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Fernandinho na vaga de Renato Augusto é Tite definindo seus 15 “titulares”
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André Rocha

A Espanha foi campeã do mundo em 2010 utilizando 15 jogadores por ao menos três partidas em sete – de início ou saindo do banco de reservas. Seguindo este mesmo critério, Joachim Low trabalhou com 16 na campanha do tetra alemão no Brasil há três anos.

É a tônica nas Copas, não só entre as seleções que vencem. Um time titular inicial, quase sempre modificado ao longo do torneio em uma ou duas posições e outros dois ou três reservas utilizados na maioria das partidas. Ou seja, no mínimo sete jogadores entram em um ou dois jogos, no máximo. Normalmente naquela partida já definida ou no terceiro jogo da fase de grupos com o país já classificado.

Em 2010, Dunga utilizou 13 em pelo menos duas partidas num total de cinco. No Brasil, Luiz Felipe Scolari trabalhou com 17 em no mínimo três jogos. Ou seja, mesmo em seleções com irregularidade no desempenho e indefinição do treinador, a média não muda.

Tite sinaliza a entrada de Fernandinho na vaga de Renato Augusto para o amistoso de sexta-feira contra o Japão em Lille, na França. Ou seja, o volante que, em tese, seria o reserva de Casemiro entra na vaga de um dos meias por dentro no 4-1-4-1 brasileiro.

Nenhuma novidade para o meio-campista do Manchester City, que já atuou mais adiantado em outros momentos da carreira, inclusive no próprio clube inglês. Mas, principalmente, é o reconhecimento de Tite a um jogador marcado pelos 7 a 1 – injustamente, porque atuou mal porque ficou praticamente sozinho na intermediária brasileira levando botes seguidos de Khedira, Kroos e Schweinsteiger dentro de um time totalmente desorganizado – que evoluiu demais desde que passou a trabalhar com Pep Guardiola.

Na leitura de jogo, em especial. Inteligência para se posicionar, distribuir o jogo e ainda aparecer à frente, mesmo dividindo o setor com meias essencialmente ofensivos como Kevin De Bruyne e David Silva. Sabe mudar o comportamento no momento da perda da bola, logo pressionando e fechando linhas de passe. Acima de tudo, entende a necessidade de se apresentar como opção de apoio para os companheiros.

Com Casemiro, pode recuar para fazer a saída de bola e liberar o volante do Real Madrid, como Kroos e Modric fazem no plano de jogo de Zidane. Nada tão diferente do que Renato Augusto realiza, mas Tite tem razão em se preocupar com seu jogador de confiança que tem mostrado intensidade abaixo dos companheiros por disputar a liga chinesa, de menor exigência.

Para o próximo amistoso faz ainda mais sentido pela ausência de Diego Ribas, com dores musculares. O meia do Flamengo é tratado como reposição a Renato Augusto, mas a impressão que fica é de que se nada de excepcional acontecer até o Mundial, caso esteja na lista final fará parte dos sete ou oito que entrarão em campo poucas vezes ou nenhuma.

Porque o time base parece definido, com dúvidas no gol entre Alisson e Ederson, na zaga entre Marquinhos, Miranda e Thiago Silva e no meio-campo, exatamente pela inconstância de Renato Augusto, com Fernandinho correndo por fora.

Ou seja, 14 jogadores disputando posições. A outra opção que vem sendo frequentemente usada e não deve mudar é Willian. Sempre pela direita. No lugar de Philippe Coutinho, como deve ocorrer na sexta, ou de Renato Augusto, com Coutinho centralizando e o desenho tático variando para um 4-2-3-1. Ou até na vaga de Neymar, numa emergência. Neste caso, Coutinho inverteria o lado e atuaria pela esquerda.

Quinze “titulares” para o Mundial. Como o mais provável é que um goleiro seja definido como titular, pode ser que outro jogador durante a Copa seja um reserva utilizado com frequência para descansar titulares. Talvez Giuliano ou Roberto Firmino. Os outros oito apenas numa necessidade ou queda brusca de produção de um ou outro atleta entre os que iniciam as partidas.

