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Sarrià, 35 anos: a velha mania brasileira de achar que perdeu pra si mesmo
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André Rocha

 

As seleções brasileiras nas Copas de 1930 e 1934 foram “improvisadas”, não eram propriamente um grupo com os melhores jogadores do país. Em 1938 a Itália fascista de Mussolini venceu a semifinal por conta da ausência de Leônidas da Silva, “poupado” pelo treinador Ademar Pimenta. O “Maracanazo” de 1950 está eternamente na conta do goleiro Barbosa. Em 1954 e 1966 foi a desorganização. Na Copa da Alemanha depois do tri “amarelamos” contra a Holanda.

Em 1978 não houve derrota, então foi “campeão moral”. Mas se o Falcão tivesse sido convocado…Em 1986 a culpa foi do Zico com o joelho em frangalhos. Em 1990 e 2010 o responsável pelo fracasso foi o Dunga, dentro e fora de campo. A convulsão de Ronaldo impossibilitou a conquista em 1998 – para muitos foi a Copa “vendida” para a França. Há três anos, um simples “apagão” no Mineirão.

Para muitos brasileiros, em condições normais de temperatura e pressão, a seleção de Tite iria para o Mundial da Rússia apenas buscar sua 19ª taça. Porque o Brasil sempre perdeu apenas para si mesmo. Quando venceu foi por méritos totais. Ou não mais que a obrigação.

Ninguém lembra da dura semifinal contra a França em 1958 que acabou facilitada pela fratura do zagueiro Jonquet que deixou a forte seleção de Just Fontaine e Raymond Kopa fragilizada pela impossibilidade de fazer substituições. Nem dos apitos amigos em 1962 e 2002 contra Espanha e Bélgica, respectivamente. Em 1994, Branco nos tirou do sufoco nas quartas-de-final contra a Holanda numa falta cavada em que colocou a mão na cara do adversário. Mas aí é a velha “malandragem” tupiniquim.

Em 1982 foi culpa do Cerezo que entregou a bola para Paolo Rossi no segundo gol, do Telê Santana que não tinha um ponta pela direita e Cabrini desceu livre para cruzar na cabeça do algoz brasileiro no gol que abriu o placar . Junior vacilou não deixando Rossi impedido no tento derradeiro dos lendários 3 a 2 no Sarrià. Há 35 anos.

Esquecem, mais uma vez, que havia uma camisa bicampeã mundial vestindo a base da equipe, com o mesmo Enzo Bearzot no comando, que foi a única a vencer a anfitriã Argentina quatro anos antes. Que ficou em quarto no Mundial por detalhes, tanto na derrota para a Holanda que custou a vaga na final quanto nos gols de Nelinho e Dirceu na decisão do terceiro lugar. Em disputas equilibradíssimas.

Time do “regista” Antognioni, meio-campista que jogava com classe e marcou o quarto gol, anulado por impedimento inexistente. De Bruno Conti, ponta direita canhoto e articulador com técnica refinada. Do onipresente Tardelli no meio, indo e voltando. Do versátil Oriali, que foi atuar na lateral direita para que Gentile fosse perseguir Zico no campo todo, assim como fizera com Maradona.

De Gaetano Scirea, um dos melhores líberos de todos os tempos. De Cabrini, o lateral apoiador que apareceu bem no primeiro gol, mas depois sofreu com a movimentação brasileira pelo seu setor. Um dos motivos de críticas depois do revés, mas que confundiu e tirou o encaixe pensado por Bearzot. A ideia era que Cabrini cuidasse de Sócrates e Graziani, o ponta esquerda, voltasse com Leandro. Por ali saíram os gols de Sócrates e Falcão.

Porque a Azzurra também errou. Na defesa deixando Zico e Serginho livres para concluir à frente de Dino Zoff, mas o centroavante finalizou bisonhamente. O camisa dez brasileiro ainda sofreu pênalti tendo sua camisa rasgada. Marcação implacável? Só no segundo tempo. E Zico reclama até hoje que os companheiros pararam de procurá-lo, por estar sempre vigiado.

Rossi marcou três, porém o mais fácil ele perdeu, totalmente livre no segundo tempo, com a bola à feição no tradicional “contropiede” italiano. Com Bergomi no lugar de Collovati e a entrada de Paulo Isidoro na vaga de Serginho, Sócrates foi para o centro do ataque e a retaguarda italiana se confundiu para fazer a sobra com Scirea.

