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O “segredo” de Tite que Carille retoma com sucesso no Corinthians
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André Rocha

A vitória por 2 a 0 sobre o Luverdense na Arena Pantanal encaminha a classificação do Corinthians para a quarta fase da Copa do Brasil. Também dá a chance do técnico Fabio Carille rodar o elenco no jogo da volta.

Se o desempenho ofensivo vai aos poucos ganhando criatividade e fluência com o encaixe de Jadson pelo lado direito na linha de meias no 4-1-4-1, salta aos olhos os números defensivos.

Nas três partidas pelo torneio nacional, nenhum gol sofrido. Sim, adversários frágeis. Mas a retaguarda também não foi vazada nos clássicos contra Palmeiras, Santos e São Paulo, este no torneio amistoso na Flórida. No Paulista, só quatro gols sofridos. Contra Santo André e Mirassol. Cinco partidas sem Cássio ser batido.

A solidez dos tempos de Tite, mesmo em 2013, ano do declínio antes do período sabático, voltou depois de fortes oscilações sob o comando de Cristóvão Borges e Oswaldo de Oliveira. Porque Carille resgatou uma solução que ajudou o atual técnico da seleção brasileira a se destacar no cenário nacional.

É o que o próprio chama de “última linha posicional”. Ou seja, a defesa com os zagueiros mais próximos dos laterais. Marcando por zona, tendo a bola e o espaço como as referências, não o jogador.

A grande sacada é criar uma espécie de cinturão à frente do goleiro. Uma adaptação da escola italiana, que Tite foi estudar na década passada. Nem tão adiantada, exposta e espaçada como a da escola espanhola, que depende demais da pressão sobre o jogador com a bola para “quebrar” o passe. Muito menos semelhante à brasileira, com marcação individual e zagueiros afundados, muito próximos da própria área e que precisam do desarme salvador ou da cobertura do zagueiro de sobra.

O bloqueio é estreito. Quando o adversário ataca por um lado, a linha faz uma espécie de diagonal. O lateral se adianta para marcar, o zagueiro fica atento na cobertura, o do outro lado fica pronto para cortar o cruzamento e o lateral do lado oposto recua e faz a diagonal de cobertura ou espera uma possível inversão da jogada.

Flagrante da linha de quatro do Corinthians no dérbi guardando a própria área: Arana fecha o lado atacado, Pablo fica ligado numa possível cobertura, Balbuena guarda a área e Fagner espera uma eventual inversão ou faz a diagonal de cobertura (reprodução TV Globo).

A ideia é evitar a bola longa pelo centro ou na diagonal que proporciona a conclusão. Assim induz o lançamento mais aberto e o lateral tem tempo para bloquear a ação ofensiva menos perigosa. O posicionamento compensa também eventuais erros de compactação dos homens do meio-campo.

O atacante brasileiro, mesmo o sul-americano, fica desconfortável com o cerco que espera o momento do bote. Na tomada de decisão costuma se atrapalhar e facilitar o defensor. Não é receita infalível, mas minimiza os gols sofridos e as chances criadas pelos adversários.

Na final da Libertadores de 2012 contra o Boca Juniors, a linha formada por Alessandro, Chicão, Leandro Castán e Fabio Santos mantém o posicionamento, mesmo com o buraco deixado pelos volantes permitindo o jogo entre as linhas do time argentino (Reprodução TV Globo).

Desde Alessandro, Chicão, Leandro Castán (depois Paulo André) e Fabio Santos em 2012, passando por Fagner, Felipe, Gil e Uendel no ano passado. Agora, Fagner, Balbuena, Pablo e Arana vão ganhando entrosamento, assimilando os movimentos que não são simples. Exigem inteligência, noção de espaços e concentração. Até aqui a resposta tem sido positiva. Também pelas orientações de Cássio, que conhece toda a mecânica defensiva.

