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Dorival Júnior, exclusivo: “Aqui se olha para o futebol sem enxergá-lo”
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André Rocha

Foto: Érico Leonan/saopaulofc.net

Um misto de alívio, esperança e preocupação norteou o papo com o treinador Dorival Júnior sobre o momento do São Paulo: time fora da zona de rebaixamento, mas sem o direito de perder a concentração na pausa de dez dias para a data FIFA. Margem de erro pequena, mas otimismo quanto à evolução da equipe, além do incômodo com o imediatismo e a cobrança excessiva por resultados.

BLOG – O São Paulo vem jogando uma vez por semana há algum tempo e agora tem pausa de dez dias – dois dias de folga e sete sessões de treinamentos. O time saiu da zona de rebaixamento depois de 13 rodadas. Qual o risco de um relaxamento ou desmobilização?

DORIVAL JÚNIOR – O cuidado maior deve ser na dosagem dos treinamentos. Se aumentar o volume de trabalho pode ser prejudicial, mas também não pode tirar o pé do acelerador. Equilibrar as informações diárias sobre a condição dos atletas com o feeling de tantas experiências parecidas. O importante é que não percamos competitividade nesta pausa.

BLOG – Sua equipe, até por necessidade, vai tentar propor o jogo no dia 11, em Belo Horizonte contra o Atlético Mineiro?

DORIVAL JÚNIOR – Nossa situação não permite celebrar esse alívio na tabela. Temos que respeitar as nossas características, mas também as particularidades do adversário. Não podemos nos comportar como “sparring”, precisamos pontuar. Será jogo de superação. Com segurança, mas sem deixar de ser agressivo.

BLOG – Como você avalia a evolução do São Paulo nos últimos jogos com uma formação sem um volante na proteção, com Petros à frente da defesa?

DORIVAL JÚNIOR – A aproximação dos setores está deixando os atletas mais confortáveis e já é possível arriscar movimentos diferentes, como dois dos atacantes voltando e os outros dois infiltrando na última linha do adversário. Estamos conseguindo confundir mais a marcação com a mobilidade de Lucas Fernandes, Marcos Guilherme, Cueva e Pratto. Tivemos alguma dificuldade na criação das jogadas contra o Sport, mas faz parte do processo.

Sem a bola, me agrada muito notar que eles estão mais interessados e preocupados com o trabalho defensivo. A colaboração de todos na compactação vem corrigindo um erro grave nos gols tomados, que era a equipe muito espaçada. Agora a última linha está mais protegida e também bem posicionada.

BLOG – Você é um treinador que preza muito a posse de bola e o estilo mais ofensivo. Como está vendo o Brasileiro com predomínio do jogo mais reativo? Mudou algo nas suas convicções?

DORIVAL JÚNIOR – É preocupante. Mas o que noto é que muitos dos que reclamam do futebol jogado no Brasil são os mesmos que cobram resultados imediatos.  É um assunto muito debatido, mas sem dados concretos. É algo que está incomodando, mas pode tirar da zona de conforto. Eu tenho conceitos e uma visão de futebol. Já venci e perdi propondo jogo ou reagindo à iniciativa do adversário. Não vou mudar. Para mim o futebol, na fase ofensiva, é posse de bola, deslocamentos, velocidade e infiltração.

BLOG – Mas você concorda que o dito “futebol moderno” chegou aqui primeiro pela dinâmica defensiva e ainda estamos atrasados na evolução da construção do jogo?

DORIVAL JÚNIOR – Concordo, mas esse desequilíbrio existe praticamente no mundo todo. O trabalho defensivo evoluiu demais. Antes era privilégio de Itália, Alemanha, Inglaterra…Na Alemanha houve primeiro uma mudança de mentalidade e depois a chegada do Guardiola. É uma nova escola de futebol.

Mas no mundo todo houve um acréscimo no jogo coletivo sem a bola, por pragmatismo, que não foi acompanhado pelo trabalho ofensivo. A única evolução foi a busca maior da amplitude no ataque com os pontas. É provável que as defesas prevaleçam sobre os ataques durante algum tempo. Cabe a nós, treinadores, complementarmos nosso trabalho e dar mais qualidade às ações de ataque.

BLOG – Então o futebol hoje está mais para Mourinho que Guardiola?

DORIVAL JÚNIOR – Foi uma transformação rápida, uma mudança por necessidade. Aproxima as linhas, marca por zona. Agora usando até cinco homens, exatamente para negar espaços no fundo do campo. Fecha o centro, induz o rival a abrir a jogada para interceptar o cruzamento. Houve mais inovações neste aspecto e mais times jogando desta maneira.

BLOG – Qual a dificuldade de trabalhar conceitos de jogo em um elenco que mal se conhece, mexido, desentrosado e sofrendo enorme pressão para vencer e subir na classificação?

DORIVAL JÚNIOR – No Santos eu tive dois anos e pude trabalhar uma filosofia e ir encaixando algumas situações ao longo do tempo. Aqui eu preciso adaptar, dentro das minhas convicções. Não posso me dar ao luxo de arriscar muito, por tudo que você expôs na pergunta. Primeiro proteger, depois fazer os jogadores acreditarem na proposta.

