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Levir Culpi pode ser o “Renato Gaúcho” de Dorival Júnior no Santos
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André Rocha

Estrear técnico num período sem tempo para treinamentos, com partidas a cada três dias, é sempre uma missão inglória. Não foi diferente para Levir Culpi que recebeu de Elano o Santos de Dorival Júnior.

No clássico da Vila Belmiro, foi possível ver uma equipe mais atenta, intensa e buscando um jogo mais vertical – na vitória sobre o Atlético-PR já havia chamado atenção a efetividade. Nem sinal da posse estéril de vários momentos da temporada.

Mas a proposta de não ser tão protagonista, definindo mais rapidamente a jogada tem efeitos colaterais, como a pressão palmeirense no segundo tempo que transformou Vanderlei no melhor jogador em campo. Triunfo com arbitragem polêmica no gol de Kayke em disputa com Edu Dracena  Impressão de falta do atacante no zagueiro, que reclamou de infração sobre ele também no segundo tempo, mas na área santista.

Passe de Jean Motta, improvisado novamente na lateral esquerda e sofreu na defesa com os seguidos ataques palmeirenses. Faltou também mais mobilidade de Lucas Lima, vigiado pelo volante Thiago Santos. O 4-2-3-1 mantido por Levir teve problemas de compactação.

O Santos terminou com 49% de posse, apenas oito finalizações contra 14 do rival – cinco a oito no alvo. Por outro lado, foram 29 desarmes certos contra 16. Uma clara mudança de perfil e de postura.

Primeira vitória em clássicos na temporada. De um alvinegro praiano que pode viver experiência parecida com a do Grêmio. Assim como Roger Machado, Dorival Júnior deixa um estilo assimilado num trabalho de quase dois anos, porém desgastado.

Levir não é o maior ídolo do Santos, como Renato Portaluppi no time gaúcho. Mas sua visão de futebol e gestão de vestiário podem trazer ao time um complemento às práticas do antecessor. Alternando a valorização do controle da bola com mais rapidez na transição ofensiva, contundência no ataque e o modo Levir de lidar com todos: direto e franco, sem os laços que Dorival construiu naturalmente pelo tempo de convivência. A concorrência vai ficar mais aberta. o ambiente mais competitivo.

Em junho será difícil ver uma mudança mais significativa, pela sequência de jogos. Por ora, importante é pontuar para mudar o patamar na disputa. Com os nove pontos nas últimas três rodadas, já se aproximou do G-4. Sem alarde, o atual vice-campeão pode voltar a brigar no topo. Com Levir como o “Renato Gaúcho” da Vila Belmiro.

(Estatisticas: Footstats) 


Caiu o “sobrevivente” Dorival Júnior. Afinal, tem hora certa para terminar?
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André Rocha

Assistindo ao clássico paulista em Itaquera, em determinado momento, ainda com o jogo empatado sem gols, veio à mente a seguinte conclusão: “Dorival Júnior não consegue tirar mais nada desse Santos”.

Impressionava como a proposta de jogo baseada em posse de bola tinha se tornado previsível, enfadonha. Sem Lucas Lima também perdia lucidez e rapidez de execução, mesmo considerando a queda de rendimento do meia. Algo precisava ser feito.

A troca no comando técnico foi a primeira opção no meu raciocínio solto, no livre pensar. Logo recriminado pela razão. Afinal, era o trabalho mais longo entre as equipes da Série A. Um “sobrevivente”. E tudo que cobramos é tempo para o treinador implementar seu modelo de jogo e fazer sua equipe jogar “de memória”.

Mas logo em seguida, já com a partida encerrada em dois a zero para o então líder Corinthians, que perderia novamente esta condição no saldo de gols para a impressionante Chapecoense que alcançou o mesmo placar no Mineirão sobre o mesmo Cruzeiro que a eliminara da Copa do Brasil na quinta-feira, veio a reflexão:

Afinal, qual é o momento de se dar por encerrado o ciclo de um treinador? Costumamos dizer que é, no mínimo, uma temporada. Dorival já estava chegando a dois anos. Qual era a margem de evolução? Apesar da campanha invicta na Libertadores, em um grupo fraquíssimo, parecia claro que a equipe não alcançava e dificilmente alcançaria um bom rendimento.

Também por causa do equívoco do comandante santista ao se deixar seduzir pela ideia da formação do time “cascudo” para o torneio continental. A contratação de Leandro Donizete sempre pareceu um ato contrário aos princípios de Dorival e até à história vitoriosa do Santos. Virando as costas para as divisões de base, ainda que a safra atual não seja das mais talentosas. Contratando um volante obsoleto, mas com liderança e “pegada”.

