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Chelsea e Real Madrid: estratégias diferentes para inspirar times do Brasil
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André Rocha

Antes de qualquer ponderação é preciso explicar o óbvio, quase desenhar: a intenção do texto não é comparar a qualidade dos elencos dos milionários clubes da Inglaterra e da Espanha. Apenas as estratégias na gestão dos elencos. Mas também entendendo que é possível fazer uma proporcionalidade entre a capacidade dos clubes brasileiros citados e o nível do futebol jogado no país.

O Chelsea fez uma temporada 2015/16 para esquecer e não se classificou sequer para a Liga Europa. A prioridade absoluta era a Premier League, com as copas nacionais em paralelo da forma como os ingleses as vêm tratando nos últimos anos: escala reservas e só busca o título se não tiver algo mais importante em disputa. Ou seja, o que o tem restado ao Arsenal de Arsene Wenger.

A estratégia de Antonio Conte foi clara: depois de encontrar a formação com melhor relação desempenho/resultado, insistiu com ela e rodou bem pouco o elenco. Com a repetição de jogos e semanas livres para os treinos que funcionam mais como “polimento” após uma pré-temporada mais forte e longa que as do Brasil, a variação do 5-4-1 para o 3-4-3 ganhou ainda mais fluência. Os atletas passaram a executar as jogadas de memória, sem pensar muito e a equipe sobrou no Inglês.

Já vem sendo o trunfo do Corinthians na temporada. Equipe que ganhou corpo no Estadual, mas vacilou na Copa do Brasil com a eliminação para o Internacional. A arrancada espetacular no início do Brasileiro já sinaliza que a Sul-Americana, consequência da temporada irregular em 2016, ficará em segundo plano. A menos que abra uma vantagem na competição nacional tão confortável que permita inverter a lógica e poupar para um duelo decisivo no torneio continental.

O Real Madrid queria voltar a vencer o Espanhol depois de cinco anos e quebrar a hegemonia do rival Barcelona. Mas sem perder de vista a Liga dos Campeões, historicamente um alvo de conquista do maior campeão do torneio. A solução de Zinedine Zidane, depois de observar o desgaste de seus jogadores na temporada anterior, especialmente da estrela Cristiano Ronaldo foi simples, até um tanto antiquada: definir titulares e reservas. Treinar, condicionar e entrosar para que ambos estivessem prontos quando necessário.

Mas sem tapar os olhos para o desempenho e praticar a meritocracia. Tanto que Isco virou titular e Gareth Bale iniciou a decisão da Liga dos Campeões no seu País de Gales no banco. As partidas em que a equipe reserva seria utilizada foram definidas dentro de um planejamento, não necessariamente na partida do Espanhol que antecedia um duelo importante pela Champions.

O resultado: as duas taças em Madrid e todos voando no fim da temporada. Os titulares pelo descanso e os suplentes pela motivação e por conta do ritmo de competição. A dosagem certa para o futebol atual, que exige do atleta um enorme esforço mental – concentração absoluta para as tomadas de decisão corretas – e físico, com um aumento exponencial nas ações de alta intensidade – em especial os piques curtos para dar opção e receber a bola ou pressionar o adversário.

Flamengo, Palmeiras e Atlético Mineiro, pelo alto investimento em seus elencos e, por conta disso, não podendo descartar nenhuma competição na temporada, podem pensar em algo parecido. Envolvidos em três campeonatos, se tentarem insistir com os titulares em todos haverá esgotamento e desvantagem contra adversários que não estão na mesma maratona de jogos a cada três dias.

Já com equipes mistas, poupando apenas aqueles que os exames apontam próximos de estourar os músculos, o entrosamento sempre fica comprometido. Os famosos rodízios não têm dado muito resultado prático por conta da falta de sintonia entre os setores muito alterados.

Parece mais racional definir antes e escolher as partidas mais acessíveis. Não como o Grêmio fez, poupando contra Sport e Palmeiras fora de casa porque tinha jogos considerados prioritários no meio da semana. Pontos jogados fora que hoje fazem falta na luta para se aproximar do líder Corinthians.

É lógico que sempre é mais inteligente deixar alguns titulares no banco para alguma eventualidade. Mas mesmo concentrando e fazendo parte da logística da partida, não deixa de ser um repouso para pernas e mentes. Em clubes tão pressionados por conquistas é um alívio. Cobrar presença em todos os jogos para justificar os altos salários parece pouco inteligente. Porque o atleta não está cansado a ponto de não poder exercer seu ofício. A ausência é apenas para que ele mantenha o alto rendimento. Não são máquinas.

Já passou da hora dos clubes brasileiros deixarem de se preocupar tanto com decisões políticas, pautadas por reações de torcida e imprensa. Não há como controlar os resultados, por isso planejar para minimizar os equívocos parece sempre a melhor escolha. Inclusive surpresas agradáveis podem acontecer. Como os titulares do Real Madrid derrotados pelo Barcelona no Santiago Bernabéu, mas não deixando o rival se aproximar da liderança exatamente pelos pontos conquistados pelos reservas, inclusive em jogos longe de Madri.

Ninguém por aqui conta com uma seleção mundial no elenco. Mas o Brasileiro também não tem o nível do Espanhol – as competições internacionais mostram que Barça e Real não sobram por falta de rivais à altura, mas por estarem numa prateleira acima no futebol mundial pela competência dentro de campo.

Com a disputa ainda no primeiro turno é possível corrigir a rota e definir o planejamento. O Corinthians parece cada vez mais consciente que o “modo Chelsea” é o norte a seguir, mantendo a base e investindo em recuperação e treinamentos pensando no Brasileiro.

Já os que gastaram para rechear seus elencos precisam definir um caminho para não correrem o risco de terminar 2017 sem taças importantes para ostentar. O Real de Zidane ganhou a Espanha e a Europa com inteligência. É possível fazer parecido, mesmo sem tanto talento disponível.

