Blog do André Rocha

Arquivo : dudu

Palmeiras de Felipão é versão aprimorada do campeão brasileiro com Cuca
Comentários Comente

André Rocha

Everton faz uma falta tremenda ao Grêmio. É o desafogo dos contragolpes, o ponteiro do drible que desarticula o sistema defensivo adversário. Da infiltração em diagonal para a finalização. Um desfalque imenso para uma partida do tamanho do confronto fora de casa contra o líder do campeonato.

Mas convenhamos que por mais que se dedique e reforce o discurso de que a competição por pontos corridos é importante, a concentração e a intensidade do Grêmio no Brasileiro nunca é a mesma em relação à Libertadores. É cultura, assimilada por Renato Gaúcho, maior ídolo da história do clube, e por seus comandados.

Nada disso, porém, tira os méritos dos 2 a 0 do Palmeiras no Pacaembu. Uma atuação segura, sólida, que permitiu apenas três finalizações do atual campeão sul-americano. Nenhum no alvo. O Alviverde concluiu sete, cinco na direção da meta de Paulo Victor. Nem tanto assim, mas o jogo todo deixou a impressão de que poderia marcar mais gols, mesmo com apenas 40% de posse.

Porque Luiz Felipe Scolari e sua comissão técnica conseguiram fazer o elenco assimilar a proposta de jogo rapidamente e com muita precisão, aditivada pela confiança por conta dos bons resultados. A ponto de poder mesclar cada vez mais titulares e reservas sem queda de desempenho por falta de entrosamento.

Contra o Grêmio, a maior virtude foi a concentração no trabalho sem bola. Depois do sucesso no duelo com o Colo Colo pelas quartas de final da Libertadores, Felipão resolveu seguir apostando na marcação por encaixe. Diante do time de Renato Gaúcho, que no país é quem trabalha no modelo mais próximo do jogo de posição, com toques curtos e mobilidade em pequenos espaços, as perseguições nem precisavam ser tão longas, o que costuma desarrumar mais os setores.

Os duelos, então, ficavam bem definidos: Dudu e Willian voltavam com os laterais Leo Gomes e Marcelo Oliveira, Thiago Santos pegava Luan, Moisés bloqueava Maicon, Bruno Henrique batia com Cícero. Mayke esperava Pepê, o mesmo do lado oposto com Diogo Barbosa contra Alisson. Zagueiros Luan e Gustavo Gómez cuidavam de Jael. Na frente, Deyverson incomodava Geromel e Bressan.

O gremista que recebia a bola era imediatamente pressionado por seu marcador. Nas tentativas de triangulação, quase nunca o Palmeiras permitia o terceiro homem livre – ou seja, aquele que se desmarca e vai receber a bola mais à frente. Impressionante como o time da casa permaneceu ligado durante os noventa minutos.

Bola retomada, muitas ligações diretas. Foram 44 lançamentos na partida. Quase sempre buscando Deyverson no pivô ou Dudu na velocidade. Não por acaso, os dois melhores em campo. Um desequilibrou com gols, outro como o ponteiro que Everton costuma ser para o Grêmio. O centroavante finalizou três vezes, duas no alvo. Nas redes.

O camisa sete, melhor em campo, foi quem mais acertou dribles e passes para finalizações. Cruzou para Deyverson desviar para o primeiro gol. Ganhou da defesa e rolou para Bruno Henrique chutar e Cícero salvar quase sobre a linha. Apesar de ainda insistir muito nas reclamações com a arbitragem, já é candidato a grande destaque individual do campeonato.

Marcação por encaixe, perseguições individuais, ligações diretas, concentração, Dudu desequilibrando. Tudo isso lembra demais a trajetória que terminou com o título em 2016. Sob o comando de Cuca. Campanha fantástica no segundo turno, outra semelhança.

Só que o time de Felipão, pelo menos até aqui, parece uma evolução daquele Palmeiras. Que tinha o talento de Gabriel Jesus, mas nem sempre um pivô como Deyverson para reter a bola e contribuir para o volume ofensivo. Mais leve, sem o peso dos 22 anos sem título brasileiro e o clima tenso que Cuca costuma criar na gestão do elenco, o jogo flui melhor.

Conta também, e muito, o elenco mais qualificado e homogêneo que o de dois anos atrás. Para vencer o Grêmio e praticamente tirá-lo da briga pelo título. Com os 3 a 1 do Internacional sobre o São Paulo no Beira-Rio, sobram três reais candidatos à principal competição nacional. Os dois vencedores das partidas mais importantes do domingo e mais o redivivo Flamengo de Dorival Júnior.

A menos que surja um “fato novo”, a única possibilidade de queda do líder é o contexto da semifinal da Libertadores contra o Boca Juniors e de uma possível decisão continental interferir muito nas rodadas de fim de semana. Hoje parece improvável. Mais fácil os outros dois tropeçarem na ansiedade por taças.

Favoritismo absoluto do Palmeiras, maior que os três pontos de vantagem na tabela sobre o Inter. Returno de oito vitórias e dois empates, 16 gols a favor e apenas cinco contra. Praticamente imune a desfalques, com confiança no teto e tratando o Brasileiro sem obsessão. Não é a prioridade, mas parece ser levado cada vez mais a sério faltando nove rodadas.

(Estatísticas: Footstats)


A “nova ordem nacional” diz que o Palmeiras está bem vivo contra o Cruzeiro
Comentários Comente

André Rocha

Ninguém é uma coisa só e, por isso, devemos fugir dos estereótipos. Mas é inegável que Mano Menezes e Luiz Felipe Scolari, embora tenham suas origens no sul do país, têm perfis bem distintos.

