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É o melhor Grêmio que vi jogar, mesmo que não se torne o maior da história
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André Rocha

Renato Gaúcho costuma dizer que o Grêmio em que jogou nos anos 1980 era melhor que o atual porque na época havia mais craques. Opinião que merece respeito. Afinal, ele atuou em um e dirige o outro. Mas este que escreve viu, inclusive em estádio, jogar a equipe campeã da Libertadores em 1983, finalista do torneio continental do ano seguinte e do Brasileiro em 1982.

Podia ser competitiva, guerreira, eficiente. Mas na bola jogada a equipe atual sobra. Inclusive em comparação com outras, com a também campeã da América em 1995. Começando pelo meio-campo, com Maicon, Arthur e Luan. Jogadores muito melhores que China, Bonamigo, Osvaldo, Vilson Tadei, Tita…Também Dinho, Emerson, Arilson, Luis Carlos Goiano, Carlos Miguel…

É bonito ver o atual campeão sul-americano jogar. E que bom quando Renato Gaúcho coloca os titulares também no Brasileiro. Infelicidade do Santos, que saiu da Arena em Porto Alegre com um 5 a 1, fora o baile.

Não que a equipe de Jair Ventura tenha se entregado desde o início. Procurou fechar bem os espaços, com duas linhas de quatro compactas e deixando Gabigol e a joia Rodrygo mais adiantados. Conseguiu relativamente bem, apesar da dificuldade para sair jogando diante da pressão do time da casa.

Até Maicon colocar no ângulo de Vanderlei em chute de fora da área, mais um recurso de uma equipe cada vez mais completa. Infelicidade no gol de Jean Motta logo na sequência, em chute que desviou em Kannemann. Mas tranquilidade e confiança para seguir jogando e construir a goleada na segunda etapa.

Everton, outra vez Maicon em cobrança de falta, André e Arthur. Jogando ao natural. Tocando, girando, dando opção para o jogador que está com a bola. Execução do 4-2-3-1 cada vez mais ajustada. Acelerando e desacelerando quando preciso. 61% de posse, 18 finalizações – metade na direção da meta de Vanderlei. 574 passes, com 93% de acertos.

O Grêmio gosta da bola e o futebol agradece. Se renderá mais taças o futuro dirá. Mas é o melhor Grêmio que vi jogar, mesmo que não se torne o maior da história.

(Estatísticas: Footstats)

 

 


Everton no São Paulo: persistência é a virtude; leitura de jogo, o defeito
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André Rocha

Imagem: Divulgação São Paulo

Everton é do São Paulo por três anos e cerca de 15 milhões de reais. Com 29 anos, a expectativa é pelo retorno de desempenho em campo e não pensando numa futura venda.

Em uma primeira observação, o melhor encaixe no time comandado por Diego Aguirre é como ala pela esquerda em um sistema de três zagueiros, como o treinador já utilizou neste início de trabalho. Mas com a possível saída de Marcos Guilherme pelo fim do empréstimo do Atlético Paranaense no fim de junho, Everton tende a ser mais útil pela ponta.

O ex-jogador do Flamengo deixa 100% em campo. Não é referência de garra ou fibra, nem demonstra liderança perante os companheiros. Mas faz todo o corredor esquerdo, de uma linha de fundo à outra durante os 90 minutos, mesmo já chegando aos 30 anos.

O problema é a leitura de jogo. Um dos problemas para a adaptação de Everton Ribeiro como ponta articulador no time rubro-negro era que quando cortava da direita para dentro e levantava a cabeça não encontrava um colega infiltrando no espaço correto. Nem Everton, que ou afunilava e esperava a bola com o centroavante, ou não fazia a diagonal e permanecia aberto, sem dar opção.

Sem contar os erros nas tomadas de decisão. Muitas vezes irritou os flamenguistas tentando o drible quando deveria passar ou concluindo de maneira precipitada no momento em que tinha espaço para conduzir e finalizar com mais chance de acerto. Ou vice-versa.

Mas nunca desiste. Na tentativa e erro acaba sendo mais produtivo que os que se abatem. Exemplo clássico no último Fla-Flu, semifinal da Taça Rio: Carpegiani colocou Vinicius Júnior e recuou Everton como lateral. Pecou nas investidas à linha de fundo, mas acabou acertando um belo chute que empatou o clássico.

