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Grêmio restabelece a verdade do campeonato. Hoje é mais time que o Flamengo
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André Rocha

O Grêmio vive um dilema na temporada. A alma de “copero y peleador” tende a privilegiar Libertadores e Copa do Brasil, mas o desempenho no Brasileiro mostra que é possível fazer ótima campanha e ainda buscar o título.

A derrota para o líder Corinthians em casa na décima rodada abalou a convicção e veio o revés em São Paulo, com os reservas, para o Palmeiras. Na sequência, a atuação espetacular do goleiro Douglas do Avaí que combinada com dois contragolpes dos visitantes impôs mais um jogo em sua arena sem pontuar.

Ainda assim, parecia claro que em meio às tantas oscilações dos candidatos a “anti-Corinthians” o time de Renato Portaluppi ainda era o mais qualificado. Provou isso na Arena da Ilha do Governador.

Sofrendo, sim. Porque enquanto teve um mínimo de organização o Flamengo pressionou, rondou a área. Terminou com 56% de posse e finalizou 21 vezes, nove no alvo. Ainda a bomba de Everton no travessão. Mas sem a chance cristalina. Também pela falta de Guerrero, mais como o pivô que dá sequência aos ataques do que propriamente como finalizador. Leandro Damião novamente decepcionou entrando de início.

O Grêmio cometeu 19 faltas contra onze da equipe mandante. Finalizou apenas quatro vezes, três no alvo. Teve no goleiro Léo, substituto de Marcelo Grohe, um dos destaques na disputa.

Mas não o maior. Porque Luan fez a diferença no gol único da partida. Quinto dele no campeonato. Ganhou dos volantes Márcio Araújo e Cuéllar, “tabelou” com Trauco e bateu fraco, no canto do jovem goleiro Thiago que não defendeu. O camisa sete desequilibrou, mesmo perdendo chance cristalina de matar o jogo na segunda etapa.

Contragolpe iniciado por um erro grosseiro de Diego, que cumpriu sua pior atuação com a camisa do Flamengo. Além da falta dos passes criativos que este blog tanto cobra do meia, também falhou em lances bobos, simples. Atrapalhou ainda mais com a vontade de ajudar e moral que tem no elenco. Continuou sendo o responsável pelas bolas paradas e não foi substituído.

Erro de Zé Ricardo, que repetiu as “soluções” de Cuca no dérbi paulista de ontem. Empilhou atacantes e esvaziou o meio-campo com as entradas de Filipe Vizeu, Mancuello e do estreante Geuvânio nas vagas de Cuéllar, Márcio Araújo e Trauco. Levantou 23 bolas na área na segunda etapa, 35 no total. De novo os cruzamentos quando não há espaços. Faltam ideias, fica tudo entregue às individualidades.

Desorganização controlada pelo time gaúcho. Renato, que usou essa prática costumeira no futebol brasileiro contra o Corinthians, desta vez reoxigenou o meio-campo com Jailson no lugar do extenuado Arthur e depois trocou Barrios por Everton para acelerar os contragolpes. Nem foi preciso.

Porque o Flamengo, assim como o Palmeiras, tem poder de investimento, mas o dinheiro não garante boas escolhas dentro de campo. Cai da vice-liderança porque não consegue dar o salto de desempenho. Sobrecarregado na criação, Everton Ribeiro desta vez não rendeu. Também errou muito no time que pecou coletivamente por falhas individuais.

O Grêmio restabelece a verdade do Brasileiro. Ainda que mais à frente priorize outras competições e perca a segunda colocação. Hoje é mais time que o Flamengo e só fica abaixo do líder absoluto.

(Estatísticas: Footstats)


Everton Ribeiro, a diferença no típico clássico da cultura do mal jogar
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André Rocha

O clássico em São Januário já seria naturalmente prejudicado pelos problemas das equipes antes e durante o jogo. Flamengo perdeu Rever pouco antes da partida por um problema gástrico, depois Rhodolfo lesionado. Entrou Léo Duarte, jovem que ganhou poucas oportunidades e entrou numa gelada. Não complicou e também saiu por contusão após levar entrada de Luis Fabiano na disputa que terminou no gol de Yago Pikachu bem anulado.

