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Vinícius Júnior não pode ser Neymar. Porque Santos não é Flamengo
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André Rocha

Quando o Flamengo foi eliminado pelo Corinthians nas quartas-de-final da Copa SP – com Vinicius Júnior, joia da base e destaque do time nas fases anteriores, desperdiçando duas chances claras – este que escreve viu no Twitter comentários nesta linha: “Fomos enganados pelo novo Negueba”.

Também foi possível pescar na rua a seguinte observação de um senhor, na casa dos 50 anos: “O garoto até que é habilidoso, mas nunca será um Adílio”.

Vinicius Júnior tem 16 anos, foi artilheiro e craque do Sul-Americano sub-17. Entre os profissionais que trabalham com base – treinadores, auxiliares, observadores, jornalistas – é praticamente uma unanimidade: o menino é um fenômeno, com potencial para no futuro concorrer aos principais prêmios individuais. Não por acaso, Barcelona, Real Madrid e outros gigantes europeus estão atentos aos seus movimentos.

Em campo, a qualidade e versatilidade saltam aos olhos: o menino rende nas pontas, na articulação e até jogando como referência. É habilidoso, inventivo, preciso nos fundamentos e tem leitura de jogo. Serve tão bem quanto finaliza. Forte também na bola parada.

Por isso já desperta uma enorme curiosidade e, por conta da carência de um talento deste quilate no ataque do time principal, especialmente nas pontas, já há um lobby pela utilização do atacante pelo técnico Zé Ricardo.

O Flamengo trata com cuidado. Vinicius não está inscrito nem no Estadual, nem na fase de grupos da Libertadores. Mas o clube também vive um dilema: tem contrato até 2019, tenta prorrogá-lo por mais um ano, mas se demorar muito a utilizá-lo pode vê-lo partir sem entregar todo seu talento entre os adultos.

A grande questão é que o rubro-negro tem certas particularidades: a primeira é contar com a maior torcida do país e tudo que acontece de bom e ruim ganhar uma repercussão imensa. E dentro do imediatismo do nosso futebol, a urgência é amplificada também. Com toda essa expectativa, qualquer jovem talentoso pode ser execrado se errar em um jogo importante. E o erro é parte do processo de amadurecimento.

Por outro lado, se entrar brilhando a euforia pode deslumbrar, desviar o foco. O assédio aumenta exponencialmente e pode distrair até a boa cabeça que Vinicius demonstra ter. É preciso cuidado.

E lembrar que até o maior ídolo do clube não se afirmou imediatamente. Zico estreou no profissional em 1971, com 18 anos, voltou à base e só foi se consolidar aos 21 anos, ganhando o Carioca e sendo Bola de Ouro da Placar. A geração mais vencedora do clube, sem querer, também cria dificuldades.

Porque o Flamengo segue à espera do novo messias que conduzirá o time novamente ao titulo da Libertadores e à hegemonia nacional. Todo garoto que surge é comparado a Zico, Junior, Leandro, Andrade e Adílio. Como Vinicius pelo senhor que ouvi na rua. Essa nostalgia, essa régua tão alta na exigência já custou a carreira de muita gente boa formada na Gávea. Inclusive Negueba, citado no início deste texto. De “alegria nas pernas” a “peladeiro”.

As comparações são inevitáveis também entre Vinícius Júnior e Neymar, que coloca o “Jr.” na camisa e inspirou o menino a fazer o mesmo. Alguns até avaliam o rubro-negro acima do santista, na mesma idade, em capacidade de desequilibrar.

Só que Neymar surgiu inserido em outro contexto. O Santos reverencia Pelé, campeão mundial aos 17 anos pela seleção e multicampeão pelo clube, mas sem tanto saudosismo. Porque existiu a geração de Pita e Juary, a de Diego e Robinho e em 2010 explodiu a de Neymar e Ganso. Com Robinho, que poderia ser um parâmetro de comparação, de volta a Santos e aceitando ser coadjuvante, no campo, das duas jovens estrelas nas conquistas da Copa do Brasil e do Paulista.

A repercussão é diferente, a cobrança também. Por ter dado certo outras vezes, quando surge um garoto talentoso ele ganha carinho e confiança para se desenvolver. Está no DNA do alvinegro praiano o apoio aos “Meninos da Vila”. Se errar a crítica virá, mas não tão pesada. Sem massacre.

Por isso Vinícius Júnior pode conquistar na próxima década os prêmios que hoje Messi e Cristiano Ronaldo negam a Neymar e a qualquer terráqueo que jogue futebol. Mas certamente construirá sua trajetória de maneira bem diferente do atual camisa onze do Barcelona.

