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Flamengo de Rueda repete velhos erros. Cruzeiro ganha gol e favoritismo
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André Rocha

Se as dúvidas ou mudanças não confirmadas por Reinaldo Rueda estavam na meta e no ataque – Thiago e Lucas Paquetá iniciaram o jogo – a maior surpresa na escalação do Flamengo foi a entrada de Márcio Araújo no lugar de Cuéllar, melhor nos 180 minutos da semifinal contra o Botafogo e em boas condições físicas. Opção.

O resultado foi uma equipe com mais dificuldade no início da construção das jogadas, com Arão e Diego recuando muito para ajudar. Melhorou quando Paquetá passou a recuar e abrir espaços para as infiltrações de Berrío e Willian Arão. Mas de novo a equipe se mostrou “arame liso”, sem contundência no ataque. Faltou a chance cristalina.

Já o Cruzeiro sofreu com Rafael Sóbis na frente, tirando velocidade dos contragolpes – a entrada de Raniel na segunda etapa criou mais problemas para a retaguarda do oponente. Os erros de Robinho saindo da direita não ajudavam Thiago Neves na articulação. Diogo Barbosa era o destaque, negando espaços a Berrío e centrando para Alisson, no início do segundo tempo, para a primeira oportunidade clara do jogo. Grande defesa de Thiago.

Personagem da partida pela falha ao dar rebote no chute de Hudson para De Arrascaeta, substituto de Thiago Neves, empatar. Muralha faria o mesmo? Nunca saberemos, assim como a ótima intervenção na primeira etapa. Fica a impressão de que Thiago podia ter atuado na partida contra o Paraná pela Primeira Liga para ganhar mais ritmo de competição. Virou vilão.

O jovem goleiro negou o protagonismo a Paquetá, meia que foi às redes num “abafa” como típico centroavante – e impedido pelo toque de Arão desviando o chute. Depois de muita pressão após a mudança de Rueda, trocando Rodinei por Vinicius Júnior, recuando Everton para a lateral e invertendo o lado de Pará no mesmo 4-2-3-1. Depois Cuéllar, enfim, entrando no meio-campo para aumentar o volume de jogo.

Tudo em vão. Porque mais um erro individual inviabiliza o triunfo rubro-negro em jogo decisivo. Que custa caro por não transformar 59% de posse e 14 finalizações, a metade no alvo, em mais gols. Velhos problemas que transferem moral e favoritismo ao Cruzeiro para a volta no Mineirão, no dia 27. Mas no futebol brasileiro em que visitantes, normalmente com menos posse, se impõem, as chances do Flamengo não podem ser descartadas.

(Estatísticas: Footstats)

 

 


Muralha e Sóbis: vale apostar na experiência numa final, mesmo em má fase?
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André Rocha

Alex Muralha tem 27 anos, títulos estaduais por Figueirense e Flamengo e passagem pela seleção brasileira no ano passado, mas sem atuar. Nenhuma decisão nacional na carreira. Thiago tem 21 anos, também é campeão carioca. Mas na reserva de Muralha. Foi campeão e melhor goleiro da Copa SP do ano passado. Serviu à seleção no Sub-15 e Sub-17, mas também sem jogar.

Rafael Sóbis tem 32 anos, duas Libertadores pelo Internacional e um Brasileiro pelo Fluminense no currículo, além de convocações e gols pela seleção, principal e olímpica. De Arrascaeta tem 23 anos, Raniel dois a menos.

Reinaldo Rueda e Mano Menezes carregam algumas dúvidas para a ida da final da Copa do Brasil no Maracanã. Ou ao menos não revelam as escalações de Flamengo e Cruzeiro. O treinador colombiano também não divulgou quem ocupa o comando de ataque – Lucas Paquetá ou Orlando Berrío, com Vinicius Junior entrando na ponta.

Mas na meta rubro-negra e no ataque celeste a indecisão foi motivada por um raciocínio muito comum no meio do futebol, em qualquer canto: a vivência e a bagagem de experiências de um atleta contam como fatores positivos para a disputa de uma grande final.