O time rubro-negro terminou a partida com Romulo improvisado e Rafael Vaz na zaga. Zé Ricardo também perdeu Guerrero, que deu lugar a Leandro Damião.

Milton Mendes ficou sem Douglas, seu melhor meio-campista, suspenso. Depois o substituto Bruno Paulista, também lesionado e substituído por Andrey. Desde o início, o time da casa apostou em um jogo físico, com marcação pressionada e parando com faltas seguidas. O Flamengo não conseguia sair pela já conhecida falta de criatividade da equipe. Apelou 13 vezes para o cruzamento.

O resultado foi um primeiro tempo sofrível. Os visitantes com 57% de posse, mas apenas três finalizações. A única no alvo em 45 minutos de Paolo Guerrero que, mesmo sem o zagueiro Rodrigo a pertubá-lo, novamente não foi feliz no clássico. O Vasco cometeu 14 faltas, dez a mais que o rival. Acertou oito desarmes contra seis.

Para quem pensa que clássico não é jogo para a prática de bom futebol e sim de rivalidade à flor da pele deve ter sido agradável. Na prática foi de sangrar as retinas.

Melhorou na segunda etapa graças à postura mais ofensiva do Fla, que tinha o jogador desequilibrante: Everton Ribeiro. Meia que partia da direita para articular as jogadas e encontrou espaços às costas dos volantes reservas do adversário. Primeiro deixou Diego na cara do gol e o meia finalizou pessimamente.

No minutos seguinte acertou linda jogada pela direita e, como um ponteiro, centrou com o pé “ruim, o direito, na cabeça de Everton. Gol único de uma partida que voltou a cair o nível pela pressão vascaína sem qualidade e organização e o time rubro-negro preocupado em proteger a zaga fragilizada.

Apareceu então o segundo melhor homem em campo: o contestado Márcio Araújo, preciso nas coberturas, antecipações e desarmes. Fundamental para impedir a chance cristalina do Vasco, que finalizou nove vezes, mas apenas uma na direção da meta que Thiago evitou com bela defesa.

No total, 34 faltas. 21 do Vasco e 13 do Fla. No apito final, a revolta dos torcedores vascaínos com atos de violência que devem resultar numa punição ao clube com perda de mandos de campo. Mais uma cena comum num Rio de Janeiro falido em todos os sentidos.

O esporte novamente ficou em segundo plano. Na visão comum por aqui de que o clássico tem que ser mais brigado que jogado. Mais sentido que pensado. Mais truculento que disputado. Típico da cultura do mal jogar.

Não deixa de ser um paradoxo que Everton Ribeiro, o jogador mais cerebral em campo, tenha sido a diferença. Às vezes a qualidade prevalece.

(Estatísticas: Footstats)


A falácia de que Diego é o meia criativo do Flamengo
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André Rocha

Diego Ribas chegou ao Flamengo em julho do ano passado. Recebido com festa no aeroporto, alcançou rapidamente a condição de ídolo com gol na estreia contra o Grêmio, mais cinco bolas nas redes adversárias, três passes para gols e participação importante na campanha que levou o time ao terceiro lugar, disputando o topo da tabela em bola parte do Brasileiro.

Com a camisa dez na Libertadores, foi fundamental nas duas vitórias em casa, contra San Lorenzo e Atlético-PR, e fez muita falta no fatídico jogo da eliminação no Nuevo Gasometro. Quando se lesionou era considerado o melhor jogador do torneio continental. No seu retorno de lesão, continua contribuindo com liderança positiva e técnica nas conclusões e nas bolas paradas em uma equipe que peca pela pouca contundência.

Desde que surgiu no Santos, Diego é um meia habilidoso e bom finalizador. Já foi criativo também, mas agora dentro de um cenário de jogo mais intenso, com pressão constante sobre quem tem a bola, linhas compactas e marcação por zona na maior parte do tempo, vem enfrentando problemas.

Porque tem o hábito de dominar, girar, dar mais um toque e só depois tomar a decisão do que fazer com a bola. Normalmente gasta segundos preciosos para a fluência do jogo. Por isso perdeu espaço na Europa e acabou retornando. Mas mesmo por aqui, com a evolução tática gradual, especialmente no trabalho sem a bola, ele sofre na construção de jogadas.

