rodríguez, o meia central do 4-2-3-1 armado por Jose Pekerman. Na jogada bem trabalhada do camisa dez com Arias contra Filipe Luís sem o suporte de Renato Augusto, o cruzamento na cabeça de Falcao García, que se antecipou a Marquinhos para empatar.

Um raro vacilo brasileiro dentro de uma atuação segura de acordo com o contexto. Tite acertou ao acrescentar Fernandinho e Roberto Firmino às mudanças obrigatórias – Thiago Silva no lugar do lesionado Miranda e Filipe Luís no lugar do suspenso Marcelo. Descansou Casemiro e guardou Gabriel Jesus para a segunda etapa na vaga de Firmino, que não brilhou mas novamente contribuiu coletivamente. Mais importante: experimentou sua equipe.

Manteve Willian entre os titulares e o ponteiro pela direita do 4-1-4-1 correspondeu com bom trabalho no setor, em dupla com Daniel Alves. E ainda apareceu no centro para receber passe de Neymar, após lançamento preciso de Fernandinho, para acertar um chutaço no ângulo de Ospina. Golaço único da primeira etapa, logo depois da parada para a retirada de um cachorro do gramado.

A assistência de Neymar foi o ápice de uma atuação mais solidária. No esforço na recomposição e, principalmente, por soltar mais rapidamente a bola e fazer o jogo fluir. Quando tentou as jogadas individuais era o único recurso, como na bela arrancada desde a intermediária brasileira até a área colombiana no segundo tempo. O craque voltando aos eixos, mesmo sem desequilibrar, foi uma boa notícia.

Também a confiança do treinador ao arriscar novamente Philippe Coutinho no lugar de Renato Augusto, mudando o desenho tático para o 4-2-3-1 com o recuo de Paulinho, novamente atuando mais avançado na linha de meias. O Brasil nunca abdicou de jogar e isto é sempre positivo e merece reconhecimento.

Assim como a manutenção do desempenho, mesmo com quase meio time alterado. O fim dos 100% de aproveitamento com Tite nas Eliminatórias era esperado, até pelo peso zero do resultado na classificação. Importante foi o valor do teste e a boa resposta de maturidade de uma seleção que parece pronto, mas ainda está em formação.


História mostra que favoritismo um ano antes da Copa do Mundo é pura ilusão
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André Rocha

Entre dezembro de 1981 e outubro de 1983, a Itália disputou 16 partidas. Nenhuma vitória nas seis primeiras, sem triunfos nas seis últimas. Venceu apenas quatro: Argentina, Brasil, Polônia e Alemanha. Exatamente as que lhe deram o terceiro título mundial na Copa da Espanha.

Favoritismo? Zero, mesmo com a manutenção de boa parte do grupo da Copa de 1978 que venceu a campeão e anfitriã Argentina e terminou em quarto perdendo dois jogos, para Holanda e Brasil, por detalhes. Mas nas Eliminatórias ficou atrás da antiga Iugoslávia. Não há dúvidas, era zebra. Até pelo escândalo de manipulação de resultados, o “Totonero”, que comprometeu o futebol do país.

Parecido com o de 2006 que rebaixou a campeã Juventus e também tirou qualquer favoritismo de uma Azzurra igualmente forte e talentosa comandada por Marcelo Lippi. Outro título inesperado, quando o Brasil era favorito.

Aliás, chegar como principal candidato só fez bem ao Brasil no Chile em 1962. Ainda assim, com superação da ausência de Pelé. Garrincha e o “apito amigo” contra a Espanha ajudaram a construir o bicampeonato. O último, sendo o outro em 1934/38 dos italianos.

A Alemanha pode repetir o feito na Rússia. A conquista da Copa das Confederações reforçou a impressão de que a renovação está sendo bem conduzida por Joachim Low. Com Kimmich no lugar de Lahm e Toni Kroos suprindo a aposentadoria de Schweinsteiger. Mais Draxler, Brant, Stindl, Werner, Hector se juntando a Ozil, Muller, Hummels, Neuer.

Se em 2014 a chegada de Pep Guardiola ao Bayern de Munique foi influência clara no modelo de jogo alemão, desta vez a inspiração, ou variação do estilo, parece vir da Inglaterra, mas de um treinador italiano: o 5-4-1/3-4-3 do Chelsea de Antonio Conte. Para propor o jogo ou reagir de acordo com as circunstâncias. Um time inteligente.