BLOG – Você falou em “proteção”. E os muitos gols sofridos, especialmente no início do trabalho, que geraram muitas críticas?

DORIVAL JUNIOR – É questão de tempo de trabalho. Tem jogador que mal se conhece. Em outubro, quase no fim da temporada, muitos não completaram sequer uma dúzia de partidas pelo clube. É o Militão adaptado à lateral direita, vários problemas. Mas querem soluções rápidas. Aqui se olha o futebol sem enxergá-lo. São cobranças descabidas e uma visão deturpada em todos os segmentos.

BLOG – Ainda dentro deste tema, como é possível orientar o Pratto com essa ansiedade de dez rodadas sem marcar gols?

DORIVAL JÚNIOR – Internamente ele sabe da sua importância. É um cara coletivo, mas com ambições. O grupo vem administrando isso muito bem. Todos têm noção da sua contribuição na abertura de espaços, nos deslocamentos. Sua movimentação compensa a falta de gols. Como gestor procuro tranquilizá-lo, por mais que ele seja experiente. Mostrar que está no caminho correto e que as coisas vão acontecer naturalmente. E sua importância não é só dentro de campo, tem a liderança que contribui demais.

BLOG – O fato de termos o oitavo colocado separado do 18º por apenas quatro pontos ajuda por motivar a conseguir uma sequência de bons resultados e respirar aliviado ou é preocupante porque os jogos serão mais duros e qualquer vacilo significa a volta ao incômodo Z-4?

DORIVAL JÚNIOR – Em todas as edições do Brasileiro da Série A que disputei o returno foi bem mais disputado que o turno. É uma constante e este ano parece ainda mais dura a concorrência. Os jogos serão mais parelhos e essa distância mínima deixa tudo ainda mais complicado. Sem dúvida é a edição mais difícil que já disputei e será assim até a última rodada.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Vanderlei, Bruno Henrique e legado de Dorival explicam “milagre” do Santos
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André Rocha

Foto: Djalma Vassão (Gazeta Press)

A vitória sobre o Palmeiras no molhado Allianz Parque no sábado por 1 a 0 fez o Santos tomar do rival alviverde a condição, subjetiva, de principal desafiante do líder Corinthians. Ainda que o Grêmio tenha vencido e siga na luta, apenas um ponto atrás do alvinegro praiano. Mas com Libertadores e, provavelmente, pontos preciosos deixados pelo caminho utilizando reservas.

O time de Levir Culpi, de fato, é um mistério. Não chama atenção pela consistência defensiva, mas tem a segunda defesa menos vazada com 16 gols, um a mais que Corinthians. Muito menos pelo ímpeto do ataque, que só foi às redes 27 vezes em 26 rodadas.

O estilo não encanta as retinas. Não controla a disputa com a bola, embora seja o segundo em posse e o terceiro que acerta mais passes – 90,7% de efetividade. Nem os espaços, pois a coordenação dos setores não é tão acertada. O jogo é no modo “briga de rua” (como você já leu AQUI), com trocação de golpes até derrubar ou ser nocauteado.

Quando tentou ser mais estratégico para administrar o empate sem gols na Vila Belmiro contra o Barcelona de Guayaquil pelas quartas de final da Libertadores o desempenho e o resultado foram trágicos. Dominado, vencido e eliminado em seus domínios. O mesmo na ida das quartas da Copa do Brasil contra o Flamengo na Ilha do Governador. Derrota por 2 a 0 com postura mais cautelosa. Faltou um gol nos 4 a 2 em casa com o time no estilo “Peixe Doido”.

O que explica, então, a eficiência no Brasileiro? Os números podem indicar algumas respostas.

Primeiro o goleiro Vanderlei. Quinto mais acionado da competição. Entre os times do G-6 só fica atrás de Cássio. Muitas intervenções fundamentais, tantos pontos garantidos. Não é absurdo dizer que a segunda defesa menos vazada está na conta dele. Porque na troca de ataques ele garante o zero do outro lado do placar.

Depois Bruno Henrique. Líder de assistências ao lado de Gustavo Scarpa com oito, a última na cabeça de Ricardo Oliveira para vencer Fernando Prass. Mais seis gols. Válvula de escape pelos flancos, especialmente à esquerda. Ponto de referência para as saídas em velocidade. O ponteiro que no Wolfsburg em 2016 fez Marcelo do Real Madrid sofrer  numa disputa de quartas de final de Liga dos Campeões. Não por acaso é quem mais acerta dribles na Série A. Não é atacante top, muito menos uma solução para  Tite na seleção brasileira. Mas por aqui vem desequilibrando.

A outra explicação é o legado de Dorival Júnior no cuidado que o time mantém com os passes. O elenco é praticamente o mesmo do antecessor de Levir e a posse garante volume de jogo, especialmente com Lucas Lima em campo. Toques certos que qualificam as ações ofensivas em meio à loucura do bate-volta. Com espaços, o time que rodava a bola para criá-los encontra mais facilidade para superar as defesas adversárias. A exigência de precisão agora é menor.

Qual o mérito de Levir no “milagre” santista? A capacidade de mobilização, o pragmatismo na busca dos resultados e a busca da velocidade, grande lacuna do time vagaroso e inócuo de Dorival na reta final de sua passagem pela Vila Belmiro. Assim como a leitura correta de que assumir protagonismo e se instalar no campo de ataque, no futebol brasileiro de hoje, é se tornar presa fácil para as equipes mais reativas.

