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Os méritos (e a estrela) de Cuca na volta ao Palmeiras
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André Rocha

Enfrentar em casa o combalido Vasco voltando à Série A era o melhor dos cenários para a volta de Cuca na estreia do campeão Palmeiras no Brasileiro.

Melhor ainda quando marca os gols em momentos decisivos da partida: logo no início, aos seis minutos, no pênalti tolo de Jomar sobre Dudu que Jean converteu. No final da primeira etapa, quando o Vasco havia equilibrado a disputa e Guerra aproveitou rebote de Martín Silva em chute de Jean. O terceiro no primeiro ataque da segunda etapa, com Borja. Quarto e último na reta final, em novo pênalti do desastroso Jomar sobre Dudu e outro gol de Borja.

Não é justo, porém, atribuir apenas à sorte a construção do placar. Longe disso. O primeiro mérito de Cuca foi resgatar rapidamente a intensidade, desde o primeiro toque na bola com jogada ensaiada em ligação direta. Bem ao seu estilo.

Com a recuperação do Vasco, com o jovem Douglas ditando o rimo no meio-campo, mas muito sacrifício da equipe sem a bola para compensar a participação nula de Nenê e Luis Fabiano, o comandante alviverde trocou o posicionamento de Jean e Tchê Tchê.

Este saiu do trio de meio-campistas no 4-3-3 que variava para o 4-2-3-1 com o avanço de Guerra e foi para a lateral direita. Dentro da marcação individual planejada, Jean cuidaria de Douglas.

Não deu tão certo na parte defensiva. Mas na frente confundiu a marcação cruzmaltina e, na troca, Tchê Tchê passou, Jean se projetou para finalizar e Guerra aproveitar no segundo. No terceiro, jogada de Tchê Tchê como lateral e gol de Borja.

Cuca foi perfeito ao dar confiança ao atacante colombiano, criticado pelo alto investimento e baixo desempenho até aqui. Começou errando lances bobos. Com espaços para acelerar, cresceu naturalmente. Dois gols e o carinho do treinador para enfim dar a resposta esperada.

Assim como Dudu, mantido capitão com Cuca. O melhor em campo partindo da esquerda para desarticular o bloqueio adversário. Dois pênaltis sofridos, duas chances desperdiçadas. Mas voltando a desequilibrar. Não é por acaso. Técnico e craque do time construíram uma relação de confiança mútua.

O primeiro tempo deve ser o norte do Vasco para o Brasileiro. Finalizou nove vezes contra seis do Palmeiras. Boa chance com Pikachu em lançamento primoroso de Douglas. Gol perdido pelo jovem volante no erro de Jean na saída de bola. No final da primeira etapa, poderia ter mudado o jogo. O problema é ser competitivo e ter velocidade na transição ofensiva com dois veteranos na frente.

O Palmeiras de Cuca repete os 4 a 0 do ano passado na estreia  – em 2016 a vítima foi o Atlético-PR. O elenco está mais rico, mas desta vez há uma Libertadores para dividir atenções. Ainda assim, o status de favorito se reforça. Pelos méritos e também pela estrela de Cuca, que faz clube e torcida acreditarem mais na própria força.

(Estatísticas: Footstats)


Calça vinho, marcação individual, lateral na área… Lá vem o Cuca de novo!
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André Rocha

(Foto: Cesar Greco / Fotoarena)

Este blogueiro não aprecia superstições. Nunca repetiu roupa porque o time de coração venceu ou algo na vida pessoal ou profissional deu muito certo. Para quem tem fé é uma tremenda incoerência, porque nada mais é do que uma forma de se sentir no controle dos acontecimentos. Do próprio destino.

Também abomino cobrança de lateral diretamente na área. Só entendo se for um dos poucos recursos de um time sem qualidade técnica para atacar de outra forma, trabalhando mais a bola. Apelar para isso com o elenco mais qualificado do país é de uma pobreza ímpar.

Marcação individual é algo que deveria ter ficado no passado. Lá em 1982, com Gentile colado em Zico e Maradona. Cada um pega o seu e um zagueiro sobra lá atrás. Ou seja, um drible, uma movimentação, um desmarque e tudo se desequilibra e estoura na defesa.

Sem contar que a equipe marca correndo, se desgasta mais e, se o adversário é muito móvel, os jogadores estão fora de suas posições para iniciar o ataque. Normalmente apelam para a ligação direta, o chutão, para que voltem aos pontos de origem.

Unhas roídas até a pele me dão nos nervos. Beijo na santinha é outra superstição, embora eu respeite a religiosidade de quem quer que seja. A meu ver, comandantes tensos e instáveis, em qualquer área de atuação, contaminam o ambiente. Tudo fica muito à flor da pele e o pavio  sempre aceso.

