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Coutinho na sucessão de Iniesta é o Barcelona entrando de vez na nova era
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André Rocha

Agora é oficial! Como nossos Pedro Ivo Almeida e Thiago Fernandes cravaram, Philippe Coutinho é do Barcelona por cerca de 620 milhões de reais (leia AQUI). Contrato de cinco anos. Assim já é possível analisar o contexto e as possíveis consequências desta negociação que tem tudo para ser a mais bombástica na janela de inverno europeu.

Se o meia brasileiro, staff e familia planejaram uma transição com menos pressão, sem Liga dos Campeões e desgaste, também para chegar na Copa do Mundo mais inteiro o raciocínio foi perfeito. A impressão, porém, é de que mais uma vez falou alto a urgência de realizar o sonho de atuar no gigante catalão com histórico enorme de brasileiros se destacando, sem contar o medo de que uma lesão grave prejudicasse o negócio.

Para o clube é uma contratação para fechar as feridas da saída de Neymar para o PSG. Outro brasileiro talentoso e midiático, embora bem menos que Neymar, para agradar acionistas e torcedores ao redor do mundo. Também vender camisas e a própria imagem. Estampar um rosto além de Messi e Suárez nas ações promocionais. Business.

Mas tem campo também nesta escolha. Porque ao analisar como o time blaugrana vem atuando e o que Ernesto Valverde planejou no início da temporada com Dembelé, teve que mudar pela lesão do ponteiro e agora deve retomar, a tendência é que Coutinho suceda uma lenda do clube: Iniesta.

Com a saída de Neymar, o eixo ofensivo do Barcelona mudou. Antes o brasileiro era o ponta mais agressivo pela esquerda. Do lado oposto, Rakitic aproveitava o corredor deixado por Messi, saída do meio e fazia dupla com o lateral – primeiro Daniel Alves, depois uma enorme interrogação após a saída deste para a Juventus. Sem a bola, duas linhas de quatro com Rakitic e Neymar pelos lados dando liberdade a Messi e Suárez.

No início da temporada 2017/2018, a ideia era abrir Dembelé à direita, Rakitic e Busquets centralizados e Iniesta pela esquerda. Não como um ponta, mas outro meia deixando todo o lado esquerdo para o apoio de Jordi Alba. Com a entrada de Paulinho no meio, Rakitic foi para o lado direito e Iniesta seguiu pela esquerda.

É aí que entra Coutinho. Assim como Rakitic chegou em 2014 para Xavi ficar no banco e jogar menos na reta final da carreira, o brasileiro deve fazer o mesmo com o camisa oito de 33 anos. Mais intensidade e rapidez pela esquerda. Habilidade, mudança de direção, imprevisibilidade.

Até porque Messi corre cada vez menos e é mais armador. Precisa de mais gente acelerando ao seu redor. Coutinho é meia que pensa correndo e prefere o lado esquerdo para articular e também cortar para dentro e finalizar de pé direito. Na configuração anterior do Barça teria que se adequar mais rapidamente às trocas de passes curtos e seria um armador na linha de três, com a preocupação de não ocupar o espaço de Neymar. Agora vai poder usar suas características para agregar e tornar o time mais vertical. Na hora certa.

Busquets inicia as jogadas com passe limpo, a bola chega a Messi que terá Dembelé, Paulinho ou Rakitic, Suárez e agora Coutinho para acionar em velocidade. A circulação da bola vai ficar mais rápida, assim como a definição das jogadas. Se precisar de paciência e toque num jogo posicional contra times mais fechados e menos perigosos nos contragolpes entra Iniesta descansado, sem tantos minutos na temporada.

Uma proposta para cada jogo. Futebol por demanda. Com Philippe Coutinho, o Barcelona entra de vez na nova era do esporte.

 


Suíça, Costa Rica e Sérvia: Brasil pode encarar três ferrolhos. Um perigo!
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André Rocha

Acabou a ansiedade e tantas simulações neste mundo apressado que precisa inventar pautas o tempo todo. Agora é o que vale!

O Brasil fugiu de Inglaterra, que caiu no Grupo G com a Bélgica, e Espanha, adversário de Portugal no Grupo B. Não temos exatamente um “grupo da morte”, ainda que Islândia, Croácia e Nigéria não sejam adversários tranquilos para a Argentina no Grupo D.

Suíça, Costa Rica e Sérvia. O Brasil naturalmente é o favorito à primeira colocação do Grupo E. Mas pode ter problemas na primeira fase do Mundial da Rússia.

Duas seleções europeias que não devem abrir mão de forte compactação e, muito provavelmente, uma linha de cinco defensores. Ou armar linhas de quatro e recuar os meias pelos flancos reunindo seis homens protegendo as próprias metas. Já a Costa Rica desde o último Mundial costuma atuar com três zagueiros, mais dois alas que recuam como laterais. Serão três ferrolhos. Ninguém vai se abrir. Ou talvez só a Sérvia, por necessidade, na última partida.

Um problema para a seleção de Tite, que gosta de espaços para trabalhar e sofreu para infiltrar na linha de cinco da Inglaterra. Com Neymar conduzindo demais, Coutinho saindo da direita em direção à zona de maior pressão, Gabriel Jesus voltando para fazer pivô, laterais talentosos (Daniel Alves e Marcelo), mas apoiando muito por dentro e sem buscar a linha de fundo com velocidade. Apenas Paulinho buscava o espaço às costas da defesa. Algo a ser trabalhado até lá.

