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Arquivo : dzyuba

Rússia segue por seu povo e pela retranca com bola da Espanha
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André Rocha

Aos 12 minutos do primeiro tempo, o gol contra do zagueiro russo Ignashevich em disputa com Sergio Ramos após cobrança de escanteio de Asensio pela direita deixava o duelo pelas oitavas de final à feição da Espanha. Mais uma vez na Copa do Mundo, a bola parada descomplicava o trabalho do time obrigado a atacar contra uma retranca com linhas de handebol.

Mas a Espanha optou desde a escalação inicial por ser cuidadosa com a transição defensiva. Por isso Nacho na lateral direita no lugar de Carvajal, Koke na vaga de Iniesta e Asensio substituindo Thiago Alcântara. Depois do sofrimento na fase de grupos com apenas Busquets protegendo Piqué e Sergio Ramos era até compreensível a cautela na primeira disputa eliminatória.

Só não precisava apelar para uma exacerbação do “tiki taka” da conquista da Copa do Mundo em 2010 e da Eurocopa de 2012 com Vicente Del Bosque. Uma posse defensiva, para evitar os contragolpes do oponente. Estratégia legítima, mas pouco inteligente diante da Rússia assustada e ainda fechada num 5-4-1, só arriscando um pouco com os alas Mario Fernandes e Zhirkov  e Samedov e Golovin tentando se aproximar de Dzyuba no pivô.

Quando Piqué saltou com os braços esticados para bloquear a cabeçada de Dzyuba e cometeu um pênalti tolo convertido pelo centroavante, a Espanha tinha 75% de posse e nenhuma finalização. A Rússia já tinha três, mesmo praticamente sem atacar.

O empate encheu a seleção da casa de confiança para seguir na sua proposta. A Espanha passou a arriscar mais, buscar mobilidade dos meias para acionar Diego Costa e finalizar mesmo sem infiltração. A tônica no segundo tempo e na prorrogação com um pouco mais de agressividade com Rodrigo Moreno e Iago Aspas no ataque, além de Carvajal na lateral direita e Iniesta, que entrou no lugar de David Silva.

Foram 74% de posse no total e 25 finalizações, nove no alvo. Mas nenhuma chance cristalina. Faltou o acabamento preciso – assistência e conclusão. De novo “arame liso”. A Rússia foi cansando física e mentalmente jogando sem a bola. Mesmo com Cheryshev não conseguiu arquitetar o contragolpe esperado. No mesmo 5-4-1 com linhas compactas guardando a própria área até o fim. Correndo e lutando contagiada pelo apoio no estádio em Moscou.

Nos pênaltis, os erros de Koke e Aspas que consagraram Akinfeev. Os russos nem cobraram tão bem, mas De Gea, que levou um frango na estreia em chute de Cristiano Ronaldo, pareceu sem confiança. Explosão no estádio com uma classificação inimaginável antes da competição. Mas justa. Por e para um povo que abraçou o evento.

Porque a Espanha foi covarde quando teve a chance de matar o jogo ou encaminhá-lo muito bem. Preferiu a posse defensiva e inócua. Ou retranca com bola. Mais uma favorita que volta para casa, pagando também pela crise no comando técnico que terminou com Lopetegui demitido e Fernando Hierro como um mero “bombeiro”. Pouco para um torneio tão duro, parelho e imprevisível.

(Estatísticas: FIFA)


Ingenuidade árabe é a primeira surpresa da Copa. Melhor para a Rússia
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André Rocha

Juan Antonio Pizzi, campeão da Copa América Centenário com o Chile em 2016, fez treinadores idealistas como Paco Jémez, Juan Manuel Lillo, Zdenek Zeman e o nosso Fernando Diniz parecerem pragmáticos na abertura da Copa do Mundo.

Sua Arábia Saudita contrariou todas as previsões de seleções menos tradicionais e jogando como “zebras” fechando espaços com linha de cinco atrás e muita gente protegendo a própria área. Ainda que já tivesse apresentado ao mundo a proposta de tentar jogar. Adiantou os setores e fez saída “lavolpiana” com o volante Abdullah Otayf recuando para auxiliar os zagueiros no início da construção do jogo.

Mas que jogo? As limitações técnicas saltavam aos olhos. Seria como se em 1999 Vanderlei Luxemburgo escalasse na seleção brasileira os “zagueiros-zagueiros” Odvan e João Carlos e o “volante-volante” Nasa do Vasco para trocarem passes e os demais jogadores no campo adversário esperando a bola chegar. Suicídio.

Melhor para a Rússia, insegura como anfitriã e tensa numa estreia do Mundial que sedia. A equipe de Stanislav Cherchesov, numa variação básica do 4-2-3-1 para as duas linhas de quatro sem bola, foi ganhando confiança nos muitos erros dos árabes e, principalmente, com o gol de Gazinsky logo aos 11 minutos.

Cheryshev, que substituiu o lesionado Dzagoev aos 22 minutos, aproveitou bem os espaços deixados entre os setores adversários para marcar dois gols. Mário Fernandes, o brasileiro naturalizado, teve algum trabalho na defesa com Al Dawsari e Al Faraj, mas mostrou a habitual desenvoltura nas descidas ao ataque aproveitando todo o corredor direito.

E a Arábia tentando jogar num 4-1-4-1 que sacrificava Otayf sozinho na proteção de uma defesa escancarada. Uma seleção mais qualificada teria feito mais que os 5 a 0 – como, por exemplo, o Uruguai de Cavani e Suárez. Mas para os russos os gols de Dzyuba e Golovin foram motivos para muita festa e algum otimismo para a luta pelas duas vagas do Grupo A.

Porque os árabes e Pizzi mostraram que ainda existe bobo no futebol. A ingenuidade foi a primeira grande surpresa da Copa de 2018.


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