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Corinthians, hepta de 1990 a 2017. Um título a cada quatro anos não é acaso
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André Rocha

Heptacampeão brasileiro. Maior vencedor de 1971 para cá. Ou desde 1990, na conquista do time de Nelsinho Baptista e Neto. Passando pelo bi de 1998/1999 com a equipe de Vanderlei Luxemburgo herdada por Oswaldo de Oliveira. O tetra com Tevez, Mascherano, Nilmar, Roger e Antonio Lopes recebendo o time de Marcio Bittencourt em 2005. Depois a “Era Tite”, começando em 2011 mais pragmático, quatro anos depois com criatividade e um futebol mais envolvente.

A conquista do time de Fabio Carille pode ser incluída neste período, já que o ex-auxiliar seguiu princípios de jogo e de gestão de elenco do atual treinador da seleção brasileira. Mais ou menos como Oswaldo de Oliveira e Luxemburgo há 19 anos.

A primeira vez que a CBF foi buscar no clube o melhor treinador do país. Depois de Luxa, Parreira em 2003 pela relação sempre próxima do campeão mundial de 1994 com a entidade, mas também pela temporada vencedora no ano anterior – campeão do Rio-São Paulo, Copa do Brasil e vice brasileiro. Mano Menezes em 2010 pelas conquistas de Paulista e Copa do Brasil. Por último, Adenor Leonardo Bacchi. Com dois anos de atraso, perdidos com Dunga.

Não é por acaso. Se fora de campo a gestão nunca foi exemplar, mesmo com sonhos realizados como o CT Joaquim Grava e o estádio próprio em Itaquera, dentro de campo o Corinthians teve excelência. Em técnica e tática.

Desde 2008, com Mano a partir do inferno na Série B, construiu uma identidade. Coisa rara no país. Baseada em organização defensiva, intensidade, concentração e mentalidade vencedora. O ápice em 2012 com Tite e o sonhado título da Libertadores e o último Mundial Interclubes conquistado por um sul-americano. Os dois comandantes se revezaram até Tite deixar o clube para investir no sonho de dirigir a seleção.

Um hiato com Cristóvão Borges e Oswaldo de Oliveira, retomada da linha de trabalho e de conduta com Carille. Do turno invicto e quase perfeito com 82% de aproveitamento, a queda brusca a partir da vigésima rodada e a confirmação da conquista na reta final. Com três rodadas de antecedência, desde a quinta no topo da tabela. Líder por 30 rodadas, ilustrando a superioridade durante todo o campeonato. Se os concorrentes priorizaram outras competições, que aplaudam o vencedor.

Nos últimos quatro triunfos para o título, a vantagem mínima em três partidas para agradar o “maloqueiro sofredor”. Sem brilho, mas com fibra. E a confiança de quem venceu tanto recentemente e confia em sua ideia de jogo. Mesmo recheada com muito pragmatismo na reta final.

Contra o Fluminense, a primeira virada, a mais importante. Em casa, para celebrar com sua gente.

Susto com Henrique abrindo o placar no primeiro ataque tricolor, gols de Jô para consagrar o artilheiro do campeonato com 18 gols e o grande protagonista na campanha inteira. Sustentando o ataque e o time quando a defesa vacilou, Rodriguinho oscilou, Romero cansou, Jadson e Maycon despencaram em desempenho e perderam espaços para Clayson e Camacho. Mas o camisa dez ressurgiu para marcar o gol dos 3 a 1.

Apesar da campanha de extremos, foi o melhor pelos gramados do país na principal competição nacional. Mais uma vez. Com uma maneira de jogar e levar a taça para casa. O sétimo título em 28 edições, um a cada quatro anos. Que sirva de exemplo para os demais. Até porque se continuarem dormindo, o domínio vira dinastia.

 

 


O “jogo para ganhar” do Corinthians. Falta pouco para o grito de alívio
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André Rocha

De novo o Corinthians sofreu com a posse de bola, que rondou quase sempre os 60%, e a responsabilidade de criar espaços jogando como favorito. Depois de duas vitórias sendo atacado, sem obrigação de protagonismo.

Terminou com 33 cruzamentos, 25 no primeiro tempo. Só não chegou aos 50 porque o de Guilherme Arana aos cinco minutos da segunda etapa encontrou as redes de Douglas depois de esbarrar no peito de Kazim. Substituto de Jô, suspenso pelo STJD. Na meta, o terceiro goleiro Caíque para suprir a ausência do titular Cássio, na seleção, e do lesionado Walter, heroi na Arena da Baixada contra o Atlético Paranaense.