Costa Rica de Keylor Navas, Suíça de Xhaka e Shaqiri e Sérvia de Matic. Em termos de qualidade individual e tradição, não é nada preocupante. Mas nunca o esporte foi tão coletivo e focado em ocupação e criação de espaços. Jogar com a responsabilidade de se instalar no campo de ataque é uma responsabilidade grande. E um perigo!

Por ora são as possíveis previsões. Mais que isso é adivinhação. Que dirá tentar imaginar adversários nas oitavas, quartas. O futebol está cada vez mais nivelado, com jogos duros. Imaginar apenas os favoritos se classificando chega a ser ingênuo. Ainda mais num Mundial em que Itália, Holanda e Chile ficaram de fora.

Mais prudente seguir o clichê e pensar jogo a jogo. Ou melhor, priorizar a preparação para melhorar o desempenho e crescer na hora certa.


Tite vê Neymar mais completo no PSG: “não mudou, mas agregou qualidades”
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André Rocha

Foto: divulgação CBF

Não é fácil falar com Tite. Nunca foi simples conseguir um minuto do treinador da seleção brasileira, ainda mais com Copa do Mundo se aproximando. Seja Zagallo, Dunga, Felipão…

Com Adenor Leonardo Bacchi, a demanda fica ainda maior pelo sucesso no trabalho de recuperação e de resgate da autoestima do futebol cinco vezes campeão do mundo pós 7 a 1. Na impossibilidade de uma exclusiva, que este blogueiro conseguiu por duas vezes nos tempos de Corinthians, e na dificuldade até de um contato por e-mail, tão frequente nos últimos seis anos, surgiu a chance de tentar ao menos uma pergunta.

Foi no Footlink, evento promovido no Rio de Janeiro por Paulo Angioni e Eduardo Barroca, aos quais agradeço pelo convite. O tema era preparação de seleções para a Copa do Mundo. Estiveram presentes também Sebastião Lazaroni, técnico da seleção na Copa de 1990, e Reinaldo Rueda, atual treinador do Flamengo e que comandou Honduras em 2010 e Equador no último Mundial.

As perguntas do público presente eram enviadas por e-mail para um endereço indicado pela organização. Tive a sorte do colega Gilmar Ferreira, mediador do debate, selecionar o meu questionamento a Tite – também enviei perguntas aos outros dois, mas minha expectativa era pela resposta do atual técnico do escrete canarinho.

Reproduzo aqui a questão enviada: você diz que trabalha baseado no que os jogadores fazem em seus clubes. Mas como fazer quando o jogador muda de time e de função? Sim, me refiro ao Neymar – ponta no Barcelona e agora mais articulador e condutor de bola no PSG.

O resumo da resposta de Tite: “Neymar mudou, mas agregou qualidades. Ele pode trabalhar por dentro, mas também ser usado do lado. Continua forte no um contra um e está mais completo. Vai trazer tudo isso para a seleção”.

O blogueiro não discorda da resposta inteligente do treinador. Mas viu com preocupação Neymar buscando a bola demais no empate com a Inglaterra em Wembley. Diante de linhas defensivas bem posicionadas, o camisa dez exagerou um pouco na condução e praticamente não chegou a fundo. Afunilou as ações ofensivas, exatamente para a região mais congestionada e com mais pressão.

Como Marcelo não apoia tão aberto, e Tite ressaltou em seu momento de exposição no evento esta diferença em relação à maneira de atuar do lateral do Real Madrid, o Brasil não conseguiu abrir o jogo, espaçar a retaguarda inglesa e sofreu para criar oportunidades, especialmente na primeira etapa.

Porque Neymar deixou de ser um ponteiro que recebe pela esquerda e parte para a jogada pessoal para chegar ao fundo ou infiltrar em diagonal e servir Messi e Suárez para se transformar praticamente num meia no PSG que recua e tenta armar as jogadas para Mbappé e Cavani. Como previsto neste blog, no time de Unai Emery o brasileiro é mais Messi e Mbappé é mais Neymar na equipe francesa.

Neymar mudou, sim. E levou essa alteração na movimentação em campo para a seleção. Só que na equipe de Tite o ponta articulador que sai do flanco para o centro é Philippe Coutinho, não Neymar. Com isso perdeu um pouco a infiltração letal do camisa dez, assim como o drible de ponta que abre as defesas.

Preocupante, mas com soluções. Ou resgatar essa dinâmica de atacante pelo flanco do início do trabalho de Tite na seleção, especialmente no período de treinamentos para a Copa na Rússia. Ou mudar o time. Com Willian, que tem mais características de ponteiro pela direita, Neymar pode circular mais sem que o ataque perca amplitude e profundidade. Questão de ajuste.

Valeu mesmo foi a chance de fazer ao menos uma pergunta a um dos homens mais requisitados e midiáticos do país. Algo que deve ficar ainda mais concorrido até junho de 2018.

 


Ventura? Itália brinca com a sorte e pune geração nem tão fraca assim
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André Rocha

Foto: Divulgação/FIGC

A Itália não tem uma geração talentosa para duelar com a renovada Espanha por uma vaga na Copa do Mundo. Mas não precisava de tanto assim para superar uma Suécia sem Ibrahimovic na repescagem das eliminatórias.