Algo que se confirmou tantas vezes, mas não todas, que vira uma “verdade”, um fato inquestionável na escolha de um jogador, pesando mais que a condição técnica ou as valências do atleta. Afinal, a decisão tem um componente emocional, no mínimo, diferente. A atmosfera pode fazer o jogador se agigantar ou intimidar. Mas será que precisa decidir assim sempre? Muralha foi afastado por deficiência técnica pelo treinador Zé Ricardo, o jovem Thiago assumiu a posição às pressas, tão rápida como a contratação de Diego Alves.

Exatamente pela constatação de que disputar no mais alto nível os principais títulos seria complicado sem um arqueiro confiável. Agora, por conta de uma provocação (infeliz) do jornal Extra, Muralha volta ao centro das atenções e passa a concorrer a uma vaga na meta. Mais pela visibilidade e uma fé de que ele será capaz de se superar para calar os críticos do que por uma evolução técnica – até porque na última partida falhou no gol do Paraná  nas quartas da Primeira Liga e mostrou a ineficiência costumeira na disputa por pênaltis.

Já Thiago errou bem menos quando exigido e não foi vazado no clássico contra o Botafogo na semifinal no Maracanã. Portanto, a dúvida só pode existir por conta da diferença de idade entre os goleiros. Bem questionável.

O mesmo vale para Rafael Sóbis na equipe mineira. Atuando como referência, se sacrifica pela equipe abrindo espaços. Mas vem devendo no desempenho, o que é mais grave que não ir às redes desde 25 de junho, embora seja um dos artilheiros da Copa do Brasil com cinco gols. Tem a confiança de Mano, mas não está confirmado entre os titulares.

Porque o jovem Raniel transferiu ao setor ofensivo maior presença física na área e mais profundidade, inclusive na vitória sobre o Grêmio no Mineirão pela semifinal. É jovem, porém. Um “obstáculo” neste momento. Assim como a incerteza da capacidade física de De Arrascaeta, além da dúvida de como será a presença do uruguaio como “falso nove” em um trabalho com maior mobilidade e rapidez nas transições ofensivas.

Incógnitas para a disputa num Maracanã lotado e elétrico. Decisão para escrever histórias de vilões e herois. Invertendo lógicas, surpreendendo. Muralha e Sóbis terão a chance de virar o jogo da vida e fazer valer a aposta? Ou Thiago e Raniel ou Arrascaeta vão escrever novas páginas no primeiro duelo de gigantes valendo o penta do Cruzeiro ou o tetra do Flamengo?

 


Grêmio perde leveza “praiana”, Cruzeiro de Mano Menezes vence duelo tático
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André Rocha

Foto: Washington Alves/Light Press

Você já leu neste blog algumas vezes nos últimos meses elogios à naturalidade com que o Real Madrid de Zinedine Zidane propõe e executa sua maneira de jogar. No Brasil, sem nenhum tipo de comparação, quem chega mais perto disto é o Grêmio. Muito por conta do modelo já bem trabalhado e assimilado.

Em casa ou fora, a equipe de Renato Gaúcho costuma trabalhar a bola ou acelerar os contragolpes conforme a necessidade com um estilo fluido, leve. Mesmo com a vantagem depois da vitória por 1 a 0 em sua arena, foi o que se viu no primeiro tempo do Mineirão.

Lembrava a espontaneidade do confronto do ano passado na mesma fase da Copa do Brasil. Nos 2 a 0 no mesmo Mineirão. Sem Douglas distribuindo as jogadas e indo às redes, mas com Luan circulando e achando Barrios livre no lance chave que podia ter mudado a história do duelo. O paraguaio desperdiçou.

Mano Menezes tentou conter o volume de jogo gremista preenchendo o meio-campo. Henrique, Hudson e Robinho. Elber e Alisson nas pontas. Thiago Neves como “falso nove”. Talvez para ficar mais próximo da meta adversária. Ou preocupar os volantes Michel e Arthur e indefinir as ações da zaga sem Geromel e com Bressan ao lado de Kannemann.