A boa notícia para o são-paulino é que ele vem de sua melhor temporada, ao menos nos números de gols e assistências: em 2017 foram dez bolas nas redes e 13 passes para gols em 57 partidas. No último Brasileiro, foi o que mais acertou cruzamentos, o segundo mais efetivo nos dribles e o terceiro nas finalizações do Fla, segundo o Footstats. Também o que mais acertou desarmes entre os jogadores do setor ofensivo. É participativo, não se omite. Mas também foi o líder na equipe em impedimentos. De novo a dificuldade para vislumbrar a melhor ação ofensiva.

O problema do tricolor paulista, porém, segue o mesmo: a falta de sequência. Everton é a nona contratação para a temporada e o clube já mudou de treinador com menos de três meses de temporada. Não adianta reunir as individualidades e esperar a mágica acontecer. Não costuma funcionar na primeira prateleira da Europa, que dirá no futebol brasileiro.

Everton não é jogador para vestir camisa e compensar no talento os problemas coletivos. Precisa de tempo para evoluir com os companheiros dentro de uma proposta de jogo. Persistência para compensar a leitura deficiente.

A má notícia é que o São Paulo não tem investido em continuidade. Dirigentes e torcida querem uma resposta rápida. Eis o maior risco de dar errado novamente.


Palmeiras e Grêmio começam a sobrar no país e tudo parte do meio-campo
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André Rocha

Independentemente do que acontecer nas decisões estaduais em São Paulo e no Rio Grande do Sul e também das campanhas invictas até aqui na Libertadores, a análise de desempenho, com mais ênfase nas atuações recentes, sinalizam que Palmeiras e Grêmio começam a se desgarrar dos demais como os melhores times do país.

Equipes que alternam posse de bola para controle do jogo e intensidade nas transições ofensivas e defensivas e na pressão logo após a perda da bola. Times inteligentes. Consciência que parte do meio-campo.

Reunir Arthur, Maicon e Luan de um lado e Felipe Melo, Bruno Henrique ou Moisés e Lucas Lima do outro, para o nível do futebol jogado no Brasil, é garantir eficácia nos passes desde o início da construção das jogadas e variação de ritmos de acordo com a necessidade.

O entrosamento e a combinação de características fazem o trio do Grêmio render mais e protagonizar belos lances. Sem contar a confiança pelos títulos recentes e o trabalho de Renato Gaúcho já bem assimilado. Roger Machado ainda está no início de seu trabalho e, por consequência, está um passo atrás.

Aliás, curioso observar que os treinadores acabaram influenciando um no trabalho do outro, direta ou indiretamente. Renato recebeu o Grêmio de Roger, manteve a ideia e o modelo de jogo a partir da posse de bola e das triangulações e efetuou ajustes tornando o time mais rápido e contundente na frente, intenso no trabalho defensivo e atento nas bolas paradas.

Exatamente o que Roger vem alterando em seu repertório, agora no Palmeiras. Até pela urgência de resultados para se estabilizar no comando do time mais pressionado do país em 2018. Na impossibilidade de contar com tempo para fazer com que a marcação por zona não seja passiva como aconteceu especialmente diante do Corinthians na fase de grupos do Paulista, o comandante agora estimula os encaixes e algumas perseguições individuais mais longas para garantir a concentração dos atletas.

Um pouco de Renato, outro tanto de Cuca, último técnico campeão no alviverde. Para evitar problemas como os que Alberto Valentim passou. Basicamente, adiantar a última linha de defesa, mas sem fazer pressão no adversário sem a bola e fechar as linhas de passe.

Com a posse, o Palmeiras roda a bola , concentra jogadores de um lado, preferencialmente o esquerdo, até a bola chegar a Felipe Melo ou Lucas Lima quando este recua e acontece a inversão rapidamente buscando o ponteiro do lado oposto. Normalmente Dudu, que vem crescendo de produção no setor direito. Com mais volume de jogo e ações de ataque com profundidade, Borja também cresce como o artilheiro do time no ano.

Assim como Jael, substituto de Lucas Barrios e a mudança mais significativa na virada do ano, aproveita o momento positivo para arriscar cobranças de falta, assistências de letra. Mais os gols, completando as jogadas bem articuladas. O entrosamento com Everton, que infiltra em diagonal para se juntar ao centroavante, só torna os ataques mais fluidos e com momentos de beleza. Coisa rara por aqui.

É óbvio que há ainda muita margem de evolução e alguns jogos pelo estadual – no caso do Grêmio, mesmo na final – não servem como parâmetro seguro para avaliações mais profundas. Ainda assim, a proposta e a execução parecem mais alinhadas, potencializando o talento através do trabalho coletivo. Com o toque diferente no meio-campo.

Domingo ambos podem levantar taças. Para o Grêmio significaria o fim de um período de oito anos sem conquistas na competição. Já o Palmeiras ganharia mais confiança para seguir a sua saga na temporada em que todos não aceitam menos que o máximo em conquistas.