Tite foi estudar e se reciclar em 2014. Voltou apostando em criatividade, movimentação e triangulações para criar superioridade numérica no setor em que está a bola. Uma mudança notável de conceitos ofensivos. Mas o trabalho sem a bola não muda. Nem no Corinthians campeão brasileiro de 2015, nem na seleção brasileira líder das Eliminatórias.

Setores compactos, “perde e pressiona”…e a última linha de defesa posicionada. O “segredo” de Tite que Carille, ex-auxilar que colaborava exatamente na montagem da retaguarda, retoma com sucesso neste início de temporada.


Por pouco Jadson não paga o pato. Não é, nem pode ser Sassá Mutema
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André Rocha

Jadson perdeu a sua cobrança na decisão por pênaltis e podia ter sido o vilão de uma eliminação precoce na Copa do Brasil. Mesmo com o bom momento em resultados e a busca da evolução no desempenho do Corinthians de Fabio Carille, o tratamento dado ao meia veterano, de volta ao clube depois da fantástica jornada no Brasileiro de 2015, é do mágico que vai resolver.

O raciocínio é óbvio – eu diria simplista: Se o time vence apertado e sofre para criar jogadas, coloca lá o “dez” e…SHAZAN! Tudo resolvido.

Não vai solucionar todos os problemas ofensivos. Porque Carille tem o perfil do Tite antes do ano sabático de estudos, observações e reflexões. Ou seja, um treinador que quer seu time organizado (ou engessado) com a bola para, na perda da posse, estar ordenado na recomposição.

Tite notou que era melhor ganhar mobilidade e criatividade, mesmo que isso provocasse mais riscos atrás, que podem ser minimizados com pressão na perda e trabalho coletivo. Mas isso é conquista de um treinador experiente e antenado. Carille está no início do voo solo. Vai aprender.

Menos mal para ele que não foi com um vexame que seria a eliminação para o Brusque na segunda fase da Copa do Brasil. Como o Tolima foi para Tite em 2011. O Corinthians jogou mal, sofreu atrás e foi previsível nas ações ofensivas. Melhorou um pouco com a entrada do camisa 77 na segunda etapa.

Mas não é justo cobrar de Jadson a criatividade de meia central e único responsável pela articulação se seu melhor momento foi pela direita, com liberdade de movimentação e companheiros mais qualificados dando opções.

A articulação não pode ficar por conta de um só jogador. O tempo de Alex e Riquelme, os típicos meias centrais jogando à frente dos volantes “carimbando” todas as bolas, passou. Em 2017 o trabalho precisa ser dividido.

Jadson não é, nem pode ser Sassá Mutema, personagem de Lima Duarte na novela “O Salvador da Pátria”. Por pouco ele não pagou o pato em Brusque.


Valeu a pena, Palmeiras?
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André Rocha

Este que escreve não é do tipo que considera tudo de ruim que acontece num estádio de futebol, dentro ou fora do campo, reflexo de nossa sociedade. Um caso público de homofobia, racismo, xenofobia, corrupção não significa que todos somos assim. Afinal, para que existe livre arbítrio?

O blogueiro também não defende a ideia do jogador do time beneficiado por uma infração qualquer tentar corrigir a arbitragem. No mundo ideal, o juiz seria parte da busca do consenso com jogadores e treinadores, como na pelada entre amigos. Mas, ora bolas, isso é futebol profissional. Se no mundo jurídico ninguém é obrigado a produzir provas contra si, qual o sentido do atleta interferir na decisão da arbitragem para se prejudicar?

Até porque ele pode estar errado. Achar que não sofreu pênalti, mas a TV mostra o toque que o árbitro viu. Quantas vezes um jogador antes de comemorar um gol olhou antes para o assistente por achar que podia estar impedido, mas não era o caso? Por mais honesta que seja a intenção, ela não deve ser a definitiva. Afinal, para que a equipe de arbitragem que não pára de crescer está ali?