 

 


Cristiano Ronaldo segue voando. Portugal deve agradecer ao Real Madrid
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André Rocha

Foto: Ivan Sekretarev (AP Photo)

Na estreia da Copa das Confederações contra o México, Fernando Santos escalou a seleção portuguesa mais experiente, próxima à formação que venceu a Eurocopa.

Só que o futebol é dinâmico e hoje mandar a campo João Moutinho, Nani e Quaresma com Adrien, Bernardo e André Silva disponíveis é um crime lesa-pátria. Fernando efetuou a correção para a segunda partida, contra os anfitriões.

Rússia que respeitou o campeão continental e mandou para o banco as opções ofensivas Poloz e Erokhin, titulares na vitória sobre a Nova Zelândia na estreia por 2 a 0 para montar um 5-4-1/3-4-3 à la Chelsea de Conte para negar espaços com muita compactação defensiva e saída rápida pela direita com Samedov e Golovin.

Mas, do lado oposto, Kudryashov e Kombarov vacilaram na movimentação para fechar a diagonal de Cristiano Ronaldo, que fez o gol único da partida. Jogada iniciada com inversão de Bernardo Silva para o cruzamento de Raphael Guerreiro que encontrou a estrela máxima do torneio.

Infiltrando pela direita. Porque Cristiano convenceu Fernando Santos a repetir na seleção o que Zidane fez no Real Madrid: dar total liberdade ao seu melhor atacante. Antes, o camisa sete iniciava pela esquerda num 4-3-3 e se juntava ao centroavante em um movimento programado. Agora ele atua solto na frente, alternando com outro atacante. No time merengue, Benzema. Na seleção, o jovem e promissor André Silva.

Cristiano Ronaldo voou na reta final da temporada europeia e mantém o desempenho com a camisa de seu país. Antes, chegava esfalfado, destruído por jogar todas para duelar nas estatísticas e recordes com Messi. Agora está inteiro para buscar o que realmente importa: títulos. Não que ele precise da Copa das Confederações para confirmar a Bola de Ouro, que já é dele.

Na recomposição, duas linhas de quatro com André Gomes fazendo a compensação pela esquerda, Bernardo à direita como no Monaco – e como lembra Messi nos gestos técnicos! William e Adrien no centro, protegendo Cédric, Pepe, Bruno Alves e Guerreiro.

Portugal empilhou chances, teve 62% de posse e quatro finalizações a dois, três contra nenhuma no alvo, no primeiro tempo. Finalizou mais oito vezes na segunda etapa, Cristiano Ronaldo perdeu duas chances claras que podiam até ter encaminhado uma goleada.

Acabou sofrendo com uma Rússia sem ideias, mas presença ofensiva com Poloz e Erokhin, mais Bukharov. No abafa, bolas levantadas na área de Rui Patrício, finalizou seis vezes no segundo tempo, subiu a posse para 42% e fez o adversário correr o risco de novo empate no final, como os mexicanos conseguiram.

Ainda assim, a formação inicial é um bom norte para Fernando Santos, que deve agradecer ao Real Madrid. Não só pela “inspiração” no posicionamento de Cristiano Ronaldo, mas pelo planejamento de fazer o craque “fominha” descansar ao longo da temporada e chegar em junho ainda voando fisicamente. No auge, Cristiano pode comemorar mais uma conquista em 2017.

(Estatísticas: FIFA)


Real Madrid de Cristiano Ronaldo entra para o grupo dos grandes esquadrões
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André Rocha

É uma equipe que não encanta. Não revoluciona taticamente, embora sinalize o futuro como um time “camaleão” – vence dominando a posse de bola, no contragolpe ou na bola parada. Ainda que Zinedine Zidane tenha arrumado o time com uma atualização do 4-3-1-2 que se fecha em duas linhas de quatro com Isco alternando pelos flancos.

Mas não dá para negar: o Real Madrid de Cristiano Ronaldo entra no grupo dos grandes esquadrões. Aqueles históricos, lembrados daqui a vinte, trinta…cinquenta anos!  São três títulos da principal competição de clubes do planeta em quatro edições. Na que perdeu chegou nas semifinais. Se voltarmos um pouco mais, esteve entre os quatro melhores da Europa também em 2011, 2012 e 2013.

A referência, porém, é a partir de “La Décima” em 2014. Afinal, de lá para cá o time mudou muito pouco. Saíram Casillas, Xabi Alonso e Di María, Coentrão perdeu a vaga para Marcelo, Pepe se lesionou. Mas a base é a mesma. De Carlo Ancelotti para o seu ex-auxiliar Zidane. Com um esquecível e lamentável Rafa Benítez de “hiato”.

Mantendo a proposta de jogo e a gestão de vestiário. Com calma, dando leveza, sem tantas cobranças nos aspectos táticos e estratégicos. Ataca num 4-3-3 ou 4-3-1-2, defende em duas linhas de quatro. Futebol simples, com força mental e aproveitando a qualidade individual.

Com dois toques pessoais do “Zizou”: Casemiro na proteção e ainda aparecendo na frente para ir às redes, como no gol fundamental nos 4 a 1 sobre a Juventus em Cardiff. E a gestão do elenco, descansando titulares importantes para a equipe voar no final da temporada. A superioridade física no segundo tempo da final foi clara, depois do domínio da equipe italiana e o golaço de empate com Mandzukic na primeira etapa.

Acima de todos, o incrível Cristiano Ronaldo. Já uma lenda. Nas três conquistas foi o artilheiro absoluto da competição continental. Agora fechou a fase de grupos com apenas dois. No mata-mata, contra Bayern de Munique e Atlético de Madri, nada menos que oito. Na grande final, mais dois, superando os onze de Messi. 600 na carreira, 105 na Liga dos Campeões. Com o conquistado pelo Manchester United em 2008, são quatro conquistas. Primeiro a marcar gols em três decisões. Artilheiro absoluto, quinta Bola de Ouro garantida. Maior jogador da história do Real Madrid. Repito: melhor finalizador que este blogueiro viu ao vivo, superando Romário, Ronaldo, Van Basten. Todos.