Buffon na meta, uma defesa experiente, Jorginho e Verratti no meio-campo e bons nomes como Bernardeschi, Belotti e Insigne na frente. Mais que suficiente para colocar a Azzurra em mais uma Copa do Mundo. O que aconteceria na sequência dependeria do sorteio e de como a seleção chegaria à Rússia.

Em 2010 chegou na África do Sul em crise. No Brasil em 2014, o calor e o grupo complicado, com a surpreendente Costa Rica terminando na liderança, frustraram os planos.

Mas há uma referência mais recente que mostra que a crise não deveria ser tão feia: a Eurocopa 2016. Da grande atuação contra a então envelhecida Espanha e do belo duelo tático contra a Alemanha nas quartas-de-final. Perdendo apenas nos pênaltis para a atual campeã mundial. Há pouco mais de um ano, com praticamente os mesmos jogadores. E Antonio Conte no comando técnico.

Eis o ponto de desequilíbrio. Ainda que a saída do treinador para o Chelsea tenha sido traumática, a escolha do sucessor não podia ter sido tão aleatória. Giampiero Ventura, aos 69 anos, assumiu a seleção quatro vezes campeã mundial com a seguinte sequências de times no currículo nos últimos dez anos: Verona, Pisa, Bari e Torino.

Com todo respeito que essas equipes merecem, principalmente a história do clube de Turim, é muito pouco para o peso do cargo. Ainda que se compreenda a lógica diferente na Europa, na qual os melhores treinadores trabalham em clubes e não nas seleções, a federação italiana foi, no mínimo, infeliz. Com um Maurizio Sarri ali tão perto…

O resultado prático foi uma seleção armada num 4-4-2 com jeito de 4-2-4, com o meio-campo esvaziado logo diante da Espanha de Busquets, Isco, Iniesta, David Silva.. Se não há tantas opções de qualidade é obrigatório fazer o simples: organização e eficiência nas transições, defensivas e ofensivas. O que a Itália ensinou para o mundo e virou sua marca, até um clichê para falar do futebol praticado no país. Difícil entender.

Na decisão contra a Suécia no San Siro, a escolha de Immobile, um atacante de velocidade que precisa de espaço para receber às costas da retaguarda, para enfrentar uma equipe com sistema defensivo posicionado na maior parte do tempo para administrar a vantagem mínima construída no jogo de ida. Nos minutos finais, a imagem patética do volante De Rossi apontando para Insigne, talvez o mais talentoso atacante, como o jogador que deveria entrar e não ele. Apenas mostrando o óbvio.

É claro que, ainda assim, era possível fazer dois gols nos suecos em Milão e ao menos garantir o básico. Mas a Itália brincou com a sorte ao escolher Ventura. Agora paga com as lágrimas de Buffon, que não merecia se aposentar com tamanha decepção, e um dos grandes vexames de sua história. Repetindo o insucesso de 1957 ao perder a vaga para o Mundial da Suécia para a Irlanda do Norte e superando o papelão da constrangedora eliminação para a Coréia do Norte na Copa de 1966.

Vão falar em “geração fraca”, crise no Calcio e outras teses apocalípticas. Mas a liga, apesar do domínio da Juventus, tem mostrado evolução no futebol jogado, não só por causa dos estrangeiros. Basta ver o Napoli para notar que os conceitos mais atuais do jogo estão presentes. O erro maior foi a falta de cuidado e respeito com a própria história na hora de definir quem lideraria um dos maiores patrimônios do futebol mundial à beira do campo. Pecado mortal.

 


Fernandinho na vaga de Renato Augusto é Tite definindo seus 15 “titulares”
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André Rocha

A Espanha foi campeã do mundo em 2010 utilizando 15 jogadores por ao menos três partidas em sete – de início ou saindo do banco de reservas. Seguindo este mesmo critério, Joachim Low trabalhou com 16 na campanha do tetra alemão no Brasil há três anos.

É a tônica nas Copas, não só entre as seleções que vencem. Um time titular inicial, quase sempre modificado ao longo do torneio em uma ou duas posições e outros dois ou três reservas utilizados na maioria das partidas. Ou seja, no mínimo sete jogadores entram em um ou dois jogos, no máximo. Normalmente naquela partida já definida ou no terceiro jogo da fase de grupos com o país já classificado.

Em 2010, Dunga utilizou 13 em pelo menos duas partidas num total de cinco. No Brasil, Luiz Felipe Scolari trabalhou com 17 em no mínimo três jogos. Ou seja, mesmo em seleções com irregularidade no desempenho e indefinição do treinador, a média não muda.

Tite sinaliza a entrada de Fernandinho na vaga de Renato Augusto para o amistoso de sexta-feira contra o Japão em Lille, na França. Ou seja, o volante que, em tese, seria o reserva de Casemiro entra na vaga de um dos meias por dentro no 4-1-4-1 brasileiro.

Nenhuma novidade para o meio-campista do Manchester City, que já atuou mais adiantado em outros momentos da carreira, inclusive no próprio clube inglês. Mas, principalmente, é o reconhecimento de Tite a um jogador marcado pelos 7 a 1 – injustamente, porque atuou mal porque ficou praticamente sozinho na intermediária brasileira levando botes seguidos de Khedira, Kroos e Schweinsteiger dentro de um time totalmente desorganizado – que evoluiu demais desde que passou a trabalhar com Pep Guardiola.