Tudo é discutível. Mas o que aconteceu na Arena do Corinthians, logo no primeiro duelo nos 100 anos do dérbi paulista, era questão de consciência. Decência. Houve um engano do árbitro, tão grosseiro quanto bobo. E profundamente infeliz. Gabriel, com cartão amarelo, sequer participa da jogada que termina com Maycon puxando Keno.

Thiago Duarte Peixoto se enganou visualmente. Com convicção, a ponto de não mudar a decisão, mesmo com dez minutos de paralisação e o quarto árbitro, Alessandro Darcie, informando o erro, como mostrou a TV. Um absurdo que pode custar sua carreira e justifica as lágrimas de desespero do apitador depois da partida.

O que fizeram os jogadores do Palmeiras? Raphael Veiga aplaudiu, Dudu cobrou que o árbitro não mudasse sua decisão e até tentou evitar que este tivesse acesso a alguma informação externa. Alguns saíram de perto, nitidamente constrangidos.

Ali era o caso de se intrometer, pois não havia interpretação alguma. O jogador expulso não fez a falta simplesmente porque não estava na disputa direta pela bola. Informar, mudar o cartão para o Maycon e seguir o jogo.

Não foi assim. E com dez homens o Corinthians se agigantou ao se sentir prejudicado, trouxe a torcida que andava distante para jogar junto e arrancou a vitória improvável sobre o rival, mais vencedor e poderoso no momento, no gol de Jô aos 42 minutos do segundo tempo. Sem muito tempo para reação. Letal.

Agora imaginemos, talvez num exercício de pura ingenuidade, os jogadores palmeirenses se juntando aos corintianos para convencer o árbitro do erro. Thiago Duarte Peixoto corrige, mantém o time mandante com onze homens. Mesmo com toda a rivalidade que sempre tangencia o ódio entre os mais radicais, que não são poucos, a atitude certamente seria aplaudida pela torcida. Ou boa parte dela.

E quem garante que não seria o Palmeiras a se agigantar? Com a sensação ótima que todos já sentiram um dia de ter feito a coisa certa. E quem garante que o jovem Maycon, com cartão amarelo ainda no primeiro tempo, não receberia o vermelho e, assim, não estaria em campo para roubar a bola no vacilo de Guerra para servir Jô?

O placar poderia ter sido o mesmo, até. Mas com uma história diferente. Que entraria para a galeria de grandes momentos do clássico centenário, dos mais tradicionais e importantes do país. Para as duas torcidas. Agora só vai ser guardada na memória dos corintianos como um grande momento de superação.

Valeu a pena, Palmeiras?

 


Por enquanto, organização do 4-1-4-1 é a boa notícia no Corinthians
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André Rocha

Estreia no Paulista, gramado molhado e difícil em Sorocaba, elenco incompleto. Muito a relativizar na análise do desempenho do Corinthians, agora comandado por Fabio Carille.

Mas se ainda falta criatividade, algo a ser resolvido com o retorno de Jadson, a organização baseada nos princípios de Tite é uma boa notícia. Um 4-1-4-1 com setores bem coordenados, reforçando a impressão da pré-temporada nos Estados Unidos e do amistoso contra a Ferroviária.

Defensivamente, o posicionamento está bem mais cuidadoso do que nos tempos de Cristóvão Borges e Oswaldo de Oliveira. Gabriel na proteção da última linha de quatro, os quatro meias acompanhando os movimentos. Precisando de um ou outro ajuste na compactação, mas normal pelo início de trabalho.

Na transição ofensiva ainda falta mais mobilidade em progressão, com os ponteiros buscando o jogo por dentro, o apoio dos meias interiores Fellipe Bastos e Rodriguinho, a passagem dos laterais Fagner e Moisés, abertos ou por dentro para desarticular a marcação.

