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No clássico da desordem, Palmeiras respira e São Paulo agoniza sem soluções
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André Rocha

O time de Cuca mostrou as virtudes e defeitos habituais na temporada. Erros defensivos pela desorganização provocada pelas perseguições individuais. Ficou claro no gol de Marcos Guilherme, quando Pratto aproveitou a retaguarda esburacada para dar assistência, antes do acidente com Hernanes que o tirou do campo na ambulância.

Entrou Gilberto e o São Paulo perdeu força. O Palmeiras reagiu pela persistência, por não desistir, pela inquietação de seu treinador usando as peças disponíveis. Jogada de Michel Bastos, gol de Willian, autor do segundo em finalização de fora. Virada rápida desconstruída por Hernanes, o único lúcido no tricolor paulista. Mas que não pode resolver tudo na jogada individual ou nas finalizações precisas.

Porque o “Soberano” é um clube à deriva. Pela irresponsabilidade de entregar um dos gigantes brasileiros à própria sorte com jogadores e treinador ainda se conhecendo em agosto, num balcão de compra e venda que parece não ter fim. E não consegue resolver um problema grave desde o início da temporada: a falta de um goleiro confiável.

Sidão teve mais uma chance e novamente mostrou a insegurança capaz de minar as forças e a confiança de qualquer um. Mesmo que Dorival Júnior tente organizar sua equipe num 4-1-4-1 que tem momentos de compactação e setores bem coordenados. Só que elos fracos como os  laterais Buffarini e Edimar acabam comprometendo qualquer esforço coletivo e períodos de domínio na partida, com chances cristalinas desperdiçadas – a de Rodrigo Caio na segunda etapa simplesmente inacreditável.

Duas jogadas pela esquerda, o terceiro gol com Keno, substituto de Bruno Henrique para tornar o time ainda mais ofensivo, e o golpe final com Hyoran, reserva pouco utilizado desde que chegou ao Palmeiras. Jogada iniciada com um lançamento precioso de Tchê Tchê para Willian servir o companheiro.

O “Bigode” foi o personagem da vitória fundamental e justa no Allianz Parque: o mandante teve 54% de posse, desarmou corretamente 21 vezes contra dez e finalizou 24 vezes contra nove do rival – dez a quatro no alvo. Para o Alviverde se recolocar na disputa das primeiras posições da tabela e aliviar o ambiente de crise. Nem precisou de tanto para vencer um “Choque-Rei” marcado pela desorganização dos times.

Revés sintomático para um São Paulo em desespero. Vítima de decisões equivocadas há algum tempo, mas bem mais graves em 2017. Desmanchar e remontar elenco ao longo do Brasileiro é algo criminoso. O resultado é uma lenta agonia que parece cada vez mais sem soluções.

(Estatísticas: Footstats)

 

 


Cucabolistas, uni-vos!
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André Rocha

Foto: divulgação Quatro Linhas.

Diante da notícia de que a Mancha Alvi Verde, a principal torcida organizada do Palmeiras, através de um comunicado oficial pediu a saída do clube do treinador Cuca é hora de fazer uma convocação:

Você que ajudou a inundar as redes sociais com perfis declarando amor ao comandante no título brasileiro do ano passado e que, por não ter nome nem rosto, covardemente atacava quem ousava fazer alguma crítica ao seu objeto de devoção;

Você, jornalista, que defendeu até o limite da irresponsabilidade o estilo do treinador só porque vencia e fazia média com o torcedor palmeirense para sair bem na foto;

Você que usou a camiseta da imagem acima, com a letra “o” simulando uma bola sendo enviada numa cobrança lateral e que agora parece simbolizar a queda do time em todas as competições em 2017;

Você que riu  e compartilhou as piadas do treinador endereçadas aos críticos durante os eventos de premiação do Brasileiro no final do ano passado;

Você que comprou e passou a exibir no Allianz Parque e nas ruas a calça vinho, tratada como amuleto da sorte visando novas conquistas.

É hora de ser coerente e apoiar Cuca. Porque o estilo e as ideias antes defendidas estão lá. Perseguições individuais, marcação por encaixe, o “Porco Doido” com muita intensidade e marcação no campo de ataque, cobranças de lateral na área adversária e cruzamentos em profusão, inclusive da intermediária, quando necessário.

O que mudou? Só o resultado. Que guia sempre todas as análises e é tão tratado como o detentor da verdade que coloca quem ousa fazer alguma ressalva como “anti”, “clubista”, “bairrista”, “mal intencionado”, “canalha”, “vendido”.

