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Flamengo: a lenta agonia do time que não dá liga
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André Rocha

A derrota para o Coritiba no Couto Pereira foi mais uma típica do Flamengo no Brasileiro 2017: domina a posse de bola (65%), finaliza mais que o adversário – 11 a 5, 4 a 1 no alvo – mas não consegue traduzir em gols o controle do jogo.

As críticas sobre jogadores e o treinador Reinaldo Rueda giram em torno do comodismo, de aceitar a derrota com um discurso conformado, de uma apatia que se mistura à indiferença. Protestos com alguma razão, mas os problemas vão um pouco além disso.

O fato é que o time não dá liga. Ou seja, as características dos jogadores não combinam entre si, por mais que Zé Ricardo e depois Rueda tentassem e ainda tentem um encaixe.

É um efeito dominó. Everton Ribeiro foi contratado para ser o ponta articulador. O meia que sai do lado do campo para se movimentar às costas do volante, criar superioridade no meio e criar as jogadas. Mas para isso o ideal é que, como Ricardo Goulart fazia no Cruzeiro bicampeão brasileiro com o próprio Everton, o meia central no 4-2-3-1 que não se alterou com a mudança no comando técnico se aproxime mais do centroavante e se comporte como uma espécie de segundo atacante.

Diego Ribas não faz isso. Por costume, recua para ajudar na armação ou procura os lados do campo. Quando pisa na área sempre é mais útil, mas prefere voltar à intermediária. Pior: prende demais a bola, dá sempre um ou dois toques a mais e quase sempre atrasa a transição ofensiva. Tenta compensar com vontade, liderança positiva e qualidade nas cobranças de faltas e escanteios, mas coletivamente o saldo quase sempre é negativo.

Para aproveitar o espaço que o camisa sete deixa à direita, um lateral de velocidade daria uma opção interessante para buscar a linha de fundo. Não é Pará. Seria Rodinei, mas este tem sérios problemas de leitura de jogo e, principalmente, no posicionamento defensivo.

Porque os zagueiros, embora experientes e de bom nível técnico, são lentos. Para evitar os muitos gols sofridos nas costas da última linha no final do trabalho de Zé Ricardo, Rueda prefere os laterais com um posicionamento mais conservador.

Também para encaixar Cuéllar no meio-campo, à frente da retaguarda. Mas o colombiano, embora tenha bom passe, não é o organizador que o setor precisa nesta ideia de ser protagonista, jogar no campo adversário e controlar as partidas com posse de bola. Nem ele, nem Willian Arão, que eventualmente até acerta alguns passes em profundidade, mas tem como principal virtude a infiltração. O camisa cinco, porém, é um atleta que nitidamente se permite afetar pelas instabilidades do time e sente as cobranças. Sem contar a dispersão no trabalho defensivo.

Por isso Márcio Araújo acaba jogando mais do que deveria. Com Zé Ricardo e agora ganhando chances com Rueda em algumas partidas. No Couto Pereira, o gol de Cléber logo aos sete minutos fez com que a presença do volante se tornasse ainda mais desnecessária por sua nulidade na construção das jogadas. Só deixou o campo aos 13 minutos da segunda etapa. Joga porque defende melhor que Arão e protege a zaga sem velocidade. Romulo não justificou a contratação e o jovem Ronaldo, sem oportunidades, foi ganhar rodagem no Atlético-GO.

Na frente, outro problema: Guerrero não é o típico centroavante, que fica na área e finaliza com bom aproveitamento. O peruano sempre foi muito mais de circular e trabalhar coletivamente. No Fla se destaca pelo trabalho de pivô, por conta de todos os problemas do meio-campo na criação. Recua, faz a parede e procura os ponteiros. Muitas vezes não dá tempo de chegar na área. E dificilmente recebe a bola com chance clara de concluir com liberdade porque as jogadas não fluem, há poucas infiltrações em diagonal.

Porque os ponteiros não têm essa característica. Nem Berrío, agora lesionado, nem Everton. O ponta pela esquerda até vem aparecendo na área e já fez dez gols na temporada. Mas poderia ter feito bem mais se nas muitas vezes em que Guerrero recuou ele penetrasse no espaço certo. Não tem o hábito.

Assim como Filipe Vizeu, o substituto de Guerrero, parece não ter aprendido nas divisões de base a fazer a proteção da bola para a aproximação dos companheiros. Nem fazer a leitura do espaço que precisa atacar para chegar em melhores condições para finalizar. Não é o centroavante para a proposta rubro-negra. Por isso a improvisação de Lucas Paquetá, que não é exatamente um goleador e, apesar da luta, desperdiça oportunidades cristalinas como a que o goleiro Wilson salvou no primeiro tempo em Curitiba.

O encaixe mais promissor foi quando Rueda utilizou Orlando Berrío pela direita com Pará e Everton Ribeiro à esquerda. Se Trauco e Renê também não são laterais rápidos na chegada ao fundo, ao menos a movimentação do meia abria espaços para o deslocamento de Guerrero, que prefere buscar aquele setor e não faz o mesmo movimento à direita. Mas o colombiano teve grave lesão e só volta em 2018 e o peruano está suspenso por doping e também só deve retornar no ano que vem.

Todo esse cenário desfavorável, sem que os treinadores encontrem soluções, é que parece ser o responsável por esse desânimo que se vê em campo. Os jogadores percebem que não combinam entre si e se acomodam. Começa a se espalhar a ideia de “fazer o seu e, se não dá certo, a culpa não é sua”. A desclassificação na fase de grupos na Libertadores foi um golpe na confiança que vinha em alta com a boa campanha no Brasileiro do ano passado e o título estadual.

