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Eles não podem errar! A dura transição do mercado de treinadores no Brasil
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André Rocha

Quando Zé Ricardo chamou Matheus Sávio para dar instruções enquanto a torcida do Flamengo no Serra Dourada pedia a entrada da joia Vinícius Júnior, o treinador sabia que corria riscos por suas convicções.

Afinal, se o time fosse eliminado da Copa do Brasil, independentemente do rendimento do jovem atacante, que entrou muito mal contra o San Lorenzo na traumática derrota na Libertadores, as chances de ser demitido cresceriam exponencialmente.

Mas Sávio, assim como contra o Atlético Mineiro no Maracanã, na estreia do Campeonato Brasileiro, colocou um cruzamento no fundo das redes do goleiro Felipe do Atlético-GO. O choro copioso do jogador foi sintomático. É muita pressão para quem ainda está no início de sua trajetória entre os profissionais.

O mesmo vale para os treinadores. No país do futebol de resultados, o comandante passa de “boa novidade” e “atualizado” para “estagiário” e “rolando lero” a cada semana. Mesmo que a sua equipe esteja organizada e o placar adverso tenha vindo por uma infelicidade na defesa ou chances perdidas na frente.

Ou até se eles se equivocarem, algo absolutamente natural. No mais imprevisível e caótico dos esportes, o que foi treinado baseado em observação e análise pode dar errado por uma noite ruim do atleta e aquela mudança aleatória, mais por conta da intuição, pode terminar em vitória. Para quem tem bagagem já é um desafio, imagine para novatos.

Eles simplesmente não podem errar. Seja Zé Ricardo, Roger Machado, Eduardo Baptista…Mesmo Jair Ventura, com enorme crédito no Botafogo, quando tentou mudar a maneira de jogar contra o Barcelona de Guayaquil no Estádio Nilton Santos e saiu derrotado as críticas vieram pesadas.

A transição no mercado de treinadores é dura. Depois dos 7 a 1 que mandaram Luiz Felipe Scolari para a China e da queda em desempenho e resultados de grifes como Vanderlei Luxemburgo, Muricy Ramalho e até Marcelo Oliveira, apesar dos títulos com Cruzeiro e Palmeiras, um buraco foi aberto para uma leva de profissionais com conceitos atualizados, vendo e pensando o futebol como é jogado nos grandes centros.

Um jogo mais coletivo e que trabalha com informações e gestão na comissão técnica. Menos com carisma e discursos motivacionais. Quando o resultado acontece, tudo isso é louvado. Se não, bate a saudade dos velhos nomes e de fórmulas antigas. Como se o que deu certo na década passada necessariamente dará em 2017.

O cenário é complexo. Dá para contar nos dedos de uma das mãos os treinadores do país que conseguem unir vivência como ex-jogador, conteúdo atual, sensibilidade na gestão de grupo e da comissão técnica. Ou seja, no auge da carreira. O melhor deles está na CBF.

Por conta de todas as dificuldades citadas, as experiências com estrangeiros não foram felizes – vide Diego Aguirre, Ricardo Gareca, Edgardo Bauza, Juan Carlos Osorio, entre outros. Quando estão começando a aprender o idioma para se comunicar já estão passando no RH e voltando para casa.

Simplesmente não há paciência, porque falta convicção para acreditar num projeto de longo prazo. Roger Machado e Zé Ricardo acharam que teriam um pouco mais de paz e respaldo para trabalhar por conta de conquistas nos estaduais. Mas basta uma sequência de resultados ruins e tudo é esquecido.

Ainda mais em clubes dos quais se espera muito. Pela capacidade de investimento e ilusão alimentada por departamentos de marketing e também por nós da imprensa, o torcedor passa a crer que seu time de coração conta com um elenco estelar e que basta o treinador distribuir certo as camisas e não atrapalhar para tudo acontecer.

Não é assim que funciona. Estar atualizado nas ideias e métodos ajuda a não ser surpreendido, a minimizar a aleatoriedade do jogo. Mas não garante nada. Muito menos onde não se valoriza filosofia e identidade, só o placar final e a conquista que vão gerar memes e zoações. Até tudo ser esquecido no próximo jogo.

Por ora, Dorival Júnior é o sobrevivente na Série A, comandando o Santos desde julho de 2015. Já Ney Franco foi demitido do Sport depois de perder a Copa do Nordeste para o Bahia com menos de dois meses de trabalho. Treinadores com rodagem de mais de uma década. Paulo Autuori, com mais de quarenta anos à beira do campo, cansou. “A rotina consome”, explicou. Vai ser gestor no Atlético-PR e abre espaço para Eduardo Baptista.

Paciência não significa ser permissivo e deixar de cobrar o desempenho que chega ao resultado. Os profissionais são bem remunerados para isso. O ponto nevrálgico é o imediatismo, a incapacidade de observar um lastro de evolução, vislumbrar um futuro melhor. Tudo ainda se resume à tentativa e erro. Até acertar. Para ontem.

Enquanto isso, segue a roda vida, a máquina de moer técnicos. Zé Ricardo escapou no gol de Matheus Sávio. Quem será o próximo?


Sectarismo: a razão do fetiche de descobrir o time de coração do jornalista
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André Rocha

O torcedor que participa de fóruns, sites e grupos de WhatsApp dedicados ao seu time de coração já deve ter se deparado com a seguinte situação: uma crítica que é consenso nas discussões internas nunca é bem aceita quando sai da boca de um rival.

