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Só os 100% garantem a paz de Roger Machado no Palmeiras?
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André Rocha

O Palmeiras precisou de oito minutos de pressão e alta intensidade no Allianz Parque para marcar os gols de Antônio Carlos, aos três do primeiro tempo, e Borja aos cinco do segundo, que garantiram a vitória por 2 a 1 sobre o Santos no primeiro clássico do time em 2018. Aos sete da primeira etapa ainda carimbou a trave de Vanderlei na cobrança de falta de Lucas Lima em sua primeira partida contra o ex-clube.

Mas depois o time de Roger Machado abdicou um pouco do seu jogo, permitindo que o Santos tivesse a bola – terminou com 52% de posse, segundo o Footstats –  e ocupasse o campo de ataque. Mesmo finalizando dez vezes contra sete do rival, a postura cautelosa parece muito focada no resultado, que tinha sua importância, mas neste início de temporada não deve ser tratado como prioridade.

Mais valia seguir exercitando a saída de bola com Felipe Melo, o grande destaque individual neste início de trabalho, se juntando aos zagueiros Antônio Carlos e Thiago Martins e liberando os laterais Marcos Rocha e Victor Luís. Ou a troca de Lucas Lima e Tche Tche, com o meia recuando para qualificar o passe e o volante se aproximando do trio de ataque para acelerar as ações no último terço do campo.

Só que Roger sabe que precisa dos resultados para ganhar confiança. O time necessita, mas ele principalmente. “Se as coisas não acontecerem serei cobrado”, disse na coletiva depois do jogo. Escaldado pelo que aconteceu com Eduardo Baptista, ainda que agora não tenha uma sombra do tamanho da de Cuca, que esmagou seu sucessor/antecessor em 2017.

Precisa ser assim sempre? Por mais que time grande, ainda mais com tamanho investimento, viva de vitórias, será que é tão fundamental assim jogar por resultado na quinta partida do ano? Só os 100% garantem a paz do treinador para trabalhar?

Em março de 2015, o Santos venceu o Palmeiras pelos mesmos 2 a 1. Quem lembra deste primeiro clássico, ou mesmo da conquista do Paulista pelo alvinegro praiano nos pênaltis se na final mais importante, a da Copa do Brasil, o alviverde foi o campeão superando o rival? O mesmo vale para a semifinal do estadual em 2016. O Santos levou, mas o palmeirense não vai tratar como um fracasso no ano em que voltou a ser campeão brasileiro depois de 22 anos.

Será que vale dar ouvidos à histeria imediatista de torcedor e parte da imprensa sacrificando a oportunidade de exercitar o modelo de jogo que busca o protagonismo durante os noventa minutos e fazer experiências no estadual em nome dos três pontos que nem eram tão fundamentais assim, já que mesmo com derrota o time seguiria líder do Grupo C?

Impossível não lembrar de Dunga em sua segunda passagem pela CBF em 2014 como treinador. Vitórias em amistosos tratados como verdadeiras finais para “resgatar a imagem do futebol brasileiro” depois dos 7 a 1. De que valeu se no início da disputa das eliminatórias e nas edições da Copa América sua equipe fracassou em desempenho e resultados, fazendo a seleção brasileira perder dois anos de trabalho que podem custar caro a Tite na Rússia?

O próprio Roger teve experiência amarga no Atlético Mineiro. Campeão mineiro, melhor time da primeira fase da Libertadores. O treinador falou em “respaldo para trabalhar”. Mas bastou um começo hesitante no Brasileiro emendado com o vacilo contra o Jorge Wilstermann nas oitavas da Libertadores para vir a demissão. De que serviu o bom primeiro semestre se no dia 20 de julho estava desempregado?

O Palmeiras não precisa estar pronto agora. Pode dar mais minutos para Willian, Borja e Dudu afinarem a sintonia, com o camisa sete agora mais articulador acionando os dois companheiros finalizadores. E quando os ponteiros buscam a diagonal, Tche Tche aparece no espaço para buscar o fundo do campo, alternando com os laterais. Movimentos que precisam ganhar naturalidade até a estreia na Libertadores.

