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Afastamento de Felipe Melo é mais um produto dos desencontros no Palmeiras
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André Rocha

Foto: Cesar Greco/Ag. Palmeiras

Felipe Melo não foi relacionado no grupo que vai concentrar para o jogo contra o Avaí no Allianz Parque. Este é o fato em meio a rumores de desentendimentos entre o volante e o treinador Cuca.

Felipe foi contratado em janeiro para ser uma liderança e também uma espécie de interlocutor e escudo diante da mídia para o trabalho do jovem Eduardo Baptista, cercado de desconfianças desde a apresentação. Aparentemente, o projeto era mudar a forma do Palmeiras jogar. Mais posse de bola, marcação por zona, controle dos jogos.

Com desempenho e resultados que não agradaram no Paulista e na fase de grupos da Libertadores, Baptista não resistiu. Se houvesse convicção lá atrás de que os princípios de jogo deviam ser preservados, bastaria contratar um profissional com perfil parecido.

Mas se a sombra de Cuca, que pediu para sair depois de ser aclamado pelo título brasileiro que o clube não conquistava há 22 anos, já era forte durante seu afastamento, ficou ainda maior quando se colocou à disposição para retornar. A torcida ansiava pela volta do “messias” e qualquer outro treinador seria esmagado da mesma forma.

Cuca voltou e com ele o estilo particularíssimo, de intensidade e marcação por encaixe e perseguições individuais. Para executá-la, prefere atletas mais rápidos, com vigor físico para marcar correndo. De preferência, que não questione as ordens e apenas as cumpra.

Felipe Melo não tem o perfil. Gosta de futebol, sabe como se atua nos grandes centros. Joga posicionado, fechando espaços. Aos 34 anos, conhece os atalhos. Além disso, tem personalidade forte e é articulado para expressar qualquer descontentamento. A lesão na coxa e a fratura na mão apenas adiaram o problema de ter um jogador contratado como estrela, mas descartado pelo velho/novo treinador por uma nítida incompatibilidade de estilos.

Agora, com o Palmeiras eliminado da Copa do Brasil, vendo as chances de título brasileiro cada vez mais remotas e com a tensão no nível máximo para o jogo da volta das oitavas de final da Libertadores contra o Barcelona de Guayaquil em São Paulo com obrigação de vitória, o descompasso virou um problema ainda maior. Felipe Melo não deve entender muito bem por que uma marcação que não vem funcionando é preservada e, por isso, ele seguirá fora dos planos. Até do banco de reservas.

Felipe Melo disputou apenas cinco partidas pelo Brasileiro e ainda pode disputá-lo por outra equipe da Série A. O alto salário é o obstáculo para quem não tem tanto poder de investimento.

Mais um problema para o Palmeiras em uma temporada conturbada, que foi pensada para construir uma hegemonia. Fruto dos desencontros de um departamento de futebol que parecia caminhar em uma direção e, hesitante, desviou a rota e retornou ao que considerava mais seguro. Mas no futebol não há certezas e o que resta em 2017 é um enorme ponto de interrogação. Como será o amanhã?


Eles não podem errar! A dura transição do mercado de treinadores no Brasil
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André Rocha

Quando Zé Ricardo chamou Matheus Sávio para dar instruções enquanto a torcida do Flamengo no Serra Dourada pedia a entrada da joia Vinícius Júnior, o treinador sabia que corria riscos por suas convicções.

Afinal, se o time fosse eliminado da Copa do Brasil, independentemente do rendimento do jovem atacante, que entrou muito mal contra o San Lorenzo na traumática derrota na Libertadores, as chances de ser demitido cresceriam exponencialmente.

Mas Sávio, assim como contra o Atlético Mineiro no Maracanã, na estreia do Campeonato Brasileiro, colocou um cruzamento no fundo das redes do goleiro Felipe do Atlético-GO. O choro copioso do jogador foi sintomático. É muita pressão para quem ainda está no início de sua trajetória entre os profissionais.

O mesmo vale para os treinadores. No país do futebol de resultados, o comandante passa de “boa novidade” e “atualizado” para “estagiário” e “rolando lero” a cada semana. Mesmo que a sua equipe esteja organizada e o placar adverso tenha vindo por uma infelicidade na defesa ou chances perdidas na frente.

Ou até se eles se equivocarem, algo absolutamente natural. No mais imprevisível e caótico dos esportes, o que foi treinado baseado em observação e análise pode dar errado por uma noite ruim do atleta e aquela mudança aleatória, mais por conta da intuição, pode terminar em vitória. Para quem tem bagagem já é um desafio, imagine para novatos.