Jô também colaborou pouco abrindo espaços e se colocando em condições de finalizar. O centroavante só apareceu cavando e cobrando o pênalti que definiu a vitória sobre o São Bento por 1 a 0.  Marlone também podia entregar mais nas infiltrações em diagonal para dar opções.

É cedo, mas os progressos não podem tardar. Se a ideia de efetivar Carille é trazer um pouco de Tite de volta, a organização defensiva é necessária, mas também a criatividade e a mobilidade na frente. Por ora ainda lembra mais o Corinthians do treinador da seleção brasileira antes da reciclagem de 2015.

Uma equipe ainda engessada, mas com lastro de evolução em todos os aspectos. Mesmo sem o elenco estelar de outros tempos pode ser forte na temporada. De qualquer forma, já é melhor que o tempo perdido em 2016.

 


Alexandre Pato no futebol chinês confirma falta de ambição no campo
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André Rocha

Pato China

Alexandre Pato surgiu no Internacional em 2006 aos 17 anos como um fenômeno, a ponto do técnico Abel Braga esconder os treinos com o objetivo de prepará-lo para entrar voando nos profissionais, surpreender os adversários e também evitar uma negociação precoce.

Campeão mundial de clubes e da Recopa Sul-Americana, foi parar no Milan em 2007 e no ano seguinte estreou com gol na seleção brasileira principal. A impressão era que com a depressão de Adriano pela perda do pai, o talentoso atacante seria o herdeiro genuíno da linhagem Careca-Romário-Ronaldo.

As seguidas lesões na Itália reforçavam a imagem de uma vitima de problemas físicos ou simplesmente falta de sorte. Mas com a plena recuperação no Corinthians em 2013 e a tão sonhada sequência de jogos, ficou claro o maior obstáculo para Pato se tornar o que se esperava dele: a falta de ambição no campo, competindo.

Saiu escorraçado do Corinthians e, no São Paulo, quando vivia o melhor momento sob o comando de Juan Carlos Osorio, a insatisfação e o desejo de retornar ao futebol europeu. A ideia era coerente: se antes o problema eram as contusões, agora, inteiro e mais maduro, chegava a hora de brilhar.

Conseguiu a volta no Chelsea de Guus Hiddink, numa fase de transição e pouco tempo para mostrar seu trabalho. Não passou de um reserva conformado. Volta frustrante ao Corinthians, sabendo que não entraria em campo. Então caiu do céu a oportunidade: o forte Villareal, que disputa vaga na Champions e tenta complicar a vida dos favoritos Barcelona e Real Madrid no Espanhol.

Mesmo coadjuvante do companheiro de ataque Sansone, o desempenho era satisfatório numa grande liga. Em 23 jogos, seis gols e quatro assistências. Com 27 anos era o momento de evoluir e se afirmar de vez, ainda que um retorno à seleção com Tite no comando parecesse improvável.

E Pato vai para China, atrás de uma proposta milionária…Legítimo. Cada profissional sabe de seus projetos e padrões de vida. Talvez haja mesmo preconceito deste que escreve com a liga asiática emergente, ainda que as contratações sejam cada vez mais respeitáveis.

Mas para quem afirmava a vontade de jogar entre os melhores e havia recusado, ainda no Corinthians, proposta semelhante do mesmo Tianjin Quianjian no ano passado, a decisão não deixa de ser contraditória.

Indecifrável como o próprio Pato. Sempre feliz e tranquilo nas declarações, mas de carreira errante, incerta. Ou com a certeza de que ele suas ambições não estão no campo de jogo. Só aumenta a decepção de quem imaginava surgir uma estrela em 2007.

Talvez o espanto (e o erro) esteja nos olhos de quem não viu um grande monstro do nosso futebol se criar. Pena.

