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A “camisa de força” que tirou a Holanda da Copa e aposenta Arjen Robben
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André Rocha

ESCREVE FELIPE DOS SANTOS SOUZA (colunista de futebol holandês no site Trivela e criador do blog Espreme a Laranja, sobre o mesmo assunto)

Por muito tempo, a Holanda teve o status de ser “o país da tática”. Justo: um país cuja extensão territorial é seis vezes menor do que a do estado de São Paulo teve a sorte de ter dois papas, em Rinus Michels e Johan Cruyff. Papas que aprenderam tudo com quem deixou sementes – como os técnicos Vic Buckingham e Jack Reynolds, que treinaram Michels no Ajax.

Papas que tiveram contemporâneos de inteligência tática também avançada, no banco (Ernst Happel e Wiel Coerver, antíteses de Michels) e no campo (Ruud Krol e Willem van Hanegem). Papas que deixaram ideias, até para que fossem questionadas, como foram por Louis van Gaal, a grande nêmesis de Cruyff, campeoníssimo com o Ajax nos anos 1990 – jogando de modo totalmente diferente do Futebol Total dos ‘70. E acima de tudo, papas que mudaram conceitos no modo como o futebol é jogado.

Mas tudo isso acabou.

A ausência da Holanda na Euro 2016 já deixava sinais da defasagem tática que o país vive em campo. E a confirmação veio com a primeira ausência em Copas da Laranja desde 2002 – fora de uma sequência Euro-Copa pela primeira vez desde o torneio europeu de 1984 e o Mundial de 1986. Há muitos fatores que podem explicar a derrocada holandesa. Mas dentro de campo, o principal deles é o apego excessivo aos velhos cânones holandeses: o 4-3-3 com pontas e a incessante troca de passes para tentar manter a posse de bola.

Obviamente, tais hábitos não são problemas. Basta citar que, nos mais badalados times europeus, jogar com três atacantes tem sido até habitual, seja falando de Bale-Cristiano Ronaldo-Asensio ou de Neymar-Cavani-Mbappé. A diferença: não há como jogar com três atacantes se a velocidade dos setores de trás não ajudar na marcação.

Eis um dos males da seleção holandesa: a lentidão do 4-3-3 habitual é exasperante. Em regra, a equipe tenta atacar pelas pontas, usando principalmente os laterais – normalmente, Daley Blind pela esquerda e a aposta da vez pela direita (ora o ofensivo Kenny Tete, que começou bem no Lyon, ora o mais defensivo Daryl Janmaat). Porém, em geral, os adversários estão bem compostos defensivamente. Resultado: os laterais precisam recuar a bola para os zagueiros, que recuam para os goleiros, que recomeçam as jogadas… e assim sucessivamente.

Holanda contra França: com adversário bem posicionado, saída de bola fica prejudicada (imagem: reprodução Sky Sports)

Quando enfim surge um espaço para atacar, novamente há prejuízo. Claro que o meio-campo tenta ajudar, com a volta dos volantes (Strootman e Wijnaldum) para buscarem a bola. Todavia, isso não acontece com os atacantes, que não voltam para oferecerem opções de jogada. Janssen fica preso entre as linhas, sendo mais hábil para tentar o pivô do que para finalizar, quesito em que tem falhado. Resta Robben. Cuja jogada “padrão” está cada vez mais manjada: ao preparar o corte para a perna esquerda, geralmente já há um zagueiro em cima dele – e outro na cobertura. Sendo assim, com os atacantes sem espaço para movimentação, a Holanda fica sem ação ofensiva. E com um buraco aberto no meio, pela demora de Strootman e Wijnaldum na recomposição, a Holanda vira presa fácil para contra-ataques.

Qualquer perda de bola no meio-campo rende espaço para contra-ataques adversários (imagem: reprodução Sky Sports)

Na defesa, a marcação por zona está absolutamente desorganizada. Basta citar o gol de empate de Belarus, na penúltima rodada: uma inversão de jogo simples pegou Maksim Volodko livre na esquerda, sem marcação, para chegar à área e vazar Cillessen.

