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Quem no Brasil está jogando mais que Dudu?
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André Rocha

Não é de hoje. O Palmeiras do segundo turno do título brasileiro – mais pragmático e focado no resultado, não conseguiria os incríveis 44 pontos, melhor campanha em um turno na era dos pontos corridos, sem o brilho e a consistência de Dudu.

Com a ausência de Gabriel Jesus pelas seguidas convocações para as seleções olímpica e principal, e a queda de produção de Roger Guedes, assumiu a faixa de capitão e o protagonismo depois de brigar e se reconciliar com o técnico Cuca.

Foram dez passes para gols do ponteiro que atuava pela esquerda num 4-3-3. Jogador da bola parada em momentos de pressão e da velocidade nos contragolpes. Fundamental.

Em 2015 já havia sido importante na conquista da Copa do Brasil. Atuando mais solto e próximo da zona de decisão como um meia atrás do centroavante, foi o artilheiro alviverde na temporada com 16 gols.

Dudu é ponta e meia. Serve, faz gols e tem liderança. Por isso precisamos falar mais dele.

Nos 3 a 0 sobre o São Paulo no Allianz Parque ganhou os holofotes com o golaço de cobertura sobre o goleiro Denis. O segundo ele na temporada. Talvez o camisa sete nem tenha sido o grande destaque do time agora comandado por Eduardo Baptista, já que Tchê Tchê foi onipresente no meio-campo. O trabalho coletivo também merece atenção, com seguidas bolas roubadas no campo de ataque.

Mas Dudu sempre está presente, como peça chave. Em 2017 já são seis assistências, um pênalti sofrido e o cruzamento que Thiago Santos desviou e Keno completou no gol de empate contra o Tucumán na estreia da Libertadores.

O novo treinador só tem elogios para seu atacante: “Tenho falado para ele do grande potencial que tem. Um grande jogador. O cara que pensa em jogar na Europa e seleção tem que jogar em todos os lugares. E foi muito bem”, exaltou Baptista na coletiva depois do clássico “Choque Rei”.

Um alto investimento do clube na contratação ao Dinamo de Kiev que na época gerou polêmica pelo “chapéu” nos rivais, mas que em campo se paga a cada jogo. Um caso raro de quem evoluiu quando voltou da experiência na Europa.

Dudu tem intensidade para pressionar no campo de ataque ou voltar até a própria linha de fundo se for preciso. Sabe dar profundidade aos ataques, mas também procura a diagonal. Tem visão de jogo para um passe de meia, mas chama lançamento em contragolpe.

Tem também a postura que agrada o torcedor mais fanático: “tudo pelo time”. Mesmo que às vezes esbarre na ética, algo que se espera de um grande ídolo. Como no episódio da expulsão de Gabriel no dérbi. Para sua equipe conseguir vantagem, mesmo baseada em um absurdo, Dudu tentou até impedir que o árbitro tivesse acesso à informação correta.

Mas quem se importa? A resposta no campo compensa e muito. Só não leva à seleção brasileira, mesmo com boa atuação e gol no amistoso contra a Colômbia, porque a concorrência nas pontas do 4-1-4-1 é duríssima, a mais forte no grupo de Tite: Coutinho, Willian, Neymar e Douglas Costa.

Melhor para o Palmeiras, que conta por mais tempo com seu melhor jogador. E cabe a pergunta: quem no Brasil está jogando mais que Dudu?

 

 


Palmeiras quer e pode tudo em 2017. Por isso precisa de mais tempo
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André Rocha

Quando se tem um elenco na conta apenas de montar um bom time e a temporada pode ser considerada positiva se terminar com um título, mesmo que estadual, o trabalho do técnico e dos atletas tende a ser mais simples, com o jogo coletivo potencializando o talento que não oferece tantas possibilidades.

Mas quando se monta o elenco mais qualificado e homogêneo do continente com altíssimo investimento e a proposta é afirmar uma maneira de jogar impondo o ritmo como protagonista, a equação fica bem mais complexa.

É o caso do Palmeiras. Com o fator complicador do técnico vencedor da temporada passada ter partido, mas não para outro time. A rigor, Cuca está no mercado. Mesmo que recuse todas as ofertas. E seu sucessor não tem o mesmo currículo, nem foi a primeira opção da diretoria.