 


“Você não é Tite nem Cuca” – Carta a Dorival Júnior, por Mozart Maragno
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André Rocha

Dorival Junior Mozart

ESCREVE MOZART MARAGNO (@momitinho)

Caro Dorival Júnior,

Não deve ter no Brasil alguém que admire mais o seu trabalho que eu. Mesmo com algumas ressalvas. Ou é fácil justificar a escalação do fraquíssimo Paulinho na partida decisiva da Copa do Brasil contra o Inter no ano passado?

Por isso, escrevo, com toda humildade, essa carta aberta em tom de alerta. O Santos de 2017 é promissor, mas só terá sucesso se usar a base, tradição do clube e tradição da sua história. Tudo bem que a safra não é das melhores, mas é nela que é preciso achar soluções.

O clube até tem feito até algumas boas contratações, encorpando o elenco, está na fase de grupos da Libertadores por absoluto mérito do técnico, mas há o risco de querer imitar o “modelo” de Corinthians e Palmeiras, o que Tite e Cuca fizeram nos últimos anos.

Você não é Tite ou Cuca. Dorival é Dorival. Dorival é quem chega no Santos e afirma jogadores da base, alguns encostados, até com alguma facilidade. Que faz esse trio jovem ser campeão olímpico. Dorival é quem fez até o improvável Rafinha jogar bola no Flamengo, é quem lança Coutinho.

É quem afirmou Alex Teixeira, é quem pegou Ramires no time reserva do Cruzeiro e em meses botou na seleção brasileira, é quem fez Ganso encantar o Brasil, Neymar sair do estágio de “filé de borboleta” pra astro nacional e internacional em pouco tempo.

O modelo de sucesso para você e para o Santos não será importar jogadores. Eles podem até auxiliar, darem sua contribuição, mas o êxito completo se dará a partir de soluções caseiras, ao risco que você sempre correu e terá de correr de novo.

Lembra do jogo contra a Ponte Preta em Campinas? Perdendo o jogo, lança mão de dois garotos, inclusive estreando o Arthur Gomes, que comeu a bola nesse dia. Correu o risco e foi premiado com a virada. É o risco que tem que correr, é o risco que faz parte da sua carreira e que faz as coisas conspirarem a favor. A coisa flui.

O atual campeão brasileiro contratou uns 50 jogadores nos últimos dois anos. E quem foi o melhor jogador, a estrela do time? Um menino da base, num clube tratado historicamente como comprador e não formador. Foi Gabriel Jesus quem deu o sopro de talento, que quando não esteve em campo acabou gerando o único momento de turbulência da equipe no Brasileirão durante os Jogos Olímpicos.

E o Corinthians do Tite? Tudo bem que o senhor Adenor não é muito adepto a usar a base, mas Malcom (lançado e afirmado por Mano Menezes) foi vital no Corinthians de 2015 campeão nacional, decidindo os dois confrontos diretos contra o Galo.

Dessa forma, Dorival, sempre se pode amadurecer e aprender com modelos vencedores dos adversários, mas sem renegar e fugir do seu DNA e do clube. Santos é base. Dorival é base. Matheus Oliveira, Arthur, André Anderson, Alexandre Tam (sim, é preciso haver o risco com a geração 1999) e outros garotos esperam sua chance. E Rodrygo merece ser tratado com atenção especial, é o próximo “raio” a cair.

Bota pra jogar sem medo de ser feliz, mesmo que a pressão de parte da torcida e até da diretoria seja ter um time de medalhões tal qual as equipes que fracassaram em 2000/2001. Não se iluda com “jogador cascudo em Libertadores”. Isso é bobagem.

ESCREVEU MOZART MARAGNO


As primeiras impressões de Corinthians e Vasco em 2017
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André Rocha

Para o time paulista valeu mais a observação do primeiro tempo, com a formação titular utilizando as peças disponíveis no Torneio da Flórida. E o que se viu foi a equipe de Fabio Carille com os movimentos do 4-1-4-1 inspirado em Tite mais assimilados, fluindo naturalmente.