Porque Santos e Flamengo são gigantes vencedores do Brasil, mas têm diferenças cruciais. Na história, na quantidade de gente envolvida em suas coisas. Especialmente no trato com os garotos. Por isso a cautela com Vinícius precisa ser triplicada. Até excessiva. Para evitar um novo erro que seria cruel para o clube e para o futebol brasileiro.


O melhor que você, torcedor consciente, pode fazer pelo seu time de coração
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André Rocha

Este texto não é para quem se relaciona com seu clube apenas no momento de alta, fica sabendo do resultado pela internet e só quer espalhar memes nas redes sociais e zoar o vizinho ou o colega de trabalho no dia seguinte, mas mal sabe a escalação.

É para você que consome futebol, ainda que priorize o time de coração. Que paga TV por assinatura, pay-per-view, é sócio-torcedor, interage nas redes sociais e tenta participar da vida do clube, mesmo que à distância.

No ano da graça de 2017, o melhor que o torcedor pode fazer por sua paixão é mais do que alimentar os cofres do clube.

Durante anos, décadas, você foi ensinado que o torcedor de verdade é aquele apaixonado, irracional, de amor incondicional. Que sofre, berra, pede a saida do técnico “burro” e, se preciso, patrulha até o que o craque do seu time faz na folga. Também foi passado ao fanático um “manual” de explicações para a boa e a má fase do seu time.

Do “time sem vergonha” ao “time de guerreiros”. Do “técnico retranqueiro” ao “paizão da família”. Do “apagão” à “torcida que carregou nas costas”. Do “grupo na mão do treinador” aos “vagabundos que quebram na noite”.

Nada lhe ensinaram sobre tática e estratégia. Ou apenas o superficial, como “time que não tem craques só ganha na tática”, mas nunca explicaram muito bem o que seria isso. Porque sabem que é mais fácil capturar pelo emocional. Convencer que se você gritar o time vai correr e vencer. Mas se perde em casa com estádio lotado explicam que a equipe “sentiu o peso do jogo” ou “caiu no oba oba da torcida”.

Por isso, se você quer cobrar de dirigente, treinador ou atleta é preciso algo fundamental em qualquer área da vida: conhecimento.

Para não cair na fácil tentação, por exemplo, de exigir uma goleada do Palmeiras sobre o Jorge Wilstermann no Allianz Parque. Porque sim. Porque o Palmeiras gastou muito e é obrigado a atropelar o pobre boliviano na Libertadores.

Sem compreender que o time de Eduardo Baptista passa por uma transição de modelo de jogo e que se acostumou com Cuca a definir rapidamente a jogada. E contra uma linha de cinco bem treinada, o que não necessita de grandes craques ou um técnico de ponta da Europa, é preciso rodar a bola, trabalhar as jogadas.

Inclusive recuar para o goleiro com o intuito de abrir espaços, tirar um pouco o 5-4-1 do oponente do próprio campo. Mas te ensinaram a vaiar essa prática porque “é anti-jogo”, “coisa de time pequeno que não quer jogar”. Então que fique tentando a esmo, despejando bolas na área até conseguir com o gol de Mina nos acréscimos. Esmurrando a ponta da faca “porque sofrido é mais gostoso”. Será?

Vivemos outros tempos, felizmente. Antes os bolivianos chegavam aqui ingênuos, sem informação de nada. Para perder de pouco. Agora na internet você acha todos os movimentos que uma linha de cinco atrás precisa fazer para fechar os espaços. É óbvio que o técnico Roberto Mosquera conhecia as virtudes e defeitos de Dudu, Borja, Felipe Melo, Guerra, Mina, Tchê Tchê…

Assim como Zé Ricardo sabia que o Flamengo precisava da velocidade e da boa leitura defensiva de Marcio Araújo para limitar os movimentos de Diego Buonanotte, o meia argentino que faz a Universidad Católica jogar.

Escalou três volantes de ofício, sim. Mas só o contestado camisa oito à frente da defesa, com Romulo quase na linha de Diego e Willian Arão mais aberto pela direita. A velha confusão entre posição e função. Foi “covarde”, “jogou com medo”? Como, se finalizou 15 vezes contra 11 dos donos da casa.

O problema foi a eficiência nas finalizações. Paolo Guerrero, centroavante e artilheiro rubro-negro na temporada, teve seis chances. Três dentro da área. Nenhuma nas redes em um jogo parelho de Libertadores fora de casa.

Santiago “El Tanque” Silva teve duas. Uma na bola mal recuada por Rafael Vaz que parou em Muralha. Na segunda, aproveitou um erro de marcação coletiva – Pará não podia estar com o centroavante bem mais alto – e definiu o jogo.