Funcionou pouco porque Neves, mesmo com a inegável qualidade nas finalizações e sua capacidade criativa, não é jogador com leitura de jogo e de espaços para executar a função. Em muitos lances se enfiava como centroavante e ficava de costas para a defesa. Ainda assim, incomodou Marcelo Grohe com um chute perigoso.

Como Elber e Alisson são condutores de bola e não se projetam à frente ou em diagonal chamando lançamentos como Pedro Rocha costuma fazer do lado gaúcho, o Cruzeiro não tinha profundidade nas ações ofensivas. Ainda assim, teve mais posse de bola (54%) e finalizou seis vezes contra quatro.

E aí Renato Gaúcho, contaminado pela praga do “jogo para ganhar (ou classificar) e não jogar” e talvez preocupado com a responsabilidade que assumiu junto com a direção do clube de apostar tudo no mata-mata – Copa do Brasil e Libertadores – deixando o Brasileiro de lado, fez seu time perder a naturalidade e priorizar o resultado na segunda etapa.

Pecado capital. Mano trocou Elber por Raniel e ganhou mais presença física na frente, liberando Thiago Neves para chegar de trás. Mas o camisa trinta foi decisivo mesmo na cobrança de escanteio pela direita que encontrou Hudson para marcar o gol único da partida.

Renato não fez substituições conservadoras. Trocou Bressan por Bruno Rodrigo no final, mas antes mandou a campo Fernandinho e Everton nas vagas de Ramiro e Barrios para acelerar as transições ofensivas. O Grêmio, porém, não finalizou na segunda etapa. Foi dominado. O time mineiro repetiu as seis conclusões do primeiro tempo, mas desta vez apenas duas no alvo.

Podia ter definido a vaga com Raniel e Arrascaeta, que entrou na vaga de Alisson. Sobis substituiu Hudson nos últimos minutos para buscar uma pressão final ou bater pênalti. Abriu a série acertando, assim como Fernandinho.

Edilson e Everton acertaram as traves, Grohe pegou as cobranças de Robinho e Murilo. Arthur e Raniel foram precisos. No duelo dos talentos, Luan novamente falhou em um pênalti decisivo e a defesa de Fabio foi a senha para a festa depois que Thiago Neves deslocou Grohe.

Cruzeiro na decisão do torneio nacional. A sua sétima. Vai tentar superar novamente o Flamengo, como em 2003. Desta vez sem o timaço da tríplice coroa, a única da história – campeão estadual, brasileiro e da Copa do Brasil. Mas com  recuperação na temporada, enfim mostrando mais consistência no desempenho.

Méritos de Mano Menezes, que venceu o duelo tático quando Renato resolveu duelar na estratégia, no jogo mais denso e fez seu Grêmio perder as maiores virtudes: leveza e naturalidade. Como uma tarde de verão na praia que o ídolo gremista tanto ama.

A noite terminou pesada. Resta a obrigação de ir bem na Libertadores, objetivo maior e agora único. A menos que o Brasileiro volte a ser importante. Ainda que pareça tarde demais.

(Estatísticas: Footstats)

 


Foco, tempo e até desespero devem nortear segundo turno do Brasileirão
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André Rocha

O Corinthians está com o Brasileiro nas mãos. Até aqui, pelo menos, é aquele caso em que tudo conspira a favor. Inclusive a pausa entre um turno e outro para recuperar e treinar a equipe por conta da viagem da Chapecoense. Com Grêmio, Santos e Flamengo envolvidos em outras competições e Palmeiras na ressaca da eliminação da Libertadores com 14 pontos atrás que podem virar 17, o atual líder disparado pode até se planejar para buscar também o título da Sul-Americana.

Competição que ainda envolve outros cinco brasileiros. Com dois confrontos nacionais  – Sport x Ponte Preta e Flamengo x Chapecoense – que podem reduzir a quarto para as quartas de final. Mesmo número de times na disputa das semifinais da Copa do Brasil. Um a mais que nas quartas da Libertadores.

Dez times dividindo atenções, outros dez disputando somente o Brasileiro. Com apenas quatro rodadas de dezenove no meio da semana. Parece claro que o foco e o tempo para treinar têm grandes chances de fazer a diferença e até superar o nível técnico e tático das equipes.

