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As entrelinhas do acerto do Vasco com Milton Mendes
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André Rocha

No sábado à tarde, Eurico Miranda atendeu a ligação deste blogueiro sem disfarçar a irritação ao responder sobre o interesse do clube na contratação do técnico Milton Mendes.

“Não confirmo nada”, foi a resposta seca. O feeling de quem conhece há décadas o modus operandi do presidente vascaíno era de que o vazamento contrariou o dirigente e o anúncio era questão de tempo.

Com a confirmação de forma oficial no dia seguinte, depois do empate sem gols com o Botafogo no Engenhão, a escolha do novo técnico deixa algumas mensagens nas entrelinhas.

A primeira é que Vanderlei Luxemburgo, nome que surgiu com força e parecia o preferido da torcida pelo que se ouvia nas ruas e notava nas redes sociais e enquetes em portais, não desperta mais tanta confiança.

Primeiro porque nas entrevistas e participações em programas de TV suas declarações de que o futebol continua o mesmo, sem novidades ou evolução no jogo em si, impressionam qualquer um que acompanhe minimamente o que se faz no mundo todo, especialmente nos grandes centros.

Em segundo lugar, e principalmente, há sempre a dúvida: será que o treinador consagrado de outrora vai aceitar trabalhar apenas no campo ou vai dar pitaco em questões administrativas, na estrutura e tomar a frente em negociações de jogadores?

Para um centralizador como Eurico, este pode ter sido o fator decisivo para descartar Luxemburgo. Mais do que o conflito CLT x multa contratual na parte burocrática ou declarações polêmicas do técnico contra a FERJ quando trabalhou no Flamengo.

A escolha de Milton Mendes, que iniciou a carreira de jogador no Vasco, certamente passa pela identificação com o clube, tão valorizada por Eurico, mas também por uma característica do novo comandante: costuma dar respostas rápidas em seus trabalhos. Assim foi no Atlético Paranaense e especialmente no Santa Cruz.

Assumiu em março de 2016, emendou nove vitórias e sete empates, conquistou Copa do Nordeste e Pernambucano, chegou a liderar o Brasileiro nas primeiras rodadas. Ganhou respeito por seu discurso otimista, a elegância no trato com a imprensa e os métodos modernos.

Exige setores compactos e organização, independentemente da escalação com jogadores mais ofensivos ou marcadores. No Vasco deve partir de duas linhas de quatro dando liberdade a Nenê e Luis Fabiano, a estrelas do elenco. Como fez no Santinha com Grafite.

Depois a queda foi vertiginosa, deixando o time pernambucano na zona de rebaixamento, da qual não saiu mais. Preocupante em um trabalho a longo prazo. Mas Eurico quer uma recuperação a ponto de ainda conquistar o Carioca.

Tricampeonato estadual que seria a marca da sua volta ao clube. Ainda que manchada por um rebaixamento. E hoje, olhando o cenário nacional, as pretensões cruzmaltinas para o segundo semestre seriam apenas de se manter na Série A.

É o maior desafio da carreira de Milton, sem dúvida. Por isso não deixa de ser uma enorme incógnita. Até porque a torcida, impaciente com Cristóvão Borges, esperava um técnico tarimbado e com currículo respeitável para lidar com um elenco experiente. Mas pode dar certo.

O que deixa um rastro de dúvida é a influência de Carlos Leite nas decisões do clube. Negociou Luxemburgo e fechou com Milton, ambos agenciados pelo empresário. A contratação de Cristóvão Borges também teve sua indicação.

Por mais que não haja provas e sempre se parta da presunção da inocência, fica no ar a pergunta: será que os jogadores de Carlos também não terão preferência na montagem do elenco e até na escalação do time titular?

Questões que começam a ser respondidas na prática por Milton Mendes a partir da sua apresentação oficial marcada para hoje, segunda-feira, em São Januário. Eliminado da Copa do Brasil e precisando de pontos na Taça Rio para disputar a fase final do Carioca, o Vasco precisa reagir rápido. Para isso contratou o técnico certo, ao menos na teoria.

Mas como será o amanhã?

 


Técnico que não defende é indefensável
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André Rocha

Crédito da foto: André Fabiano (Estadão)

O adversário do Vasco no Engenhão era o Macaé, que no primeiro turno não somou nenhum ponto e foi às redes apenas três vezes em cinco partidas. A bola ronda a área cruzmaltina até o centro da esquerda e o atacante Hudson, livre na pequena área, chegar atrasado.