Mano é mais “alemão”. Duro, pragmático, frio na maior parte do tempo. Ainda que ande cada vez mais destemperado à beira do campo, especialmente com a arbitragem. Já Felipão é “italiano”: sanguíneo, passional, protetor. Mas igualmente focado no resultado final.

Dois “europeus” que são símbolos do futebol jogado no Brasil. Não por acaso dois dos últimos quatro treinadores da seleção. Como Dunga e Tite, todos do sul.

Porque a “nova ordem nacional” copia o futebol europeu no trabalho sem bola. A sofisticação do “fechar a casinha”. O futebol gaúcho, em especial, sempre teve como característica a organização defensiva, o jogo físico e a pressão sobre o adversário com a bola. Características dos times de Ênio Andrade, Rubens Minelli e outros. Inspirações declaradas da grande maioria dos treinadores bem sucedidos vindos do Rio Grande do Sul.

A vitória do Cruzeiro sobre o Palmeiras no Allianz Parque pela semifinal da Copa do Brasil foi típica. O mando de campo induziu um dos times a avançar suas linhas e arriscar mais. Na entrevista antes da partida, Felipão foi bastante claro: “Precisamos ter cuidados principalmente quando estivermos com a bola”.

Dudu vacilou e o contragolpe foi letal. Toques rápidos, práticos até Barcos tocar na saída de Weverton. Jogada de manual. Com espaços a beleza se faz presente.

Diante de duas linhas de quatro compactas e muita concentração defensiva, o Palmeiras teve dificuldades para impor seu jogo simples e direto. Muitas vezes jogou feio. No geral, o desempenho não foi bom. Porque criar brechas em um “muro” é cada vez mais complexo.

Não basta entregar a bola para o talento resolver na base do drible ou do passe mágico no meio da defesa. Agora há mais corpos condicionados e bem posicionados para bloquear. Em jogos grandes mais ainda. Atacar requer repertório coletivo. Trocas de passes, movimentação, infiltração na hora certa e precisão no acabamento da jogada – assistência e finalização.

Tudo que o time da casa não teve. Mesmo com Lucas Lima no lugar de Thiago Santos aumentando a criatividade e a expulsão de Edilson empurrando ainda mais a equipe mineira para o próprio campo. Com 66% de posse, 19 finalizações contra apenas quatro. Levantando 37 bolas na área de Fábio. Mesmo com bola no travessão em chute de Willian faltou a chance cristalina em jogada construída.

No final, o lance polêmico. Para este que escreve, disputa normal entre Edu Dracena e Fábio. Goleiro não é intocável dentro da área. O árbitro Wagner Reway anulou antes do toque de Antonio Carlos para as redes. Podia ter sido o empate do Palmeiras. Mas também não é o fim do mundo.

O Cruzeiro não tem conseguido se impor no Mineirão. Muito pela proposta de Mano de não correr riscos mesmo quando o cenário é tão favorável. Ficou por um gol de ser eliminado pelo Santos na fase anterior da Copa do Brasil e de ter que disputar com o Flamengo nos pênaltis pela Libertadores.

É melhor se cuidar, porque o Palmeiras está bem vivo e parece mais forte que os outros oponentes eliminados. E Felipão certamente usará o tradicional discurso “contra tudo e todos” para inflamar seu time. Como visitante, a pressão diminui e o jogo costuma fluir melhor. O Cruzeiro tem sentido mais o peso, inclusive do favoritismo. Sempre incômodo no futebol brasileiro.

Confronto muito aberto. A missão do Cruzeiro é entregar em casa a atuação segura que a torcida tanto aguarda. Mas se terminar com a vaga em mais uma decisão do torneio, mesmo com sofrimento, a festa será igual. Porque a exigência no Brasil vai pouco além do resultado final. Mano e Felipão são dois grandes expoentes dessa mentalidade.

(Estatísticas: Footstats)


Palmeiras na semifinal da Copa do Brasil já com toques do “método Felipão”
Comentários Comente

André Rocha

A vitória por 1 a 0 sobre o Bahia no Pacaembu que coloca o Palmeiras na semifinal da Copa do Brasil contra o Cruzeiro é a segunda em mata-mata na volta de Luiz Felipe Scolari. A segunda com titulares num total de três em quatro jogos. Sem sofrer gols. O de Dudu foi o quarto marcado.

Pouco tempo. Mas o suficiente para perceber que já existem toques do “método Felipão” na equipe alviverde.

A começar pelo 4-2-3-1 que aproxima o meia central – Moisés, que deixa Lucas Lima no banco – de Borja, a referência do ataque. Exatamente para ser o jogador que pressiona o volante mais fixo na saída de bola do adversário. funciona como um desafogo na saída rápida em contragolpe e disputa pelo alto nas ligações diretas da defesa palmeirense quando pressionada. Certamente a estatura pesou a favor do camisa dez.

As bolas roubadas no campo do oponente continuam sendo uma arma importante quando surge a dificuldade para criar espaços. O contra-ataque mais perto da meta rival com a retaguarda desarrumada. Um recurso desde o Grêmio nos anos 1990, passando pelo Brasil campeão mundial em 2002. Quase rendeu gol em oportunidade clara de Willian após interceptação de Borja. Moisés também perdeu à frente do goleiro Anderson numa cobrança rápida de falta.

No primeiro tempo, a pressão no campo de ataque rendeu bola roubada por Borja que quase terminou em gol com Willian saindo à frente do goleiro Anderson. Velho recurso dos times de Felipão (reprodução SporTV)

Boas chances, mas construídas com pouco volume de jogo. Muito pela falta de aproximação no setor ofensivo. Willian e Dudu abertos, Moisés se juntando a Borja na maior parte do tempo e o espaço para a articulação sendo ocupado basicamente por Bruno Henrique, com um ou outro movimento de Moisés recuando para auxiliar.