Na realidade do futebol brasileiro, a queda no desempenho em 2017 só se sustentaria com um passado recente de conquistas relevantes. Não foi o caso. Apenas um estadual e a frustração em 2015 com a perda da vaga que parecia certa na Libertadores, via Copa do Brasil ou Brasileiro. Recuperada com a campanha sólida no ano seguinte e a segunda colocação. Impressionante pelas muitas perdas por lesões, negociações, convocações. Faltou, porém, a taça importante para respaldar a paciência.

Porque em qualquer ramo é preciso apresentar resultados que são consequência do bom desempenho. Ou ao menos um rendimento que sugira momentos melhores no futuro. Se não for assim, o que cobrar? Como avaliar? Onde estará o mérito?

É a pergunta que se faz ao observar o Arsenal mantendo Arsene Wenger por mais dois anos. Vai chegar a 23 no comando do time londrino. Mudou o estilo e a história do clube, merece todas as homenagens. Mas a realidade é que entrega menos desempenho e resultados a cada temporada. Cada vez mais irregular e sem conquistas relevantes além das copas nacionais.

A consequência é que os Gunners saíram da rota de grandes contratações, mesmo as promessas, do futebol mundial. Um Vinicius Júnior, por exemplo, não se empolgaria com uma proposta de Wenger. Porque ele tem 16 e há 13 o Arsenal não vence uma Premier League e desta vez nem a classificação para a Liga dos Campeões veio como consolo. E quando os concorrentes fraquejaram na temporada passada, quem aproveitou foi o Leicester City.

Ou seja, a insistência vem sendo nociva ao clube. Qual a margem de crescimento? Imaginar o Arsenal campeão com Wenger é tão improvável quando o Leicester ganhar com Claudio Ranieri. Só uma incrível conjunção dos astros. Muito pouco para a história do clube. Já passou da hora de trocar e o Arsenal parece perdido. Como quem empurra um casamento esfacelado por comodismo e pelo medo do desconhecido.

Por aqui exageram no imediatismo, nas contratações e demissões sem convicção. Mas às vezes funcionam. Como no Grêmio de Renato Gaúcho, que recebeu um time de Roger Machado com muitas virtudes e alguns problemas. O maior ídolo do clube chegou com seu carisma e inteligência para acertar o vestiário, ajustar o que estava errado e hoje o clube celebra o título da Copa do Brasil, a volta à Libertadores e o futebol mais interessante do país no último mês.  Conseguiria com a manutenção de Roger? Nunca saberemos.

O que a experiência de vida diz é que a mudança pode ser muito saudável. Para o casal que se permite tentar ser mais feliz com novos parceiros. Para um livro que necessita de um segundo olhar, como as editoras costumam fazer nas revisões de textos – porque às vezes os olhos estão “viciados” e deixam passar alguns erros. Natural, humano.

Dorival e Santos descruzam seus caminhos. O profissional não deve ficar muito tempo desempregado por sua notória competência. Triste por resultar em um cenário no qual apenas Flamengo e Atlético-GO tenham seus treinadores há mais de um ano. Talvez toda a cadeia produtiva do nosso futebol esteja acostumada com isso – dirigente, jogadores, imprensa e os próprios técnicos. Por isso o pensamento automático do blogueiro. É provável que estejamos todos errados.

Mas se entender com o tempo nunca é fácil. Sempre haverá o “se” em forma de incerteza. Porque a convicção que não vira teimosia é virtude rara, dos sábios e maduros. Quem sabe um dia chegaremos lá?


Eles não podem errar! A dura transição do mercado de treinadores no Brasil
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André Rocha

Quando Zé Ricardo chamou Matheus Sávio para dar instruções enquanto a torcida do Flamengo no Serra Dourada pedia a entrada da joia Vinícius Júnior, o treinador sabia que corria riscos por suas convicções.

Afinal, se o time fosse eliminado da Copa do Brasil, independentemente do rendimento do jovem atacante, que entrou muito mal contra o San Lorenzo na traumática derrota na Libertadores, as chances de ser demitido cresceriam exponencialmente.

Mas Sávio, assim como contra o Atlético Mineiro no Maracanã, na estreia do Campeonato Brasileiro, colocou um cruzamento no fundo das redes do goleiro Felipe do Atlético-GO. O choro copioso do jogador foi sintomático. É muita pressão para quem ainda está no início de sua trajetória entre os profissionais.