Berrío, tão aclamado pelo torcedor pela velocidade de “The Flash”, entrou para deixar a equipe, em tese, mais ofensiva antes mesmo do gol sofrido. Errou tudo que tentou e ainda foi expulso por uma bobagem. Será que a culpa foi mesmo do técnico Zé Ricardo?

Para criticar é preciso conhecer, entender. O ex-jogador e colunista Tostão costuma dizer que o futebol é tão caótico e imprevisível que você pode falar a maior bobagem do mundo e ela acontecer no campo. Sem dúvida. E por isso estamos aqui refletindo sobre o esporte mais arrebatador desde sempre.

Não há dono da verdade neste jogo, mas há tendências. E a análise mais coerente dos fatos. O que é bem diferente de opinião. Não é tão simples dizer que jogou bem ou mal sem o mínimo de base. E o resultado não pode definir a questão e ser o norte da análise, que por aqui quase sempre é feita de trás para frente. Perdeu? Quem é o culpado, por que errou? Se venceu vão achar o heroi, as explicações para a boa fase. Mesmo que tenha conquistado os três pontos jogando muito mal.

Quer ver sua visão respeitada? Tente observar e entender melhor o que acontece em campo. Porque é ele que norteia todo o resto. Bastidores, gestão financeira, política. Tudo. Para reclamar é preciso saber.

Outro dia este blogueiro entrou num Uber e foi reconhecido pelo motorista. Vascaíno, logo começou a reclamar do trabalho de Cristóvão Borges. Mas chamando o treinador de “muito retranqueiro”. Como havia escrito sobre no dia anterior, expliquei que o problema era exatamente o contrário: o time se adianta, não pressiona quem está com a bola e deixa a retaguarda totalmente exposta. Lembrei um ou dois lances do empate com o Macaé no Engenhão e ele me deu razão. Continuou protestando, mas agora por um motivo mais justo.

Torcedor, estamos na era da informação. Não deixe mais colocarem você numa redoma de ignorância voluntária reclamando e cobrando da mesma forma que seu pai e avô. Procure bons canais de informação, mas também de análise. Que mostre o que acontece realmente nas quatro linhas. Temos ótimas referências no assunto que, felizmente, são as exceções à regra.

O bom técnico se recicla, o jogador se atualiza, mesmo que na marra, por necessidade. O formador de opinião também precisa. Por que não o torcedor que quer ser parte do processo?

Sem populismo, apelação. Também sem essa relação cliente/fornecedor muito presente hoje no jornalismo esportivo: o comentarista diz o que o torcedor quer ouvir. Elogio na vitória e crítica na derrota. Sem contexto. Até para ter paz nas redes sociais cada vez mais bélicas. Exatamente por causa do desconhecimento incentivado por quem deveria esclarecer.

Fuja dessa cilada secular. Não se deixe enganar por quem acha que você não sabe pensar, só sentir. Entenda para cobrar e ajudar seu time de verdade. É bom tirar sarro do rival e explodir de alegria no estádio. Mas melhor ainda é quando se sabe o que está dizendo.

 

 


Segundo tempo no Maracanã deixa claro: Flamengo é o time dos pontas
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André Rocha

Flamengo no 4-2-3-1 com Berrío na vaga de Mancuello. Com ponteiros rápidos, time fica mais previsível, porém ganha volume de jogo. Com gol logo aos três minutos e o desgaste do San Lorenzo que abriu brechas no 4-1-4-1 armado por Aguirre, o time construiu a goleada (Tactical Pad).

O gol de falta de Diego logo aos três minutos e o fato do San Lorenzo não estar em plena competição na Argentina por conta da greve no país condicionaram a disputa no segundo tempo e ajudam a explicar os 4 a 0 na estreia da Libertadores no Maracanã.

Mas ficou claro desde a entrada de Berrío na vaga de Mancuello que o jogo rubro-negro flui melhor quando o 4-2-3-1 tem jogadores rápidos pelos flancos. Zé Ricardo até tentou encaixar o meia argentino como um ponta articulador, mas a experiência em jogos mais parelhos não deu certo.

Muito pela falta de mobilidade em progressão do quarteto ofensivo. Ou seja, quando o time tem a bola e ataca. Esse meia na ponta vem para o centro, alguém se desloca e ocupa o espaço, o lateral faz a ultrapassagem no corredor. Não funciona pelas características de Diego e Mancuello, que são jogadores que correm mais em direção à bola que atacam os espaços à frente.

O primeiro tempo foi de erros de passe, falta de intensidade e alguns sustos do San Lorenzo de Diego Aguirre armado no 4-1-4-1 e atacando pela direita com Cerutti e o suporte de Belluschi. Ainda assim, Everton teve chance clara e carimbou a trave de Torrico.