Eles simplesmente não podem errar. Seja Zé Ricardo, Roger Machado, Eduardo Baptista…Mesmo Jair Ventura, com enorme crédito no Botafogo, quando tentou mudar a maneira de jogar contra o Barcelona de Guayaquil no Estádio Nilton Santos e saiu derrotado as críticas vieram pesadas.

A transição no mercado de treinadores é dura. Depois dos 7 a 1 que mandaram Luiz Felipe Scolari para a China e da queda em desempenho e resultados de grifes como Vanderlei Luxemburgo, Muricy Ramalho e até Marcelo Oliveira, apesar dos títulos com Cruzeiro e Palmeiras, um buraco foi aberto para uma leva de profissionais com conceitos atualizados, vendo e pensando o futebol como é jogado nos grandes centros.

Um jogo mais coletivo e que trabalha com informações e gestão na comissão técnica. Menos com carisma e discursos motivacionais. Quando o resultado acontece, tudo isso é louvado. Se não, bate a saudade dos velhos nomes e de fórmulas antigas. Como se o que deu certo na década passada necessariamente dará em 2017.

O cenário é complexo. Dá para contar nos dedos de uma das mãos os treinadores do país que conseguem unir vivência como ex-jogador, conteúdo atual, sensibilidade na gestão de grupo e da comissão técnica. Ou seja, no auge da carreira. O melhor deles está na CBF.

Por conta de todas as dificuldades citadas, as experiências com estrangeiros não foram felizes – vide Diego Aguirre, Ricardo Gareca, Edgardo Bauza, Juan Carlos Osorio, entre outros. Quando estão começando a aprender o idioma para se comunicar já estão passando no RH e voltando para casa.

Simplesmente não há paciência, porque falta convicção para acreditar num projeto de longo prazo. Roger Machado e Zé Ricardo acharam que teriam um pouco mais de paz e respaldo para trabalhar por conta de conquistas nos estaduais. Mas basta uma sequência de resultados ruins e tudo é esquecido.

Ainda mais em clubes dos quais se espera muito. Pela capacidade de investimento e ilusão alimentada por departamentos de marketing e também por nós da imprensa, o torcedor passa a crer que seu time de coração conta com um elenco estelar e que basta o treinador distribuir certo as camisas e não atrapalhar para tudo acontecer.

Não é assim que funciona. Estar atualizado nas ideias e métodos ajuda a não ser surpreendido, a minimizar a aleatoriedade do jogo. Mas não garante nada. Muito menos onde não se valoriza filosofia e identidade, só o placar final e a conquista que vão gerar memes e zoações. Até tudo ser esquecido no próximo jogo.

Por ora, Dorival Júnior é o sobrevivente na Série A, comandando o Santos desde julho de 2015. Já Ney Franco foi demitido do Sport depois de perder a Copa do Nordeste para o Bahia com menos de dois meses de trabalho. Treinadores com rodagem de mais de uma década. Paulo Autuori, com mais de quarenta anos à beira do campo, cansou. “A rotina consome”, explicou. Vai ser gestor no Atlético-PR e abre espaço para Eduardo Baptista.

Paciência não significa ser permissivo e deixar de cobrar o desempenho que chega ao resultado. Os profissionais são bem remunerados para isso. O ponto nevrálgico é o imediatismo, a incapacidade de observar um lastro de evolução, vislumbrar um futuro melhor. Tudo ainda se resume à tentativa e erro. Até acertar. Para ontem.

Enquanto isso, segue a roda vida, a máquina de moer técnicos. Zé Ricardo escapou no gol de Matheus Sávio. Quem será o próximo?


Eduardo Baptista já assumiu demitido, esmagado pela sombra de Cuca
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André Rocha

A sucessão de Cuca no Palmeiras era uma das mais complicadas da história do futebol brasileiro. Saiu campeão, idolatrado porque o time com sua cara deu o título que o clube sonhava há tempos. Ainda chegou no ano passado durante a disputa da Libertadores e deixou a impressão de que poderia ter ido mais longe se contasse com o treinador desde o início.

Sem contar o estilo particularíssimo de comandar, com práticas pouco usuais combinando com convicções antigas adaptadas ao futebol atual. Um jogo “maluco” que cativa o torcedor médio pela intensidade e entrega. Basta ver o “Galo Doido” que perdura desde 2013, seja lá qual for o comandante no Atlético Mineiro.