Ah, e também a sorte, que nunca pode ser desprezada em qualquer jogo e está no irônico título do livro lançado pelo treinador em 2015: “Um Burro com Sorte?”.

Sem outra competição para dividir esforços, o Santos vai tentar aumentar o aproveitamento de 60,3% e torcer por uma queda ainda mais acentuada do rendimento corintiano, hoje em 70,5%. Para tirar os oito pontos de vantagem e alcançar uma virada que seria histórica.

Contra si há o fato de não mais ter o confronto direto. Derrota em Itaquera, ainda com Dorival Júnior, vitória na Vila Belmiro no início de setembro. A favor, três trunfos que devem garantir ao menos o retorno ao principal torneio continental em 2018, diretamente na fase de grupos. Por mais incrível que possa parecer.

(Estatísticas: Footstats)


São Paulo 1×1 Corinthians – Empate que mistura frustração e preocupação
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André Rocha

A formação ofensiva do São Paulo no Morumbi encontrou sustentação no primeiro tempo pela lentidão do Corinthians nas transições ofensivas e se impôs pela movimentação do trio Lucas Fernandes-Cueva-Marcos Guilherme atrás de Pratto, mais as descidas dos meio-campistas Petros e Hernanes além do apoio de Junior Tavares que obrigava Romero, deslocado pela direita, a retornar muito para fechar o setor.

O líder do Brasileiro, com a escalação titular completa, mantinha a boa estrutura defensiva, mas sofria com os seguidos ataques de quem pressionava e recuperava a bola assim que a perdia. Já o tricolor paulista não tinha o mesmo problema. Chama a atenção a queda no desempenho corintiano. Perdeu intensidade, mobilidade e, consequentemente, confiança.

Primeira etapa de 55% de posse são-paulina, mas com média acima de 60% até os 27 minutos, quando Petros se apresentou para apoiar o quarteto ofensivo, recebeu pela direita e aparentemente tentou cruzar. O efeito na bola surpreendeu Cássio. A única finalização no alvo num universo de seis conclusões do time da casa e apenas duas dos visitantes.

São Paulo se impôs no primeiro tempo com mobilidade do quarteto ofensivo e o apoio de Hernanes e Petros, autor do gol tricolor. Corinthians sofrendo com a lentidão na saída para os contragolpes pela preocupação de Romero com as descidas de Junior Tavares (Tactical Pad).

Equilibrou um pouco com a entrada de Marquinhos Gabriel logo na volta do intervalo, substituindo um Jadson que perdeu sua maior virtude: a mobilidade para circular às costas dos volantes adversários e criar superioridade numérica no meio. Sem o camisa dez, Rodriguinho assumiu em definitivo a articulação das jogadas se apresentando mais como opção para os companheiros.

As substituições de Dorival Júnior não foram das mais felizes. Jucilei no lugar de Cueva e Denilson na vaga de Lucas Fernandes, lesionado, tiraram dinâmica ofensiva, intensidade na pressão no campo de ataque e o Corinthians ganhou espaço para atacar. Por isso a troca mais ousada de Carille: Clayson no lugar de Gabriel.

Vieram então as duas primeiras finalizações no alvo depois de 168 minutos – 90 no empate sem gols contra o Racing que custou a eliminação na Copa Sul-Americana. Primeiro Romero e depois Clayson, no rebote vencendo Sidão. Jogada de Rodriguinho pela direita aproveitando vacilo de Junior Tavares.

Corinthians ocupou o campo de ataque com Marquinhos Gabriel e Clayson nas vagas de Jadson e Gabriel, aproveitando espaços cedidos pelo rival que perdeu dinâmica com Jucilei e Denilson substituindo Cueva e Lucas Fernandes (Tactical Pad).

Com o empate, a inversão da confiança, não aproveitada por Carille, que tirou Romero e colocou Camacho para recompor o meio. Perdeu agressividade.

A senha para uma pressão final de quem mais precisava. E Jucilei, que fez o São Paulo perder força no meio, quase virou o heroi e fez valer a “lei do ex” em bela cabeçada para defesa espetacular de Cássio. Ao total, foram 12 finalizações do tricolor, uma a mais que o rival – seis a três no alvo.

O time da casa no clássico para mais de 60 mil presentes terminou com 52% de posse. Equilíbrio nos números, mas a frustração do São Paulo é maior pelo desempenho nos 90 minutos e porque os três pontos, dentro do contexto da fuga do rebaixamento, eram essenciais. Na matemática e no ânimo. De novo falhou.

O Corinthians sai no lucro, mas precisa aproveitar o tempo livre para recuperação e treinos visando resgatar o trabalho coletivo dos melhores momentos na temporada através do desempenho das individualidades. No “Majestoso” houve tempo e espaço para a reação. Mas quem ostenta a liderança absoluta do Brasileiro não pode produzir tão pouco. Preocupante.