Com os velocistas se projetando, os jogadores do meio e Guerrero têm opções mais fáceis de passe. O jogo fica mais previsível e isso é um problema diante de times mais organizados e compactos. Algo que poderia melhorar com Diego tocando de primeira e arriscando passes mais verticais e os pontas buscando as diagonais. Mas é inegável que a equipe ganha volume.

Foi às redes ainda com um chutaço de Trauco, que voltou a se aventurar pelo centro. Depois Rômulo em mais uma jogada de bola parada – escanteio cobrado por Diego – e finalizou com Gabriel, que sofreu pênalti que Guerrero desperdiçou, mas depois o ponta que substituiu Everton acertou o ângulo, quando o time argentino estava entregue.

Foram 15 finalizações contra seis apesar da posse de bola praticamente igual. Também quinze cruzamentos, número bem inferior ao das partidas anteriores. Muito porque o time não precisou partir para o “abafa” na segunda etapa.

A goleada é importante pelo reencontro com o Maracanã para resgatar confiança depois da má atuação e do revés nos pênaltis na final da Taça Guanabara. O time, porém, ainda precisa de ajustes. Mesmo com a sequência invicta de 18 partidas, a maior do país entre os clubes da Série A. Com Everton e, bem provável, Berrío na vaga de Mancuello.

Pelo que se viu até aqui na temporada, Zé Ricardo não terá como aguardar Conca com um “dublê” fazendo a função que  espera do argentino. Porque o Flamengo é o time dos pontas.

(Estatísticas: Footstats)


A aula de futebol coletivo do Fluminense que só se concretizou nos pênaltis
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André Rocha

A leitura do clássico do Engenhão que, em futebol e emoção, redime o futebol carioca depois de tantas crises e agruras e não merecia torcida única ou portões fechados parece bem clara: com o suspenso Douglas e o lesionado Gustavo Scarpa em campo, dificilmente o Flamengo teria levado a decisão da Taça Guanabara para os pênaltis.

Você viu primeiro AQUI que o Fluminense de Abel Braga já sinalizava um futebol envolvente, ainda que os adversários no Carioca e na Copa do Brasil se mostrassem muito frágeis. As ações ofensivas do 4-1-4-1 tricolor aconteciam naturalmente com mobilidade, triangulações, o jogo entre linhas chamava atenção.

No Fla-Flu, os desfalques apresentaram uma vantagem na prática: com Wellington Silva invertendo o lado para a entrada de Richarlison e sendo transferido para o setor direito, o time ganhou uma dupla de velocidade e intensidade para cima de Trauco sem o auxílio constante de Everton.

Mas Wellington começou a desequilibrar no primeiro contragolpe que deixou claro que seria muito complicado para a retaguarda do Fla conter a rapidez das transições ofensivas do rival. Especialmente na recomposição das bolas paradas a favor. Arrancada, Pará escorregou e o ponteiro saiu na cara de Muralha.

A resposta do Flamengo acontecia nos cruzamentos. A equipe de Zé Ricardo foi a antítese do Flu. Lenta, engessada, sem profundidade e criação. Diego novamente foi importante pela experiência, liderança, personalidade. Mas é difícil criar espaços com um meia que não tenta um passe vertical furando linhas de marcação.

Restavam os cruzamentos. Assim saiu a virada, com Arão e Everton. A defesa do Flu ainda não havia sido vazada no Estadual, mas em outras partidas, principalmente na semifinal contra o Madureira, mostrara muitos problemas com o jogo aéreo.

Mas curiosamente foi num cruzamento despretensioso que o Flu achou um pênalti no toque de Guerrero, quando a atmosfera no Engenhão era favorável ao rival. Henrique converteu e inverteu as forças. Em nova recomposição lenta e desorganizada, a defesa rubro-negra viu Lucas aparecer à frente de Muralha. Passe vertical de Wellington que Diego e Mancuello não encaixaram, sequer tentaram ao longo da partida. Virada.

O segundo tempo foi de controle tricolor, fechado num 4-1-4-1 com entrega e concentração sem a bola e saídas rápidas pelos flancos, no ritmo da dupla equatoriana Sornoza e Orejuela, atuando mais adiantado com a entrada de Pierre na vaga de Douglas.

As trocas de Zé Ricardo demonstravam mais desespero que um plano de jogo. Berrío e Gabriel nas pontas, depois Vizeu na área do Flu com Paolo Guerrero e Everton deslocado para a lateral esquerda. Rondou a área, mas com um paradoxo: jogadores velozes, mas pouco (ou nada) criativos, para abrir a defesa. E Diego mais recuado na articulação. Com espaços, apareceu em chutes de longe e alguns bons passes. Mas nenhum que quebrasse o bloqueio.