Pelo contexto e por conta do cenário desconfortável é aceitável que o time de Fabio Carille assuma o pragmatismo e a praga do “jogo para ganhar”. Ou seja, o foco no resultado maior que no desempenho. Porque depois de um turno de sonho e um returno pífio com duas vitórias redentoras o foco precisa ser a confirmação do título.

Mesmo que a equipe com Romero e Clayson nas pontas não consiga ser criativa e precise de um Jadson vindo do banco e em má fase para acrescentar uma chama criativa no lugar de Camacho. Embora nem tenha tido tempo de acrescentar algo até o gol salvador.

Com o terceiro goleiro, ao menos a concentração defensiva, especialmente dos homens da última linha, foi alta e a equipe sofreu poucos sustos de um Avaí vivendo de contragolpes esporádicos e tentando algo na bola parada do veterano Marquinhos.

No final, os gritos de “É campeão!” para o hepta que se aproxima e nada parece ser capaz de detê-lo. Mesmo com o anticlímax de atuações fracas na reta final. Porque pela vantagem construída e o misto de desinteresse e incompetência dos concorrentes o título virou obrigação.

Agora é contagem regressiva para a matemática concretizar o que parecia tão certo há tempos, despertou dúvidas e na base do futebol de resultados se aproxima. Não precisava ser assim, mas dá para entender.

Falta pouco para o grito de alegria. Ou de alívio.

(Estatísticas: Footstats)


Corinthians encaminha título com primeiro tempo de decisão, não G-4
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André Rocha

Concentração, eletricidade, sintonia com a massa no estádio lotado e precisão. O primeiro tempo do Corinthians em Itaquera foi de um time que tinha noção de que decidia sua vida no Brasileiro. Uma vitória para abrir oito pontos sobre o maior rival ou a derrota que manteria a equipe na liderança, mas desabaria emocionalmente e seria praticamente impossível manter os dois pontos de vantagem em seis partidas.

O resgate do desempenho do primeiro turno passa pelos méritos do time de Fabio Carille. Especialmente a movimentação de Rodriguinho às costas de Bruno Henrique e Tche Tche, o trabalho de pivô de Jô ganhando quase todas no alto de Mina e Edu Dracena e atenção absoluta sem a bola, com duas linhas de quatro bem próximas e muita dedicação de Romero e Clayson sem a bola.

Mas as falhas do Palmeiras também não podem ser descartadas nesta equação. Baixa intensidade e pouca pressão sem a bola, brechas entre os setores, Dudu abandonando Egídio contra Fágner e Romero e, principalmente, a última linha de defesa muito adiantada, com Mayke, Egídio e Edu Dracena como elos fracos. O jogo ficou à feição do Corinthians.

Rodriguinho recebeu livre e serviu Romero, impedido por centímetros, para abrir o placar. Depois o contragolpe em que o meia serviu Jô com lindo passe que gerou o escanteio do gol de Balbuena. Quando o Palmeiras buscava uma reação após o gol de Mina em falha de Rodriguinho no bloqueio e mérito do zagueiro colombiano na jogada aérea, novo contragolpe e pênalti de Dracena em Jô, que cobrou tirando do alcance de Fernando Prass.

Foram 12 desarmes certos corintianos contra sete. Oito faltas cometidas contra apenas duas. Mostras da diferença na fibra, na entrega. Talvez os jogadores alviverdes tenham acreditado no discurso de buscar apenas o G-4 e não deram ao dérbi o peso real. Tiveram 55% de posse, mas apenas seis finalizações. Uma no alvo. O Corinthians foi muito mais efetivo: oito conclusões, seis delas na direção da meta de Prass. Metade nas redes.

Segunda etapa de Roger Guedes e Guerra nas vagas de Keno e Bruno Henrique, Palmeiras no campo do rival, que controlava os espaços com cuidado, mas perdeu vigor e rapidez nos contragolpes.

Em novo escanteio, golaço de Moisés numa virada espetacular. Carille evitou a expulsão de Gabriel, com amarelo e visado pela polêmica de supostamente ter voltado a campo sem autorização, com a entrada de Maycon. Depois trocou Camacho por Fellipe Bastos e Jadson na vaga de Clayson.

Valentim trocou Tche Tche por Deyverson para buscar um abafa final, mas sem a chance cristalina. Subiu a posse para 57%, mas apenas seis finalizações, uma a mais o Corinthians. Para complicar, Deyverson foi expulso no minuto final por cotovelada em Bastos. No lance derradeiro, Cássio garantiu interceptando um cruzamento.

Para confirmar os três pontos mais importantes do campeonato, que encaminham o hepta pela vantagem e por resgatar a confiança perdida. A diferença no jogaço foi a postura de final do Corinthians no primeiro tempo. Deve valer taça no final.