É como alguém de fora da família comentar o comportamento ou algum desvio de um pai ou irmão. É verdade, mas deve sempre ter tratada como “roupa suja se lava em casa”.

Esse fetiche de descobrir o time de coração do jornalista sempre me intrigou. Afinal, o que isso influenciaria no seu trabalho? Até porque, se a paixão não diluir ao longo do tempo, o mais comum é adotar um tom mais crítico com este mesmo time. Não para buscar isenção, mas por se importar mais com ele.

Particularmente, sempre preferi o futebol ao time de coração. Como já contei neste blog, cheguei ao ponto de assistir a um clássico no lado do rival no Maracanã e efetivamente torci para o melhor time à época, que me encantava.

A seleção brasileira também fica acima, até hoje. Legado do escrete de 1982 e todo seu simbolismo. A escolha do time, confesso, foi mais para contrariar a família portuguesa e também por ser o time mais vencedor naquele momento. Ou seja, optei pelo Flamengo de Zico, aos oito anos de idade.

Mas acreditem: com o tempo, o jornalista tende a torcer mais por suas convicções se concretizarem em resultados do que pela paixão de infância. Várias vezes, mesmo no estádio, preferi a vitória do adversário do rubro-negro por ser mais alinhado ao que acredito ser o melhor para o futebol.

O analista se preocupa com outras questões, como o legado de uma maneira de jogar, a visão de futebol de um treinador vitorioso e que pode entrar na linha de sucessão na seleção brasileira – no meu caso, essa paixão se transformou menos, apesar da CBF.

Mas para o torcedor a relação é direta: só quem torce para o clube pode opinar. Mesmo os mais críticos contam com uma paciência diferente. Se ele está apontando o erro é porque quer o melhor do time. Mas se torce para o rival só há uma explicação: quer plantar crise, prejudicar. Ainda que a observação seja ponderada, respeitosa…e exatamente a mesma que ecoa nos grupos dedicados ao clube.

Há as exceções, normalmente dos colegas que preferem, até pelo traço da personalidade, buscar um consenso, fugir da contundência e sempre procurar os aspectos positivos em todos os times. São os “caras legais”. Ainda mais se eles entram naquele grupo de torcedores mais críticos com o próprio time de coração. Aí é mais fácil ser perseguido pelos “irmãos” de cores e credos. Mas, como disse, de maneira diferente, mais branda. É “um de nós”.

Em qualquer cenário, porém, o que prevalece é o sectarismo. É transformar o time em seita, religião. Algo comum nos perfis criados em redes sociais. O indivíduo não tem rosto, nem nome. Tudo é relacionado ao clube, desde a foto até a descrição. Ali impera a intolerância e a intransigência.

Qualquer coisa que não é elogio vira perseguição de um rival. E, portanto, merece ser massacrado. Virtualmente e se cruzar na rua…Então comentaristas viram inimigos. O torcedor chega ao ponto de seguir apenas para patrulhar, quando ignorar seria o mais saudável para as duas partes. É até o mais lógico: se o que o jornalista diz não tem credibilidade, para que acompanhá-lo?

A resposta está na necessidade de ter um alvo para gritar “chupa!” quando seu time vence. Aquele inimigo imaginário que alguns treinadores criam quando ele não existe para motivar seus atletas. Reparem: quase toda conquista no Brasil é celebrada “para calar a boca”. De alguém que simplesmente é pago para expressar sua opinião e ajudar a formar a do público.

O jornalista que paga contas, às vezes tem que lidar com uma escala apertada que o enfia no estúdio e numa redação durante um dia inteiro. Que precisa conciliar isso com a família, amigos, estudo…E o torcedor tem certeza absoluta que ele passa o dia arquitetando um jeito de prejudicar o rival.

Não faz sentido. Mas na prática a derrota do rival é tão ou mais deliciosa que a conquista do próprio time. É preciso ter uma referência para transmitir, por oposição, valor ao que se ama. Sempre me intrigou em estádio, nos tempos de clássicos com duas torcidas, o torcedor que em vez de celebrar o gol do seu time e abraçar quem está do lado prefere se virar para o lado rival e xingar, apontar o dedo médio, etc.

É assim, não vai mudar. Ao menos por enquanto. Difícil entender. Mas me ajudou a compreender essa fissura pelos times dos jornalistas. É o sectarismo que precisa do “outro lado”. É estúpido, mas é humano. Mais uma prova de que nossa sociedade é doente. Resta sobreviver e manter respirando a paixão que iniciou todo o processo: o futebol.


A incrível capacidade do Flamengo de passar vergonha na Libertadores
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André Rocha

Aconteceu de novo. Em 2007 e 2008, eliminações vexatórias nas oitavas-de-final. Contra o Defensor pela fragilidade do time uruguaio, apesar da terrível arbitragem de Hector Baldassi no Maracanã. No ano seguinte, o provincianismo patético de usar um jogo eliminatório de Libertadores para comemorar título estadual e se despedir de Joel Santana. Cabañas não perdoou.

Em 2012 e 2014, nem isso. Despedidas ainda na fase de grupos, com adversários acessíveis. Sempre fraquejando em jogos decisivos. Exceto em 2012, o Fla foi campeão estadual. Como nesta temporada.

Entre as nove combinações de resultados, apenas uma eliminava o então líder do Grupo 4. Exatamente a vitória do Atlético Paranaense no Chile sobre a Universidad Católica e a derrota em Buenos Aires para o redivivo San Lorenzo.