Contra Belarus, Janmaat não fechou a direita. E Valadko ficou livre para o empate (imagem: reprodução Sky Sports)

E a Holanda não conseguiu criar alternativas de jogo para reagir. Um dado do jogo contra Belarus prova isso: a Laranja tentou sete chutes a gol durante o primeiro tempo. Em seis deles, Robben participou da jogada. Isto é: mesmo aos 33 anos, já perto da fase final da carreira, o atacante do Bayern ainda era indispensável. Era, porque ele se aposenta da seleção sem Mundial a disputar.

Portanto, já não deveria ser tão fundamental assim. Até porque a Holanda já teve, recentemente, uma prova de como rever conceitos táticos pode dar certo: a Copa de 2014. Jogando em seu estilo (4-3-3, bem aberta), num amistoso contra a França, em março daquele ano, a equipe de Louis van Gaal foi facilmente superada: o placar ficou no 2 a 0 para os Bleus, e poderia ter sido até maior, tal a superioridade dos mandantes em Saint-Denis.

Porém, no primeiro tempo daquele amistoso, Strootman – peça-chave no meio-campo de Van Gaal – lesionou um dos joelhos. Arriscou jogar no final de semana seguinte, defendendo a Roma pelo Campeonato Italiano, sobrecarregou o outro joelho e rompeu o ligamento cruzado. O volante estava fora da Copa. A partir daquele momento, Van Gaal teve de queimar as pestanas para achar um jeito de tornar a Holanda competitiva. Até porque ainda se acreditava na Espanha – e o Chile já dava claros sinais de evolução.

O treinador da seleção holandesa, então, engoliu em seco seu desejo de ofensividade. Entendeu: com o que tinha em mãos, ou protegia a defesa, ou a Holanda ficaria na primeira fase da Copa (palpite que muitos tinham, aliás). Daí, a preferência pelo 5-3-2, com três zagueiros e Nigel de Jong como o “cão de guarda” habitual no meio-campo. Com um tanto de dedicação e outro tanto de sorte – quem diria que Robben teria alguns dos melhores dias de sua carreira no Brasil? -, a Holanda conseguiu um terceiro lugar surpreendente e elogiável.

A lição estava dada. Mas nenhum dos sucessores quis segui-la: nem Guus Hiddink, nem Danny Blind, nem Dick Advocaat. Seguiu-se o 4-3-3, os pontas, a aposta no que os holandeses chamam “toevalsspel”, o jogo da coincidência. Trocando em miúdos: acreditar que, a qualquer momento, uma arrancada de Robben poderá definir as coisas.

Não pode mais. Pelo menos sem uma organização, não pode. E por causa de um orgulho tático que já não tem mais razão de ser, a Holanda ficou fora da Euro e da Copa do Mundo. Com uma geração de jogadores de nível mediano, e um campeonato de nível técnico trágico (PSV e Ajax foram eliminados nas fases preliminares dos torneios europeus, e o Feyenoord teve duas atuações terríveis na Liga dos Campeões), é a hora exata para uma das seleções mais tradicionais do mundo se reformular. Aprender não só a criar jogadores mais capacitados para as exigências atuais do futebol, mas também saber que o 4-3-3 é apenas uma possível opção, não a única.

É isso. Ou então, viver de passado. O pior é que nem é possível falar em “passado de glórias”, já que a Holanda só tem a Euro 1988 em sua galeria.

ESCREVEU FELIPE DOS SANTOS SOUZA


A Espanha está na Copa do Mundo da Rússia e é bom ficar de olho nela
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André Rocha

A Espanha enfrentou a Albânia em Alicante no meio de uma turbulência política com a Catalunha e Piqué no olho do furacão. Entrou em campo sem Carvajal, Busquets, Iniesta e Morata. Mais Diego Costa, sem ritmo de jogo. O adversário é o terceiro colocado do Grupo G e chegou à penúltima rodada das eliminatórias ainda com chances de superar a Itália, a outra favorita. Disputou a fase final da Eurocopa 2016, um feito inédito.