O que se espera é que se algo der errado em termos de resultado o trabalho até aqui não seja descartado. Seria um desperdício. Mais um na terra do futebol de resultados.


Fluminense está na final porque, acredite, tem mais repertório que o Fla
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André Rocha

Quem olha os números da semifinal da Taça Rio imagina um amplo domínio do Flamengo sobre o Fluminense no Estádio Nílton Santos: 58% de posse de bola, 21 finalizações rubro-negras contra 12. Se comparar os orçamentos no futebol a diferença aumenta ainda mais. Considerando que um disputa Libertadores e outro foi eliminado da Copa do Brasil pelo Avaí…

Mas nem tudo é como parece. Se no jogo da fase de grupos do returno do Carioca os reservas do Fla relativizam os 4 a 0 aplicados pelo tricolor, a verdade do campo desta vez mostrou uma dura realidade para Paulo César Carpegiani: o 3-5-2 simples, à moda antiga, montado por Abel Braga oferece um repertório ofensivo maior que o da equipe com elenco, em tese, mais qualificado.

O jogo tricolor flui, especialmente pelos flancos. Pela direita, Gilberto se aproxima de Jadson e Marcos Júnior para as triangulações. No lado oposto, o mesmo com Ayrton, grande revelação do campeonato, mais Richard e Sornoza. Repare no camisa dez equatoriano do Flu. A bola chega e sai com facilidade. Passe para a frente, objetivo, encontra o companheiro pronto para acelerar.

Já no Fla, Diego e Everton Ribeiro não conseguem construir o volume de jogo desejado. Erram passes, são burocráticos e pouco inventivos. Para complicar, Lucas Paquetá, um dos poucos que procuravam passar de primeira, agora sempre precisa dar um toque a mais na bola. Ainda assim, consegue ser o jogador capaz de tentar algo diferente na execução do 4-1-4-1 armado por Carpegiani.

O Flu ainda tem outra vantagem: os zagueiros Renato Chaves e Ibañez são opções de saída de bola com rapidez para fazer a bola chegar rapidamente nos alas. No lado rubro-negro, Rever, Juan e Jonas são mais lentos e os meias precisam recuar para ajudar. Sem contar as sérias limitações técnicas e de discernimento na tomada de decisão dos laterais Rodinei e Renê. E ainda tem Henrique Dourado acrescentando muito pouco. Não dá sequência aos ataques como pivô e no toque final não é contundente.

Em resume, o jogo do Flu acontece naturalmente e o do Fla sai a forceps, no abafa. Mais uma vez o “primo rico” do futebol carioca precisou apelar para os cruzamentos. 14 no primeiro tempo, 23 no segundo. Total de 37. O empate veio no abafa e na sequência de chutes de Rodinei e o definitivo de Everton, que produziu muito mais como lateral que meia pela esquerda.

O Flu cruzou 21 e contou com a ajuda de uma atuação constrangedora de Diego Alves na saída da meta. Muita hesitação que Gum aproveitou para abrir o placar no primeiro tempo e podia ter ampliado no segundo com o mesmo camisa três tricolor em outra falha do goleiro, mas na sequência é difícil avaliar se Gum está atrás da linha da bola ou se Diego Alves dava condição.

Não precisou. Foi sofrido. Vinícius Júnior, que entrou na vaga de Renê, teve a bola da classificação no pé direito em um contragolpe. O Flu perdeu chances de matar o clássico em contra-ataques bem engendrados. Mas o empate por 1 a 1 classificou para a final contra o Botafogo a melhor equipe do returno. Nada especial em um estadual de baixo nível técnico, públicos ridículos e um Rio de Janeiro em crise profunda.

De qualquer forma, é um alento para o Flu. Assim como o Botafogo, o outro finalista, não tem outra competição para disputar neste momento. O título da Taça Rio servirá para melhorar a autoestima no clube vencedor.

Para o Flamengo, duas más notícias: fim da chance de ganhar duas semanas para treinamentos e apenas uma partida para definir o Carioca. A pior é que objetivamente o time não evoluiu em relação à temporada passada. Na necessidade, ainda vive de cruzamentos e lampejos, especialmente de Paquetá e Vinicius Júnior. É muito pouco para quem investe tanto.

O Flu faz mais com menos e há muito mérito nisto.

(Estatísticas: Footstats)

 


Parecia uma noite de Flamengo na Libertadores. Mas entrou Vinicius Jr…
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André Rocha

O Flamengo deu a impressão de que repetiria em Guayaquil a sina de 2017 na Libertadores: boa atuação fora de casa, mas sofrendo pelos erros de finalização, especialmente de Henrique Dourado. Também o individualismo de Lucas Paquetá, preferindo dribles e finalizações quando o passe era mais indicado.