Aconteceu pela fé inabalável do time argentino, que teve 58% de posse, efetuou 50 cruzamentos e finalizou 13 vezes. Empatou com gol do zagueiro Angeleri, virou no ataque derradeiro com Belluschi. No “abafa” que só conseguira impor no início do jogo. Depois o Fla controlou sem posse de bola, fechando os espaços.

Abriu o placar com Rodinei. Com o gol de Santiago Silva em Santiago, tudo parecia sereno. Até entrar em campo o maior pecado rubro-negro na temporada, ou desde o ano passado: a fragilidade ofensiva.

A maior contratação para o ataque, Orlando Berrío, foi um enorme erro de avaliação de diretoria e comissão técnica. Porque não é driblador, nem finalizador como desejava o clube. Pior: tropeça na bola, comete erros técnicos grosseiros e não consegue levar vantagem no um contra um. Desperdiçou contragolpes simples. Assim como Everton, Gabriel. Antes Cirino…

Por último, Matheus Sávio, que entrou na vaga de Gabriel e foi frágil nas divididas nos lances dos dois gols. O jogo ficou grande demais para o jovem da base. Uma prova de que o elenco tem carências e desta vez a organização e a concentração defensiva não compensaram.

Zé Ricardo foi corajoso na formação inicial, mas a entrada de Romulo também foi profundamente infeliz. A troca de Everton por Juan um recado a Diego Aguirre que o Flamengo temia o que só não aconteceu um minuto antes por causa de uma grande defesa de Muralha em cabeçada de Caruzzo.

Mas no lance final foi inevitável. Com a virada atleticana por 3 a 2 com o gol do heroi improvável Carlos Alberto veio a punição ao clube que novamente superdimensionou um título estadual, desgastou o elenco na competição que não era prioritária.

San Lorenzo e Atlético conseguiram vencer fora de seus domínios. O Flamengo somou os nove pontos disputados no Maracanã. Não foi suficiente. Em 2017, porém, não foi o pecado capital. Sem qualidade para transformar oportunidades em gols, o Flamengo que podia ter chegado a Buenos Aires classificado ficou sujeito às aleatoriedades no futebol.

E, claro, à sua incrível capacidade de passar vergonha na Libertadores.

(Estatísticas: Footstats)


Abertura da Série A sinaliza equilíbrio que deve ser a marca da competição
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André Rocha

Dois bons jogos no Maracanã e na Arena em Itaquera. Em tática e no equilíbrio das ações.

O primeiro gol da Série A em 2017 saiu de uma jogada pela esquerda. Desde a divulgação das escalações, parecia claro que a opção de Zé Ricardo pelo Flamengo no 4-2-3-1 com Matheus Sávio seria para forçar o jogo no setor: Trauco, Everton e o jovem meia para cima de Carlos César, substituto de Marcos Rocha no Atlético Mineiro que não tinha o devido auxílio de Elias.

Cruzamento fechado de Sávio, Victor ficou atento a Guerrero e a bola entrou. Gol único de uma primeira etapa em que os visitantes tiveram a bola (terminaram com 58%), mas foram pouco efetivos. Faltava mobilidade, criatividade e chutes de fora da área, já que o sistema defensivo do Fla estava sólido, com concentração máxima.

O time rubro-negro foi mais incisivo, porém faltou novamente contundência. Também a tomada de decisão correta de Berrío em um contragolpe todo dele, mas o colombiano preferiu acionar Guerrero com caminho livre à frente para finalizar cruzado.

Em um jogo tão equilibrado, foi fatal. Roger Machado lançou mão de seu forte elenco trocando Otero, de atuação pluripatérica, por Cazares, que bagunçou a retaguarda rubro-negra e teve duas chances claras de empatar, mas Rafael Vaz salvou ambas sobre a linha.

O contestado zagueiro em tarde de heroi não pôde evitar o erro de Arão e Márcio Araújo na saída de bola, o “pé mole” de Rever na dividida que caiu nos pés de Robinho. Deste para Fred até chegar a Elias no gol de empate.

Zé Ricardo foi corajoso ao mandar a campo Ederson, vindo de longa inatividade, e Vinicius Junior, depois de apostar na formação inicial do último Fla-Flu quando trocou Sávio por Renê e Trauco voltou ao meio-campo. Mas o peruano caiu de produção e obrigou o treinador a mudar de novo.

A joia de 16 anos entrou com afobação natural, mas nada que comprometesse. Roger trocou Fred e Robinho por Rafael Moura e Maicosuel. Ganhou vigor físico, perdeu poder de decisão. Podia ter custado caro, mas Gabriel salvou gol certo de Guerrero.

Apesar da maior posse e das 13 finalizações do Atlético contra dez do Fla, ninguém merecia perder no Maracanã.

Nível mantido em São Paulo. Com uma Chapecoense organizada num 4-1-4-1, com linhas compactas e sem abdicar do jogo, mesmo fora de casa. Com Apodi, que era um típico ala “peladeiro” há alguns anos atuando como lateral, um defensor de última linha. Podia ter marcado com Arthur.

O Corinthians foi às redes quando a jogada individual de Fagner quebrou as linhas de marcação e Rodriguinho, de novo mais avançado no 4-2-3-1 de Fabio Carille, serviu Jô. Descomplicando uma disputa dura, de bom nível tático e estratégico.

Complicada pela lesão de Pablo ainda no primeiro tempo. Pedro Henrique entrou e não comprometeu, mas sempre há uma perda na coordenação da última linha posicional com qualquer mudança nas peças.