A proposta de jogo, as manias, o jeito peculiar estão lá. Só que não estão mais Vitor Hugo e Gabriel Jesus. Moisés só retornou há pouco. Os contratados no início do ano, com Eduardo Baptista no comando, chegaram para trabalhar no estilo atual do futebol brasileiro e mundial, de marcação por zona, compactação e posse de bola ou transição. Os que não se adaptaram perderam a vez. Felipe Melo, não só por isso, foi defenestrado.

Tudo valeu a pena até a eliminação na Libertadores. Agora, com a derrota em casa para a Chapecoense por 2 a 0 que alija o time da disputa do título brasileiro e o ano de 2017 está perdido em termos de conquista, surgem as críticas mais pesadas. Só porque o resultado mudou.

Não pode! Quem demonstrou tanto amor e fidelidade antes, a ponto de odiar e perseguir quem pensava diferente, não deve abandonar o barco agora. Precisa seguir a ideia de Cuca, de “ir até o final”. Abraçado ao grande ídolo.

Cucabolistas, uni-vos! Agora é a hora do testemunho de fé!

 


Palmeiras perde 45 minutos e o ano com a essência do estilo de Cuca
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André Rocha

Mina lutou e chorou com a lesão que o tirou do jogo, Dudu tentou tudo e não resistiu fisicamente, Moisés entrou, fez golaço, sentiu e acertou sua cobrança na decisão por pênaltis no sacrifício. Não faltou entrega. Nem de Bruno Henrique e Egídio, os que erraram suas penalidades. O equívoco maior foi anterior.

Nos primeiros 45 minutos no Allianz Parque, o Palmeiras mostrou a essência do estilo de Cuca: intensidade máxima, marcação no campo de ataque, pressa para resolver as jogadas e muitos cruzamentos com bola parada e rolando. Várias alçadas desde a intermediária. Apenas quatro finalizações, nenhuma no alvo.

Porque não havia ninguém para pensar o jogo na execução do 4-2-3-1 montado. Thiago Santos protegendo a defesa, Bruno Henrique se mandando e Dudu se juntando a Roger Guedes, Deyverson e Keno. Ninguém parava a bola, mudava o ritmo. Pensava. O Palmeiras só sentia.

Não basta e Moisés deixou isso bem claro no segundo tempo. Os passes longos de um meio-campista surpreenderam o Barcelona de Guayaquil, que parecia preparado apenas para enfrentar o que o Palmeiras apresentou antes do intervalo.

O time equatoriano, bem montado no 4-4-2 e atacando pelos flancos com Ayovi e Caicedo, acabou traído pelo próprio desempenho pífio do adversário. No escanteio a favor, se lançou ao ataque sem maiores cuidados e permitiu o contragolpe letal que, é óbvio, teve muitos méritos de Moisés, que foi arco e flecha, completando a assistência de Dudu.

Até o fim, o jogo foi aleatório, no modo “briga de rua”. Bolas nas traves de lado a lado, furada de Damian Díaz, o apagado meia argentino que praticamente atrasou para Jailson na única cobrança desperdiçada pelo Barcelona. Ainda assim, volta para Guayaquil com a vaga.

Porque o  que se convencionou chamar de “Cucabol” saiu derrotado, mas até quando vence faz menos do que pode. A vitória e a taça iludem, mas é triste ver um elenco que pode buscar um futebol mais bem jogado se reduzir a um estilo mais condizente com um repertório limitado. Nem sempre vai dar certo. Ou só vai funcionar eventualmente.

Não há consistência, porque a ligação direta e o cruzamento a esmo oferecem, na melhor hipótese para quem arrisca, 50% de chances para ataque e defesa. As perseguições individuais na marcação cansam os jogadores e desorganizam o próprio time. É um jeito anacrônico e contraproducente. Por isso as críticas pouco compreendidas no momento de alta.

Agora é fácil apontar os problemas. Inclusive para quem incensava, debochava das críticas e tratava como perseguição pura e simples. Pautado apenas pelos resultados. Uma hora a verdade se escancara. Os 45 minutos iniciais do Palmeiras são pedagógicos. Tempo jogado fora. Ano perdido.

Que fique a lição. Inclusive para Cuca, que pode aproveitar o momento para rever seus conceitos. As derrotas fazem crescer,  basta ter vontade e humildade para aprender.