A cada contratação confirmada a pressão sobre Eduardo Baptista só aumenta. Na exigente torcida alviverde ecoa a tese de que colocaram um piloto mediano para conduzir o melhor carro. A sombra de Cuca sempre vai rondar.

E ainda o paradoxo: o técnico rodado e vencedor precisava de menos recursos para alcançar os resultados: marcação individual, cobranças de lateral diretamente na área adversária, jogadas aéreas com bola parada ou rolando, contragolpes em velocidade quando o time tinha vantagem no placar.

Já o novato quer algo mais atual: um 4-1-4-1 com posse de bola, mobilidade, troca de passes até a infiltração. Controlar dentro ou fora de casa. Não é simples de conseguir. E o torcedor sempre vai achar que a fórmula anterior era mais eficiente. A curto prazo, no imediatismo típico da nossa mentalidade. Mas em termos de qualidade na execução do plano de jogo é um desperdício não buscar uma evolução.

Por isso Eduardo Baptista precisa de tempo, mais que qualquer outro treinador no país. O Palmeiras quer e pode tudo na temporada. Investiu para isso. E com tantas opções é preciso testar para definir uma base titular e mexer por necessidade ou para surpreender um adversário. Saber que combinações podem ser utilizadas e entrosá-las.

Como a linha de quatro com Keno, Michel Bastos, Raphael Veiga e Dudu atrás de Willian nos 4 a 0 sobre o Linense em Araraquara. Com revezamento de meias e pontas, mais o apoio dos laterais, especialmente Egídio à esquerda. Envolvendo o adversário com relativa facilidade e ainda mandando a campo Thiago Santos e Barrios, autor do último gol em bela jogada trabalhada e assistência de Dudu, o melhor em campo e o destaque absoluto até aqui.

Superando a ausência de Moisés, que se lesionou ainda no primeiro tempo e, pela gravidade aparente na entorse do joelho esquerdo, pode ficar fora por um longo período. E ainda tem Guerra. E Borja para estrear. E Mina voltando para liderar a retaguarda que tem Fernando Prass de volta. É muito potencial a ser explorado.

A melhor notícia é que há um plano e uma ideia para alcançar os objetivos que focam em resultado, mas através do desempenho. O desafio é ter paciência e entender que há um processo, sem a mágica de “soltar as feras em campo que elas se entendem”.

Para quem vai disputar Libertadores atrás do título, o Paulista tem que ser tratado como laboratório. Mesmo o clássico diante do Corinthians na quarta-feira. Porque experiências dão errado para terminarem nas melhores soluções. A história mostra, dentro ou fora do futebol. A pressa só pode atrapalhar o Palmeiras.


“Você não é Tite nem Cuca” – Carta a Dorival Júnior, por Mozart Maragno
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André Rocha

Dorival Junior Mozart

ESCREVE MOZART MARAGNO (@momitinho)

Caro Dorival Júnior,

Não deve ter no Brasil alguém que admire mais o seu trabalho que eu. Mesmo com algumas ressalvas. Ou é fácil justificar a escalação do fraquíssimo Paulinho na partida decisiva da Copa do Brasil contra o Inter no ano passado?

Por isso, escrevo, com toda humildade, essa carta aberta em tom de alerta. O Santos de 2017 é promissor, mas só terá sucesso se usar a base, tradição do clube e tradição da sua história. Tudo bem que a safra não é das melhores, mas é nela que é preciso achar soluções.

O clube até tem feito até algumas boas contratações, encorpando o elenco, está na fase de grupos da Libertadores por absoluto mérito do técnico, mas há o risco de querer imitar o “modelo” de Corinthians e Palmeiras, o que Tite e Cuca fizeram nos últimos anos.

Você não é Tite ou Cuca. Dorival é Dorival. Dorival é quem chega no Santos e afirma jogadores da base, alguns encostados, até com alguma facilidade. Que faz esse trio jovem ser campeão olímpico. Dorival é quem fez até o improvável Rafinha jogar bola no Flamengo, é quem lança Coutinho.

É quem afirmou Alex Teixeira, é quem pegou Ramires no time reserva do Cruzeiro e em meses botou na seleção brasileira, é quem fez Ganso encantar o Brasil, Neymar sair do estágio de “filé de borboleta” pra astro nacional e internacional em pouco tempo.