Sem essa urgência insana por vitórias. Quem vai lembrar no final do ano que o time era o único 100% da Série A nos cinco primeiros jogos da temporada se a equipe não for bem nas competições mais importantes?

Não é querer ser “parnasiano”, “romântico” ou “moderninho” por “desprezar” o resultado. Muito menos desrespeitar a história de um dos clássicos mais tradicionais do nosso futebol. Só uma questão de lógica. Estadual é sequência de pré-temporada. A evolução pensando no futuro vale mais que os pontos ganhos hoje. Ou deveria valer.

 


Gustavo Scarpa é a peça que faltava ao quarteto ofensivo do Palmeiras
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André Rocha

Gustavo Scarpa é do Palmeiras por cinco anos. Se o imbróglio com o Fluminense podia ter sido conduzido de uma forma mais transparente, cobrando seus direitos mas dando uma satisfação ao clube que o projetou, a escolha do destino não podia ter sido melhor.

O meia é a peça que faltava ao 4-2-3-1 que Roger Machado vai ensaiando na curta pré-temporada. Vai formar o quarteto ofensivo com Lucas Lima, Dudu e Borja. Partindo da direita para ajudar na articulação e abrindo o corredor para o apoio de Marcos Rocha. Do lado oposto, Dudu será o ponta mais agudo, chamando lançamentos para os contragolpes e buscando as infiltrações em diagonal para se juntar ao centroavante, que terá três ótimos passadores a servi-lo.

No último Brasileiro, segundo o site Whoscored.com, o trio ficou entre os seis jogadores que mais criaram ocasiões de gol: Lucas Lima em primeiro com 82, Scarpa em segundo com 79 e Dudu em sexto com 57.

Fica a dúvida quanto à intensidade dentro da proposta de pressionar logo após a perda da bola, ainda mais se a dupla de volantes for Felipe Melo e Moisés. Todos terão que participar mais na transição defensiva. Talvez Tche Tche acabe virando titular, também pela velocidade na saída para o ataque.

Mas em termos de combinação de características o encaixe de Scarpa deve ser imediato. Dois ponteiros com pés “trocados”, um meia central que pensa correndo como Lucas Lima e um centroavante móvel e rápido abrindo espaços, inclusive para si mesmo, e mais focado na finalização. Sem contar as várias opções no banco, especialmente Keno e Willian Bigode.

Vejamos no campo se dá liga. Mas é impossível negar que a contratação foi certeira. O Palmeiras foi bem mais uma vez ao mercado. Sem tanta fome, porém fazendo as escolhas certas no cardápio.


Cucabolistas, uni-vos!
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André Rocha

Foto: divulgação Quatro Linhas.

Diante da notícia de que a Mancha Alvi Verde, a principal torcida organizada do Palmeiras, através de um comunicado oficial pediu a saída do clube do treinador Cuca é hora de fazer uma convocação:

Você que ajudou a inundar as redes sociais com perfis declarando amor ao comandante no título brasileiro do ano passado e que, por não ter nome nem rosto, covardemente atacava quem ousava fazer alguma crítica ao seu objeto de devoção;

Você, jornalista, que defendeu até o limite da irresponsabilidade o estilo do treinador só porque vencia e fazia média com o torcedor palmeirense para sair bem na foto;

Você que usou a camiseta da imagem acima, com a letra “o” simulando uma bola sendo enviada numa cobrança lateral e que agora parece simbolizar a queda do time em todas as competições em 2017;

Você que riu  e compartilhou as piadas do treinador endereçadas aos críticos durante os eventos de premiação do Brasileiro no final do ano passado;

Você que comprou e passou a exibir no Allianz Parque e nas ruas a calça vinho, tratada como amuleto da sorte visando novas conquistas.