(Estatísticas: Footstats)

 


Corinthians veloz pelas pontas, Palmeiras com a bola. A prévia do dérbi
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André Rocha

Fabio Carille deve promover três mudanças para o dérbi na Arena em Itaquera. Duas por opção e uma forçada. Camacho entra na vaga do dispersivo Maycon no meio e Clayson na ponta esquerda no lugar de Jadson, com Romero trocando de lado na execução do 4-2-3-1 habitual. Fagner, lesionado, deve dar lugar a Léo Príncipe na lateral direita.

A troca do camisa dez, ponta articulador, por um jogador de velocidade sinaliza qual será a postura do líder do Brasileiro no clássico diante do maior rival: duas linhas de quatro bem compactas, com os ponteiros jogando de uma linha de fundo à outra. Rodriguinho e Jô para reter a bola na frente e muita velocidade pelos flancos. O lado não atacado terá o ponta mais adiantado como a válvula de escape para o passe longo. A referência para receber em profundidade.

O Corinthians não deve se preocupar com a posse de bola. Vai jogar em transição. Até porque o Palmeiras comandado por Alberto Valentim prioriza a troca de passes no campo de ataque.

Com elenco completo, a tendência é que o treinador interino mantenha a formação do empate contra o Cruzeiro, mas com o retorno de Bruno Henrique, que cumpriu suspensão – sai Jean. O volante, ex-Corinthians, deve alternar na proteção e no apoio com Tche Tche. Moisés fica mais adiantado na linha de meias do 4-2-3-1 alviverde.

No ataque, movimentação dos pontas Keno e Dudu para criar espaços. Buscando as infiltrações em diagonal, trocando de lado e se juntando a Borja na área adversária para finalizar quando a jogada é criada no lado oposto.  Keno deve auxiliar mais na recomposição que Dudu, bloqueando o apoio de Guilherme Arana. Com a bola, volume de jogo e linhas adiantadas para manter o adversário no próprio campo.

Eis o perigo. Valentim precisa acertar a coordenação dos movimentos. Pressão no oponente com a bola para dificultar o passe, já que laterais e zagueiros estão avançados e expostos para levar nas costas. Sejam abertas, como a que Diogo Barbosa recebeu atrás de Mayke para cruzar e sair o gol contra de Juninho; seja em diagonal, parecida com a que Robinho recebeu para ganhar na velocidade de Dracena e encobrir Fernando Prass diante do Cruzeiro.

É a chance corintiana, especialmente de Clayson. Por isso Carille deve escalá-lo de início, mesmo sem uma reposição com as mesmas características. Um risco caso o Corinthians precise de contragolpes no segundo tempo para sair do sufoco. A saída é recorrer à habilidade de Pedrinho, mesmo sem ser tão incisivo e vertical.

Na bola parada, atenção absoluta. Especialmente do Corinthians que vem sofrendo com as jogadas aéreas – 12 dos 21 gols sofridos no péssimo returno de 33% de aproveitamento. Um ponto forte palmeirense desde os tempos de Cuca que Valentim mantém, inclusive com arremessos laterais diretamente na área adversária. Na falta de espaços e capacidade criativa, pode decidir a partida.

Obviamente, um gol no início do Palmeiras pode mudar toda a configuração e o rival seja obrigado a sair e se expor. Mas o clássico que pode reduzir a vantagem do líder em relação ao segundo colocado para dois pontos tem tudo para ser tenso, sem espaços, com equipes 100% concentradas, especialmente no trabalho defensivo. Esperando o erro do outro lado. Uma tônica no Brasileiro 2017.

Um palpite? Sem subir no muro, mas o cheiro de empate é forte. Ninguém correndo riscos para tentar definir o título nas seis rodadas restantes. O Corinthians apostando em sua vantagem para administrar até o fim, o Palmeiras na evolução nítida com Valentim e na queda de desempenho do rival, que não teria a moral de uma vitória num clássico para recuperar confiança.

Não devemos ter um jogaço em Itaquera. Mas a disputa em tática e estratégia pode ser bem interessante.

A prévia do dérbi: equipes no 4-2-3-1, mas com propostas diferentes: Corinthians compacto no próprio campo, fechando os lados com os ponteiros, mas saindo em velocidade para surpreender as linhas adiantadas do Palmeiras, que deve ficar com a bola, trabalhar no campo de ataque para criar espaços, especialmente com a movimentação dos ponteiros Keno e Dudu (Tactical Pad).