O modelo de sucesso para você e para o Santos não será importar jogadores. Eles podem até auxiliar, darem sua contribuição, mas o êxito completo se dará a partir de soluções caseiras, ao risco que você sempre correu e terá de correr de novo.

Lembra do jogo contra a Ponte Preta em Campinas? Perdendo o jogo, lança mão de dois garotos, inclusive estreando o Arthur Gomes, que comeu a bola nesse dia. Correu o risco e foi premiado com a virada. É o risco que tem que correr, é o risco que faz parte da sua carreira e que faz as coisas conspirarem a favor. A coisa flui.

O atual campeão brasileiro contratou uns 50 jogadores nos últimos dois anos. E quem foi o melhor jogador, a estrela do time? Um menino da base, num clube tratado historicamente como comprador e não formador. Foi Gabriel Jesus quem deu o sopro de talento, que quando não esteve em campo acabou gerando o único momento de turbulência da equipe no Brasileirão durante os Jogos Olímpicos.

E o Corinthians do Tite? Tudo bem que o senhor Adenor não é muito adepto a usar a base, mas Malcom (lançado e afirmado por Mano Menezes) foi vital no Corinthians de 2015 campeão nacional, decidindo os dois confrontos diretos contra o Galo.

Dessa forma, Dorival, sempre se pode amadurecer e aprender com modelos vencedores dos adversários, mas sem renegar e fugir do seu DNA e do clube. Santos é base. Dorival é base. Matheus Oliveira, Arthur, André Anderson, Alexandre Tam (sim, é preciso haver o risco com a geração 1999) e outros garotos esperam sua chance. E Rodrygo merece ser tratado com atenção especial, é o próximo “raio” a cair.

Bota pra jogar sem medo de ser feliz, mesmo que a pressão de parte da torcida e até da diretoria seja ter um time de medalhões tal qual as equipes que fracassaram em 2000/2001. Não se iluda com “jogador cascudo em Libertadores”. Isso é bobagem.

ESCREVEU MOZART MARAGNO


Conhecimento: a arma de Eduardo Baptista para convencer no Palmeiras
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André Rocha

Eduardo Baptista Palmeiras

Tite aceitou a proposta da CBF e sua primeira missão foi estudar os jogos da seleção brasileira desde 2013 e depois mapear detalhadamente o que cada atleta no radar estava fazendo em seu clube.

Eduardo Baptista chega ao Palmeiras campeão brasileiro e inicia a temporada depois de dissecar a equipe de Cuca nos 38 jogos da competição nacional, além de analisar informações detalhadas de seus novos comandados, inclusive os novos contratados.

Tite é campeão mundial com o Corinthians, mas se comparado com Guardiola, Ancelotti, Mourinho e outros treinadores que comandam as estrelas do escrete canarinho, sua situação era parecida com a do filho de Nelsinho Baptista, jovem treinador sem grandes títulos no currículo, em um time vencedor.

Um técnico começa a vencer quando convence seus jogadores de que sua ideia é viável. Se não há tanto carisma e títulos para apresentar, o conhecimento é fundamental. Porque hoje o jogador, com staff e empresário a tiracolo, não precisa de um pai. Apenas de um treinador que deixe duas coisas bem claras: o que ele precisa fazer em campo e por que ele é titular ou reserva da equipe.

Gestão de grupo é ser franco e direto. Todos podem elogiar Tite na seleção por ter mudado o clima pesado dos tempos de Dunga. Mas se não houvesse trabalho e informação, a ponto de surpreender os atletas, o sucesso imediato em campo seria mais difícil.

Eis a arma de Baptista. Diante de Felipe Melo – jogador inteligente, de personalidade forte e que entende o futebol atual – e de Guerra, melhor da última Libertadores, além dos campeões de Copa do Brasil e Brasileiro dos últimos anos, se não houver convicção e conteúdo para apresentar virá a pergunta cruel: “ganhou o quê?” Exatamente o que inviabilizou sua permanência no Fluminense de Fred.

O técnico terá que fazer entender as razões para mudar das perseguições individuais dos tempos de Cuca para a marcação por zona e, com a bola, construir um jogo mais apoiado, com bola no chão e transição ofensiva rápida para surpreender o adversário. No mesmo 4-3-3/4-1-4-1 da campanha vencedora no ano passado.

Falta o centroavante para repor Gabriel Jesus e fechar o elenco que Alexandre Mattos começou a remontar ainda em 2016. Pensando em Cuca, agora com Eduardo Baptista. O maior desafio da carreira do novo comandante. Uma incógnita que pode dar certo através do conhecimento.