O Bahia de Enderson Moreira no primeiro tempo foi um contraponto. No mesmo 4-2-3-1, porém com bola no chão e mobilidade do quarteto ofensivo. Zé Rafael saia da esquerda para dentro pensar o jogo com Vinícius e Edigar Júnio infiltrava em diagonal para se juntar a Gilberto. Assim saiu a melhor oportunidade na finalização na trave de Edigar, com Gilberto chutando no rebote em cima do próprio camisa onze e perdendo gol feito. Sorte de Felipão.

Antes do primeiro minuto da segunda etapa, Borja perdeu mais uma oportunidade cristalina tentando encobrir Anderson depois de um chutão de Edu Dracena. O Palmeiras voltou do intervalo com mais intensidade e concentração no trabalho defensivo, pressionando o adversário com a bola e melhor posicionado, especialmente Felipe Melo, para impedir a troca de passes na entrada da própria área.

Retomou domínio, ocupou o campo de ataque e chegou ao gol na melhor jogada trabalhada. Pela direita, com Mayke, que deixou Marcos Rocha no banco e foi o melhor passador da partida, tabelando com Moisés e cruzando na cabeça de Dudu. O camisa sete decisivo, mas que participava pouco do jogo. Combinação pelo flanco, cruzamento e ponta do lado oposto pisando na área para concluir, junto com Borja e Willian. Também uma prática comum dos times de Scolari.

Combinação rápida e precisa entre Mayke e Moisés e o cruzamento encontrando três palmeirenses na área adversária. Dudu completou e decidiu o jogo e a vaga nas semifinais da Copa do Brasil (reprodução SporTV).

Depois foi administrar com uma formação inusitada: Thiago Santos entrou na vaga de Borja e Hyoran substituiu Willian. Com isso, o 4-2-3-1 tinha Bruno Henrique como meia central, Moisés à direita e Hyoran mais adiantado. Força na marcação e um atacante descansado para correr sozinho na frente.

Deu certo. Triunfo com 60% de posse de bola, finalizando 13 vezes contra dez do Bahia – seis a quatro no alvo. Desarmando menos (15 a 19), porém interceptando mais (6 a 4). Também menos cruzamentos – 20 a 21 – e lançamentos – 37 a 39. O Palmeiras de Scolari não é exatamente moderno, mas tenta jogar.

Mesmo quando não consegue, tem como mérito nunca desistir. De tanto querer a vitória acaba aparecendo. Mais Felipão impossível.

(Estatísticas: Footstats)


Flamengo comprova sua força, Palmeiras segue na “montanha russa” de emoções
Comentários Comente

André Rocha

O Flamengo sem seus três zagueiros experientes e também o lesionado Diego claramente sentiu a pressão do ambiente nos primeiros minutos no Allianz Parque. O treinador Mauricio Barbieri também sacou Henrique Dourado para aproveitar Filipe Vizeu o máximo de minutos antes da partida para a Udinese. O resultado foi um time bastante jovem, com seis oriundos das divisões de base. Por isso, assustado nos primeiros vinte minutos.

Mas quem errou foi Rodinei, que tinha várias opões para cortar um cruzamento da direita e tomou a pior decisão: um golpe de cabeça fraco, no pé de Dudu. Longe do adversário, deu espaços para o cruzamento que encontrou Bruno Henrique e deste para Willian ir às redes aos seis minutos.

Um time confiante e seguro teria amassado o líder do campeonato até os 15 minutos. O Palmeiras, também com desfalques importantes, até tentou, pressionando muito Lucas Paquetá, que novamente prendeu demais a bola, e atacando com volume, fazendo Diego Alves trabalhar muito. Mas quando a equipe de Roger Machado é obrigada a diminuir a pressão o time controla mal o jogo. Murcha. E a torcida, que também não confia muito, deixa a arena morna.

Foi o suficiente para que o organizado time de Barbieri, novamente no 4-1-4-1, encontrasse no lado direito com Rodinei e a aproximação de Jean Lucas a válvula de escape, enquanto Everton Ribeiro passou a aproveitar os espaços às costas de Felipe Melo e Bruno Henrique, os volantes do 4-2-3-1 alviverde, que estavam muito concentrados em não dar brechas a Paquetá.

O primeiro tempo terminou com 53% de posse do Fla e seis finalizações, quatro na direção da meta de Jailson. Destaque para o Palmeiras nos 12 desarmes certos, o dobro do adversário. Foi o que sustentou a vantagem.

De novo a intensidade e a torcida quente no início do segundo tempo. Mas foi esfriando, esfriando…E o Flamengo tomou conta. Empatou no gol do jovem zagueiro Matheus Thuler subindo mais que Thiago Martins pregado no chão e completando escanteio de Rodinei. Podia ter virado não fosse o individualismo de Paquetá e um chute fraco sem goleiro de Vinícius Júnior, novamente disperso e reclamando muito da arbitragem. Ainda uma finalização perigosa de Everton Ribeiro.

Na reta final, Barbieri preferiu administrar o empate. Trocou Arão por Jean Lucas, depois tirou Vizeu e colocou Marlos Moreno para tentar acelerar os contragolpes e, por fim, Jonas na vaga de Everton Ribeiro. Roger tentou com Lucas Lima, Artur e Papagaio, mas apenas num abafa sem grande criatividade. Time muito tenso com o peso da responsabilidade. Terminou com mais finalizações – 14 a 13, cinco no alvo. Mas a maioria muito deficiente, inclusive de Bruno Henrique livre na entrada da área rubro-negra. Saiu bem longe.