 


Em 1982, Vasco mudou meio time para ser campeão. Por que não o Corinthians?
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André Rocha

A derrota do Corinthians para a Ponte Preta foi daquelas de jogar a toalha. Time completo, semana para treinamentos buscando ajustes, adversário acessível…Pior que a derrota foi notar que não houve evolução. Técnica, tática ou anímica. Mesmo com o abafa no final que transformou o goleiro Aranha no herói da Ponte. O líder estacionou no desempenho e os resultados são apenas consequência. Ridículos 33% de aproveitamento no returno.

Como bem disse o nosso Júlio Gomes em seu blog aqui no UOL, O treinador Fabio Carille precisa de uma revolução. Mudar o desenho tático ou simplesmente trocar peças, ainda que o elenco não seja tão robusto e homogêneo. Incomodar o outrora titular absoluto, motivar o então reserva. Sair da pasmaceira e da maneira de jogar que os adversários aprenderam a mapear e anular.

Loucura? Pode ser. Arriscar um desastre logo em casa diante do Palmeiras, maior rival e grande candidato a tomar a liderança, mesmo com cinco pontos atrás? Talvez. Mas o momento sugere que não agir parece a pior escolha.

Se buscar na história do futebol brasileiro, o Corinthians vai encontrar um exemplo bem sucedido dessa transformação repentina e radical: o Vasco campeão carioca em 1982.

Foto: Arquivo O Globo

Antes que digam que não dá para comparar campeonato brasileiro com estadual vale a contextualização. Não era um carioca qualquer. Primeiro pelo valor que ele tinha naquela época para os clubes, com enorme rivalidade que fazia olhar até com certo desdém para competições nacionais e internacionais. Um tanto provinciano, mas os próprios personagens da época admitem esta visão.

Depois porque o Vasco sofria com cinco anos sem conquistas, acumulando vice-campeonatos para Fluminense e, principalmente, para o Flamengo em sua “Era de Ouro”. Para piorar, frustrações também no Brasileiro, com eliminação para o Guarani na semifinal de 1978 e derrota na decisão do ano seguinte para o Internacional.

Na própria edição de 1982 não houve comemoração de conquista de um turno. A Taça Guanabara ficou com o Flamengo e a Taça Rio com o América. O Vasco chegou ao triangular final pela melhor campanha geral.

No último jogo do returno, a inspiração para a mudança geral do treinador Antonio Lopes, hoje diretor de futebol do Botafogo. Vitória por 3 a 1 sobre o Flamengo com a equipe considerada reserva. Em campo, o goleiro Acácio no lugar de Mazaropi, Galvão na vaga de Rosemiro, Ivan substituindo Nei, Ernani no lugar de Geovani e Jerson na ponta-esquerda, só não substituindo Marquinho porque este atuou no meio-campo.

Lopes gostou do que viu e surpreendeu mantendo os cinco como titulares para a etapa decisiva. Meio time! A imprensa na época tratou o treinador como louco, com críticas pesadas e até piadas. Mazaropi e Rosemiro tinham história no clube e Geovani, 18 anos, era tratado como uma joia – seria craque e artilheiro do Mundial Sub-20 no ano seguinte com a seleção brasileira.

Com muita fibra e liderado por Roberto Dinamite, venceu o América por 1 a 0, gol de Ivan, um dos que se transformaram em titulares. Com grande atuação do goleiro Acácio, o mesmo que fechou a meta do Serrano dois anos antes na lendária vitória sobre o Flamengo por 1 a 0, gol do atacante Anapolina, que tirou a chance do rubro-negro de conquistar o inédito tetracampeonato da Era Maracanã.

Na decisão, time mantido. Contra o Flamengo de Zico. Com dez dos onze titulares que venceram o Liverpool no ano anterior por 3 a 0 e entraram para a história. Apenas Figueiredo na zaga no lugar de Mozer. Mas vivendo uma ressaca não só pelo revés de Leandro, Júnior e Zico na Copa do Mundo de 1982, mas principalmente pela eliminação recente na Libertadores para o Peñarol.

Na superação e na fibra, o Vasco cumpriu a melhor atuação no campeonato e venceu por 1 a 0. Curiosamente, o gol do título foi marcado por um dos titulares que foram parar no banco de reservas: Marquinho, pequenino que subiu entre Leandro, Figueiredo e Marinho, bem mais altos, para completar cobrança de escanteio de Pedrinho Gaúcho pela esquerda para explodir a massa vascaína no Maracanã com 113 mil pagantes.

O fim da sequência de insucessos. Acabou decretando também o fim do ciclo daquela formação do Flamengo que, remodelado e com Carlos Alberto Torres no lugar de Paulo César Carpegiani, conquistaria o Brasileiro de 1983. Graças às defesas de Acácio, à liderança de Dinamite, à entrega absoluta de Galvão, Ivan, Ernani e Jerson, que agarraram a oportunidade e deixaram tudo em campo. Acima de tudo, à coragem de Antonio Lopes para mudar tanto a base titular numa reta final de campeonato.