Abel tentou minimizar a pressão e acelerar os contragolpes reoxigenando o meio e o ataque com Calazans, Marquinho e Marcos Junior. O desgaste da viagem a Sinop, da volta de ônibus e da necessidade de buscar a virada por 3 a 1 na Copa do Brasil era nítido.

A bola parada salvou o Fla. O goleiro Julio César, seus companheiros, o Engenhão e quem estava assistindo na TV esperava a cobrança de Rafael Vaz. Guerrero surpreendeu com um toque magistral, digno dos melhores no ofício.

Empate que não refletiu o que foi o jogo. Ainda que o Fla tenha controlado a posse (53%) finalizado 16 vezes contra 12 – sete a seis no alvo. O Fluminense teve fluência, jogadas mais agudas, trabalho coletivo. Chances mais cristalinas. Ideias.

Uma aula de futebol moderno que só se concretizou nos pênaltis. Quatro cobranças precisas do lado tricolor. Do rubro-negro, algo atípico: este blogueiro não se recorda de uma equipe escalando os dois zagueiros para bater penalidades na primeira série. Coincidência ou não, Rever atrasou para Julio César e Rafael Vaz bateu para fora.

Fluminense campeão do primeiro turno. A má notícia é que desta vez se vencer o returno, mesmo assim haverá fase final. Obra do regulamento esdrúxulo. O Flamengo agora deve focar na Libertadores. E há muito a melhorar para a estreia contra o San Lorenzo na reabertura do Maracanã na quarta-feira.

(Estatísticas: Footstats)

 


A insanidade que é um Fla-Flu com torcida única para o carioca
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André Rocha

Este que escreve mora na cidade do Rio de Janeiro desde que nasceu, com um breve hiato de seis meses em outro município do estado. Conhece o subúrbio, as zonas sul e oeste e alguma coisa da baixada fluminense.

Fã de futebol acima de qualquer clube, já foi a jogos no Maracanã, nas Laranjeiras, na Gávea, em São Januário…até em Marechal Hermes, quando o Botafogo jogou por lá. Conhece a cultura, a contracultura e a anarquia carioca. Já andou, por coincidência, em ônibus e trens com torcidas organizadas de todos os clubes grandes. Conhece pessoalmente ou “de vista” alguns membros.

Por isso tudo pode afirmar com segurança: Fla-Flu decidindo a Taça Guanabara com torcida única em Engenho de Dentro é uma insanidade! A cidade inteira está em risco, principalmente num cenário de crise geral, inclusive na segurança pública. Mesmo com o interesse cada vez menor do carioca pelo futebol e pelo cada vez mais esquálido Campeonato Estadual.

Ainda pior sem o Maracanã, símbolo maior e casa dos grandes duelos. Sempre com o estádio disponível para as torcidas. Com lados das arquibancadas definidos, inclusive. É da cultura carioca.

Infelizmente, a tendência é que os bandidos – e não há outro termo a ser usado – de sempre vão usar a proibição, ou a exclusividade, ou o acesso à torcida rival circulando pelas ruas como pretexto para os confrontos em vários pontos da cidade. Avenida Brasil, Vila Isabel, Baixada, estações de trem, entorno do Estádio Nilton Santos…Inclusive com emboscadas e encontros marcados pela internet.

Esta medida só faz sentido para a PM, que se isenta da responsabilidade no local do jogo e para a emissora de TV que detém os direitos da partida e quer imagens do estádio cheio mas sem chances de tumulto. Uma paz fictícia.

Também para a direção do Botafogo, que administra o estádio e transformou o rival Flamengo em inimigo para fazer média com os fãs mais radicais e “vingar” a perda na Justiça do volante Willian Arão. Lamenta o torcedor do clube assassinado, mas alimenta o clima hostil e perde oportunidades de arrecadação numa gestão que se propõe a ser profissional – e de fato é em outros aspectos.

Mais um elemento para o contexto que pode ser explosivo e atingir o cidadão que nada tem a ver com a final do primeiro turno do Carioca. À dupla Fla-Flu cabe definir em conjunto o que fazer, mas, acima de tudo, organizar uma campanha de paz na cidade e não só no estádio. Mostrar que estão juntos e a rivalidade ficará apenas no campo. Quebrar a corrente de ódio e incompetência.

Porque o Rio de Janeiro está a perigo. E este que escreve só espera estar errado.


Flamengo na final da Taça GB com controle de jogo, mas podia ter goleado
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André Rocha

Os menos de dez mil pagantes nas semifinais da Taça Guanabara em Volta Redonda e Xerém, com toda a relativização da ausência do Maracanã e inviabilidade do Engenhão, é o símbolo da falência do campeonato carioca e da crise em que se enfiou a sede das Olimpíadas há menos de seis meses.