Para complicar, o pênalti claro não marcado no toque de mão de Guagua em disputa com Everton Ribeiro e uma rara falha de Juan, que deixou as costas para Angulo infiltrar e fazer o gol do Emelec. Duro golpe para um desempenho correto na execução do 4-1-4-1, com entrega, liderança de Diego e mais personalidade do time que costumava ser frágil mentalmente.  Seria mais uma noite da sina recente no torneio continental de “jogou como nunca, perdeu como sempre”?

Seria, se Vinícius Júnior não tivesse entrado na vaga de Everton Ribeiro. Para jogar aberto pela direita, setor em que nem rende tanto quanto no lado oposto. Mas quando o time rubro-negro mais precisou o talento que fez o Real Madrid abrir os cofres atrás de um garoto de 17 anos apareceu como ainda não havia acontecido desde que subiu para os profissionais.

Faltava à equipe de Carpegiani a jogada diferente, o drible que desmonta a defesa adversária. Vinicius ofereceu seu repertório e dois gols numa virada que parecia improvável. O primeiro uma pintura em jogada pessoal, o segundo tabelando com Diego. Três finalizações, duas no alvo. Total de 21 conclusões do Fla, sete na direção da meta de Esteban Dreer, contra apenas nove dos donos da casa. 25 desarmes corretos dos brasileiros contra sete.

Um outro espírito, mas a diferença foi o talento. Não veio de Paquetá, mas no time das contratações milionárias outra joia da base resolveu. A mais reluzente e valiosa. Para encerrar uma invencibilidade de 16 jogos do Emelec e reescrever a história na vitória do Flamengo como visitante na Libertadores que não acontecia desde 2014.

(Estatísticas: Footstats)

 


Na melhor atuação no ano, Grêmio repete estratégia da final da Libertadores
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André Rocha

Em 2018, o Grêmio repete a oscilação no início da temporada de 2017. Campanha irregular no estadual, início sem vitória na Libertadores. Mas o time de Renato Gaúcho se acostumou a crescer em jogos grandes. Na conquista da Recopa Sul-Americana contra o Independiente foi mais na luta e no brilho de Marcelo Grohe que na técnica ou tática.

Já no primeiro Grenal do ano no Beira-Rio, a bela atuação do primeiro tempo que construiu a vantagem de 2 a 0 foi a melhor deste ano até aqui. Mesmo administrada com sofrimento na segunda etapa depois do gol de Rodrigo Dourado no primeiro ataque colorado.

Triunfo que teve muito de estratégia. Exatamente a mesma da final da Libertadores contra o Lanús. Diante de um time que aposta mais na posse de bola que na velocidade, marcação adiantada e por pressão, com rápida reação após a perda da bola. Ao retomar, transição rápida, movimentação das peças, especialmente Everton e Luan.

Destaque para o camisa sete. Não só pelos dois gols, um de pênalti, mas pela perfeita circulação às costas de Rodrigo Dourado e Edenílson na execução do 4-2-3-1 habitual do tricolor. No último ataque do primeiro tempo, serviu Everton, que podia ter decidido o clássico novamente no setor do lateral Dudu, o “mapa da mina” gremista. A sétima finalização contra quatro do rival. Duas contra uma no alvo. Nas redes de Marcelo Lomba.

Não fez o terceiro e sofreu na segunda etapa. Renato tirou Madson, boa opção na primeira etapa cada vez mais adaptado e aproveitando o corredor deixado pela movimentação de Ramiro, que foi para a lateral. Entrou Alisson pela esquerda. Everton trocou de lado. Apesar de contar com mais jogadores rápidos, o Grêmio perdeu velocidade nos contragolpes. Para garantir os 2 a 1, entraram Michel e Marcelo Oliveira nas vagas de Jael e Everton.

O Inter foi na direção contrária. Com sua equipe ocupando o campo de ataque e precisando criar espaços, Odair Hellmann mandou a campo jogadores mais rápidos: Márcio, Gabriel e Wellington Silva. Acertou na saída de Dudu e no deslocamento de Edenilson para a lateral direita. No entanto, abusou dos cruzamentos: foram apenas quatro nos primeiros 45 minutos e nada menos que 32 no segundo tempo.