(Estatisticas: Footstats)


Afastamento de Felipe Melo é mais um produto dos desencontros no Palmeiras
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André Rocha

Foto: Cesar Greco/Ag. Palmeiras

Felipe Melo não foi relacionado no grupo que vai concentrar para o jogo contra o Avaí no Allianz Parque. Este é o fato em meio a rumores de desentendimentos entre o volante e o treinador Cuca.

Felipe foi contratado em janeiro para ser uma liderança e também uma espécie de interlocutor e escudo diante da mídia para o trabalho do jovem Eduardo Baptista, cercado de desconfianças desde a apresentação. Aparentemente, o projeto era mudar a forma do Palmeiras jogar. Mais posse de bola, marcação por zona, controle dos jogos.

Com desempenho e resultados que não agradaram no Paulista e na fase de grupos da Libertadores, Baptista não resistiu. Se houvesse convicção lá atrás de que os princípios de jogo deviam ser preservados, bastaria contratar um profissional com perfil parecido.

Mas se a sombra de Cuca, que pediu para sair depois de ser aclamado pelo título brasileiro que o clube não conquistava há 22 anos, já era forte durante seu afastamento, ficou ainda maior quando se colocou à disposição para retornar. A torcida ansiava pela volta do “messias” e qualquer outro treinador seria esmagado da mesma forma.

Cuca voltou e com ele o estilo particularíssimo, de intensidade e marcação por encaixe e perseguições individuais. Para executá-la, prefere atletas mais rápidos, com vigor físico para marcar correndo. De preferência, que não questione as ordens e apenas as cumpra.

Felipe Melo não tem o perfil. Gosta de futebol, sabe como se atua nos grandes centros. Joga posicionado, fechando espaços. Aos 34 anos, conhece os atalhos. Além disso, tem personalidade forte e é articulado para expressar qualquer descontentamento. A lesão na coxa e a fratura na mão apenas adiaram o problema de ter um jogador contratado como estrela, mas descartado pelo velho/novo treinador por uma nítida incompatibilidade de estilos.

Agora, com o Palmeiras eliminado da Copa do Brasil, vendo as chances de título brasileiro cada vez mais remotas e com a tensão no nível máximo para o jogo da volta das oitavas de final da Libertadores contra o Barcelona de Guayaquil em São Paulo com obrigação de vitória, o descompasso virou um problema ainda maior. Felipe Melo não deve entender muito bem por que uma marcação que não vem funcionando é preservada e, por isso, ele seguirá fora dos planos. Até do banco de reservas.

Felipe Melo disputou apenas cinco partidas pelo Brasileiro e ainda pode disputá-lo por outra equipe da Série A. O alto salário é o obstáculo para quem não tem tanto poder de investimento.

Mais um problema para o Palmeiras em uma temporada conturbada, que foi pensada para construir uma hegemonia. Fruto dos desencontros de um departamento de futebol que parecia caminhar em uma direção e, hesitante, desviou a rota e retornou ao que considerava mais seguro. Mas no futebol não há certezas e o que resta em 2017 é um enorme ponto de interrogação. Como será o amanhã?


Com Levir Culpi, Santos cresce no modo “briga de rua”: jogo de trocação
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André Rocha

O Santos de Dorival Júnior prezava posse de bola e troca de passes. Na reta final do trabalho de quase dois anos, o domínio era inócuo pela baixa efetividade da equipe que rodava, tocava, mas não finalizava e deixava a defesa exposta.

Levir chegou e não mudou o DNA ofensivo da equipe, algo até cultural no clube. Nas últimas partidas, incluindo os 3 a 0 sobre o Bahia, até arriscou mais encaixando Emiliano Vecchio no lugar de Thiago Maia, negociado com o Lille.

A execução do 4-3-3, porém, é vertical, direta. Não controla o jogo com a bola, ainda que seja o líder em posse e o segundo em acertos de passes na competição – muito mais pelo volume de jogo e pela vontade de atacar, dentro ou fora de casa, sem contar os altos índices nas quatro partidas ainda sob o comando do antecessor.

Também não há controle de espaços, com o time bem posicionado na fase defensiva. Por isso Vanderlei trabalha tanto e é o melhor goleiro da Série A. Assim como explica os muitos erros de Lucas Lima em lançamentos e cruzamentos. Força a assistência o tempo todo, buscando Kayke no centro do ataque ou os pontas Copete e Bruno Henrique jogando invertidos para infiltrar em diagonal.