Jogaço duríssimo até a cabeçada de Oscar na cobrança de falta de Eder que Zoff pegou na maior defesa sem rebote da história das Copas. Mérito total do goleiro veterano. Assim como a Itália cumpriu sua melhor atuação naquela Copa na Espanha. Depois, com a confiança no topo, passou por cima da Polônia sem o craque Boniek na semifinal e atropelou na decisão no Santiago Bernabéu a Alemanha estropiada pelo esforço hercúleo diante da França.

Por isso a festa de título no apito final de Abraham Klein no dia 5 de julho. A Itália havia eliminado o melhor futebol daquele torneio até então. Que não é esquecido até hoje. Que provocou aplausos a Telê Santana na sala de imprensa e elogios do vencedor Bearzot. Também o prêmio de segundo melhor jogador da competição a Falcão.

Mas não perdeu para si mesmo. A Itália venceu. Talvez fosse derrotada em outros dez confrontos. Talvez não. Nunca saberemos. No Sarrià superou as desconfianças de uma primeira fase de empates contra Peru, Polônia e Camarões para alcançar um de seus mais celebrados êxitos. Porque foi melhor.

Como tantas outras seleções que nos superaram em Copas. Desde a Itália bicampeã nos anos 1930, passando pelo Uruguai de Obdulio Varela, a Hungria em 1954, mesmo sem Puskas. Portugal de Eusébio, Holanda de Cruyff e de Sneijder, Argentina de Menotti, a França de Platini e de Zidane, a Argentina de Maradona e Caniggia. A Alemanha dos 7 a 1. Com exceção de 1966 e 1986, todos que eliminaram o Brasil foram, no mínimo, finalistas.

Não é pouco, nem merece ser subestimado como a Itália. Não foi a vitória do pragmatismo sobre a arte irresponsável, o futebol “bailarino”. O Brasil de Telê tinha os dez homens na defesa quando sofreu o terceiro gol e foi buscar o empate na jogada aérea. Não houve catenaccio, retranca, futebol covarde. A Azzurra fez uma partida combinando seu estilo e a necessidade do resultado.

O Brasil não contrariou suas características, mas quando empatou pela segunda vez com Falcão percebeu que devia ser mais cuidadoso. E foi, não sofreu gol em contra-ataque. Telê podia ter trocado Waldir Peres por Paulo Sérgio, Luisinho por Edinho e Serginho por Dinamite ao longo do Mundial. Mas não foi derrotado apenas por conta de seus elos fracos.

Havia um rival valoroso, com entrega, técnica e estratégia. O Brasil perdeu para a melhor seleção daquele mês de verão na Espanha em 1982. O resto é nossa presunção de onipotência quando o assunto é futebol. Uma velha e tola mania.


O ponto em comum entre Pep Guardiola e a seleção brasileira de 1982
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André Rocha

Foto: Reprodução ESPN Brasil

Em entrevista ao repórter João Castelo-Branco, da ESPN Brasil, Pep Guardiola mostrou-se feliz e honrado, até emocionado, ao ser informado que, na gravação de um documentário sobre os 35 anos da derrota da seleção brasileira para a Itália em 1982, todos os jogadores daquela geração afirmaram que veem no futebol atual as equipes do treinador catalão com algo do time comandado por Telê Santana.

“É, provavelmente, o maior título que um treinador pode conquistar. As pessoas estão muito enganadas em pensar que só é título quando se ergue a taça. Não há coisa mais bonita que ver que uma geração de jogadores que jogou bola como esse Brasil de 1982 pode dizer coisas boas de uma pessoa ou dos times que ela treinou”, afirmou Pep em entrevista exclusiva.

No entanto, ao ser questionado duas vezes pelo entrevistador se aquele time foi uma influência na maneira de armar suas equipes, novamente foi político ao elogiar e concordar sobre o impacto que ela lhe causou, mas sem citá-la como referência em tática, estratégica ou modelo de jogo.

Impressão que vai ao encontro do que disse Martí Perarnau, autor dos livros “Guardiola Confidencial” e “A Metamorfose”, quando perguntado por este blogueiro se Guardiola tinha a escola brasileira como modelo:

“É verdade que depois de dois anos seguidos conversando com Guardiola sobre todo tipo de futebol, nunca houve um comentário de que o Brasil fosse uma referência tática para ele. Conversamos, sim, sobre aquela maravilhosa seleção de 1982, mas da mesma forma que qualquer um faz: aquela maravilha de Sócrates e companhia, uma pena que perdessem pelo que significou aquela derrota depois. Nada mais do que isso.”