(Estatísticas: Footstats)

 

 


Pânico do Galo com dois homens a mais é retrato do futebol brasileiro
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André Rocha

Aos 33 minutos do segundo tempo, a expulsão de Willian deixou o Palmeiras com dois homens a menos contra o Atlético Mineiro no Independência. O time da casa já estava com vantagem numérica desde os 40 da primeira etapa com o cartão vermelho apresentado por Leandro Vuaden a Luan Garcia.

A ideia do post não é se ater às decisões do árbitro no confuso 1 a 1 de sábado, com três pênaltis além das duas expulsões e outros lances polêmicos, mas às consequências dentro do jogo. Com um homem a mais, o Galo já vinha encontrando dificuldades e se livrou de sofrer o segundo gol quando Victor pegou a cobrança de pênalti de Deyverson.

Quando o cenário do final da partida apresentou a obrigação de atacar para se impor sobre oito jogadores plantados na própria área protegendo o goleiro Fernando Prass, o time mineiro entrou em pânico. Passou a errar passes seguidos, se afobar chutando de fora da área e levantar bolas a esmo, muitas delas na intermediária.

Para desespero do treinador Rogerio Micale, no comando da equipe há pouco mais de dois meses. Era possível fazer a leitura labial e entender que seus gritos eram para girar a bola até criar o espaço para a infiltração. Em vão, ainda que a forceps tenha criado algumas oportunidades e pudesse até sair com a vitória. Ou derrota, no contragolpe cedido que Moisés, já exausto, não conseguiu aproveitar.

A postura do Galo no final da partida é um retrato do futebol atual praticado no Brasil. No qual ter a bola e a obrigação, pelo contexto da partida, de atacar e propor o jogo é um problema. Quase um fardo. Ou o maior risco de sair derrotado.

As razões são muitas. Desde o pouco tempo para treinar pelo calendário insano que também exige um revezamento maior no elenco e compromete o entrosamento, passando pelas constantes mudanças por conta de uma janela de transferências que parece nunca acabar e a pouca paciência com o trabalho dos treinadores. Pressão absurda por resultados imediatos, ainda mais de elencos montados com altíssimo investimento, como os de Palmeiras e Atlético-MG.

Assim como a percepção de que o futebol jogado nos grandes centros chegou aqui primeiro pela defesa. O trabalho sem a bola que ganhou um salto de evolução com a aproximação das linhas, a participação de todos, a perda da vergonha de recuar os dez homens atrás da linha da bola, a preocupação em congestionar a zona de criação para a infiltração. Também a pressão no campo adversário para dificultar a construção das jogadas desde o seu início.

Como criar espaços em um jogo tão apressado, que vaia a bola atrasada para o goleiro ou os passes trocados pelos zagueiros para tirar o rival do próprio campo? Um sistema defensivo bem posicionado e com movimentos coordenados não é tão difícil de ser treinado e exige um trabalho mais sofisticado de quem tem a bola.

É preciso se movimentar para abrir a brecha e o companheiro aparecer nela no tempo certo. Saber o momento de arriscar o drible que desequilibra. Leitura de jogo. Para isso é preciso inteligência e também sintonia, jogar de memória, se entender no olhar. Só vem com a repetição. Difícil com o entra e sai de peças. Não por acaso o São Paulo de Dorival Júnior, que contratou dezoito jogadores e também o treinador, sofre mais que os outros e a meta que restou em 2017 é escapar do rebaixamento que parece cada vez mais palpável.

Mas o líder Corinthians, ainda absoluto e com boa vantagem, também pena quando tem a bola. Fabio Carille tem time base definido, resgata conceitos dos tempos de Tite e mesmo com a maioria dos titulares tendo atuado sob o comando do atual treinador da seleção brasileira, o fato de ter se tornado o time a ser batido fez com que os adversários estudassem mais os movimentos ofensivos e se concentrassem em bloqueá-los.

Enfrentar o melhor time do campeonato também permite jogar em contragolpes, mesmo em casa. Assim o Santos venceu na Vila Belmiro. Porque os espaços se oferecem para os velocistas que não conseguem pensar quando se deparam com uma parede. Resta levantar a bola na área para arrancar um gol. Ou apostar na bola parada. É pouco. Falta repertório, ousadia. Ideias.

Não por acaso em 73% dos jogos quem fica mais tempo com a bola não vence. Por isso o Galo penou e perdeu a oportunidade de conseguir três pontos e se aproximar do G-6. Segundo o Footstats, terminou a partida com 62% de posse, 20 finalizações. Mas apenas sete no alvo e poucas chances cristalinas. Foi às redes na cobrança de pênalti de Fabio Santos. Efetuou 33 cruzamentos.

Criou pouco porque se livrou da bola. E no final é comum o discurso de que fizeram tudo que foi possível. “Massacramos, mas não deu”. Como se ficar com a posse sem criar nada de concreto representasse alguma superioridade real.

Um engano recorrente que empobrece ainda mais o nosso jogo tão sofrido. Há qualidade, mas ela está sufocada. Sem espaço, tempo, paciência, treino e coragem fica quase impossível. É mais fácil esperar o contragolpe. Ou o acaso proteger.


No clássico da desordem, Palmeiras respira e São Paulo agoniza sem soluções
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André Rocha

O time de Cuca mostrou as virtudes e defeitos habituais na temporada. Erros defensivos pela desorganização provocada pelas perseguições individuais. Ficou claro no gol de Marcos Guilherme, quando Pratto aproveitou a retaguarda esburacada para dar assistência, antes do acidente com Hernanes que o tirou do campo na ambulância.