Um lance corriqueiro em qualquer partida, independentemente do nível das equipes. A menos que o time de menor investimento recupere a bola sem que o oponente, em tese, mais poderoso consiga tocá-la, retrabalhe a jogada, volte ao lado esquerdo, saia o cruzamento e a conclusão sem marcação. Do mesmo Hudson.

O gol de empate do Macaé nos 2 a 2 com o Vasco é o exemplo mais cristalino das fragilidades defensivas das equipes comandadas por Cristóvão Borges. É também o mais alto grito de alerta para que isso seja corrigido. Mesmo que seja preciso recorrer ao método mais arcaico da marcação individual.

Antes o problema era de execução. Cristóvão quer sua defesa avançada, acompanhando o meio e o ataque numa marcação a partir do ataque. Depois de um período sem comandar equipes após a estreia na função pelo Vasco, o treinador chegou ao Bahia falando em novos métodos, novas ideias.

Mas tanto no tricolor baiano quanto em seus outros trabalhos – Fluminense, Flamengo, Atlético-PR, Corinthians e agora no retorno ao Vasco – a dificuldade maior era fazer seus jogadores entenderem a necessidade de pressão constante sobre o adversário com a bola para “quebrar” o passe e não surpreender a última linha de bloqueio.

Virou um problema crônico que mina seus trabalhos e a carreira estaciona sem conquistas ou uma campanha sólida, com exceção de 2011 com o Vasco. Acumula vexames e goleadas, a pior para o América de Natal em 2014 por 5 a 2 no Maracanã, decretando a eliminação da Copa do Brasil ainda na terceira fase.

Na estreia da Taça Rio no Engenhão, a impressão era de que os jogadores do Vasco não sabiam se deviam sair para o bote ou guardar o posicionamento. Na dúvida ficaram passivamente assistindo à troca de passes de uma equipe bem mais limitada.

O segundo gol, de Rafinha, parecia contragolpe de final dos antigos coletivos de 90 minutos, com jogadores já cansados e se poupando. Marquinho arrancou com toda liberdade até servir o companheiro à frente de Martín Silva.

O Macaé concluiu, no total, 13 vezes no jogo. Seis no alvo. Teve pelo menos mais três oportunidades claras. Com apenas 46% de posse. A menos que haja um sério problema na gestão de grupo e os atletas estejam dispersos ou inconformados, não se justifica um trabalho defensivo tão frouxo.

Triste para o Vasco, logo na estreia tão aguardada de Luis Fabiano. A equipe saiu na frente com belo gol de Nenê e depois foi atrás do empate muito mais na fibra que na organização e conseguiu com Rodrigo, no rebote da finalização do novo camisa nove.

Muito pouco. E não há prazer nenhum na crítica a Cristóvão, que é uma figura sempre educada, solícita e atenciosa. Mas é preciso definir um caminho.

As melhores equipes do mundo sabem alternar a marcação adiantada e no próprio campo de acordo com a necessidade e a qualidade do rival. É possível também se defender ficando com a bola ou até desprezando a posse, mas compactando muito bem os setores e jogando em transições ofensivas rápidas.

Como dito antes, se está difícil transmitir orientações complexas, por que não partir para o mais simples e básico? “Cada um pega o seu” e vejamos o que acontece. Depois tentar gradativamente inserir conceitos mais atuais. Só não pode seguir como está.

Por mais que a nossa cultura futebolística mais tradicional seja ofensiva, de jogo bonito, o futebol brasileiro sempre se valeu de consistência no trabalho sem a bola para se impor. Não por acaso aderimos à linha de quatro atrás em 1958 e na Copa de 1970 o escrete canarinho tenha inaugurado, na prática, os conceitos de execução do 4-5-1, deixando apenas Tostão no ataque da lendária equipe de Zagallo.

A história também mostra que é possível aprender e se reinventar. Telê Santana, acusado de expor demais a fantástica seleção de 1982, na Copa do Mundo seguinte, no México, apareceu com os volantes Elzo e Alemão. À frente da retaguarda que ganhou mais consistência com os laterais Josimar e Branco, mais precavidos no apoio que os talentosos Leandro e Junior quatro anos antes na Espanha.