E o pior: não saiu para outro clube. Parou por tempo indeterminado. Sem marcar data de volta. Um paralelo na música seria o “hiato” da banda Los Hermanos em 2007. Não terminaram, mas cada um tomou o seu caminho. Eventualmente voltam. E os fãs sonham com o retorno para um trabalho inédito.

O palmeirense sonha com a volta de Cuca desde o anúncio de sua saída. Por isso Eduardo Baptista já estava demitido no anúncio de sua contratação. Pelo currículo de jovem técnico sem grandes conquistas. Pelo perfil mais alinhado aos conceitos atuais, que acarretaria uma mudança na forma de jogar. Para os mais fanáticos, até por ser filho de Nelsinho, com história mais ligada ao Corinthians como treinador.

Só seria possível sobreviver com uma mistura convincente de desempenho e resultados. Aquele momento mágico em que tudo se encaixa praticamente num estalo. Reforços adicionados à base mantida que entenderiam rapidamente as ideias do comandante e as características dos atletas se combinando ao natural. Algo raríssimo. E improvável.

Não podia dar certo. E errou quem contratou. Porque precisava de tempo para os jogadores acostumados com perseguições individuais se habituarem à marcação por zona. Para o jogo vertical se transformar em uma proposta que valoriza a posse de bola. Para os contratados se entrosarem dentro e fora de campo.

Só que não havia paciência em um ambiente de pressão insuportável, cobrando futebol do elenco mais qualificado do país como se fosse uma questão de distribuir camisas e “faça-se a luz!” Em quatro meses. Sem direito a tropeços.

O Palmeiras de Baptista escorregou. No Paulista contra a Ponte Preta. Na Libertadores diante do Jorge Wilstermann. Sim, houve oscilações e hesitações. A inexplicável opção por três zagueiros de ofício no primeiro tempo em Montevidéu contra o Peñarol.

E aí veio a explosão que se parte de um Abel Braga ou de um técnico mais tarimbado seria vista como um desabafo emocionado. Depois do impacto inicial, os gritos na coletiva no Uruguai foram tratados como a prova de desequilíbrio do jovem comandante. E para o Palmeiras e os palmeirenses é pouco.

A história do clube é pontuada por Oswaldo Brandão, Telê Santana, Luxemburgo, Felipão. Que já chegam campeões ao clube. Com estofo para suportar as cornetas e amendoins. Ainda que a tentativa com o Muricy Ramalho tricampeão brasileiro em 2009 tenha sido traumática.

Eduardo não resistiu. Como a passagem conturbada pelo Fluminense é um sinal de que será preciso recomeçar. Talvez em um clube de menor apelo, sem o peso de investidor milionário, sem a obrigação de resposta imediata.

Para o Alviverde Imponente, resta Cuca. Se ele não quiser de novo, o jeito será procurar outra grife. Ou alguém com perfil semelhante ao do técnico campeão brasileiro. Ou um treinador com história no clube, ainda que como jogador. Um símbolo.

Para não ser moído pela exigência altíssima, talvez desproporcional. Baptista nem moído foi, mas esmagado pela sombra de Cuca.


Atendendo ao pedido de Eduardo Baptista, uma pergunta sobre futebol
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André Rocha

Isolando todas as polêmicas dentro e fora do campo, antes e depois da partida em Montevidéu, Eduardo Baptista, mais que nas substituições depois do intervalo da virada por 3 a 2 sobre o Peñarol, acertou ao dizer que no Brasil se fala pouco de futebol.

O que desgraçadamente alguns colegas tratam, com desdém, como “apenas campo e bola”. Exatamente o que condiciona e pauta todo o resto. O jogo em si.

Por isso, em homenagem ao técnico corajoso que tende a ser mais respeitado por uns e ainda mais perseguido por outros, e atendendo ao seu pedido de questionamentos sobre futebol, o blog deixa uma pergunta ao Eduardo:

Se desde 21 de dezembro do ano passado o Palmeiras sabia que enfrentaria o Peñarol e obviamente havia a possibilidade de ao longo do torneio cruzar com equipes fortes no jogo aéreo e direto, na “primeira” e “segunda” bola como ele mesmo disse na coletiva…por que não houve nenhum teste anterior, durante a fase de grupos do Paulista, por exemplo, utilizando três zagueiros de ofício?