Nos acréscimos, a confusão geral que terminou nas expulsões de Jailson, Dudu e do zagueiro reserva Luan do lado do time mandante e Cuéllar, Jonas e Henrique Dourado, também no banco, pelos visitantes. Desnecessário. Mas o fraquíssimo árbitro Bráulio da Silva Machado não teve peito para dar mais minutos com Moisés na meta alviverde.

O Fla também não reclamou. O empate foi resultado satisfatório, fechando os primeiros 12 jogos com surpreendentes 27 pontos para o contexto do início do Brasileiro. Pelos desfalques, o time demonstrou solidez e consciência. Faltou contundência. Algo a melhorar na volta, sem Vizeu e, provavelmente, Vinicius Júnior.

O Palmeiras segue com oito pontos de distância para o líder. Podia ser pior pelo que aconteceu na partida. A missão de Roger e de todos no clube é aproveitar a pausa pra a Copa do Mundo e tentar estabilizar o time mentalmente e minimizar a “montanha russa” emocional que torna tudo tão incerto e inconstante.

(Estatísticas: Footstats)


Vitória do Cruzeiro e o dilema do Palmeiras: mal treinado ou sem confiança?
Comentários Comente

André Rocha

As ausências de Henrique e De Arrascaeta no Cruzeiro e de Felipe Melo e Borja no Palmeiras contribuíram para um jogo no Mineirão com ambos enfrentando problemas na construção das jogadas desde a defesa e terminando, como consequência, com a dificuldade de criar espaços quando o adversário está postado sem a bola.

A diferença no gol da vitória celeste foi a dobra de Edilson e Robinho pela direita contra Victor Luís que não teve o auxílio de Dudu. Cruzamento que encontrou Rafael Sóbis e a virada que tirou de Jaílson. A mais eficiente das dez finalizações cruzeirenses, uma das duas no alvo. Dudu saiu de campo logo após a falha na recomposição para a entrada de Moisés, mas podia ter sido protagonista no belo chute que Fabio espalmou no início da segunda etapa. A melhor das seis dos visitantes, metade na direção da meta cruzeirense.

Um detalhe decidiu. Também a organização da equipe de Mano Menezes, controlando os espaços e negando a chance cristalina ao adversário depois de abrir o placar. Usando o banco com boas opções, como Bruno Silva pela direita, Ariel Cabral no meio e Raniel lutando na frente, pressionando os passes dos zagueiros. A falta de criatividade do oponente ajudou.

E aí entra o grande dilema palmeirense: a falta de confiança por conta de uma pressão absurda a cada resultado negativo tira a coragem dos jogadores de arriscar ou o modelo é que é engessado em uma posse de bola inócua (terminou com 53%) e falta de mobilidade na execução do 4-2-3-1?

Difícil avaliar quando destaques como Lucas Lima e Dudu arriscam tão pouco. Pior ainda se Keno, o ponteiro que ousa no drible, entra em campo visivelmente com problemas físicos. Sem as inversões de Felipe Melo a troca de passes fica previsível. Mas cabe a Roger Machado encontrar soluções para não repetir o ciclo de seus trabalhos no Grêmio e no Atlético Mineiro: bom início e o trabalho vai definhando com o tempo. Sem reação dos jogadores importantes nem alterações significativas que façam o time reagir.

Melhor para o Cruzeiro, que com duas vitórias depois de um início ruim já se aproxima do pelotão da frente. Com foco e titulares em campo é equipe competitiva. Desta vez nem precisou de um gol no início como elemento facilitador. Mesmo com jogo parelho conseguiu se impor.

É o que tem faltado ao Palmeiras. Mesmo classificado na Copa do Brasil e com a melhor campanha na fase de grupos – outra coincidência em relação à passagem de Roger pelo Atlético Mineiro. Quando a corda aperta o time sente e tem fraquejado. Sem confiança por estar mal treinado ou o desempenho é ruim por causa da pressão? É preciso descobrir, tecer o diagnóstico correto. E rápido!

(Estatísticas: Footstats)


Grêmio e Atlético-PR: um zero a zero para só se falar de futebol
Comentários Comente

André Rocha

A maior prova de respeito do Renato Gaúcho campeão da América por Fernando Diniz e seu Atlético Paranaense foi o Grêmio completo, concentrado e repetindo a marcação implacável no campo de ataque da final da Libertadores contra o Lanús.

Só assim para impor a superioridade de quase dois anos de trabalho do atual treinador. Mais de três se pensarmos em um estilo que veio com Roger Machado e ganhou polimento, consciência e objetividade com Renato. Não porque Diniz seja um gênio ou mago. Apenas quer seu time jogando futebol durante noventa minutos, em qualquer estádio.

A atuação mais consistente do time que pratica o melhor futebol do país terminou sem gols, apesar das 20 finalizações – apenas seis na direção da meta do goleiro Santos. O Atlético Paranaense se recuperou na segunda etapa e só não impôs mais dificuldades pela expulsão de Camacho.

Com inferioridade numérica e atletas já desgastados por uma disputa intensa, Diniz não foi romântico nem suicida. Priorizou o ponto na Arena do Grêmio. Porque isso faz parte do futebol competitivo. Assim como a revolta pela primeira etapa de domínio absoluto do adversário. E certamente o discurso de Renato exaltando o grande jogo seria bem diferente se fosse numa partida de ida de um mata-mata sem gol qualificado, por exemplo. O pragmatismo também faz parte do jogo. Só não precisa ser o elemento único.