Na leitura de jogo, em especial. Inteligência para se posicionar, distribuir o jogo e ainda aparecer à frente, mesmo dividindo o setor com meias essencialmente ofensivos como Kevin De Bruyne e David Silva. Sabe mudar o comportamento no momento da perda da bola, logo pressionando e fechando linhas de passe. Acima de tudo, entende a necessidade de se apresentar como opção de apoio para os companheiros.

Com Casemiro, pode recuar para fazer a saída de bola e liberar o volante do Real Madrid, como Kroos e Modric fazem no plano de jogo de Zidane. Nada tão diferente do que Renato Augusto realiza, mas Tite tem razão em se preocupar com seu jogador de confiança que tem mostrado intensidade abaixo dos companheiros por disputar a liga chinesa, de menor exigência.

Para o próximo amistoso faz ainda mais sentido pela ausência de Diego Ribas, com dores musculares. O meia do Flamengo é tratado como reposição a Renato Augusto, mas a impressão que fica é de que se nada de excepcional acontecer até o Mundial, caso esteja na lista final fará parte dos sete ou oito que entrarão em campo poucas vezes ou nenhuma.

Porque o time base parece definido, com dúvidas no gol entre Alisson e Ederson, na zaga entre Marquinhos, Miranda e Thiago Silva e no meio-campo, exatamente pela inconstância de Renato Augusto, com Fernandinho correndo por fora.

Ou seja, 14 jogadores disputando posições. A outra opção que vem sendo frequentemente usada e não deve mudar é Willian. Sempre pela direita. No lugar de Philippe Coutinho, como deve ocorrer na sexta, ou de Renato Augusto, com Coutinho centralizando e o desenho tático variando para um 4-2-3-1. Ou até na vaga de Neymar, numa emergência. Neste caso, Coutinho inverteria o lado e atuaria pela esquerda.

Quinze “titulares” para o Mundial. Como o mais provável é que um goleiro seja definido como titular, pode ser que outro jogador durante a Copa seja um reserva utilizado com frequência para descansar titulares. Talvez Giuliano ou Roberto Firmino. Os outros oito apenas numa necessidade ou queda brusca de produção de um ou outro atleta entre os que iniciam as partidas.

Preocupante por essa consolidação tão precoce e pelo risco de precisar de jogadores sem muitos minutos com Tite e, em alguns casos, desempenho confiável para entrar no time em momentos decisivos. Mas é compreensível para um trabalho curto e com pouco tempo de maturação até a estreia na Rússia. O treinador deve monitorar e estimular ainda mais obsessivamente seus escolhidos para que o rendimento não caia.

Principalmente os 15 homens de Tite.

 


Hernanes, Bruno Henrique e Jô: destaques no Brasil, descartáveis na seleção
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André Rocha

Bruno Henrique chegou a 11 assistências com os dois passes para gols nos 3 a 1 sobre o Atlético Mineiro na Vila Belmiro. Um em cada tempo, um de cada lado do campo. É também o melhor driblador do Brasileiro. Jô agora é artilheiro do campeonato com 16 gols, igualando Henrique Dourado. Não perdeu uma no jogo aéreo contra os zagueiros palmeirenses no dérbi. Hernanes marcou seu nono gol em 16 partidas no triunfo são-paulino fora de casa sobre o Atlético-GO que praticamente garante o tricolor na primeira divisão e muda a equipe de patamar, sonhando até com vaga na Libertadores.

Destaques indiscutíveis que merecem elogios pelo desempenho e pela capacidade de desequilibrar. Mas que Tite pode tranquilamente descartar nas convocações da seleção brasileira.

O motivo é simples, embora magoe e ofenda os defensores do futebol jogado no país cinco vezes campeão do mundo: a nossa liga é fraca, medíocre. Nossas equipes são formadas por atletas medianos, jovens buscando espaço, refugos de experiências mal sucedidas em grandes centros, veteranos na reta final de carreira.

Bruno Henrique, com 26 anos, até teve alguns bons momentos do Wolfsburg, o mais notável na vitória por 2 a 0 sobre o Real Madrid nas quartas de final da Liga dos Campeões, dando um calor em Marcelo. Mais não fez e voltou ao Brasil. Hernanes estava na China, depois de sete anos no futebol italiano. Aos 32 anos, seu tempo já passou no futebol em alto nível. Suas Copas seriam as de 2010 ou 2014. Jô esteve no Mundial do Brasil, mas na reserva. Aos 30 anos, também passou pela China e agora é protagonista no Corinthians. Mas a curva também é descendente, não tem mais mercado na Europa.

Todos merecem respeito por suas trajetórias profissionais. Se Tite der oportunidades – como sinaliza com Hernanes, até pela carência de um articulador no meio-campo como reposição a Renato Augusto – podem até render. Não só pela motivação, mas por estar inserido em um grupo qualificado. O fato, porém, é que há opções mais confiáveis atuando em ligas mais competitivas.

Como seria Jorginho, destaque do Napoli, convocado pela seleção italiana. Joga à frente da defesa, mas tem o perfil de organizador. Meio-campista que pensa o jogo todo e não apenas na sua função em campo. Artigo raro, disputando a Série A do Calcio e Liga dos Campeões. Descartado sabe-se lá o porquê. Mas no setor da equipe de Maurizio Sarri ainda temos Allan, outro pedindo passagem.