Compensa com experiência, muita preparação física e mental, entrega absoluta e inteligência para procurar os flancos e fugir do bloqueio mais forte. Ainda assim, são raros os passes de primeira. Mais ainda as bolas que os portugueses costumam chamar de “passes de morte”. Ou seja, aqueles que furam as linhas de marcação e encontram os companheiros nas melhores condições para finalizar.

Como Scarpa achou Wendel no gol que abriu o placar do Fla-Flu e na enfiada para Richarlison infiltrar e sofrer pênalti de Juan nos 2 a 2 no Maracanã. Diego foi às redes em um gol de “abafa”, com Everton impedido na origem do lance. Nos acréscimos, Trauco empatou em chute forte que contou com uma irregularidade no gramado para sair do alcance do goleiro Julio César.

Dentro das propostas de jogo, o Fluminense foi superior. Porque joga mais fácil e o Fla faz muita força para atacar. Normalmente a bola gira, roda de um lado para o outro até encontrar espaço num flanco para fazer o cruzamento. Um estilo monocórdico.

As tabelas e infiltrações que marcaram a equipe rubro-negra comandada por Zé Ricardo nos seus melhores momentos desapareceram com a queda de produção do meio-campista que tem o passe mais vertical: Willian Arão. Confirmado pelo próprio treinador. Tite convoca Diego para a seleção, porém admite que ele tem características diferentes das de Lucas Lima, seu concorrente, agora junto com Rodriguinho, por uma vaga no meio-campo.

O Santos empatou sem gols com a Ponte Preta no Pacaembu no sábado. Mas criou oportunidades mais cristalinas que o Flamengo na vitória sobre o mesmo adversário na estreia da Arena da Ilha no meio da semana. Porque Lucas Lima acertou passes verticais que Bruno Henrique, Kayke e Copete não aproveitaram. Já o Fla viveu de bolas alçadas e marcou seus gols em cruzamentos de Diego e Vinicius Júnior para Rever e Leandro Damião.

É pouco. O repertório empobreceu. Por isso a busca desde o ano passado de um meia que parta da ponta e auxilie na articulação. Alan Patrick e Mancuello não funcionaram, o clube trouxe Conca, uma incógnita no aspecto físico, e agora espera ter encontrado a solução em Everton Ribeiro. Este, sim, um meia da linhagem de Jadson, Scarpa, Lucas Lima. Do toque surpreendente.

É inegável o valor de Diego, que deve seguir no time que pena tanto para fazer gols. Mas parte da responsabilidade do Fla só ficar atrás do Atlético-MG como o time que mais cruza na competição – média de quase 28 por partida, cinco de Diego – é de seu meia mais valioso. Mesmo com a atenuante do período de inatividade e estar disputando apenas a sua quarta partida desde o início após o seu retorno, e reconhecendo que ele fica sobrecarregado pela indigência de ideias de seus companheiros no setor.

A questão central é que o problema não é recente. Como Diego consegue ser decisivo de outras formas acaba passando despercebido e alimenta a falácia de que é um meia criativo. Mas Zé Ricardo espera o melhor condicionamento de Conca e a estreia de Everton Ribeiro para tornar o Flamengo menos previsível e mais eficiente no restante da temporada.

(Estatísticas: Footstats)

 


Everton Ribeiro é o ponta articulador que o Flamengo procurava
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André Rocha

Foto: Divulgação Flamengo

“Pensando até no time em que atua nos Emirados Árabes (Al Ahli), ele pode atuar nas três posições atrás do centroavante num 4-2-3-1. Ou mesmo num 4-1-4-1, até porque ele foi lateral quando surgiu na base do Corinthians”.

Palavras do treinador Zé Ricardo em entrevista a este blog quando perguntado sobre Everton Ribeiro. O questionamento não foi gratuito. O interesse do Flamengo já era público e havia a informação da negociação bem encaminhada por conta da então iminente venda de Vinícius Júnior para o Real Madrid. Ele só não veio antes porque não havia os recursos para gerar a proposta que convenceu os árabes – seis milhões de euros, cerca de 22 milhões de reais.