Sem contar o desespero. Aquele que, pela dificuldade na tabela, torna o adversário difícil de ser batido. Sim, a fuga do Z-4. Que parece ter o Atlético-GO condenado, mas ainda matematicamente vivo, dependendo de uma arrancada que hoje soa improvável. Um olhar mais atento à tabela, porém, revela que o Fluminense, disputando a Sul-Americana, está apenas cinco pontos à frente da Chapecoense, 17ª colocada e com um jogo a menos.

Qualquer vacilo será fatal. É onde mora a esperança são-paulina. Mesmo com todos os equívocos e com a equipe oscilando até psicologicamente, há qualidade, especialmente de Hernanes desequilibrando nas últimas vitórias, e agora tempo para se preparar. O que Dorival Júnior mais precisava. E nada mais para distrair. Uma sequência de bons resultados e pode até sobrar uma vaga na Sul-Americana.

A disputa pelas seis primeiras colocações ganha novos postulantes, como os Atléticos, mineiro e paranaense. Os únicos junto com o Palmeiras entre os onze primeiros com foco absoluto na Série A. Uma vantagem considerável em meio a tanto equilíbrio, com exceção do Corinthians.

A Primeira Liga não deu certo pelo servilismo dos clubes à CBF e agora se encontra soterrada pelos demais torneios. Para muitos será um engodo, um problema de logística. Hoje soa como um prêmio de consolação, uma taça para não deixar 2017 de mãos abanando. Vale menos que o estadual.

O maior desafio, sem dúvida, é o do Botafogo. Com elenco não tão robusto, um clássico carioca no torneio nacional e um duelo brasileiro na Libertadores contra o Grêmio, uma das melhores equipes do país. A um ponto do G-6, que seria a garantia de volta ao torneio continental independentemente do desempenho no mata-mata. Mas a seis da zona de rebaixamento, o que exige um certo cuidado.

Neste cenário, o returno reserva alguns jogos que serão esvaziados pela utilização de reservas e outros que podem ganhar contornos épicos, com times até com tempo para se preparar, mas tão envolvidos emocionalmente que não resistirão ao maldito “jogo para ganhar e não para jogar”. Valendo a vida. Para quem gosta de emoção e não torce o nariz para a fórmula de pontos corridos será um prato cheio.

Se nos dois extremos da tabela os destinos de Corinthians e Atlético-GO parecem selados, todo o resto carrega suas dúvidas e um contexto construído jogo a jogo. Dependente de outras competições, que agora contemplam toda temporada. Vejamos o que o novo calendário reservará à nossa liga neste primeiro ano.


Alguém vai chorar sangue no Mineirão
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André Rocha

É improvável que um time mandante tão poderoso, o atual campeão brasileiro, deixe tantos espaços para contragolpes, permita tantas lacunas em seu sistema de marcação e aceite que um elo fraco como Fabiano, totalmente perdido pela direita, fique tanto tempo em campo num jogo eliminatório como fez o Palmeiras no primeiro tempo do Allianz Parque.

Mesmo com a pressão inicial e a fantástica jogada individual de Guerra. Os dois gols em contragolpes no setor de Diogo Barbosa e Alisson, com este marcando o segundo e aquele servindo Thiago Neves no primeiro, são jogadas em velocidade construídas com muito espaço. O segundo, sim, tem méritos pela articulação pela direita que achou Robinho com liberdade na área. Mas novamente o encaixe com perseguições individuais de Cuca foi desmontado com facilidade.

Não existe um time tão forte sair com três a zero contra em casa num torneio eliminatório com gol “qualificado”. Mesmo que a Copa do Brasil não seja prioridade na temporada. Ainda que o adversário tenha obtido eficiência máxima ao colocar nas redes de Fernando Prass as únicas três finalizações em 45 minutos.

Assim como é inconcebível um visitante voltar do intervalo no Allianz Parque com tamanha vantagem e não esperar um time de Cuca partindo para o abafa no modo “Porco Doido” para buscar a reação. Intensidade máxima, preenchendo a área adversária com muita gente e partindo para o jogo aleatório – com fibra, entrega e 33 cruzamentos no total – para trazer a torcida junto.