As críticas e protestos de torcida e parte da mídia, porém, são justas porque nos clássicos cariocas, por conta de uma mentalidade provinciana que impera no clube há algum tempo, aparece a indignação com a derrota. Algo fundamental quando as coisas não vão bem. Um nível mais alto de concentração, fibra e entrega para compensar os problemas. Em jogos “comuns”, ainda mais numa competição por pontos corridos e que nunca foi tratada como prioridade ao longo da temporada, volta a apatia.

Quem deve ser responsabilizado? Todos no clube, mas principalmente a direção. Por erros de planejamento, como ter apenas Alex Muralha e Thiago como goleiros em boa parte da temporada, escolha que acabou prejudicando demais o time na final da Copa do Brasil. Diego Alves chegou tarde.

Também por não perceber as necessidades reais da equipe e contratar Berrío, sendo que o pedido de Zé Ricardo tinha sido um ponteiro driblador e com bom poder de finalização para deixar o ataque menos “arame liso” – cerca, mas não fura – em jogos grandes ou confrontos mais parelhos.  Vinícius Júnior pode até vir a ser este atacante rápido, criativo e com boa finalização, mas é injusto cobrar de um menino de 17 anos, já negociado com o Real Madrid, que seja o pilar ofensivo de um time grande recheado de jogadores experientes e rodados.

O ambiente acaba se tornando um tanto permissivo e morno. Uma falsa sensação de estabilidade, sem grandes cobranças. Talvez por não ter entregado o seu melhor, a direção não se sinta confortável para exigir. Mesmo com salários em dia e melhor estrutura no CT. Vez ou outra ecoa uma voz dissonante, como Juan ou Everton Ribeiro, que na saída de campo no Couto Pereira reclamou que “todo jogo é assim”.

Rueda tem perfil mais administrador, não de ruptura, criativo, ousado para encontrar saídas. A impressão é de que vai tentar o título da Sul-Americana, mas já pensa em reestruturar o elenco para 2018 dentro do que pensa sobre futebol. A dúvida é se será suficiente. Nas coletivas diz não conseguir encontrar explicações para o mau momento. Será que enxerga?

Por tudo isso o Flamengo vive essa lenta agonia em 2017. Ainda com chances de conseguir pelo Brasileiro a vaga nas fases preliminares na Libertadores – insatisfatório diante de tanto investimento. Vivo na semifinal do torneio continental contra o Junior Barranquilla.

Mas que não desperta confiança. Porque os jogadores não combinam e parecem cansados fisicamente e sem força mental para buscar algo que não veio durante toda a temporada. Restam a frustração e a revolta da maior torcida do país. Um desperdício.

(Estatísticas: Footstats)


Palmeiras sobra contra o Flamengo da cultura da derrota em São Paulo
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André Rocha

Os gols de Deyverson no Allianz Parque redimem o Palmeiras das duas derrotas e dois empates que transformaram a chance de ser líder do Brasileiro na volta à luta por uma vaga no G-4. Placar de 2 a 0 construído no primeiro tempo com imposição natural do time mandante. Mesmo com protestos da torcida e utilizando Felipe Melo e Michel Bastos voltando à equipe, sem o ritmo de competição ideal.

Mais uma visita frustrada do Flamengo a São Paulo. Capital, Santos e Campinas. Quatro derrotas e um empate. Contra o lider Corinthians, que teve um gol absurdamente anulado de Jô, mas abdicou do jogo no segundo tempo. E mesmo dominando, os rubro-negros não conseguiram sair com a vitória. Ao menos encerrando uma sequência de derrotas na casa do adversário que poderia ter chegado a meia dúzia.

Incluindo os 4 a 0 em 2016, o único revés na casa dos paulistas. Mas triunfo apenas sobre a Ponte Preta na estreia de Zé Ricardo por 2 a 1. Mais empates contra São Paulo, Santos e Palmeiras. Este último num confronto direto pela liderança que escapou das mãos do Fla no gol de Gabriel Jesus.

Porque sempre parece faltar algo a este time em jogos grandes, importantes. Com exceção, claro, dos clássicos cariocas. Aí sim vemos o inconformismo, a indignação com a derrota. Mesmo considerando o ambiente favorável no Maracanã é muito pouco.

Reinaldo Rueda chegou falando em desenvolver uma mentalidade vencedora. Já reparou que o time “guerreia pouco” nos jogos. Ainda que a Copa Sul-Americana tenha se tornado uma prioridade, a campanha no Brasileiro é decepcionante. Pelos resultados, mas, principalmente, pelo comportamento. A torcida, por mais que se esforce, não consegue se identificar com a equipe. Fica esperançosa contra Flu, Bota e Vasco e depois volta à decepção. Um marasmo.

A rodada começou positiva para o Fla com a derrota do Botafogo para o Atlético Paranaense. O time carioca, porém, não se ajudou. Mais uma vez.

Muito pelos méritos palmeirenses. Com mais cuidados defensivos e o volume de jogo que ganhou com a chegada de Alberto Valentim. Foram 11 finalizações, mesmo número do oponente. Mas sete no alvo, contra apenas uma do ataque “arame liso” do Fla. A posse só igualada no final pelo domínio estéril do adversário. 22 desarmes certos contra 13. Pelo menos mais quatro oportunidades além das finalizações que venceram Diego Alves.

É mais um que sobra se aproveitando da cultura da derrota do Flamengo quando vai a São Paulo.