É hora de ser coerente e apoiar Cuca. Porque o estilo e as ideias antes defendidas estão lá. Perseguições individuais, marcação por encaixe, o “Porco Doido” com muita intensidade e marcação no campo de ataque, cobranças de lateral na área adversária e cruzamentos em profusão, inclusive da intermediária, quando necessário.

O que mudou? Só o resultado. Que guia sempre todas as análises e é tão tratado como o detentor da verdade que coloca quem ousa fazer alguma ressalva como “anti”, “clubista”, “bairrista”, “mal intencionado”, “canalha”, “vendido”.

A proposta de jogo, as manias, o jeito peculiar estão lá. Só que não estão mais Vitor Hugo e Gabriel Jesus. Moisés só retornou há pouco. Os contratados no início do ano, com Eduardo Baptista no comando, chegaram para trabalhar no estilo atual do futebol brasileiro e mundial, de marcação por zona, compactação e posse de bola ou transição. Os que não se adaptaram perderam a vez. Felipe Melo, não só por isso, foi defenestrado.

Tudo valeu a pena até a eliminação na Libertadores. Agora, com a derrota em casa para a Chapecoense por 2 a 0 que alija o time da disputa do título brasileiro e o ano de 2017 está perdido em termos de conquista, surgem as críticas mais pesadas. Só porque o resultado mudou.

Não pode! Quem demonstrou tanto amor e fidelidade antes, a ponto de odiar e perseguir quem pensava diferente, não deve abandonar o barco agora. Precisa seguir a ideia de Cuca, de “ir até o final”. Abraçado ao grande ídolo.

Cucabolistas, uni-vos! Agora é a hora do testemunho de fé!

 


Afastamento de Felipe Melo é mais um produto dos desencontros no Palmeiras
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André Rocha

Foto: Cesar Greco/Ag. Palmeiras

Felipe Melo não foi relacionado no grupo que vai concentrar para o jogo contra o Avaí no Allianz Parque. Este é o fato em meio a rumores de desentendimentos entre o volante e o treinador Cuca.

Felipe foi contratado em janeiro para ser uma liderança e também uma espécie de interlocutor e escudo diante da mídia para o trabalho do jovem Eduardo Baptista, cercado de desconfianças desde a apresentação. Aparentemente, o projeto era mudar a forma do Palmeiras jogar. Mais posse de bola, marcação por zona, controle dos jogos.

Com desempenho e resultados que não agradaram no Paulista e na fase de grupos da Libertadores, Baptista não resistiu. Se houvesse convicção lá atrás de que os princípios de jogo deviam ser preservados, bastaria contratar um profissional com perfil parecido.

Mas se a sombra de Cuca, que pediu para sair depois de ser aclamado pelo título brasileiro que o clube não conquistava há 22 anos, já era forte durante seu afastamento, ficou ainda maior quando se colocou à disposição para retornar. A torcida ansiava pela volta do “messias” e qualquer outro treinador seria esmagado da mesma forma.

Cuca voltou e com ele o estilo particularíssimo, de intensidade e marcação por encaixe e perseguições individuais. Para executá-la, prefere atletas mais rápidos, com vigor físico para marcar correndo. De preferência, que não questione as ordens e apenas as cumpra.

Felipe Melo não tem o perfil. Gosta de futebol, sabe como se atua nos grandes centros. Joga posicionado, fechando espaços. Aos 34 anos, conhece os atalhos. Além disso, tem personalidade forte e é articulado para expressar qualquer descontentamento. A lesão na coxa e a fratura na mão apenas adiaram o problema de ter um jogador contratado como estrela, mas descartado pelo velho/novo treinador por uma nítida incompatibilidade de estilos.

Agora, com o Palmeiras eliminado da Copa do Brasil, vendo as chances de título brasileiro cada vez mais remotas e com a tensão no nível máximo para o jogo da volta das oitavas de final da Libertadores contra o Barcelona de Guayaquil em São Paulo com obrigação de vitória, o descompasso virou um problema ainda maior. Felipe Melo não deve entender muito bem por que uma marcação que não vem funcionando é preservada e, por isso, ele seguirá fora dos planos. Até do banco de reservas.