Ou seja, Cuca é praticamente a antítese do que acho que deve ser um técnico de futebol. Ainda acredita na velha escola gaúcha de futebol, inspirada na argentina e uruguaia. Aprecia Felipão e Rubens Minelli. Um jogo que ficou no passado.

Só que dá certo. Porque Alexi Stival é um homem inteligente e observador. Entende as características de seus atletas e vê o futebol atual com atenção. E vai adaptando suas convicções. No Palmeiras campeão brasileiro, Moisés e Tchê Tchê qualificavam a saída de bola. Não mais volantes como Pierre e Leandro Donizete e mais um lateral-zagueiro para liberar o ala do lado oposto e os meias criativos.

O perfil obsessivo e inseguro também faz ensaiar jogadas à exaustão. Desde a saída da bola até o ponto em que ela tem que encontrar o atacante. Coloca pilha nos comandados, que entram nervosos, porém concentrados. Se preciso for, correm o dobro para executar o plano de jogo que cobra intensidade máxima.

É tudo isso que o palmeirense queria de volta. E atleticanos têm saudades. E tricolores, de São Paulo e do Rio de Janeiro, uma gratidão eterna. Impossível não reconhecer os méritos.

Só não me peçam para apreciar ou aprovar. Os palmeirenses no último Brasileiro atacaram este blog e quem escreve nele por uma suposta perseguição ao clube ou torcida pelo Flamengo, o rival na disputa pela liderança na maioria das rodadas.

Sem chance. Sou fã do Palmeiras “rolo compressor” de 1996 e até chorei com Denis em 1986 quando o Palmeiras, na época em um jejum de dez anos, perdeu a final do Paulista para a Internacional de Limeira. Adorava o futebol do ponta Jorginho, achava Mirandinha e Vagner Bacharel carismáticos. Impossível não gostar do time de Luxemburgo bicampeão brasileiro e paulista de 1993/94.

A questão deste que escreve é com o Cuca. Nada pessoal, nem o conheço. Só que é impossível não criticar alguém que pratica quase tudo que você desaprova. É humano preferir que ele não vença. Mas tenham certeza: não persigo, não tento plantar crise aqui neste pequeno espaço. E se houver mérito não recolho o elogio.

O jogo é limpo, como este post é absolutamente sincero. Mesmo sabendo que os idiotas que existem em todas as torcidas não entenderão nada e destilarão seu ódio aqui e nas redes sociais.

Lá vem o Cuca de novo! Com sua calça vinho e o tradicional sinal mandando jogar a bola na área. Cinco meses depois do título brasileiro que tanto queria. Que os palmeirenses tanto sonhavam após 22 anos. Difícil compreender os motivos da recusa em dezembro e do retorno agora. Mas eu nunca tentei entender Alexi Stival.

Não serei hipócrita de desejar boa sorte. Mas fica aqui a promessa renovada do respeito habitual, sabendo identificar pontos positivos e reconhecer que o jogo “maluco”, o “Porco Doido” funciona e agrada o torcedor que adora fazer de seu estádio um caldeirão temido pelos adversários. E nisto o Cuca é muito bom.

E não dá para negar o óbvio: com ele, o Palmeiras fica ainda mais favorito a tudo que disputar na temporada.


Eduardo Baptista já assumiu demitido, esmagado pela sombra de Cuca
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André Rocha

A sucessão de Cuca no Palmeiras era uma das mais complicadas da história do futebol brasileiro. Saiu campeão, idolatrado porque o time com sua cara deu o título que o clube sonhava há tempos. Ainda chegou no ano passado durante a disputa da Libertadores e deixou a impressão de que poderia ter ido mais longe se contasse com o treinador desde o início.

Sem contar o estilo particularíssimo de comandar, com práticas pouco usuais combinando com convicções antigas adaptadas ao futebol atual. Um jogo “maluco” que cativa o torcedor médio pela intensidade e entrega. Basta ver o “Galo Doido” que perdura desde 2013, seja lá qual for o comandante no Atlético Mineiro.

E o pior: não saiu para outro clube. Parou por tempo indeterminado. Sem marcar data de volta. Um paralelo na música seria o “hiato” da banda Los Hermanos em 2007. Não terminaram, mas cada um tomou o seu caminho. Eventualmente voltam. E os fãs sonham com o retorno para um trabalho inédito.