Entrou Gilberto e o São Paulo perdeu força. O Palmeiras reagiu pela persistência, por não desistir, pela inquietação de seu treinador usando as peças disponíveis. Jogada de Michel Bastos, gol de Willian, autor do segundo em finalização de fora. Virada rápida desconstruída por Hernanes, o único lúcido no tricolor paulista. Mas que não pode resolver tudo na jogada individual ou nas finalizações precisas.

Porque o “Soberano” é um clube à deriva. Pela irresponsabilidade de entregar um dos gigantes brasileiros à própria sorte com jogadores e treinador ainda se conhecendo em agosto, num balcão de compra e venda que parece não ter fim. E não consegue resolver um problema grave desde o início da temporada: a falta de um goleiro confiável.

Sidão teve mais uma chance e novamente mostrou a insegurança capaz de minar as forças e a confiança de qualquer um. Mesmo que Dorival Júnior tente organizar sua equipe num 4-1-4-1 que tem momentos de compactação e setores bem coordenados. Só que elos fracos como os  laterais Buffarini e Edimar acabam comprometendo qualquer esforço coletivo e períodos de domínio na partida, com chances cristalinas desperdiçadas – a de Rodrigo Caio na segunda etapa simplesmente inacreditável.

Duas jogadas pela esquerda, o terceiro gol com Keno, substituto de Bruno Henrique para tornar o time ainda mais ofensivo, e o golpe final com Hyoran, reserva pouco utilizado desde que chegou ao Palmeiras. Jogada iniciada com um lançamento precioso de Tchê Tchê para Willian servir o companheiro.

O “Bigode” foi o personagem da vitória fundamental e justa no Allianz Parque: o mandante teve 54% de posse, desarmou corretamente 21 vezes contra dez e finalizou 24 vezes contra nove do rival – dez a quatro no alvo. Para o Alviverde se recolocar na disputa das primeiras posições da tabela e aliviar o ambiente de crise. Nem precisou de tanto para vencer um “Choque-Rei” marcado pela desorganização dos times.

Revés sintomático para um São Paulo em desespero. Vítima de decisões equivocadas há algum tempo, mas bem mais graves em 2017. Desmanchar e remontar elenco ao longo do Brasileiro é algo criminoso. O resultado é uma lenta agonia que parece cada vez mais sem soluções.

(Estatísticas: Footstats)

 

 


Com Levir Culpi, Santos cresce no modo “briga de rua”: jogo de trocação
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André Rocha

O Santos de Dorival Júnior prezava posse de bola e troca de passes. Na reta final do trabalho de quase dois anos, o domínio era inócuo pela baixa efetividade da equipe que rodava, tocava, mas não finalizava e deixava a defesa exposta.

Levir chegou e não mudou o DNA ofensivo da equipe, algo até cultural no clube. Nas últimas partidas, incluindo os 3 a 0 sobre o Bahia, até arriscou mais encaixando Emiliano Vecchio no lugar de Thiago Maia, negociado com o Lille.

A execução do 4-3-3, porém, é vertical, direta. Não controla o jogo com a bola, ainda que seja o líder em posse e o segundo em acertos de passes na competição – muito mais pelo volume de jogo e pela vontade de atacar, dentro ou fora de casa, sem contar os altos índices nas quatro partidas ainda sob o comando do antecessor.

Também não há controle de espaços, com o time bem posicionado na fase defensiva. Por isso Vanderlei trabalha tanto e é o melhor goleiro da Série A. Assim como explica os muitos erros de Lucas Lima em lançamentos e cruzamentos. Força a assistência o tempo todo, buscando Kayke no centro do ataque ou os pontas Copete e Bruno Henrique jogando invertidos para infiltrar em diagonal.

O camisa dez tem só dois passes para gols – Bruno Henrique tem cinco. Mas é quem faz o time acelerar o tempo todo, agora com auxílio de Vecchio e a proteção de Yuri à frente da retaguarda.

O Bahia terminou o jogo no Pacaembu lotado com 51% de posse e 14 finalizações contra onze do time mandante. Mas Bruno Henrique aproveitou uma trinca de ações ofensivas rápidas, com pelo menos três santistas na área adversária para resolver a partida. O alvinegro praiano melhorou muito sua relação finalizações/gols: agora precisa de oito conclusões para ir às redes.

O Santos cresce e luta na parte de cima do Brasileiro no modo “briga de rua”. Aposta na trocação, no jogo aberto acreditando na força de seu ataque e no momento espetacular de seu goleiro para derrubar os rivais.  Até porque o mantra atual do futebol nacional é não ficar com a bola e jogar em transições o tempo todo.

Não chega a ser um “Peixe Doido”, como o Galo de Cuca que Levir herdou e manteve a intensidade no topo. Mas torna o time mais imprevisível e eficiente. Dorival caiu com uma vitória e três derrotas. Com Levir são oito triunfos, três empates e apenas um revés. 75% de aproveitamento que só ficaria atrás do líder Corinthians. Não é pouco.