Felipe Melo disputou apenas cinco partidas pelo Brasileiro e ainda pode disputá-lo por outra equipe da Série A. O alto salário é o obstáculo para quem não tem tanto poder de investimento.

Mais um problema para o Palmeiras em uma temporada conturbada, que foi pensada para construir uma hegemonia. Fruto dos desencontros de um departamento de futebol que parecia caminhar em uma direção e, hesitante, desviou a rota e retornou ao que considerava mais seguro. Mas no futebol não há certezas e o que resta em 2017 é um enorme ponto de interrogação. Como será o amanhã?


Não há razão para crise no Palmeiras. Mas existe um dilema
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André Rocha

As derrotas para Chapecoense e São Paulo fora de casa, com a equipe bastante alterada pela prioridade natural dada à Libertadores, não servem sequer como sinal de alerta para o Palmeiras. São recuperáveis e até comuns em um campeonato por pontos corridos e todas as suas particularidades. É um reinício para Cuca.

O que precisa ser debatido internamente é que o cenário de 2016 não se repete nesta temporada, até pela conquista do título brasileiro. A equação técnico campeão + elenco reforçado não significa necessariamente uma fórmula de sucesso.

A começar pela dissonância entre a maneira de jogar de Felipe Melo, contratado para ser um líder e interlocutor do técnico, com a visão de futebol de Cuca. Algo bem mais complicado de administrar que uma discussão no rachão. O volante atuou na Europa por mais de uma década marcando por zona na maior parte do tempo. O treinador prefere os encaixes e perseguições individuais.

Não é simples pedir para alguém acostumado a ter a bola e o espaço como referências passar a correr atrás do jogador adversário. Por isso a escalação de Felipe na sobra da defesa em um sistema com três defensores na última linha contra o São Paulo no Morumbi. A adaptação, porém, é complicada. Requer tempo e, principalmente, capacidade de convencer que este é o melhor caminho.

Outra questão a ser administrada é o favoritismo. Uma coisa é ser campeão brasileiro sendo colocado como o contraponto ao Flamengo do “cheirinho” e ao Atlético-MG das estrelas no ataque, outra é entrar em campo sempre com a responsabilidade de ser o protagonista.

No ano passado, mesmo com Cuca bancando o título, a equipe não era o alvo. Seus melhores momentos da equipe, em especial no primeiro turno da principal competição nacional, foram explorando a velocidade de Roger Guedes e Gabriel Jesus surpreendendo os oponentes tanto quanto as jogadas ensaiadas. O time era vertical, definia rapidamente as ações de ataque.

Já em 2017 o elenco foi montado para propor o jogo, ideia de Eduardo Baptista que parecia ser consenso no clube por conta desta mudança de status. Com Borja e Guerra, campeões da Libertadores pelo Atlético Nacional dentro de uma proposta ofensiva de Reinaldo Rueda, herdeiro de Juan Carlos Osorio.

Cuca pensa futebol diferente. Gosta de seu time desarmando no campo de ataque e partindo com fúria para a área adversária. Aprecia um “abafa”, o “Porco Doido”. Também baseia o seu discurso motivacional no “nós contra eles”, na superação para enfrentar as desconfianças. Mas agora o Palmeiras é a referência, o time a ser batido. Analisado, dissecado, mapeado.

Capaz de fazer Rogério Ceni, com seu estilo agressivo e de valorização da posse de bola, não se importar de ficar sem o controle da partida no campo de ataque e fazer o jogo de transições em velocidade para golpear o rival no Morumbi com Lucas Pratto e Luiz Araújo.

Há dois caminhos para Cuca: rever e adaptar seus conceitos às melhores peças disponíveis ou pensar, a curto prazo, numa formação titular com a maioria absoluta dos jogadores que trabalharam com ele no ano passado e já conhecem toda a dinâmica do seu estilo. Colocando as estrelas no banco. Toda escolha tem sua complexidade.