Talvez pela preocupação de se manter organizado e os jogadores agrupados por ser um início de trabalho para evitar maior desgaste ficou a impressão de um time um tanto engessado, sem a mobilidade necessária, especialmente de Jô na frente.

Quando os ponteiros Romero e Marlone se procuraram no centro saiu o segundo gol numa tabela. O mesmo na primeira bola que foi às redes no jogo, quando os meias pelo centro à frente do volante Gabriel trocaram passes e no toque de calcanhar de Rodriguinho, Camacho saiu na cara de Martín Silva.

Porque o Vasco na segunda aparição sob o comando de Cristóvão Borges já demonstrou, na prática, os problemas defensivos da proposta de jogo do treinador: linhas próximas, defesa adiantada, mas sem pressão e diminuição de espaços diante do homem da bola. Muita liberdade nos gols corintianos. Já havia acontecido nos 2 a 1 sobre o Barcelona de Guaiaquil.

Um contraponto ao desempenho interessante na frente, com mais mobilidade e rapidez: Evander, Guilherme e Eder Luís se juntando a Nenê na articulação procurando Thalles. Bem superior à experiência com Escudero e Muriqui totalmente fora de sintonia na estreia.

Mas o gol saiu em ação individual, um chute espetacular com efeito de Eder Luis acertando o ângulo de Cássio. Para dar moral ao atacante veterano que terá em Wagner mais um concorrente no quarteto ou quinteto ofensivo que Cristóvão pretende armar.

Segunda etapa com as muitas substituições que quase sempre descaracterizam a disputa, mas valem paraa observação dos treinadores.  Do quarteto Giovanni Augusto, Guilherme, Marquinhos Gabriel e Kazim por Carille. Os dois últimos protagonistas dos dois gols, um servindo ao outro, que consolidaram a goleada por 4 a 1.

Cristóvão viu um melhor entendimento entre Escudero, Ederson, Pikachu e Andrezinho. O técnico mexeu bastante, mas sem a opção de trocar todo time na volta do intervalo, como fez a equipe paulista. Mas, de novo, quando atacado de forma mais aguda mostrou as mesmas dificuldades defensivas. Algo para o comandante refletir e, principalmente, corrigir.

Clima de amistoso, Corinthians na final. Mas valeu mesmo para notar os rascunhos e as primeiras impressões sobre os times na temporada. A conclusão óbvia: há muito trabalho pela frente.


A “função Jadson” pode estar de volta ao futebol brasileiro
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André Rocha

Everton Ribeiro foi o melhor jogador dos Brasileiros de 2013 e 2014 como o meia canhoto jogando aberto pela direita no Cruzeiro bicampeão. Partia da ponta para articular no centro, circulando às costas do volante e sendo um homem a mais no meio-campo para desarticular a marcação adversária.

Jadson dividiu com Renato Augusto os elogios e os prêmios de destaque da principal competição nacional em 2015 executando praticamente a mesma função do cruzeirense. Mas com um adicional tático imposto por Tite: as transições mais longas.

Basicamente, jogar de uma linha de fundo à outra. Mas sem a corrida desenfreada dos pontas que voltam com os laterais adversários marcando individualmente. Na marcação por zona do Corinthians campeão, o ponta recompõe posicionado, fecha espaços e só volta até a linha de fundo quando está bem perto dela, com o lateral (Fagner) mais centralizado, próximo aos zagueiros.

A transição defensiva mais longa de Jadson, fechando o corredor direito para o lateral Fagner ficar mais próximo do zagueiro guardando o setor (reprodução TV Globo).

A transição defensiva mais longa de Jadson, fechando o corredor direito para o lateral Fagner ficar mais próximo do zagueiro guardando o setor (reprodução TV Band).

Com a bola, mobilidade para circular, criando superioridade numérica e aparecendo na área para finalizar. Ainda abre o corredor para o lateral passar e buscar o fundo. Sem contar a eficiência nas bolas paradas, em cobranças diretas ou servindo os companheiros. Dentro de um 4-1-4-1 rígido, a “função Jadson” era a peça solta para surpreender o oponente. Líder de assistências no Brasileiro com 12. Na temporada 2015 foram 22, mais 16 gols.