Pois a equipe de Julen Lopetegui não tomou conhecimento e impôs seu estilo que mantém a valorização da posse de bola, mas ganha volume e aceleração quando entra na área do oponente. E a contundência na frente que faltou em vários momentos, mesmo na equipe bicampeão europeia e campeã do mundo.

Num 4-1-4-1 com o ótimo Saúl Níguez no lugar de Busquets, Rodrigo – brasileiro naturalizado, filho de Adalberto, ex-lateral do Flamengo nos anos 1980 e campeão mundial sub-20 em 1983, como único atacante. Intensa movimentação do quarteto Koke-Thiago Alcântara-David Silva-Isco. Com direito a recital dos dois últimos.

A Roja que deu espetáculo contra a Itália atuando sem uma referência no ataque também sabe jogar com pivô. Abre o campo com os laterais. Jordi Alba pela esquerda e o jovem Odriozola da Real Sociedad à direita. Autor do cruzamento para Thiago Alcântara marcar o último gol dos 3 a 0 ainda no primeiro tempo.

Com o empate da Itália em 1 a 1 com a Macedônia, a confirmação matemática da classificação em primeiro lugar. Invicta. Oito vitórias, um empate fora de casa com a Itália. 35 gols marcados, três sofridos. A Espanha tem renovação e maturidade, tem Isco vivendo o auge da carreira. País dos clubes que dominam o futebol mundial nos últimos anos, mesmo considerando o “fator” Messi e Cristiano Ronaldo, além dos outros estrangeiros das seleções mundiais que são Real Madrid e Barcelona.

O grupo parece mais vivido e homogêneo, com mais opções confiáveis para uma realidade de Copa do Mundo que o da Alemanha. Tem mais tempo de trabalho que o Brasil de Tite e conquistas recentes que transferem mais respeito que a França, vice em casa da Eurocopa, pode conseguir. É bom ficar de olho nesta Espanha.


Dois falsos 9, laterais pontas, show de Isco. O “caos ordenado” da Espanha
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André Rocha

A Itália de Gianpiero Ventura resolveu encarar de peito aberto a Espanha no Santiago Bernabéu. De Rossi plantado à frente da retaguarda, Verratti na armação; Candreva e Insigne pelas pontas, Belotti e Immobile na frente. Bem diferente do sistema com três zagueiros, linhas próximas, rapidez e objetividade nas transições ofensivas dos tempos de Antonio Conte que acabaram na grande vitória por 2 a 0 sobre os espanhois nas oitavas de final da Eurocopa 2016.

A Espanha de Julen Lopetegui respondeu com a radicalização da fórmula da vitória na final continental de 2012. Se há cinco anos Cesc Fábregas era o falso nove nos 4 a 0 em Kiev que deram o bicampeonato para a “Roja”, desta vez havia dois: Iniesta e David Silva, os mais veteranos do setor ofensivo, ficavam mais adiantados quando a equipe perdia a bola e se transformavam nos articuladores quando a recuperava.

A dupla era ultrapassada por Asensio e Isco, os pontas que se alternavam pelos lados e voltavam para formar a segunda linha de quatro com Busquets e Koke. Na retomada, buscavam as diagonais ou os espaços entre as linhas. Carvajal e Jordi Alba também passavam voando pelos flancos. Abrindo o campo e confundindo ainda mais a espaçada marcação da Azzurra.

O resultado foi um espetáculo de posse de bola com verticalidade, mobilidade, tabelas e triangulações efetivas. Qualidade ocupando o campo de ataque ou jogando nos contragolpes. Mesmo que o conceito de “falso nove” moderno seja do Barcelona de Pep Guardiola com Messi, ficou clara a mudança de bastão para o Real Madrid de Zinedine Zidane no modelo de jogo da seleção.

