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Camisa pesa, sim! É o clichê do qual não podemos fugir
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André Rocha

Este que escreve aprendeu com os mestres amigos e os da sala de aula que no texto jornalístico devemos fugir dos clichês. O senso comum evitado ao máximo na afirmação de um estilo de escrita ou comunicação.

Mas com o tempo de ofício uma pergunta sempre ronda essa busca: se narramos ou analisamos acontecimentos sobre pessoas e estas costumam se agarrar a clichês, crendices e superstições como podemos desprezar a existência destes?

A história do futebol apresenta questões subjetivas, baseadas em acontecimentos eventuais, mas tratadas como regras não escritas. Capazes de interferir na disputa e ajudar na definição de vencedores e vencidos.

O “peso da camisa” é um exemplo clássico. Longe de garantir resultado, mas que no campo pode pesar se o contexto favorecer. Uma ideia que resume eventos importantes dentro de uma partida.

Como a vivência de um clube em jogos grandes, o histórico de momentos em que se agigantou e subverteu a lógica, a capacidade de no primeiro sinal de reação instalar medo no rival com menos tradição ou o respeito que impõe só pelo que representa.  Até mesmo diante da arbitragem. Afinal, na dúvida qual clube terá mais poder de prejudicar o apitador e sua equipe em caso de erro?

É óbvio que esses fatores têm mais relevância se os desempenhos são equivalentes ou não há uma disparidade na verdade do campo. Como nos 180 minutos entre Real Madrid e PSG. Valeu mais a qualidade e a maturidade da equipe bicampeã da Europa.

Na prática, porém, podem influir, sim, na força mental dos times. Porque jogadores e torcedores, em geral, acreditam nesta espécie de “força estranha” que se mistura com toda a loucura e falta de lógica do jogo.

Como na virada da Juventus em Wembley sobre o Tottenham por 2 a 1 pelas oitavas de final da Liga dos Campeões. Primeiro tempo dominado e controlado pelo time londrino com o gol do sul-coreano Son e outras oportunidades. Organização e volume ofensivo mantendo a torcida quente no estádio.

Mas bastou a equipe italiana mostrar solidez para o Tottenham nitidamente ter sua confiança abalada, dentro e fora de campo. As jogadas de Eriksen e Dele Alli passaram a não acontecer com frequência, Harry Kane ficou isolado e o time de Mauricio Pochettino nitidamente se abateu com a pressão de um jogo deste tamanho. A torcida virou plateia. Silenciosa.

Empate com Higuaín. Com o golpe final três minutos depois, no contragolpe letal construído pelo pivô de Higuaín que encontrou Dybala livre, restou ao Tottenham o desespero. Que podia até ter acabado no empate que levaria à prorrogação na bola na trave de Buffon já nos acréscimos. Talvez a história contada fosse outra.

É óbvio que Massimiliano Allegri foi feliz nas substituições, especialmente a entrada de Lichtsteiner no lugar de Benatia e Barzagli sendo deslocado para fazer dupla com Chiellini na zaga. Com o lateral, o time ganhou um escape pela direita e companhia para Douglas Costa na execução do 4-4-1-1 que não havia até então. Ainda assim, o brasileiro, que cumpriu boa atuação, sofreu pênalti claro ignorado pela arbitragem na primeira etapa.

Com o melhor rendimento, o gigante italiano se impôs especialmente pela tradição na Liga dos Campeões. Ainda que com apenas duas conquistas em nove finais, a história é muito maior que a do Tottenham, cuja melhor campanha na competição foi o terceiro lugar em 1962, bem anterior à fase Champions. Mais ainda da geração da Velha Senhora que vem de duas decisões em três temporadas. A trajetória dos Spurs de Kane é de “pato novo”. Faz diferença. Fez.

Por maior que seja a resistência à ideia, a camisa pesou. Entortou varal, como se costuma dizer. Acontece. E não dá para fugir deste clichê. Porque os grandes agentes do esporte se permitem afetar por isto. Para o bem e para o mal.


Juventus soberana! Porque não há trio MSN que salve o Barça dos elos fracos
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André Rocha

O Barcelona jogou mais em Turim do que em Paris. Messi procurou a bola, criou espaços, não se entregou ao forte bloqueio do adversário. Desta vez foi que mais tentou, já que Neymar ficou encaixotado entre Daniel Alves e Cuadrado, sem um apoio qualificado pela esquerda com a ausência de Jordi Alba.

Já Suárez na maior parte do tempo teve que encarar simplesmente Bonucci, Chiellini e Buffon. Goleiro que salvou o gol de empate na primeira etapa no lampejo de Messi que achou Iniesta completamente livre na área. Com 3 a 0 na segunda etapa, negou o gol a Suárez.

Raros lampejos de um time que ao longo da temporada, em jogos duros fora de casa, sempre pareceu mais próximo de sofrer gols do que ir às redes. Simplesmente porque o time catalão, trio MSN à parte, é hoje uma equipe de “elos fracos”.

A ideia é do livro “Os Números do Jogo”, de Chris Anderson e David Sally. Ou seja, a disputa normalmente é definida mais pelas limitações do que pelas virtudes.E como este Barça é frágil…

Ainda mais sem Busquets, suspenso, e com Mascherano perdido à frente da defesa, como se ainda não atuasse como volante na seleção argentina. Pensando como zagueiro e deixando espaços generosos para Dybala fazer os dois primeiros gols em belas finalizações do primeiro tempo.

Depois, já como zagueiro com a saida de Mathieu para a entrada de André Gomes depois do intervalo, hesitou no bloqueio a Chiellini no terceiro gol.

Mas não só ele. Sergi Roberto improvisado, Mathieu, um Rakitic longe do melhor momento, André Gomes…Mesmo Iniesta, com a categoria intacta, mas com um notável decréscimo de intensidade. Sem contar os problemas coletivos de um time que se habituou a entregar a bola para seus três talentos.

O resultado prático é um Barcelona com 65% de posse de bola, 88% de efetividade nos passes e 13 finalizações, uma a menos que a “Vecchia Signora”. Só que oito no alvo dos italianos e apenas duas dos visitantes. Só um par de oportunidades cristalinas.

Porque a Juve errou pouco e deu uma aula de leitura de jogo e inteligência tática. No 4-4-2 montado por Massimiliano Allegri que defendia com todos no próprio campo, havia dois laterais brasileiros formados como alas que aprenderam na Europa a jogar como defensores (Daniel Alves e Alex Sandro), um centroavante aberto à esquerda muitas vezes formando com a defesa uma linha de cinco (Mandzukic). Nenhum “volantão” à frente da defesa, os dois centralizados marcando e jogando (Pjanic e Khedira).

Muita concentração defensiva e qualidade e rapidez nas transições ofensivas. A Juventus jogou a vida em sua arena e foi soberana. O Barcelona precisa de muita inspiração do seu tridente sul-americano. Mais complicado diante de rivais tão atentos na retaguarda.

Pior ainda quando um clube milionário é tão infeliz nas contratações e enche o elenco de “elos fracos”. Alguns circunstanciais, por mau momento, mas outros que eram tragédias anunciadas. Quase sempre Luis Enrique precisa de dois ou três deles.

Em um confronto de quartas-de-final de Liga dos Campeões, com tanto em jogo, costuma ser fatal. O talento, o acaso e a arbitragem compensaram no Camp Nou contra o PSG. A Juventus fez um gol a menos, mas tem camisa, cultura defensiva de sua escola e, em especial, o exemplo das oitavas para impedir uma nova remontada.

 

 


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