Anúncio oficial realizado, apresentação marcada para esta terça-feira, a questão agora é como encaixá-lo na equipe rubro-negra. Everton chega para preencher uma lacuna dentro da proposta de jogo de Zé Ricardo: o ponta articulador, ou o meia que joga aberto e parte do flanco para ajudar na armação das jogadas e criar superioridade numérica no meio-campo, circulando às costas dos volantes adversários.

Zé Ricardo tentou Alan Patrick, depois Mancuello. Sem sucesso, por isso a insistência com os pontas velocistas. Com a vinda de Conca, planejava um teste na função com Diego. Ambos já atuaram como meias pelos lados em outros clubes – o argentino no Fluminense em 2014 e o brasileiro no mesmo ano com Simeone pelo Atlético de Madri. Mas seria uma experiência com jogadores que nunca passaram uma temporada inteira desempenhando a função.

Everton Ribeiro foi o melhor jogador das edições 2013 e 2014 da Série A do Brasileiro pelo Cruzeiro atuando pela direita. Uma jogada forte do time mineiro era o movimento do meia para dentro, abrindo o corredor para a passagem em velocidade do jovem lateral Mayke. No Flamengo é possível até imaginar, por características, Rodinei fazendo essa combinação melhor que Pará, por ser mais rápido.

Everton Ribeiro em ação no Cruzeiro bicampeão brasileiro 2013/2014: meia aberto pela direita, cortando para dentro com o pé canhoto e abrindo o corredor para a passagem do jovem e rápido lateral Mayke (flagrante Sportv)

O mais provável é Everton formar o trio de meias atrás de Guerrero com Diego centralizado e o garoto Vinicius Júnior pela esquerda. A jóia das divisões de base vem mostrando maturidade, desenvoltura e ganhando minutos. Mesmo tão jovem, é disparado no elenco o mais próximo do ponteiro desejado: driblador e que busca a diagonal para finalizar.

A tendência é virar titular em breve, até pela exigência do Real Madrid de vê-lo em campo para chegar pronto na Espanha no ano que vem ou em 2019. A menos que Geuvânio seja mesmo contratado e se firme entre os titulares de imediato. Uma hipótese, por enquanto.

Everton Ribeiro deve atuar aberto pela direita num 4-2-3-1, usando seu pé canhoto para articular as jogadas com Diego e alimentar Guerrero. Do lado oposto, Vinicius Júnior seria o ponteiro das infiltrações em diagonal (Tactical Pad).

Mas Zé Ricardo, como ele mesmo afirmou, também pode encaixar Conca neste trio de meias, ainda que perca uma opção de velocidade, ou até mesmo em uma proposta ousada, mantendo Vinicius Júnior ou outro ponteiro e atuando num 4-1-4-1.

Improvável, até pela explicação do treinador quando já vislumbrava a equipe com Conca e Diego: um volante ficaria mais fixo na proteção da retaguarda e o outro sairia para um trabalho com o lateral pelo flanco, compensando a menor contribuição defensiva do meia criativo. Com apenas um volante poderia expor demais a última linha de defesa. Talvez uma alternativa para algumas partidas, dependendo da necessidade. Tudo vai depender da forma física dos atletas.

Um ofensivo 4-1-4-1 com Everton, Diego, Conca e Vinicius atrás de Guerrero. Uma alternativa para alguns jogos, por necessidade (Tactical Pad).

Eis o paradoxo que vive o comandante rubro-negro: a cobrança por resultados imediatos e a esperança do melhor cenário um pouco mais à frente: os três meias criativos em forma e a revelação do clube mais pronta para brilhar.

O Flamengo tem seis pontos na Série A, na segunda página da tabela, a quatro pontos dos líderes Chapecoense e Corinthians. Encara duas partidas fora de casa contra adversários próximos da zona de rebaixamento: Sport e Avaí. Há a chance de se recuperar na tabela com, no mínimo, quatro pontos. Mas duas derrotas podem desencadear uma crise que prejudicaria muito a sequência do trabalho.