Por que não o Corinthians, 35 anos depois? Por que não pensar, por exemplo, em Leo Príncipe na vaga de Fagner que vai ladeira abaixo, perdendo até a vaga que parecia certa na seleção brasileira por conta da confiança de Tite? Ou Clayson e Pedrinho nas pontas, Camacho ou Fellipe Bastos na vaga do disperso Maycon. Vale testar com a certeza de que algo precisa ser feito. E rápido.

O Vasco de 1982 é um exemplo. Outro cenário, outra competição. Mas a mesma necessidade de se reinventar. Agora para voltar a vencer e não protagonizar um dos maiores vexames de sua história.


O Brasileiro da “favoritofobia”. Será o Palmeiras a próxima vítima?
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André Rocha

O Brasileirão começou em maio com favoritismo do campeão Palmeiras, com a volta de Cuca, mais Flamengo e Atlético Mineiro correndo por fora. Times dos elencos milionários, camisas pesadas…e muita responsabilidade.

No campeonato do futebol reativo e dos problemas para criar espaços e jogadas, essa condição sempre foi desconfortável. Inclusive para o Corinthians do turno quase perfeito. Considerado “azarão”, mesmo com o título paulista.

Na virada para o returno, com tempo para treinar por conta do adiamento do jogo contra a Chapecoense, o time de Fabio Carille, enfim, ganhava a condição de favorito absoluto ao título, o sétimo da história do clube. No entanto, além da desmobilização já tratada neste blog (leia AQUI), a obrigação de atacar também minou gradativamente as forças do líder.

Queda consolidada na derrota para a Ponte Preta em Campinas por 1 a 0, com a “lei do ex” vigorando no gol de Lucca. Ainda no topo da tabela, com seis pontos de vantagem. Mas uma vitória do Palmeiras de Alberto Valentim contra o Cruzeiro será suficiente para transferir o bastão, ou devolvê-lo a quem parecia o maior candidato lá na primeira rodada.

Eis o perigo. Amanhã todos os olhos estarão voltados para o Allianz Parque e o time alviverde enfrentará um cenário complexo: obrigação de vencer como favorito e enfrentando um adversário forte, franco-atirador pelo título da Copa do Brasil e com o treinador Mano Menezes pronto para estacionar um ônibus na frente da própria área.

Nos triunfos contra Atlético-GO e Ponte Preta era o time em crise, depois da demissão de Cuca. Diante dos reservas do Grêmio em Porto Alegre, o favoritismo era relativo pelo mando de campo e a responsabilidade não era tão grande. Amanhã a conversa é outra. Se vencer fica a três pontos do maior rival e, tanto na bola jogada quanto no aspecto anímico, passa a ser o grande favorito ao bicampeonato.

A história da competição mostra que a missão não é tão fácil. Como será o amanhã? Responda quem puder.

Por isso o time mais consistente do Brasileiro é o Botafogo. Exatamente porque é reconhecido por sua solidez e competitividade, mas nunca favorito. Até porque na maior parte do campeonato dividiu atenções com Copa do Brasil e Libertadores. Sempre correndo por fora, com elenco no limite e orçamento limitado. Sempre concentrado, mas quase nunca tenso.

Porque o Brasileiro 2017 é o da “favoritofobia”. Quem será a próxima vítima?


Queda do Corinthians tem um “pecado original”: a desmobilização
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André Rocha

Foto: Nelson Almeida (AFP/Getty Images)

Em entrevista ao programa “Esporte Espetacular” na TV Globo, Cicinho, ex-lateral do São Paulo e da seleção brasileira, ao abordar a depressão que o levou ao alcoolismo, disse que tudo começou quando chegou ao Real Madrid e se viu sem metas na carreira e na vida. “E agora, o que faço?”

Ou seja, tudo começou com a desmobilização, que é diferente de relaxamento ou indolência, preguiça…É se perceber com o objetivo alcançado e perder o foco, permitir que aquela energia concentrada em busca de uma meta se dissipe. Exatamente por se sentir sem ter pelo que lutar.

O Corinthians se considerou campeão brasileiro antes da hora. Não é uma crítica oportunista, porque este que escreve também pensou o mesmo. Afinal, a vantagem era confortável e, principalmente, os concorrentes pareciam mais concentrados nos torneios mata-mata – Libertadores, Copa do Brasil e Sul-Americana. E cada vez que um era eliminado vinha a ressaca e a perda de pontos.