Vamos aos feitos da equipe merengue: primeiro bicampeão da Era Champions League. A Juventus só tinha sofrido três gols em 12 jogos. O Real enfiou quatro na decisão, com Asensio fechando a goleada no final. Foi às redes nos últimos 65 jogos.

É histórico. Um time que marca época, ainda que não tenha um estilo particularíssimo como o Barcelona. Não encanta, mas vence com talento, pragmatismo e força mental. Eram nove ligas do clube, agora são doze. Graças a Zidane, Marcelo, Sergio Ramos, Casemiro, Modric, Isco…E a este impressionante Cristiano Ronaldo. Um gênio do nosso tempo.


Juventus x Real Madrid: os camaleões atrás da orelhuda
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André Rocha

Quando José Mourinho e Pep Guardiola polarizaram o futebol mundial no início da década, em especial nos duelos entre Real Madrid e Barcelona, criou-se também uma dicotomia: posse de bola x jogo reativo. Ainda que Lionel Messi tenha definido o superclássico espanhol pela semifinal da Liga dos Campeões 2010/2011 em um contragolpe e o time merengue comandado pelo português tenha batido o recorde de pontos no Espanhol na temporada seguinte atropelando os adversários.

O tempo mostrou que o radicalismo nos conceitos de jogo podem criar dilemas complicados. Como o Bayern de Munique de Guardiola tentando jogar no campo de ataque e deixando espaços para o trio MSN do Barça no auge em 2015. Ou o Chelsea de Mourinho, no mesmo ano, pagando pela cautela excessiva, em casa e com um homem a mais, contra o PSG pelas oitavas de final da Champions.

O primeiro campeão europeu a sinalizar que a flexibilidade na proposta de jogo seria a melhor solução foi o Bayern de Jupp Heynckes em 2012/13. A equipe que faturou a tríplice coroa podia atacar com fúria e volume, mas também com paciência. Na temporada, só o Barcelona de Tito Vilanova/Jordi Roura, sucessores de Guardiola, teve mais posse. No duelo entre os dois, o time bávaro pulverizou o catalão com 7 a 0 no agregado e média de 40% do tempo com a bola. Contragolpe na veia. Quando foi preciso.

O Real Madrid de Carlo Ancelotti de “La Décima” em 2014 e a Juventus finalista em 2015 também se mostraram equipes “híbridas”. Saindo de trás com a classe de Xabi Alonso e Pirlo, mas sabendo acelerar na frente com o trio “BBC” nos merengues e colocar intensidade com Vidal, Tevez e Morata.

Agora, espanhois e italianos se encontram na final do principal torneio de clubes do planeta atingindo a excelência na proposta de se adaptar conforme a necessidade. Ser um time “camaleão”. Ambos sabem trabalhar com posse para abrir defesas fechadas – embora não estejam entre as cinco melhores no controle da bola nesta edição do torneio continental. Mas se preciso abrem ferrolhos no jogo aéreo, com bola parada ou rolando. Também ficam confortáveis jogando em contra-ataques.

Para a decisão em Cardiff, a dúvida é quem tomará a iniciativa de início, propondo o jogo e adiantando a marcação. Talvez o Real Madrid, seguro e confiante por ser o atual campeão e ter a mesma base com duas conquistas nas últimas três temporadas. Também por ser o melhor ataque, com 32 gols, e a equipe que mais finaliza, a segunda que mais acerta passes (88% de efetividade).

Provavelmente com Isco sendo o “enganche” do 4-3-1-2 montado na ausência do lesionado Gareth Bale e que deu tão certo que deve manter o galês no banco, mesmo numa final disputada em seu país. A mudança trouxe mobilidade na frente e desafogo para o meio-campo. O meia circula às costas dos volantes adversários nas ações ofensivas e retorna por um dos lados na recomposição formando duas linhas de quatro. Se pela direita, Modric e Casemiro fecham o centro e Toni Kroos abre à esquerda. Se Isco inverte o lado, é Modric a abrir à direita e Casemiro e Kroos ficam no meio.

Deve ser esta a opção de Zinedine Zidane. Modric, mais rápido, fecha a subida de Alex Sandro enquanto Carvajal fecha a diagonal de Mandzukic em busca da zona de conclusão fazendo dupla com Higuaín. Isco volta, mas nem tanto, contra Barzagli e Marcelo se encontra no setor com Daniel Alves.

Porque a Juventus de Massimiliano Allegri, que sofreu apenas três gols em 12 partidas, deve repetir a ideia vencedora na semifinal da UCL em 2014/15: duas linhas de quatro bem compactas. Pelas características e dentro do contexto, podem ter cinco defensores. Com Barzagli por dentro e Daniel Alves como lateral. Para evitar a circulação de Isco, vigiar as descidas dos laterais Carvajal e Marcelo e não ser surpreendida pela mobilidade de Benzema e Cristiano Ronaldo na nova configuração do ataque, em dupla.

Na transição ofensiva, caberá a Pjanic o primeiro passe e a Dybala o último. O argentino tende a procurar mais o lado direito para trabalhar com a canhota e dar suporte a Daniel Alves. Mesmo na marcação por zona padrão da Europa, Casemiro terá a função de negar espaços ao meia que atua mais solto, próximo a Higuaín.

Atenção na bola parada. O Real tem Kroos em faltas laterais e escanteios buscando Sergio Ramos e Cristiano Ronaldo nas cobranças diretas. A Vecchia Signora conta com Pjanic, Daniel Alves e Dybala. Na área adversária, Bonucci, Chiellini, Mandzukic e Higuaín. Junto com o Bayern de Munique, são os três times que mais completam cruzamentos no torneio. Assim a Champions pode ser definida.