Para complicar, junho é o mês das rodadas a cada três dias. Menos tempo para treinamentos e a necessidade de ajustar o time nas partidas de um campeonato mais que equilibrado. Um desafio, sem dúvida.

A boa notícia para Zé Ricardo é que ganha a peça que tanto queria. No setor ofensivo, ele nunca teve tanto talento à disposição.


Zé Ricardo, exclusivo: “Meta no Brasileiro é tornar Flamengo mais criativo”
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André Rocha

De campeão da Copa São Paulo a técnico interino, de efetivado à vaga direta na Libertadores pelo Brasileiro que não vinha desde o título em 2009. Agora campeão carioca. Com o empate sem gols contra o Atlético-GO pela Copa do Brasil utilizando um time repleto de reservas, são 65 partidas. 37 vitórias, 17 empates e 11 derrotas. 65% de aproveitamento.

Mais que números, Zé Ricardo entrega desempenho de um Flamengo difícil de ser batido. Organizado e concentrado. Que levanta taça mesmo sem Diego, a principal estrela. Não se acomoda e, mirando o Campeonato Brasileiro que começa no fim de semana,  já pensa mais à frente, quando Conca estiver pronto. “Nosso primeiro pensamento é tornar o time mais criativo”.

Confira a entrevista exclusiva com o treinador, que fala também de Márcio Araújo como exemplo de força mental, aproveitamento da base, cabeça fervilhando de ideias e o que vê de bom no futebol pelo mundo. Inclusive confessando sua torcida na final da Liga dos Campeões entre Real Madrid e Juventus.

 

BLOG – Zé, é absurdo afirmar que a marca da trajetória do Flamengo sob seu comando, culminando com o título carioca, é a força mental – do técnico novato para lidar com pressão, do Marcio Araújo suportando as críticas, de todos para compensar a ausência do Diego, etc.?

ZÉ RICARDO – A concentração é nosso mantra. Eu nem preciso lembrar muito, os próprios atletas se cobram, porque todos se precisam. O jogador precisa saber o que fazer em qualquer circunstância, inclusive a mais inesperada.

Sobre o Márcio Araújo, sem dúvida é um exemplo para todos nós. A personalidade dele é impressionante! Não liga para críticas e elogios e faz isso sem esforço. É totalmente focado no campo. Quando o Rômulo chegou, eu disse ao Márcio que não era para barrá-lo. Com o Diego sendo convocado, eu imaginava trabalhar com os dois, mais o Willian Arão. Era uma possibilidade e aconteceu.

BLOG – E a utilização dos laterais Rodinei e Trauco em funções diferentes, também gerou pressão por usar quatro jogadores da mesma posição?

ZÉ RICARDO – O importante é ter convicção. Pelas características, eles se encaixam bem nessas funções e abrem espaço, por exemplo, para o Renê ganhar seqüência na lateral. Como o Marcelo Cirino estava para sair para o Internacional, e depois acabou saindo, trabalhei com o Rodinei como externo pela direita já no primeiro jogo oficial, contra o Boavista.

Mas tem que acreditar muito nos atletas, confiar. Porque é difícil passar pelas cobranças de quem não compreende a diferença entre posição e função. E eu sei que se não tivesse conseguido os resultados talvez eu não estivesse aqui hoje como técnico do Flamengo. Mas, assim como o Márcio, eu procuro agir com convicção para ter a consciência tranquila.

BLOG – O Márcio Araújo tem se arriscado mais à frente, fazendo inversões de jogo com passes longos. Isto é mais confiança ou treinamento?

ZÉ RICARDO – É trabalho. Um complemento desde a pré-temporada para a saída de bola não ser sempre curta. Também queria um passe mais profundo de trás para acionar a velocidade do Berrío, fazer o colombiano acelerar. Ele trabalhou e ganhou confiança. Antes era o passe de segurança, até para se preservar. Hoje ele já se projeta à frente dos outros dois meio-campistas. Como diz o Bielsa, com treinamento e confiança, dá para fazer tudo em termos táticos e estratégicos.

BLOG – Dá para encaixar o Diego na volta dele num 4-1-4-1, sem retornar ao 4-2-3-1?