Era o jogo para a equipe de Mano Menezes controlar os espaços, mesmo que permitisse os 61% de posse alviverde. Mas evitando os cruzamentos e se organizando para os contragolpes, ainda que Fabiano, o “mapa da mina” do rival, não estivesse mais em campo. Mas deixou tudo ruir em 20 minutos com dois gols de Dudu e um de Willian.

Impressionante não terminar em virada. Fez lembrar os 3 a 3 lendários entre Liverpool e Milan em Istambul na final da Liga dos Campeões 2004/2005. Reação imediata e tão contundente dos ingleses, em 14 minutos, que seria capaz de encher o time que a alcançou de forças para buscar a virada inacreditável e de abalar o que sofreu a ponto de desmanchar. Na prática, porém, não determina uma mudança no placar.

A decisão europeia foi para prorrogação e pênaltis. A disputa pelas quartas-de-final da Copa do Brasil vai para o Mineirão. O Palmeiras só pode pensar em vitória, já que um 4 a 4 é bem improvável. O time mineiro, junto da torcida, não tem como não vislumbrar um triunfo para compensar tamanho vacilo em 20 minutos de segundo tempo. Mesmo longe de Belo Horizonte e encarando um dos elencos mais fortes do país.

Em tese, os 3 a 3 seriam para comemorar pelos gols marcados fora. O Palmeiras celebrou a invencibilidade em casa na temporada. Mas os equívocos de ambos são inegáveis neste jogo mais maluco que de alto nível técnico e tático. Alguém vai chorar sangue na volta.

(Estatísticas: Footstats)


Cruzeiro tem treinador, elenco e lastro para ser forte nos pontos corridos
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André Rocha

Na Vila Belmiro, passe de Ramon Ábila para Thiago Neves dar a vitória sobre o Santos. Ambos saindo do banco de reservas. Vitória para deixar o Cruzeiro com sete pontos em três rodadas.

Amostragem pequena para 38 jogos. Incógnita ainda maior pelo revés no Mineiro para o rival Atlético e a decepção na Sul-Americana, eliminado nos pênaltis pelo Nacional do Paraguai. Confiança sempre conta. Ainda que o time só tenha sofrido três derrotas no ano.

Mas é inegável que o Cruzeiro tem um considerável lastro de evolução para ser forte nos pontos corridos. Mano Menezes pode armar uma equipe segura atrás e propondo o jogo, como foi em Santos no primeiro tempo. Com a variação do 4-3-1-2 para o 4-2-3-1 utilizada por Botafogo e Grêmio – resgate da seleção brasileira em 2010, com Dunga e Jorginho.

Hudson foi o volante executando a função de meia à direita. A solução é interessante para aproveitar o apoio do lateral – Lucas Romero, no caso. Também fechar o lado forte adversário, como Zeca e Bruno Henrique no Santos. A movimentação deixa um espaço para as infiltrações no setor do centroavante e do meia central ou até de um dos volantes, para mexer com a marcação adversária. Por ali caíram Arrascaeta, Rafael Marques e Henrique, eventualmente.

O time celeste teve volume de jogo, maior posse e acerto de passes. Atacou também pela esquerda com Alisson e Diogo Barbosa. Faltou precisão, porém. Dez finalizações, nenhuma no alvo. Na segunda etapa, Thiago Neves finalizou quatro, acertou duas. Uma decidiu a partida. Não pode ser reserva.

Considerando que time base é utopia no futebol brasileiro de campeonato rolando em datas FIFA, suspensões, lesões, desgaste e, no caso do Cruzeiro, ainda a Copa do Brasil a disputar, o importante é contar com opções em um elenco homogêneo. Mano Menezes tem. A lamentar, Dedé de novo convivendo com lesões. Ainda que Caicedo tenha entrado bem.