 

(Estatísticas: Footstats)


Dorival Júnior vai penar com um São Paulo sem confiança e entrosamento
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André Rocha

Dorival Júnior resgatou o gosto pela posse de bola do trabalho de Rogério Ceni, em especial no início. O novo treinador quer um São Paulo protagonista, propondo o jogo. Mas está difícil. Porque são nove partidas sem vitória e time afundado na zona de rebaixamento, o que naturalmente abala a confiança.

Para piorar, o desentrosamento de um elenco muito mexido, com entradas e saídas de atletas. Na Arena Condá, o primeiro tempo de domínio, especialmente nas jogadas pela esquerda com aproximação de Junior Tavares, Jonatan Gómez e Cueva, não conseguiu proporcionar uma oportunidade cristalina. Porque a jogada pelo flanco sempre fugia de Lucas Pratto e Wellington Nem, exatamente pela falta de sintonia. O cruzamento era impreciso ou o atacante estava mal posicionado para finalizar.

Pouco ou nada adianta a posse sempre acima dos 65%. Ou até atrapalha, pois dá ao adversário o conforto de jogar posicionado atrás e saindo em transições ofensivas rápidas aproveitando espaços em uma retaguarda adiantada. Time sem confiança, erra o passe e está exposto.

Foi o que aconteceu na segunda etapa, principalmente depois do gol de Tulio de Melo na jogada aérea, ainda uma opção ofensiva interessante na Chapecoense agora comandada por Vinicius Eutrópio. Mesmo sentindo os desfalques, especialmente do forte lado esquerdo com Reinaldo e Arthur Caike, o 4-1-4-1 encontrou em Apodi do lado oposto a melhor saída em velocidade.

Dorival Júnior trocou Wellington Nem, Cueva e Petros, colocando Marcinho, Lucas Fernandes e Denilson. Mas era uma equipe nitidamente insegura, com medo de errar e evitando o passe diferente para as infiltrações. A bola rodava, rodava e nada acontecia.

Até o erro, a bola retomada e o chute preciso de Lucas Marques. A 15ª finalização da equipe mais objetiva para decretar os 2 a 0. Resultado que redime a Chape, que respira se afastando do Z-4. O São Paulo sofre, Dorival Júnior vai penar para implementar seus conceitos em elenco tão heterogêneo e ainda se conhecendo, com o primeiro turno se aproximando do fim.

O desafio só aumenta.

(Estatísticas: Footstats)


Levir Culpi pode ser o “Renato Gaúcho” de Dorival Júnior no Santos
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André Rocha

Estrear técnico num período sem tempo para treinamentos, com partidas a cada três dias, é sempre uma missão inglória. Não foi diferente para Levir Culpi que recebeu de Elano o Santos de Dorival Júnior.

No clássico da Vila Belmiro, foi possível ver uma equipe mais atenta, intensa e buscando um jogo mais vertical – na vitória sobre o Atlético-PR já havia chamado atenção a efetividade. Nem sinal da posse estéril de vários momentos da temporada.

Mas a proposta de não ser tão protagonista, definindo mais rapidamente a jogada tem efeitos colaterais, como a pressão palmeirense no segundo tempo que transformou Vanderlei no melhor jogador em campo. Triunfo com arbitragem polêmica no gol de Kayke em disputa com Edu Dracena  Impressão de falta do atacante no zagueiro, que reclamou de infração sobre ele também no segundo tempo, mas na área santista.

Passe de Jean Motta, improvisado novamente na lateral esquerda e sofreu na defesa com os seguidos ataques palmeirenses. Faltou também mais mobilidade de Lucas Lima, vigiado pelo volante Thiago Santos. O 4-2-3-1 mantido por Levir teve problemas de compactação.

O Santos terminou com 49% de posse, apenas oito finalizações contra 14 do rival – cinco a oito no alvo. Por outro lado, foram 29 desarmes certos contra 16. Uma clara mudança de perfil e de postura.

Primeira vitória em clássicos na temporada. De um alvinegro praiano que pode viver experiência parecida com a do Grêmio. Assim como Roger Machado, Dorival Júnior deixa um estilo assimilado num trabalho de quase dois anos, porém desgastado.

Levir não é o maior ídolo do Santos, como Renato Portaluppi no time gaúcho. Mas sua visão de futebol e gestão de vestiário podem trazer ao time um complemento às práticas do antecessor. Alternando a valorização do controle da bola com mais rapidez na transição ofensiva, contundência no ataque e o modo Levir de lidar com todos: direto e franco, sem os laços que Dorival construiu naturalmente pelo tempo de convivência. A concorrência vai ficar mais aberta. o ambiente mais competitivo.

Em junho será difícil ver uma mudança mais significativa, pela sequência de jogos. Por ora, importante é pontuar para mudar o patamar na disputa. Com os nove pontos nas últimas três rodadas, já se aproximou do G-4. Sem alarde, o atual vice-campeão pode voltar a brigar no topo. Com Levir como o “Renato Gaúcho” da Vila Belmiro.

(Estatisticas: Footstats) 


Caiu o “sobrevivente” Dorival Júnior. Afinal, tem hora certa para terminar?
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André Rocha

Assistindo ao clássico paulista em Itaquera, em determinado momento, ainda com o jogo empatado sem gols, veio à mente a seguinte conclusão: “Dorival Júnior não consegue tirar mais nada desse Santos”.