O camisa dez tem só dois passes para gols – Bruno Henrique tem cinco. Mas é quem faz o time acelerar o tempo todo, agora com auxílio de Vecchio e a proteção de Yuri à frente da retaguarda.

O Bahia terminou o jogo no Pacaembu lotado com 51% de posse e 14 finalizações contra onze do time mandante. Mas Bruno Henrique aproveitou uma trinca de ações ofensivas rápidas, com pelo menos três santistas na área adversária para resolver a partida. O alvinegro praiano melhorou muito sua relação finalizações/gols: agora precisa de oito conclusões para ir às redes.

O Santos cresce e luta na parte de cima do Brasileiro no modo “briga de rua”. Aposta na trocação, no jogo aberto acreditando na força de seu ataque e no momento espetacular de seu goleiro para derrubar os rivais.  Até porque o mantra atual do futebol nacional é não ficar com a bola e jogar em transições o tempo todo.

Não chega a ser um “Peixe Doido”, como o Galo de Cuca que Levir herdou e manteve a intensidade no topo. Mas torna o time mais imprevisível e eficiente. Dorival caiu com uma vitória e três derrotas. Com Levir são oito triunfos, três empates e apenas um revés. 75% de aproveitamento que só ficaria atrás do líder Corinthians. Não é pouco.

 

(Estatísticas: Footstats)


Precisamos falar sobre a arbitragem de Flamengo x Palmeiras
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André Rocha

Sim, o Flamengo novamente esbarrou em suas próprias deficiências – nulidade de Márcio Araújo na construção das jogadas que sobrecarrega Diego, que conduz demais a bola e se desgasta e sacrifica Everton Ribeiro, que não encontra um companheiro para dialogar e nitidamente sente a sequência de jogos a cada três dias.

Sem contar a proposta de jogo previsível e que, mesmo vencendo, insistiu em adiantar as linhas, ficar com a bola e novamente não transformar a superioridade nítida no primeiro tempo em mais gols além do chute de Pará e da vitória de Guerrero contra Luan depois de uma ligação direta para empatar o primeiro tempo.

Porque o time da casa levou a virada na Ilha do Governador em dois contragolpes com a última linha de defesa adiantada e espaçada. Melhor para Roger Guedes e Willian. Novamente Zé Ricardo foi infeliz nas substituições e o time caiu de produção. Na chance que teve para alcançar a vitória, Diego cobrou mal o pênalti e Jailson, surpresa de Cuca na escalação barrando Fernando Prass, fez bela defesa.

Sim, o Palmeiras mais uma vez sofreu com os encaixes e as perseguições individuais, marcas da ideia de jogo de seu treinador. Muito do domínio dos rubro-negros na primeira etapa foi pela fragilidade e espaçamento do sistema defensivo alviverde. Facilitando o principal ponto de distribuição do quarteto ofensivo do oponente: o pivô de Paolo Guerrero. O peruano recuava, atraía os zagueiros Mina e Luan e servia seus companheiros de ataque, em vantagem na velocidade sobre seus marcadores.Especialmente Michel Bastos no primeiro tempo, atuando como lateral. Uma avenida.

Mas Cuca foi perspicaz no segundo tempo. Trocou o posicionamento de Bastos e Zé Roberto, que mesmo servindo Willian no primeiro gol saiu do meio-campo para a lateral  guardar seu posicionamento e fechar o setor do apoio de Pará. Armou duas linhas de quatro, liberando Dudu, que não voltou com o lateral do Fla no primeiro gol, para jogar mais solto, fazendo “sombra” em Márcio Araújo e se aproximando de Borja.

O substituto do lesionado Willian perdeu a chance da vitória no final em novo contragolpe com a retaguarda adversária adiantada e mal posicionada. Thiago, que não foi bem no enfrentamento com os atacantes palmeirenses no primeiro tempo, salvou o Fla no chute cruzado do colombiano. Antes de ceder em breve o lugar a Diego Alves. Mais uma contratação que parece chegar tarde na temporada.

No saldo final, o empate acabou sendo o resultado mais adequado para o que foi a partida. Mas o jogo na Ilha do Governador teve um grande derrotado: Jailson Macedo Freitas. Uma típica arbitragem desastrosa do futebol brasileiro.

No primeiro tempo prejudicou demais o Flamengo. Na origem dos dois gols do Palmeiras, faltas claras de Mina sobre Guerrero. O peruano ainda foi derrubado pelo colombiano na área do time visitante em pênalti claro ignorado por Jailson. Sem contar uma disputa em que Everton Ribeiro caiu na área adversária. Lance duvidoso.