Por um debate mais tolerante, plural e com conteúdo em 2017
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André Rocha

No ano em que os resultados premiaram o desempenho das equipes dos estudiosos Micale e Tite na seleção brasileira, veio Renato Gaúcho no final com a conquista da Copa do Brasil e seu discurso de exaltação ao talento que minimiza o esforço.

No meio termo, Cuca foi campeão brasileiro fiel às suas convicções, como marcação individual e jogadas aéreas ensaiadas até em cobranças de lateral, mas adaptando conceitos atuais como pressão no campo de ataque e meio-campo mais qualificado. E o melhor: admitindo mesmo depois da conquista que precisa estudar e se aprimorar.

Tudo para lembrar que no Brasil e em qualquer canto que se jogue futebol é possível vencer de várias maneiras. “O futebol é generoso” costuma dizer Paulo Autuori, outro técnico com saldo positivo em 2016.

Mas o resultado deve mesmo encerrar qualquer discussão? O líder ou o campeão não pode ser questionado? Tem sempre razão? Em um jogo tão aleatório e imprevisível, o desempenho nem sempre tem relação direta com o placar final.

É preciso entender o papel do analista, que é chamado todo o tempo a opinar e trabalha com fotografias instantâneas da temporada. Afirmar que um time está jogando melhor naquele momento não significa que levará a taça, nem que será justo pelo desempenho em toda a competição.

Ao mesmo tempo, este que escreve reconhece que exagerou ao dizer que o Palmeiras poderia ser um campeão “pela porta dos fundos”. Melhor seria substituir por “sem brilho e sem números”. Àquela altura o time corria risco de perder a condição de melhor ataque, maior número de vitórias e outras estatísticas. Mas “porta dos fundos” foi demais, talvez pela aversão ao resultadismo precoce de Cuca e seus comandados, alimentado por 22 anos sem títulos brasileiros.

Quem é obrigado a se posicionar o tempo todo sobre algo que muda a cada instante invariavelmente vai dizer alguma bobagem. Sempre, porém, com imenso respeito à instituição. Sem clubismo, pelo menos deste blogueiro. Acredite: com o tempo, é mais fácil o jornalista se trair torcendo por suas convicções do que pelo time que fez com que ele se apaixonasse pelo esporte. É da vaidade humana.

Uma tolice, pois o futebol está aí sempre para dar uma rasteira nas nossas idealizações. Por isso é tão inútil esse Fla-Flu estudiosos x boleiros. Porque não adianta falar a língua dos jogadores sem conteúdo nos treinos, assim como o técnico que prefere os livros ao contato pessoal dificilmente terá a confiança dos seus comandados.

O mesmo vale para o comentarista que trata o futebol como um mero jogo de xadrez. Tão equivocado quanto alguns geradores de obviedades que menosprezam a inteligência de quem está ouvindo. Ou só dizem o que o torcedor quer ouvir, numa relação fornecedor-cliente. Pior ainda os que confundem leveza e humor com piadas grotescas que sempre acabam ofendendo alguém.

O torcedor não tem as obrigações do jornalista. Mas é importante entender que se ele quer interferir na vida do clube, seja como sócio-torcedor ou através dos muitos canais de comunicação que existem hoje, é preciso saber mais. Não dá para colocar tudo na conta do técnico “burro” ou do time “sem vergonha”.

Se assistir apenas aos jogos do seu time, sem entender minimamente a evolução do esporte em todas as áreas, a crítica será sempre rasa. Ou saturada de saudosismo, dos tempos em que o time era o melhor. A velha visão de que tudo no passado era mais bonito. Basta pesquisar na internet, com jogos na íntegra disponíveis, para perceber que felizmente tudo evolui. Por isso fica mais complexo.

Que no ano que chega sejamos mais tolerantes e plurais, respeitando e aprendendo com quem tem algo a transmitir. Com rivalidade, mas sem antagonismos radicais no debate. Sempre valorizando o conteúdo, que é ouro em tempos de tanta informação circulando.

Que o torcedor não seja tratado como uma criança mimada, que não pode ser contrariada. Que os profissionais de futebol lidem melhor com críticas construtivas. Que nós, analistas, estejamos atentos ao que o esporte oferece de objetivo, matemático, mas também ao lúdico e ao imponderável. Não é vergonha dizer que uma bola que bateu no travessão e não entrou por centímetros foi apenas sorte de quem deixou de sofrer o gol. Simples assim.