O time de Carille novamente se complicou quando precisou ter a bola, mesmo com Jadson saindo mais do lado direito para circular e ajudar Rodriguinho e Maycon na armação das jogadas. Ainda assim, não há fluência para criar a chance cristalina.

A desvantagem não desmanchou mentalmente o time catarinense, que seguiu fiel à sua proposta de defender com organização e trabalhar pelos flancos. Sem muita criatividade no meio com Luiz Antonio e João Pedro, mas levando vantagem pela direita com Apodi e Rossi para cima de Arana e Romero.

Paraguaio que errou em um contragolpe de três contra um, depois cinco contra dois no mesmo lance. O futebol costuma punir. O golpe veio no gol de Wellington Paulista no rebote de nova jogada pela direita que encontrou Arthur Caike contra Fagner e a cabeçada no travessão.

O Corinthians tentou um abafa final com Kazim e Jô na área adversária e Leo Jabá pela esquerda – saíram Gabriel e Romero. Vagner Mancini fechou sua equipe apenas nos minutos finais. Terminou com 41% de posse, mas 15 finalizações, o triplo do anfitrião – quatro a dois no alvo.

Empates em jogos iguais. Mesmo descontando a empolgação e a tensão naturais em estreias, as partidas deixaram bem claro que a evolução tática chegou ao país. Com atraso, mas chegou. Com equipes mais coletivas e organizadas, a tendência é o campeonato ficar ainda mais parelho. O que já é sua marca.

Melhor para todos. Ótimo para quem assistiu às duas partidas com poucos gols, mas bom futebol.

(Estatísticas: Footstats)


Zé Ricardo, exclusivo: “Meta no Brasileiro é tornar Flamengo mais criativo”
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André Rocha

De campeão da Copa São Paulo a técnico interino, de efetivado à vaga direta na Libertadores pelo Brasileiro que não vinha desde o título em 2009. Agora campeão carioca. Com o empate sem gols contra o Atlético-GO pela Copa do Brasil utilizando um time repleto de reservas, são 65 partidas. 37 vitórias, 17 empates e 11 derrotas. 65% de aproveitamento.

Mais que números, Zé Ricardo entrega desempenho de um Flamengo difícil de ser batido. Organizado e concentrado. Que levanta taça mesmo sem Diego, a principal estrela. Não se acomoda e, mirando o Campeonato Brasileiro que começa no fim de semana,  já pensa mais à frente, quando Conca estiver pronto. “Nosso primeiro pensamento é tornar o time mais criativo”.

Confira a entrevista exclusiva com o treinador, que fala também de Márcio Araújo como exemplo de força mental, aproveitamento da base, cabeça fervilhando de ideias e o que vê de bom no futebol pelo mundo. Inclusive confessando sua torcida na final da Liga dos Campeões entre Real Madrid e Juventus.

 

BLOG – Zé, é absurdo afirmar que a marca da trajetória do Flamengo sob seu comando, culminando com o título carioca, é a força mental – do técnico novato para lidar com pressão, do Marcio Araújo suportando as críticas, de todos para compensar a ausência do Diego, etc.?

ZÉ RICARDO – A concentração é nosso mantra. Eu nem preciso lembrar muito, os próprios atletas se cobram, porque todos se precisam. O jogador precisa saber o que fazer em qualquer circunstância, inclusive a mais inesperada.

Sobre o Márcio Araújo, sem dúvida é um exemplo para todos nós. A personalidade dele é impressionante! Não liga para críticas e elogios e faz isso sem esforço. É totalmente focado no campo. Quando o Rômulo chegou, eu disse ao Márcio que não era para barrá-lo. Com o Diego sendo convocado, eu imaginava trabalhar com os dois, mais o Willian Arão. Era uma possibilidade e aconteceu.

BLOG – E a utilização dos laterais Rodinei e Trauco em funções diferentes, também gerou pressão por usar quatro jogadores da mesma posição?

ZÉ RICARDO – O importante é ter convicção. Pelas características, eles se encaixam bem nessas funções e abrem espaço, por exemplo, para o Renê ganhar seqüência na lateral. Como o Marcelo Cirino estava para sair para o Internacional, e depois acabou saindo, trabalhei com o Rodinei como externo pela direita já no primeiro jogo oficial, contra o Boavista.

Mas tem que acreditar muito nos atletas, confiar. Porque é difícil passar pelas cobranças de quem não compreende a diferença entre posição e função. E eu sei que se não tivesse conseguido os resultados talvez eu não estivesse aqui hoje como técnico do Flamengo. Mas, assim como o Márcio, eu procuro agir com convicção para ter a consciência tranquila.

BLOG – O Márcio Araújo tem se arriscado mais à frente, fazendo inversões de jogo com passes longos. Isto é mais confiança ou treinamento?

ZÉ RICARDO – É trabalho. Um complemento desde a pré-temporada para a saída de bola não ser sempre curta. Também queria um passe mais profundo de trás para acionar a velocidade do Berrío, fazer o colombiano acelerar. Ele trabalhou e ganhou confiança. Antes era o passe de segurança, até para se preservar. Hoje ele já se projeta à frente dos outros dois meio-campistas. Como diz o Bielsa, com treinamento e confiança, dá para fazer tudo em termos táticos e estratégicos.

BLOG – Dá para encaixar o Diego na volta dele num 4-1-4-1, sem retornar ao 4-2-3-1?