O palmeirense sonha com a volta de Cuca desde o anúncio de sua saída. Por isso Eduardo Baptista já estava demitido no anúncio de sua contratação. Pelo currículo de jovem técnico sem grandes conquistas. Pelo perfil mais alinhado aos conceitos atuais, que acarretaria uma mudança na forma de jogar. Para os mais fanáticos, até por ser filho de Nelsinho, com história mais ligada ao Corinthians como treinador.

Só seria possível sobreviver com uma mistura convincente de desempenho e resultados. Aquele momento mágico em que tudo se encaixa praticamente num estalo. Reforços adicionados à base mantida que entenderiam rapidamente as ideias do comandante e as características dos atletas se combinando ao natural. Algo raríssimo. E improvável.

Não podia dar certo. E errou quem contratou. Porque precisava de tempo para os jogadores acostumados com perseguições individuais se habituarem à marcação por zona. Para o jogo vertical se transformar em uma proposta que valoriza a posse de bola. Para os contratados se entrosarem dentro e fora de campo.

Só que não havia paciência em um ambiente de pressão insuportável, cobrando futebol do elenco mais qualificado do país como se fosse uma questão de distribuir camisas e “faça-se a luz!” Em quatro meses. Sem direito a tropeços.

O Palmeiras de Baptista escorregou. No Paulista contra a Ponte Preta. Na Libertadores diante do Jorge Wilstermann. Sim, houve oscilações e hesitações. A inexplicável opção por três zagueiros de ofício no primeiro tempo em Montevidéu contra o Peñarol.

E aí veio a explosão que se parte de um Abel Braga ou de um técnico mais tarimbado seria vista como um desabafo emocionado. Depois do impacto inicial, os gritos na coletiva no Uruguai foram tratados como a prova de desequilíbrio do jovem comandante. E para o Palmeiras e os palmeirenses é pouco.

A história do clube é pontuada por Oswaldo Brandão, Telê Santana, Luxemburgo, Felipão. Que já chegam campeões ao clube. Com estofo para suportar as cornetas e amendoins. Ainda que a tentativa com o Muricy Ramalho tricampeão brasileiro em 2009 tenha sido traumática.

Eduardo não resistiu. Como a passagem conturbada pelo Fluminense é um sinal de que será preciso recomeçar. Talvez em um clube de menor apelo, sem o peso de investidor milionário, sem a obrigação de resposta imediata.

Para o Alviverde Imponente, resta Cuca. Se ele não quiser de novo, o jeito será procurar outra grife. Ou alguém com perfil semelhante ao do técnico campeão brasileiro. Ou um treinador com história no clube, ainda que como jogador. Um símbolo.

Para não ser moído pela exigência altíssima, talvez desproporcional. Baptista nem moído foi, mas esmagado pela sombra de Cuca.


Quem no Brasil está jogando mais que Dudu?
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André Rocha

Não é de hoje. O Palmeiras do segundo turno do título brasileiro – mais pragmático e focado no resultado, não conseguiria os incríveis 44 pontos, melhor campanha em um turno na era dos pontos corridos, sem o brilho e a consistência de Dudu.

Com a ausência de Gabriel Jesus pelas seguidas convocações para as seleções olímpica e principal, e a queda de produção de Roger Guedes, assumiu a faixa de capitão e o protagonismo depois de brigar e se reconciliar com o técnico Cuca.

Foram dez passes para gols do ponteiro que atuava pela esquerda num 4-3-3. Jogador da bola parada em momentos de pressão e da velocidade nos contragolpes. Fundamental.

Em 2015 já havia sido importante na conquista da Copa do Brasil. Atuando mais solto e próximo da zona de decisão como um meia atrás do centroavante, foi o artilheiro alviverde na temporada com 16 gols.

Dudu é ponta e meia. Serve, faz gols e tem liderança. Por isso precisamos falar mais dele.

Nos 3 a 0 sobre o São Paulo no Allianz Parque ganhou os holofotes com o golaço de cobertura sobre o goleiro Denis. O segundo ele na temporada. Talvez o camisa sete nem tenha sido o grande destaque do time agora comandado por Eduardo Baptista, já que Tchê Tchê foi onipresente no meio-campo. O trabalho coletivo também merece atenção, com seguidas bolas roubadas no campo de ataque.

Mas Dudu sempre está presente, como peça chave. Em 2017 já são seis assistências, um pênalti sofrido e o cruzamento que Thiago Santos desviou e Keno completou no gol de empate contra o Tucumán na estreia da Libertadores.

O novo treinador só tem elogios para seu atacante: “Tenho falado para ele do grande potencial que tem. Um grande jogador. O cara que pensa em jogar na Europa e seleção tem que jogar em todos os lugares. E foi muito bem”, exaltou Baptista na coletiva depois do clássico “Choque Rei”.