É óbvio que na competição por pontos corridos há jogos grandes, decisivos. Mas sem o matar ou morrer. Premiando a regularidade e a consistência, mesmo com algumas tardes e noites ruins. O São Paulo tenso da estreia, o Sport de Ney Franco focado na final da Copa do Nordeste e o Santos hesitante na temporada ainda não são parâmetros para avaliar a real capacidade de crescimento do Cruzeiro

Mas pontuar em dois jogos fora e um em casa, sem perder e sofrendo apenas um gol, é sempre relevante.

(Estatísticas: Footstats)

 


A “função Jadson” pode estar de volta ao futebol brasileiro
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André Rocha

Everton Ribeiro foi o melhor jogador dos Brasileiros de 2013 e 2014 como o meia canhoto jogando aberto pela direita no Cruzeiro bicampeão. Partia da ponta para articular no centro, circulando às costas do volante e sendo um homem a mais no meio-campo para desarticular a marcação adversária.

Jadson dividiu com Renato Augusto os elogios e os prêmios de destaque da principal competição nacional em 2015 executando praticamente a mesma função do cruzeirense. Mas com um adicional tático imposto por Tite: as transições mais longas.

Basicamente, jogar de uma linha de fundo à outra. Mas sem a corrida desenfreada dos pontas que voltam com os laterais adversários marcando individualmente. Na marcação por zona do Corinthians campeão, o ponta recompõe posicionado, fecha espaços e só volta até a linha de fundo quando está bem perto dela, com o lateral (Fagner) mais centralizado, próximo aos zagueiros.

A transição defensiva mais longa de Jadson, fechando o corredor direito para o lateral Fagner ficar mais próximo do zagueiro guardando o setor (reprodução TV Globo).

A transição defensiva mais longa de Jadson, fechando o corredor direito para o lateral Fagner ficar mais próximo do zagueiro guardando o setor (reprodução TV Band).

Com a bola, mobilidade para circular, criando superioridade numérica e aparecendo na área para finalizar. Ainda abre o corredor para o lateral passar e buscar o fundo. Sem contar a eficiência nas bolas paradas, em cobranças diretas ou servindo os companheiros. Dentro de um 4-1-4-1 rígido, a “função Jadson” era a peça solta para surpreender o oponente. Líder de assistências no Brasileiro com 12. Na temporada 2015 foram 22, mais 16 gols.

Flagrante do Corinthians no ataque em 2015 com Jadson saindo da ponta e abrindo o corredor para a descida de Fagner e servindo Elias em profundidade atacando a brecha deixada no flanco (reprodução TV Globo).

Flagrante do Corinthians no ataque em 2015 com Jadson saindo da ponta e abrindo o corredor para a descida de Fagner e servindo Elias em profundidade atacando a brecha deixada no flanco (reprodução TV Globo).

O jogador de 33 anos volta de sua aventura milionária na China e planeja o retorno ao Brasil. Estuda proposta oficial do Corinthians, o Atlético-MG também está de olho. Para quem tem mais de 30, qualquer ano a mais influi no condicionamento físico. Mas com experiência e domínio da função, o desempenho pode ser semelhante para equilibrar a própria equipe e desestabilizar o outro lado.

Para executar a “função Jadson” ninguém melhor que o próprio meia.


Cruzeiro de Thiago Neves não pode se escalar pelo nome
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André Rocha

O melhor momento do Cruzeiro de Mano Menezes em 2016 foi quando o técnico colocou De Arrascaeta no banco e mandou a campo Rafinha. Ganhou intensidade e rapidez pela esquerda até a lesão do ponteiro que voltou contra o Corinthians na última rodada. O meia uruguaio voltou ao time, melhorou a produção depois do “susto” e terminou como um dos destaques.

Com a contratação de Thiago Neves enfim confirmada, as projeções da montagem do time para 2017 quase invariavelmente colocam o meia com De Arrascaeta e Rafael Sobis ou Robinho em um trio atrás do centroavante que deve ser Marcelo Moreno, liberando Ábila para o futebol chinês.

Na prática, este quarteto ofensivo num hipotético 4-2-3-1 não teria a peça de velocidade para ser a referência dos contragolpes quando o time precisa recuar as linhas. Não por acaso, Sobis na reta final da temporada chegou a atuar como referência para que Alisson, outra opção de maior rapidez, entrasse pela esquerda.