No centro do ataque, Gabriel Jesus e Roberto Firmino, que disputam Premier League e Champions. Ponto, sem maiores discussões. Na ausência de um dos dois, pela carência no setor até seria possível pensar em um nome atuando no país. Nada mais que isso. Soa até como piada o menosprezo ao atacante do Liverpool em defesa de Jô, Fred e outros centroavantes mais “midiáticos”.

Nas pontas, a concorrência para Bruno Henrique é cruel: Willian, Coutinho, Neymar, Douglas Costa. Mesmo Taison ou Bernard do Shakhtar Donetsk seria mais interessante. Tite ainda tem os jovens Malcom, do Bordeaux, e Richarlison, do Watford, como alternativas jogando em ligas mais competitivas.

Sim, a Ligue 1, hoje, está acima do Brasileirão. Só pela simples presença de uma seleção mundial como o PSG. Mesmo o Monaco desmanchado, mas já na segunda colocação e ainda forte, com remanescentes do semifinalista da última Liga dos Campeões. Até os times de nível intermediário jogam um futebol mais atual e conectado aos principais centros que o nosso.

Além do orgulho de bater no peito e repetir a falácia do “país do futebol”, muitos ainda confundem o pertencimento, a identificação e o equilíbrio de forças com qualidade. Nosso jogo até evoluiu no trabalho defensivo. Mas ainda é espaçado, lento e fraco tecnicamente. A intensidade ainda fica abaixo.

É compreensível que a mídia incense os jogadores atuando nos clubes daqui. Afinal, a presença deles entre os convocados atrai a audiência nas datas FIFA. Ainda mais agora que o campeonato tem uma pausa, o que motiva ainda mais o torcedor a exigir a presença do melhor jogador do seu time do coração, já que não será desfalque como antes. De novo a questão da identidade: uma seleção com jogadores atuando na Europa, ainda que as emissoras de TV fechada e eventualmente a aberta transmitam as partidas, parece “estrangeira”.

Não por acaso, os escretes que construíram o tricampeonato mundial, além da de 1982, habitam o imaginário popular até hoje e na época criaram uma comunhão com o povo. Todos estavam aqui. A da Copa da Espanha, então, com ídolos dos times mais populares do país, uniu ainda mais os torcedores. Outros tempos, outro contexto.

Hoje a lógica é clara, até óbvia: os países com mais capacidade financeira contratam os melhores jogadores e treinadores. Por consequência praticam futebol com mais qualidade. Em técnica e tática. Admitir isso não é ter complexo de vira-latas ou menos valia. Pelo contrário. Se temos brasileiros atuando nos principais campeonatos nacionais do planeta com desempenho satisfatório, estes devem ser os escolhidos por Tite. Para o bem da seleção.

A menos que surja um talento como Neymar ou Gabriel Jesus para assumir protagonismo ainda atuando aqui. Com projeção para se destacar na Espanha e na Inglaterra com rapidez. Hoje quem parece mais pronto para ser o prodígio a vestir a camisa verde e amarela e se afirmar, ainda com 21 anos e jogando no Grêmio, é Arthur.

Fora isso é aposta. Como os citados acima, os convocados Cássio, Rodrigo Caio e os Diegos, Souza e Ribas. Ou Luan, Geromel, Lucas Lima, Vanderlei, Dudu, Moisés, Gustavo Scarpa, Fagner, Thiago Neves, Fabio e outros.  Porque o protagonismo no Brasil não é credencial segura. Há algum tempo. Por mais que doa reconhecer isso.

(Estatisticas: Footstats)

 


Tite segue flertando com o perigo de repetir Dunga em 2010
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André Rocha

Dois de julho de 2010. Estádio Nelson Mandela Bay, em Porto Elizabeth. Quartas-de-final da Copa do Mundo de 2010, na África do Sul.

Vinte e sete minutos do segundo tempo. O Brasil perde para a Holanda de virada por 2 a 1, depois de sair na frente com Robinho e ter a chance de ampliar com Kaká, impedido por grande defesa de Stekelenburg. Está com um homem a menos após a expulsão de Felipe Melo.

Dunga, que pregou coerência nas convocações e deixou Paulo Henrique Ganso e Neymar no Brasil, se vira para o banco de reservas e depara com Kleberson, Josué, Julio Baptista, Grafite e Nilmar. O último entrou no lugar de Luis Fabiano. O treinador já havia trocado Michel Bastos por Gilberto. E morreu com uma substituição a fazer.

Voltemos a 2017. Tite divulga a lista para amistosos contra Japão e Inglaterra. A base titular mantida, sem problemas. Mas as opções seguem mais que questionáveis, especialmente no setor ofensivo: Giuliano, Taison e os Diegos, Souza e Ribas.

A impressão que fica é de que o treinador não quer criar dúvidas sobre a formação titular com a única variação utilizada até aqui: Willian no lugar de Philippe Coutinho ou Renato Augusto.

A ideia de consolidar o time titular com apenas um ano e três meses de trabalho e oito meses até o Mundial da Rússia é compreensível, até recomendável. Mas não pensar em um Plano B no caso da seleção ser mapeada, dissecada e bloqueada por um rival num jogo eliminatório é um enorme risco.