A Juventus tem mais “fome”, mas a pressão de dar uma Liga dos Campeões ao mito Buffon e de não falhar na nona final, depois de apenas dois títulos em oito decisões, pode jogar contra. Mesmo com tanta experiência e o supercampeão Daniel Alves do lado italiano.

Já o Real Madrid entra mais relaxado. A obrigação era “La Decima”, depois de 12 anos sem sequer alcançar uma final. É o maior e atual campeão, já venceu a liga espanhola, que era a conquista que faltava depois de cinco anos. Pode encher de confiança, mas também arrancar o “sangue nos olhos” e a indignação com a derrota que constroem os campeões.

Não há favorito no duelo de camaleões atrás da orelhuda. Mas o blogueiro se permite um palpite, sem muita convicção: a Juventus leva desta vez. Talvez nos pênaltis.

Real Madrid no 4-3-1-2 com Isco tentando circular às costas dos volantes e retornando pela esquerda, com Modrc do outro lado fechando a segunda linha de quatro. Juventus novamente deve alternar o 4-4-2 e o 5-3-2 com Barzagli lateral ou zagueiro e Daniel Alves fazendo o corredor pela direita. Na esquerda, Mandzukic volta na recomposição e busca a diagonal para se juntar a Dybala e Higuaín (Tactical Pad).

(Estatísticas: UEFA)

 


Real Madrid campeão! A revolução de simplicidade e discrição de Zidane
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André Rocha

Zinedine Zidane assumiu o Real Madrid no início de 2016, salvando a pele de Florentino Pérez, que emendou duas decisões para lá de controversas: demitir Carlo Ancelotti mais pela frustração de ver o Barcelona faturar a tríplice coroa do que propriamente por uma avaliação do trabalho do treinador italiano que comandou o time que conquistou a sonhada “La Decima”.

Pior ainda foi trazer Rafa Benítez, em baixa na carreira, para liderar seu elenco estelar. Não podia dar certo, até por não se identificar com o clube e ter a petulância de tentar ensinar jogadores como Cristiano Ronaldo e Toni Kroos a bater na bola, se intrometendo até nos gestos técnicos dos atletas.

Algo que Zidane, um dos maiores e mais técnicos jogadores da história, poderia se aventurar a impor. Pelo contrário. Transmitiu confiança, usou o respeito que desperta sem fazer força para deixar o ambiente mais leve, trouxe as lideranças para perto. Na gestão do grupo, também manteve todos motivados, mudou de patamar jogadores como Lucas Vázquez. Investiu no condicionamento físico.

Na parte tática e estratégica, começou resgatando as ideias de Ancelotti, de quem era auxiliar. Variação do 4-3-3 para o 4-4-2 sem a bola. Com a má fase de James Rodríguez e a dificuldade de encontrar o meia para atacar centralizado, na articulação, e voltar pela esquerda, além dos problemas defensivos, fez o simples mais uma vez: plantou Casemiro na proteção da defesa e deu liberdade a Kroos.

Trabalhando jogo a jogo, descansando quem precisava e valorizando os substitutos sem lamentar as ausências foi arrumando a casa. Realista, jogou a toalha na liga na derrota para o Atlético de Madrid no Santiago Bernabéu. Paradoxalmente, o foco na Champions e a sensação de “o que vier é lucro” ajudou a construir um retrospecto de 12 vitórias seguidas, inclusive os 2 a 1 sobre o Barcelona no Camp Nou.

Campanha que manteve a confiança alta e ajudou a pavimentar o 11º título da Liga dos Campeões. Conquista que pode ser atribuída um tanto à sorte por conta dos cruzamentos menos complicados que os rivais e superar o Atlético novamente, desta vez nos pênaltis. Sem muito brilho, mas fazendo história.

Para a temporada 2016/17, o aprimoramento das virtudes: elenco mais forte, com Morata e Asensio formando uma equipe reserva capaz de manter a competitividade enquanto descansa os titulares. E atento ao desempenho para fazer ajustes por meritocracia.

Isco foi o beneficiado pelo senso de justiça na reta final. Voando nas vitórias dos reservas e entrando bem quando solicitado, virou titular na vaga de Bale, em uma nova alteração tática. Do 4-3-3 para o 4-3-1-2, com o meia atuando como “enganche” à frente de Modric e Kroos e deixando Cristiano Ronaldo praticamente como um atacante próximo à área adversária, com liberdade de movimentação.

Poupado em nove partidas na liga, o português estava pronto para ser decisivo na reta final do campeonato nacional e do torneio continental. Se antes o genial finalizador tentava duelar com Messi nos números, agora entendeu que as taças são mais importantes que as bolas na rede. Até porque ele sempre será o artilheiro e a estrela da equipe, mesmo sem jogar todas.

O resultado prático é uma campanha memorável no Espanhol: 29 vitórias, seis empates, apenas três derrotas. 82% de aproveitamento. O ataque mais positivo e a defesa menos vazada são do Barcelona. Mas nos pontos foi soberano durante toda a liga.

Futebol prático e simples, respeitando as características dos jogadores. Os laterais Carvajal e Marcelo abrem o campo, ainda que o brasileiro infiltre muito por dentro, quase como meia. O meio-campo marca e joga, com Kroos e Modric alternando passes longos e curtos e qualificando a saída desde a defesa auxiliando Casemiro. Na frente, o trabalho de coadjuvante de Benzema e o poder de decisão de Cristiano Ronaldo. Se necessário, há a qualidade na reposição para manter desempenho e a média na conquista de pontos.

Um time “camaleão”, que joga com posse de bola ou nas transições velozes, sem deixar de valorizar o momento das jogadas aéreas com bola parada. Algo lógico quando se tem a precisão de Kroos e a fantástica presença na área adversária do já lendário Sergio Ramos.

Acima de tudo, respeitando a história do clube. Porque o torcedor madridista não quer exatamente espetáculo. Exige vitórias, mas que de preferência sejam construídas com futebol ofensivo e liberdade para os craques “galácticos” contratados a peso de ouro colocarem o talento a serviço da equipe. Sem amarras táticas. Com mentalidade vencedora.