Dez de D’Alessandro. São muitas compensações para o que o ídolo e camisa dez esteja em campo. Na primeira etapa, com duas linhas de quatro pressionadas e o argentino e Roger na frente, o Inter ficou encaixotado. Sem saída. Em um jogo mais aleatório, de “abafa”, o meia veterano aparece mais, mas sem grande produtividade. Em abril faz 37 anos. Merece todas as homenagens pelos 400 jogos pelo clube. Mas está pesando para o coletivo.

Já o Grêmio teve mais uma vez Geromel sobrando na defesa. Inteligência, posicionamento, vibração. Não perdeu uma disputa. Mais um trunfo para Renato Gaúcho fazer seu time forte em momentos importantes. Vêm aí mais dois clássicos pelas quartas-de-final do Gaúcho. O rival que corra atrás para desafiar o campeão sul-americano.

 


Que relação complicada entre Flamengo e Libertadores nos últimos tempos!
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André Rocha

Cuéllar é expulso na premiação da decisão da Sul-Americana. Clube é punido pela selvageria de parte da torcida no Maracanã e tem que estrear na Libertadores no Nílton Santos com portões fechados. Arbitragem complicada, com pênalti claro não marcado a favor no primeiro tempo e sofrendo gol logo depois de abrir o placar com o adversário claramente impedido.

Para piorar, o treinador Paulo César Carpegiani foi infeliz na última substituição, trocando Everton por Willian Arão. O time perdeu velocidade nos contragolpes e não ganhou solidez na proteção da defesa. E Vinícius Júnior estava no banco…

Que relação complicada entre Flamengo e Libertadores nos últimos tempos! Desde a noite de Cabañas e Joel Santana em 2008, a eliminação para o Emelec em 2012 com os jogadores à beira do campo esperando o apito final. No ano passado a combinação da derrota no final para o San Lorenzo e a vitória do Atlético-PR sobre a Universidad Católica e agora um grupo complicadíssimo com River, Santa Fé e Emelec. Tudo parece conspirar contra.

Ainda que a atuação coletiva tenha ficado bem longe do satisfatório. A equipe estava nitidamente insegura na estreia em uma competição tratada como prioridade contra um adversário tradicional. Pouca pressão no oponente com a bola e muita lentidão na circulação da bola na saída para o ataque. Desde a defesa com Rever, Juan e Jonas, o substituto de Cuéllar.

Carpegiani optou por Pará na lateral direita, muito provavelmente pela preocupação com De La Cruz, o meia aberto pela esquerda no 4-1-4-1 armado por Marcelo Gallardo, mesmo sistema do time brasileiro. Com isso a equipe rubro-negra só conseguia dar profundidade às ações ofensivas com Everton e Paquetá pela esquerda. À direita faltava a ultrapassagem do lateral no espaço deixado pelas trocas entre Everton Ribeiro e Diego.

No centro do ataque, Dourado tentava descomplicar tocando simples e de primeira, mas sem acrescentar muito. Do lado argentino, Lucas Pratto, mesmo demonstrando desentrosamento, fazia um trabalho de pivô mais eficiente e inteligente.

Mesmo em má fase, o River mostrava mais personalidade e um plano de jogo claro. Faltava a fluência nas jogadas. Por isso um primeiro tempo fraco, com muitas faltas – 22, 14 cometidas pelo River e 8 pelo Fla. Só quatro finalizações do mandante e duas do time argentino – dois a um no alvo. Mas não teve a chance clara. Só o pênalti no toque no braço de Zuculini na disputa com Rever que o fraquíssimo árbitro peruano Michael Espinoza ignorou.

Gols na segunda etapa. No pênalti de Ponzio em Diego, Henrique Dourado manteve sua incrível precisão na cobrança. Na saída de bola, falta pela esquerda para o River e Mora aproveitou, impedido, para empatar. Na inversão de lado dos meias, Paquetá pela direita achou Everton e o meia novamente compensou com gol uma atuação com muitos erros nas tomadas de decisão.

Jonas saiu lesionado e entrou Rômulo, que, ao contrário do Fla-Flu, não comprometeu. Mas o Fla exagerou no recuo para administrar a vantagem e a troca de Everton por Arão foi trágica. O volante estava mal posicionado e Camilo Mayada chutou forte, mas de longe. Diego Alves aceitou. Décima segunda finalização do River contra dez do mandante, que teve 58% de posse e nem cruzou tanto desta vez, apenas 18.

Empate que soa cruel para o Fla pelos erros de arbitragem. Mas o time não se ajuda. Agora, para não repetir 2017 terá que pontuar fora do Rio de Janeiro. Incrível como tudo parece mais difícil no principal torneio da América do Sul.