O mesmo vale para os treinadores. No país do futebol de resultados, o comandante passa de “boa novidade” e “atualizado” para “estagiário” e “rolando lero” a cada semana. Mesmo que a sua equipe esteja organizada e o placar adverso tenha vindo por uma infelicidade na defesa ou chances perdidas na frente.

Ou até se eles se equivocarem, algo absolutamente natural. No mais imprevisível e caótico dos esportes, o que foi treinado baseado em observação e análise pode dar errado por uma noite ruim do atleta e aquela mudança aleatória, mais por conta da intuição, pode terminar em vitória. Para quem tem bagagem já é um desafio, imagine para novatos.

Eles simplesmente não podem errar. Seja Zé Ricardo, Roger Machado, Eduardo Baptista…Mesmo Jair Ventura, com enorme crédito no Botafogo, quando tentou mudar a maneira de jogar contra o Barcelona de Guayaquil no Estádio Nilton Santos e saiu derrotado as críticas vieram pesadas.

A transição no mercado de treinadores é dura. Depois dos 7 a 1 que mandaram Luiz Felipe Scolari para a China e da queda em desempenho e resultados de grifes como Vanderlei Luxemburgo, Muricy Ramalho e até Marcelo Oliveira, apesar dos títulos com Cruzeiro e Palmeiras, um buraco foi aberto para uma leva de profissionais com conceitos atualizados, vendo e pensando o futebol como é jogado nos grandes centros.

Um jogo mais coletivo e que trabalha com informações e gestão na comissão técnica. Menos com carisma e discursos motivacionais. Quando o resultado acontece, tudo isso é louvado. Se não, bate a saudade dos velhos nomes e de fórmulas antigas. Como se o que deu certo na década passada necessariamente dará em 2017.

O cenário é complexo. Dá para contar nos dedos de uma das mãos os treinadores do país que conseguem unir vivência como ex-jogador, conteúdo atual, sensibilidade na gestão de grupo e da comissão técnica. Ou seja, no auge da carreira. O melhor deles está na CBF.

Por conta de todas as dificuldades citadas, as experiências com estrangeiros não foram felizes – vide Diego Aguirre, Ricardo Gareca, Edgardo Bauza, Juan Carlos Osorio, entre outros. Quando estão começando a aprender o idioma para se comunicar já estão passando no RH e voltando para casa.

Simplesmente não há paciência, porque falta convicção para acreditar num projeto de longo prazo. Roger Machado e Zé Ricardo acharam que teriam um pouco mais de paz e respaldo para trabalhar por conta de conquistas nos estaduais. Mas basta uma sequência de resultados ruins e tudo é esquecido.

Ainda mais em clubes dos quais se espera muito. Pela capacidade de investimento e ilusão alimentada por departamentos de marketing e também por nós da imprensa, o torcedor passa a crer que seu time de coração conta com um elenco estelar e que basta o treinador distribuir certo as camisas e não atrapalhar para tudo acontecer.

Não é assim que funciona. Estar atualizado nas ideias e métodos ajuda a não ser surpreendido, a minimizar a aleatoriedade do jogo. Mas não garante nada. Muito menos onde não se valoriza filosofia e identidade, só o placar final e a conquista que vão gerar memes e zoações. Até tudo ser esquecido no próximo jogo.

Por ora, Dorival Júnior é o sobrevivente na Série A, comandando o Santos desde julho de 2015. Já Ney Franco foi demitido do Sport depois de perder a Copa do Nordeste para o Bahia com menos de dois meses de trabalho. Treinadores com rodagem de mais de uma década. Paulo Autuori, com mais de quarenta anos à beira do campo, cansou. “A rotina consome”, explicou. Vai ser gestor no Atlético-PR e abre espaço para Eduardo Baptista.

Paciência não significa ser permissivo e deixar de cobrar o desempenho que chega ao resultado. Os profissionais são bem remunerados para isso. O ponto nevrálgico é o imediatismo, a incapacidade de observar um lastro de evolução, vislumbrar um futuro melhor. Tudo ainda se resume à tentativa e erro. Até acertar. Para ontem.

Enquanto isso, segue a roda vida, a máquina de moer técnicos. Zé Ricardo escapou no gol de Matheus Sávio. Quem será o próximo?


Santos parece ter regredido. Ponte ensina como não ser um time engessado
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André Rocha

Ponte Preta forte pela direita para cima do improvisado Jean Mota, o que prendeu Thiago Maia no meio e isolou Lucas Lima na armação das jogadas. Santos engessado no 4-2-3-1, Ponte mais móvel e criativa no 4-1-4-1. Muito pela agilidade de William Pottker na frente (Tactical Pad).