Título confirmado fora de casa nos 2 a 0 sobre o Málaga. Um gol de Cristiano Ronaldo em contragolpe letal, outro de Benzema na bola parada sempre tão eficiente. Mais simbólico, impossível. Completando 64 partidas consecutivas fazendo gols. Pela primeira vez com campanha mais efetiva em pontos fora de casa do que no Bernabéu: 47 x 46.

Nada muito inovador, embora moderno. Zidane respeita as características e as qualidades dos jogadores. Não tenta ser a estrela mais reluzente e midiática. Valoriza o jogo, o futebol em todas as suas vertentes. Se Zidane revolucionou o Real Madrid, foi pela discrição e simplicidade.

Agora parte para o ato final e mais importante: nova final de Champions, desta vez contra a Juventus em Cardiff. Decisão sem favoritos, até pelo tempo que ambos terão para se preparar e com a confiança das ligas conquistadas. Agora com o Real enfrentando os cruzamentos mais complicados: Napoli, Bayern de Munique e Atlético de Madrid.

A Juventus tem mais “fome”, já que o título europeu não vem desde 1996. Já o Real carrega a “casca” de uma base que disputou duas finais recentes. Se vier a décima segunda, todos os holofotes estarão sobre Cristiano Ronaldo e sua quinta Bola de Ouro.

No banco, aplaudindo os protagonistas, o grande mentor. O Zidane que em campo fazia tudo parecer tão trivial e agora, na beira do gramado, trabalha com o mesmo semblante tranquilo de quem sabe o que quer.


Melhor atuação coletiva do Real Madrid, um presente para Cristiano Ronaldo
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André Rocha

Os primeiros 30 minutos da primeira semifinal da Liga dos Campeões no Bernabéu apresentaram o que se espera de eficiência e beleza do Real Madrid desde que Zinedine Zidane assumiu e armou uma equipe competitiva, porém sem brilho.

Atuação consistente que passa fundamentalmente pela movimentação de Isco na ponta do losango do 4-3-1-2 que surpreendeu Simeone e seu Atlético de Madrid. O meia circulava entre as duas linhas de quatro e ninguém sabia como parar.

O desequilíbrio no meio, com superioridade numérica em vários momentos de quatro homens contra dois, produziu um volume de jogo impressionante. Foram nada menos que dez finalizações e 66% de posse de bola. Podia ter saído, pelo menos, mais dois gols além do marcado por Cristiano Ronaldo completando centro de Casemiro.

Até o final da primeira etapa, o time de Zidane finalizou mais uma vez. Seis na direção da meta de Oblak. Contra uma dos colchoneros, para fora. Depois do gol sofrido o Atlético nitidamente se desmanchou mentalmente. Depois de três vitórias e um empate na casa do rival. Deu espaços generosos, o que não é comum, e praticamente não atacou. Gameiro cumpriu atuação pluripatética.

Real Madrid no 4-3-1-2 com Isco circulando entre as linhas de quatro do Atlético. Superioridade numérica no meio-campo fez o time de Zidane construir volume de jogo impressionante, principalmente nos primeiros 30 minutos (Tactical Pad).

Disputa mais equilibrada na segunda etapa, com o Real guardando mais o setor direito, que tinha Nacho na vaga de Carvajal, que saiu lesionado no intervalo. A equipe merengue esperava o momento para matar o jogo diante de um Atlético mais agressivo com Fernando Torres e Nico Gaitán na frente.

Isco cansou e Zidane mandou a campo Asensio, voltando para compor no meio, mas atacando em velocidade pela esquerda, para cima do frágil Lucas Hernández, o substituto de Juanfran. O Real recuperou volume e o rival voltou a murchar.

Time colchonero equilibrou um pouco as ações no segundo tempo com Gaitán e Fernando Torres. Mas Zidane foi preciso na entrada de Asensio no lugar de Isco. Acelerando os contragolpes pela esquerda e fechando espaços pelo meio, ajudou o time a se impor no final e matar o jogo – e provavelmente o confronto pela semifinal da Champions – com mais dois gols de Cristiano Ronaldo (Tactical Pad).

Mortal contra o maior finalizador da história. Mais dois de Cristiano Ronaldo. Era possível prever o gol quando o português dominou a bola antes de marcar o segundo. Depois, como o fantástico centroavante que vem se transformando nos últimos anos, foi implacável à frente de Oblak completando centro da direita de Lucas Vázquez, que entrou no lugar de Benzema.

Nada menos que oito gols nas últimas três partidas. Decisivas no principal torneio de clubes do mundo. Contra Bayern de Munique e Atlético de Madrid, potências europeias nas últimas temporadas. Uma máquina de colocar bolas nas redes. Agora 103 na Liga dos Campeões. Fenômeno.

Maior candidato à Bola de Ouro. Messi só tem alguma chance de evitar o empate em cinco premiações para cada se Cristiano não ganhar nenhum título e o Barcelona conseguir a virada no Espanhol, além da Copa do Rei. Aí valeria a grande atuação do gênio argentino no Bernabéu.

Parece improvável. Até porque encaminhando a vaga na final da Champions com os 3 a 0 é possível mirar os últimos quatro jogos no campeonato nacional. Tudo parece luzir para Zidane.

E para Cristiano Ronaldo, que depende tanto do time para brilhar nas conclusões. Ganhou de presente a melhor atuação coletiva do Real Madrid na temporada para fazer ainda mais história.

(Estatísticas: UEFA)

 


Real Madrid recupera rapidamente o foco. E segue o mistério de Diego Alves
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André Rocha

A derrota para o Barcelona em casa foi daquelas sofridas, doídas. Com um a menos, minutos depois de alcançar o empate que encaminharia o título da liga. Levando gol de contragolpe em casa.