(Estatísticas: Footstats)


Grêmio sofre sem Arthur, mas cumpre sua missão. Agora o que vier é lucro
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André Rocha

O Grêmio sentiu demais a falta de Arthur  na maior parte do jogo. Mas quando o Pachuca começou a sentir o esforço dos 120 minutos da vitória sobre o Wydad Casablanca, Renato Gaúcho compensou o meio-campo menos qualificado com força e velocidade na frente. Mais uma feliz alteração na iluminada temporada 2017.

O campeão da CONCACAF surpreendeu com Jara, mais centroavante, na vaga do rápido Sagal no ataque. Imaginava-se o time mexicano especulando mais e acelerando os contragolpes diante do campeão da Libertadores, mas sobrou coragem para montar um 4-1-4-1 com Urretaviscaya pela direita e Guzmán mais adiantado, alinhado a Honda na articulação.

A mudança do treinador Diego Alonso empurrou os volantes Jaílson e Michel para o campo gremista e dificultou ainda mais as transições ofensivas do time brasileiro, sobrecarregando Luan. O Grêmio também nitidamente sentia a tensão da estreia. Mas o Pachuca, assim como no jogo anterior, controlou a posse no primeiro tempo (58%), mas finalizou pouco – apenas duas vezes contra cinco. Nenhuma no alvo em 45 minutos.

O jogo seguiu na mesma toada na segunda etapa, até o Pachuca dar os primeiros sinais de cansaço. A senha para Renato Gaúcho trocar o cuidado na proteção da defesa pela velocidade e mais presença ofensiva em busca da vitória ainda nos 90 minutos: tirou Barrios e Michel e colocou Jael e Everton. Ramiro recuou para jogar com Jaílson, Fernandinho inverteu o lado e Everton foi para o lado esquerdo, com Jael como referência na frente. Na prorrogação, Leonardo Moura substituiu Edilson para o time seguir atacando pela direita. Proposta ofensiva atrás do gol.

Não foi possível no tempo normal, mas diante de um adversário ainda mais exaurido, sobraram espaços para Everton receber pela esquerda, cortar para dentro e fazer um belo gol, o da classificação. Confirmada sem sustos depois da expulsão de Guzmán.

O Grêmio cumpriu sua missão, não sendo frustrado na intenção de enfrentar o campeão europeu, como aconteceu com Internacional, Atlético Mineiro e Atlético Nacional. Agora o que vier é lucro, a menos que o Real Madrid protagonize um vexame sem precedentes sendo eliminado na semifinal pelo Al Jazira de Romarinho.

Na mais que provável decisão de sábado contra o time merengue, o Grêmio encontrará o cenário mais confortável: de franco atirador, sem maiores responsabilidades. Se perder, até de goleada, a disparidade de investimento, aliada ao cansaço pela prorrogação e a ausência de Arthur, serão “álibis” mais que válidos. Mas se vencer não é absurdo dizer que o feito de Renato Gaúcho será maior do que os dois gols sobre o Hamburgo em 1983.

O clichê é inevitável: será a luta Davi x Golias. Mas é sempre mais prudente não duvidar do Grêmio.

(Estatísticas: FIFA)

 


Flamengo: a lenta agonia do time que não dá liga
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André Rocha

A derrota para o Coritiba no Couto Pereira foi mais uma típica do Flamengo no Brasileiro 2017: domina a posse de bola (65%), finaliza mais que o adversário – 11 a 5, 4 a 1 no alvo – mas não consegue traduzir em gols o controle do jogo.

As críticas sobre jogadores e o treinador Reinaldo Rueda giram em torno do comodismo, de aceitar a derrota com um discurso conformado, de uma apatia que se mistura à indiferença. Protestos com alguma razão, mas os problemas vão um pouco além disso.

O fato é que o time não dá liga. Ou seja, as características dos jogadores não combinam entre si, por mais que Zé Ricardo e depois Rueda tentassem e ainda tentem um encaixe.

É um efeito dominó. Everton Ribeiro foi contratado para ser o ponta articulador. O meia que sai do lado do campo para se movimentar às costas do volante, criar superioridade no meio e criar as jogadas. Mas para isso o ideal é que, como Ricardo Goulart fazia no Cruzeiro bicampeão brasileiro com o próprio Everton, o meia central no 4-2-3-1 que não se alterou com a mudança no comando técnico se aproxime mais do centroavante e se comporte como uma espécie de segundo atacante.

Diego Ribas não faz isso. Por costume, recua para ajudar na armação ou procura os lados do campo. Quando pisa na área sempre é mais útil, mas prefere voltar à intermediária. Pior: prende demais a bola, dá sempre um ou dois toques a mais e quase sempre atrasa a transição ofensiva. Tenta compensar com vontade, liderança positiva e qualidade nas cobranças de faltas e escanteios, mas coletivamente o saldo quase sempre é negativo.

