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Corinthians, Grêmio ou a evolução? O que você quer do seu time em 2018?
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André Rocha

Com a volta ao trabalho dos times das Séries A e B, a temporada 2018 dá os primeiros passos no Brasil. Desta vez com um retrocesso em relação a 2017: apenas duas semanas de pré-temporada por conta da pausa para a Copa do Mundo.

A lógica grita mais do que nunca que os estaduais devem servir como um torneio preparatório. Para os envolvidos em Libertadores, uma competição para testes e ajustes. O problema é que quando chegam os clássicos as cidades vivem uma espécie de vertigem, valorizando além da conta as rivalidades locais. Em busca de um título que é tratado como nada ao final da temporada pelos grandes.

O Corinthians foi campeão paulista e brasileiro. Mas o contexto ajudou, já que o time não disputou o principal torneio do continente, teve uma eliminação prematura da Copa do Brasil e não deu tanta importância à Copa Sul-Americana. Passou o ano praticamente dedicado a uma competição apenas.

O que não tira os méritos de vencedor com uma identidade. Construída por Mano Menezes e Tite, resgatada por Fabio Carille. O pilar na organização defensiva e o trabalho com a bola buscando triangulações, ultrapassagens e os apoios, inclusive de Jô como pivô. Peça fundamental que vai para o Japão e cria uma necessidade inesperada de buscar outras soluções no ataque. Mas não tira o norte do futebol do clube. Há uma linha mestra.

Assim como no Grêmio de Renato Gaúcho. Da ideia de propor o jogo, trocar passes e acelerar no ataque para infiltrar. Aproveitando alicerces já construídos e dando o acabamento que terminou no tricampeonato sul-americano. Mas não foi suficiente para superar o Real Madrid no Mundial de Clubes. Porque do outro lado havia uma seleção intercontinental, mas também por seguir faltando algo por aqui.

O futebol jogado no país foi marcado pela evolução sem a bola. Os conceitos de compactação, bloqueio dos espaços, pressão no homem da bola com marcação adiantada ou não e coordenação dos setores com a concentração máxima buscando o erro zero já foram assimilados. Até porque desde Carlos Alberto Parreira em 1994, ou mesmo Zagallo em 1970, a máxima “se não levarmos gol nosso talento decide na frente” continua valendo.

Só que apenas o talento não é suficiente para furar este bloqueio que tem uma sofisticação sem precedentes no futebol mundial. Nasceu com José Mourinho para enfrentar Pepe Guardiola. Foi lapidado e aprimorado por Diego Simeone, Carlo Ancelotti, Massimiliano Allegri e outros. Não é fácil entrar.

Ainda mais em um jogo ainda pobre coletivamente no que se refere à criação de espaços. Porque aprendemos a jogar com a bola e tentando abrir no drible, no blefe, na finta. Individualmente. Basta ver como pensamos futebol. Ainda acreditamos no “time no papel”, da reunião de craques que funciona como mágica. Adoramos comparar jogador por posição, buscar O cara do time, do campeonato. Veneramos Messi por driblar e conduzir com incrível habilidade e muitos torcem o nariz para Cristiano Ronaldo por seu estilo mais vertical e objetivo.

Questão de cultura, de história. Acreditamos no gênio Garrincha com cognitivo baixo, mas que no campo entende tudo. Nosso garoto é estimulado a partir para cima. Repare no nosso futebol em campo. Ele é pouco associativo, colaborativo. Quem se apresenta quer a bola, sem entender muitas vezes que dar a opção facilita o companheiro na tomada de decisão. Mesmo que ele resolva tentar o drible.

Há uma vaidade intrínseca. O lateral desce querendo chegar ao fundo ou finalizar. Se o ponteiro não passar em duas ultrapassagens, na terceira ele não vai. Não importa se a jogada pessoal do outro pode terminar em gol. O meia que diz que seu orgulho é dar assistências porque quer os louros dos “80% do gol foi meu” e do “te consagrei”. O centroavante aceita a responsabilidade de ser o finalizador porque vai sair no portal de esportes que ele “deu um show” se for às redes. Ainda que tenha tocado pouco na bola além dos gols que marcou. O que importa é botar para dentro.

Nosso jogo é fragmentado, ainda indigente na ideia de que atacar é estar pronto para defender (perde e pressiona) e vice-versa. O resultado prático, na maioria das vezes, é a busca do gol que fura o muro através dos cruzamentos, com bola rolando ou parada. Basta uma equipe estar bem fechada para o que está atacando começar a levantar bolas na área.

Faltam ideias, como arrastar pacientemente o rival para um lado e surpreendê-lo na inversão rápida de lado. O toque curto e o deslocamento para cansar o oponente física e mentalmente. A quase sempre vaiada bola recuada para o goleiro com o intuito de tirar um pouco o rival da trincheira. Há pressa, um futebol que sente muito – tem que ter garra, fibra, ser guerreiro, deixar o sangue – e pensa pouco.