Seria até compreensível perder o rumo, até porque não havia muito tempo para reflexões, já que na quarta-feira tinha jogo fora de casa contra o La Coruña. Era a esperança do time catalão para se firmar na liderança, contando também com a superioridade no confronto direto.

Mas aí valeu o trabalho de Zidane mantendo os reservas atuando em bom nível. Descansou os titulares física e mentalmente, enfiou 6 a 2 com atuação sólida. Mostrando a força do elenco e que o treinador tem soluções para seguir competitivo nos dois torneios.

Na sequência, duelo sempre complicado contra o Valencia, que venceu os merengues no Mestalla por 2 a 1 no turno. Precisando de entrega para buscar os três pontos, mas já vislumbrando o primeiro clássico de Madrid diante do Atlético pela semifinal da Liga dos Campeões. Como se comportar?

Fazendo o melhor. Com James Rodríguez na vaga de Gareth Bale. Jogando como protagonista, ocupando o campo de ataque. Com Toni Kroos auxiliando os zagueiros na saída de bola e dando liberdade a Marcelo. Alternando o posicionamento da segunda linha de quatro quando a equipe se defende: Modric sai do centro e abre à direita, Kroos ajudando Casemiro no meio e James invertendo o lado e fechando o setor esquerdo. Liberando Cristiano Ronaldo próximo a Benzema.

Mas com dificuldades para infiltrar nas compactas duas linhas de quatro do Valencia que defendia com todos os jogadores no próprio campo. Sem abdicar do jogo, porém. Eventualmente adiantando a marcação e forçando pelos flancos: à direita com Montoya e Munir; pela esquerda com Nani e o jovem lateral Lato.

Quando a disputa parecia mais equilibrada, Cristiano Ronaldo descomplicou. Centro preciso de Carvajal, que não para de crescer de produção, e movimento perfeito do português para marcar seu vigésimo gol no Espanhol. Bem longe dos 33 de Messi, mas nitidamente focado nas conquistas coletivas, que, no fundo, são o que decidem os prêmios individuais ao final da temporada.

A segunda etapa foi de controle do Real e chances desperdiçadas. Inclusive chute na trave de Benzema. A melhor no pênalti de Parejo sobre Modric. Cristiano Ronaldo na cobrança para resolver a partida. Mas havia um Diego Alves pelo caminho.

Cobrança no canto esquerdo, defesa do goleiro brasileiro. A 25ª vez em 53 cobranças que ele impediu um gol de pênalti. O maior pegador da história da liga espanhola. Um goleiraço. Para um torneio como Copa do Mundo, em que as decisões por pênaltis são mais frequentes, devia ser obrigação ao menos tê-lo no grupo convocado.

Tite prefere Weverton, Ederson, Alisson. Até Muralha. Difícil entender a ausência na seleção brasileira de um arqueiro de altíssimo nível e com experiência internacional. O que falta? Um time de grife, mais visibilidade? Um mistério.

Curiosamente, o jogo não mudou com a penalidade desperdiçada. O Real seguiu com a bola e equilíbrio.  Zidane não usou Isco e deixou a impressão de que a ideia era poupá-lo para a Champions. Mandou a campo Asensio e Morata para ficar mais rápido nos contragolpes.

O Valencia parecia cansado pelo trabalho desgastante sem a bola. Mas achou o empate na cobrança de falta de Parejo. Aos 37 do segundo tempo. Para um time pressionado pelo rival e depois de dominar praticamente toda a partida, seria até natural baixar a guarda, bater um desânimo.

Não para este Real Madrid. Que não dá espetáculos, mas é forte mentalmente e sabe o que quer. Vacilou no clássico pelo excesso de confiança, não por se desmanchar em campo. Voltou ao ataque e aí de novo valeu a presença de jogadores desequilibrantes.

Desta vez foi Marcelo. Corte para dentro com a canhota, chute de direito fora do alcance de Diego Alves. Belo gol do brasileiro, muita vibração. Sangue nos olhos. A prova de que os merengues não perderam o foco na liga. A obsessão por encerrar a sequência de títulos nacionais do Barça segue intacta.

Agora é virar a chave para o torneio continental. Atlético de Madrid no Bernabéu. A pedra no sapato recente. O único adversário que o time de Zidane não conseguiu vencer em casa. Um novo desafio a exigir força mental. Mas como duvidar desse Real Madrid?


E Lionel Messi, enfim, foi Maradona. Tinha que ser no Bernabéu!
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André Rocha

Foto: Juan Carlos Hidalgo (EPA)

A imagem de Messi comemorando o gol da vitória por 3 a 2 sobre o Real Madrid rodou o mundo. No lance final, dentro do Santiago Bernabéu. Mostrando para a gente que reverencia Cristiano Ronaldo que ele estava ali. O camisa dez eterno do Barcelona. O maior de todos. Lionel.

Um gesto que vindo de Neymar, por exemplo, seria interpretado como arrogância. E foi mesmo. Mas desta vez como um desabafo de quem precisava, enfim, se manifestar como o melhor de uma era. E nos noventa minutos o que se viu em Messi foi um total e inédito inconformismo com a derrota.

Revés que viria até com o empate. Com todo o seu simbolismo: praticamente um adeus à disputa do título espanhol e, consequentemente, mais uma Bola de Ouro indo para Cristiano Ronaldo. A quinta. Empatando a disputa, algo que nunca aconteceu desde a afirmação do argentino como um gênio do esporte.

Por isso o que se viu em campo não foi apenas um Messi desequilibrante. Isso ele é desde o primeiro “triplete” da carreira, nos 3 a 3 contra o próprio time merengue em 2007. Passando pelos 6 a 2 em 2009 que foi a “gênese” do Messi “falso nove” que mudaria de patamar o promissor ponteiro canhoto formado nas canteras do clube.

Desta vez era um homem que não admitia sair de Madri derrotado. Ou sem provar que continua sendo o melhor. A entrega foi total, inclusive voltando para ajudar na defesa uma equipe desorganizada, sem Neymar e com Luis Suárez vivendo o momento menos produtivo no clube – já são cinco partidas sem ir às redes. Que precisava dele como nunca.