Para aproveitar o espaço que o camisa sete deixa à direita, um lateral de velocidade daria uma opção interessante para buscar a linha de fundo. Não é Pará. Seria Rodinei, mas este tem sérios problemas de leitura de jogo e, principalmente, no posicionamento defensivo.

Porque os zagueiros, embora experientes e de bom nível técnico, são lentos. Para evitar os muitos gols sofridos nas costas da última linha no final do trabalho de Zé Ricardo, Rueda prefere os laterais com um posicionamento mais conservador.

Também para encaixar Cuéllar no meio-campo, à frente da retaguarda. Mas o colombiano, embora tenha bom passe, não é o organizador que o setor precisa nesta ideia de ser protagonista, jogar no campo adversário e controlar as partidas com posse de bola. Nem ele, nem Willian Arão, que eventualmente até acerta alguns passes em profundidade, mas tem como principal virtude a infiltração. O camisa cinco, porém, é um atleta que nitidamente se permite afetar pelas instabilidades do time e sente as cobranças. Sem contar a dispersão no trabalho defensivo.

Por isso Márcio Araújo acaba jogando mais do que deveria. Com Zé Ricardo e agora ganhando chances com Rueda em algumas partidas. No Couto Pereira, o gol de Cléber logo aos sete minutos fez com que a presença do volante se tornasse ainda mais desnecessária por sua nulidade na construção das jogadas. Só deixou o campo aos 13 minutos da segunda etapa. Joga porque defende melhor que Arão e protege a zaga sem velocidade. Romulo não justificou a contratação e o jovem Ronaldo, sem oportunidades, foi ganhar rodagem no Atlético-GO.

Na frente, outro problema: Guerrero não é o típico centroavante, que fica na área e finaliza com bom aproveitamento. O peruano sempre foi muito mais de circular e trabalhar coletivamente. No Fla se destaca pelo trabalho de pivô, por conta de todos os problemas do meio-campo na criação. Recua, faz a parede e procura os ponteiros. Muitas vezes não dá tempo de chegar na área. E dificilmente recebe a bola com chance clara de concluir com liberdade porque as jogadas não fluem, há poucas infiltrações em diagonal.

Porque os ponteiros não têm essa característica. Nem Berrío, agora lesionado, nem Everton. O ponta pela esquerda até vem aparecendo na área e já fez dez gols na temporada. Mas poderia ter feito bem mais se nas muitas vezes em que Guerrero recuou ele penetrasse no espaço certo. Não tem o hábito.

Assim como Filipe Vizeu, o substituto de Guerrero, parece não ter aprendido nas divisões de base a fazer a proteção da bola para a aproximação dos companheiros. Nem fazer a leitura do espaço que precisa atacar para chegar em melhores condições para finalizar. Não é o centroavante para a proposta rubro-negra. Por isso a improvisação de Lucas Paquetá, que não é exatamente um goleador e, apesar da luta, desperdiça oportunidades cristalinas como a que o goleiro Wilson salvou no primeiro tempo em Curitiba.

O encaixe mais promissor foi quando Rueda utilizou Orlando Berrío pela direita com Pará e Everton Ribeiro à esquerda. Se Trauco e Renê também não são laterais rápidos na chegada ao fundo, ao menos a movimentação do meia abria espaços para o deslocamento de Guerrero, que prefere buscar aquele setor e não faz o mesmo movimento à direita. Mas o colombiano teve grave lesão e só volta em 2018 e o peruano está suspenso por doping e também só deve retornar no ano que vem.

Todo esse cenário desfavorável, sem que os treinadores encontrem soluções, é que parece ser o responsável por esse desânimo que se vê em campo. Os jogadores percebem que não combinam entre si e se acomodam. Começa a se espalhar a ideia de “fazer o seu e, se não dá certo, a culpa não é sua”. A desclassificação na fase de grupos na Libertadores foi um golpe na confiança que vinha em alta com a boa campanha no Brasileiro do ano passado e o título estadual.

As críticas e protestos de torcida e parte da mídia, porém, são justas porque nos clássicos cariocas, por conta de uma mentalidade provinciana que impera no clube há algum tempo, aparece a indignação com a derrota. Algo fundamental quando as coisas não vão bem. Um nível mais alto de concentração, fibra e entrega para compensar os problemas. Em jogos “comuns”, ainda mais numa competição por pontos corridos e que nunca foi tratada como prioridade ao longo da temporada, volta a apatia.