O mais absurdo, porém, foi parar o jogo para punir Bruno Henrique com cartão amarelo por agarrar Rafael Vaz antes e mesmo quando Diego bateu na bola. Ou seja, puniu o infrator antes que a falta dentro da área pudesse ser marcada. Este que escreve não se lembra de ver algo parecido em uma partida de futebol profissional

Muitos protestos de flamenguistas no estádio e nas redes sociais. Arbitragem mal intencionada?

O segundo tempo escancarou a incompetência e a vontade de compensar com outros erros os equívocos que não podiam mais ser corrigidos. Os palmeirenses cometeram 12 faltas na primeira etapa e dez na segunda. Apenas Bruno Henrique levou amarelo nos 45 minutos iniciais. Depois do intervalo, Mina, Borja, Luan, Jailson, Tche Tche, Michel Bastos, Dudu e Thiago Santos foram advertidos. Márcio Araújo e Mancuello pelo Flamengo.

Pendurou mais da metade do time do Palmeiras, passou a não marcar as faltas para os visitantes que assinalou anteriormente e na primeira queda de um jogador rubro-negro na área marcou pênalti de Michel Bastos sobre Geuvânio. Falta clara, mas menos que a de Mina sobre Guerrero no primeiro tempo. Qual o critério, afinal?

É óbvio que os erros de Jailson foram mais danosos ao Flamengo, mas já passou da hora de questionarmos compensações que muitas vezes são usadas como atenuantes por alguns comentaristas de arbitragem. O apitador erra e tenta equilibrar a balança acumulando interpretações absurdas que só irritam os dois lados e nada acrescentam.

Sim, temos um cenário em que o árbitro é pressionado demais, precisa ser profissionalizado, ainda não usufrui dos recursos tecnológicos para minimizar seus erros e muitas vezes é usado como muleta ou cortina de fumaça para atuações ruins dos times e bobagens de treinadores e dirigentes. Se acomodar na incompetência, porém, é a maior das falhas. Por isso precisamos falar de arbitragem, ainda que se prefira abordar o jogo.

Jailson Macedo Freitas estragou um clássico nacional, entre as equipes que disputaram a liderança em boa parte da última edição da Série A do Brasileiro. O mais trágico é a certeza de que não será a última vez.

(Estatísticas: Footstats)

 


Vitória do Corinthians no dérbi é o triunfo do presente sobre o passado
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André Rocha

Antes do início da 13ª rodada da Série A, o líder Corinthians era o segundo ataque mais positivo, a equipe que mais acerta passes e a quarta em posse de bola. Mas no Allianz Parque aproveitou a estatística que lidera e, na prática, é a mais importante: só precisa de seis finalizações, na média, para fazer um gol.

Na casa do Palmeiras esta eficiência foi ainda maior: dois gols em três conclusões. Jadson no pênalti sobre Guilherme Arana, que marcou o da vitória na segunda etapa. Ambos iniciados com passes espetaculares de Romero, o destaque absoluto do triunfo de uma ideia de jogar.

Atual, que se adapta de acordo com o que pede o jogo. Diante de um mandante tão forte, como o Grêmio há três rodadas, não fazia sentido partir de peito aberto. Principalmente pela consciência de que o rival viria no desespero para buscar a vitória e descontar os 13 pontos de desvantagem.

Organizou duas linhas de quatro compactas, executou com concentração absoluta seu modelo de jogo que baseia o trabalho defensivo na marcação por zona e no controle dos espaços. Fagner, Balbuena, Pablo e Arana parecem chegar à perfeição dos movimentos de corpo para tirar as opções do atacante que está com a bola. E quando o oponente consegue ultrapassá-los, aparece Cássio novamente no ápice físico e técnico.

Na transição ofensiva, inteligência para triangular e atacar os espaços na hora certa. Mesmo sem o brilho de Jô e de Jadson, que só apareceu na cobrança de pênalti. O forte é o coletivo, com eficiência absurda. Um relógio preciso.

Bem diferente do Palmeiras de Cuca, que diante das dificuldades impostas pelo Corinthians apelou para o que se convencionou chamar de “Cucabol” e nunca foi bem entendido. Na necessidade de criar os espaços em uma retaguarda bem posicionada, o time desde o ano passado apela para os cruzamentos sucessivos. Não há ideias.