Segundo o Footstats, o Santos teve 64% de posse de bola no Moisés Lucarelli, mas só finalizou quatro vezes, metade na direção da meta de Aranha. A Ponte Preta concluiu 12, o triplo. Podia ter construído um placar mais confortável para a volta das quartas de final do Paulista.

Porque o time de Dorival Júnior parece ter regredido na execução de seu modelo de jogo. É engessado, previsível. Sem Zeca e com Jean Mota improvisado na lateral esquerda, precisou prender Thiago Maia ao lado de Renato à frente da defesa para conter os avanços de Nino Paraíba se juntando a Clayson e Jadson pela direita no 4-1-4-1 armado por Gilson Kleina.

Com isso, isolou Lucas Lima na articulação. Também porque Vitor Bueno parece ter esquecido que é meia de formação e, empolgado pelos gols marcados desde que se firmou como titular, só quer ficar na frente para buscar a diagonal e finalizar. Não colabora na articulação, circulando para mexer com a marcação adversária.

O Santos só saiu da mesmice quando inverteu os pontas e Bruno Henrique foi para o lado direito. Assim criou para Ricardo Oliveira. À esquerda, Vitor Bueno também apareceu e o time quase empatou.

A Ponte marcou seu gol no primeiro tempo. Atacando pela direita. Belo passe para a infiltração de Nino Paraíba, que serviu William Pottker para marcar seu oitavo gol. Agora é artilheiro isolado do estadual. Goleador que não fica fixo entre os zagueiros. Procura os flancos, abre espaços, induz as diagonais dos pontas Clayson e Lucca e chama a aproximação dos meias Jadson e Elton.

Entre as linhas de quatro, Fernando Bob protege a defesa e distribui o jogo com classe e precisão. Coisa que Renato não conseguiu fazer por outro problema que indica uma involução do alvinegro praiano: a saída de bola.

Agora com os laterais Victor Ferraz e Jean Mota com um posicionamento mais conservador, sem o recuo de Renato e os zagueiros Lucas Veríssimo e David Braz abrindo. Provavelmente para não desorganizar a frágil defesa na perda da bola e transição ofensiva do adversário.

Só que, paradoxalmente, com um meia na lateral esquerda como Jean Mota, a equipe perdeu o trabalho dos laterais por dentro que confundia a marcação e desafogava Lucas Lima. Resultado prático: time mais lento e sem alternativas.

Melhorou a dinâmica no segundo tempo com Kayke e Rafael Longuine – Copete entrou na vaga de Vitor Bueno no intervalo. Mas nada substancial. O jogo não flui, está travado pelas próprias dificuldades santistas.

Já Kleina manteve seu time inquieto. Primeiro com Pottker recuando para jogar à direita e dando mais liberdade para Clayson. Depois, com os veteranos Renato Cajá, em sua quarta passagem pelo clube campineiro, e Wendel, se repaginou num 4-3-1-2, com Cajá mais solto e os atacantes abertos. Mesmo com a saída de Pottker lesionado para a entrada de Lins.

Uma aula de como não se acomodar nem facilitar a vida do oponente. Sem a bola, intensidade e 15 desarmes corretos contra oito. Teve a chance de ampliar, mas ficou no 1 a 0 que parece pouco para o domínio e o controle do jogo.

Pode sofrer no Pacaembu. Principalmente se o Santos aprender e resgatar virtudes que parecem esquecidas em 2017.


Papo com Dorival Júnior: jogar com qualidade, mas guerrear na Libertadores
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André Rocha

Dorival_Junior

O Santos teve momentos de espetáculo nos 6 a 2 sobre o Linense na estreia do Paulista na Vila Belmiro. Sinais do amadurecimento da proposta de Dorival Júnior, que sempre acreditou em um futebol bem jogado, mas estudou para aperfeiçoar seus métodos e o próprio modelo de jogo.

Depois de uma sessão de treinamentos na semana que mais gosta – “cheia”, capaz de recuperar e trabalhar para recuperar os jogadores -, ele atendeu gentilmente ao blog para falar de suas ideias e ideais.

BLOG – O Santos faz o jogo posicional (o Caio Gondo explica AQUI), valorizando posse de bola, saída da defesa com qualidade e trocando passes no campo adversário. Raridade, ainda, no Brasil. De onde vem essa convicção se no país a maioria dos times vencedores atua de forma diferente?