Porque o que se viu em campo foi um time completamente descoordenado nos movimentos coletivos. Perdido. Jean e Egídio não sabiam se comportar como alas, os jogadores ficaram espaçados e sem encontrar os companheiros. Erros seguidos de passes, sem chances de Guerra acionar Roger Guedes e Michel Bastos nas pontas, muito menos Borja isolado.

Tudo para evitar os cruzamentos e sofrer dois gols de bolas cruzadas.Um horror em 45 minutos. Treinado apenas no dia anterior. Com pelo menos nove partidas – vá lá, tirando os clássicos locais – para testar em um grupo que o Palmeiras nadou de braçadas, terminou dez pontos à frente.

Não dava para experimentar o sistema com três zagueiros – mesmo que não tivesse Dracena, Vitor Hugo e Mina disponíveis ao mesmo tempo – ao menos uma vez? Em dois treinamentos numa semana livre?

Uma experiência numa partida importante de Libertadores fora de casa. De tudo que aconteceu na intrépida quarta-feira e no tenso início da quinta palmeirense, foi o mais difícil de entender.

Mas isso é o menos importante, claro. O resultado aconteceu, virada com sofrimento “é mais gostoso” e na pauta vem primeiro a pancadaria, depois os gritos do treinador na coletiva, mais as polêmicas com Felipe Melo, Roger Guedes, Alexandre Mattos.

Por último, o “campo e bola”. Ou seja, só o que vai definir até onde vai o Palmeiras na Libertadores. Bobagem…


Eduardo Baptista começa a entender na prática o Palmeiras que tem nas mãos
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André Rocha

No automobilismo, a combinação do melhor carro com o melhor piloto costuma terminar em provas e campeonatos vencidos de ponta a ponta – talvez com a trágica exceção da parceria Senna-Williams em 1994.

Mas a melhor máquina também pode fazer a diferença, mesmo numa disputa parelha. Mais velocidade na reta, estabilidade nas curvas. Mesmo para um piloto inexperiente, mas com potencial.

Eduardo Baptista assumiu o Palmeiras como o maior desafio de sua carreira. Com a sombra incômoda de Cuca, que não foi para outro clube e sempre haverá a fé de que a qualquer momento ele pode mudar de ideia e voltar à labuta.

Ganhou de presente o elenco mais forte da América do Sul, ao menos no papel. Mas também a obrigação de montar rapidamente uma equipe difícil de ser batida, com autoridade diante de adversários mais frágeis.

O técnico podia manter a ideia de Cuca inicialmente e inserir aos poucos os novos jogadores e só mais tarde acrescentar sua visão de futebol. Mas teve a coragem de fazer tudo ao mesmo tempo.

Não é fácil. Não seria para qualquer treinador. Mesmo Tite, o nosso melhor “piloto” que está na CBF. Mas o jovem técnico encarou o desafio. Com apenas três anos de carreira e só cinco meses e 26 partidas pelo Fluminense, único time do eixo Rio-São Paulo que comandou. Em um ambiente caótico nas Laranjeiras.

Com conhecimento e convicções colocou em prática uma transformação no modelo de jogo que não é simples. O time de Cuca fazia marcação individual, não prezava a posse de bola e definia rápido a jogada, de preferência roubando no campo de ataque.

Baptista quer o bloqueio por zona e jogadas mais trabalhadas, com inversão de jogo e aceleração no último terço do campo. Tudo isso com uma pré-temporada ainda curta e exigência de resultados já no estadual, que devia servir como laboratório.

O resultado prático é um time “híbrido”. Num 4-1-4-1 que marca por zona, coloca a bola no chão. Mas quando precisa do gol para construir o resultado num cenário de grande pressão, parte instintivamente para os cruzamentos e consegue ser mais efetivo quando rouba a bola no campo adversário.

As oscilações são naturais. Mas com tempo e o respaldo de Alexandre Mattos e da diretoria, vai descobrindo que tem um grupo de atletas não só qualificado, mas também versátil.

Já trabalhou com Dudu, o grande destaque individual até aqui, nas pontas e também atrás do centroavante numa variação para o 4-2-3-1. Zé Roberto pode ser lateral ou meia. Willian “Bigode” já jogou como referência, mas foi na ponta esquerda que marcou o gol da virada sobre o Santos na Vila Belmiro. Jean, autor do primeiro gol, é volante já adaptado à lateral direita.