(Estatísticas: Footstats)


Por que o Bahia de Carpegiani é o “time do mês” no Brasil
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André Rocha

O Corinthians é o virtual campeão brasileiro, o Grêmio finalista da Libertadores com grande atuação na partida fora de casa contra o Barcelona de Guayaquil. O Vasco de Zé Ricardo só sofreu uma derrota, exatamente para o líder do campeonato com o gol irregular e polêmico de Jô usando o braço. O São Paulo de Dorival Júnior conseguiu a redenção com o apoio comovente de sua torcida e o talento de Hernanes.

Mas se um time merece um hipotético crachá ou foto na moldura de “time do mês” no Brasil, este é o Bahia. Mais precisamente desde o feriado de 12 de outubro, na estreia de Paulo César Carpegiani no comando técnico. Empate em 2 a 2 contra o Palmeiras no Pacaembu, buscando uma desvantagem de dois gols. Não fossem as defesas de Fernando Prass e o tricolor poderia ter saído de São Paulo com uma virada histórica. O resultado e, principalmente, o desempenho do atual campeão brasileiro custou o emprego de Cuca. E sinalizou a virada baiana.

A partir daí a equipe fez campanha de recuperação que ocasionou um salto na tabela e a consequente mudança de perspectiva: da fuga do Z-4 para a primeira página da tabela e agora o sonho, ainda improvável, com o G-7 e a vaga nas fases preliminares da Libertadores.

Vitórias sobre o líder Corinthians e Ponte Preta em casa, no clássico contra o Vitória na Fonte Nova e fora de casa sobre o Avaí. Empate com o Fluminense no Maracanã e o único revés diante do Flamengo na Ilha do Governador por 4 a 1 num placar um tanto “mentiroso”. No total, quatro vitórias, dois empates e uma derrota. Dez gols marcados, sete sofridos. Aproveitamento de 66%.

Fruto do amadurecimento de uma maneira de jogar, saindo das linhas de quatro e dois atacantes de Preto Casagrande para o 4-1-4-1 montado por Carpegiani com muita mobilidade e rapidez. Antes com Edson entre as linhas de quatro até o volante se lesionar e dar lugar a Renê Júnior.

Na frente, o quinteto formado por Zé Rafael, Vinicius, Allione e Mendoza na linha de meias e Edigar Júnio como referência móvel é a grande chave da mudança. Trocando posições, tabelando, triangulando, aproveitando a velocidade de Mendoza pelos flancos sempre buscando as diagonais nos espaços às costas da defesa adversária. Os meias trocando passes curtos e rápidos fazem o jogo fluir com incrivel desenvoltura.

A consequência de tanta vocação ofensiva é a dificuldade para compactar os setores em alguns momentos e ceder espaços para os adversários, sem maior controle do jogo mesmo em vantagem no placar. É quando aparece Jean com defesas importantes. O goleiro mais acionado do campeonato. 84 intervenções, média de 2,4. Só inferior aos 2,7 de Fernando Miguel, do rival Vitória. Nada que diminua a importância do arqueiro para evitar que os problemas no trabalho sem a bola se transformem em gols dos adversários. Mesmo com a falha no gol de falta de Marquinhos na Ressacada que obrigou o time a buscar a virada por 2 a 1.

O grande destaque, porém, é Edigar Júnio. Média de um gol por partida desde a chegada de Carpegiani. Sete dos dez que marcou até aqui em 22 partidas. Colocando Hernane Brocador no banco depois da devolução de Rodrigão ao Santos. Exatamente porque sua rapidez de raciocínio e execução combina melhor com a de seus companheiros.

O ataque fica mais leve e envolvente e, mesmo sem funcionar como o típico centroavante, a colocação para finalizar as jogadas vem sendo perfeita. Sem contar a precisão, que ajuda a equipe a ser superada apenas pelo Cruzeiro nas finalizações certas – média de cinco por partida. É o terceiro ataque mais positivo com 45 gols, só atrás de Palmeiras e Grêmio. Futebol que agrada as retinas sem deixar de ser competitivo. Com um treinador veterano, porém antenado. Sim, é possível.

Ao final da 33ª rodada pode ser ultrapassado por São Paulo e Atlético Mineiro e sair da primeira página da tabela. Ainda assim, por todo o contexto e pelas dificuldades de um clube voltando à Série A e fora do eixo financeiro e midiático do futebol no país, o Bahia é o “melhor time de todos os tempos da última semana” no Brasileirão. Ou dos últimos 30 dias.

O 4-1-4-1 do Bahia de Carpegiani, com muita mobilidade na frente, as infiltrações em diagonal de Mendoza, Edigar Junio circulando e os meias Zé Rafael, Allione e Vinicius se aproximando. Sem a bola, quando a vocação ofensiva dificulta a compactação sem a bola, o goleiro Jean aparece para garantir a retaguarda (Tactical Pad).

(Estatísticas: Footstats)


No Fla-Flu insano e continental, segue o mais forte nos clássicos cariocas
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André Rocha

O Fluminense se impôs no início com uma mudança tática que confundiu a marcação do rival: Marcos Júnior formando dupla de ataque com Henrique Dourado num 4-3-1-2 com Gustavo Scarpa centralizado. Por isso Trauco largou o seu setor para disputar com o meia tricolor e Lucas apareceu livre para abrir o placar.

Diego cumpriu sua melhor atuação com a camisa do Flamengo. Nem tanto pelo belo gol de falta que empatou o jogo pela primeira vez, mas pela movimentação mais inteligente, alguns toques de primeiro. Principalmente pela intensidade que colocou em cada lance.