Quem deve ser responsabilizado? Todos no clube, mas principalmente a direção. Por erros de planejamento, como ter apenas Alex Muralha e Thiago como goleiros em boa parte da temporada, escolha que acabou prejudicando demais o time na final da Copa do Brasil. Diego Alves chegou tarde.

Também por não perceber as necessidades reais da equipe e contratar Berrío, sendo que o pedido de Zé Ricardo tinha sido um ponteiro driblador e com bom poder de finalização para deixar o ataque menos “arame liso” – cerca, mas não fura – em jogos grandes ou confrontos mais parelhos.  Vinícius Júnior pode até vir a ser este atacante rápido, criativo e com boa finalização, mas é injusto cobrar de um menino de 17 anos, já negociado com o Real Madrid, que seja o pilar ofensivo de um time grande recheado de jogadores experientes e rodados.

O ambiente acaba se tornando um tanto permissivo e morno. Uma falsa sensação de estabilidade, sem grandes cobranças. Talvez por não ter entregado o seu melhor, a direção não se sinta confortável para exigir. Mesmo com salários em dia e melhor estrutura no CT. Vez ou outra ecoa uma voz dissonante, como Juan ou Everton Ribeiro, que na saída de campo no Couto Pereira reclamou que “todo jogo é assim”.

Rueda tem perfil mais administrador, não de ruptura, criativo, ousado para encontrar saídas. A impressão é de que vai tentar o título da Sul-Americana, mas já pensa em reestruturar o elenco para 2018 dentro do que pensa sobre futebol. A dúvida é se será suficiente. Nas coletivas diz não conseguir encontrar explicações para o mau momento. Será que enxerga?

Por tudo isso o Flamengo vive essa lenta agonia em 2017. Ainda com chances de conseguir pelo Brasileiro a vaga nas fases preliminares na Libertadores – insatisfatório diante de tanto investimento. Vivo na semifinal do torneio continental contra o Junior Barranquilla.

Mas que não desperta confiança. Porque os jogadores não combinam e parecem cansados fisicamente e sem força mental para buscar algo que não veio durante toda a temporada. Restam a frustração e a revolta da maior torcida do país. Um desperdício.

(Estatísticas: Footstats)


O campeão carioca deu as caras no Fla-Flu da Sul-Americana
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André Rocha

Não foi só apenas a coincidência da repetição do placar da primeira final do Carioca, também com gol de Everton. O Flamengo da partida de ida das quartas-de-final da Sul-Americana lembrou o campeão estadual.

E neste bolo é possível incluir também a semifinal contra o Botafogo na Copa do Brasil. Diante dos rivais locais em disputas de mata-mata o time rubro-negro apresenta a fibra e a concentração que faltaram em tantos outros momentos da temporada. A rivalidade mais uma vez é o que move o Fla, seja com Zé Ricardo ou Reinaldo Rueda.

Concentração defensiva com duas linhas de quatro compactas para conter o volume ofensivo tricolor e organização para atacar. Desta vez com a criatividade de Everton Ribeiro, que percebeu a infiltração de Willian Arão e serviu com precisão em tempo e espaço. Finalização do camisa cinco e, no rebote de Diego Cavalieri, o gol de Everton.

Construção da vitória no primeiro tempo de controle e eficiência, mesmo com a saída de Rever, lesionado, para a entrada de Rhodolfo. Seis finalizações, duas no alvo. O Fluminense terminou com 52% de posse, cinco conclusões, mas apenas uma na direção da meta de Diego Alves, com Henrique Dourado batendo cruzado. Foram 13 desarmes corretos rubro-negros contra oito do rival.

Reação do time de Abel no segundo tempo, com bola na trave de Marcos Júnior, grande defesa de Diego Alves em chute de Gustavo Scarpa e pressão depois das entradas de Wendell e Wellington Silva nas vagas de Orejuela e Marcos Júnior. 13 finalizações e 57% de posse. Mas encontrou um Fla atento, encerrando a partida com 24 desarmes corretos. Podia ter ampliado em cabeçada de Juan. Entrega de Diego, Everton Ribeiro, sacrifício de Lucas Paquetá, novamente o substituto de Paolo Guerrero. Mudança de espírito.

Vantagem mínima, porém considerável. Valeu na primeira decisão estadual para confirmar na volta – triunfo por 2 a 1. O Flu está vivo, mas a má notícia é que não terá pela frente o Flamengo apático e disperso de boa parte da temporada. Nos clássicos fica claro que o time é outro.  O campeão carioca que deu as caras na Sul-Americana.

(Estatísticas: Footstats)