Casemiro abriu o placar na sempre mortífera jogada aérea do time de Zidane. A resposta veio em um golaço enfileirando dentro da área antes de tirar de Navas. A jogada que termina no petardo no ângulo de Rakitic inicia com Messi tentando de novo romper a defesa e o desarme parando nos pés do croata. O triunfo de virada parecia encaminhado com a expulsão de Sergio Ramos após entrada criminosa. Em Messi, que também levou cotovelada de Marcelo. Sangrou e seguiu correndo, tentando.

Tudo pareceu ruir em nova falha defensiva e o gol de James Rodríguez. Um protagonista improvável para o gol que praticamente garantiria a conquista da liga nacional depois de cinco anos. Não podia ser o colombiano.

O Real se empolgou com as chances seguidas, lembrando o jogo de ida contra o Bayern em Munique, e seguiu no ataque. Só que daquela vez era o time alemão que estava com um homem a menos. E Carlo Ancelotti não tinha Messi.

Contragolpe letal, com vantagem numérica. Iniciado com uma arrancada de Sergi Roberto, que podia ter sido contida com falta por Marcelo. Parou nas redes em um chute típico de Messi.

Inusitada e inesperada foi a comemoração. O gênio argentino, enfim, lembrou Diego Maradona. Na arrogância de quem sempre se achou o melhor. O primeiro a desafiar publicamente o reinado antes inquestionável de Pelé, defendido pelos que jogaram antes e depois do brasileiro.

Astro que disputou quatro Copas do Mundo. Na que venceu saiu do Estádio Azteca acariciando a taça. Mas em 1982 perdeu a cabeça e a esportiva no Estádio Sarriá dando um coice em Batista nos 3 a 1 do time de Telê Santana que mandou para casa a albiceleste campeã quatro anos antes em casa.

Em 1990, chorou com o vice-campeonato reclamando da arbitragem que, de fato, inventou o pênalti cobrado por Brehme que deu o tricampeonato mundial aos alemães. Quatro anos depois, botou a culpa de seu doping em João Havelange por um suposto favorecimento ao Brasil tirando do caminho o craque que eliminara a seleção de Lazaroni na Itália com uma arrancada genial e assistência para Caniggia.

No Argentinos Juniors, Boca, na seleção, no Napoli e até no próprio Barcelona, uma insana sensação de onipotência. A certeza de ser a estrela mais brilhante e a vontade de mostrar isso para o universo. Bem diferente da postura blasé de Messi em tantas ocasiões. Até quando chora ao perder a Copa para a Alemanha no Maracanã ou as duas Copas América para o Chile. Mesmo lutando em campo e às vezes até tentando definir sozinho, como fazia Diego.

Mas sem o brilho no olhar que fez luz no Bernabéu. Pela 14ª vez no estádio, dentre os 23 gols em 34 partidas que faz dele o maior goleador do clássico que atrai os olhos do mundo desde que Cristiano Ronaldo desembarcou na Espanha para desafiar mais de perto e em mais jogos quem o planeta sabe que é o melhor desta era.

Lionel Messi. Aquele que sem fazer muito esforço, às vezes parecendo indiferente, jogando a toalha antes de Neymar nos 6 a 1 sobre o PSG e falhando no duelo com Buffon e a defesa da Juventus, tem 47 gols em 46 jogos na temporada pelo Barça. 31 no Espanhol, abrindo vantagem na disputa da Chuteira de Ouro que pode ser a quarta da carreira. Agora 500 pelo clube. Se Cristiano Ronaldo falhar nas conquistas coletivas com o Real, a chance da sexta Bola de Ouro.

Era isso que estava em jogo no Bernabéu. Por isso Messi saiu de seu universo particularíssimo, foi humano como nunca e mostrou para o estádio do rival e para o mundo as cores do seu clube, o número de sua camisa e o nome ali escrito. Que já é uma lenda, como Maradona. Por caminhos diferentes que se cruzaram em Madri para ficar na eternidade de um gesto. Simbólico e emblemático.

 


Cristiano Ronaldo, o maior artilheiro “minimalista”. Acima de Romário
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André Rocha

Foto: Curto de La Torre (AFP)

“Não entro em campo para jogar bonito ou bem, entro para fazer gols”. A frase é de Romário, em 2002 quando atuava pelo Fluminense. Nove anos antes, foi chamado de “gênio da grande área” por Johan Cruyff.

Genial e genioso, não teve paciência e foco para ser atleta. Só queria jogar. Quando botou na cabeça que seria o melhor do mundo voou no Barcelona e na seleção brasileira campeã mundial de 1994.

Depois seguiu jogando por prazer, administrando a vida noturna e em campo buscando fazer o essencial. Os treinos físicos e os trabalhos coletivos o irritavam. Ele queria exercitar situações de jogo e, especialmente, se preparar para estar bem colocado na área para o último toque. Às vezes com uma dose de sadismo: o chute saía fraco, mas o suficiente para sair do alcance do goleiro em desespero.

Romário não quis se medir entre os maiores por muito tempo. Voltou ao Brasil como melhor do mundo em 1995, depois ainda se aventurou no Valencia, mas a passagem foi breve. Preferiu retornar à terra na qual tinha o trono garantido. Empilhou gols – mais de mil, segundo suas contas – até o fim da carreira. Cada vez tocando menos na bola, mas sempre letal.

Corte para 2017. Na Europa, no mais alto nível. Em mentalidade, a antítese de Romário. Apesar da semelhança na “marra”. O foco absoluto na carreira, na preparação física. No trabalho. Mas com o mesmo objetivo: estar pronto para o golpe final e decisivo.