Antes da partida, a média era de 22 bolas levantadas. Só no primeiro tempo foram 28. Chegou a 47 no final. No desespero, Cuca empilhou atacantes tirando volantes, adiantou o zagueiro Mina com centroavante e…tome bola na área! Teve 61% de posse, finalizou 18 vezes, mas faltou a chance cristalina, a ação ofensiva bem trabalhada.

Cuca tem razão ao lamentar as ausência de Vitor Hugo, Moisés e Gabriel Jesus em relação ao time campeão brasileiro do ano passado. O zagueiro que compensava todos os problemas ocasionados pelos ultrapassados encaixes individuais com velocidade, concentração e vigor físico. O meio-campista que acertava passes, chutes e as cobranças de lateral na área. E o melhor atacante atuando no país em 2016. Sem as individualidades resta muito pouco de uma ideia de jogo pobre e anacrônica.

Por isso o Corinthians sobra. Não é exemplo de gestão nem ostenta patrocínio forte, mas tem identidade dentro do campo. Uma ideia que vai sendo aprimorada por Fabio Carille, auxiliar dos “construtores” Mano Menezes e Tite. 35 pontos em 39 possíveis. Invicto, não sofre gols há sete partidas. Ataca quando precisa e chega a 23 gols marcados, igualando o Grêmio que ainda joga na rodada.

Campanha histórica em 13 rodadas. É o grande favorito ao título. Mas mesmo que a taça não venha, que o modelo de jogo alinhado ao que de mais atual se pratica nos principais centros e base de ideias da seleção brasileira líder das eliminatórias sul-americanas seja a referência para um futebol mais bem jogado no país.

No dérbi, o presente venceu o passado.

(Estatísticas: Footstats) 


Palmeiras e Galo: oscilações que minam a confiança longe de casa
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André Rocha

O Atlético Mineiro de Roger Machado encontrou há algum tempo uma estrutura com o quarteto ofensivo formado por Elias, Cazares, Robinho e Fred. Sofre, porém, com os desfalques na retaguarda. Especialmente Marcos Rocha, que nunca foi exímio defensor, mas encontra menos dificuldades que Alex Silva.

Em Cochabamba, o ex-lateral do América-MG penou contra o brasileiro Serginho, depois Ruddy Cardozo. E ainda cometeu um pênalti, desses autorizados pelas novas orientações da FIFA, saltando com o braço aberto e a bola batendo em sua mão.

Uma atuação catastrófica. Pelo seu setor saiu a cobrança de lateral na área, não a usual dos últimos tempos, mas um lançamento para Bergese finalizar e Álvarez acertar de bicicleta no rebote do corte de Gabriel sobre a linha.

O 4-2-3-1 atleticano que está se tornando comum no futebol brasileiro, com um meio-campista (Elias) de um lado e um atacante (Robinho) do outro, consegue ter fluência na frente quando chega em bloco.

Mas na altitude de 2600 metros na Bolívia ficou mais complicado e muitas vezes se viu Elias mais preso para não ter que infiltrar na frente e Robinho nem sempre voltando e ficando na frente com Cazares e Fred, que também produziram pouco.

Foram 13 finalizações, uma a mais que o time da casa. Incluindo a cabeçada na trave de Rafael Moura, que entrou na vaga de Fred. Mas apenas uma na direção da meta de Olivares. O Galo deve ser mais eficiente em Belo Horizonte, ainda mais se forçar as jogada aéreas, ponto fraco dos bolivianos.

Deixou, no entanto, uma impressão de que um pouco mais de confiança, mesmo diante de um time que é reconhecidamente forte em seus domínios, com vitórias sobre Palmeiras, Tucumán e Peñarol, poderia ter rendido ao menos um ponto e serenidade para a volta.

Porque, apesar da melhor campanha geral na fase de grupos, este Atlético de Roger oscila demais. Não apresenta consistência para se impor independentemente do contexto, mesmo com a recuperação no Brasileiro, subindo seis posições com a vitória por 3 a 1 sobre o Cruzeiro no clássico e voltando à primeira página da tabela. Sem contar a vantagem construída em casa sobre o Botafogo nas quartas de final da Copa do Brasil.

Mesmo caso do Palmeiras, quarto colocado na competição nacional, ainda vivo na Copa do Brasil. Mas inconstante a ponto de cumprir boa atuação na primeira etapa em Guayaquil. Mesmo sem Guerra, que voltou ao Brasil para cuidar do filho hospitalizado por afogamento. A transição ofensiva ganhava qualidade com Dudu e encontrava Willian para finalizar. Como na melhor oportunidade dos primeiros 45 minutos em chute cruzado.