Como já era há três anos, mas foi um tanto menosprezado pelo revés na Eurocopa dois anos antes na semifinal contra a Itália de Balotelli. A ponto de transformar a final da Copa das Confederações entre Brasil e Espanha em uma espécie de “tira-teima” entre a campeã mundial e bi da Eurocopa e o anfitrião buscando recuperar protagonismo.

A seleção de Luiz Felipe Scolari venceu e foi mais uma a se iludir com a conquista. Como Dunga em 2009 e Parreira em 2005. A convicção de que o grupo estava fechado e o trabalho pronto só necessitando de manutenção foi ilusória. Porque o que define os rumos do Mundial é a temporada europeia que se encerra com a Copa.

Basta lembrar a queda de rendimento de Paulinho e Fred e o período de adaptação de Neymar no Barcelona que minaram as forças de um trabalho de um ano e meio, incompleto. Assim como o de Tite agora, que acabou de completar doze meses. Dois anos perdidos com Dunga que podem fazer falta.

Porque haverá menos testes e chances de observação. Ou tempo para o amadurecimento da proposta de jogo. É um processo que vai queimando etapas por necessidade. O treinador assumiu precisando de resultados e evolução rápida. Pelo próprio mérito, as nove vitórias seguidas nas Eliminatórias alçaram a equipe diretamente do risco de ficar de fora de sua primeira Copa do Mundo à condição de uma das favoritas.

Mais rápido que isso só em 1993, quando os 2 a 0 sobre o Uruguai com atuação antológica de Romário levaram o escrete canarinho do futuro incerto ao protagonismo. Em uma partida, por conta de um atacante genial que depois confirmou seu estrelato com a taça que não vinha há 24 anos e a Bola de Ouro como melhor do mundo.

Mas a grande favorita era a Itália de Roberto Baggio, o grande jogador do ano anterior. Assim como em 2002 as apostas recaíam sobre Argentina e França, que em 1998 superou em casa o Brasil de Ronaldo, candidatíssimo ao bi. Sob o comando de Platini, os franceses eram os favoritos em 1986. Mas havia um Maradona pelo caminho. Gênio que colocou a Argentina na final em 1990, mas havia uma Alemanha na decisão para confirmar a alternância de poder.

Resumo da ópera: falar em favoritismo no ano anterior é puro chute. Até porque este Mundial tende a não repetir os dois últimos, com as vencedoras tendo como bases as melhores equipes do mundo à época. Espanha do Barcelona e Alemanha do Bayern de Munique. Com entrosamento, movimentos já executados de memória. Seleções maduras, com craques no esplendor.

Mesmo os espanhois em 2010 não chegaram com tal status. Nema conquista da Euro 2008 minimizou o fato de não fazer parte do seleto grupo de campeões. A derrota para os Estados Unidos que tirou a chance de um duelo contra o Brasil de Dunga no ano anterior fez da grande seleção daquele período uma incógnita. Talvez por isso tenha triunfado.

Agora a Alemanha titular, em tese, tem apenas Neuer, Kimmich, Hummels e Muller do time bávaro. Na Espanha,  Barcelona e Real Madrid dominam naturalmente, mas o time merengue bicampeão europeu também cede apenas quatro: Carvajal, Sergio Ramos, Isco e Asensio. A França poderia se basear em PSG e Monaco, mas as mudanças na janela de transferência pulverizaram qualquer chance de ter uma ou duas equipes como referências.

O Brasil, como bem disse Renato Augusto numa coletiva recente, está “no bolo”. É candidato, como foi até no fiasco de 1990. Um ano antes, vencera a Copa América e Itália e Holanda, outras favoritas. Mas sucumbiu no Mundial pela queda técnica e lesões de seus grandes destaques: Bebeto, Careca e Romário.

Contexto, circunstâncias, o imponderável.Tudo isso pesa em um ano. Por isso é tão difícil pensar em junho de 2018. O dinamismo do mundo atual já é absurdo. No futebol mais ainda. Mais prudente celebrar a evolução brasileira e evitar falar em grupo fechado, sistema definido ou qualquer coisa que sugira uma estabilidade que não se sustenta. Serve apenas como linha mestra para não se perder no planejamento.

A Copa não começa agora. Melhor segurar a ansiedade e respeitar a sequência e o tempo de cada seleção. A pressa, neste caso, é ainda mais inimiga.