DORIVAL JÚNIOR – Isso veio de uma necessidade minha ao ver o futebol brasileiro com o jogo tão descompactado, com muitos espaços entre os setores, ligações diretas dos zagueiros para se livrar da bola. Incomodava demais, não sentia prazer assistindo.

BLOG – Seu time joga com os laterais Victor Ferraz e Zeca atacando por dentro. Guardiola trabalhava assim no Bayern de Munique e agora, eventualmente, no Manchester City. Qual é a vantagem?

DORIVAL JÚNIOR – Na verdade eles flutuam, ora abertos, ora fechando. A vantagem é dificultar a marcação do adversário, porque eu posso recuar os jogadores de meio-campo para participar da saída de bola com bom passe, os pontas abrem e eles infiltram por dentro. É difícil de marcar, principalmente quando eles entram na área. O importante é que os movimentos estejam sincronizados, com reação rápida à mudança de comportamento. Perdeu a bola, já pressiona para retomá-la.

BLOG – Como você convence os jogadores, muitos deles acostumados com uma ideia diferente – marcação individual, zagueiros muito próximos da própria área para “fechar a casinha”? Não há conflito?

DORIVAL JÚNIOR – Vou responder usando o exemplo dos goleiros: eu não precisei pedir ao preparador deles que trabalhassem mais com os pés. Eles mesmos sentiram necessidade e hoje eu tenho o Vanderlei que antes completava três passes certos e agora acerta 27, já chegou a 33 em um jogo.

BLOG – As estatísticas ajudam?

DORIVAL JÚNIOR – Números, gráficos, imagens de outras equipes no mundo. Ações, passes, acertos, erros. Os jogadores entendem e eles mesmos criam desafios e metas entre eles. Querem saber o que fizeram de certo e errado. Nós mudamos o aquecimento, trocamos alguns trabalhos. É gratificante ver a mudança.

BLOG – Do que você mais se orgulha em todo esse processo?

DORIVAL JÚNIOR – 90% dos nossos gols são de jogadas trabalhadas. Dificilmente temos um gol “achado”. Procuramos manter a velocidade no ataque, que é fundamental. Na defesa melhoramos o desempenho nas jogadas aéreas com bola parada. No Brasileiro sofremos 11 gols de bolas paradas, sendo três de pênalti. Melhoramos os números fora de casa e fomos protagonistas, propusemos o jogo na grande maioria das partidas do Brasileiro.

BLOG – Ninguém joga todas as partidas da temporada da mesma forma. Tem o clássico mais duro, o time com desvantagem numérica por expulsão, o adversário que se impõe em casa…Há um “Plano B” para essa sua filosofia?

DORIVAL JÚNIOR – O modelo não é e nem pode ser imutável. Em alguns jogos teremos que nos resguardar. Mas essa nossa proposta já foi testada em várias partidas, dentro ou fora de casa. Nós perdemos para o Atlético-PR fora com Yuri na zaga e controlando o jogo, acabamos sofrendo o gol em bola parada. Por outro lado, já vencemos com gol do Vitor Bueno iniciado com um passe vertical do Lucas Veríssimo. Eu prefiro investir na qualidade.

BLOG – Como se adapta uma proposta de jogo inspirada nos grandes times da Europa, com temperatura amena e gramados impecáveis, à nossa realidade com calor e alguns campos impraticáveis?

DORIVAL JÚNIOR – É uma dificuldade mesmo, principalmente nos estaduais. Não há padronização e alguns ficam bem prejudicados pelas chuvas que são muito freqüentes nesta época do ano. Sem contar o calendário. Mas o Santos tem respondido muito bem. O maior problema é quando não há tempo para treinar, só recuperar os atletas.

BLOG – Na Libertadores a ideia é manter a proposta dentro e fora de casa?

DORIVAL JÚNIOR – Não vamos mudar, mesmo considerando que é outro nível, outra maneira de jogar, muitas vezes com arbitragem passiva, permitindo a violência. Vamos jogar, mas saber guerrear também, se for preciso.


“Você não é Tite nem Cuca” – Carta a Dorival Júnior, por Mozart Maragno
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André Rocha

Dorival Junior Mozart

ESCREVE MOZART MARAGNO (@momitinho)

Caro Dorival Júnior,

Não deve ter no Brasil alguém que admire mais o seu trabalho que eu. Mesmo com algumas ressalvas. Ou é fácil justificar a escalação do fraquíssimo Paulinho na partida decisiva da Copa do Brasil contra o Inter no ano passado?