Cristiano Ronaldo vinha de um período inconstante na temporada. Antes do confronto com o Bayern de Munique pelas quartas-de-final da Liga dos Campeões, apenas um par de gols do maior artilheiro da história da competição em oito partidas. Na liga espanhola, números melhores: 19 gols em 24 jogos. Pouco, porém, para quem se acostumou a manter uma média igual ou superior a um gol por partida.

Pois o “Penaldo”, apelido maldoso pelos gols de pênalti, acusado por seus “haters” de só marcar contra times pequenos e nos jogos menos importantes, foi às redes nada menos que cinco vezes nos dois confrontos com um gigante do Velho Continente. Sem penalidade máxima.

Sim, estava impedido nos dois decisivos, marcados na prorrogação do Santiago Bernabéu. A arbitragem novamente pesou mando de campo, camisa, marca e mídia no principal torneio de clubes do planeta. Uma lástima.

Mas saltou aos olhos mais uma vez a economia eficiente do goleador português que bateu a marca dos 100 gols na Champions. Nos 180 minutos, ele basicamente só se fez notar nos gols. Ainda que seu instinto de ponta o faça buscar a bola nos flancos e arrancar, as jogadas normalmente não têm sequência. Ou a bola é entregue a um companheiro para que o camisa sete parta para a área adversária.

Cristiano Ronaldo sabe que para superar Messi nas premiações individuais precisa dos títulos no Real Madrid e na seleção, mais os gols. Números. Porque não é possível igualar nas jogadas geniais. Por isso a concentração para não desperdiçar oportunidades.

De cabeça, pé direito ou esquerdo, com bola rolando ou não. O ponta que é o melhor centroavante do mundo. Com a experiência de seus 32 anos, 14 atuando na elite do futebol mundial, vai ficando mais objetivo nos gestos técnicos. Enquanto Messi precisa abrir espaços diante de fortes bloqueios defensivos, o português espera. A falha do rival ou a chance cristalina. Sempre bem posicionado.

É bem provável que Cristiano Ronaldo não ganhe uma Copa do Mundo ou chegue perto da milésima bola na rede, mesmo contando jogos não oficiais como Romário. Mas como artilheiro “minimalista”, o homem do toque final, o maior goleador da história do Real Madrid já supera o brasileiro.

Porque quer sempre e não de vez em quando. Entre os melhores, no cenário menos confortável. Fazendo cinco no Bayern, não no Barreira, hoje Boavista, de Bacaxá. Para o mundo ver, não no quintal de casa.


A força mental e a confiança de que tudo vai dar certo do Real Madrid
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André Rocha

Se desta vez o sorteio da Liga dos Campeões não foi “generoso” colocando o Bayern de Munique de Carlo Ancelotti no caminho, o contexto acabou dando dois presentes para o Real Madrid no jogo de ida das quartas-de-final em Munique. Primeiro a ausência de Lewandowski, artilheiro da Bundesliga com 26 gols. Uma lesão no ombro tirou o centroavante e referência da equipe de Carlo Ancelotti.

Ainda assim, o time bávaro fez bom primeiro tempo. Com Arturo Vidal recuando próximo aos zagueiros para qualificar a saída de bola e acionando o lado direito como o setor forte. Porque os merengues se defendiam em duas linhas de quatro, com Bale voltando à direita e Toni Kroos abrindo pela esquerda. Mas o alemão era lento no movimento e deixava Marcelo sozinho contra Lahm e Robben.

Mesmo com Thomas Muller desconfortável no centro do ataque e uma atuação bem abaixo da média na temporada de Thiago Alcântara, havia volume e presença ofensiva. Vidal apareceu bem ao se antecipar a Nacho, substituto do lesionado Pepe na zaga, e acertar um “tiro” de cabeça que Keylor Navas não impediu.

Mas houve o pecado capital em disputa tão parelha. O segundo “presente” que o Real recebeu: um pênalti inexistente contra, já que não houve toque no braço de Carvajal depois do chute de Ribéry. Vidal isolou. E o Bayern murchou já no final do primeiro tempo. O paradoxo do futebol: se o árbitro Nicola Rizzoli não tivesse errado talvez o time alemão não sentisse tanto a chance desperdiçada de fazer 2 a 0 e abrir vantagem confortável.

Voltou na segunda etapa desorientado. É possível que a falta de adversários à altura na Bundesliga atrapalhe nesses momentos de dificuldade. O  Real, porém, também voltou mais aceso, congestionando o setor esquerdo com Casemiro e Sergio Ramos atentos na cobertura.

Acima de tudo, a equipe de Zidane é muito forte mentalmente. Atual campeã do torneio, líder da liga espanhola. Não é um primor coletivamente, mas todos sabem o que precisam fazer: os laterais defendem e apoiam abertos para espaçar a marcação, os meio-campistas trabalham a bola, o trio de ataque acelera e se procura para tabelas. Futebol simples e eficiente, respaldado no talento.

Como é Cristiano Ronaldo, que apareceu e fez a diferença já aos dois minutos completando passe de Carvajal. Especialmente depois da expulsão de Javi Martínez, por duas faltas seguidas punidas com cartões, o que era uma oscilação emocional virou desmanche e o Real passeou.

Recuperou a posse de bola (terminou com 51%) e finalizou nada menos que 16 vezes em pouco mais de 45 minutos, contra duas do time da casa. O centésimo gol de Ronaldo na Champions podia ter vindo na conclusão que Neuer tirou com o braço lembrando uma manchete de vôlei.

Mas o português não perde a concentração e, segundos depois, finalizou de novo e a bola passou entre as pernas de Neuer. Cem gols em competições europeias de clubes – 98 na Champions e dois pela Supercopa. Fenômeno, mesmo sem um desempenho tão notável nesta edição quanto nas últimas.

Ainda houve um gol bem anulado de Sergio Ramos. Mas a virada em Munique parece ter definido o confronto. Porque o Real Madrid de Zidane tem qualidade e entrosamento, mas também a confiança de que tudo vai dar certo. É quase impossível que dê tudo tão errado no Santiago Bernabéu.

(Estatísticas: UEFA)