Como o destino de Neymar pode interferir no futuro da seleção brasileira
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André Rocha

O colega Marcelo Bechler garimpou a notícia no Esporte Interativo e o mundo todo foi atrás: Neymar estaria seguindo o caminho de Daniel Alves rumo a Paris para jogar no PSG. E de fato há interesse de ambas as partes no negócio milionário, mesmo com o risco de esbarrar no fair play financeiro da UEFA.

A reapresentação no Barcelona para a pré-temporada nos Estados Unidos, porém, parece estar fazendo o craque repensar a decisão de deixar o clube catalão. Piqué, Messi e Suárez seriam os mais dedicados a convencer o companheiro a continuar onde está. Há portanto um dilema que deve ter mais um capítulo hoje com uma entrevista coletiva agendada pelos franceses.

Além da ótima proposta financeira, a impressão é de que Neymar busca um time para chamar de seu, fugindo da hierarquia que coloca Messi acima de todos os outros – inclusive na história do Barcelona. Com a renovação do contrato do argentino até 2021, as perspectivas de protagonismo até os 30 anos do camisa onze seriam remotas.

Por outro lado, Neymar já está adaptado à cidade e à maneira de jogar do Barça. Mesmo com a troca de Luis Enrique por Ernesto Valverde no comando técnico, a filosofia tende a continuar a mesma. Mais uma temporada do trio MSN deve afinar ainda mais a sintonia, com os atacantes sul-americanos jogando “de memória”.

Uma decisão para o craque, seu pai e staff. A grande questão para o torcedor brasileiro é como o destino da grande estrela da seleção brasileira pode interferir no trabalho de Tite pensando no Mundial da Rússia no ano que vem.

Bem, se Neymar seguir no Barcelona, o treinador receberá um atleta ainda mais consciente taticamente e no jogo coletivo. Para dar liberdade a Messi circulando por todo o ataque e se aproximando de Suárez, Neymar é praticamente um “winger” pela esquerda, fechando uma segunda linha de quatro quando a equipe perde a bola. Preenche praticamente todo o corredor esquerdo, indo e voltando. Mais assistente que finalizador.

Tite dá um pouco mais de liberdade, mas quer Neymar partindo deste setor. Recompondo na transição defensiva e arrancando para infiltrar em diagonal nas ações de ataque. O perigo é recebê-lo extenuado por uma temporada em que o Barça vai tentar arrancar do Real Madrid a hegemonia na Europa e recuperá-la na Espanha. Uma exigência brutal no físico e no mental.

Já a França é um mistério que pode ser inspirador pela mudança de ares. No PSG de Unai Emery, a possibilidade de atuar em uma equipe com estilo mais vertical e intenso. Pode também ganhar mais liberdade para circular no ataque, fazendo companhia a Cavani ou mesmo revezando com o uruguaio que é extremamente dedicado e tem condições de também recompor pela esquerda.

Se mentalmente a primeira temporada num novo clube com status de estrela será exigente para mudar o patamar, especialmente na Liga dos Campeões, e recuperar o domínio na França depois de perder o título para o Monaco, em termos físicos o desgaste certamente será menor. A diferença do PSG em relação aos demais na League 1 – talvez até ao atual campeão, que perdeu muitas peças fundamentais na janela de transferência – vai permitir ser poupado nas partidas que precisar.

Tite, então, receberia Neymar mais inteiro para voar na Copa do Mundo. Se não conseguir o enorme feito de dar o título da Champions ao Paris Saint-Germain já na sua primeira temporada, a chance mais clara a curto prazo de conquistar a sonhada Bola de Ouro é o Mundial da Rússia.

Uma mudança tática também pode fazer Tite flexibilizar um pouco a sua forte convicção, construída em conversas com Dorival Júnior, Muricy Ramalho, Adilson Baptista e Rogério Micale, de que o melhor posicionamento para Neymar é pela esquerda num 4-1-4-1. Testar novas possibilidades, até para dificultar e surpreender os adversários que estudarão detalhadamente o Brasil até o ano que vem, é mais que saudável. É necessário.

Mas não podemos descartar o pior cenário: problemas de adaptação, mesmo com tantos brasileiros no elenco, desavenças com o treinador ou qualquer outro obstáculo ao protagonismo de Neymar na França. Aí Tite teria que fazer da seleção o refúgio de um talento questionado, pressionado e com o desgaste emocional que afeta o desempenho de qualquer profissional, em qualquer atividade.

Por isso o treinador brasileiro estará muito atento aos movimentos em Paris e Barcelona. O futuro de Neymar é uma variável importante para sinalizar como será o escrete canarinho na disputa de sua 21ª Copa do Mundo.