Há o mérito também de manter todos motivados. Roger Guedes perdeu espaço para Michel Bastos e Keno, mas quando entra é capaz de mudar o jogo aberto pela direita. Egídio também aceita a reserva de um jogador de quase 43 anos porque sabe que vai entrar em campo muitas vezes. O mesmo com Edu Dracena, que vai dando conta de substituir Vitor Hugo, também pode entrar na vaga de Mina quando este estiver na seleção colombiana e agrega experiência.

Eduardo segue no fio da navalha. As vitórias na semana não terminaram por detalhes em empate com Jorge Wilstermann e derrota para o Santos. A vibração do técnico nos gols transmite mais alívio que alegria.

Por ora os resultados vão avalizando o desempenho que não precisa chegar ao auge agora – e ainda não tirou o melhor de Felipe Melo, Guerra e Borja, as principais contratações. Ainda assim, é líder do grupo 5 da Libertadores e melhor campanha do Paulista.

Porque o técnico começa a entender, na prática, o Palmeiras que tem nas mãos. Nem o “Real Madrid dos trópicos”, nem uma máquina voadora da F-1. Mas o melhor “carro” dos campeonatos que disputa e só precisa de ajustes para ser imponente na hora certa.


Quem no Brasil está jogando mais que Dudu?
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André Rocha

Não é de hoje. O Palmeiras do segundo turno do título brasileiro – mais pragmático e focado no resultado, não conseguiria os incríveis 44 pontos, melhor campanha em um turno na era dos pontos corridos, sem o brilho e a consistência de Dudu.

Com a ausência de Gabriel Jesus pelas seguidas convocações para as seleções olímpica e principal, e a queda de produção de Roger Guedes, assumiu a faixa de capitão e o protagonismo depois de brigar e se reconciliar com o técnico Cuca.

Foram dez passes para gols do ponteiro que atuava pela esquerda num 4-3-3. Jogador da bola parada em momentos de pressão e da velocidade nos contragolpes. Fundamental.

Em 2015 já havia sido importante na conquista da Copa do Brasil. Atuando mais solto e próximo da zona de decisão como um meia atrás do centroavante, foi o artilheiro alviverde na temporada com 16 gols.

Dudu é ponta e meia. Serve, faz gols e tem liderança. Por isso precisamos falar mais dele.

Nos 3 a 0 sobre o São Paulo no Allianz Parque ganhou os holofotes com o golaço de cobertura sobre o goleiro Denis. O segundo ele na temporada. Talvez o camisa sete nem tenha sido o grande destaque do time agora comandado por Eduardo Baptista, já que Tchê Tchê foi onipresente no meio-campo. O trabalho coletivo também merece atenção, com seguidas bolas roubadas no campo de ataque.

Mas Dudu sempre está presente, como peça chave. Em 2017 já são seis assistências, um pênalti sofrido e o cruzamento que Thiago Santos desviou e Keno completou no gol de empate contra o Tucumán na estreia da Libertadores.

O novo treinador só tem elogios para seu atacante: “Tenho falado para ele do grande potencial que tem. Um grande jogador. O cara que pensa em jogar na Europa e seleção tem que jogar em todos os lugares. E foi muito bem”, exaltou Baptista na coletiva depois do clássico “Choque Rei”.

Um alto investimento do clube na contratação ao Dinamo de Kiev que na época gerou polêmica pelo “chapéu” nos rivais, mas que em campo se paga a cada jogo. Um caso raro de quem evoluiu quando voltou da experiência na Europa.

Dudu tem intensidade para pressionar no campo de ataque ou voltar até a própria linha de fundo se for preciso. Sabe dar profundidade aos ataques, mas também procura a diagonal. Tem visão de jogo para um passe de meia, mas chama lançamento em contragolpe.

Tem também a postura que agrada o torcedor mais fanático: “tudo pelo time”. Mesmo que às vezes esbarre na ética, algo que se espera de um grande ídolo. Como no episódio da expulsão de Gabriel no dérbi. Para sua equipe conseguir vantagem, mesmo baseada em um absurdo, Dudu tentou até impedir que o árbitro tivesse acesso à informação correta.

Mas quem se importa? A resposta no campo compensa e muito. Só não leva à seleção brasileira, mesmo com boa atuação e gol no amistoso contra a Colômbia, porque a concorrência nas pontas do 4-1-4-1 é duríssima, a mais forte no grupo de Tite: Coutinho, Willian, Neymar e Douglas Costa.

Melhor para o Palmeiras, que conta por mais tempo com seu melhor jogador. E cabe a pergunta: quem no Brasil está jogando mais que Dudu?