Preocupante por essa consolidação tão precoce e pelo risco de precisar de jogadores sem muitos minutos com Tite e, em alguns casos, desempenho confiável para entrar no time em momentos decisivos. Mas é compreensível para um trabalho curto e com pouco tempo de maturação até a estreia na Rússia. O treinador deve monitorar e estimular ainda mais obsessivamente seus escolhidos para que o rendimento não caia.

Principalmente os 15 homens de Tite.

 


A Espanha está na Copa do Mundo da Rússia e é bom ficar de olho nela
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André Rocha

A Espanha enfrentou a Albânia em Alicante no meio de uma turbulência política com a Catalunha e Piqué no olho do furacão. Entrou em campo sem Carvajal, Busquets, Iniesta e Morata. Mais Diego Costa, sem ritmo de jogo. O adversário é o terceiro colocado do Grupo G e chegou à penúltima rodada das eliminatórias ainda com chances de superar a Itália, a outra favorita. Disputou a fase final da Eurocopa 2016, um feito inédito.

Pois a equipe de Julen Lopetegui não tomou conhecimento e impôs seu estilo que mantém a valorização da posse de bola, mas ganha volume e aceleração quando entra na área do oponente. E a contundência na frente que faltou em vários momentos, mesmo na equipe bicampeão europeia e campeã do mundo.

Num 4-1-4-1 com o ótimo Saúl Níguez no lugar de Busquets, Rodrigo – brasileiro naturalizado, filho de Adalberto, ex-lateral do Flamengo nos anos 1980 e campeão mundial sub-20 em 1983, como único atacante. Intensa movimentação do quarteto Koke-Thiago Alcântara-David Silva-Isco. Com direito a recital dos dois últimos.

A Roja que deu espetáculo contra a Itália atuando sem uma referência no ataque também sabe jogar com pivô. Abre o campo com os laterais. Jordi Alba pela esquerda e o jovem Odriozola da Real Sociedad à direita. Autor do cruzamento para Thiago Alcântara marcar o último gol dos 3 a 0 ainda no primeiro tempo.

Com o empate da Itália em 1 a 1 com a Macedônia, a confirmação matemática da classificação em primeiro lugar. Invicta. Oito vitórias, um empate fora de casa com a Itália. 35 gols marcados, três sofridos. A Espanha tem renovação e maturidade, tem Isco vivendo o auge da carreira. País dos clubes que dominam o futebol mundial nos últimos anos, mesmo considerando o “fator” Messi e Cristiano Ronaldo, além dos outros estrangeiros das seleções mundiais que são Real Madrid e Barcelona.

O grupo parece mais vivido e homogêneo, com mais opções confiáveis para uma realidade de Copa do Mundo que o da Alemanha. Tem mais tempo de trabalho que o Brasil de Tite e conquistas recentes que transferem mais respeito que a França, vice em casa da Eurocopa, pode conseguir. É bom ficar de olho nesta Espanha.


História mostra que favoritismo um ano antes da Copa do Mundo é pura ilusão
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André Rocha

Entre dezembro de 1981 e outubro de 1983, a Itália disputou 16 partidas. Nenhuma vitória nas seis primeiras, sem triunfos nas seis últimas. Venceu apenas quatro: Argentina, Brasil, Polônia e Alemanha. Exatamente as que lhe deram o terceiro título mundial na Copa da Espanha.

Favoritismo? Zero, mesmo com a manutenção de boa parte do grupo da Copa de 1978 que venceu a campeão e anfitriã Argentina e terminou em quarto perdendo dois jogos, para Holanda e Brasil, por detalhes. Mas nas Eliminatórias ficou atrás da antiga Iugoslávia. Não há dúvidas, era zebra. Até pelo escândalo de manipulação de resultados, o “Totonero”, que comprometeu o futebol do país.

Parecido com o de 2006 que rebaixou a campeã Juventus e também tirou qualquer favoritismo de uma Azzurra igualmente forte e talentosa comandada por Marcelo Lippi. Outro título inesperado, quando o Brasil era favorito.