Um alto investimento do clube na contratação ao Dinamo de Kiev que na época gerou polêmica pelo “chapéu” nos rivais, mas que em campo se paga a cada jogo. Um caso raro de quem evoluiu quando voltou da experiência na Europa.

Dudu tem intensidade para pressionar no campo de ataque ou voltar até a própria linha de fundo se for preciso. Sabe dar profundidade aos ataques, mas também procura a diagonal. Tem visão de jogo para um passe de meia, mas chama lançamento em contragolpe.

Tem também a postura que agrada o torcedor mais fanático: “tudo pelo time”. Mesmo que às vezes esbarre na ética, algo que se espera de um grande ídolo. Como no episódio da expulsão de Gabriel no dérbi. Para sua equipe conseguir vantagem, mesmo baseada em um absurdo, Dudu tentou até impedir que o árbitro tivesse acesso à informação correta.

Mas quem se importa? A resposta no campo compensa e muito. Só não leva à seleção brasileira, mesmo com boa atuação e gol no amistoso contra a Colômbia, porque a concorrência nas pontas do 4-1-4-1 é duríssima, a mais forte no grupo de Tite: Coutinho, Willian, Neymar e Douglas Costa.

Melhor para o Palmeiras, que conta por mais tempo com seu melhor jogador. E cabe a pergunta: quem no Brasil está jogando mais que Dudu?

 

 


Palmeiras quer e pode tudo em 2017. Por isso precisa de mais tempo
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André Rocha

Quando se tem um elenco na conta apenas de montar um bom time e a temporada pode ser considerada positiva se terminar com um título, mesmo que estadual, o trabalho do técnico e dos atletas tende a ser mais simples, com o jogo coletivo potencializando o talento que não oferece tantas possibilidades.

Mas quando se monta o elenco mais qualificado e homogêneo do continente com altíssimo investimento e a proposta é afirmar uma maneira de jogar impondo o ritmo como protagonista, a equação fica bem mais complexa.

É o caso do Palmeiras. Com o fator complicador do técnico vencedor da temporada passada ter partido, mas não para outro time. A rigor, Cuca está no mercado. Mesmo que recuse todas as ofertas. E seu sucessor não tem o mesmo currículo, nem foi a primeira opção da diretoria.

A cada contratação confirmada a pressão sobre Eduardo Baptista só aumenta. Na exigente torcida alviverde ecoa a tese de que colocaram um piloto mediano para conduzir o melhor carro. A sombra de Cuca sempre vai rondar.

E ainda o paradoxo: o técnico rodado e vencedor precisava de menos recursos para alcançar os resultados: marcação individual, cobranças de lateral diretamente na área adversária, jogadas aéreas com bola parada ou rolando, contragolpes em velocidade quando o time tinha vantagem no placar.

Já o novato quer algo mais atual: um 4-1-4-1 com posse de bola, mobilidade, troca de passes até a infiltração. Controlar dentro ou fora de casa. Não é simples de conseguir. E o torcedor sempre vai achar que a fórmula anterior era mais eficiente. A curto prazo, no imediatismo típico da nossa mentalidade. Mas em termos de qualidade na execução do plano de jogo é um desperdício não buscar uma evolução.

Por isso Eduardo Baptista precisa de tempo, mais que qualquer outro treinador no país. O Palmeiras quer e pode tudo na temporada. Investiu para isso. E com tantas opções é preciso testar para definir uma base titular e mexer por necessidade ou para surpreender um adversário. Saber que combinações podem ser utilizadas e entrosá-las.

Como a linha de quatro com Keno, Michel Bastos, Raphael Veiga e Dudu atrás de Willian nos 4 a 0 sobre o Linense em Araraquara. Com revezamento de meias e pontas, mais o apoio dos laterais, especialmente Egídio à esquerda. Envolvendo o adversário com relativa facilidade e ainda mandando a campo Thiago Santos e Barrios, autor do último gol em bela jogada trabalhada e assistência de Dudu, o melhor em campo e o destaque absoluto até aqui.

Superando a ausência de Moisés, que se lesionou ainda no primeiro tempo e, pela gravidade aparente na entorse do joelho esquerdo, pode ficar fora por um longo período. E ainda tem Guerra. E Borja para estrear. E Mina voltando para liderar a retaguarda que tem Fernando Prass de volta. É muito potencial a ser explorado.

A melhor notícia é que há um plano e uma ideia para alcançar os objetivos que focam em resultado, mas através do desempenho. O desafio é ter paciência e entender que há um processo, sem a mágica de “soltar as feras em campo que elas se entendem”.