Impressionava como a proposta de jogo baseada em posse de bola tinha se tornado previsível, enfadonha. Sem Lucas Lima também perdia lucidez e rapidez de execução, mesmo considerando a queda de rendimento do meia. Algo precisava ser feito.

A troca no comando técnico foi a primeira opção no meu raciocínio solto, no livre pensar. Logo recriminado pela razão. Afinal, era o trabalho mais longo entre as equipes da Série A. Um “sobrevivente”. E tudo que cobramos é tempo para o treinador implementar seu modelo de jogo e fazer sua equipe jogar “de memória”.

Mas logo em seguida, já com a partida encerrada em dois a zero para o então líder Corinthians, que perderia novamente esta condição no saldo de gols para a impressionante Chapecoense que alcançou o mesmo placar no Mineirão sobre o mesmo Cruzeiro que a eliminara da Copa do Brasil na quinta-feira, veio a reflexão:

Afinal, qual é o momento de se dar por encerrado o ciclo de um treinador? Costumamos dizer que é, no mínimo, uma temporada. Dorival já estava chegando a dois anos. Qual era a margem de evolução? Apesar da campanha invicta na Libertadores, em um grupo fraquíssimo, parecia claro que a equipe não alcançava e dificilmente alcançaria um bom rendimento.

Também por causa do equívoco do comandante santista ao se deixar seduzir pela ideia da formação do time “cascudo” para o torneio continental. A contratação de Leandro Donizete sempre pareceu um ato contrário aos princípios de Dorival e até à história vitoriosa do Santos. Virando as costas para as divisões de base, ainda que a safra atual não seja das mais talentosas. Contratando um volante obsoleto, mas com liderança e “pegada”.

Na realidade do futebol brasileiro, a queda no desempenho em 2017 só se sustentaria com um passado recente de conquistas relevantes. Não foi o caso. Apenas um estadual e a frustração em 2015 com a perda da vaga que parecia certa na Libertadores, via Copa do Brasil ou Brasileiro. Recuperada com a campanha sólida no ano seguinte e a segunda colocação. Impressionante pelas muitas perdas por lesões, negociações, convocações. Faltou, porém, a taça importante para respaldar a paciência.

Porque em qualquer ramo é preciso apresentar resultados que são consequência do bom desempenho. Ou ao menos um rendimento que sugira momentos melhores no futuro. Se não for assim, o que cobrar? Como avaliar? Onde estará o mérito?

É a pergunta que se faz ao observar o Arsenal mantendo Arsene Wenger por mais dois anos. Vai chegar a 23 no comando do time londrino. Mudou o estilo e a história do clube, merece todas as homenagens. Mas a realidade é que entrega menos desempenho e resultados a cada temporada. Cada vez mais irregular e sem conquistas relevantes além das copas nacionais.

A consequência é que os Gunners saíram da rota de grandes contratações, mesmo as promessas, do futebol mundial. Um Vinicius Júnior, por exemplo, não se empolgaria com uma proposta de Wenger. Porque ele tem 16 e há 13 o Arsenal não vence uma Premier League e desta vez nem a classificação para a Liga dos Campeões veio como consolo. E quando os concorrentes fraquejaram na temporada passada, quem aproveitou foi o Leicester City.

Ou seja, a insistência vem sendo nociva ao clube. Qual a margem de crescimento? Imaginar o Arsenal campeão com Wenger é tão improvável quando o Leicester ganhar com Claudio Ranieri. Só uma incrível conjunção dos astros. Muito pouco para a história do clube. Já passou da hora de trocar e o Arsenal parece perdido. Como quem empurra um casamento esfacelado por comodismo e pelo medo do desconhecido.

Por aqui exageram no imediatismo, nas contratações e demissões sem convicção. Mas às vezes funcionam. Como no Grêmio de Renato Gaúcho, que recebeu um time de Roger Machado com muitas virtudes e alguns problemas. O maior ídolo do clube chegou com seu carisma e inteligência para acertar o vestiário, ajustar o que estava errado e hoje o clube celebra o título da Copa do Brasil, a volta à Libertadores e o futebol mais interessante do país no último mês.  Conseguiria com a manutenção de Roger? Nunca saberemos.

O que a experiência de vida diz é que a mudança pode ser muito saudável. Para o casal que se permite tentar ser mais feliz com novos parceiros. Para um livro que necessita de um segundo olhar, como as editoras costumam fazer nas revisões de textos – porque às vezes os olhos estão “viciados” e deixam passar alguns erros. Natural, humano.

Dorival e Santos descruzam seus caminhos. O profissional não deve ficar muito tempo desempregado por sua notória competência. Triste por resultar em um cenário no qual apenas Flamengo e Atlético-GO tenham seus treinadores há mais de um ano. Talvez toda a cadeia produtiva do nosso futebol esteja acostumada com isso – dirigente, jogadores, imprensa e os próprios técnicos. Por isso o pensamento automático do blogueiro. É provável que estejamos todos errados.

Mas se entender com o tempo nunca é fácil. Sempre haverá o “se” em forma de incerteza. Porque a convicção que não vira teimosia é virtude rara, dos sábios e maduros. Quem sabe um dia chegaremos lá?