Por isso, escrevo, com toda humildade, essa carta aberta em tom de alerta. O Santos de 2017 é promissor, mas só terá sucesso se usar a base, tradição do clube e tradição da sua história. Tudo bem que a safra não é das melhores, mas é nela que é preciso achar soluções.

O clube até tem feito até algumas boas contratações, encorpando o elenco, está na fase de grupos da Libertadores por absoluto mérito do técnico, mas há o risco de querer imitar o “modelo” de Corinthians e Palmeiras, o que Tite e Cuca fizeram nos últimos anos.

Você não é Tite ou Cuca. Dorival é Dorival. Dorival é quem chega no Santos e afirma jogadores da base, alguns encostados, até com alguma facilidade. Que faz esse trio jovem ser campeão olímpico. Dorival é quem fez até o improvável Rafinha jogar bola no Flamengo, é quem lança Coutinho.

É quem afirmou Alex Teixeira, é quem pegou Ramires no time reserva do Cruzeiro e em meses botou na seleção brasileira, é quem fez Ganso encantar o Brasil, Neymar sair do estágio de “filé de borboleta” pra astro nacional e internacional em pouco tempo.

O modelo de sucesso para você e para o Santos não será importar jogadores. Eles podem até auxiliar, darem sua contribuição, mas o êxito completo se dará a partir de soluções caseiras, ao risco que você sempre correu e terá de correr de novo.

Lembra do jogo contra a Ponte Preta em Campinas? Perdendo o jogo, lança mão de dois garotos, inclusive estreando o Arthur Gomes, que comeu a bola nesse dia. Correu o risco e foi premiado com a virada. É o risco que tem que correr, é o risco que faz parte da sua carreira e que faz as coisas conspirarem a favor. A coisa flui.

O atual campeão brasileiro contratou uns 50 jogadores nos últimos dois anos. E quem foi o melhor jogador, a estrela do time? Um menino da base, num clube tratado historicamente como comprador e não formador. Foi Gabriel Jesus quem deu o sopro de talento, que quando não esteve em campo acabou gerando o único momento de turbulência da equipe no Brasileirão durante os Jogos Olímpicos.

E o Corinthians do Tite? Tudo bem que o senhor Adenor não é muito adepto a usar a base, mas Malcom (lançado e afirmado por Mano Menezes) foi vital no Corinthians de 2015 campeão nacional, decidindo os dois confrontos diretos contra o Galo.

Dessa forma, Dorival, sempre se pode amadurecer e aprender com modelos vencedores dos adversários, mas sem renegar e fugir do seu DNA e do clube. Santos é base. Dorival é base. Matheus Oliveira, Arthur, André Anderson, Alexandre Tam (sim, é preciso haver o risco com a geração 1999) e outros garotos esperam sua chance. E Rodrygo merece ser tratado com atenção especial, é o próximo “raio” a cair.

Bota pra jogar sem medo de ser feliz, mesmo que a pressão de parte da torcida e até da diretoria seja ter um time de medalhões tal qual as equipes que fracassaram em 2000/2001. Não se iluda com “jogador cascudo em Libertadores”. Isso é bobagem.

ESCREVEU MOZART MARAGNO


O Santos nem precisa jogar bem para vencer um São Paulo acéfalo
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André Rocha

O time de Dorival Júnior preza a posse de bola, mas no Pacaembu a troca de passes na maior parte do tempo foi no campo de defesa. Isso quando o São Paulo não adiantava a marcação para pressionar.

Faltava precisão na bola longa para surpreender a defesa do rival adiantada. Só acertou uma no primeiro tempo, com Ricardo Oliveira se deslocando e recebendo à direita para cruzar e Copete perder um gol inacreditável de cabeça.

No segundo tempo, o colombiano não vacilou no pé esquerdo. Única jogada articulada por Jean Mota e Lucas Lima, a dupla de meias no 4-2-3-1 de Dorival que criou muito pouco. Mas venceu.

Porque o São Paulo de Ricardo Gomes é acéfalo. Simples assim. Com Cueva no banco por conta do desgaste com a seleção peruana nas Eliminatórias, o time foi indigente na criação na primeira etapa. Hudson, Wesley e Thiago Mendes não são ruins, mas é um crime só contar com eles no meio-campo. João Schmidt até tem melhor passe, mas também não resolve. Robson, a novidade no lugar de Kelvin, só acelera. Não pensa.