Cuca trocou Zé Roberto, escalado no meio-campo para Juninho cumprir a função de lateral-zagueiro pela esquerda tão prezada por Cuca, por Roger Guedes. Michel Bastos e Keno entraram nas vagas de Dudu e Borja. Ou seja, trocas em todo o ataque. Para se defender mais que o recomendável, permitindo que o time equatoriano rondasse a área, terminando a partida com 56% de posse.

Até achar o gol de Jonatan Alvez no chute que desviou em Thiago Santos, o volante “cão de guarda” que virou titular. Na oitava e última finalização do time mandante, o dobro do campeão brasileiro – três no alvo para cada lado.

A questão é que o jogo alviverde não flui, nem tem ao menos a capacidade competitiva do ano passado, apesar dos 24 desarmes certos contra apenas nove do Barcelona. E o contexto para o duelo final em São Paulo poderia ser pior, caso o árbitro houvesse marcado pênalti no toque de braço de Mina.

O que é preocupante para a volta no Allianz Parque é que, ao contrário do Jorge Wilstermann, o Barcelona mostrou força como visitante na fase de grupos. Inclusive vencendo o líder Botafogo no Estádio Nilton Santos. Exatamente quando o alvinegro tentou mudar sua maneira de jogar e saiu para propor o jogo. Acabou surpreendido como o Palmeiras não tem o direito de repetir por sua capacidade de investimento. Sair nas oitavas do torneio continental seria um fracasso para repensar tudo.

É possível virar no modo “Porco Doido” empurrado pela torcida pode fazer em 90 minutos o que alcançou em vinte ao buscar três gols  e o empate contra o Cruzeiro. Mas há o risco exatamente por Cuca ainda não ter construído uma equipe confiável. Intensa e constante. Sem Gabriel Jesus, Moisés, Vitor Hugo e tempo para treinar e ajustar o elenco muito heterogêneo fica bem mais complicado.

A missão é acessível para Palmeiras e Galo, apesar do calendário massacrante. Até agosto é obrigatório oscilar menos para que as equipes cheguem mais inteiras nos jogos que, no pior cenário, podem custar a temporada.

(Estatísticas: Footstats)


Alguém vai chorar sangue no Mineirão
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André Rocha

É improvável que um time mandante tão poderoso, o atual campeão brasileiro, deixe tantos espaços para contragolpes, permita tantas lacunas em seu sistema de marcação e aceite que um elo fraco como Fabiano, totalmente perdido pela direita, fique tanto tempo em campo num jogo eliminatório como fez o Palmeiras no primeiro tempo do Allianz Parque.

Mesmo com a pressão inicial e a fantástica jogada individual de Guerra. Os dois gols em contragolpes no setor de Diogo Barbosa e Alisson, com este marcando o segundo e aquele servindo Thiago Neves no primeiro, são jogadas em velocidade construídas com muito espaço. O segundo, sim, tem méritos pela articulação pela direita que achou Robinho com liberdade na área. Mas novamente o encaixe com perseguições individuais de Cuca foi desmontado com facilidade.

Não existe um time tão forte sair com três a zero contra em casa num torneio eliminatório com gol “qualificado”. Mesmo que a Copa do Brasil não seja prioridade na temporada. Ainda que o adversário tenha obtido eficiência máxima ao colocar nas redes de Fernando Prass as únicas três finalizações em 45 minutos.

Assim como é inconcebível um visitante voltar do intervalo no Allianz Parque com tamanha vantagem e não esperar um time de Cuca partindo para o abafa no modo “Porco Doido” para buscar a reação. Intensidade máxima, preenchendo a área adversária com muita gente e partindo para o jogo aleatório – com fibra, entrega e 33 cruzamentos no total – para trazer a torcida junto.

Era o jogo para a equipe de Mano Menezes controlar os espaços, mesmo que permitisse os 61% de posse alviverde. Mas evitando os cruzamentos e se organizando para os contragolpes, ainda que Fabiano, o “mapa da mina” do rival, não estivesse mais em campo. Mas deixou tudo ruir em 20 minutos com dois gols de Dudu e um de Willian.