No São Paulo bicampeão da Libertadores e intercontinental em 1992/93, comandou equipes que encantavam na frente, porém sempre tinham um Pintado ou Dinho para “limpar os trilhos” e liberar laterais e até um dos zagueiros. Mas apoiando de forma alternada.

No mesmo tricolor paulista, Rogério Ceni vai penando em seu primeiro trabalho com a defesa mais vazada do Campeonato Paulista, junto com a do Linense – inacreditáveis 17 gols sofridos em oito partidas. Mas parece ser muito mais uma questão de ajuste na marcação agressiva que o treinador novato prefere e também minimizar os erros individuais, inclusive dos goleiros Sidão e Denis. Por estar no início de sua trajetória no comando técnico, Ceni ganha o benefício da dúvida.

Com Cristóvão não é mais possível. Passou do tempo de corrigir a rota. Porque técnico que não defende é indefensável.

(Estatísticas: Footstats)

 


Flu tem quarteto promissor; Vasco de Cristóvão precisa partir do básico
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André Rocha

Fluminense foi envolvente com o quarteto Scarpa, Sornoza, Douglas e Wellington entre Orejuela e Henrique Dourado e aproveitou os muitos espaços deixados por um Vasco envelhecido e sem intensidade para executar o plano de jogo de Cristóvão Borges (Tactical Pad).

Fluminense foi envolvente com o quarteto Scarpa, Sornoza, Douglas e Wellington entre Orejuela e Henrique Dourado e aproveitou os muitos espaços deixados por um Vasco envelhecido e sem intensidade para executar o plano de jogo de Cristóvão Borges (Tactical Pad).

Desde que foi anunciado, Abel Braga fala de caráter em toda entrevista. Algo que deveria ser básico em qualquer profissão. Ainda assim, sem qualidade adianta bem pouco. A boa notícia para os tricolores é que entre o volante equatoriano Orejuela e o centroavante Henrique Dourado o novo Fluminense tem um quarteto com um potencial imenso: Gustavo Scarpa, Sornoza, Douglas e Wellington.

No Engenhão diante de um Vasco ainda envelhecido e deixando espaços demais com a combinação marcação frouxa mais defesa adiantada que Cristóvão Borges não consegue corrigir em suas equipes, isso ficou ainda mais nítido.

Especialmente pela direita, com Scarpa trabalhando pela canhota e fazendo triangulações com Sornoza, meia equatoriano que já muda de patamar o meio do Flu, e Lucas contra o solitário Henrique. Assim saiu a jogada do gol de Henrique Dourado, o segundo da equipe ainda na primeira etapa.

O primeiro foi de Wellington, que pela esquerda buscava os dribles para dentro procurando a diagonal e, mesmo errando em algumas decisões entre passar, chutar ou tentar a vitória pessoal, estava no lugar certo para completar no rebote de jogada entre Dourado e Douglas.

A missão de Abel Braga é ajustar a compactação dos setores, tanto na pressão no campo de ataque quanto na recomposição. Em vários momentos houve um buraco entre os quatro defensores e Orejuela e o quinteto ofensivo.

Espaços que o Vasco aproveitou melhor na segunda etapa com Guilherme e Ederson pelos flancos nas vagas dos improdutivos Escudero e Éder Luís. Um pouco mais de intensidade e também o relaxamento natural do Flu dosando energias em um início de temporada que já teve vitória por 3 a 2 sobre o Criciúma pela Primeira Liga na terça-feira.

Ficaria mais complicado para os tricolores se o time cruzmaltino tivesse sido mais eficiente nas finalizações e não deixasse sua retaguarda escancarada para os contragolpes. Quando Abel trocou Sornoza por Luiz Fernando, que foi fazer dupla com Orejuela na proteção, e Wellington por Marcos Junior, o Flu recuperou consistência.

Fez o terceiro na jogada de Scarpa para Marcos Júnior contra apenas um defensor que o atacante substituto colocou por cima de Martín Silva. Podia ter marcado o fim da invencibilidade de 23 partidas do Vasco no Carioca com uma goleada histórica. Mas o desempenho no início já é animador e ainda tem Richarlison para voltar da seleção sub-20.