Por isso estamos aqui falando dessa parte importante de nossas vidas. Imprevisível como cada dia de cada semana de cada mês. De cada bola que rola. Do ano que vira no calendário para lembrar que podemos fazer melhor, mesmo sem garantia de vitória no final dos 90 minutos.

Até 2017!


Viva o campeão! Agora é hora do Palmeiras pensar além do resultado
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André Rocha

Quando o Palmeiras empatou com o Atlético Paranaense no recém inaugurado Allianz Parque na última rodada do Brasileiro de 2014 e só não caiu porque o Santos, cumprindo tabela, venceu o Vitória no Bahia, era consenso que o clube precisava recuperar sua capacidade de competir em alto nível.

Os dois rebaixamentos, em especial o último em 2012, doíam muito numa geração de jovens torcedores que, a rigor, só tinham visto as conquistas do Paulista de 2008 e da Copa do Brasil manchada pelo descenso há quatro anos e um tanto desvalorizada por ter sido a última sem os times envolvidos na Libertadores.

Algo precisava ser feito e o presidente Paulo Nobre, como um mecenas, investiu o próprio dinheiro em um primeiro momento. Mas criando recursos para andar com as próprias pernas. Leia-se sócio-torcedor e receitas com o estádio. Alexandre Mattos veio do Cruzeiro, reformulou o elenco. Mais tarde, a contratação de Marcelo Oliveira, técnico bicampeão brasileiro.

O título da Copa do Brasil valeu para se impor na rivalidade recente com o Santos e, principalmente, para celebrar uma conquista relevante no novo estádio. Foi importante vencer. Ainda que com um futebol taticamente paupérrimo, que dependeu das individualidades e venceu na fibra e nas mãos de Fernando Prass o torneio nacional.

Com 2016 veio Cuca após Marcelo Oliveira não entregar resultado nem desempenho, mesmo com uma pré-temporada. Não deu tempo de recuperar no Paulista nem na Libertadores. O novo técnico, então, prometeu o título brasileiro. Afinal, havia elenco, estrutura e força em casa para isso.

Cuca fez sua equipe entregar bom futebol no primeiro turno, com Roger Guedes e Gabriel Jesus voando na frente. Mas quando o título pareceu de fato mais perto com a manutenção da liderança e a disputa ficou mais dura, ponto a ponto com os concorrentes, o Palmeiras aderiu a um pragmatismo focado no resultado poucas vezes visto. Mesmo na era dos pontos corridos.

Há várias rodadas o mantra “jogo pra ganhar, não pra jogar” ganhou força. O projeto pessoal de Cuca e a vontade geral de encerrar o jejum de 22 anos, com os rivais paulistas vencendo nada menos que dez títulos, se transformaram em obsessão. Toda partida foi tratada como uma tensa decisão e instaurou-se uma espécie de surto coletivo.

Até compreensível pelo contexto e que aliviou contra Botafogo e na vitória sobre a Chapecoense por 1 a 0 que garantiu matematicamente a conquista com mais posse de bola e volume de jogo. A angústia chega ao fim e agora é momento da justa catarse pelo título.

O torcedor tem todo o direito de extravasar, encher a internet de memes e zoar os rivais. Levantar a cabeça, bater no peito e dizer que sempre foi grande e voltou a ser gigante. Disparado o mais regular do Brasileiro de 2016, sem vacilar nos momentos decisivos.

Mas para o ano que vem é preciso pensar além do resultado. A tradição do clube é de grandes times, que jogam bom futebol. Querer jogar, ser protagonista, dominar os adversários. A gestão seguirá a mesma com Mauricio Galiotte, sucessor de Nobre. Dinheiro não vai faltar. Da venda de Gabriel Jesus, do novo contrato de patrocínio master, o maior do Brasil, e das fontes de receita que já existem e tendem a crescer.

Por isso já sai na frente dos concorrentes e vai montando seu elenco, mesmo sem a confirmação da permanência de Cuca. O técnico acerta ao buscar conhecimento, ainda que a Itália não seja o principal centro da Europa. É preciso seguir evoluindo.