Porque na tensão de uma partida de quartas de final ou semifinal é preciso ter jogadores com alto desempenho e confiança. Quem observa com atenção o futebol jogado na Europa sabe que Fabinho,Allan, Jorginho, Malcom, Richarlison e até William José e Anderson Talisca estão rendendo mais. Merecem ao menos um teste. Abrir o leque. Ainda que não tenhamos um Neymar explodindo em algum clube brasileiro.

O momento do futebol jogado no país não é para confiar no desempenho dos atletas. Muito menos de quem não vem se destacando, como os Diegos. Qualquer liga europeia de nível intermediário oferece opções mais confiáveis. É duro reconhecer, mas não há como fugir.

Afinal, é meritocracia ou experiência e ser jogador de confiança que vale? A insistência com certos nomes desconstroi o discurso de disputa aberta e comissão atenta a todos os jogadores. Difícil entender.

De positivo, o retorno de Douglas Costa como opção ofensiva. Que ele não se contunda desta vez, ainda que não viva na Juventus um momento tão bom como no Bayern de Munique sob o comando de Pep Guardiola.

No mais, Tite segue flertando com o perigo de repetir Dunga em 2010, o que seria um enorme desperdício de qualidade. Dentro e fora de campo.

 


Tite é mais 1994 que 1982 e 2002
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André Rocha

No programa “Boa Noite Fox” na segunda-feira, Tite disse que entre vencer como em 1994 e perder como em 1982 ele prefere ser campeão como em 2002. Resposta diplomática, fugindo da grande discussão do futebol brasileiro há mais de 20 anos. Que perdura exatamente porque o quinto título mundial conquistado na Ásia não trouxe respostas e foi tratado como um caso isolado, sem legado. Mesmo com sete vitórias.

Aquela equipe de Luiz Felipe Scolari foi montada às pressas, combinando o time que vencera a Venezuela e garantira a vaga no Mundial apenas na última rodada das Eliminatórias e uma ideia guardada por Felipão desde 1999, quando a seleção, então comandada por Vanderlei Luxemburgo, atropelou a Argentina em Porto Alegre por 4 a 2: unir Ronaldo Fenômeno, Ronaldinho Gaúcho e Rivaldo no ataque.

Tite fala tanto em mérito e vencer jogando limpo, que não quer arbitragem ajudando nem prejudicando. Difícil, então, aprovar uma campanha de 100% apoiada em dois grandes erros de arbitragem: o pênalti sobre Luizão convertido por Rivaldo na virada por 2 a 1 sobre a Turquia na estreia e, principalmente, o gol de Wilmots para a Bélgica no primeiro tempo da partida pelas oitavas de final muito mal anulado pela arbitragem do jamaicano Peter Prendergast, que alegou falta do atacante sobre Roque Junior. Um absurdo que facilitou a construção dos 2 a 0 na segunda etapa em lampejos de Rivaldo e Ronaldo.

Brasil 2002 que dependia dos talentos para decidir na frente. Defensivamente, marcava por encaixe e Edmilson variava como zagueiro e volante de acordo com o número de atacantes do adversário. Fazia perseguições individuais e, consequentemente, sofria com buracos na retaguarda. Tudo que Tite não faz.

Então aparecia o goleiro Marcos para salvar. Inclusive na decisão contra uma Alemanha enfraquecida sem Michael Ballack. Antes dos gols de Ronaldo o arqueiro precisou trabalhar para evitar que o adversário abrisse vantagem. Também brilhou no sofrido primeiro tempo contra os belgas.

A seleção de Tite combina muito mais com a de 1994. Não só por ter Taffarel em sua comissão técnica. Questionada pelos resultados apertados e por ter sido a primeira campeã na disputa por pênaltis na história das Copas. Mas que prezava a segurança defensiva, marcava por zona e trabalhava coletivamente, com bola no chão, para potencializar o talento de Bebeto e Romário no ataque.

Só não teve mais posse de bola que a Holanda nas quartas de final. Jogo com o único erro de arbitragem favorável à equipe de Carlos Alberto Parreira: a falta cavada e cobrada por Branco que colocou a mão no rosto de Overmars. Decisiva nos 3 a 2. Mas nos 90 minutos controlou o jogo, abriu 2 a 0 com tranquilidade e permitiu o empate num lapso de desconcentração.

Nos outros jogos dominou os adversários, mesmo no empate por 1 a 1 com a Suécia na primeira fase ou com um homem a menos após a expulsão de Leonardo na vitória sobre os Estados Unidos no dia 4 de julho. Até na final contra a Itália no Estádio Rose Bowl. Paradoxalmente, Romário, o craque da Copa, podia também ter sido o artilheiro e tornado a campanha mais sólida em resultados. Perdeu vários gols, inclusive dois feitos, na semifinal e na grande decisão, já na prorrogação.

Pela falta de um craque no meio-campo ganhou o rótulo de “retranqueira”. Mas tinha solidez defensiva, mesmo com a zaga formada pelos reservas Aldair e Márcio Santos, e criava tantos pelos flancos com as duplas Jorginho-Mazinho e Leonardo/Branco-Zinho como pelo centro com Bebeto e Romário. Todos alimentados pelos ótimos passes de Dunga, outra peça fundamental subestimada.

Tite também tem mais a ver com o universo de 1994 do que com o de 1982, que tanto exalta. Primeiro porque dificilmente veremos sua seleção na Rússia com uma formação que nunca havia estado em campo, como Telê Santana fez na Espanha com o meio-campo formado por Cerezo, Falcão, Sócrates e Zico com o suporte de Eder pela esquerda e Serginho na frente.