Conduziu um time aguerrido como só se vê em clássicos estaduais. Principalmente os de caráter decisivo. Ainda mais em uma competição internacional. Mesmo quando Renato Chaves aproveitou vacilos de Filipe Vizeu e Willian Arão, um em cada tempo, para construir em cabeçadas uma vantagem de 3 a 1 difícil para um time que é pouco contundente – ou “arame liso” – e sem grande poder de reação (“pecho frio”) conseguir reverter.

Mas não num Fla-Flu. Assim foi na final da Taça Guanabara, perdida nos pênaltis muito pelo “fator Muralha”. De novo um 3 a 3. Outro jogo doido, um tanto aleatório. Reação que começou a ser gestada na entrada de Vinicius Júnior na vaga de Trauco. Everton foi para a lateral esquerda e a joia que fez o Real Madrid encher os cofres rubro-negros iniciou pela esquerda a jogada do gol de Vizeu, com bela assistência de calcanhar de Everton Ribeiro.

O suficiente para preocupar a empolgada torcida tricolor e reanimar a do Fla no Maracanã. Reinaldo Rueda colocou Paquetá na vaga de Cuéllar, que desta vez não foi bem. Vinicius Júnior foi para a ponta direita, Everton Ribeiro centralizou se juntando a Diego, Arão ficou na proteção à defesa que tinha Rafael Vaz no lugar de Juan, lesionado, e Paquetá se posicionou pela esquerda, mas abrindo todo o corredor para Everton. Nada muito organizado, mas com uma fibra que contagiou os torcedores.

Até a redenção de Arão. Um jogador que muitas vezes peca por dispersão e baixa intensidade, mas com presença de área importante para decretar os 3 a 3 que o Flu de Abel Braga não teve forças para mudar a história de mais uma eliminação em competições sul-americanas. Elenco jovem e limitado. Com Romarinho, Wendel e Pedro nas vagas de Marcos Júnior, Sornoza e Douglas, só restou a luta.

Pouco diante da experiência dos rubro-negros, que ganharam o tempo que puderam, especialmente Diego Alves. No último lance, Diego deixou de consagrar sua boa atuação completando em cima do xará Cavalieri bela assistência de Vinicius Júnior. O personagem a incendiar e mudar o Fla-Flu.

Que o Flamengo aprenda a repetir em duelos interestaduais no Brasileiro e internacionais na Sul-Americana, a partir da semifinal diante do Junior Barranquilla, a coragem, a entrega e a força mental que apresentou no clássico estadual. Deixar para trás de vez esse provincianismo de fazer questão de se impor apenas contra os rivais locais. Campeão carioca invicto, sem perder com os titulares em todas as competições, eliminando o Botafogo na semifinal da Copa do Brasil.

Algo que faz parte da cultura do futebol e que carrega o seu prazer e orgulho. Mas é pouco para o tamanho do investimento do clube e da paixão de sua gente.


Em 1982, Vasco mudou meio time para ser campeão. Por que não o Corinthians?
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André Rocha

A derrota do Corinthians para a Ponte Preta foi daquelas de jogar a toalha. Time completo, semana para treinamentos buscando ajustes, adversário acessível…Pior que a derrota foi notar que não houve evolução. Técnica, tática ou anímica. Mesmo com o abafa no final que transformou o goleiro Aranha no herói da Ponte. O líder estacionou no desempenho e os resultados são apenas consequência. Ridículos 33% de aproveitamento no returno.

Como bem disse o nosso Júlio Gomes em seu blog aqui no UOL, O treinador Fabio Carille precisa de uma revolução. Mudar o desenho tático ou simplesmente trocar peças, ainda que o elenco não seja tão robusto e homogêneo. Incomodar o outrora titular absoluto, motivar o então reserva. Sair da pasmaceira e da maneira de jogar que os adversários aprenderam a mapear e anular.

Loucura? Pode ser. Arriscar um desastre logo em casa diante do Palmeiras, maior rival e grande candidato a tomar a liderança, mesmo com cinco pontos atrás? Talvez. Mas o momento sugere que não agir parece a pior escolha.

Se buscar na história do futebol brasileiro, o Corinthians vai encontrar um exemplo bem sucedido dessa transformação repentina e radical: o Vasco campeão carioca em 1982.

Foto: Arquivo O Globo

Antes que digam que não dá para comparar campeonato brasileiro com estadual vale a contextualização. Não era um carioca qualquer. Primeiro pelo valor que ele tinha naquela época para os clubes, com enorme rivalidade que fazia olhar até com certo desdém para competições nacionais e internacionais. Um tanto provinciano, mas os próprios personagens da época admitem esta visão.

Depois porque o Vasco sofria com cinco anos sem conquistas, acumulando vice-campeonatos para Fluminense e, principalmente, para o Flamengo em sua “Era de Ouro”. Para piorar, frustrações também no Brasileiro, com eliminação para o Guarani na semifinal de 1978 e derrota na decisão do ano seguinte para o Internacional.

Na própria edição de 1982 não houve comemoração de conquista de um turno. A Taça Guanabara ficou com o Flamengo e a Taça Rio com o América. O Vasco chegou ao triangular final pela melhor campanha geral.

No último jogo do returno, a inspiração para a mudança geral do treinador Antonio Lopes, hoje diretor de futebol do Botafogo. Vitória por 3 a 1 sobre o Flamengo com a equipe considerada reserva. Em campo, o goleiro Acácio no lugar de Mazaropi, Galvão na vaga de Rosemiro, Ivan substituindo Nei, Ernani no lugar de Geovani e Jerson na ponta-esquerda, só não substituindo Marquinho porque este atuou no meio-campo.