De fato, basta uma pesquisa em entrevistas do treinador para perceber que suas referências são Marcelo Bielsa, Van Gaal, César Luis Menotti, Arrigo Sacchi, Juan Manuel Lillo e Johan Cruyff.

Mas é na Holanda que se encontra o ponto de encontro entre o Brasil de 1982 e Pep Guardiola: Rinus Michels e a sua seleção vice-campeã da Copa na Alemanha em 1974.

Porque Guardiola foi jogador de Cruyff no “Dream Team” do Barcelona no início dos 1990. Sempre teve o treinador como mestre. A maioria de suas ideias e de seus conceitos vêm da escola holandesa: pressão, movimentação, busca da superioridade numérica, qualidade na saída de bola e triangulações.

As mesmas que influenciaram Telê Santana em 1982. Pouco antes do início da segunda fase da Copa do Mundo contra Argentina e Itália, o treinador afirmou em entrevista ao Jornal do Brasil: “Temos um toque de bola e deslocamentos que desnorteiam os adversários, como a Holanda fez em 1974. Mas temos, acima de tudo, o que eles não tinham: a malícia, o toque perfeito e principalmente a criatividade”.

Não era raro ver a seleção brasileira no Mundial da Espanha fazendo pressão no campo adversário, recuando Falcão para qualificar ainda mais a saída desde a defesa e com muitos deslocamentos. A opção de Telê por não ter um ponta pela direita criou um problema defensivo que não foi corrigido – e o primeiro gol de Paolo Rossi no Sarriá deixa isso bem claro.

Por outro lado, nos jogos contra Argentina e Itália, a movimentação de Cerezo, Falcão, Sócrates e Zico pelo setor renderam três dos cinco gols marcados. Primeiro Zico lançando, Falcão infiltrando como ponta e cruzando para Serginho marcar o segundo nos 3 a 1 sobre a Argentina. Diante da Itália, Zico limpou Gentile e lançou Sócrates às costas de Cabrini no primeiro; Falcão recebe, Cerezo passa como lateral, o meio-campista da Roma corta para dentro e marca um dos mais belos e emocionantes gols da história das Copas.

Sem contar as tabelas e triangulações em todo o campo. Com Éder aberto pela esquerda e Junior apoiando por dentro. O mesmo com Leandro do lado oposto com qualquer um do “quadrado mágico” no meio-campo que, na prática, formava um 4-2-3-1 meio “torto”, já que Éder era um ponteiro que recuava bastante para participar da articulação das jogadas. Futebol moderno dentro do contexto da época.

Mas perdeu. Para a Itália comandada por Enzo Bearzot, que também via influência da vice-campeã mundial de 1974 no time canarinho: “O futebol dos brasileiros está cada vez mais se aperfeiçoando. Parece a Holanda, com todos os jogadores trabalhando para o conjunto, sem destaque individual”, exaltou o treinador.

A última grande revolução do futebol mundial. O time de Rinus Michels comandado em campo por Cruyff. Com Krol, Neeskens, Van Hanegem, Rep e Rensenbrink. Do “arrastão” com dez jogadores correndo na direção do adversário com a bola. Da “pelada organizada”, como definiu João Saldanha pelo fato dos jogadores não atuarem fixos em suas posições. Craques técnicos e táticos, executando múltiplas funções.

O maior deles, Johan Cruyff, modelo para Guardiola. Treinado por Michels, exemplo para Telê. Eis a interseção, a conexão. Mais que isso, só a arrogância de ter certeza que tudo de bom que se faz no futebol mundial em todos os tempos foi invenção nossa.

Não foi, não é. Guardiola quer brasileiros no seu ataque para desequilibrar: pediu Neymar no Barcelona, levou Douglas Costa para o Bayern de Munique e hoje cobre Gabriel Jesus de elogios. Mas quer todo esse talento no último terço do campo.

Os alicerces de seu jogo vêm de outros pontos do mundo. Porque não se joga bola só por essas terras. Por mais que o Brasil de 1982 seja uma deliciosa lembrança.

 


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