Quanto ao time de Cristóvão, é preciso partir do básico. Aguardar o retorno de Douglas, também na sub-20, fechar com Luis Fabiano, como prometido pelo presidente Eurico Miranda, e pensar em um modelo de jogo viável para um elenco repleto de veteranos.

Diante de um adversário veloz e com talento na frente, o Vasco foi presa fácil. É cedo, mas preocupa.

(Estatísticas: Footstats)


As primeiras impressões de Corinthians e Vasco em 2017
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André Rocha

Para o time paulista valeu mais a observação do primeiro tempo, com a formação titular utilizando as peças disponíveis no Torneio da Flórida. E o que se viu foi a equipe de Fabio Carille com os movimentos do 4-1-4-1 inspirado em Tite mais assimilados, fluindo naturalmente.

Talvez pela preocupação de se manter organizado e os jogadores agrupados por ser um início de trabalho para evitar maior desgaste ficou a impressão de um time um tanto engessado, sem a mobilidade necessária, especialmente de Jô na frente.

Quando os ponteiros Romero e Marlone se procuraram no centro saiu o segundo gol numa tabela. O mesmo na primeira bola que foi às redes no jogo, quando os meias pelo centro à frente do volante Gabriel trocaram passes e no toque de calcanhar de Rodriguinho, Camacho saiu na cara de Martín Silva.

Porque o Vasco na segunda aparição sob o comando de Cristóvão Borges já demonstrou, na prática, os problemas defensivos da proposta de jogo do treinador: linhas próximas, defesa adiantada, mas sem pressão e diminuição de espaços diante do homem da bola. Muita liberdade nos gols corintianos. Já havia acontecido nos 2 a 1 sobre o Barcelona de Guaiaquil.

Um contraponto ao desempenho interessante na frente, com mais mobilidade e rapidez: Evander, Guilherme e Eder Luís se juntando a Nenê na articulação procurando Thalles. Bem superior à experiência com Escudero e Muriqui totalmente fora de sintonia na estreia.

Mas o gol saiu em ação individual, um chute espetacular com efeito de Eder Luis acertando o ângulo de Cássio. Para dar moral ao atacante veterano que terá em Wagner mais um concorrente no quarteto ou quinteto ofensivo que Cristóvão pretende armar.

Segunda etapa com as muitas substituições que quase sempre descaracterizam a disputa, mas valem paraa observação dos treinadores.  Do quarteto Giovanni Augusto, Guilherme, Marquinhos Gabriel e Kazim por Carille. Os dois últimos protagonistas dos dois gols, um servindo ao outro, que consolidaram a goleada por 4 a 1.

Cristóvão viu um melhor entendimento entre Escudero, Ederson, Pikachu e Andrezinho. O técnico mexeu bastante, mas sem a opção de trocar todo time na volta do intervalo, como fez a equipe paulista. Mas, de novo, quando atacado de forma mais aguda mostrou as mesmas dificuldades defensivas. Algo para o comandante refletir e, principalmente, corrigir.

Clima de amistoso, Corinthians na final. Mas valeu mesmo para notar os rascunhos e as primeiras impressões sobre os times na temporada. A conclusão óbvia: há muito trabalho pela frente.


Corinthians paga por problema crônico nos times de Cristóvão Borges
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André Rocha

O blogueiro se obriga a ser repetitivo sobre o Corinthians de Cristóvão Borges. Ou melhor, praticamente todas as equipes do treinador, exceto o Vasco. Porque no período sabático de estudos o técnico sedimentou uma ideia de jogo.

Só não consegue evoluir por um problema crônico e grave, já ressaltado neste espaço: optar por jogar com linhas adiantadas, mas sem pressionar o adversário que está com a bola (leia mais AQUI).

Na derrota por 2 a 0 para a Ponte Preta em Campinas, novamente o Corinthians pagou. Logo aos 18 minutos. Lançamento de Thiago Galhardo, com Cristian marcando à distância, para Roger às costas da defesa, Balbuena tenta evitar a conclusão, faz falta e é expulso. É possível questionar o rigor do árbitro Luiz Flávio de Oliveira, mas não a falha defensiva. Ali acabou a disputa.

Flagrante do início da jogada que terminou na expulsão de Balbuena que praticamente encaminhou a vitória da Ponte: Thiago Galhardo não é pressionado por Cristian e tem espaço e tempo para acionar Roger às costas de Yago. O zagueiro paraguaio já chega vendido e faz falta, punida com o cartão vermelho (reprodução Premiere).