ZÉ RICARDO – Perfeitamente. A opção de colocar Diego mais avançado foi para aproveitar todo seu potencial mais próximo do Guerrero. Conversei com ele para entrar na área, fazer gols. Mas é uma questão de conscientizar na fase sem posse de bola, no trabalho defensivo, e isso ele faz muito bem. Também pode ajudar na saída de bola, atuando mais recuado, na mesma linha do Arão.

BLOG – No início da temporada, você encaixou Mancuello como um meia atuando pela ponta visando preparar a equipe para receber Conca. Com a lesão de Diego, você voltou aos ponteiros velocistas. Qual o plano para quando tiver todos disponíveis? Ainda há o propósito de escalar Diego e Conca juntos?

ZÉ RICARDO – É o nosso primeiro e principal pensamento. A meta no Brasileiro é tornar o time mais criativo no último terço, quebrar as linhas de marcação. Coloquei, sim, o Mancuello pensando no Conca, também porque a concorrência no meio-campo era bem dura para ele. Foi até bem pelo lado. Depois foi para o meio, agora está machucado.

Com Diego e Conca disponíveis, eu tenho diversas possibilidades, a cabeça até fervilha (risos). Se o Conca jogar pelo lado direito, eu posso compor com Pará e Arão fechando em um trabalho mais forte de cobertura. Mas também posso abrir o Diego pela esquerda, com Berrío à direita e Conca centralizado, mais solto. Aí o Márcio junto com o Trauco fechariam mais o setor. O Diego já atuou assim, inclusive no Atlético de Madri, com o Simeone. São ideias, os treinamentos e jogos é que vão mostrar a melhor forma de aproveitar todo esse potencial.

Uma das possibilidades na cabeça de Zé Ricardo: Diego aberto pela esquerda, Conca mais livre no centro e Márcio Araújo dando suporte defensivo ao meia que mudaria de função para o encaixe do argentino vindo de longa inatividade. Tudo para dar mais criatividade ao setor ofensivo (Tactical Pad).

BLOG – Sei que você não fala em jogadores que não fazem parte do elenco que comanda, então farei uma pergunta genérica: quando você pensa em Everton Ribeiro num time qualquer, o visualiza na mesma função executada no Cruzeiro – ponta articulador pela direita jogando com pé invertido, o canhoto?

ZÉ RICARDO – Pensando até no time em que atua nos Emirados Árabes (Al Ahli), ele pode atuar nas três posições atrás do centroavante num 4-2-3-1. Ou mesmo num 4-1-4-1, até porque ele foi lateral quando surgiu na base do Corinthians.

BLOG – Se você tiver três meias de qualidade técnica, em plena forma, pode até abrir mão dos ponteiros?

ZÉ RICARDO – Como disse, tudo depende dos treinamentos, dos jogos, até das características dos adversários. Na base eu trabalhei com Cafu, Matheus Sávio e Paquetá atrás do Vizeu. Nenhum velocista típico. Você pode perder de um lado, mas ganhar de outro.

BLOG – Você reconhece que se tivesse Conca desde o início da temporada para testar durante o Carioca seria mais fácil do que tentar encaixá-lo agora, com Brasileiro e jogos decisivos em Libertadores e Copa do Brasil, caso o time se classifique?

ZÉ RICARDO – É óbvio. Mas foi uma oportunidade de mercado, contar com um jogador que dispensa maiores explicações sobre seu potencial técnico. Eu sei que haverá pressão. Eu vi pessoas exigindo a escalação do Ederson assim que o Diego se lesionou. Coloquei contra o Atlético-GO e todo mundo viu a dificuldade, natural pela falta de ritmo de jogo.

O Conca vai passar pelo mesmo, é quase um ano sem jogar. Felizmente a conquista do Carioca tira um pouco do peso das cobranças e há mais tranqüilidade e confiança para trabalhar e fazer testes, mesmo em meio a jogos tão duros. Mas isto acontece em toda temporada. O Brasileiro nem começou e tivemos cinco partidas decisivas em 15 dias!