ZÉ RICARDO – Perfeitamente. A opção de colocar Diego mais avançado foi para aproveitar todo seu potencial mais próximo do Guerrero. Conversei com ele para entrar na área, fazer gols. Mas é uma questão de conscientizar na fase sem posse de bola, no trabalho defensivo, e isso ele faz muito bem. Também pode ajudar na saída de bola, atuando mais recuado, na mesma linha do Arão.

BLOG – No início da temporada, você encaixou Mancuello como um meia atuando pela ponta visando preparar a equipe para receber Conca. Com a lesão de Diego, você voltou aos ponteiros velocistas. Qual o plano para quando tiver todos disponíveis? Ainda há o propósito de escalar Diego e Conca juntos?

ZÉ RICARDO – É o nosso primeiro e principal pensamento. A meta no Brasileiro é tornar o time mais criativo no último terço, quebrar as linhas de marcação. Coloquei, sim, o Mancuello pensando no Conca, também porque a concorrência no meio-campo era bem dura para ele. Foi até bem pelo lado. Depois foi para o meio, agora está machucado.

Com Diego e Conca disponíveis, eu tenho diversas possibilidades, a cabeça até fervilha (risos). Se o Conca jogar pelo lado direito, eu posso compor com Pará e Arão fechando em um trabalho mais forte de cobertura. Mas também posso abrir o Diego pela esquerda, com Berrío à direita e Conca centralizado, mais solto. Aí o Márcio junto com o Trauco fechariam mais o setor. O Diego já atuou assim, inclusive no Atlético de Madri, com o Simeone. São ideias, os treinamentos e jogos é que vão mostrar a melhor forma de aproveitar todo esse potencial.

Uma das possibilidades na cabeça de Zé Ricardo: Diego aberto pela esquerda, Conca mais livre no centro e Márcio Araújo dando suporte defensivo ao meia que mudaria de função para o encaixe do argentino vindo de longa inatividade. Tudo para dar mais criatividade ao setor ofensivo (Tactical Pad).

BLOG – Sei que você não fala em jogadores que não fazem parte do elenco que comanda, então farei uma pergunta genérica: quando você pensa em Everton Ribeiro num time qualquer, o visualiza na mesma função executada no Cruzeiro – ponta articulador pela direita jogando com pé invertido, o canhoto?

ZÉ RICARDO – Pensando até no time em que atua nos Emirados Árabes (Al Ahli), ele pode atuar nas três posições atrás do centroavante num 4-2-3-1. Ou mesmo num 4-1-4-1, até porque ele foi lateral quando surgiu na base do Corinthians.

BLOG – Se você tiver três meias de qualidade técnica, em plena forma, pode até abrir mão dos ponteiros?

ZÉ RICARDO – Como disse, tudo depende dos treinamentos, dos jogos, até das características dos adversários. Na base eu trabalhei com Cafu, Matheus Sávio e Paquetá atrás do Vizeu. Nenhum velocista típico. Você pode perder de um lado, mas ganhar de outro.

BLOG – Você reconhece que se tivesse Conca desde o início da temporada para testar durante o Carioca seria mais fácil do que tentar encaixá-lo agora, com Brasileiro e jogos decisivos em Libertadores e Copa do Brasil, caso o time se classifique?

ZÉ RICARDO – É óbvio. Mas foi uma oportunidade de mercado, contar com um jogador que dispensa maiores explicações sobre seu potencial técnico. Eu sei que haverá pressão. Eu vi pessoas exigindo a escalação do Ederson assim que o Diego se lesionou. Coloquei contra o Atlético-GO e todo mundo viu a dificuldade, natural pela falta de ritmo de jogo.

O Conca vai passar pelo mesmo, é quase um ano sem jogar. Felizmente a conquista do Carioca tira um pouco do peso das cobranças e há mais tranqüilidade e confiança para trabalhar e fazer testes, mesmo em meio a jogos tão duros. Mas isto acontece em toda temporada. O Brasileiro nem começou e tivemos cinco partidas decisivas em 15 dias!

BLOG – Eu tenho a impressão de que você, por conviver com todas essas pressões tendo subido há pouco das divisões de base como treinador, tem uma cautela até excessiva com os jovens que comandou, com temor que se queimem por conta de uma atuação ruim. Estou errado?

ZÉ RICARDO – Não. Eu reconheço o cuidado, que às vezes passa até do ponto. Me preocupo com a pressão. Porque há torcedores e jornalistas que têm uma paciência maior com quem vem da base. Mas também existem outros que acham que o garoto tem que dar resposta imediata e não é assim que funciona. Não dá para lançar todos ao mesmo tempo.

BLOG – Para finalizar, o que tem chamado sua atenção no futebol mundial?

ZÉ RICARDO – Ah, a Juventus! Como bom italiano (risos). Sem dúvida terá minha torcida na final da Liga dos Campeões. Nos meus estudos e observações noto que cada vez mais os times têm duas formas de controlar o jogo: pela posse ou pelo espaço. Contra o Barcelona no Camp Nou, eles negaram o meio para o adversário trabalhar, fecharam até com seis na última linha e não deram brecha. Mas também sabem ficar com a bola, se necessário. Aliás, esta é a maior mudança do futebol atual, porque culturalmente o italiano prioriza muito a defesa.

Me chama atenção também a intensidade do futebol alemão, a posse dos espanhóis, que admiro muito, e o 5-4-1 mais “duro” do Chelsea, que se sustenta muito na frente com o Diego Costa, que retém bem a bola e é ótimo finalizador.