Flagrante do início da jogada que terminou na expulsão de Balbuena que praticamente encaminhou a vitória da Ponte: Thiago Galhardo não é pressionado por Cristian e tem espaço e tempo para acionar Roger às costas de Yago. O zagueiro paraguaio, que não aprece na imagem, já chega vendido e faz falta, punida com o cartão vermelho (reprodução Premiere).

Os gols de Roger e Clayson, um em cada tempo, foram meras formalidades. A Ponte de Eduardo Baptista – bem treinada, com setores coordenadas e rápida na saída para o ataque – confirma o momento de alta: quatro jogos seguidos, seis em casa sem derrota. Incluindo o empate com o Atlético Mineiro pela Copa do Brasil.

Absoluta no Moisés Lucarelli, com 58% de posse, 14 finalizações contra duas. O mesmo número de desarmes certos, o dobro dos visitantes. Triunfo construído com naturalidade.

Porque faltou pressão na bola do rival. Como atenuante, mas não desculpa, para Cristóvão, a constatação de que há toda uma cultura futebolística no Brasil que prejudica essa prática, que requer humildade e senso coletivo.

Desde a base, o jogador é ensinado a não sair para o bote. Recomendação útil para os defensores na última linha, mas que se espalhou por todo o campo com as perseguições individuais. Afinal, um drible acarreta o efeito dominó que vai estourar no zagueiro da sobra. Sem contar a humilhação de quem é driblado.

Por isso o hábito de cercar ou recuar e não aceitar ser driblado para um colega recuperar a bola na cobertura. É esta a essência da compactação: um movimento coletivo. Como um time. Difícil de conscientizar no país das individualidades. Ainda.

O Corinthians sofre e deve sair do G-4. Momento para Cristóvão refletir se vale a pena continuar tentando ser contracultura na roda viva do futebol brasileiro ou optar pelo simples e resgatar princípios de jogo de Tite, apostando num posicionamento defensivo mais cuidadoso.

Já sabemos o que significa persistir no erro.

(Estatísticas: Footstats)


Rápido e prático, Grêmio passa por cima do Corinthians sem identidade
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André Rocha

Roger Machado se vira como pode no Grêmio sem Walace e Luan que ofereceram soluções para a seleção olímpica. Já a negociação de Giuliano criou um problema coletivo, pois tirou movimentação e versatilidade do 4-2-3-1 consolidado pelo treinador há mais de um ano.

A resposta nos 3 a 0 em casa sobre o Corinthians foi uma combinação de rapidez e objetividade. Com Maicon qualificando o passe, Douglas articulando para acionar a velocidade do trio Pedro Rocha, Bolaños e Everton. Autores dos gols e deitando e rolando para cima da defesa adiantada do adversário.

Um Corinthians que perdeu identidade. Porque o trabalho de Cristóvão Borges no time paulista é mais um que fica no meio do caminho. É ofensivo, mas não consegue controlar o jogo e manter o adversário longe da própria área com posse de bola. Nem ser letal transformando boa parte das oportunidades em gols.

Defensivamente, perdeu o ótimo posicionamento da última linha, com coberturas precisas porque os jogadores ficavam mais próximos. A pressão obsessiva logo após a perda da bola seria o remédio. Mas o calor e a cultura do jogador brasileiro são impecilhos.

Linhas adiantadas e expostas ao oponente com tempo para o passador definir a melhor jogada é suicídio. E o Corinthians vem morrendo, principalmente fora de casa. Porque falta consistência. Em todos os setores.

Balbuena e Yago não são velozes, nem se garantem no confronto direto com os atacantes. Na frente, a produção do quarteto ofensivo Marquinhos Gabriel-Giovanni Augusto-Romero-André até proporciona chances. Fizeram de Geromel e Marcelo Grohe dois dos melhores em campo. Mas não ferem o rival.

Em Porto Alegre foram 59% de posse e 22 finalizações contra 12. O Grêmio acertou 27 desarmes, dez a mais que o Corinthians. Nove finalizações na direção da meta de Cássio. Três nas redes, volta ao G-4. Com um jogo a menos.

Compensando dois empates com América e Santa Cruz. Porque esse time disponível para Roger, por ser tão prático e vertical, sofre para criar espaços. O Corinthians sem cara de Cristóvão os ofereceu de bandeja.