BLOG – Eu tenho a impressão de que você, por conviver com todas essas pressões tendo subido há pouco das divisões de base como treinador, tem uma cautela até excessiva com os jovens que comandou, com temor que se queimem por conta de uma atuação ruim. Estou errado?

ZÉ RICARDO – Não. Eu reconheço o cuidado, que às vezes passa até do ponto. Me preocupo com a pressão. Porque há torcedores e jornalistas que têm uma paciência maior com quem vem da base. Mas também existem outros que acham que o garoto tem que dar resposta imediata e não é assim que funciona. Não dá para lançar todos ao mesmo tempo.

BLOG – Para finalizar, o que tem chamado sua atenção no futebol mundial?

ZÉ RICARDO – Ah, a Juventus! Como bom italiano (risos). Sem dúvida terá minha torcida na final da Liga dos Campeões. Nos meus estudos e observações noto que cada vez mais os times têm duas formas de controlar o jogo: pela posse ou pelo espaço. Contra o Barcelona no Camp Nou, eles negaram o meio para o adversário trabalhar, fecharam até com seis na última linha e não deram brecha. Mas também sabem ficar com a bola, se necessário. Aliás, esta é a maior mudança do futebol atual, porque culturalmente o italiano prioriza muito a defesa.

Me chama atenção também a intensidade do futebol alemão, a posse dos espanhóis, que admiro muito, e o 5-4-1 mais “duro” do Chelsea, que se sustenta muito na frente com o Diego Costa, que retém bem a bola e é ótimo finalizador.

 


A “função Jadson” pode estar de volta ao futebol brasileiro
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André Rocha

Everton Ribeiro foi o melhor jogador dos Brasileiros de 2013 e 2014 como o meia canhoto jogando aberto pela direita no Cruzeiro bicampeão. Partia da ponta para articular no centro, circulando às costas do volante e sendo um homem a mais no meio-campo para desarticular a marcação adversária.

Jadson dividiu com Renato Augusto os elogios e os prêmios de destaque da principal competição nacional em 2015 executando praticamente a mesma função do cruzeirense. Mas com um adicional tático imposto por Tite: as transições mais longas.

Basicamente, jogar de uma linha de fundo à outra. Mas sem a corrida desenfreada dos pontas que voltam com os laterais adversários marcando individualmente. Na marcação por zona do Corinthians campeão, o ponta recompõe posicionado, fecha espaços e só volta até a linha de fundo quando está bem perto dela, com o lateral (Fagner) mais centralizado, próximo aos zagueiros.

A transição defensiva mais longa de Jadson, fechando o corredor direito para o lateral Fagner ficar mais próximo do zagueiro guardando o setor (reprodução TV Globo).

A transição defensiva mais longa de Jadson, fechando o corredor direito para o lateral Fagner ficar mais próximo do zagueiro guardando o setor (reprodução TV Band).

Com a bola, mobilidade para circular, criando superioridade numérica e aparecendo na área para finalizar. Ainda abre o corredor para o lateral passar e buscar o fundo. Sem contar a eficiência nas bolas paradas, em cobranças diretas ou servindo os companheiros. Dentro de um 4-1-4-1 rígido, a “função Jadson” era a peça solta para surpreender o oponente. Líder de assistências no Brasileiro com 12. Na temporada 2015 foram 22, mais 16 gols.

Flagrante do Corinthians no ataque em 2015 com Jadson saindo da ponta e abrindo o corredor para a descida de Fagner e servindo Elias em profundidade atacando a brecha deixada no flanco (reprodução TV Globo).

Flagrante do Corinthians no ataque em 2015 com Jadson saindo da ponta e abrindo o corredor para a descida de Fagner e servindo Elias em profundidade atacando a brecha deixada no flanco (reprodução TV Globo).

O jogador de 33 anos volta de sua aventura milionária na China e planeja o retorno ao Brasil. Estuda proposta oficial do Corinthians, o Atlético-MG também está de olho. Para quem tem mais de 30, qualquer ano a mais influi no condicionamento físico. Mas com experiência e domínio da função, o desempenho pode ser semelhante para equilibrar a própria equipe e desestabilizar o outro lado.

Para executar a “função Jadson” ninguém melhor que o próprio meia.


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