Thiago Neves é uma incógnita. Faz 32 anos em fevereiro, vem de três temporadas no “mundo árabe”, com todas as suas particularidades. Em tese, pode ser o articulador canhoto partindo do lado direito que o Cruzeiro não tem desde Everton Ribeiro.

Potencialmente, Thiago sempre foi um meia completo: arma, tem visão de jogo e finaliza muito bem. O que faltou em sua carreira foi mais consistência para dar o salto que se imaginava. Mas pode ser útil.

O equatoriano Luis Caicedo é nome interessante para a zaga. Ezequiel terminou o ano como titular na lateral direita, mas se a ideia é usar Thiago Neves no setor, a melhor opção, ao menos na teoria, é Mayke, que sabe usar bem o corredor deixado pelo movimento do ponta articulador.

Fundamental é que Mano, com a pré-temporada que abriu mão ano passado para se aventurar na China, siga fiel aos seus conceitos e princípios e faça o básico que se espera de qualquer treinador: não escalar pelo currículo e sim por desempenho, tentando combinar as características dos jogadores.

Quando perguntado sobre escalação ideal, Tite costuma dizer que “o campo fala e o jogador se escala”. Este precisa ser o norte do Cruzeiro para voltar a ser forte.

 

 


O mito dos cinco camisas dez no Brasil de 1970
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André Rocha

Brasil 1970 camisas dez

Com a contratação de Conca pelo Flamengo – ainda que o argentino só vá jogar daqui a, no mínimo, 60 dias – a pauta não só aqui neste blog foi a possibilidade do reforço rubro-negro fazer companhia a Diego na articulação das jogadas do time de Zé Ricardo.

Nas redes sociais e nos programas de debate nas emissoras de TV fechada surgiu o velho exemplo, que virou clichê, de quando se questiona a escalação de jogadores que costumam exercer a mesma função: os cinco camisas dez em seus clubes que se reuniram na mítica seleção de 1970.

Gerson no São Paulo, Rivelino no Corinthians, Jairzinho no Botafogo, Tostão no Cruzeiro e Pelé, que obviamente ficou com o número durante o Mundial. Até porque foi ele quem criou a imagem que associa a camisa ao craque do time, ainda no final dos anos 1950.

De fato, todos usavam a dez. Mas não eram o “10” em campo. Porque nos anos 1960 e 1970, em muitas equipes, o craque do time e camisa dez era o meia-armador. Jogador cerebral, capaz de longos lançamentos, chutes fortes e precisos de longa distância. O pensador que atuava de uma intermediária à outra, pouco à frente do volante – ou “cabeça-de-área”.

No tricolor paulista o ponta-de-lança, meia que jogava praticamente como atacante, num 4-2-4, era Paulo, que vestia a oito e fazia dupla na área com o artilheiro Toninho Guerreiro. No ano seguinte chegou Pedro Rocha, craque uruguaio. Gerson seguiu como o meia-armador e com a dez. Na seleção, a mesma função, mas com a oito.

O mesmo com Rivelino no Corinthians. Fazia gols com sua canhota impressionante, mas era o organizador com a dez. A tarefa de se juntar ao trio de ataque era de Ivair, o “Príncipe”, camisa oito contratado à Portuguesa. Na seleção, Rivelino foi adaptado na função de “falso ponta” pela esquerda. Camisa onze. Contra a Inglaterra, com a ausência de Gerson, atuou em sua posição original e Paulo César Caju entrou pela esquerda. Mas normalmente sua principal atribuição era voltar para armar com Gerson e deixava o espaço no flanco para Tostão.

Camisa nove que atuava no Cruzeiro como uma espécie de falso centroavante, revezando com Dirceu Lopes na chegada ao ataque e formando o primeiro “quadrado” no meio-campo que se tem notícia, com Piazza e Zé Carlos como volantes. Ou seja, era um ponta-de-lança, mas que conhecia bem a dinâmica de jogar abrindo espaços para os companheiros.