Muito menos observaremos todos no ataque na base da intuição deixando generosos espaços para os adversários. E como em 2002, erros graves de arbitragem favoreceram o escrete canarinho, como os pênaltis do zagueiro Luisinho não marcados na estreia contra a então União Soviética e o claríssimo de Junior sobre Maradona quando o placar estava 1 a 0 para os brasileiros sobre os argentinos no Estádio Sarriá.

Para alguém com a leitura de jogo do treinador da seleção brasileira a resposta soou estranha. Talvez seja uma maneira de exaltar Felipão e buscar uma reaproximação com quem admirou tanto e depois se transformou em desafeto.  Mas, honestamente, pensando no que aconteceu em campo e na visão de futebol de Tite é difícil encontrar alguma lógica.


A “camisa de força” que tirou a Holanda da Copa e aposenta Arjen Robben
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André Rocha

ESCREVE FELIPE DOS SANTOS SOUZA (colunista de futebol holandês no site Trivela e criador do blog Espreme a Laranja, sobre o mesmo assunto)

Por muito tempo, a Holanda teve o status de ser “o país da tática”. Justo: um país cuja extensão territorial é seis vezes menor do que a do estado de São Paulo teve a sorte de ter dois papas, em Rinus Michels e Johan Cruyff. Papas que aprenderam tudo com quem deixou sementes – como os técnicos Vic Buckingham e Jack Reynolds, que treinaram Michels no Ajax.

Papas que tiveram contemporâneos de inteligência tática também avançada, no banco (Ernst Happel e Wiel Coerver, antíteses de Michels) e no campo (Ruud Krol e Willem van Hanegem). Papas que deixaram ideias, até para que fossem questionadas, como foram por Louis van Gaal, a grande nêmesis de Cruyff, campeoníssimo com o Ajax nos anos 1990 – jogando de modo totalmente diferente do Futebol Total dos ‘70. E acima de tudo, papas que mudaram conceitos no modo como o futebol é jogado.

Mas tudo isso acabou.

A ausência da Holanda na Euro 2016 já deixava sinais da defasagem tática que o país vive em campo. E a confirmação veio com a primeira ausência em Copas da Laranja desde 2002 – fora de uma sequência Euro-Copa pela primeira vez desde o torneio europeu de 1984 e o Mundial de 1986. Há muitos fatores que podem explicar a derrocada holandesa. Mas dentro de campo, o principal deles é o apego excessivo aos velhos cânones holandeses: o 4-3-3 com pontas e a incessante troca de passes para tentar manter a posse de bola.

Obviamente, tais hábitos não são problemas. Basta citar que, nos mais badalados times europeus, jogar com três atacantes tem sido até habitual, seja falando de Bale-Cristiano Ronaldo-Asensio ou de Neymar-Cavani-Mbappé. A diferença: não há como jogar com três atacantes se a velocidade dos setores de trás não ajudar na marcação.

Eis um dos males da seleção holandesa: a lentidão do 4-3-3 habitual é exasperante. Em regra, a equipe tenta atacar pelas pontas, usando principalmente os laterais – normalmente, Daley Blind pela esquerda e a aposta da vez pela direita (ora o ofensivo Kenny Tete, que começou bem no Lyon, ora o mais defensivo Daryl Janmaat). Porém, em geral, os adversários estão bem compostos defensivamente. Resultado: os laterais precisam recuar a bola para os zagueiros, que recuam para os goleiros, que recomeçam as jogadas… e assim sucessivamente.

Holanda contra França: com adversário bem posicionado, saída de bola fica prejudicada (imagem: reprodução Sky Sports)

Quando enfim surge um espaço para atacar, novamente há prejuízo. Claro que o meio-campo tenta ajudar, com a volta dos volantes (Strootman e Wijnaldum) para buscarem a bola. Todavia, isso não acontece com os atacantes, que não voltam para oferecerem opções de jogada. Janssen fica preso entre as linhas, sendo mais hábil para tentar o pivô do que para finalizar, quesito em que tem falhado. Resta Robben. Cuja jogada “padrão” está cada vez mais manjada: ao preparar o corte para a perna esquerda, geralmente já há um zagueiro em cima dele – e outro na cobertura. Sendo assim, com os atacantes sem espaço para movimentação, a Holanda fica sem ação ofensiva. E com um buraco aberto no meio, pela demora de Strootman e Wijnaldum na recomposição, a Holanda vira presa fácil para contra-ataques.

Qualquer perda de bola no meio-campo rende espaço para contra-ataques adversários (imagem: reprodução Sky Sports)

Na defesa, a marcação por zona está absolutamente desorganizada. Basta citar o gol de empate de Belarus, na penúltima rodada: uma inversão de jogo simples pegou Maksim Volodko livre na esquerda, sem marcação, para chegar à área e vazar Cillessen.

Contra Belarus, Janmaat não fechou a direita. E Valadko ficou livre para o empate (imagem: reprodução Sky Sports)

E a Holanda não conseguiu criar alternativas de jogo para reagir. Um dado do jogo contra Belarus prova isso: a Laranja tentou sete chutes a gol durante o primeiro tempo. Em seis deles, Robben participou da jogada. Isto é: mesmo aos 33 anos, já perto da fase final da carreira, o atacante do Bayern ainda era indispensável. Era, porque ele se aposenta da seleção sem Mundial a disputar.