Não há razão para crise no Palmeiras. Mas está claro que existe um dilema criado pelo próprio sucesso.

 


Atendendo ao pedido de Eduardo Baptista, uma pergunta sobre futebol
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André Rocha

Isolando todas as polêmicas dentro e fora do campo, antes e depois da partida em Montevidéu, Eduardo Baptista, mais que nas substituições depois do intervalo da virada por 3 a 2 sobre o Peñarol, acertou ao dizer que no Brasil se fala pouco de futebol.

O que desgraçadamente alguns colegas tratam, com desdém, como “apenas campo e bola”. Exatamente o que condiciona e pauta todo o resto. O jogo em si.

Por isso, em homenagem ao técnico corajoso que tende a ser mais respeitado por uns e ainda mais perseguido por outros, e atendendo ao seu pedido de questionamentos sobre futebol, o blog deixa uma pergunta ao Eduardo:

Se desde 21 de dezembro do ano passado o Palmeiras sabia que enfrentaria o Peñarol e obviamente havia a possibilidade de ao longo do torneio cruzar com equipes fortes no jogo aéreo e direto, na “primeira” e “segunda” bola como ele mesmo disse na coletiva…por que não houve nenhum teste anterior, durante a fase de grupos do Paulista, por exemplo, utilizando três zagueiros de ofício?

Porque o que se viu em campo foi um time completamente descoordenado nos movimentos coletivos. Perdido. Jean e Egídio não sabiam se comportar como alas, os jogadores ficaram espaçados e sem encontrar os companheiros. Erros seguidos de passes, sem chances de Guerra acionar Roger Guedes e Michel Bastos nas pontas, muito menos Borja isolado.

Tudo para evitar os cruzamentos e sofrer dois gols de bolas cruzadas.Um horror em 45 minutos. Treinado apenas no dia anterior. Com pelo menos nove partidas – vá lá, tirando os clássicos locais – para testar em um grupo que o Palmeiras nadou de braçadas, terminou dez pontos à frente.

Não dava para experimentar o sistema com três zagueiros – mesmo que não tivesse Dracena, Vitor Hugo e Mina disponíveis ao mesmo tempo – ao menos uma vez? Em dois treinamentos numa semana livre?

Uma experiência numa partida importante de Libertadores fora de casa. De tudo que aconteceu na intrépida quarta-feira e no tenso início da quinta palmeirense, foi o mais difícil de entender.

Mas isso é o menos importante, claro. O resultado aconteceu, virada com sofrimento “é mais gostoso” e na pauta vem primeiro a pancadaria, depois os gritos do treinador na coletiva, mais as polêmicas com Felipe Melo, Roger Guedes, Alexandre Mattos.

Por último, o “campo e bola”. Ou seja, só o que vai definir até onde vai o Palmeiras na Libertadores. Bobagem…


Novo Palmeiras sofre com a bola parada: o jogo dentro do jogo
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André Rocha

O propósito maior do jogo na Arena Condá estava fora das quatro linhas e o simbolismo da partida tirou até o espírito de competição que surge naturalmente, mesmo em um amistoso. Felipe Melo ilustrou bem ao afirmar que perdeu a concentração ao ver uma criança chorando. Ainda mais ele, que esteve tão distante geograficamente da tragédia e todos os seus desdobramentos.

Mas de tudo que foi possível observar nos 2 a 2 entre Chapecoense e Palmeiras, além do novo time do clube catarinense jogando com fibra e entrega impressionantes e o potencial de Raphael Veiga e Vitinho, sem contar a afirmação da qualidade de Tchê Tchê no novo 4-1-4-1 palmeirense, chamou atenção o desempenho dos times na bola parada.

Mesmo descontando o fato do campeão brasileiro estar sem Mina e Vitor Hugo, sua zaga titular, e Eduardo Baptista ter pouquíssimo tempo de trabalho, saltou aos olhos as falhas defensivas. Não só nos gols de Douglas Grolli e Amaral, mas em praticamente todas as disputas pelo alto.