A equipe campeã brasileira já dá sinais dos progressos do treinador: meio-campo mais técnico, com Moisés e Tchê Tchê, sem o volante marcador que sempre caracterizou suas equipes. Menos ligações diretas como nos tempos de Jô no Atlético Mineiro. Até as jogadas aéreas diminuíram na média.

Para este que escreve ainda falta aderir à marcação por zona, que é mais inteligente por desgastar menos os jogadores. O time se defende posicionado e não correndo. Ainda funciona por aqui, mas já na competição sul-americana pode complicar.

Se Cuca não ficar, que chegue um técnico que preze mais o jogo. Porque se o objetivo é vencer além das fronteiras brasileiras vai ser preciso entregar mais. Jogar bem, não necessariamente bonito. Algo condizente com as ambições do clube.

É mais que possível. O Palmeiras precisa e o futebol brasileiro também. Primeiro os títulos da redenção, agora é ter o que celebrar além dos três pontos.

 


O surto coletivo verde tem um jogo a menos para sofrer
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André Rocha

Dirigente, treinador, jogador, torcedor, jornalista. O surto coletivo verde continua com seu mantra: “O importante é vencer!”

O que normalmente seria um lema para as duas rodadas finais já dura pelo menos um mês. Desculpas não faltam: cansaço, tensão, trauma de 2009, os dois rebaixamentos para a Série B e os 22 anos sem título brasileiro.

A realidade do campo é que o Palmeiras está tão ansioso para garantir matematicamente a taça que não quer mais jogar. O time entra em campo com a proposta de ser perfeito, 100% eficiente sem a bola e deixar o ataque com a qualidade individual ou as jogadas ensaiadas de bola parada.

O gramado encharcado do Allianz Parque foi o álibi para o jogo físico e direto nos primeiros minutos. Assim saiu o gol de Cleiton Xavier no “abafa” desde a disputa entre Geferson e Mina que ocasionou o escanteio.

Mas a chuva parou e o Palmeiras seguiu sofrendo. Se fosse possível a partida terminaria ali. O que se viu depois foi uma equipe muito atenta no trabalho defensivo. Entrega impressionante de todos na pressão sobre o oponente com a bola, poucas chances para as “bolas vadias” e chutões para afastar qualquer perigo. Erro zero. Mesmo que os acertos também sejam poucos.

Posse de bola dividida, sete finalizações contra 12 do Inter, que foi bem superior nos desarmes certos: 21 contra nove. Mas ameaçou de fato bem pouco. No contragolpe, Gabriel Jesus teve a bola dos 2 a 0, mas o chute colocado bateu na trave de Danilo Fernandes. O garoto não consegue render nesse estilo tão pragmático de Cuca.

Porque o Palmeiras não joga nem deixa jogar. Tem a convicção absoluta de que o sofrimento para arrancar os três pontos é a única saída para não deixar o título escapar. Como se 15 jogos de bom futebol, e nem sempre, compensassem 19 de um desempenho muito aquém para tamanho investimento.

É muito pouco para a grandeza do clube. Mas como na frieza dos números funciona vira uma “verdade” que reduz qualquer discordância a clubismo, bairrismo, perseguição, heresia. Ninguém mais raciocina ou questiona. “Siga o líder” virou resposta para tudo. No apito final, um grito uníssono de alívio.

A boa notícia é que agora falta menos um jogo para sofrer. E muito provavelmente não vai durar até a última rodada.

(Estatísticas: Footstats)


O “Galo Tyson”, do jogo aleatório, está em mais uma decisão
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André Rocha

Cuca fundou a Era “Galo Doido” no Atlético. Um time que se fosse um boxeador seria no estilo Mike Tyson. Sem jogo de pernas e calma para controlar a luta. Esquiva? Só para preparar o golpe seguinte. Só quer atacar e bater mais forte para vencer.

Paulo Autuori herdou a equipe campeão da Libertadores e tentou organizar e transferir um mínimo de cadência. Sem sucesso. Levir Culpi assumiu, buscou algum controle e foi soltando aos poucos. Venceu a Copa do Brasil na intensidade máxima.

Superou o Cruzeiro campeão brasileiro. Com Marcelo Oliveira. Um técnico à moda antiga, da escola Telê Santana. Que acredita no entrosamento adquirido na sequência de treinos coletivos e jogos. Num clima de paz e cordialidade entre os jogadores.