Lopes gostou do que viu e surpreendeu mantendo os cinco como titulares para a etapa decisiva. Meio time! A imprensa na época tratou o treinador como louco, com críticas pesadas e até piadas. Mazaropi e Rosemiro tinham história no clube e Geovani, 18 anos, era tratado como uma joia – seria craque e artilheiro do Mundial Sub-20 no ano seguinte com a seleção brasileira.

Com muita fibra e liderado por Roberto Dinamite, venceu o América por 1 a 0, gol de Ivan, um dos que se transformaram em titulares. Com grande atuação do goleiro Acácio, o mesmo que fechou a meta do Serrano dois anos antes na lendária vitória sobre o Flamengo por 1 a 0, gol do atacante Anapolina, que tirou a chance do rubro-negro de conquistar o inédito tetracampeonato da Era Maracanã.

Na decisão, time mantido. Contra o Flamengo de Zico. Com dez dos onze titulares que venceram o Liverpool no ano anterior por 3 a 0 e entraram para a história. Apenas Figueiredo na zaga no lugar de Mozer. Mas vivendo uma ressaca não só pelo revés de Leandro, Júnior e Zico na Copa do Mundo de 1982, mas principalmente pela eliminação recente na Libertadores para o Peñarol.

Na superação e na fibra, o Vasco cumpriu a melhor atuação no campeonato e venceu por 1 a 0. Curiosamente, o gol do título foi marcado por um dos titulares que foram parar no banco de reservas: Marquinho, pequenino que subiu entre Leandro, Figueiredo e Marinho, bem mais altos, para completar cobrança de escanteio de Pedrinho Gaúcho pela esquerda para explodir a massa vascaína no Maracanã com 113 mil pagantes.

O fim da sequência de insucessos. Acabou decretando também o fim do ciclo daquela formação do Flamengo que, remodelado e com Carlos Alberto Torres no lugar de Paulo César Carpegiani, conquistaria o Brasileiro de 1983. Graças às defesas de Acácio, à liderança de Dinamite, à entrega absoluta de Galvão, Ivan, Ernani e Jerson, que agarraram a oportunidade e deixaram tudo em campo. Acima de tudo, à coragem de Antonio Lopes para mudar tanto a base titular numa reta final de campeonato.

Por que não o Corinthians, 35 anos depois? Por que não pensar, por exemplo, em Leo Príncipe na vaga de Fagner que vai ladeira abaixo, perdendo até a vaga que parecia certa na seleção brasileira por conta da confiança de Tite? Ou Clayson e Pedrinho nas pontas, Camacho ou Fellipe Bastos na vaga do disperso Maycon. Vale testar com a certeza de que algo precisa ser feito. E rápido.

O Vasco de 1982 é um exemplo. Outro cenário, outra competição. Mas a mesma necessidade de se reinventar. Agora para voltar a vencer e não protagonizar um dos maiores vexames de sua história.


O Brasileiro da “favoritofobia”. Será o Palmeiras a próxima vítima?
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André Rocha

O Brasileirão começou em maio com favoritismo do campeão Palmeiras, com a volta de Cuca, mais Flamengo e Atlético Mineiro correndo por fora. Times dos elencos milionários, camisas pesadas…e muita responsabilidade.

No campeonato do futebol reativo e dos problemas para criar espaços e jogadas, essa condição sempre foi desconfortável. Inclusive para o Corinthians do turno quase perfeito. Considerado “azarão”, mesmo com o título paulista.

Na virada para o returno, com tempo para treinar por conta do adiamento do jogo contra a Chapecoense, o time de Fabio Carille, enfim, ganhava a condição de favorito absoluto ao título, o sétimo da história do clube. No entanto, além da desmobilização já tratada neste blog (leia AQUI), a obrigação de atacar também minou gradativamente as forças do líder.

Queda consolidada na derrota para a Ponte Preta em Campinas por 1 a 0, com a “lei do ex” vigorando no gol de Lucca. Ainda no topo da tabela, com seis pontos de vantagem. Mas uma vitória do Palmeiras de Alberto Valentim contra o Cruzeiro será suficiente para transferir o bastão, ou devolvê-lo a quem parecia o maior candidato lá na primeira rodada.

Eis o perigo. Amanhã todos os olhos estarão voltados para o Allianz Parque e o time alviverde enfrentará um cenário complexo: obrigação de vencer como favorito e enfrentando um adversário forte, franco-atirador pelo título da Copa do Brasil e com o treinador Mano Menezes pronto para estacionar um ônibus na frente da própria área.

Nos triunfos contra Atlético-GO e Ponte Preta era o time em crise, depois da demissão de Cuca. Diante dos reservas do Grêmio em Porto Alegre, o favoritismo era relativo pelo mando de campo e a responsabilidade não era tão grande. Amanhã a conversa é outra. Se vencer fica a três pontos do maior rival e, tanto na bola jogada quanto no aspecto anímico, passa a ser o grande favorito ao bicampeonato.

A história da competição mostra que a missão não é tão fácil. Como será o amanhã? Responda quem puder.

Por isso o time mais consistente do Brasileiro é o Botafogo. Exatamente porque é reconhecido por sua solidez e competitividade, mas nunca favorito. Até porque na maior parte do campeonato dividiu atenções com Copa do Brasil e Libertadores. Sempre correndo por fora, com elenco no limite e orçamento limitado. Sempre concentrado, mas quase nunca tenso.