Flagrante do Corinthians no ataque em 2015 com Jadson saindo da ponta e abrindo o corredor para a descida de Fagner e servindo Elias em profundidade atacando a brecha deixada no flanco (reprodução TV Globo).

Flagrante do Corinthians no ataque em 2015 com Jadson saindo da ponta e abrindo o corredor para a descida de Fagner e servindo Elias em profundidade atacando a brecha deixada no flanco (reprodução TV Globo).

O jogador de 33 anos volta de sua aventura milionária na China e planeja o retorno ao Brasil. Estuda proposta oficial do Corinthians, o Atlético-MG também está de olho. Para quem tem mais de 30, qualquer ano a mais influi no condicionamento físico. Mas com experiência e domínio da função, o desempenho pode ser semelhante para equilibrar a própria equipe e desestabilizar o outro lado.

Para executar a “função Jadson” ninguém melhor que o próprio meia.


“Declínio técnico”? O Corinthians caiu tanto que precisa de um Drobga
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André Rocha

O nosso Dassler Marques trouxe a informação de que o Corinthians está se movimentando para trazer Didier Drogba. A ação agrada ao departamento de marketing, mas os profissionais do futebol estão resistindo à ideia alegando “declínio técnico”.

Físico também, mas este é óbvio para um jogador que vai completar 39 anos em março. O curioso é o clube que em um ano perdeu praticamente toda a comissão técnica e o elenco campeão brasileiro de 2015, efetivou o técnico Fabio Carille sem a mínima convicção depois da aventura com Oswaldo de Oliveira e que até aqui anunciou para o ataque nomes como Jô, Luidy e Kazim usar critérios técnicos para descartar um atacante que já foi um dos melhores do planeta.

De fato, o marfinense já não tem muito a entregar no mais alto nível do futebol mundial. Mas na MLS, enquanto teve foco, mostrou desempenho: 11 gols em 11 partidas pelo Montreal Impact. Depois quase voltou ao Chelsea, enfrentou problemas com a grama sintética, discutiu com torcedores e se recusou a ficar no banco. Ainda assim marcou dez gols. Só Romero, com 13, foi às redes mais vezes em 2016.

A personalidade forte faz parte do “combo”. Em campo, a equipe precisaria de uma referência de velocidade no ataque pois Drogba já não tem a mobilidade e o vigor de outros tempos. Mas o que Jô produziu desde o título da Libertadores com o Galo em 2013? Passagens sem brilho e conquistas por Al-Shabab e Jiangsu Suning. São nove anos a menos em relação ao avante africano, mas as perspectivas não são tão melhores.

Usar os jovens da base poderia ser solução, mas para quem tem o promissor Maycon para o meio-campo e contrata Fellipe Bastos, o aproveitamento das crias da casa não parece ser prioridade. Só William Pottker, um dos artilheiros do Brasileiro com 14 gols e ainda no radar corintiano, seria um atacante com boas perspectivas de corresponder.

Em um time estruturado, com base sólida e ídolos no auge, de fato o marfinense seria uma peça totalmente descartável. Mas para a nau à deriva que é o Corinthians, fora da Libertadores e até aqui sem notícias muito animadoras para 2017, pode ser nome interessante, dentro e fora de campo. Com parcerias, sem complicar o orçamento e usando com inteligência o potencial de marketing de um astro internacional.

O Corinthians caiu tanto que precisa de um craque, mesmo decadente.

 


O mito dos cinco camisas dez no Brasil de 1970
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André Rocha

Brasil 1970 camisas dez

Com a contratação de Conca pelo Flamengo – ainda que o argentino só vá jogar daqui a, no mínimo, 60 dias – a pauta não só aqui neste blog foi a possibilidade do reforço rubro-negro fazer companhia a Diego na articulação das jogadas do time de Zé Ricardo.