Portanto, já não deveria ser tão fundamental assim. Até porque a Holanda já teve, recentemente, uma prova de como rever conceitos táticos pode dar certo: a Copa de 2014. Jogando em seu estilo (4-3-3, bem aberta), num amistoso contra a França, em março daquele ano, a equipe de Louis van Gaal foi facilmente superada: o placar ficou no 2 a 0 para os Bleus, e poderia ter sido até maior, tal a superioridade dos mandantes em Saint-Denis.

Porém, no primeiro tempo daquele amistoso, Strootman – peça-chave no meio-campo de Van Gaal – lesionou um dos joelhos. Arriscou jogar no final de semana seguinte, defendendo a Roma pelo Campeonato Italiano, sobrecarregou o outro joelho e rompeu o ligamento cruzado. O volante estava fora da Copa. A partir daquele momento, Van Gaal teve de queimar as pestanas para achar um jeito de tornar a Holanda competitiva. Até porque ainda se acreditava na Espanha – e o Chile já dava claros sinais de evolução.

O treinador da seleção holandesa, então, engoliu em seco seu desejo de ofensividade. Entendeu: com o que tinha em mãos, ou protegia a defesa, ou a Holanda ficaria na primeira fase da Copa (palpite que muitos tinham, aliás). Daí, a preferência pelo 5-3-2, com três zagueiros e Nigel de Jong como o “cão de guarda” habitual no meio-campo. Com um tanto de dedicação e outro tanto de sorte – quem diria que Robben teria alguns dos melhores dias de sua carreira no Brasil? -, a Holanda conseguiu um terceiro lugar surpreendente e elogiável.

A lição estava dada. Mas nenhum dos sucessores quis segui-la: nem Guus Hiddink, nem Danny Blind, nem Dick Advocaat. Seguiu-se o 4-3-3, os pontas, a aposta no que os holandeses chamam “toevalsspel”, o jogo da coincidência. Trocando em miúdos: acreditar que, a qualquer momento, uma arrancada de Robben poderá definir as coisas.

Não pode mais. Pelo menos sem uma organização, não pode. E por causa de um orgulho tático que já não tem mais razão de ser, a Holanda ficou fora da Euro e da Copa do Mundo. Com uma geração de jogadores de nível mediano, e um campeonato de nível técnico trágico (PSV e Ajax foram eliminados nas fases preliminares dos torneios europeus, e o Feyenoord teve duas atuações terríveis na Liga dos Campeões), é a hora exata para uma das seleções mais tradicionais do mundo se reformular. Aprender não só a criar jogadores mais capacitados para as exigências atuais do futebol, mas também saber que o 4-3-3 é apenas uma possível opção, não a única.

É isso. Ou então, viver de passado. O pior é que nem é possível falar em “passado de glórias”, já que a Holanda só tem a Euro 1988 em sua galeria.

ESCREVEU FELIPE DOS SANTOS SOUZA


Vitória à prova de clichês reforça: Brasil será sério sempre até a Rússia
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André Rocha

A seleção brasileira tinha todo direito de escalar reservas e não se preocupar com o resultado que beneficiaria o Chile e poderia complicar a grande rival Argentina na última rodada das Eliminatórias.

Tite podia ter sacado Philippe Coutinho e Neymar no intervalo de uma disputa tensa, especialmente para o adversário, por estarem com um cartão amarelo, para evitar a expulsão e a suspensão para a estreia do Mundial na Rússia.

As 41 mil pessoas no Allianz Parque podiam ter testemunhado uma despedida em ritmo de treino do líder absoluto nas Eliminatórias. Mas esse Brasil de Tite é à prova de clichês. Refuta o comodismo, a indolência. O jogar só se for para valer.

Não está pronto para ser favorito ao hexa. É um dos candidatos pelos motivos de sempre: maior campeão, único presente em todas as edições. Tem qualidade e comando. Mas perdeu dois anos de gestão, processos, experiências, jogos. Nunca podemos esquecer o objetivo inicial quando a CBF enfim se curvou ao óbvio e deu a chance que Tite esperava desde 2014: não ficar de fora da Copa.

Mas ninguém pode dizer que essa equipe, incluindo comissão e jogadores, não entrega 100%. Cada um em seu ofício. Teve a melhor atuação brasileira na altitude de La Paz pelas eliminatórias que este que escreve lembra ter visto, superior até à última vitória na Bolivia (Santa Cruz de La Sierra) – 2 a 0 em 1985, gols de Casagrande. Só faltou o gol, porém não manchou o bom desempenho.

Na despedida, triunfo com autoridade e profissionalismo que manda para casa o campeão das últimas edições da Copa América. Paulinho para descomplicar na segunda etapa um primeiro tempo difícil no rebote da bola parada, Gabriel Jesus ganhando presentes na volta ao estádio do Palmeiras. De Neymar e Willian em contragolpes  de manual. No primeiro, lançamento primoroso de Coutinho. No último, defendendo a meta do estreante Ederson como se valesse a vida, a vaga no Mundial. Seriedade máxima.

Uma carta de intenções para a sequência de trabalho até a Copa. O Brasil pode voltar sem taça, mas será forte e sério. Sempre. Melhor assim.