Resultado: uma sucessão de bolas cruzadas na área. 32 no total. Mas de qualidade técnica sofrível. Só pressionou porque o Santos não armou um contragolpe depois do gol, errou passes fáceis na transição ofensiva e deu campo ao tricolor.

A torcida são-paulina não pode reclamar de falta de fibra. E quando Cueva articulou a única jogada lúcida vindo da esquerda para dentro e serviu Chávez livre, o argentino conseguiu perder um gol feito. Aí o difícil se torna impossível.

Uma raridade: o Santos teve menos posse de bola que o adversário – 48% a 52%. O São Paulo finalizou 15 vezes contra apenas seis santistas – cinco a dois no alvo. Mas a maioria absoluta no abafa, na vontade de reverter o cenário ainda perigoso de luta contra o Z-4.

Mas com essa pobreza técnica e de ideias o sofrimento deve durar até a rodada derradeira. O Santos agradece e segue na disputa, ao menos neste primeiro momento, com o Atlético Mineiro pela última vaga direta na fase de grupos da Libertadores 2017. Mas desta vez só valeram os três pontos.

(Estatísticas: Footstats)


G-6 pode e deve aumentar a ambição do Santos
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André Rocha

A temporada com muitos desfalques por convocações, suspensões e a janela que levou Gabigol deixou o Santos com a única ambição de vaga na Libertadores, no Brasileiro ou via Copa do Brasil. A derrota para o América praticamente desmanchou o sonho de título em meio a tantos problemas.

Mas o elenco do Santos, com um mínimo de foco, consegue encontrar respostas para ausências importantes. Como as de Vitor Bueno, artilheiro do time, e Lucas Lima na seleção brasileiro para o jogo contra o Fluminense na Vila Belmiro. Dorival Júnior tirou da cartola a grande atuação de Jean Mota e mandou a campo Rafael Longuine para mudar o time no segundo tempo da dura vitória por 2 a 1.

Com mais duas vagas no principal torneio continental já em 2017, o empate sem gols do Atlético Mineiro fora de casa contra o Corinthians e abrindo cinco pontos de vantagem sobre o Flu já é possível pensar numa vaga direta na fase de grupos. São apenas dois pontos a menos que o terceiro colocado.

Flamengo e Palmeiras, apesar da oportunidade de manter a vantagem com vitórias em casa sobre Santa Cruz e América, respectivamente, ainda terão confrontos com os santistas. O alviverde na Vila, o rubro-negro fora. Seis pontos e uma tabela não tão complicada podem tornar tudo menos improvável, principalmente na disputa com o time carioca.

Potencial técnico e tático para manter o desempenho e buscar uma escalada em resultados dividindo atenções com a Copa do Brasil não falta. O Santos segue fiel à sua proposta ofensiva, com posse de bola e jogo mais intenso e vertical na frente. Sem abrir mão das jogadas pelos flancos e os cruzamentos que encontraram Copete e Ricardo Oliveira no importante triunfo.

Uma simples vaga na Libertadores ficou pequena. O alvinegro praiano é time forte que pode e deve aumentar sua ambição na temporada. Quem sabe?

 

 

 

 


Santos é líder temporário, apesar dos problemas. Melhor elenco do país?
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André Rocha

O roteiro era dramático: mando de campo praticamente invertido em Cuiabá, com maioria de rubro-negros, e um time despedaçado – sem Zeca, Thiago Maia, Lucas Lima, Gabriel e Ricardo Oliveira.

O Santos sofreu, Dorival Júnior foi infeliz na entrada de Elano na segunda etapa e houve pênalti no toque de Caju em disputa com Fernandinho já nos acréscimos. Mas o alvinegro praiano competiu durante os noventa minutos do empate sem gols na Arena Pantanal.

A ideia de jogo baseada na combinação de construção com bola no chão e velocidade nas transições contribui, mesmo com o Flamengo controlando a posse de bola. Linhas próximas, jogo apoiado e coordenação entre os setores. Ainda que o setor esquerdo sofresse com Copete contribuindo pouco na recomposição e tantas vezes deixando Caju sozinho contra Cirino, depois Fernandinho e Pará, com apoio do William Arão.

Mas havia Léo Cittadini e Jean Motta dando suporte a Renato no meio. Bola na trave de Vitor Bueno e chance com Rodrigão. Nos últimos minutos, a postura mais defensiva em reconhecimento à superioridade do Fla de Zé Ricardo, cada vez mais ajustado: 55% de posse, 16 finalizações a dez.