O que teremos em 2018? Times se baseando no Corinthians e, por tabela, no Cruzeiro de Mano Menezes com princípios muito semelhantes ou no Grêmio apostando mais na técnica e no protagonismo? Mais equipes verticais, pouco se importando com a posse e aproveitando os espaços às costas da defesa do time que ataca ou controlando o jogo com a bola, se instalando no campo rival e assumindo os riscos da proposta ofensiva?

Ou ainda a evolução disso, que é o futebol por demanda. Inteligente, sabendo responder a cada necessidade que o jogo apresenta. Sabendo atacar e reagir. Um híbrido de Corinthians e Grêmio que, obviamente, saem na frente por já terem percorrido parte do caminho. Ataque e defesa numa ação contínua. O futebol total inspirado nos grandes centros. O dinheiro a menos, os jogos a mais, a desordem administrativa e as mudanças nos elencos são problemas, sem dúvida. Mas não podem ser bengalas eternas.

O que você quer para o seu time? Apenas títulos, não importando como vence? Ou jogar bem transformando o desempenho em resultados torna a conquista mais prazerosa, como Tite vem mostrando na rediviva seleção brasileira, uma realidade ainda distante da nossa pelos craques atuando na Europa? Com talento e, principalmente, a leitura de jogo e dos espaços que faltam em nossos campos.

O mercado mais modesto da maioria dos clubes pode ser positivo, investindo em entrosamento, jogar de memória, afinar a sintonia. Para que nosso futebol entre definitivamente no século 21, defendendo e atacando. Com menos lacunas, ainda que só dentro de campo. Apesar de uma gestão amadora e politiqueira na CBF, nas federações e em quase todos os clubes. Não custa sonhar.


Estádios lotados não podem continuar alimentando a ilusão dos estaduais
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André Rocha

Responda com sinceridade: que torcedor lembra de título estadual em dezembro? Só os que nada conseguiram no resto da temporada. Serve no máximo para tirar sarro do rival que nem isso comemorou no ano.

Mas e se ele ganha a Copa do Brasil e o seu é rebaixado no Brasileiro, como aconteceu com a dupla Gre-nal no ano passado? De que valeu o hexa colorado em 2016? Alguém lembrou?

“Ah, mas os estádios lotaram, a média de público subiu!” Ora bolas, se só existe esta competição no calendário do fim de semana, se os clubes mais estruturados e com estádios atraem seus torcedores pela fidelidade e alimentam a cultura da arquibancada, o fanático vai assistir a qualquer jogo.

Mesmo os inúteis, dentro de um calendário inchado. É por causa daquela partida contra um pequeno que seu time, se estiver bem na temporada, será prejudicado mais à frente pelas convocações da seleção brasileira. Porque terá que estar em campo numa data FIFA, quando todas as ligas organizadas param. Punido pela própria competência.

Também pagando pela estrutura federativa que alimentam. Estadual inchado porque os pequenos votam com a federação, que vota com a CBF e ninguém muda o futebol brasileiro. O campeonato não é atraente para o mundo, que não entende essa cultura provinciana.

“Ah, mas os pequenos precisam jogar”. Sim, mas o ano todo. Dentro de um calendário racional, sem esse “mimo” de enfrentar os grandes mais do que em qualquer outro país. Agora em alguns torneios nem são mais dois confrontos, em turno e returno. Jogos com estádios vazios, na maior parte do tempo.

Que a maioria tenha agenda para a temporada inteira. Quatro divisões com vinte clubes, turno e returno, uma quinta regionalizada e que se tente algo mais na Copa do Brasil. Com apoio da milionária CBF, que precisa olhar ainda mais para os seus clubes e não priorizar tanto a seleção brasileira.

Vencer o clássico na final é delicioso, sim. Mas não se depois vem o gosto amargo de ver o time definhando na reta final da temporada com vinte jogos a mais que clubes de outros países. Podendo sofrer por isso na Libertadores ou na Sul-Americana, agora disputadas ao longo do ano.

Perdendo aquele clássico realmente importante numa reta final de Brasileiro porque ganhou lá atrás na disputa regional. Que peso isso terá no balanço final do ano?

Além da questão política, o Estadual sobrevive no Brasil por um único motivo: alimenta uma ilusão de grandeza. O clube afundado em administrações amadoras, que nada consegue a nível nacional e internacional, vai se escorando na conquista menos importante da temporada.

E, claro, também para ser visto com bons olhos pela entidade máxima do nosso futebol. As ovelhas mansas seguem se contentando com migalhas.

Se você é sócio-torcedor, cobre dos seus dirigentes uma visão a médio e longo prazo, não imediatista. E daí que a televisão paga bem pelo Estadual? Ela também é cúmplice da CBF neste crime com os clubes, porque quer jogo todo dia, já que é um dos poucos eventos transmitidos capazes de manter o espectador sem zapear por 90 minutos. Se o Brasileiro se valorizar como produto para o mundo, todos ganham.

Portanto, vale a comemoração dos que faturaram as taças, sim. Afinal, é o que se tem pra hoje. Mas não se deixe enganar pela ilusão do estadual.


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