 

 


Palmeiras quer e pode tudo em 2017. Por isso precisa de mais tempo
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André Rocha

Quando se tem um elenco na conta apenas de montar um bom time e a temporada pode ser considerada positiva se terminar com um título, mesmo que estadual, o trabalho do técnico e dos atletas tende a ser mais simples, com o jogo coletivo potencializando o talento que não oferece tantas possibilidades.

Mas quando se monta o elenco mais qualificado e homogêneo do continente com altíssimo investimento e a proposta é afirmar uma maneira de jogar impondo o ritmo como protagonista, a equação fica bem mais complexa.

É o caso do Palmeiras. Com o fator complicador do técnico vencedor da temporada passada ter partido, mas não para outro time. A rigor, Cuca está no mercado. Mesmo que recuse todas as ofertas. E seu sucessor não tem o mesmo currículo, nem foi a primeira opção da diretoria.

A cada contratação confirmada a pressão sobre Eduardo Baptista só aumenta. Na exigente torcida alviverde ecoa a tese de que colocaram um piloto mediano para conduzir o melhor carro. A sombra de Cuca sempre vai rondar.

E ainda o paradoxo: o técnico rodado e vencedor precisava de menos recursos para alcançar os resultados: marcação individual, cobranças de lateral diretamente na área adversária, jogadas aéreas com bola parada ou rolando, contragolpes em velocidade quando o time tinha vantagem no placar.

Já o novato quer algo mais atual: um 4-1-4-1 com posse de bola, mobilidade, troca de passes até a infiltração. Controlar dentro ou fora de casa. Não é simples de conseguir. E o torcedor sempre vai achar que a fórmula anterior era mais eficiente. A curto prazo, no imediatismo típico da nossa mentalidade. Mas em termos de qualidade na execução do plano de jogo é um desperdício não buscar uma evolução.

Por isso Eduardo Baptista precisa de tempo, mais que qualquer outro treinador no país. O Palmeiras quer e pode tudo na temporada. Investiu para isso. E com tantas opções é preciso testar para definir uma base titular e mexer por necessidade ou para surpreender um adversário. Saber que combinações podem ser utilizadas e entrosá-las.

Como a linha de quatro com Keno, Michel Bastos, Raphael Veiga e Dudu atrás de Willian nos 4 a 0 sobre o Linense em Araraquara. Com revezamento de meias e pontas, mais o apoio dos laterais, especialmente Egídio à esquerda. Envolvendo o adversário com relativa facilidade e ainda mandando a campo Thiago Santos e Barrios, autor do último gol em bela jogada trabalhada e assistência de Dudu, o melhor em campo e o destaque absoluto até aqui.

Superando a ausência de Moisés, que se lesionou ainda no primeiro tempo e, pela gravidade aparente na entorse do joelho esquerdo, pode ficar fora por um longo período. E ainda tem Guerra. E Borja para estrear. E Mina voltando para liderar a retaguarda que tem Fernando Prass de volta. É muito potencial a ser explorado.

A melhor notícia é que há um plano e uma ideia para alcançar os objetivos que focam em resultado, mas através do desempenho. O desafio é ter paciência e entender que há um processo, sem a mágica de “soltar as feras em campo que elas se entendem”.

Para quem vai disputar Libertadores atrás do título, o Paulista tem que ser tratado como laboratório. Mesmo o clássico diante do Corinthians na quarta-feira. Porque experiências dão errado para terminarem nas melhores soluções. A história mostra, dentro ou fora do futebol. A pressa só pode atrapalhar o Palmeiras.


Novo Palmeiras sofre com a bola parada: o jogo dentro do jogo
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André Rocha

O propósito maior do jogo na Arena Condá estava fora das quatro linhas e o simbolismo da partida tirou até o espírito de competição que surge naturalmente, mesmo em um amistoso. Felipe Melo ilustrou bem ao afirmar que perdeu a concentração ao ver uma criança chorando. Ainda mais ele, que esteve tão distante geograficamente da tragédia e todos os seus desdobramentos.

Mas de tudo que foi possível observar nos 2 a 2 entre Chapecoense e Palmeiras, além do novo time do clube catarinense jogando com fibra e entrega impressionantes e o potencial de Raphael Veiga e Vitinho, sem contar a afirmação da qualidade de Tchê Tchê no novo 4-1-4-1 palmeirense, chamou atenção o desempenho dos times na bola parada.