 


Carille, Zé Ricardo, Roger, Beto Campos: o legado de Tite nos estaduais
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André Rocha

Objetivamente, nenhum dos quatro treinadores que conquistaram os títulos estaduais em São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Rio Grande do Sul utilizou o 4-1-4-1 que virou o desenho tático “de cabeceira” de Tite no Corinthians campeão brasileiro de 2015 e agora na seleção brasileira.

Mas as ideias de Adenor Leonardo Bacchi estão lá. As mais marcantes: última linha de defesa posicional no Corinthians de Fabio Carille, ex-auxiliar de Tite. O jogo apoiado, baseado em triangulações pelos lados do campo, mesmo sem tantas incursões por dentro dos ponteiros, no Flamengo de Zé Ricardo, outro que sempre cita o técnico 100% com a seleção brasileira como inspiração.

No Atlético Mineiro de Roger, a capacidade de se adaptar às circunstâncias, propondo ou sendo mais reativo, encaixando um terceiro volante para liberar Elias e tentando dar pausas ao “Galo Doido”. Por fim, um Beto Campos no supreendente Novo Hamburgo que sempre cita o técnico da seleção como referência e faz sua equipe se defender bem, mas também não abdicar do jogo.

Nos quatro discursos, sempre a palavra “mágica”: desempenho. E outra quase tão importante: concentração. Entrar focado nos movimentos coletivos para o time não se espaçar. Força mental para se adequar às dificuldades e ao contexto dos jogos. Ter sempre um norte: jogar bem sempre será o melhor caminho para conseguir vitórias e títulos.

Com méritos, sem atalhos ou subterfúgios, jogando ao natural. Equilibrando ataque e defesa. Entregando mais que só o resultado. Falando do jogo em si, transmitindo conceitos, abertos ao novo. Cada um à sua maneira.

É inspirador ver os pilares de Tite se espalhando entre os treinadores no futebol brasileiro. Nos quatro principais estaduais, o legado do melhor do país terminou em taças.


Flamengo passa com louvor por seu “batismo de fogo” na Libertadores
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André Rocha

O futebol é dinâmico. O Botafogo, que conseguiu sua classificação para a fase de grupos da Libertadores em duas etapas, foi considerado um time com vantagem por ter passado por disputas eliminatórias bem duras.

Mas no momento de confirmar a classificação no Grupo 1, hesitou no Engenhão contra o Barcelona de Guayaquil. A derrota por 2 a 0 não é nenhuma tragédia, mas abalou a imagem de time sólido mentalmente e fortíssimo em casa.

Já o Flamengo vem sendo consistente em desempenho dentro de casa e fora. Mas só pontua no Maracanã. A terceira partida com estádio lotado, porém, era decisiva. Com os surpreendentes 3 a 0 do San Lorenzo sobre o Atlético Paranaense na Arena da Baixada, não conseguir os três pontos significaria levar a decisão para a última rodada exatamente contra os argentinos. Fora de casa.

Foi o “batismo de fogo” do Flamengo, que nas últimas edições do torneio continental costumava se complicar em jogos com estas características. Também se dispersava quando as partidas se alternavam com decisões estaduais, priorizando a disputa regional.

Não desta vez. Torcida e time sintonizados no clima de final. Cientes da dificuldade diante da Universidad Católica que era organizada no 4-2-3-1 e com bons valores individuais, como Fuenzalida, Buonanotte, Kalinski. Mais Santiago “El Taque” Silva na frente.

Cabia ao Flamengo atacar com paciência e sem perder a concentração defensiva, grande virtude na vitória sobre o Fluminense na primeira final estadual. No primeiro tempo, alguma afobação e um dilema na execução do 4-1-4-1 proposto por Zé Ricardo: Guerrero era o único jogador capaz de um passe diferente quando recuava para articular. Mas também é o finalizador mais eficiente do quinteto ofensivo.

Sacrificado, o peruano não se escondeu. Pelo contrário. Das 23 finalizações, tentou nada menos que 13. Na primeira etapa, porém, a única oportunidade cristalina foi completando passe de Willian Arão e chutou em cima do goleiro Toselli. A mais clara, no entanto, foi de Fuenzalida infiltrando livre entre Rafael Vaz e Trauco.

No segundo tempo, a surpresa com Rodinei na vaga do apagado Mancuello, que desta vez não tem desculpa pelo mau rendimento. Foi escalado na função para a qual foi contratado no início de 2016 e não deu sequência às jogadas.

Com cinco minutos, golaço de canhota do lateral reserva transformado em ponteiro. Rodinei seguiu voando pela direita, fazendo dupla com Pará. Gabriel, centralizado, mesmo com todas as suas limitações, confundiu a marcação adversária circulando às costas dos volantes. Mas novamente faltou contundência para matar o jogo.

Pagou com a única finalização de Santiago Silva no jogo. Cabeceando entre Rever e Vaz. Em três conclusões do centroavante nas duas partidas entre as equipes, dois gols. Silêncio no Maracanã, massa preocupada, time tenso.

Entrou em cena Guerrero, para marcar exatamente na finalização mais complicada: com o marcador em cima, o chute cruzado entre as pernas do defensor e no canto de Toselli. Depois de onze tentativas. Haveria mais uma, no final, bloqueada.

Mas a vitória a esta altura já estava definida pelo gol de Trauco. Lateral que virou meia de novo, com a entrada de Renê no lugar de Gabriel. Mas centralizado, porque aparentava cansaço e Everton seguiu recompondo no setor esquerdo que a Católica atacava seguidamente.