Para quem vai disputar Libertadores atrás do título, o Paulista tem que ser tratado como laboratório. Mesmo o clássico diante do Corinthians na quarta-feira. Porque experiências dão errado para terminarem nas melhores soluções. A história mostra, dentro ou fora do futebol. A pressa só pode atrapalhar o Palmeiras.


“Você não é Tite nem Cuca” – Carta a Dorival Júnior, por Mozart Maragno
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André Rocha

Dorival Junior Mozart

ESCREVE MOZART MARAGNO (@momitinho)

Caro Dorival Júnior,

Não deve ter no Brasil alguém que admire mais o seu trabalho que eu. Mesmo com algumas ressalvas. Ou é fácil justificar a escalação do fraquíssimo Paulinho na partida decisiva da Copa do Brasil contra o Inter no ano passado?

Por isso, escrevo, com toda humildade, essa carta aberta em tom de alerta. O Santos de 2017 é promissor, mas só terá sucesso se usar a base, tradição do clube e tradição da sua história. Tudo bem que a safra não é das melhores, mas é nela que é preciso achar soluções.

O clube até tem feito até algumas boas contratações, encorpando o elenco, está na fase de grupos da Libertadores por absoluto mérito do técnico, mas há o risco de querer imitar o “modelo” de Corinthians e Palmeiras, o que Tite e Cuca fizeram nos últimos anos.

Você não é Tite ou Cuca. Dorival é Dorival. Dorival é quem chega no Santos e afirma jogadores da base, alguns encostados, até com alguma facilidade. Que faz esse trio jovem ser campeão olímpico. Dorival é quem fez até o improvável Rafinha jogar bola no Flamengo, é quem lança Coutinho.

É quem afirmou Alex Teixeira, é quem pegou Ramires no time reserva do Cruzeiro e em meses botou na seleção brasileira, é quem fez Ganso encantar o Brasil, Neymar sair do estágio de “filé de borboleta” pra astro nacional e internacional em pouco tempo.

O modelo de sucesso para você e para o Santos não será importar jogadores. Eles podem até auxiliar, darem sua contribuição, mas o êxito completo se dará a partir de soluções caseiras, ao risco que você sempre correu e terá de correr de novo.

Lembra do jogo contra a Ponte Preta em Campinas? Perdendo o jogo, lança mão de dois garotos, inclusive estreando o Arthur Gomes, que comeu a bola nesse dia. Correu o risco e foi premiado com a virada. É o risco que tem que correr, é o risco que faz parte da sua carreira e que faz as coisas conspirarem a favor. A coisa flui.

O atual campeão brasileiro contratou uns 50 jogadores nos últimos dois anos. E quem foi o melhor jogador, a estrela do time? Um menino da base, num clube tratado historicamente como comprador e não formador. Foi Gabriel Jesus quem deu o sopro de talento, que quando não esteve em campo acabou gerando o único momento de turbulência da equipe no Brasileirão durante os Jogos Olímpicos.

E o Corinthians do Tite? Tudo bem que o senhor Adenor não é muito adepto a usar a base, mas Malcom (lançado e afirmado por Mano Menezes) foi vital no Corinthians de 2015 campeão nacional, decidindo os dois confrontos diretos contra o Galo.

Dessa forma, Dorival, sempre se pode amadurecer e aprender com modelos vencedores dos adversários, mas sem renegar e fugir do seu DNA e do clube. Santos é base. Dorival é base. Matheus Oliveira, Arthur, André Anderson, Alexandre Tam (sim, é preciso haver o risco com a geração 1999) e outros garotos esperam sua chance. E Rodrygo merece ser tratado com atenção especial, é o próximo “raio” a cair.

Bota pra jogar sem medo de ser feliz, mesmo que a pressão de parte da torcida e até da diretoria seja ter um time de medalhões tal qual as equipes que fracassaram em 2000/2001. Não se iluda com “jogador cascudo em Libertadores”. Isso é bobagem.

ESCREVEU MOZART MARAGNO


Conhecimento: a arma de Eduardo Baptista para convencer no Palmeiras
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André Rocha

Eduardo Baptista Palmeiras

Tite aceitou a proposta da CBF e sua primeira missão foi estudar os jogos da seleção brasileira desde 2013 e depois mapear detalhadamente o que cada atleta no radar estava fazendo em seu clube.

Eduardo Baptista chega ao Palmeiras campeão brasileiro e inicia a temporada depois de dissecar a equipe de Cuca nos 38 jogos da competição nacional, além de analisar informações detalhadas de seus novos comandados, inclusive os novos contratados.