Compreensível também a ênfase da Chape nesta jogada. Afinal, com um time novo e, consequentemente desentrosado, este tipo de recurso seria uma arma interessante para Vágner Mancini.

Porque a bola parada é um jogo dentro do jogo de futebol. Tem outro posicionamento, outra dinâmica. A ponto dos treinadores tratarem como um quinto momento, além do defensivo, do ofensivo, da transição defensiva – o que você faz assim que perde a bola – e da transição ofensiva – a ação imediata assim que a recupera.

Jogada decisiva, cheia de detalhes. Capaz de igualar forças das equipes, até compensar desvantagem numérica. Depende mais de movimentos coordenados do que do talento do cobrador e dos companheiros na área para concluir.

Quantas finais ou disputas cercadas de expectativas entre times e seleções já foram dissecadas previamente com sistemas táticos, modelos de jogo, estatísticas dos jogadores e, no final, se resolveram numa bola parada? O Real Madrid de Sergio Ramos que o diga.

Eduardo Baptista é treinador detalhista, minucioso. Inclusive neste tipo de jogada. Certamente percebeu a deficiência e vai trabalhar para corrigi-la. Porque ela ajuda a derrubar treinador.

O problema crônico no Flamengo minou os trabalhos de Cristóvão Borges e Oswaldo de Oliveira em 2015. No ano passado, Roger Machado no Grêmio foi o caso mais marcante. Houve problema de gestão de vestiário, mas, no campo, os muitos gols sofridos em jogadas aéreas nas faltas laterais e escanteios empurraram o bom treinador para fora do comando técnico do time gaúcho.

Renato Gaúcho chegou, fez o simples e, com marcações individuais bem definidas, resolveu o problema. Como Cuca adotava a mesma prática no Palmeiras, com bola rolando ou parada, cabe a Eduardo Baptista perceber se os jogadores se adaptam melhor ao bloqueio por zona ou ao tradicional “cada um pega o seu”.

Há tempo para isso. O foco absoluto é na Libertadores, que começa em março. Até lá, com time completo, trabalho e conversa é possível acertar o Palmeiras em todos os detalhes para começar a competir em alto nível, fazendo jus ao poder de investimento do clube.


Conhecimento: a arma de Eduardo Baptista para convencer no Palmeiras
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André Rocha

Eduardo Baptista Palmeiras

Tite aceitou a proposta da CBF e sua primeira missão foi estudar os jogos da seleção brasileira desde 2013 e depois mapear detalhadamente o que cada atleta no radar estava fazendo em seu clube.

Eduardo Baptista chega ao Palmeiras campeão brasileiro e inicia a temporada depois de dissecar a equipe de Cuca nos 38 jogos da competição nacional, além de analisar informações detalhadas de seus novos comandados, inclusive os novos contratados.

Tite é campeão mundial com o Corinthians, mas se comparado com Guardiola, Ancelotti, Mourinho e outros treinadores que comandam as estrelas do escrete canarinho, sua situação era parecida com a do filho de Nelsinho Baptista, jovem treinador sem grandes títulos no currículo, em um time vencedor.

Um técnico começa a vencer quando convence seus jogadores de que sua ideia é viável. Se não há tanto carisma e títulos para apresentar, o conhecimento é fundamental. Porque hoje o jogador, com staff e empresário a tiracolo, não precisa de um pai. Apenas de um treinador que deixe duas coisas bem claras: o que ele precisa fazer em campo e por que ele é titular ou reserva da equipe.

Gestão de grupo é ser franco e direto. Todos podem elogiar Tite na seleção por ter mudado o clima pesado dos tempos de Dunga. Mas se não houvesse trabalho e informação, a ponto de surpreender os atletas, o sucesso imediato em campo seria mais difícil.