No Raulino de Oliveira, o início teve o roteiro de praticamente todos os grandes clássicos brasileiros nos últimos tempos: jogadores mais preocupados em mostrar truculência, pressionar arbitragem para mostrar ao torcedor e ao adversário que está “pilhado”. Só esquecem de jogar futebol.

O Flamengo, com trabalho consolidado e vantagem do empate, entrou primeiro na disputa tática e técnica. Com calma, trocou passes desde a defesa para sair da marcação adiantada do Vasco de Cristóvão Borges que só tinha uma jogada: Kelvin para cima de Trauco, cortando para dentro e batendo de canhota.

Ainda na primeira etapa, Zé Ricardo voltou ao 4-2-3-1 com pontas velocistas depois da saída de Mancuello, com desconforto muscular, e a entrada de Gabriel. A equipe ainda se sente mais confortável desta forma e cresceu no jogo até o pênalti sobre Everton. Falha da dupla de zaga cruzmaltina: Rodrigo deu condições errando a tática de impedimento, Luan chegou depois do atacante rubro-negro e o toque desequilibrou. Cobrança corajosa e precisa de Diego.

O segundo tempo teve Cristóvão demorando a mexer e fazendo errado. Douglas Luiz era um dos melhores do Vasco em campo e saiu para a entrada de Guilherme, recuando Wagner. O meio-campo fez água e passou a sobrar espaços para o adversário, também pela nítida queda física do time.

Com Berrío na vaga de Everton e depois Filipe Vizeu no lugar de Guerrero, o Flamengo empilhou chances aproveitando os espaços generosos. A mais bela jogada com Diego, Guerrero e conclusão de Willian Arão por cima. Foram nove finalizações, pelo menos três oportunidades claras, mais o chute na trave de Diego. Não conseguiu ampliar, porém.

Em um cenário de nove jogos sem vencer o arquirrival, o risco de sofrer o empate e recolocar o adversário no jogo foi desnecessário. Cristóvão ainda tentou com Muriqui e Escudero. Mas Nenê se arrastava em campo e Rever e Rafael Vaz cortaram todas as tentativas. O Vasco precisa de tempo para igualar todos fisicamente e adquirir um mínimo de entrosamento – e ainda falta entrar Luis Fabiano e Bruno Paulista.

O Fla de Zé Ricardo quebra a sequência de insucessos no clássico e se apresenta como uma equipe consciente e fria. Mas podia ter goleado. Em confrontos mais parelhos, como na final do primeiro turno contra o Fluminense, a falta de contundência pode pesar.

Ainda assim, o trabalho sério no futebol é um ponto de contraste com o combalido futebol carioca. Por isso leva o favoritismo para o Fla-Flu.

(Estatísticas: Footstats)


Flamengo é 100% em resultado, mas não evoluiu o desempenho em jogos grandes
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André Rocha

Os três primeiros jogos oficiais contra equipes de menor expressão no Carioca deixaram a impressão de que o objetivo maior de Zé Ricardo na temporada começava a ser alcançado: tornar o Flamengo mais criativo, imprevisível.

Por isso a escalação de Mancuello como ponta articulador para tornar o 4-2-3-1 mais móvel e criar espaços dentro de uma ideia de propor o jogo, ocupando o campo de ataque com posse de bola.

Foram 11 gols marcados e um sofrido em três partidas. Protagonismo, trocas de passes, mobilidade, pressão na saída de bola dos adversários. Mancuello saindo da ponta e Pará, Arão, Diego e até Guerrero aparecendo pela direita. Um repertório mais amplo.

Mas bastou enfrentar dois times grandes, com elencos mais qualificados e com postura defensiva por conta do contexto para o time rubro-negro repetir um equívoco dos momentos mais complicados do Brasileiro de 2016: a insistência em tocar a bola até abrir o jogo e levantar na área.

Foram 25 cruzamentos diante do Grêmio nos 2 a 0 pela estreia na Primeira Liga no Mane Garrincha e mais 31 nos 2 a 1 sobre o Botafogo no Engenhão que garantiram classificação para as semifinais da Taça Guanabara e os 100% de aproveitamento na temporada.

Mesmo considerando que é um reinício de trabalho com pouco mais de um mês e jogos seguidos, sem muito tempo para treinamentos, não deixa de ser algo a ser observado e corrigido. Principalmente porque sem espaços e diante de oponentes mais atentos e bem posicionados, Mancuello apareceu pouco.

Porque o time, na dificuldade, ainda procura o flanco para efetuar o cruzamento. Usando pouco as diagonais, as tabelas no centro. Sem ideias. Toca, toca, toca e joga na área. Neste cenário, a função de Mancuello perde o sentido e a equipe uma peça para as combinações com Pará e Arão.