Ponto que garante a liderança temporária e provoca uma reflexão: elenco mais forte é o que conta com jogadores mais qualificados, no papel, ou o que sabe o que fazer em campo e reage melhor aos desfalques e problemas?

Se Palmeiras, Atlético Mineiro e Flamengo, em tese, contam com grupos de jogadores mais renomados, o Santos é bem treinado, aproveita os talentos formados no clube, vai ao mercado e trabalha melhor o coletivo, independentemente das peças utilizadas. Na prática é o que mais funciona.

Não por acaso entrega desempenho, resultados e chega ao topo da tabela.

(Estatísticas: Footstats)


O empate no Allianz Parque e a falta de um time pronto no Brasil
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André Rocha

O Palmeiras não tinha a diferença no ataque: Roger Guedes para acelerar, Gabriel Jesus acompanhando na velocidade e decidindo. Mas estava na sua casa, com 100% de aproveitamento no Brasileiro.

Cuca preferiu arriscar Moisés e Tchê Tchê sem as melhores condições físicas no meio à frente de Matheus Sales e buscar a velocidade de Erik e Dudu pelos flancos, Barrios na referência. Cleiton Xavier, o meia do passe diferente, no banco.

Nem a saída de Moisés – vítima da insistência do treinador pela presença no meio e também as cobranças de lateral na área adversária – encorajou o técnico. Entrou Arouca, mesmo sem ritmo de jogo. O camisa dez não apareceu em campo.

Muito pela vantagem construída com a jogada aérea que deu em gol com Mina logo aos seis minutos e definiu a postura da equipe alviverde na partida que nem o empate santista na segunda etapa com Gabriel, em chute desviado no zagueiro Vitor Hugo, alterou.

Apesar de toda rivalidade histórica e recente e da vantagem na tabela, era possível fazer mais e melhor. Propor o jogo, tentar ser protagonista em sua arena lotada. É para isso que serve o alto investimento num elenco recheado. Mesmo também perdendo Mina na primeira etapa por lesão.

Cuca e seus comandados preferiram jogar reagindo ou forçando o erro do oponente na maior parte do tempo. Mais que compreensível pelos quatro meses de trabalho.

Dorival Júnior completou um ano neste retorno ao Santos. Consolidou uma maneira de jogar com mais troca de passes e controle da posse de bola, alternando com velocidade na transição ofensiva com os passes de Lucas Lima procurando Gabriel e Rodrigão, enquanto Ricardo Oliveira não volta.

Teve 62% de posse, contrastando com as 11 finalizações palmeirenses contra nove e os 14 desarmes certos contra apenas seis. Palmeiras mais agressivo, Santos mais posicionado.

Faltou um pouco de coragem para explorar os problemas do rival desde o início. Jonathan Copete, colombiano de início arrasador com dois gols e três assistências, na reserva e Vitor Bueno recuando e compondo com Renato e Thiago Maia sem a bola um trio no meio-campo mais preocupado em não ceder espaços aos rivais. Dorival demorou a trocar.

No Brasil não há um time disposto a ter uma proposta de jogo independentemente do mando de campo ou do contexto da partida. Era jogo para o Palmeiras afirmar a liderança em seus domínios. Para o Santos, valia a presença no G-4 como um real candidato ao título.

Ninguém se arriscou, mesmo com o nítido crescimento santista na segunda etapa que poderia terminar em virada. Porque não há uma equipe pronta no país. Preparada e amadurecida para se impor.

Culpa de Cuca, Dorival ou seus comandados? Lógico que não. O próprio Corinthians, atual campeão, perdeu oito titulares do título de 2015 e agora o técnico Tite. Com todos mantidos para esta edição seria o time a ser batido com seu modelo de jogo consolidado. Segue forte, porém não mais favorito.

O imediatismo, além da moeda mais fraca, faz clube e jogadores se deixarem seduzir por propostas robustas financeiramente e gerar um eterno recomeço. Os técnicos, por total insegurança, pensam apenas no jogo seguinte. Como apostar em ideias se a preocupação de todos é apenas com o placar final e a colocação na tabela?

A alegria de fazer bem feito dentro de uma filosofia é sempre trocada pelo alívio de não conviver com a pressão pela derrota, independentemente do desempenho, até a rodada seguinte. Por aqui a cobrança é inversamente proporcional ao tempo de trabalho. Querem tudo para hoje. Ou ontem.

Por tudo isso, o empate no Allianz Parque pode até frustrar a utopia e o idealismo, mas no pragmatismo dos números foi bom para todos.

(Estatísticas: Footstats)