Porque o Brasileiro 2017 é o da “favoritofobia”. Quem será a próxima vítima?


Vanderlei Luxemburgo parou no tempo. Por isso ninguém corre mais por ele
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André Rocha

Foto: Carlos Ezequiel Vannoni/Agência O Globo

Vanderlei Luxemburgo está na história do futebol brasileiro por tudo que conquistou, pelo personagem polêmico, multifacetado e com momentos hilários. Por ter comandado o Real Madrid galáctico.

Ele também tem razão, apesar da empáfia, quando se denomina um “cara de vanguarda”. Especialmente nos anos 1990 nenhum treinador brasileiro foi mais criativo e visionário. Desde o primeiro 4-1-4-1 que se tem registro no Brasil (leia mais AQUI), passando pelo uso do “falso nove” com Evair recuando para armar jogadas e abrir espaços para as infiltrações de Edmundo e Edilson, depois Rivaldo, no Palmeiras bicampeão brasileiro 1993/94. Ainda que não seja algo totalmente original, já que o treinador se inspirou no movimento de Roberto Dinamite com os pontas Mauricinho e Romário, este no início da carreira, no Vasco de 1985 a 1987.

Ou Rincón recuando como volante para qualificar a saída de bola no Corinthians 1998, num 4-2-2-2 típico da época que, na prática, se convertia num losango com Vampeta e Ricardinho nos lados e Marcelinho mais solto. O 4-3-1-2 que virou sua marca nos anos 2000 por distribuir melhor os jogadores, como dizia José Mourinho, então melhor técnico do mundo.

No Real Madrid, assim que chegou encontrou o melhor posicionamento para Beckham e Zidane – pelos lados, à frente do “volante-volante” Thomas Gravesen e atrás de Raúl na ponta do losango. Na frente, Owen e Ronaldo. O time que venceu o Barcelona de Ronaldinho Gaúcho por 4 a 2 no Bernabéu e deu uma esperança de reação em busca do título, mas não houve tempo.

Luxemburgo também teve sacadas interessantes na sua aventura em 1995 de deixar o Palmeiras dominante para comandar o Flamengo de Kléber Leite e Romário. Como posicionar o canhoto Sávio pela ponta direita para usar o recurso de cortar para dentro e finalizar – ninguém tinha pensado nisso antes. Ou alternar Fabinho e Charles Guerreiro como volante e lateral pela direita e Válber e Branco do lado oposto para dosar as energias e, ao menos tempo, confundir a marcação.

Também as polêmicas do ponto eletrônico de Ricardinho no Corinthians e, no Santos, de entrar em campo com 12 jogadores e tirar um só no gramado para dificultar o trabalho do Corinthians no clássico. Sempre pensando à frente, em alguns momentos pelo típico prazer de ser (ou parecer) mais “malandro” que todo mundo.

Além das questões táticas e estratégicas, as palestras motivacionais marcaram sua trajetória e sempre foram elogiadas pelos jogadores que comandou. Algumas bizarras com o olhar de hoje, mas eficientes na proposta de fazer com que seus atletas entrassem concentrados e até “mordidos” para, se preciso, deixar até a vida no campo. Foi pioneiro também no uso do terno e do traje elegante à beira do campo. De fato, um treinador à frente do seu tempo no Brasil.

O pecado de Luxemburgo foi deitar sobre seus louros, desviar um pouco a atenção do campo e tentar ser um “manager” como Alex Ferguson interferindo em negociações. Difícil entender até hoje como um profissional bem remunerado e que dizia sempre que seu objetivo era trabalhar na Europa não se esforçou para aprender sequer o espanhol para adquirir fluência. Seu “portunhol” é piada até hoje em Madrid, assim como seus treinos em caixa de areia e a utilização do 4-2-2-2 na temporada 2005/2006.

Parou no tempo e seus trabalhos foram perdendo qualidade e capacidade competitiva. Quando os conceitos de Pep Guardiola e as respostas de Mourinho, Ancelotti, Klopp e outros treinadores fizeram o futebol evoluir 20 anos em cinco a partir de 2008/09, o brasileiro não percebeu essa revolução. Continuou vendo tudo como antes, como sempre ressalta em suas entrevistas e participações em programas de rádio e TV.

Ficou para trás, preso ao passado. Se não nota, não aplica. Muito menos cria metodologias para que suas equipes joguem, de fato, um futebol atual. Vive do nome, do impacto da mudança quando chega a um clube com sua “grife”. Mas logo que a chacoalhada em motivação passa não há conteúdo para melhorar o desempenho.

O Sport foi só mais uma equipe espaçada, muitas vezes atacando com quarteto ofensivo de um 4-2-3-1, mais um volante ou um lateral. Cinco na frente, cinco atrás. Distantes. Porque Guardiola e outros atualizaram e aprofundaram os conceitos de compactação dos setores de Arrigo Sacchi no Milan do final dos anos 1980, ainda a referência de Luxemburgo, que acha que nada aconteceu.

Para piorar, o temperamento e a vaidade exacerbada de quem já foi e ainda se acha o número um faz com que ele perca força também na gestão do vestiário. Muitos jovens de 19, 20 anos que comanda eram crianças quando ele venceu seu último título relevante: o Brasileiro de 2004 com o Santos. Difícil entender tanta “marra”. A consequência: enquanto outros boleiros veteranos de sua geração conseguem se manter como “paizões”, ele dificulta o relacionamento.