Eis a arma de Baptista. Diante de Felipe Melo – jogador inteligente, de personalidade forte e que entende o futebol atual – e de Guerra, melhor da última Libertadores, além dos campeões de Copa do Brasil e Brasileiro dos últimos anos, se não houver convicção e conteúdo para apresentar virá a pergunta cruel: “ganhou o quê?” Exatamente o que inviabilizou sua permanência no Fluminense de Fred.

O técnico terá que fazer entender as razões para mudar das perseguições individuais dos tempos de Cuca para a marcação por zona e, com a bola, construir um jogo mais apoiado, com bola no chão e transição ofensiva rápida para surpreender o adversário. No mesmo 4-3-3/4-1-4-1 da campanha vencedora no ano passado.

Falta o centroavante para repor Gabriel Jesus e fechar o elenco que Alexandre Mattos começou a remontar ainda em 2016. Pensando em Cuca, agora com Eduardo Baptista. O maior desafio da carreira do novo comandante. Uma incógnita que pode dar certo através do conhecimento.


Uma vantagem e um problema de ter Felipe Melo no seu time
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André Rocha

Maurizio Lagana (Stringer/Getty Images)

Crédito: Maurizio Lagana (Stringer/Getty Images)

Felipe Melo está no Brasil para a virada do ano, mas também para aceitar oficialmente a proposta de um clube, provavelmente o Palmeiras. Para jogar a Libertadores.

E aí já surgem os clichês: jogador “cascudo”, com “espírito de Libertadores”. Disputou duas, com o Flamengo em 2002 e Cruzeiro em 2004. Eliminado com os rubro-negros na primeira fase e com o time mineiro nas oitavas.

Está desde 2005 na Europa. Retorna com 33 anos, sofrendo com a irregularidade da Internazionale que contribuiu para a própria inconstâncias nas atuações. Portanto, não deixa de ser aposta. Alta, porque o salário certamente não será modesto.

Mas pode dar certo. Felipe Melo tem uma vantagem em relação a muitos de seus pares: gosta de futebol. Assistir, analisar, entender. Está antenado às transformações do jogo. Não por acaso é um bom passador, qualificando a saída de bola. Conhece bem a dinâmica dos principais centros do mundo.

Seus colegas, inclusive Neymar, só gostam de jogar. Até compreensível, devido ao massacre de partidas com muita pressão e uma quantidade de informações que não existia antes. Muito menos para os craques, que só ouviam: “Vá lá e faça o que você sabe”.

Se fechar mesmo com o campeão brasileiro, Felipe pode ser um bom interlocutor da comissão técnica, conversar com Eduardo Baptista e ajustar o time em campo quando a interferência do treinador é mínima. O Brasil vem sentindo falta de lideranças que compreendem o jogo e têm conhecimento e autoridade para falar e ser ouvido.

Por outro lado, há um enorme ponto de interrogação quanto à postura do volante diante da arbitragem brasileira. Em nossos campos, Felipe ficará visado pelos adversários por sua fama de violento, consolidada na entrada criminosa em Robben na Copa do Mundo de 2010. Qualquer falta será um escândalo, com o oponente se contorcendo no chão como se tivesse a perna ceifada.

Na Europa o árbitro interfere menos, não interpreta como faltoso qualquer contato. Felipe joga assim há 11 anos e, mesmo sem tanto rigor, é punido com alguma frequência. Inclusive há 11 dias, na vitória da Inter sobre o Sassuolo. Cartão vermelho depois de dois amarelos.

Como será por aqui? Vai se irritar e colocar gasolina no incêndio? Durante a carreira, suas entradas violentas quase sempre aconteceram em jogos tensos ou por uma sequência de acontecimentos em campo que minaram seu controle emocional. Inclusive no Brasil x Holanda há seis anos na África do Sul.

Felipe Melo pode ser o meio-campista inteligente e o volante brucutu em uma mesma partida. Tudo depende da sua cabeça, inconstante até nas inúmeras polêmicas em que se mete em redes sociais e programas de TV. Que o Palmeiras ou outro clube brasileiro que feche com ele tenha consciência do “kit” que está contratando.


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