Mesmo descontando o fato do campeão brasileiro estar sem Mina e Vitor Hugo, sua zaga titular, e Eduardo Baptista ter pouquíssimo tempo de trabalho, saltou aos olhos as falhas defensivas. Não só nos gols de Douglas Grolli e Amaral, mas em praticamente todas as disputas pelo alto.

Compreensível também a ênfase da Chape nesta jogada. Afinal, com um time novo e, consequentemente desentrosado, este tipo de recurso seria uma arma interessante para Vágner Mancini.

Porque a bola parada é um jogo dentro do jogo de futebol. Tem outro posicionamento, outra dinâmica. A ponto dos treinadores tratarem como um quinto momento, além do defensivo, do ofensivo, da transição defensiva – o que você faz assim que perde a bola – e da transição ofensiva – a ação imediata assim que a recupera.

Jogada decisiva, cheia de detalhes. Capaz de igualar forças das equipes, até compensar desvantagem numérica. Depende mais de movimentos coordenados do que do talento do cobrador e dos companheiros na área para concluir.

Quantas finais ou disputas cercadas de expectativas entre times e seleções já foram dissecadas previamente com sistemas táticos, modelos de jogo, estatísticas dos jogadores e, no final, se resolveram numa bola parada? O Real Madrid de Sergio Ramos que o diga.

Eduardo Baptista é treinador detalhista, minucioso. Inclusive neste tipo de jogada. Certamente percebeu a deficiência e vai trabalhar para corrigi-la. Porque ela ajuda a derrubar treinador.

O problema crônico no Flamengo minou os trabalhos de Cristóvão Borges e Oswaldo de Oliveira em 2015. No ano passado, Roger Machado no Grêmio foi o caso mais marcante. Houve problema de gestão de vestiário, mas, no campo, os muitos gols sofridos em jogadas aéreas nas faltas laterais e escanteios empurraram o bom treinador para fora do comando técnico do time gaúcho.

Renato Gaúcho chegou, fez o simples e, com marcações individuais bem definidas, resolveu o problema. Como Cuca adotava a mesma prática no Palmeiras, com bola rolando ou parada, cabe a Eduardo Baptista perceber se os jogadores se adaptam melhor ao bloqueio por zona ou ao tradicional “cada um pega o seu”.

Há tempo para isso. O foco absoluto é na Libertadores, que começa em março. Até lá, com time completo, trabalho e conversa é possível acertar o Palmeiras em todos os detalhes para começar a competir em alto nível, fazendo jus ao poder de investimento do clube.


Conhecimento: a arma de Eduardo Baptista para convencer no Palmeiras
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André Rocha

Eduardo Baptista Palmeiras

Tite aceitou a proposta da CBF e sua primeira missão foi estudar os jogos da seleção brasileira desde 2013 e depois mapear detalhadamente o que cada atleta no radar estava fazendo em seu clube.

Eduardo Baptista chega ao Palmeiras campeão brasileiro e inicia a temporada depois de dissecar a equipe de Cuca nos 38 jogos da competição nacional, além de analisar informações detalhadas de seus novos comandados, inclusive os novos contratados.

Tite é campeão mundial com o Corinthians, mas se comparado com Guardiola, Ancelotti, Mourinho e outros treinadores que comandam as estrelas do escrete canarinho, sua situação era parecida com a do filho de Nelsinho Baptista, jovem treinador sem grandes títulos no currículo, em um time vencedor.

Um técnico começa a vencer quando convence seus jogadores de que sua ideia é viável. Se não há tanto carisma e títulos para apresentar, o conhecimento é fundamental. Porque hoje o jogador, com staff e empresário a tiracolo, não precisa de um pai. Apenas de um treinador que deixe duas coisas bem claras: o que ele precisa fazer em campo e por que ele é titular ou reserva da equipe.

Gestão de grupo é ser franco e direto. Todos podem elogiar Tite na seleção por ter mudado o clima pesado dos tempos de Dunga. Mas se não houvesse trabalho e informação, a ponto de surpreender os atletas, o sucesso imediato em campo seria mais difícil.

Eis a arma de Baptista. Diante de Felipe Melo – jogador inteligente, de personalidade forte e que entende o futebol atual – e de Guerra, melhor da última Libertadores, além dos campeões de Copa do Brasil e Brasileiro dos últimos anos, se não houver convicção e conteúdo para apresentar virá a pergunta cruel: “ganhou o quê?” Exatamente o que inviabilizou sua permanência no Fluminense de Fred.