Depois de um turno perfeito, o sonho era ser campeão invicto. Vieram as derrotas, mas nunca uma ameaça real. Renato Gaúcho disse que o líder despencaria, mas o próprio Grêmio, antes o candidato mais sério a disputar o topo da tabela, deixou pontos pelo caminho utilizando reservas.

A consequência natural pôde ser percebida em declarações e entrevistas: Fabio Carille apresentando o ex-treinador René Simões como uma espécie de “guru”, jogadores com discurso nas entrelinhas como se o título já estivesse garantido. Diretoria já falando em 2018, sobre possíveis reforços. O contexto favorecia, com as rodadas passando e a distância na tabela praticamente intacta.

Tudo isso se refletiu no campo com uma equipe burocrática, engessada. Lenta. Não na velocidade dos jogadores em si, mas no jogo. As triangulações e deslocamentos perderam fluência e sincronia. Muito pela queda técnica e física de quem fazia a bola girar: Jadson, Maycon e Rodriguinho. O time hoje depende fundamentalmente de bolas esticadas para Jô. Também porque Romero nitidamente sentiu o desgaste de meia temporada jogando sempre e de uma linha de fundo à outra.

A compactação não é mais a mesma e a última linha de defesa passou a ficar mais exposta, fazendo Cássio trabalhar. Pior: passou a sofrer com as jogadas aéreas, com bola parada ou rolando. Onze dos 20 gols sofridos no segundo turno. Inclusive os dois  na derrota por 2 a 1 para o Botafogo no Estádio Nilton Santos. Exatamente a maior, ou única, virtude ofensiva da maioria das equipes.

A equipe que tinha a concentração como seu grande pilar perdeu força mental. Afinal, bastava apenas administrar a vantagem e confirmar o título. Não havia mais o rótulo de “quarta força” para lutar contra. Só restava um favoritismo imenso. Uma certeza.

Mas o futebol é dinâmico. Com cinco derrotas em 11 partidas no returno e um pífio aproveitamento de 36%, em contraste com os 82% das primeiras 19 rodadas, a vantagem cai para seis pontos. Ainda considerável, mas o problema é a tendência de queda.

Depois da ressaca das eliminações, Palmeiras e Santos passaram a priorizar o Brasileiro. Cuca saiu e, com Alberto Valentim, o alviverde emendou três vitórias. O Santos oscilou mais e, ainda assim, também recuperou terreno. Mas quem parece se apresentar como grande ameaça é justo o maior rival, que ainda tem um confronto direto em Itaquera.

Por isso o cenário torna-se menos confortável, ainda que não dramático. Porque a confiança está abalada e a pressão fica maior para que não deixe o título escapar e o Palmeiras faturar o bi, o que seria o maior “flop” da história do Brasileiro em pontos corridos. Pelo contexto, maior até que o do próprio rival em 2009, quando desabou da liderança para uma quinta colocação que tirou até a vaga na Libertadores. Agora a disputa do torneio continental no ano que vem está garantida, mas perder o hepta será um vexame sem precedentes.

A solução? Primeiro, a calma. Afinal, ainda há duas rodadas de vantagem sobre os rivais. O duelo com o Palmeiras é em sua arena. Nada está perdido, contanto que o desempenho seja retomado, ainda que não em 100%. Não pode é apelar para os chavões “futebol de resultados”, “jogar por uma bola”, “vencer jogando feio”. Até porque o Corinthians do returno não é nada bonito.

É preciso retomar as triangulações, voltar à “cartilha” de Tite. Talvez retornar ao 4-1-4-1 do início da temporada recuando Rodriguinho, plantando Gabriel entre as linhas de quatro e voltar a unir três jogadores pelos flancos para tocar mais curto. E rápido. Errar menos passes por jogar mais agrupado. Proteger a retaguarda, mas sem abdicar do ataque. Mexer na formação se Carille achar que deve. Por que o talentoso e promissor Pedrinho vem sendo descartado? Difícil entender.

Acima de qualquer outra questão, é urgente resgatar a mobilização. O foco no título. Deixar isto se esvanecer foi o “pecado original” do Corinthians no Brasileiro 2017.


Corinthians perde solidez e depende de Cássio, que pode repetir Cavalieri
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André Rocha

A derrota por 2 a 0 para o redivivo Bahia de Paulo Cesar Carpegiani em Salvador foi construída objetivamente com uma falha de Fagner aproveitada por Vinicius e um contragolpe de fim de jogo finalizado por Régis com o goleiro na área para tentar o empate.

Mas o Corinthians novamente não jogou bem e foi dominado por um oponente em franca evolução. Revés fora de casa que até pode ser tratado como normal dentro do equilíbrio natural do Brasileiro.