Gol de perseverança, na sequência de chutes que podia ter virado um passe para Arão livre. Mas a conclusão de direita entrou e resolveu a questão da penúltima rodada. Não garante a classificação e envolve até um certo risco, já que a derrota na Argentina combinada com a vitória atleticana no Chile elimina o time carioca.

A rigor, um time que finalizou 40 vezes no campeonato, média de oito por jogo, já deveria estar com a vaga garantida, 100% de aproveitamento. Ainda falta contundência, que pode fazer falta mais à frente na temporada.

Mas valeu pela liderança do Grupo 4 e, principalmente, por seu simbolismo. Por não se entregar nem se desesperar depois do empate. Por manter o foco na competição que é prioridade em 2017.

Pelas mudanças do treinador que, mesmo questionáveis para quem não entende a diferença entre posição e função, deram certo na prática. Sem Diego, Donatti, Romulo e Berrío. Fora Conca. Com bela atuação de Marcio Araújo na proteção da retaguarda.

Na prova mais difícil até aqui, o Flamengo passou com louvor.

(Estatísticas: Footstats)

 

 


No primeiro ato, vitória da concentração defensiva absoluta do Flamengo
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André Rocha

Os 3 a 3 da final da Taça Guanabara, com derrota nos pênaltis, deixou claro para o Flamengo que enfrentar o jovem Fluminense de Abel Braga, time de intensidade, volume de jogo e ímpeto ofensivo, exigiria concentração absoluta no trabalho defensivo.

O resultado prático no Maracanã foi o Fla de Zé Ricardo novamente no 4-1-4-1, desta vez com Berrío pela direita na vaga de Gabriel. Depois Rômulo sairia com lesão no joelho para a entrada de Mancuello que, por características e limitações físicas, por vezes ficava mais adiantado, com a equipe voltando ao 4-2-3-1.

Primeiro tempo de controle da posse e postura ofensiva, com Willian Arão atento à saída de bola do jovem Wendel, bloqueando as descidas de Lucas, que se manda sem posição física e deixa o volante Orejuela guardando sua posição. Muita atenção no cerco aos pontas Richarlison e  Wellington Silva e Márcio Araújo ágil no auxílio aos zagueiros e ligado nos movimentos de Sornoza.

Ofensivamente, jogo pelos flancos, com os pontas Berrío e Everton buscando as diagonais e Mancuello e Arão se aproximando de Guerrero. Passes simples, jogadores próximos e encontrando soluções diante da pressão dos adversários sobre o oponente com a bola. Aproveitando nos primeiros 45 minutos o nítido nervosismo dos garotos tricolores em uma final.

Nas jogadas aéreas, forte do Flu nos jogos mais duros, atuações esplêndidas de Réver, Rafael Vaz e Guerrero, o mais sacrificado na execução do modelo de jogo sem Diego. Precisando recuar para ser o armador, fazer o pivô, disputar com os zagueiros adversários nas ligações diretas e ainda acelerar os contragolpes, especialmente na segunda etapa.

Porque o Flamengo que sofre para ir às redes ganhou de presente no primeiro tempo a furada grotesca de Renato Chaves que Everton não desperdiçou. Gol único de uma vitória construída por um trabalho coletivo que é mérito do quase sempre contestado Zé Ricardo. Equipe que soube sofrer, mas criou  alguns contragolpes que Leandro Damião e Matheus Sávio, substitutos de Guerrero e Berrío, não aproveitaram.

É evidente que a final está aberta, até pelo jogo decisivo do Flamengo na quarta-feira pela Libertadores contra a Universidad Católica. Porque a concentração defensiva terá peso ainda maior. No primeiro ato de noventa minutos da final carioca foi a diferença.


“Três volantes”, “retranca”? Vitória do Flamengo chuta longe os clichês
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André Rocha

O 4-1-4-1 montado por Zé Ricardo sem Diego: Márcio Araújo na proteção da defesa e força pelas laterais com triangulações. Mais efetivo pela esquerda, atacando o lado fragilizado do Botafogo no habitual 4-3-1-2 que se desmembra em duas linhas de quatro sem a bola (Tactical Pad).

A semana inteira de preparação do Flamengo foi de expectativa para a solução que Zé Ricardo encontraria para repor o lesionado Diego. Ao sinalizar a entrada de Rômulo, surgiu a velha confusão de conceitos. Misturando função e posição.

“Três volantes”, “Flamengo vai jogar pelo empate”, “técnico retranqueiro”. Foi o debate que se viu e ouviu sobre o time rubro-negro antes da bola rolar. Até pela vantagem de empate na semifinal do Carioca por conta da melhor campanha.

No Maracanã molhado pela chuva, o que se viu foi o time “cauteloso” propondo o jogo. No 4-1-4-1, desenho tático “de cabeceira” de Zé Ricardo, desmanchado pela presença de Diego, típico meia central de um 4-2-3-1.

Trabalhando a bola, adiantando as linhas e apertando a marcação no campo adversário. Se não tinha o meia criativo, fazia as jogadas pelos flancos com triangulações. À direita, Pará, Arão e Gabriel; pela esquerda, Trauco, Romulo e Everton.

Guerrero voltava para fazer o pivô e distribuir as jogadas. Complicando um Botafogo que nitidamente buscou dosar energias no primeiro tempo para compensar o desgaste da viagem ao Equador e apenas um dia de treinamento para o clássico.

Só que tinha problemas além do cansaço, em função dos desfalques. Especialmente no meio-campo: Aírton, ainda lesionado, e Bruno Silva, suspenso pela estúpida expulsão depois do apito final da inútil decisão da Taça Rio. Fora Montillo.