Tite é campeão mundial com o Corinthians, mas se comparado com Guardiola, Ancelotti, Mourinho e outros treinadores que comandam as estrelas do escrete canarinho, sua situação era parecida com a do filho de Nelsinho Baptista, jovem treinador sem grandes títulos no currículo, em um time vencedor.

Um técnico começa a vencer quando convence seus jogadores de que sua ideia é viável. Se não há tanto carisma e títulos para apresentar, o conhecimento é fundamental. Porque hoje o jogador, com staff e empresário a tiracolo, não precisa de um pai. Apenas de um treinador que deixe duas coisas bem claras: o que ele precisa fazer em campo e por que ele é titular ou reserva da equipe.

Gestão de grupo é ser franco e direto. Todos podem elogiar Tite na seleção por ter mudado o clima pesado dos tempos de Dunga. Mas se não houvesse trabalho e informação, a ponto de surpreender os atletas, o sucesso imediato em campo seria mais difícil.

Eis a arma de Baptista. Diante de Felipe Melo – jogador inteligente, de personalidade forte e que entende o futebol atual – e de Guerra, melhor da última Libertadores, além dos campeões de Copa do Brasil e Brasileiro dos últimos anos, se não houver convicção e conteúdo para apresentar virá a pergunta cruel: “ganhou o quê?” Exatamente o que inviabilizou sua permanência no Fluminense de Fred.

O técnico terá que fazer entender as razões para mudar das perseguições individuais dos tempos de Cuca para a marcação por zona e, com a bola, construir um jogo mais apoiado, com bola no chão e transição ofensiva rápida para surpreender o adversário. No mesmo 4-3-3/4-1-4-1 da campanha vencedora no ano passado.

Falta o centroavante para repor Gabriel Jesus e fechar o elenco que Alexandre Mattos começou a remontar ainda em 2016. Pensando em Cuca, agora com Eduardo Baptista. O maior desafio da carreira do novo comandante. Uma incógnita que pode dar certo através do conhecimento.


Por um debate mais tolerante, plural e com conteúdo em 2017
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André Rocha

No ano em que os resultados premiaram o desempenho das equipes dos estudiosos Micale e Tite na seleção brasileira, veio Renato Gaúcho no final com a conquista da Copa do Brasil e seu discurso de exaltação ao talento que minimiza o esforço.

No meio termo, Cuca foi campeão brasileiro fiel às suas convicções, como marcação individual e jogadas aéreas ensaiadas até em cobranças de lateral, mas adaptando conceitos atuais como pressão no campo de ataque e meio-campo mais qualificado. E o melhor: admitindo mesmo depois da conquista que precisa estudar e se aprimorar.

Tudo para lembrar que no Brasil e em qualquer canto que se jogue futebol é possível vencer de várias maneiras. “O futebol é generoso” costuma dizer Paulo Autuori, outro técnico com saldo positivo em 2016.

Mas o resultado deve mesmo encerrar qualquer discussão? O líder ou o campeão não pode ser questionado? Tem sempre razão? Em um jogo tão aleatório e imprevisível, o desempenho nem sempre tem relação direta com o placar final.

É preciso entender o papel do analista, que é chamado todo o tempo a opinar e trabalha com fotografias instantâneas da temporada. Afirmar que um time está jogando melhor naquele momento não significa que levará a taça, nem que será justo pelo desempenho em toda a competição.

Ao mesmo tempo, este que escreve reconhece que exagerou ao dizer que o Palmeiras poderia ser um campeão “pela porta dos fundos”. Melhor seria substituir por “sem brilho e sem números”. Àquela altura o time corria risco de perder a condição de melhor ataque, maior número de vitórias e outras estatísticas. Mas “porta dos fundos” foi demais, talvez pela aversão ao resultadismo precoce de Cuca e seus comandados, alimentado por 22 anos sem títulos brasileiros.

Quem é obrigado a se posicionar o tempo todo sobre algo que muda a cada instante invariavelmente vai dizer alguma bobagem. Sempre, porém, com imenso respeito à instituição. Sem clubismo, pelo menos deste blogueiro. Acredite: com o tempo, é mais fácil o jornalista se trair torcendo por suas convicções do que pelo time que fez com que ele se apaixonasse pelo esporte. É da vaidade humana.

Uma tolice, pois o futebol está aí sempre para dar uma rasteira nas nossas idealizações. Por isso é tão inútil esse Fla-Flu estudiosos x boleiros. Porque não adianta falar a língua dos jogadores sem conteúdo nos treinos, assim como o técnico que prefere os livros ao contato pessoal dificilmente terá a confiança dos seus comandados.