Mas no time celeste bicampeão brasileiro havia intensidade, mas também inteligência e dosagem de ritmo. Um meio-campo com Lucas Silva e Everton Ribeiro não pode viver desse “bate e volta”.

No Palmeiras, sim. Pelas características dos jogadores e por todo um contexto que levou à conquista da Copa do Brasil. A primeira de Marcelo. Jogando no modo “aleatório”.

Foi esse encontro do treinador que enfim ganhou o torneio mata-mata depois de três finais com o time acostumado a jogar como quem parte para uma briga de rua, só trocando golpes, que manteve o “Galo Doido” em rotação. Depois de Aguirre também tentar coordenar melhor e falhar.

Atlético que está na final da Copa do Brasil após eliminar um Internacional repleto de reservas e priorizando a fuga do rebaixamento. Vencendo no Beira-Rio, empatando com muitos sustos no Independência.

Porque jogou aberto o tempo todo. Não é por acaso que Rafael Carioca, um dos melhores passadores do país lembrado por Tite na seleção, esteja no banco para Leandro Donizete e Júnior Urso. Um leão na marcação, outro que se junta ao quarteto ofensivo e corre demais. Só aceleração. Com linhas espaçadas, encaixe de marcação. Sem muita ordem.

Na frente, os responsáveis pelos “diretos nos queixos” dos rivais: De Pratto para Robinho, de Robinho para Pratto nos dois gols. Isso porque Fred não pode disputar o torneio por ter jogado pelo Fluminense.

Mas sofreu atrás com o gol de Aylon, a falha grotesca de Victor que entregou a bola nos pés de Anderson. Duas das quatro finalizações no alvo do time de Celso Roth. Total de 13 conclusões. Demais para um Galo que teve 62% de posse. De volume, zero controle.

No seu estilo está em mais uma decisão. Em grandes torneios, a terceira em quatro anos. Fora a conquista da Recopa Sul-Americana, os dois vice-campeonatos no Brasileiro de pontos corridos. O período mais vencedor da história do clube, sem dúvida.

Construído com grandes histórias de viradas, de “Eu acredito!”, de apoteoses da massa atleticana. No Mineirão ou no Horto. Também de momentos não tão felizes assim, como o vexame contra o Raja Casablanca no Mundial de Clubes, a eliminação para o Internacional de Aguirre na Libertadores 2015 e os humilhantes 3 a 0 para o Corinthians no Brasileiro. Alguns James “Buster” Douglas pelo caminho.

Contra o Grêmio, a busca de mais uma taça. A quinta final de Marcelo Oliveira. No jogo aleatório, querendo o nocaute mais que a vitória por pontos, não se importando em ser golpeado também. O “Galo Tyson”.

(Estatísticas: Footstats)

 


Cinco jogos para o Palmeiras não ser um campeão pela porta dos fundos
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André Rocha

O Palmeiras foi campeão brasileiro com o esquadrão de Ademir da Guia e com os timaços da Era Parmalat comandados por Vanderlei Luxemburgo. Dois bicampeonatos. Equipes históricas pelos craques e pela supremacia diante dos rivais.

Difícil um outro time vencedor do clube na principal competição nacional atingir o mesmo nível. Mas é possível ao menos ficar na memória de quem aprecia bom futebol e deixar algum legado.

O Palmeiras do primeiro turno, mesmo quando não esteve na ponta da tabela, teve momentos marcantes e grandes atuações. No auge de Roger Guedes e Gabriel Jesus, os comandados de Cuca chegaram a dar espetáculo, protagonizar grandes jogos. Provava ser o melhor, ainda que apenas rondasse a liderança.

O do segundo turno perdeu uma invencibilidade de 15 partidas na derrota para o Santos na Vila Belmiro. 1 a 0, gol de Copete. Jogo duro. Porque o alviverde compete muito e sempre. É time difícil de ser batido. A vantagem caiu de seis para cinco pontos. Mas segue com forte cheiro de título faltando cinco partidas.

Internacional, Botafogo e Chapecoense em casa, Atlético-MG e Vitória fora. Jogos que Cuca pode aproveitar a folga na liderança, a perda da invencibilidade que sempre induz um time a focar mais no resultado que no desempenho e as semanas cheia de trabalho, ainda que sem Gabriel Jesus na seleção, para tentar resgatar algo que ficou pelo caminho.