O técnico terá que fazer entender as razões para mudar das perseguições individuais dos tempos de Cuca para a marcação por zona e, com a bola, construir um jogo mais apoiado, com bola no chão e transição ofensiva rápida para surpreender o adversário. No mesmo 4-3-3/4-1-4-1 da campanha vencedora no ano passado.

Falta o centroavante para repor Gabriel Jesus e fechar o elenco que Alexandre Mattos começou a remontar ainda em 2016. Pensando em Cuca, agora com Eduardo Baptista. O maior desafio da carreira do novo comandante. Uma incógnita que pode dar certo através do conhecimento.


Caos no Fluminense! O futebol brasileiro não pode mais ser tão amador
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André Rocha

Foto: Djalma Vassão/Gazeta Press

Foto: Djalma Vassão/Gazeta Press

Oito vitórias, cinco empates e 13 derrotas, 50% dos 26 jogos. Definitivamente, Eduardo Baptista não entregou resultados ao Fluminense. Nem desempenho, com raras exceções.

A demissão nem está confirmada oficialmente. Porque o vice de futebol Mário Bittencourt não consultou ou ao menos comunicou a dispensa ao presidente Peter Siemsen, que escolheu Baptista sem conversar com seus subordinados diretos, e o dirigente é que acabou demitido.

O gerente Fernando Simone está afastado por 30 dias. Mais um capítulo do caos político nas Laranjeiras que permaneceu mesmo com a saída da Unimed, antes responsabilizada por todos os males no departamento de futebol.

De qualquer forma, a mais que provável dispensa do jovem técnico não será um absurdo. Mas novamente faltou convicção na hora de contratar. Como aconteceu com Cristóvão Borges e Ricardo Drubscky, apenas para citar dois exemplos recentes.

Eduardo Baptista é outro perfil de treinador que não pode ser escolhido buscando um ajuste imediato ou a curto prazo. Porque o investimento é no potencial, nos conceitos. Requer blindagem ao habitual “esse cara ganhou o quê?”, já que o currículo não tem peso em conquistas.

O torcedor não é obrigado a entender. Ele quer ver seu time vencer, os conceitos que vão às favas. Vestir a camisa com orgulho e zombar dos rivais. Se for com bom futebol, melhor. Mas não é essencial.

A questão é que a direção também age mais na emoção que no profissionalismo. Demite e contrata no impulso de torcedor. E no botequim ou nas redes sociais o apaixonado tem certeza que sabe a solução para os problemas do clube. Cada um com sua verdade.

No Flu, Peter Siemsen, Mario Bittencourt e Fernando Simone tentaram passar uma imagem de modernidade e vanguarda não investindo nas grifes – também porque elas ainda custam caro. Mas querem conceitos atuais acoplados a uma gestão de grupo complexa, com o vestiário dominado por Fred, Cícero, Diego Cavalieri e agora Diego Souza junto com garotos formados em Xerém buscando protagonismo.

Missão quase impossível. Na prática, Baptista formou um time que tentou compactar os setores e administrar a posse, mas com baixa intensidade e sem pressão forte no adversário com a bola. Última linha de defesa exposta, um convite a qualquer ataque com um mínimo de velocidade e capacidade no um contra um. Seja Volta Redonda, Atlético-PR ou Botafogo. Mesmo pecado de Cristóvão.

Todos triturados nesta máquina de moer. O treinador, na ilógica do futebol brasileiro, largou o trabalho questionado no Sport para tentar mudar de patamar no Fluminense. Na roda viva, é melhor desabar em um clube de maior visibilidade que apenas cair onde surgiu e praticamente voltar à estaca zero. Será que funciona sempre?

Sem Bittencourt e Simone, Siemsen deve buscar uma “bola de segurança”: Cuca ou Levir Culpi. Pode dar certo, mas até quando vai durar o amadorismo de buscar treinador sem analisar seriamente o perfil e a filosofia? Só valem as conquistas ou grandes campanhas em outros clubes, ambientes, contextos? Na base da “tentativa-e-erro” é mais difícil encontrar a melhor solução.

E pior ainda caso Fred, com sua liderança inquestionável, convença o presidente a manter Eduardo Baptista depois de todo esse turbilhão. Seria a inversão definitiva da hierarquia. Alguém duvida?

O futebol brasileiro não pode apenas tangenciar a verdadeira gestão profissional com exemplos isolados e esporádicos em meio a tanto amadorismo. Mais planos com método e razão, menos paixão que embota a visão. Será um sonho distante?


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