Não por acaso, o argentino deu lugar a Berrío no segundo tempo das duas partidas e Everton seguiu em campo. Confortável com a proposta antiga, o ponta velocista foi destaque com dois gols e boas jogadas.

Diego segue com liderança, inteligência, presença de área e bons passes. Mas o toque de primeira para fazer o jogo fluir, furar as linhas de marcação e acionar o companheiro que se desloca em situação mais confortável não acontece. Na proposta de Zé Ricardo é fundamental para criar a brecha na retaguarda postada. Missão para o meia criativo.

Há também falhas defensivas de quem joga com a última linha adiantada e não consegue ter intensidade para manter a pressão sobre o adversário com a bola em boa parte do tempo. Contra o Bota, erros de posicionamento em cruzamentos que ocasionaram duas finalizações no travessão de Leandrinho poderiam custar o empate com os reservas do rival que só pensa em Libertadores.

As cinco vitórias transmitem confiança e tranqüilidade para o trabalho seguir. Mas a seqüência precisa de evolução. Nos dois jogos maiores até aqui o Flamengo que se viu foi o estagnado, que sofreu e, na reta final, deixou de disputar o título nacional do ano passado. O que Zé Ricardo não quer ver em 2017.


Testes valem mais que a goleada do Flamengo na estreia do Carioca
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André Rocha

No primeiro teste com a maioria dos titulares em campo durante os noventa minutos, o Flamengo apresentou novidades. Entre as previstas, a utilização de Mancuello como ponta armador pela direita – o “dublê” de Conca – e a estreia de Romulo como volante ao lado de Willian Arão no 4-2-3-1 que segue como o desenho tático rubro-negro.

As surpresas foram do lado esquerdo: Adryan como o ponteiro mais agudo à esquerda no lugar de Everton, vetado minutos antes por problema estomacal, e Trauco, lateral contratado para herdar a vaga de Jorge, negociado ao Monaco na quinta-feira. Poderia ser mais à frente, maduro e valorizado. A boa notícia é que estava no planejamento, sem desespero.

No primeiro tempo, Trauco não econtrava espaços para descer, pois Adryan guardava o posicionamento mais aberto, sem buscar as diagonais. Diante do 4-1-4-1 armado por Joel Santana no Boavista, o Fla sofria para criar espaços e tinha problemas com os contragolpes adversários. Romulo e Arão precisam de tempo para acertar a proteção da retaguarda.

Mancuello ainda precisa de tempo para se adaptar à nova função.  Com o time acostumado a jogar pelos flancos, triangular e cruzar, não é fácil se acostumar a trabalhar por dentro. Pará não tem a característica de buscar o fundo com velocidade e os companheiros têm que criar opções de passe.

Passes de primeira. Uma dificuldade de Diego em toda carreira. É meia de condução de bola e finalização. Sem espaços, não consegue acelerar na zona de criação, fazer o jogo fluir. Como joga adiantado, Willian Arão fica mais preso e não aparece como surpresa.

Trauco começou a ser destaque e personagem quando Adryan abriu o corredor e o lateral acertou centro perfeito para Guerrero no primeiro gol do jogo na Arena das Dunas. Mas também foi notável o erro de posicionamento na jogada do lado oposto que encontrou Mosquito livre às suas costas. Vacilos que se repetiram na segunda etapa.

Compensadas pelo gol marcado na segunda etapa, com bela assistência de Mancuello. O lateral peruano é mais agudo que Jorge, porém menos habilidoso e seguro atrás. Pode evoluir e ser muito útil. Assim como Rodinei, que entrou na vaga de Adryan. Mais adiantado, fazendo dupla com Pará. Talvez para ser o “dublê” de Berrio, atacante colombiano contratado para ser o ponta mais vertical. Um “upgrade” em relação a Marcelo Cirino.

O Boavista cedeu espaços, o jogo rubro-negro ficou mais fluido, com volume. Centro preciso de Rodinei, mais um gol de Guerrero. Diego completou os 4 a 1 no final, em outra assistência de Trauco. Mais que a goleada na primeira partida do Carioca, valeram os testes para Zé Ricardo preparar a equipe com base mantida e as contratações com o propósito de suprir as carências.

Para um início de trabalho, o saldo no desempenho foi positivo.

 

 


FIFA? Quem deve contar sua própria história é o clube
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André Rocha

Quem sabe o valor de vencer o primeiro torneio internacional depois do Maracanazo em 1950 é o Palmeiras. Enfiar 3 a 0 no poderoso Liverpool ou superar o “Dream Team” do Barcelona com Cruyff no comando e Guardiola em campo são feitos que nenhum agente externo saberá medir tão bem quanto Flamengo e São Paulo. Os nomes de Copa Rio e Copa Toyota são meros detalhes.