Especialmente por causa de Isco, o melhor jogador em atividade no planeta entre os “terráqueos” – ou seja, tirando Messi e Cristiano Ronaldo do debate. Impressionante a evolução técnica e tática do meia. A naturalidade com que circula às costas dos volantes adversários, sai da ponta para dentro servindo os companheiros ou finalizando. Com bola parada ou rolando. Golaços em cobrança de falta e jogada individual.

O destaque absoluto dos 3 a 0 – com Morata, que entrou na vaga de Iniesta e o time voltou a ter uma referência na frente – que encaminham a vaga direta para o Mundial na Rússia e podem sinalizar o futuro da Espanha que domina o cenário entre os clubes e tem potencial para voltar a ser protagonista entre as seleções. O “caos ordenado” atacando por todos os lados e tirando a referência da retaguarda do oponente. A Itália não faz a mínima ideia do que a atropelou.


Ainda não dá para encarar os alemães
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André Rocha

Nunca mais acontecerá um 7 a 1, até porque já existe o histórico e em todo confronto haverá a lembrança – e a cautela. E, a rigor, o Brasil de Tite só precisa estar pronto para um novo duelo que envolve nove títulos mundiais em 2018, na Rússia.

Mas vendo a Alemanha jogar fica claro que, apesar de toda evolução recente da seleção canarinho, o estágio de trabalho é bem superior. Natural, até porque os campeões mundiais têm uma base pronta e não deixam de renová-la para manter o altíssimo nível.

A começar por Kimmich, jogador que evoluiu demais nas mãos de Pep Guardiola. O catalão não está mais em Munique, mas continua sendo o grande mentor do modelo de jogo da seleção alemã. Joachim Low coloca para jogar Kimmich e também Hector, laterais que atuaram praticamente os noventa minutos dos 3 a 0 sobre a República Checa em Hamburgo pelas eliminatórias europeias no campo de ataque.

Abrindo o campo, esgarçando a marcação e permitindo a mobilidade do quarteto ofensivo formado por Muller e Draxler nas pontas, Ozil e Gotze soltos na articulação e no ataque com a ausência por lesão de Mario Gómez, centroavante de ofício.

Troca de passes até se instalar no campo do oponente, inclusive os zagueiros Boateng e Hummels. No último terço do campo, um jogo mais acelerado para surpreender a marcação do adversário, que chegou a posicionar seis jogadores na última linha defensiva.

Kroos passa, Khedira se junta ao quarteto ofensivo e infiltra como elemento surpresa. Um volume de jogo absurdo por conta do entrosamento. Neste cenários os gols saíram naturalmente. Primeiro Muller, depois Kroos e de novo Muller – quatro gols em dois jogos nas Eliminatórias, 36 pela seleção. Dezesseis finalizações no total. Até Howedes, zagueiro adaptado à lateral que entrou na vaga de Hector, atacou e concluiu na direção da meta de Vaclik.

Domínio absoluto de quem teve 66% de posse de bola (chegou a 73% na primeira etapa) e acertou 92% dos mais de 600 passes. Postura ofensiva que permitiu apenas uma conclusão que deu trabalho a Neuer, muito mais útil na reposição da bola. Ainda entraram os talentosos Gundogan e Brandt, aquele mesmo da Olimpíada, para mostrar que a renovação segue firme.

Um recital da melhor seleção do planeta. Os analistas de resultados lembrarão da derrota para a França na semifinal da Eurocopa. Quem vê desempenho, porém, sabe que o padrão coletivo dos alemães segue insuperável. Em beleza e eficiência. Você pode até vencê-lo, mas dominá-lo é quase impossível.

Difícil encarar. Certamente não ouviríamos “Lá vem eles de novo!” ou “Virou passeio!”, mas estamos abaixo. Ainda.

(Estatísticas: UEFA)


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