Algumas ideias básicas precisam ser resgatadas no Brasil. A primeira é de que a busca por um futebol ofensivo, capaz de envolver o adversário e chegar à meta do oponente nada tem de romântico ou idealista. Muito menos é algo condicionado a quanto o clube pode gastar contratando os mais valiosos jogadores. Ou seja, um privilégio das potências europeias. É apenas uma das muitas formas de se praticar o esporte bretão e buscar o objetivo final que é a vitória. Com suas virtudes, defeitos e riscos.

Diniz vai um pouco além, quer seus jogadores resgatando aquele prazer original de ter a bola e se divertir dentro da responsabilidade de um trabalho. Algo que tantos fazem nas mais diversas atividades humanas em todo o planeta. E está provado que o rendimento aumenta exatamente quando no exercício profissional o indivíduo nem lembra que é pago para fazer aquilo. Faria até de graça se não tivesse contas para quitar.

Um contraponto nesse ambiente em que parece que tudo tem que ser sofrido. Nesta mesma segunda rodada do Brasileirão tivemos um clássico nacional entre Palmeiras e Internacional no Pacaembu. Gol único de Dudu no primeiro tempo. Celebração? Para o jogador não havia clima para isto diante de tanta tensão e cobrança. O momento máximo do mais emocionante dos esportes não passava de uma obrigação. Onde estava o prazer?

A mentalidade imediatista e que trata o resultado como um fim em si mesmo dificulta o entendimento de que o jogo é um processo. Eventualmente acontece num clique, na reunião e identificação imediata dos talentos. Também é possível vencer trabalhando mal e na base do sofrimento. Mas o que o Grêmio consegue fazer não se constroi de uma hora para outra. O Atlético está no início de sua trajetória.

Precisa ter margem de erro para o aprendizado e a correção. No Brasil parece um pecado mortal. A urgência é tão grande que se o time gaúcho tivesse vencido por um a zero com o chute de Luan no primeiro tempo que parou no travessão depois de um equívoco na saída de bola atleticana para muitos já seria motivo para demitir Diniz. A perda de um ponto dentro de um campeonato com 38 rodadas é mais importante que a consolidação de um modelo de jogo que pode render mais vitórias e pontos lá na frente. Que já conquistou quatro em duas rodadas.

Talvez por isso o zero a zero. Para que seja lembrado apenas pelo futebol praticado. Sem a arbitragem ou qualquer outra questão periférica como protagonista. Onde os desenhos táticos foram quase irrelevantes diante da dinâmica, da mobilidade e também da simplicidade de alguns movimentos que mostraram o óbvio: se um companheiro dá opção, o passe fica mais fácil. E passando o time progride em direção à meta adversária de forma mais coordenada. Não precisa ser gênio, nem craque. Apenas querer e saber fazer.

A partida parou pouco e o tempo passou rápido para quem assistiu com olhos de ver. Sem a ânsia do gol. Do “jogaço” em que não há uma bola na rede como consequência de jogada construída. Para muitos, se houver oito gols, quatro para cada lado, marcados de forma aleatória, na ligação direta ou na furada grotesca do zagueiro é o que vale. Legítimo apreciar apenas a emoção instantânea do futebol. Extrair só a adrenalina.

O que se pede aqui não é unanimidade nem ditadura de uma maneira de jogar. Há várias e todas com seu valor. O post só espera respeito à essência do esporte que é o jogo. O que Grêmio e Atlético Paranaense praticaram com excelência em Porto Alegre. Mesmo sem os maiores orçamentos do país. Mesmo sem bolas nas redes.

(Estatísticas: Footstats)


Palmeiras precisa de calma, que nunca foi sinônimo de apatia
Comentários Comente

André Rocha

O título brasileiro de 2016 já foi a coroação de uma nova etapa na vida do Palmeiras, uma sequência da conquista da Copa do Brasil no ano anterior. Ainda que com treinadores diferentes, primeiro Marcelo Oliveira e depois Cuca.

Mas 2017 chegou e, com mais investimentos em busca do título da Libertadores, que seria a evolução de um trabalho, o patamar de cobrança deu um salto proporcional ao que se gastou. Mas não condizia com o amadurecimento de uma identidade.

Marcelo Oliveira, Cuca, Eduardo Baptista, volta de Cuca, Alberto Valentim e agora Roger Machado. Seis trocas de treinador em três anos. Características e momentos na carreira bem diferentes. Não há linha de trabalho aí. Um fio condutor. Mais contratações em profusão, com jogadores superestimados ou descartados com uma amostragem pequena de partidas. Porque não há consistência coletiva para potencializar a qualidade individual.

Pior ainda é essa panela de pressão com fogo alto, sempre próxima da explosão. Há quem defenda esse clima beligerante como “coisa de time grande”. Como se a calma para tomar decisões pudesse ser confundida com apatia, conformismo.

Longe disso. Nunca foi. Pressão normal, sim. Quando a exigência é infinitamente maior do que o que se pode entregar naquela etapa do processo é a senha para uma eterna busca, trocando tudo e chegando a lugar algum.

Quando Roger parecia começar a encontrar um norte que faria a equipe crescer e impor a superioridade do conjunto de suas individualidades, veio a avalanche de um clássico decisivo saturado de rivalidade e tensão. Logo o Corinthians, este sim, time com identidade e, mesmo perdendo peças e não fazendo a reposição do mesmo nível por problemas financeiros, segue sua filosofia.

O clube preferiu surtar. Desde o presidente. Por causa de um pênalti não marcado, de Ralf sobre Dudu. Sem ninguém se dar ao trabalho de se perguntar algo básico: com os jogadores com os nervos em frangalhos será que a penalidade seria convertida? A julgar pelo estado emocional de Dudu e Lucas Lima, lideranças técnicas que falharam na decisão por pênaltis, difícil prever.