A FIFA é a entidade máxima do futebol e o que ela determina é a versão oficial. Ponto. Daí a ter credibilidade para definir se uma conquista é válida ou não vai uma distância bem grande. Um abismo.

O equívoco dos clubes é ficar buscando equiparações, trazendo para o século 21 um contexto que pertence àquela época e precisa ser lembrado. A FIFA na Era João Havelange não se importava em organizar um Mundial de clubes simplesmente porque estava mais preocupada em fazer política junto aos países, no universo de seleções, para se manter no poder.

Com a mudança do lado da força para os clubes globais e milionários passou a ser interessante a criação do torneio. Mesmo que os europeus sigam tratando como um engodo, um problema no planejamento da temporada.

Cabe ao clube valorizar os ídolos do passado, explicar a relevância de uma disputa que não existe no calendário atual, mas naqueles anos, com todas as suas particularidades, valia para definir qual o melhor time do planeta. E daí se para a FIFA não era importante?

Ela não tem o poder de apagar os livros e arquivos. Nem deveria ser alvo de súplicas para equiparar o que não tem paralelo. O título já tem o seu valor, com ou sem “beija mão” na entidade. O que foi conquistado não pode virar chacota, “título por fax”. Não é justo com quem suou em campo, nem com quem lotou o estádio e comemorou no final. Não precisa de chancela. Porque se ela não vem é como se a taça nada valesse desde sempre.

Quem deve contar sua própria história é o clube.

 


Zé Ricardo testa Mancuello como “dublê” de Conca no Flamengo
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André Rocha

Crédito: Gilvan de Souza (Flamengo)

Crédito: Gilvan de Souza (Flamengo)

Dario Conca já trabalha na recuperação da séria lesão no joelho para poder estar apto o quanto antes para estrear no Flamengo.

Desde a primeira entrevista depois da confirmação da chegada do meia argentino, o técnico Zé Ricardo deixa claro que pensa no time com o reforço e Diego juntos na armação das jogadas, partindo a princípio do mesmo 4-2-3-1 que se afirmou no ano passado.

Ou seja, um dos dois meias seria o ponta articulador, que sai do lado do campo e circula pelo setor ofensivo com liberdade para deixar o desenho tático menos engessado que com os dois ponteiros fixos. Zé Ricardo sinaliza a montagem do time para que os movimentos já estejam assimilados até a entrada de Conca.

Para isso é preciso uma espécie de “dublê” e, pelo visto no início dos trabalhos, ele já está escolhido. Também argentino e canhoto.

Federico Mancuello foi contratado no início de 2016 porque a ideia de Muricy Ramalho era montar um meio-campo sem o típico camisa dez num 4-3-3 inspirado no Barcelona. O argentino não é volante nem meia, mas um meio-campista de área a área.

Com o time claudicante, os próprios problemas físicos e depois a chegada de Diego, Mancuello perdeu espaço. Mesmo sendo um dos melhores finalizadores do elenco. Com o time titular sofrendo para ir às redes no Brasileiro parecia um absurdo. Ainda mais porque, quando entrou, o argentino fez gols importantes, contra Atlético-PR, Cruzeiro e Chapecoense.

O problema era a adaptação à função pelo lado. Mancuello entrava bem na vaga de Márcio Araújo, com o time precisando atacar. Quando testado na ponta tinha dificuldades. Sem tempo para trabalhar com viagens e jogos decisivos, Zé Ricardo arquivou a ideia depois da atuação coletiva ruim no primeiro tempo dos 2 a 2 contra o Corinthians na volta ao Maracanã, com Mancuello pela esquerda. Até tentou um losango no meio contra o Coritiba, mas o desempenho também não agradou.

Agora, com calma e a vontade do jogador de tentar novamente, mas principalmente pelo “fator Conca”, Zé Ricardo testa Mancuello nos treinos aberto pela direita. A ideia é que ele corte para dentro com a canhota, se junte a Diego no centro e deixe o corredor para o apoio de Pará ou mesmo Arão. Do lado oposto, Everton fica mais aberto e usa a velocidade, até porque Jorge é um lateral que ataca mais por dentro, não busca tanto o fundo.

A recomposição e a pressão no campo de ataque também precisam ser repensadas sem a intensidade e a rapidez de um ponteiro velocista como Gabriel, Fernandinho ou Cirino. Talvez sacrificar um pouco Pará, Arão e o volante mais plantado, que deve ser Romulo, para ganhar criatividade e poder de fogo na frente.

Sem tanta pressão no início do ano é possível experimentar mais, enquanto o clube não contrata o atacante de lado mais agudo, que ainda pode ser Berrío ou Vargas. Por isso Mancuello é a novidade na base mantida para 2017. O “dublê” de Conca.