Jairzinho era o dez do Botafogo, mas na seleção era reserva de Garrincha e assumiu a posição na ponta direita. Era veloz, tinha incrível explosão para a época. No alvinegro era praticamente um segundo centroavante, formando o ataque com Rogério, Roberto Miranda e Caju. Não possuía, porém, as características de Tostão e Pelé. Era versátil. Jogar aberto e arrancar em diagonal não era novidade para o “Furacão da Copa”.

Portanto, a tese de que os jogadores, mesmo atuando na mesma posição, se ajustam em campo naturalmente usando o exemplo de 1970 é um tanto fantasiosa. É preciso conhecer o contexto, as características dos jogadores envolvidos e o que Zagallo queria de cada um.

O próprio treinador, trinta anos depois, chegou ao Flamengo para tentar abrigar no mesmo ataque Edilson, Alex, Petkovic e Denilson. Era o time da fracassada parceria com a empresa ISL que também sucumbiu no campo em 2000. É claro que todos os problemas financeiros e de bastidores contribuíram, mas nem sempre juntar os craques é tarefa simples.

Zagallo conseguiu em 1970 fazendo ajustes na base de João Saldanha. A única inserção no quarteto ofensivo foi Rivelino. Havia entrosamento e bastante tempo para se preparar. Mas, principalmente, os estilos combinavam, cada um em sua função.

O resto é mito. Porque futebol, mesmo sendo mágico, não se faz com um estalar de dedos.


A vitória da praia sobre o curso na UEFA. O futebol é democrático!
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André Rocha

Mano Menezes foi para a UEFA estudar no período em que ficou sem trabalhar. Fez o correto, o que se espera de um bom treinador: buscou o aperfeiçoamento, intercâmbio.

Mas isto não garante sucesso. A trajetória profissional se constrói dia a dia, decisão a decisão. E Mano foi infeliz no Mineirão contra o Grêmio pelo jogo de ida das semifinais da Copa do Brasil.

Primeiro ao nitidamente se deixar abalar emocionalmente com o gol “qualificado” do adversário que complicava o confronto. Passou a reclamar além da conta com os comandados e, para variar, com a arbitragem. Transmitiu tensão e insegurança.

Depois a decisão trágica: trocar Lucas, que, de fato, não ia bem, mas colocar Alisson e abrir um clarão do lado direito que Leo não conseguiu cobrir. Desorganizou todo o time num confuso 3-4-3 com Arrascaeta e Robinho praticamente ocupando os mesmos espaços.

Matou qualquer chance de fluência no jogo cruzeirense e cedeu os espaços que o oponente queria para definir o jogo e encaminhar a classificação para a final.

O Grêmio de Renato Gaúcho. Que tomou conta dos passos da filha, foi à praia e viu futebol apenas pela TV. Sem maiores preocupações com cursos e estudos.

Chegou, arrumou o sistema defensivo, trabalhou a parte física e as bolas paradas. Manteve os conceitos de sempre. Mas com simplicidade e coerência preservou virtudes do trabalho de Roger Machado.

Como a longa troca de passes que terminou no chute primoroso de Luan, atacante no 4-2-3-1 “torto” com Ramiro mais preso pela direita que Pedro Rocha à esquerda. Flutuando entre o meio e a defesa celeste e alternando com Douglas. Como nos melhores momentos gremistas em 2015.

Mas seria covardia atribuir apenas ao ex-treinador os méritos pela bela ação ofensiva. Assim como a compactação bem coordenada dos setores que controlou o jogo até Douglas decidir em contragolpe envolvendo uma retaguarda perdida.

Com 47% de posse de bola, a equipe gaúcha finalizou sete vezes, três na direção da meta de Rafael. Duas nas redes. Contra cinco cruzeirenses, nenhuma no alvo. Atuação pífia de um time que não consegue ser regular e consistente.

Caminho aberto para a busca do pentacampeonato do clube e do bi pelo técnico “praiano”. O estudioso Mano terá que rever conceitos e comportamentos para lutar por uma classificação histórica. Hoje improvável.

Mas o futebol é tão imprevisível quanto democrático. Sem fórmula ou manual. Por isso tão apaixonante.

(Estatísticas: Footstats)