Aliás, chegar como principal candidato só fez bem ao Brasil no Chile em 1962. Ainda assim, com superação da ausência de Pelé. Garrincha e o “apito amigo” contra a Espanha ajudaram a construir o bicampeonato. O último, sendo o outro em 1934/38 dos italianos.

A Alemanha pode repetir o feito na Rússia. A conquista da Copa das Confederações reforçou a impressão de que a renovação está sendo bem conduzida por Joachim Low. Com Kimmich no lugar de Lahm e Toni Kroos suprindo a aposentadoria de Schweinsteiger. Mais Draxler, Brant, Stindl, Werner, Hector se juntando a Ozil, Muller, Hummels, Neuer.

Se em 2014 a chegada de Pep Guardiola ao Bayern de Munique foi influência clara no modelo de jogo alemão, desta vez a inspiração, ou variação do estilo, parece vir da Inglaterra, mas de um treinador italiano: o 5-4-1/3-4-3 do Chelsea de Antonio Conte. Para propor o jogo ou reagir de acordo com as circunstâncias. Um time inteligente.

Como já era há três anos, mas foi um tanto menosprezado pelo revés na Eurocopa dois anos antes na semifinal contra a Itália de Balotelli. A ponto de transformar a final da Copa das Confederações entre Brasil e Espanha em uma espécie de “tira-teima” entre a campeã mundial e bi da Eurocopa e o anfitrião buscando recuperar protagonismo.

A seleção de Luiz Felipe Scolari venceu e foi mais uma a se iludir com a conquista. Como Dunga em 2009 e Parreira em 2005. A convicção de que o grupo estava fechado e o trabalho pronto só necessitando de manutenção foi ilusória. Porque o que define os rumos do Mundial é a temporada europeia que se encerra com a Copa.

Basta lembrar a queda de rendimento de Paulinho e Fred e o período de adaptação de Neymar no Barcelona que minaram as forças de um trabalho de um ano e meio, incompleto. Assim como o de Tite agora, que acabou de completar doze meses. Dois anos perdidos com Dunga que podem fazer falta.

Porque haverá menos testes e chances de observação. Ou tempo para o amadurecimento da proposta de jogo. É um processo que vai queimando etapas por necessidade. O treinador assumiu precisando de resultados e evolução rápida. Pelo próprio mérito, as nove vitórias seguidas nas Eliminatórias alçaram a equipe diretamente do risco de ficar de fora de sua primeira Copa do Mundo à condição de uma das favoritas.

Mais rápido que isso só em 1993, quando os 2 a 0 sobre o Uruguai com atuação antológica de Romário levaram o escrete canarinho do futuro incerto ao protagonismo. Em uma partida, por conta de um atacante genial que depois confirmou seu estrelato com a taça que não vinha há 24 anos e a Bola de Ouro como melhor do mundo.

Mas a grande favorita era a Itália de Roberto Baggio, o grande jogador do ano anterior. Assim como em 2002 as apostas recaíam sobre Argentina e França, que em 1998 superou em casa o Brasil de Ronaldo, candidatíssimo ao bi. Sob o comando de Platini, os franceses eram os favoritos em 1986. Mas havia um Maradona pelo caminho. Gênio que colocou a Argentina na final em 1990, mas havia uma Alemanha na decisão para confirmar a alternância de poder.

Resumo da ópera: falar em favoritismo no ano anterior é puro chute. Até porque este Mundial tende a não repetir os dois últimos, com as vencedoras tendo como bases as melhores equipes do mundo à época. Espanha do Barcelona e Alemanha do Bayern de Munique. Com entrosamento, movimentos já executados de memória. Seleções maduras, com craques no esplendor.

Mesmo os espanhois em 2010 não chegaram com tal status. Nema conquista da Euro 2008 minimizou o fato de não fazer parte do seleto grupo de campeões. A derrota para os Estados Unidos que tirou a chance de um duelo contra o Brasil de Dunga no ano anterior fez da grande seleção daquele período uma incógnita. Talvez por isso tenha triunfado.