(Estatísticas: Footstats)


Corinthians e Cristóvão Borges: nada será como antes
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André Rocha

A opção mais óbvia era Mano Menezes. Disponível no mercado e junto com Tite alternando no comando do Corinthians desde 2008, com o hiato dos dois meses de Adilson Batista em 2010. Mas houve desgaste na saída em 2014 e foi o primeiro nome rechaçado com a ida de Tite para a seleção brasileira.

Para evitar constrangimento parecido com o do Cruzeiro, descartado publicamente por Jorginho e Ricardo Gomes, o clube fez sondagens. O velho recurso de conseguir um interlocutor que consulte informalmente antes da proposta oficial. Assim foi com Eduardo Baptista, Roger Machado e Fernando Diniz, que preferiram seguir com seus projetos profissionais. Sylvinho, amigo do presidente Roberto de Andrade, decidiu continuar aprendendo na Internazionale e nos cursos da UEFA.

Segundo o mandatário do clube, o segundo procurado foi Cristóvão Borges. Demitido do Atlético Paranaense em março, chega ao Corinthians que o acolheu como jogador entre 1986 e 1987. Revelado pelo Bahia, atuou por mais tempo em Fluminense, Grêmio e Portuguesa. Não dá para chamar de identificação, apesar de um gol decisivo sobre o rival Palmeiras na semifinal do Paulista de 1986.

Como técnico, a rigor, os trabalhos de Cristóvão desde a sucessão forçada de Ricardo Gomes no Vasco em 2011 não o credenciam a substituir o melhor técnico do país no atual campeão brasileiro. É uma aposta.

No clube cruzmaltino, a melhor combinação entre desempenho e resultados. Inclusive na Libertadores de 2012, com eliminação para o próprio Corinthians de Tite nos detalhes: lendária defesa de Cássio na finalização de Diego Souza e gol salvador de Paulinho. Depois Bahia, Fluminense, Flamengo e Atlético-PR.

Em todos foi possível perceber o trabalho com conceitos atuais, como compactação, posse de bola, movimentação e intensidade. Chamou atenção também porque, exceto no Vasco e com Milton Mendes no clube paranaense, recebeu terra arrasada em termos táticos de seus antecessores – Joel Santana no Bahia, Renato Gaúcho no Fluminense e Vanderlei Luxemburgo no Flamengo. A resposta imediata foi positiva.

No entanto, o desempenho foi se desgastando com o tempo. Fora de campo, na visão de pessoas que cobriam o dia-a-dia dos clubes, em alguns momentos faltou pulso na gestão dos grupos. Mesmo sendo querido pelos atletas. No Flu, por exemplo, saiu criticado por ser muito permissivo com a liderança de Fred.

Na execução do plano de jogo faltou maturidade para adaptar os conceitos à realidade brasileira. Longas viagens, altas temperaturas e o pouco tempo para treinar não eram dosados com uma proposta mais flexível, alternando marcação pressão com linhas adiantadas e sistema defensivo mais postado jogando de forma reativa quando necessário. Os times cansavam.

Por isso a fragilidade defensiva que virou seu ponto fraco. Com a retaguarda em linha e avançada é obrigatório diminuir o espaço e o tempo de raciocínio do adversário com a bola. Não conseguiu e viu suas equipes sofrerem goleadas que minaram a confiança.

A boa notícia é que essa dinâmica já foi automatizada por Tite. Em vez de construir do zero, a missão será apenas dar sequência a um trabalho estruturado, como deixou claro o interino Fabio Carille na coletiva depois da vitória por 3 a 1 sobre o Botafogo que entrega o time no G-4 ao novo comandante.

Taticamente não deve fugir do 4-2-3-1 dos últimos jogos com Guilherme na articulação central. A missão é melhorar a dinâmica ofensiva no último terço do campo. Sem um típico centroavante, os muitos cruzamentos das últimas partidas não parecem a melhor solução. É possível trabalhar mais as triangulações, tabelas e infiltrações em diagonal.

Cristóvão não é Tite. Técnico e clube sabem bem disso. Nada será como antes. O futuro é uma grande incógnita. Mas com respaldo da direção, evolução e maturidade do treinador em um cenário mais favorável. é possível seguir competitivo em 2016.


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