O grande fator complicador é que o desempenho começou a cair na fase ofensiva pela dificuldade de criar espaços nas defesas adversárias quando ganhou status de favorito com o turno quase perfeito e passou a ser mais estudado. Também porque despencou o nível do trio Jadson-Rodriguinho-Romero que acabou isolando Jõ e tornando a equipe mais dependente de seu centroavante e nos últimos três jogos de Clayson, autor de quatro gols.

O sistema defensivo, porém, também teve queda nítida de desempenho. Tanto individual quanto coletivo. Antes as alterações na última linha e a ausência de Gabriel ou Maycon na proteção da retaguarda eram menos sentidas. Agora há impacto. Porque perdeu intensidade e concentração. Até de Guilherme Arana e Balbuena, antes os grandes destaques.

Por isso Cássio vem trabalhando tanto. Segundo o Footstats é o goleiro com mais defesa na Série A, empatado com Jean, do Bahia. Média de 2,4 defesas por jogo. Fica atrás na média só de Douglas Friedrich (Avaí) e de Fernando Miguel (Vitória) entre os que mais atuaram.

A questão é que geralmente, e a lógica sugere, o líder não faz seu arqueiro trabalhar tanto. É mais seguro, consistente e protege melhor sua meta. Tanto que entre os cinco primeiros só Cássio não está lutando para fugir do Z-4 ou, no mínimo, ocupando a segunda página da tabela – além dos três já citados está Aranha, da Ponte Preta. O sexto é Vanderlei, do Santos vice-líder, mas que atua no estilo “bate-volta” e sofre muitos ataques.

Se Cássio mantiver essa média e o Corinthians confirmar o título, será o segundo caso na história do Brasileiro por pontos corridos com 20 clubes. O primeiro foi Diego Cavalieri em 2012. Campeão com o Fluminense da defesa menos vazada junto com o Grêmio. Muito graças ao seu goleiro, que vivia fase esplendorosa e salvava um sistema não tão coeso assim. Também “mascarava” os números.

O líder não tem a melhor defesa nem na frieza da matemática. Pelo menos até o Santos enfrentar o Vitória na segunda-feira. Agora tem 17 sofridos em 28 partidas, um a mais que o segundo colocado. A recuperação no campeonato, a partir do duelo contra o Grêmio em Itaquera na quarta, passa pela volta da coordenação e da segurança que marcaram o time de Fabio Carille em seus melhores momentos na temporada.

Algo se perdeu e é melhor resgatar enquanto a vantagem no topo da tabela permite.


São Paulo 1×1 Corinthians – Empate que mistura frustração e preocupação
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André Rocha

A formação ofensiva do São Paulo no Morumbi encontrou sustentação no primeiro tempo pela lentidão do Corinthians nas transições ofensivas e se impôs pela movimentação do trio Lucas Fernandes-Cueva-Marcos Guilherme atrás de Pratto, mais as descidas dos meio-campistas Petros e Hernanes além do apoio de Junior Tavares que obrigava Romero, deslocado pela direita, a retornar muito para fechar o setor.

O líder do Brasileiro, com a escalação titular completa, mantinha a boa estrutura defensiva, mas sofria com os seguidos ataques de quem pressionava e recuperava a bola assim que a perdia. Já o tricolor paulista não tinha o mesmo problema. Chama a atenção a queda no desempenho corintiano. Perdeu intensidade, mobilidade e, consequentemente, confiança.

Primeira etapa de 55% de posse são-paulina, mas com média acima de 60% até os 27 minutos, quando Petros se apresentou para apoiar o quarteto ofensivo, recebeu pela direita e aparentemente tentou cruzar. O efeito na bola surpreendeu Cássio. A única finalização no alvo num universo de seis conclusões do time da casa e apenas duas dos visitantes.

São Paulo se impôs no primeiro tempo com mobilidade do quarteto ofensivo e o apoio de Hernanes e Petros, autor do gol tricolor. Corinthians sofrendo com a lentidão na saída para os contragolpes pela preocupação de Romero com as descidas de Junior Tavares (Tactical Pad).

Equilibrou um pouco com a entrada de Marquinhos Gabriel logo na volta do intervalo, substituindo um Jadson que perdeu sua maior virtude: a mobilidade para circular às costas dos volantes adversários e criar superioridade numérica no meio. Sem o camisa dez, Rodriguinho assumiu em definitivo a articulação das jogadas se apresentando mais como opção para os companheiros.