Contra o Boca Juniors, a forte impressão de que o time foi tragado por essa onda de cobranças ou do desvio de foco do campo com o presidente Mauricio Galiotte culpando a Federação Paulista por mais um título perdido em sua gestão. Não é questão de avaliar se o protesto é justo ou não. Mas o que vai contribuir para a sequência da temporada?

Atuação coletiva fraca, com equívocos por nítida ansiedade que atrapalha a concentração dos atletas. E fica difícil acertar em tomadas de decisão e na parte técnica com um entorno tão complicado. Dudu e Lucas Lima de novo ficaram devendo. Keno acabou se destacando não só pelo gol, mas pela confiança em meio ao caos. Uma exceção.

Mas aí Antonio Carlos falhou novamente. O zagueiro que ganhou a vaga e parecia se firmar exatamente quando o coletivo começava a crescer errou no gol de Rodriguinho no Allianz Parque e vacilou de novo na jogada que terminou nas redes de Jailson com Tevez completando assistência de Pavón. Dois minutos depois do gol alviverde, já nos acréscimos.

Sintomático. Um gol no início do dérbi, outro no fim do jogo mais esperado da primeira fase do torneio continental. Será que com um ambiente menos complexo a chance do jogador entrar mais focado no jogo não aumentaria e, consequentemente, a margem de erro não reduziria?

Difícil avaliar quando a derrota para o Corinthians por 2 a 0 ainda na fase de grupos, sem grandes prejuízos, vira motivo para caça às bruxas. Joga-se a culpa nos jogadores, na falta de “raça”, na arbitragem, no azar… E ninguém tem a curiosidade de ver o que funciona no rival para dar certo tantas vezes. Não pode ser só o “apito amigo”…

É hora de virar a página do estadual, mesmo que obtenha vitória na Justiça pela anulação da final, e focar no que é importante para lá na frente atingir os objetivos: o trabalho. As escolhas, a sequência do desenvolvimento das ideias com convicção. Aprimorar os métodos, focar no jogo. A torcida pode ter pressa de vencer. Quem dirige sabe, ou deve saber, que um título pode pipocar aqui e ali. O futebol é tão incrível que premia até quem trabalha errado. Mas para os resultados aparecerem com mais frequência não basta gastar. Essa equação dinheiro + camisa = títulos não é tão simples assim.

É preciso pensar e executar. Com calma, mas também firmeza de propósitos. Tudo que tem faltado ao Palmeiras.


Corinthians, Botafogo e Cruzeiro: títulos serão ilusão ou redenção?
Comentários Comente

André Rocha

Não adianta em abril ou maio lembrar ao torcedor que no final do ano é bem provável, a menos que aconteça algo épico, que ninguém lembre do título estadual. Porque o prazer de vencer o rival numa final ainda badalada em termos midiáticos e levar uma taça para casa inebria, entorpece.

Não funciona falar em excesso de jogos, poder das federações, enfraquecimento do próprio time de coração. O triunfo e a chance de tripudiar do colega de trabalho, do vizinho ou de qualquer um que vista as cores do rival valem mais do que qualquer análise racional. Logo passa, porque começa o Brasileiro emendando com Copa do Brasil, Libertadores, Sul-Americana. Calendário inchado é isso.

Mas desta vez, por coincidência, as conquistas estaduais em São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais tiveram algo em comum: premiaram times contestados pelas próprias torcidas e que acabaram beneficiados pelos contextos das decisões para se superar.

O Corinthians entra no caso citado no primeiro parágrafo. Vencer no tempo normal e nos pênaltis dentro da casa do milionário Palmeiras, que contava com torcida única e vantagem do empate, é um feito histórico e certamente será lembrado pelo corintiano no fim do ano, a menos que alguma tragédia aconteça até lá.

Mas o desempenho segue preocupante. O time de Fabio Carille se classificou contra o São Paulo também na disputa de pênaltis depois de achar um gol de Rodriguinho em um escanteio nos acréscimos. A decisão foi muito mais brigada que jogada e o Palmeiras se perdeu emocionalmente pela cobrança gigantesca por títulos que façam valer o altíssimo investimento para a realidade brasileira.

Valeu a cultura da vitória construída pelos muitos títulos na década. De novo no gol de Rodriguinho, desta vez no primeiro minuto do clássico. A confusão pelo pênalti que não existiu de Ralf sobre Dudu, mas foi marcado e depois invalidado pela interferência do quarto árbitro, só aumentou o caos emocional dos palmeirenses em campo e na arquibancada.

Mais uma vez Cássio garantiu pegando as cobranças de Dudu e Lucas Lima na decisão por pênaltis. A comemoração no Allianz Parque é imagem emblemática e inesquecível para o torcedor. Mas a conquista não tem o simbolismo de 2017, consolidando um trabalho que ganharia ainda mais força e maturidade no turno do Brasileirão que encaminhou a sétima taça do Corinthians na competição.

Agora o rendimento vem oscilando demais, apesar de uma boa nova como Matheus Vital e o resgate de Maycon, que havia perdido a vaga para Camacho na reta final de 2017 e bateu com precisão a última penalidade. Há espasmos da solidez defensiva que caracteriza a identidade corintiana e também boas triangulações e volume de jogo. Nada muito inspirador, ao menos por enquanto.

Já o título carioca do Botafogo veio numa sequência de acontecimentos que desafia o tradicional e já folclórico pessimismo do torcedor alvinegro. Péssimo início sob o comando de Felipe Conceição, eliminação precoce da Copa do Brasil para o Aparecidense. Chega Alberto Valentim ainda aparentando abimaturidade e a dificuldade para montar o sistema defensivo que apresentou no Palmeiras. Linhas adiantadas, pouca pressão na bola…gols dos rivais.