Na lateral direita, mais uma improvisação: o volante Fernandes, que se juntava a João Paulo, o volante-meia do 4-3-1-2 armado por Jair Ventura que abria à direita para formar a linha de quatro no meio. Deixando Rodrigo Pimpão pela esquerda. Pelo contexto, parecia mais razoável inverter seu melhor ponteiro e atacar o setor mais forte do Fla, o esquerdo.

Acabou defendendo mal e o Flamengo teve o controle do jogo. Nem tanto nos números do primeiro tempo – 51% de posse e as mesmas cinco finalizações do rival, três a zero no alvo. Mas principalmente por sempre parecer mais próximo do gol.

Mas bolas nas redes só na segunda etapa. Com Guerrero, chegando aos nove no Carioca. Participando da construção pela esquerda e aparecendo para completar o corte errado de Victor Luís e abrir o placar. Depois a cobrança de pênalti segura e forte no meio do gol com o campo molhado.

A chance mais cristalina para o peruano acabou sendo desperdiçada em jogada de Pará para Berrío, substituto de Romulo, e passe para o chute fraco de Guerrero. De novo faltou ao Flamengo em um jogo grande a contundência no ataque para construir a vitória com mais autoridade.

O pênalti tolo de Rever sofrido e bem cobrado por Sassá, que entrara na vaga de Roger, transferiu uma emoção ao final do jogo, com o Botafogo, mesmo exausto, se lançando ao ataque, que não reflete o que foi a semifinal.

Posse de bola praticamente dividida, Flamengo finalizando 13 vezes, uma a mais que o Bota. Seis, porém, na direção da meta de Gatito Fernández contra apenas duas do alvinegro. O time de Zé Ricardo não foi brilhante, mas também não era com Diego em campo na maioria dos jogos. Em nenhum momento, porém, jogou fechado, especulando, dando a bola ao rival.

Com três volantes de ofício, mas na prática apenas um: Márcio Araújo, que cumpriu boa atuação. A tendência é manter o desenho tático e a proposta para a decisão. Um Fla-Flu que não valia o título regional desde 1995. Numa final em dois jogos como agora, desde 1991.

Pelo desempenho na temporada, o tricolor parece mais forte. E o Flamengo ainda tem um jogo decisivo contra o Atlético-PR na quarta, antes da primeira decisão. Favorito ou não, é improvável que o time de Zé Ricardo se acovarde no clássico. Com ou sem volantes, chutando pra longe os clichês.

(Estatísticas: Footstats)


Uma pena, Flamengo! Não por 1987, mas por se rebaixar tanto desde então
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André Rocha

O Flamengo fez tudo certo em 1987. Foi campeão da Copa União, principal torneio do futebol brasileiro daquele ano. Competição organizada e viável financeiramente, mostrando que quando os clubes se unem são capazes de fazer muito.

Time com Jorginho, Leonardo, Zinho e Bebeto que seriam campeões mundiais em 1994 pela seleção; com Leandro, Andrade e Zico do maior time que o clube já teve. Do goleiro Zé Carlos, terceiro goleiro na Copa de 1990. Do Edinho de três Copas do Mundo (1978, 1982 e 1986). De Renato Gaúcho, destaque maior do time comandado por Carlinhos, um dos grandes treinadores da história do Flamengo. Também selecionável. Mais Aílton, multicampeão pelo próprio Fla, mais Flu, Grêmio, Botafogo…

Depois enfrentou o status quo, não roeu a corda. Se a CBF admitiu que não tinha competência para organizar o campeonato brasileiro e os clubes assumiram a bronca, não fazia sentido devolver à entidade o bom produto que criaram. Muito menos se submeter às mudanças impostas no regulamento – antes da bola rolar, diga-se.

Grande também foi o Internacional, vice-campeão que poderia ter visto no cruzamento dos módulos uma chance de título e disputa da Libertadores, mas não recuou na fidelidade ao Clube dos Treze. Porque era a chance de tomar para si as decisões e minar as forças da estrutura federativa do nosso futebol.

Os clubes falharam. O Flamengo pecou ao se rebaixar com um comportamento de cordeirinho, suplicando e se humilhando diante da CBF para obter uma equiparação. Ou dividir o título nacional com o Sport, que ao longo do tempo passou a tratar a disputa legítima por seu direito conquistado como questão de honra, uma guerra regional contra o “eixo do mal”.

A Copa União foi uma das conquistas mais simbólicas do Flamengo. De virtualmente eliminado a campeão superando a equipe de melhor campanha, o Atlético Mineiro de Telê Santana, primeiro tirando a invencibilidade no Maracanã e depois vencendo no Mineirão em uma das maiores partidas já disputadas num estádio do país cinco vezes campeão do mundo. Um título com a marca do “Deixou chegar…”

A taça não precisa mudar de nome para ganhar valor. Pode continuar sendo Copa União para carregar suas lembranças. Não depende de uma das muitas canetadas que reescrevem a história de acordo com a conveniência de seus caciques.

O Flamengo apelou. Desceu ao nível dos dirigentes que ainda circulam por aí e na época garantiram unidade e o título do rubro-negro carioca, mas depois, por clubismo, bairrismo ou outros interesses, como uma ridícula Taça de Bolinhas, rasgaram os próprios princípios.

Não precisava. Que pena, Flamengo! Não por 1987, mas pela humilhação desde então. Até hoje, no  recurso derradeiro atrás de um título que já é seu. Que seja o último, para não ficar ainda mais feio. Porque há trinta anos foi tudo lindo.