Impressionante não terminar em virada. Fez lembrar os 3 a 3 lendários entre Liverpool e Milan em Istambul na final da Liga dos Campeões 2004/2005. Reação imediata e tão contundente dos ingleses, em 14 minutos, que seria capaz de encher o time que a alcançou de forças para buscar a virada inacreditável e de abalar o que sofreu a ponto de desmanchar. Na prática, porém, não determina uma mudança no placar.

A decisão europeia foi para prorrogação e pênaltis. A disputa pelas quartas-de-final da Copa do Brasil vai para o Mineirão. O Palmeiras só pode pensar em vitória, já que um 4 a 4 é bem improvável. O time mineiro, junto da torcida, não tem como não vislumbrar um triunfo para compensar tamanho vacilo em 20 minutos de segundo tempo. Mesmo longe de Belo Horizonte e encarando um dos elencos mais fortes do país.

Em tese, os 3 a 3 seriam para comemorar pelos gols marcados fora. O Palmeiras celebrou a invencibilidade em casa na temporada. Mas os equívocos de ambos são inegáveis neste jogo mais maluco que de alto nível técnico e tático. Alguém vai chorar sangue na volta.

(Estatísticas: Footstats)


Não há razão para crise no Palmeiras. Mas existe um dilema
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André Rocha

As derrotas para Chapecoense e São Paulo fora de casa, com a equipe bastante alterada pela prioridade natural dada à Libertadores, não servem sequer como sinal de alerta para o Palmeiras. São recuperáveis e até comuns em um campeonato por pontos corridos e todas as suas particularidades. É um reinício para Cuca.

O que precisa ser debatido internamente é que o cenário de 2016 não se repete nesta temporada, até pela conquista do título brasileiro. A equação técnico campeão + elenco reforçado não significa necessariamente uma fórmula de sucesso.

A começar pela dissonância entre a maneira de jogar de Felipe Melo, contratado para ser um líder e interlocutor do técnico, com a visão de futebol de Cuca. Algo bem mais complicado de administrar que uma discussão no rachão. O volante atuou na Europa por mais de uma década marcando por zona na maior parte do tempo. O treinador prefere os encaixes e perseguições individuais.

Não é simples pedir para alguém acostumado a ter a bola e o espaço como referências passar a correr atrás do jogador adversário. Por isso a escalação de Felipe na sobra da defesa em um sistema com três defensores na última linha contra o São Paulo no Morumbi. A adaptação, porém, é complicada. Requer tempo e, principalmente, capacidade de convencer que este é o melhor caminho.

Outra questão a ser administrada é o favoritismo. Uma coisa é ser campeão brasileiro sendo colocado como o contraponto ao Flamengo do “cheirinho” e ao Atlético-MG das estrelas no ataque, outra é entrar em campo sempre com a responsabilidade de ser o protagonista.

No ano passado, mesmo com Cuca bancando o título, a equipe não era o alvo. Seus melhores momentos da equipe, em especial no primeiro turno da principal competição nacional, foram explorando a velocidade de Roger Guedes e Gabriel Jesus surpreendendo os oponentes tanto quanto as jogadas ensaiadas. O time era vertical, definia rapidamente as ações de ataque.

Já em 2017 o elenco foi montado para propor o jogo, ideia de Eduardo Baptista que parecia ser consenso no clube por conta desta mudança de status. Com Borja e Guerra, campeões da Libertadores pelo Atlético Nacional dentro de uma proposta ofensiva de Reinaldo Rueda, herdeiro de Juan Carlos Osorio.

Cuca pensa futebol diferente. Gosta de seu time desarmando no campo de ataque e partindo com fúria para a área adversária. Aprecia um “abafa”, o “Porco Doido”. Também baseia o seu discurso motivacional no “nós contra eles”, na superação para enfrentar as desconfianças. Mas agora o Palmeiras é a referência, o time a ser batido. Analisado, dissecado, mapeado.

Capaz de fazer Rogério Ceni, com seu estilo agressivo e de valorização da posse de bola, não se importar de ficar sem o controle da partida no campo de ataque e fazer o jogo de transições em velocidade para golpear o rival no Morumbi com Lucas Pratto e Luiz Araújo.

Há dois caminhos para Cuca: rever e adaptar seus conceitos às melhores peças disponíveis ou pensar, a curto prazo, numa formação titular com a maioria absoluta dos jogadores que trabalharam com ele no ano passado e já conhecem toda a dinâmica do seu estilo. Colocando as estrelas no banco. Toda escolha tem sua complexidade.

Não há razão para crise no Palmeiras. Mas está claro que existe um dilema criado pelo próprio sucesso.