As substituições de Dorival Júnior não foram das mais felizes. Jucilei no lugar de Cueva e Denilson na vaga de Lucas Fernandes, lesionado, tiraram dinâmica ofensiva, intensidade na pressão no campo de ataque e o Corinthians ganhou espaço para atacar. Por isso a troca mais ousada de Carille: Clayson no lugar de Gabriel.

Vieram então as duas primeiras finalizações no alvo depois de 168 minutos – 90 no empate sem gols contra o Racing que custou a eliminação na Copa Sul-Americana. Primeiro Romero e depois Clayson, no rebote vencendo Sidão. Jogada de Rodriguinho pela direita aproveitando vacilo de Junior Tavares.

Corinthians ocupou o campo de ataque com Marquinhos Gabriel e Clayson nas vagas de Jadson e Gabriel, aproveitando espaços cedidos pelo rival que perdeu dinâmica com Jucilei e Denilson substituindo Cueva e Lucas Fernandes (Tactical Pad).

Com o empate, a inversão da confiança, não aproveitada por Carille, que tirou Romero e colocou Camacho para recompor o meio. Perdeu agressividade.

A senha para uma pressão final de quem mais precisava. E Jucilei, que fez o São Paulo perder força no meio, quase virou o heroi e fez valer a “lei do ex” em bela cabeçada para defesa espetacular de Cássio. Ao total, foram 12 finalizações do tricolor, uma a mais que o rival – seis a três no alvo.

O time da casa no clássico para mais de 60 mil presentes terminou com 52% de posse. Equilíbrio nos números, mas a frustração do São Paulo é maior pelo desempenho nos 90 minutos e porque os três pontos, dentro do contexto da fuga do rebaixamento, eram essenciais. Na matemática e no ânimo. De novo falhou.

O Corinthians sai no lucro, mas precisa aproveitar o tempo livre para recuperação e treinos visando resgatar o trabalho coletivo dos melhores momentos na temporada através do desempenho das individualidades. No “Majestoso” houve tempo e espaço para a reação. Mas quem ostenta a liderança absoluta do Brasileiro não pode produzir tão pouco. Preocupante.

(Estatísticas: Footstats)

 

 


Gol de braço só diminui saldo negativo da arbitragem com o Corinthians
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André Rocha

Imagem: Reprodução TV Globo

O esporte preferido do brasileiro, em geral, não é o futebol, mas desmerecer as conquistas alheias, em todas as áreas. Sempre há um porém, um asterisco, uma crítica depreciativa. No esporte bretão, quando a conquista é do maior rival, então, vem invariavelmente com um selo de “roubado”. E quanto maior a torcida, mais ódio desperta nas demais.

Mesmo para o torcedor, que não tem nenhum compromisso com a verdade na conversa de boteco, qualquer tentativa de colocar uma mancha na liderança do Corinthians até aqui no Brasileiro só por causa do gol irregular de Jô na vitória sobre o Vasco em Itaquera soa absurda.

A campanha espetacular e invicta no primeiro turno poderia ter ganhado mais dois pontos não fosse o impedimento inexistente de Jô anotado pela arbitragem no empate sem gols fora de casa contra o Coritiba.

No 1 a 1 com o Flamengo, o impedimento de Jô, que estava por três metros em condição legal e colocou nas redes até pode ser relativizado em termos de resultado porque o próprio atacante em seguida faria o gol e não há como garantir que o time marcaria os dois, até pelo recuo excessivo e a pressão do time carioca na segunda etapa. Mas não deixou de ser um equívoco grave.

Graças à competência do time de Fabio Carille outros erros grosseiros não custaram pontos, como o gol de Luis Fabiano a favor do próprio Vasco visivelmente utilizando o braço na vitória corintiana por 5 a 2 em São Januário.

Falhas inquestionáveis dos apitadores e suas equipes, sem margem para interpretação. Não contando lances discutíveis, como o pênalti sobre Jô no primeiro tempo do triunfo sobre os cruzmaltinos em São Paulo. Outros também que poderiam ter sido marcados contra o líder absoluto do Brasileiro.

Ainda assim, se a partida tivesse terminado empatada em 0 a 0, o Corinthians seguiria no topo da tabela e aumentaria sua vantagem para oito pontos.

O que se questiona disso tudo é como a arbitragem, cada vez com mais auxiliares no campo para minimizar os erros, é capaz de vacilar num lance que nem precisa de replay para ser constatado. E a polêmica só cresceu porque o envolveu Jô, que discursou em favor do fair play de Rodrigo Caio e não foi coerente na atitude quando teve a chance.

Fora isso, o saldo da arbitragem com o Corinthians nesta edição do Brasileiro segue negativo. Se o “mimimi” de favorecimento ao líder não costuma fazer sentido, desta vez soa como puro choro de perdedor.