O mesmo vale para o comentarista que trata o futebol como um mero jogo de xadrez. Tão equivocado quanto alguns geradores de obviedades que menosprezam a inteligência de quem está ouvindo. Ou só dizem o que o torcedor quer ouvir, numa relação fornecedor-cliente. Pior ainda os que confundem leveza e humor com piadas grotescas que sempre acabam ofendendo alguém.

O torcedor não tem as obrigações do jornalista. Mas é importante entender que se ele quer interferir na vida do clube, seja como sócio-torcedor ou através dos muitos canais de comunicação que existem hoje, é preciso saber mais. Não dá para colocar tudo na conta do técnico “burro” ou do time “sem vergonha”.

Se assistir apenas aos jogos do seu time, sem entender minimamente a evolução do esporte em todas as áreas, a crítica será sempre rasa. Ou saturada de saudosismo, dos tempos em que o time era o melhor. A velha visão de que tudo no passado era mais bonito. Basta pesquisar na internet, com jogos na íntegra disponíveis, para perceber que felizmente tudo evolui. Por isso fica mais complexo.

Que no ano que chega sejamos mais tolerantes e plurais, respeitando e aprendendo com quem tem algo a transmitir. Com rivalidade, mas sem antagonismos radicais no debate. Sempre valorizando o conteúdo, que é ouro em tempos de tanta informação circulando.

Que o torcedor não seja tratado como uma criança mimada, que não pode ser contrariada. Que os profissionais de futebol lidem melhor com críticas construtivas. Que nós, analistas, estejamos atentos ao que o esporte oferece de objetivo, matemático, mas também ao lúdico e ao imponderável. Não é vergonha dizer que uma bola que bateu no travessão e não entrou por centímetros foi apenas sorte de quem deixou de sofrer o gol. Simples assim.

Por isso estamos aqui falando dessa parte importante de nossas vidas. Imprevisível como cada dia de cada semana de cada mês. De cada bola que rola. Do ano que vira no calendário para lembrar que podemos fazer melhor, mesmo sem garantia de vitória no final dos 90 minutos.

Até 2017!


Viva o campeão! Agora é hora do Palmeiras pensar além do resultado
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André Rocha

Quando o Palmeiras empatou com o Atlético Paranaense no recém inaugurado Allianz Parque na última rodada do Brasileiro de 2014 e só não caiu porque o Santos, cumprindo tabela, venceu o Vitória no Bahia, era consenso que o clube precisava recuperar sua capacidade de competir em alto nível.

Os dois rebaixamentos, em especial o último em 2012, doíam muito numa geração de jovens torcedores que, a rigor, só tinham visto as conquistas do Paulista de 2008 e da Copa do Brasil manchada pelo descenso há quatro anos e um tanto desvalorizada por ter sido a última sem os times envolvidos na Libertadores.

Algo precisava ser feito e o presidente Paulo Nobre, como um mecenas, investiu o próprio dinheiro em um primeiro momento. Mas criando recursos para andar com as próprias pernas. Leia-se sócio-torcedor e receitas com o estádio. Alexandre Mattos veio do Cruzeiro, reformulou o elenco. Mais tarde, a contratação de Marcelo Oliveira, técnico bicampeão brasileiro.

O título da Copa do Brasil valeu para se impor na rivalidade recente com o Santos e, principalmente, para celebrar uma conquista relevante no novo estádio. Foi importante vencer. Ainda que com um futebol taticamente paupérrimo, que dependeu das individualidades e venceu na fibra e nas mãos de Fernando Prass o torneio nacional.

Com 2016 veio Cuca após Marcelo Oliveira não entregar resultado nem desempenho, mesmo com uma pré-temporada. Não deu tempo de recuperar no Paulista nem na Libertadores. O novo técnico, então, prometeu o título brasileiro. Afinal, havia elenco, estrutura e força em casa para isso.

Cuca fez sua equipe entregar bom futebol no primeiro turno, com Roger Guedes e Gabriel Jesus voando na frente. Mas quando o título pareceu de fato mais perto com a manutenção da liderança e a disputa ficou mais dura, ponto a ponto com os concorrentes, o Palmeiras aderiu a um pragmatismo focado no resultado poucas vezes visto. Mesmo na era dos pontos corridos.

Há várias rodadas o mantra “jogo pra ganhar, não pra jogar” ganhou força. O projeto pessoal de Cuca e a vontade geral de encerrar o jejum de 22 anos, com os rivais paulistas vencendo nada menos que dez títulos, se transformaram em obsessão. Toda partida foi tratada como uma tensa decisão e instaurou-se uma espécie de surto coletivo.