Agora a Alemanha titular, em tese, tem apenas Neuer, Kimmich, Hummels e Muller do time bávaro. Na Espanha,  Barcelona e Real Madrid dominam naturalmente, mas o time merengue bicampeão europeu também cede apenas quatro: Carvajal, Sergio Ramos, Isco e Asensio. A França poderia se basear em PSG e Monaco, mas as mudanças na janela de transferência pulverizaram qualquer chance de ter uma ou duas equipes como referências.

O Brasil, como bem disse Renato Augusto numa coletiva recente, está “no bolo”. É candidato, como foi até no fiasco de 1990. Um ano antes, vencera a Copa América e Itália e Holanda, outras favoritas. Mas sucumbiu no Mundial pela queda técnica e lesões de seus grandes destaques: Bebeto, Careca e Romário.

Contexto, circunstâncias, o imponderável.Tudo isso pesa em um ano. Por isso é tão difícil pensar em junho de 2018. O dinamismo do mundo atual já é absurdo. No futebol mais ainda. Mais prudente celebrar a evolução brasileira e evitar falar em grupo fechado, sistema definido ou qualquer coisa que sugira uma estabilidade que não se sustenta. Serve apenas como linha mestra para não se perder no planejamento.

A Copa não começa agora. Melhor segurar a ansiedade e respeitar a sequência e o tempo de cada seleção. A pressa, neste caso, é ainda mais inimiga.


Dois falsos 9, laterais pontas, show de Isco. O “caos ordenado” da Espanha
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André Rocha

A Itália de Gianpiero Ventura resolveu encarar de peito aberto a Espanha no Santiago Bernabéu. De Rossi plantado à frente da retaguarda, Verratti na armação; Candreva e Insigne pelas pontas, Belotti e Immobile na frente. Bem diferente do sistema com três zagueiros, linhas próximas, rapidez e objetividade nas transições ofensivas dos tempos de Antonio Conte que acabaram na grande vitória por 2 a 0 sobre os espanhois nas oitavas de final da Eurocopa 2016.

A Espanha de Julen Lopetegui respondeu com a radicalização da fórmula da vitória na final continental de 2012. Se há cinco anos Cesc Fábregas era o falso nove nos 4 a 0 em Kiev que deram o bicampeonato para a “Roja”, desta vez havia dois: Iniesta e David Silva, os mais veteranos do setor ofensivo, ficavam mais adiantados quando a equipe perdia a bola e se transformavam nos articuladores quando a recuperava.

A dupla era ultrapassada por Asensio e Isco, os pontas que se alternavam pelos lados e voltavam para formar a segunda linha de quatro com Busquets e Koke. Na retomada, buscavam as diagonais ou os espaços entre as linhas. Carvajal e Jordi Alba também passavam voando pelos flancos. Abrindo o campo e confundindo ainda mais a espaçada marcação da Azzurra.

O resultado foi um espetáculo de posse de bola com verticalidade, mobilidade, tabelas e triangulações efetivas. Qualidade ocupando o campo de ataque ou jogando nos contragolpes. Mesmo que o conceito de “falso nove” moderno seja do Barcelona de Pep Guardiola com Messi, ficou clara a mudança de bastão para o Real Madrid de Zinedine Zidane no modelo de jogo da seleção.

Especialmente por causa de Isco, o melhor jogador em atividade no planeta entre os “terráqueos” – ou seja, tirando Messi e Cristiano Ronaldo do debate. Impressionante a evolução técnica e tática do meia. A naturalidade com que circula às costas dos volantes adversários, sai da ponta para dentro servindo os companheiros ou finalizando. Com bola parada ou rolando. Golaços em cobrança de falta e jogada individual.

O destaque absoluto dos 3 a 0 – com Morata, que entrou na vaga de Iniesta e o time voltou a ter uma referência na frente – que encaminham a vaga direta para o Mundial na Rússia e podem sinalizar o futuro da Espanha que domina o cenário entre os clubes e tem potencial para voltar a ser protagonista entre as seleções. O “caos ordenado” atacando por todos os lados e tirando a referência da retaguarda do oponente. A Itália não faz a mínima ideia do que a atropelou.


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