Não venceu nenhum turno, teve a pior campanha geral entre os grandes, levou 3 a 0 do Fluminense na final da Taça Rio e parecia ser apenas um figurante na fase decisiva. Mas uma atuação pluripatética do Flamengo que custou o emprego de muita gente, inclusive do treinador Paulo César Carpegiani, fez o time alcançar a vitória na única jogada bem engendrada em toda a semifinal em jogo único, finalizada por Luiz Fernando.

Vaga improvável na decisão e de novo o status de “zebra”, até pelo bicampeonato do Vasco em 2014/15 sobre o mesmo adversário e o trabalho mais consolidado do treinador Zé Ricardo. A vitória no primeiro jogo por 3 a 2 e depois a boa atuação no Mineirão contra o Cruzeiro pela Libertadores transferiam um favoritismo natural aos cruzmaltinos.

Mas Fabrício foi expulso aos 36 minutos na primeira etapa por entrada sobre Luiz Fernando quase tão criminosa quanto a de Rildo em João Paulo há três semanas. O vermelho condicionou toda a partida. O Botafogo insistiu, mas com enorme dificuldade para criar espaços. O time é limitado e perdeu organização e criatividade sem João Paulo. Obrigado a atacar pela necessidade e por conta da vantagem numérica acabou se complicando. O Vasco fechado num 4-4-1 e arriscando um contragolpe aqui e outro ali.

No ataque final, já nos acréscimos, a confusão na área e o chute de Joel Carli. Lance fortuito, meio ao acaso. Bola na rede, explosão da torcida e confiança em Gatito Fernández na disputa de pênaltis. Ele não decepcionou e pegou as cobranças de Werley e Henrique. 21º título alvinegro, festa pela conquista inesperada… Mas dá para confiar em boa campanha no Brasileiro?

Uma expulsão no primeiro tempo também mudou a história da decisão mineira. Logo de Otero, por cotovelada em Edilson aos 21 minutos. O meia que desequilibrou na bola parada no Independência. Vitória por 3 a 1 na primeira partida que fez eco durante a semana, encheu o Galo de confiança para a goleada por 4 a 0 sobre o Ferroviário pela Copa do Brasil e abalou o ânimo do Cruzeiro, que empatou sem gols e podia ter sido derrotado em casa pelo Vasco na Libertadores.

Com um a menos ficou mais difícil segurar o rival em casa e os gols do uruguaio De Arrascaeta e de Thiago Neves ratificaram a melhor campanha ao longo do campeonato. Mas de novo o time de Mano Menezes não apresentou um desempenho consistente. Faltou nas duas partidas pelo torneio continental e na primeira da decisão.

O contexto favoreceu, mas há muito a ser questionado. Mesmo com a lesão grave de Fred, a grande contratação para a temporada, há qualidade para apresentar mais e Mano se sente à vontade mesmo dentro de uma proposta mais pragmática e de controle de espaços e reação aos ataques do oponente. Na hora de criar em jogos mais aparelhos a coisa complica.

A grande questão depois das comemorações em São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais é como os campeões reagirão. Se haverá a falsa impressão de que os times estão prontos para desafios maiores, mesmo com atuações que não inspiram confiança, ou se a conquista será tratada como a alavanca que combina paz para trabalhar e um clima de mais leveza para investir na evolução dos modelos de jogo. Vencer para crescer e não estacionar.

Ilusão ou redenção? Eis o questionamento que fica para a sequência de trabalho dos vencedores. Consciência da própria realidade é receita simples, mas sábia. Pode valer muito lá no final do ano, quando as taças não passarão de uma lembrança agradável, sem o êxtase de agora.


Palmeiras e Grêmio começam a sobrar no país e tudo parte do meio-campo
Comentários Comente

André Rocha

Independentemente do que acontecer nas decisões estaduais em São Paulo e no Rio Grande do Sul e também das campanhas invictas até aqui na Libertadores, a análise de desempenho, com mais ênfase nas atuações recentes, sinalizam que Palmeiras e Grêmio começam a se desgarrar dos demais como os melhores times do país.

Equipes que alternam posse de bola para controle do jogo e intensidade nas transições ofensivas e defensivas e na pressão logo após a perda da bola. Times inteligentes. Consciência que parte do meio-campo.

Reunir Arthur, Maicon e Luan de um lado e Felipe Melo, Bruno Henrique ou Moisés e Lucas Lima do outro, para o nível do futebol jogado no Brasil, é garantir eficácia nos passes desde o início da construção das jogadas e variação de ritmos de acordo com a necessidade.

O entrosamento e a combinação de características fazem o trio do Grêmio render mais e protagonizar belos lances. Sem contar a confiança pelos títulos recentes e o trabalho de Renato Gaúcho já bem assimilado. Roger Machado ainda está no início de seu trabalho e, por consequência, está um passo atrás.

Aliás, curioso observar que os treinadores acabaram influenciando um no trabalho do outro, direta ou indiretamente. Renato recebeu o Grêmio de Roger, manteve a ideia e o modelo de jogo a partir da posse de bola e das triangulações e efetuou ajustes tornando o time mais rápido e contundente na frente, intenso no trabalho defensivo e atento nas bolas paradas.

Exatamente o que Roger vem alterando em seu repertório, agora no Palmeiras. Até pela urgência de resultados para se estabilizar no comando do time mais pressionado do país em 2018. Na impossibilidade de contar com tempo para fazer com que a marcação por zona não seja passiva como aconteceu especialmente diante do Corinthians na fase de grupos do Paulista, o comandante agora estimula os encaixes e algumas perseguições individuais mais longas para garantir a concentração dos atletas.