Um jogo mais fluido, com volume e criatividade. Menos pressa para definir o ataque e atalhos em jogadas verticais ensaiadas com bola no chão ou pelo alto. Mais protagonismo e menos especulação quando atuar fora de casa.

A bola passando por Moisés e Tchê Tchê, chegando a Dudu pelos flancos com o suporte dos laterais. Não é possível que a seca de Gabriel Jesus desde o empate com o Flamengo seja apenas um desvio de foco para a seleção brasileira e já pensando no futuro com Guardiola no City.

Com a camisa verde e amarela é óbvio que a companhia é mais qualificada. Nenhum clube brasileiro tem condições de dar ao jovem atacante as parcerias com Neymar e Coutinho. Mas não pode ser só isso. O trabalho de Tite colabora para que ele receba mais vezes em condições de ir às redes.

O torcedor mais apaixonado e pragmático olha a tabela e aponta o maior número de vitórias, o ataque mais positivo. Nas estatísticas, lidera apenas em finalizações. Natural para um time tão vertical e objetivo. Já deixou de ser a defesa menos vazada com o gol sofrido na Vila, Atlético-PR e o próprio Santos sofreram 28, um a menos que o líder.

Mas se a preocupação for apenas administrar a vantagem, o Atlético Mineiro, que já igualou os 56 gols marcados, pode ultrapassar. O que consolidaria Fred ou Robinho na artilharia da competição. E dependendo da combinação de resultados o Palmeiras pode levar a taça para casa sem ter o maior número de vitórias. Hoje são 20 contra 19 do Santos.

É muito pouco para a fantástica história do Alviverde Imponente. O time de Cuca pode e deve entregar mais futebol. Voltar a transformar um desempenho empolgante em resultados e consolidar a conquista sem sofrimento. A ansiedade do treinador que passa para o grupo não pode ser uma desculpa eterna. É possível fazer mais.

Para não se eternizar apenas pelo fim dos 22 anos sem títulos brasileiros e ser lembrado também pela bola jogada. Agora o torcedor quer a taça, esfregar na cara dos rivais e celebrar nas ruas. A longo prazo, porém, é frustrante entrar para a galeria de campeões apenas com números para apresentar. Sem brilho. Pela porta dos fundos.


Vitória do Palmeiras com “aroma” de taça
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André Rocha

O primeiro tempo do Palmeiras foi o que se espera de um líder do campeonato enfrentando equipe lutando contra o rebaixamento: adiantou a marcação, trocou passes e se impôs sobre o Santa Cruz no Arruda.

Com Zé Roberto formando o meio-campo com Tchê Tchê e Moisés. Cuca foi premiado por investir mais na técnica e menos no jogo físico com o golaço do meia veterano. Bola roubada no campo de ataque, troca de passes e lindo toque do camisa onze por cima de Edson.

Foram 53% de posse e oito finalizações contra três. Domínio absoluto, apesar de alguns sustos normais. Atuação consistente, mesmo sem Dudu. Mas com um Roger Guedes novamente aceso pela direita.

Na segunda etapa, a equipe de Cuca mudou. Jogou essencialmente em função do resultado. Começou mais preocupado com a marcação, mas sem controle do jogo. Empate com Arthur, que entrou bem no time de Doriva. Volta ao ataque com Leandro Pereira na vaga de Erik.

Bela jogada de Gabriel Jesus, mas gol perdido. Na sequência, Leandro Pereira vai às redes. De novo o recuo até o pênalti claro e bem cobrado por Grafite. Novamente a postura ofensiva. Ainda que o gol da vitória de Roger Guedes tenha saído numa transição rápida.

Não precisava ser assim, o Palmeiras pode render mais em 90 minutos, propondo o jogo. Como nos primeiros 45. No segundo tempo permitiu 13 finalizações contra apenas seis. Mas de meia dúzia colocou duas nas redes. Eis a vantagem palmeirense no ponto a ponto com o Flamengo. É bem mais contundente.

E eficiente nos números. Melhor campanha do returno. E a ótima notícia para Cuca: desempenho sólido também fora de casa. Melhor visitante. O que faltava ao treinador em outras equipes. Triunfo que abre vantagem na ponta. Três pontos. Fora os doze gols de vantagem no saldo.

Vitória fundamental com a combinação de desempenho e sofrimento que o torcedor gosta. Com “aroma” de taça.

(Estatísticas: Footstats)