Complica mais ainda reclamando pela imprensa, criticando assessores e outras polêmicas, tantas desnecessárias. Nas vitórias que consegue no início do trabalho chama todos os méritos para si. Quando vem a má fase, a transferência de responsabilidade aparece. “Eu venci, nós empatamos, eles perderam”.

Em Recife o aproveitamento foi fraco: 40%. Em 34 partidas, 11 vitórias, oito empates e 15 derrotas. A última pela Sul-Americana para o Junior Barranquila na Ilha do Retiro, por 2 a 0. Se no Brasil está difícil se impor, que dirá nos torneios continentais que nunca venceu, nem nos tempos áureos.

Agora complicou de vez para Vanderlei Luxemburgo se reinserir no mercado. Porque ninguém mais corre por quem parou no tempo. Dentro e fora de campo. Uma pena.


O campeão carioca deu as caras no Fla-Flu da Sul-Americana
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André Rocha

Não foi só apenas a coincidência da repetição do placar da primeira final do Carioca, também com gol de Everton. O Flamengo da partida de ida das quartas-de-final da Sul-Americana lembrou o campeão estadual.

E neste bolo é possível incluir também a semifinal contra o Botafogo na Copa do Brasil. Diante dos rivais locais em disputas de mata-mata o time rubro-negro apresenta a fibra e a concentração que faltaram em tantos outros momentos da temporada. A rivalidade mais uma vez é o que move o Fla, seja com Zé Ricardo ou Reinaldo Rueda.

Concentração defensiva com duas linhas de quatro compactas para conter o volume ofensivo tricolor e organização para atacar. Desta vez com a criatividade de Everton Ribeiro, que percebeu a infiltração de Willian Arão e serviu com precisão em tempo e espaço. Finalização do camisa cinco e, no rebote de Diego Cavalieri, o gol de Everton.

Construção da vitória no primeiro tempo de controle e eficiência, mesmo com a saída de Rever, lesionado, para a entrada de Rhodolfo. Seis finalizações, duas no alvo. O Fluminense terminou com 52% de posse, cinco conclusões, mas apenas uma na direção da meta de Diego Alves, com Henrique Dourado batendo cruzado. Foram 13 desarmes corretos rubro-negros contra oito do rival.

Reação do time de Abel no segundo tempo, com bola na trave de Marcos Júnior, grande defesa de Diego Alves em chute de Gustavo Scarpa e pressão depois das entradas de Wendell e Wellington Silva nas vagas de Orejuela e Marcos Júnior. 13 finalizações e 57% de posse. Mas encontrou um Fla atento, encerrando a partida com 24 desarmes corretos. Podia ter ampliado em cabeçada de Juan. Entrega de Diego, Everton Ribeiro, sacrifício de Lucas Paquetá, novamente o substituto de Paolo Guerrero. Mudança de espírito.

Vantagem mínima, porém considerável. Valeu na primeira decisão estadual para confirmar na volta – triunfo por 2 a 1. O Flu está vivo, mas a má notícia é que não terá pela frente o Flamengo apático e disperso de boa parte da temporada. Nos clássicos fica claro que o time é outro.  O campeão carioca que deu as caras na Sul-Americana.

(Estatísticas: Footstats)

 


São Paulo 2×0 Flamengo – Nas contas de Dorival Júnior e Reinaldo Rueda
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André Rocha

São Paulo no 4-1-4-1 com Cueva como ponta articulador pela direita, circulando às costas dos volantes Cuéllar e Willian Arão. Petros cobria o setor auxiliando Militão. Flamengo num incompreensível 4-2-2-2 sem a referência que esvaziou a área adversária e o time ficou ainda menos contundente no ataque (Tactical Pad).

O campeão de 1970 e hoje colunista Tostão tem razão na crítica à valorização excessiva dos treinadores, no Brasil e no mundo. Em qualquer tempo, os grandes protagonistas são os jogadores, especialmente os capazes de lidar com situações imprevistas e, obviamente, os craques que definem jogos e campeonatos.

Mas em algumas ocasiões as escolhas e decisões dos comandantes são capazes de desequilibrar duelos, para o bem e para o mal.

Foi difícil entender o que Reinaldo Rueda queria com Berrío e Everton nos flancos e Geuvânio reaparecendo entre os titulares por dentro, fazendo dupla com Everton Ribeiro numa espécie de 4-2-2-2 que não se mostrou nada funcional.

Primeiro porque o Flamengo é um time moldado ofensivamente a partir do trabalho de seu pivô, seja Paolo Guerrero ou a improvisação de Lucas Paquetá. Sem ele, o que se viu foi uma equipe sem ideias, vivendo dos sprints de seus ponteiros e os cruzamentos que não encontravam uma referência na área adversária. Foram 16 nos primeiros 45 minutos, apenas um correto. Na maior parte do tempo, a área adversária ficou vazia.

Melhor para Dorival Júnior, que preparou sua equipe para enfrentar um Flamengo dentro do seu padrão, mesmo com a ausência confirmada do peruano camisa nove. Plantou Jucilei na proteção a Arboleda e Rodrigo Caio e fez a mudança no setor ofensivo que terminou de pender a balança a favor do São Paulo.

Cueva foi o ponta armador no 4-1-4-1 tricolor. Na maior parte do tempo saindo do lado direito para circular às costas de Cuéllar e Willian Arão. Sem maiores atribuições defensivas, já que Petros abria para ajudar Militão contra Trauco e Everton. O peruano era o grande articulador jogando entre as linhas espaçadas do adversário.

Um Flamengo mal escalado e novamente com baixa intensidade, displicente em um jogo do Brasileiro.  Desta vez pensando no Fla-Flu de quarta-feira, primeira partida das quartas de final da Sul-Americana. Apenas 42% de posse, uma finalização de Everton na direção da meta de Sidão.