Um pouco de Renato, outro tanto de Cuca, último técnico campeão no alviverde. Para evitar problemas como os que Alberto Valentim passou. Basicamente, adiantar a última linha de defesa, mas sem fazer pressão no adversário sem a bola e fechar as linhas de passe.

Com a posse, o Palmeiras roda a bola , concentra jogadores de um lado, preferencialmente o esquerdo, até a bola chegar a Felipe Melo ou Lucas Lima quando este recua e acontece a inversão rapidamente buscando o ponteiro do lado oposto. Normalmente Dudu, que vem crescendo de produção no setor direito. Com mais volume de jogo e ações de ataque com profundidade, Borja também cresce como o artilheiro do time no ano.

Assim como Jael, substituto de Lucas Barrios e a mudança mais significativa na virada do ano, aproveita o momento positivo para arriscar cobranças de falta, assistências de letra. Mais os gols, completando as jogadas bem articuladas. O entrosamento com Everton, que infiltra em diagonal para se juntar ao centroavante, só torna os ataques mais fluidos e com momentos de beleza. Coisa rara por aqui.

É óbvio que há ainda muita margem de evolução e alguns jogos pelo estadual – no caso do Grêmio, mesmo na final – não servem como parâmetro seguro para avaliações mais profundas. Ainda assim, a proposta e a execução parecem mais alinhadas, potencializando o talento através do trabalho coletivo. Com o toque diferente no meio-campo.

Domingo ambos podem levantar taças. Para o Grêmio significaria o fim de um período de oito anos sem conquistas na competição. Já o Palmeiras ganharia mais confiança para seguir a sua saga na temporada em que todos não aceitam menos que o máximo em conquistas.

O que se espera é que se algo der errado em termos de resultado o trabalho até aqui não seja descartado. Seria um desperdício. Mais um na terra do futebol de resultados.


Palmeiras é favorito, mas pode dar o que o Santos de Jair precisa: espaços
Comentários Comente

André Rocha

Um terminou a fase de grupos com a melhor campanha e nas quartas-de-final enfiou 8 a 0 no placar agregado sobre o Novo Horizontino. Tem um dos elencos mais qualificados do país e o artilheiro da competição: Borja, com 6 gols, mas que vai ficar de fora das semifinais pelo absurdo no calendário brasileiro de se jogar em datas FIFA. Melhor ataque, time que mais finaliza, desarma certo e só fica atrás do Corinthians na efetividade dos passes.

O outro ficou com a terceira pior campanha entre os grandes paulistas, um ponto apenas à frente do São Paulo claudicante de Dorival Júnior e no primeiro mata-mata sofreu, não marcou gols sobre o Botafogo de Ribeirão Preto e precisou da disputa de pênaltis, com cobranças bizarras, para conseguir a classificação.

Agora Palmeiras e Santos se cruzam e, obviamente, há um claro favorito. Até por ter vencido por 2 a 1 no Allianz Parque no primeiro duelo de 2018. Mas há um detalhe que tem passado batido nas prévias do clássico: o contexto pode entregar uma arma ao Santos.

O time de Jair Ventura vem sendo criticado pela dificuldade de propor jogo e criar espaços em sistemas defensivos mais fechados. Mesmo com mais dinâmica no meio-campo com Léo Cittadini e Jean Mota nas vagas de Renato e Vecchio, a movimentação não cria jogo entre as linhas do adversário e a equipe fica engessada, previsível. Sem recursos, é a que mais levanta bolas no estadual.

Só que mesmo no Pacaembu com maioria santista no sábado, a tendência é que o Palmeiras busque a ocupação do campo de ataque no ritmo de Lucas Lima, com Marcos Rocha e Victor Luiz apoiando Bruno Henrique e mais o quarteto ofensivo que novamente terá Keno e Dudu pelos flancos e Willian mais centralizado, porém com constante movimentação. Como consequência, deve ceder o que Jair Ventura mais precisa: espaços.

É óbvio que o volume de jogo e a intensidade impostas pela equipe de Roger Machado podem criar muitos problemas para um time ainda buscando ajuste. Mas se conseguir compactar setores num 4-1-4-1 com um bom trabalho de recomposição pelos flancos de Eduardo Sasha e Rodrygo e entrega sem a bola do garoto Diogo Vítor, que deve entrar na vaga de Jean Mota, o Santos pode complicar a provável proposta alviverde.

Especialmente com Gabriel Barbosa, o “Gabigol”, que não estava em campo no jogo da fase de grupos, para cima de Antonio Carlos e Thiago Martins, mesmo com a proteção de Felipe Melo. É atacante inconstante e com dificuldades na leitura de jogo, mas com campo para explorar as costas da defesa adversária ou no um contra um para cortar e finalizar de canhota é um perigo. Já marcou seis gols na história do clássico.

Em tese, o Palmeiras tem tudo para se garantir em mais uma decisão do Paulistão. Mas o Santos de Jair Ventura tem uma chance e os espaços como trunfo. Ainda que não honre o DNA ofensivo do clube, o time merece respeito.

Palmeiras no 4-2-3-1 deve tomar a iniciativa, mesmo no Pacaembu com maioria santista. Mobilidade na frente, Lucas Lima articulando e apoio constante dos laterais Marcos Rocha e Victor Luiz que vai exigir concentração de Sasha e Rodrygo na recomposição. Mas com espaço para acelerar contragolpes, o Santos de Jair Ventura, provavelmente num 4-1-4-1, pode complicar a proposta alviverde com Gabigol para cima de Antonio Carlos e Thiago Martins. Roger Machado vai precisar da maior proteção de Felipe Melo para a sua zaga (Tactical Pad).

(Estatísticas: Footstats)