Nas redes sociais e nos programas de debate nas emissoras de TV fechada surgiu o velho exemplo, que virou clichê, de quando se questiona a escalação de jogadores que costumam exercer a mesma função: os cinco camisas dez em seus clubes que se reuniram na mítica seleção de 1970.

Gerson no São Paulo, Rivelino no Corinthians, Jairzinho no Botafogo, Tostão no Cruzeiro e Pelé, que obviamente ficou com o número durante o Mundial. Até porque foi ele quem criou a imagem que associa a camisa ao craque do time, ainda no final dos anos 1950.

De fato, todos usavam a dez. Mas não eram o “10” em campo. Porque nos anos 1960 e 1970, em muitas equipes, o craque do time e camisa dez era o meia-armador. Jogador cerebral, capaz de longos lançamentos, chutes fortes e precisos de longa distância. O pensador que atuava de uma intermediária à outra, pouco à frente do volante – ou “cabeça-de-área”.

No tricolor paulista o ponta-de-lança, meia que jogava praticamente como atacante, num 4-2-4, era Paulo, que vestia a oito e fazia dupla na área com o artilheiro Toninho Guerreiro. No ano seguinte chegou Pedro Rocha, craque uruguaio. Gerson seguiu como o meia-armador e com a dez. Na seleção, a mesma função, mas com a oito.

O mesmo com Rivelino no Corinthians. Fazia gols com sua canhota impressionante, mas era o organizador com a dez. A tarefa de se juntar ao trio de ataque era de Ivair, o “Príncipe”, camisa oito contratado à Portuguesa. Na seleção, Rivelino foi adaptado na função de “falso ponta” pela esquerda. Camisa onze. Contra a Inglaterra, com a ausência de Gerson, atuou em sua posição original e Paulo César Caju entrou pela esquerda. Mas normalmente sua principal atribuição era voltar para armar com Gerson e deixava o espaço no flanco para Tostão.

Camisa nove que atuava no Cruzeiro como uma espécie de falso centroavante, revezando com Dirceu Lopes na chegada ao ataque e formando o primeiro “quadrado” no meio-campo que se tem notícia, com Piazza e Zé Carlos como volantes. Ou seja, era um ponta-de-lança, mas que conhecia bem a dinâmica de jogar abrindo espaços para os companheiros.

Jairzinho era o dez do Botafogo, mas na seleção era reserva de Garrincha e assumiu a posição na ponta direita. Era veloz, tinha incrível explosão para a época. No alvinegro era praticamente um segundo centroavante, formando o ataque com Rogério, Roberto Miranda e Caju. Não possuía, porém, as características de Tostão e Pelé. Era versátil. Jogar aberto e arrancar em diagonal não era novidade para o “Furacão da Copa”.

Portanto, a tese de que os jogadores, mesmo atuando na mesma posição, se ajustam em campo naturalmente usando o exemplo de 1970 é um tanto fantasiosa. É preciso conhecer o contexto, as características dos jogadores envolvidos e o que Zagallo queria de cada um.

O próprio treinador, trinta anos depois, chegou ao Flamengo para tentar abrigar no mesmo ataque Edilson, Alex, Petkovic e Denilson. Era o time da fracassada parceria com a empresa ISL que também sucumbiu no campo em 2000. É claro que todos os problemas financeiros e de bastidores contribuíram, mas nem sempre juntar os craques é tarefa simples.

Zagallo conseguiu em 1970 fazendo ajustes na base de João Saldanha. A única inserção no quarteto ofensivo foi Rivelino. Havia entrosamento e bastante tempo para se preparar. Mas, principalmente, os estilos combinavam, cada um em sua função.

O resto é mito. Porque futebol, mesmo sendo mágico, não se faz com um estalar de dedos.