Eles não podem errar! A dura transição do mercado de treinadores no Brasil
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André Rocha

Quando Zé Ricardo chamou Matheus Sávio para dar instruções enquanto a torcida do Flamengo no Serra Dourada pedia a entrada da joia Vinícius Júnior, o treinador sabia que corria riscos por suas convicções.

Afinal, se o time fosse eliminado da Copa do Brasil, independentemente do rendimento do jovem atacante, que entrou muito mal contra o San Lorenzo na traumática derrota na Libertadores, as chances de ser demitido cresceriam exponencialmente.

Mas Sávio, assim como contra o Atlético Mineiro no Maracanã, na estreia do Campeonato Brasileiro, colocou um cruzamento no fundo das redes do goleiro Felipe do Atlético-GO. O choro copioso do jogador foi sintomático. É muita pressão para quem ainda está no início de sua trajetória entre os profissionais.

O mesmo vale para os treinadores. No país do futebol de resultados, o comandante passa de “boa novidade” e “atualizado” para “estagiário” e “rolando lero” a cada semana. Mesmo que a sua equipe esteja organizada e o placar adverso tenha vindo por uma infelicidade na defesa ou chances perdidas na frente.

Ou até se eles se equivocarem, algo absolutamente natural. No mais imprevisível e caótico dos esportes, o que foi treinado baseado em observação e análise pode dar errado por uma noite ruim do atleta e aquela mudança aleatória, mais por conta da intuição, pode terminar em vitória. Para quem tem bagagem já é um desafio, imagine para novatos.

Eles simplesmente não podem errar. Seja Zé Ricardo, Roger Machado, Eduardo Baptista…Mesmo Jair Ventura, com enorme crédito no Botafogo, quando tentou mudar a maneira de jogar contra o Barcelona de Guayaquil no Estádio Nilton Santos e saiu derrotado as críticas vieram pesadas.

A transição no mercado de treinadores é dura. Depois dos 7 a 1 que mandaram Luiz Felipe Scolari para a China e da queda em desempenho e resultados de grifes como Vanderlei Luxemburgo, Muricy Ramalho e até Marcelo Oliveira, apesar dos títulos com Cruzeiro e Palmeiras, um buraco foi aberto para uma leva de profissionais com conceitos atualizados, vendo e pensando o futebol como é jogado nos grandes centros.

Um jogo mais coletivo e que trabalha com informações e gestão na comissão técnica. Menos com carisma e discursos motivacionais. Quando o resultado acontece, tudo isso é louvado. Se não, bate a saudade dos velhos nomes e de fórmulas antigas. Como se o que deu certo na década passada necessariamente dará em 2017.

O cenário é complexo. Dá para contar nos dedos de uma das mãos os treinadores do país que conseguem unir vivência como ex-jogador, conteúdo atual, sensibilidade na gestão de grupo e da comissão técnica. Ou seja, no auge da carreira. O melhor deles está na CBF.

Por conta de todas as dificuldades citadas, as experiências com estrangeiros não foram felizes – vide Diego Aguirre, Ricardo Gareca, Edgardo Bauza, Juan Carlos Osorio, entre outros. Quando estão começando a aprender o idioma para se comunicar já estão passando no RH e voltando para casa.

Simplesmente não há paciência, porque falta convicção para acreditar num projeto de longo prazo. Roger Machado e Zé Ricardo acharam que teriam um pouco mais de paz e respaldo para trabalhar por conta de conquistas nos estaduais. Mas basta uma sequência de resultados ruins e tudo é esquecido.

Ainda mais em clubes dos quais se espera muito. Pela capacidade de investimento e ilusão alimentada por departamentos de marketing e também por nós da imprensa, o torcedor passa a crer que seu time de coração conta com um elenco estelar e que basta o treinador distribuir certo as camisas e não atrapalhar para tudo acontecer.

Não é assim que funciona. Estar atualizado nas ideias e métodos ajuda a não ser surpreendido, a minimizar a aleatoriedade do jogo. Mas não garante nada. Muito menos onde não se valoriza filosofia e identidade, só o placar final e a conquista que vão gerar memes e zoações. Até tudo ser esquecido no próximo jogo.

Por ora, Dorival Júnior é o sobrevivente na Série A, comandando o Santos desde julho de 2015. Já Ney Franco foi demitido do Sport depois de perder a Copa do Nordeste para o Bahia com menos de dois meses de trabalho. Treinadores com rodagem de mais de uma década. Paulo Autuori, com mais de quarenta anos à beira do campo, cansou. “A rotina consome”, explicou. Vai ser gestor no Atlético-PR e abre espaço para Eduardo Baptista.

Paciência não significa ser permissivo e deixar de cobrar o desempenho que chega ao resultado. Os profissionais são bem remunerados para isso. O ponto nevrálgico é o imediatismo, a incapacidade de observar um lastro de evolução, vislumbrar um futuro melhor. Tudo ainda se resume à tentativa e erro. Até acertar. Para ontem.

Enquanto isso, segue a roda vida, a máquina de moer técnicos. Zé Ricardo escapou no gol de Matheus Sávio. Quem será o próximo?