Até compreensível pelo contexto e que aliviou contra Botafogo e na vitória sobre a Chapecoense por 1 a 0 que garantiu matematicamente a conquista com mais posse de bola e volume de jogo. A angústia chega ao fim e agora é momento da justa catarse pelo título.

O torcedor tem todo o direito de extravasar, encher a internet de memes e zoar os rivais. Levantar a cabeça, bater no peito e dizer que sempre foi grande e voltou a ser gigante. Disparado o mais regular do Brasileiro de 2016, sem vacilar nos momentos decisivos.

Mas para o ano que vem é preciso pensar além do resultado. A tradição do clube é de grandes times, que jogam bom futebol. Querer jogar, ser protagonista, dominar os adversários. A gestão seguirá a mesma com Mauricio Galiotte, sucessor de Nobre. Dinheiro não vai faltar. Da venda de Gabriel Jesus, do novo contrato de patrocínio master, o maior do Brasil, e das fontes de receita que já existem e tendem a crescer.

Por isso já sai na frente dos concorrentes e vai montando seu elenco, mesmo sem a confirmação da permanência de Cuca. O técnico acerta ao buscar conhecimento, ainda que a Itália não seja o principal centro da Europa. É preciso seguir evoluindo.

A equipe campeã brasileira já dá sinais dos progressos do treinador: meio-campo mais técnico, com Moisés e Tchê Tchê, sem o volante marcador que sempre caracterizou suas equipes. Menos ligações diretas como nos tempos de Jô no Atlético Mineiro. Até as jogadas aéreas diminuíram na média.

Para este que escreve ainda falta aderir à marcação por zona, que é mais inteligente por desgastar menos os jogadores. O time se defende posicionado e não correndo. Ainda funciona por aqui, mas já na competição sul-americana pode complicar.

Se Cuca não ficar, que chegue um técnico que preze mais o jogo. Porque se o objetivo é vencer além das fronteiras brasileiras vai ser preciso entregar mais. Jogar bem, não necessariamente bonito. Algo condizente com as ambições do clube.

É mais que possível. O Palmeiras precisa e o futebol brasileiro também. Primeiro os títulos da redenção, agora é ter o que celebrar além dos três pontos.

 


O surto coletivo verde tem um jogo a menos para sofrer
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André Rocha

Dirigente, treinador, jogador, torcedor, jornalista. O surto coletivo verde continua com seu mantra: “O importante é vencer!”

O que normalmente seria um lema para as duas rodadas finais já dura pelo menos um mês. Desculpas não faltam: cansaço, tensão, trauma de 2009, os dois rebaixamentos para a Série B e os 22 anos sem título brasileiro.

A realidade do campo é que o Palmeiras está tão ansioso para garantir matematicamente a taça que não quer mais jogar. O time entra em campo com a proposta de ser perfeito, 100% eficiente sem a bola e deixar o ataque com a qualidade individual ou as jogadas ensaiadas de bola parada.

O gramado encharcado do Allianz Parque foi o álibi para o jogo físico e direto nos primeiros minutos. Assim saiu o gol de Cleiton Xavier no “abafa” desde a disputa entre Geferson e Mina que ocasionou o escanteio.

Mas a chuva parou e o Palmeiras seguiu sofrendo. Se fosse possível a partida terminaria ali. O que se viu depois foi uma equipe muito atenta no trabalho defensivo. Entrega impressionante de todos na pressão sobre o oponente com a bola, poucas chances para as “bolas vadias” e chutões para afastar qualquer perigo. Erro zero. Mesmo que os acertos também sejam poucos.

Posse de bola dividida, sete finalizações contra 12 do Inter, que foi bem superior nos desarmes certos: 21 contra nove. Mas ameaçou de fato bem pouco. No contragolpe, Gabriel Jesus teve a bola dos 2 a 0, mas o chute colocado bateu na trave de Danilo Fernandes. O garoto não consegue render nesse estilo tão pragmático de Cuca.

Porque o Palmeiras não joga nem deixa jogar. Tem a convicção absoluta de que o sofrimento para arrancar os três pontos é a única saída para não deixar o título escapar. Como se 15 jogos de bom futebol, e nem sempre, compensassem 19 de um desempenho muito aquém para tamanho investimento.

É muito pouco para a grandeza do clube. Mas como na frieza dos números funciona vira uma “verdade” que reduz qualquer discordância a clubismo, bairrismo, perseguição, heresia. Ninguém mais raciocina ou questiona. “Siga o líder” virou resposta para tudo. No apito final, um grito uníssono de alívio.

A boa notícia é que agora falta menos um jogo para sofrer. E muito provavelmente não vai durar até a última rodada.

(Estatísticas: Footstats)