Atuação tão fraca que até tira um pouco do peso do erro da arbitragem comandada por Rafael Traci ao validar o gol de Lucas Pratto usando o braço direito completando cobrança de escanteio e aproveitando desatenção de Rever. Vantagem que parecia questão de tempo, tal o domínio do time mandante no Pacaembu.

Superioridade consolidada com o segundo gol. De novo Cueva, mas aberto à direita para receber desvio de Militão após ligação direta de Sidão, chegar ao fundo com facilidade no setor de Trauco e colocar na cabeça de Hernanes. Quatro finalizações, três no alvo. Duas nas redes de Diego Alves.

Com Paquetá na vaga de Geuvânio, o reparo tardio na escalação inexplicável. E o Fla naturalmente teve mais posse, terminando praticamente empatado no controle da bola nos 90 minutos. Finalizou cinco vezes, com Sidão no final salvando cabeçada de Rhodolfo. Diego, poupado no banco para o Fla-Flu, até entrou bem no lugar de Berrío, lesionado.

Com Everton Ribeiro aberto pela direita, o Fla teve mais volume. O excesso de cruzamentos mais uma vez atrapalhou: 40, só dois executados com precisão. E faltou novamente a contundência do ataque “arame liso” em jogos mais parelhos.

O São Paulo viveu de contragolpes esporádicos, controlou espaços, finalizou só mais uma vez. Dorival sofreu outra vez com as limitações do elenco. As substituições pioraram o desempenho. Sorte do tricolor paulista, que respira na fuga do Z-4, que o jogo foi definido no primeiro tempo.

Resolvido pelas decisões dos treinadores. Desta vez o resultado pode ser creditado na conta do contestado Dorival Júnior e debitada na de Rueda. Tostão que me perdoe.

(Estatísticas: Footstats)

[Em tempo: o gol de Pratto é um erro de arbitragem, como tantos outros no campeonato. O marcado por Jõ sobre o Vasco em lance semelhante causou mais polêmica pelo contexto. Ou seja, as declarações do atacante do Corinthians depois do fair play de Rodrigo Caio. Mas quem leu o blog depois do acontecido lembrará do peso dado ao que ocorreu – leia AQUI e AQUI.]


A incompetência que trava o Flamengo bom pagador
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André Rocha

A estratégia dos preparadores de goleiros com Muralha definindo um mesmo canto em todas as cobranças de pênalti na decisão da Copa do Brasil, sem nenhuma inversão para surpreender os cobradores e, pior, com a informação chegando aos jogadores do Cruzeiro no Mineirão foi apenas mais um equívoco do departamento de futebol do Flamengo.

Um novo obstáculo para o clube no seu grande objetivo desde 2013: transformar as dívidas equacionadas e o aumento das receita em time forte, competitivo. Vencedor. Transformar investimento em desempenho e, consequentemente, resultado.

Mas ainda um erro pequeno diante de outros absurdos, como disputar um Brasileiro rodando o país sem considerar o enorme desgaste de viagens seguidas e jogando sem a vantagem real do mando de campo. Ou contratações mais que questionáveis, como Conca pela questões físicas, ainda que praticamente sem custos, e Berrío, que não era exatamente o ponteiro driblador e finalizador que Zé Ricardo havia pedido. Dois cartuchos queimados sem mudar o patamar da equipe.

Se a Copa do Brasil era uma meta de conquista em 2017, por que reforçar o elenco apenas quando as inscrições já estavam encerradas? No Brasileiro, o primeiro turno do Corinthians mostra que começar bem o campeonato pode ser uma vantagem a ser administrada no returno. Como, se o grupo de atletas só fica completo em agosto?

Exatamente quando a temporada afunila e não há tempo para treinar. O resultado é que o Flamengo, com estas práticas, acaba formando o time para vencer o Carioca. Aí, sim, os reforços ficam nivelados fisicamente e o tempo, ainda que não o ideal, para treinamentos melhora o entrosamento. Mas só mesmo para a disputa regional, porque o elenco disponível de fevereiro a maio não foi capaz de superar a fase de grupos da Libertadores. Mais um vexame continental.

Os muitos pecados podem ajudar a construir o seguinte cenário no final de 2017: sem títulos relevantes, talvez até sem o consolo da Sul-Americana, que agora é prioridade. E por colocar mais um torneio acima do Brasileiro, acabar sem uma vaga no G-6.

Em campo, como você já leu AQUI, o time segue “arame liso”, “pecho frio” e com elos fracos. Não mudou tanto assim com Reinaldo Rueda. Porque, como você também já viu neste blog, não há como esperar resultados diferentes com escolhas semelhantes.

O “gargalo” está na gestão. No presidente Bandeira de Mello que acumula a vice-presidência de futebol e já se mostrou mais político que executivo, no CEO Fred Luz que não tem experiência no esporte, no diretor de futebol Rodrigo Caetano sem poder de decisão e aparentemente acomodado e no gerente Mozer que parece sem função na prática.

Não há outro termo, por maior que seja o respeito aos profissionais e à uma administração que viabilizou financeiramente um clube que parecia ladeira abaixo rumo à insolvência: é a incompetência que trava o Flamengo em seus planos ambiciosos. É urgente mudar nomes e métodos antes que cheguem à tola conclusão de que o Fla campeão é o do caos e das dívidas, não o bom pagador.

Nem voltar ao inferno, nem seguir no limbo. Caminhar é preciso.