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Não é a derrota de Fernando Diniz, mas a vitória de Abel Braga
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André Rocha

Foto: Lucas Merçon/Fluminense FC

Quando se contrata Fernando Diniz você compra uma ideia. Que precisa de tempo. Para aperfeiçoar os métodos, adaptar melhor o elenco à proposta de jogo e trabalhar as divisões de base para que o jovem entre no time profissional já sabendo o que fazer. O próprio treinador também necessita de vivência para aprimorar sua visão, o feeling. Como em qualquer ofício. É da vida.

A mágica no futebol é raríssima. O Barcelona de Guardiola vinha de Johan Cruyff, mas também do antecessor Frank Rijkaard. A combinação das escolas holandesas e espanholas apenas ganhou atualização e novos elementos. E havia material humano para executá-la com excelência. O mesmo para a origem, a Holanda de 1974. Rinus Michels reuniu o que se fazia no Ajax e no Feyenoord e deu ênfase à intensidade e a um movimento radical: o “arrastão” com todos correndo na direção da bola ao mesmo tempo para roubar e partir com superioridade numérica ou deixar um ou mais adversários em impedimento.

Diniz só não pode entrar na roda viva do futebol brasileiro, condicionada apenas a resultados imediatos. Se for para ser assim é melhor nem contratar. Ou abraça o projeto acreditando ser possível criar uma identidade e lá na frente fazer história ou entra no bolo da tentativa e erro.

Mas há jogos e jogos. E os 2 a 0 aplicados pelo Fluminense no Maracanã sobre o Atlético Paranaense foi o do espetáculo através do contragolpe. Este movimento tão incompreendido. Ou visto de uma forma até contraditória. Se é praticado por um time sem estrelas ou de um treinador com discurso mais pragmático é tratado como único recurso para compensar as limitações técnicas.

Por outro lado,caso o time conte com craques ou venda uma imagem de “jogo bonito” eles entram no pacote do “espetáculo”. Como os muitos do Manchester City campeão inglês de Guardiola. Ou os vários do Brasil de 1970, no calor do México aproveitando a preparação física realizada com muita antecedência e métodos modernos para a época. Mas confundem com “magia”.

O time de Abel Braga empilhou contragolpes. Uma goleada não teria sido nenhum absurdo no universo de treze finalizações, seis no alvo. Duas nas redes com Jadson concluindo e Thiago Heleno fazendo contra e depois Marcos Júnior. O Atlético finalizou 16, mas apenas três na direção da meta de Julio César. Com 66% de posse.

O detalhe que passa despercebido por quem olha os números e interpreta como domínio do time visitante é que a proposta de negar espaços e aproveitar os cedidos pelo oponente visa dificultar as finalizações “limpas”. Com liberdade. E usar a velocidade na transição ofensiva para criar as chances cristalinas.

E nisto o Flu foi preciso, até pelo maior tempo de trabalho. Um 5-4-1 organizado, com linhas próximas e estreitando a marcação no setor em que estava a bola. Alternando marcação no próprio campo com a adiantada para dificultar a construção da equipe de Diniz desde a defesa.

Bola retomada, saída rápida e com muita gente. E o mérito de Abel no Flu é privilegiar quem sabe jogar. Jadson e Richard são volantes com passes rápidos e certos, os alas Gilberto e Marlon descem com vigor e confiança, mas também técnica. Sornoza é o organizador, Marcos Júnior é o típico ponteiro ligeirinho que corre mais que pensa, mas dá sequência aos ataques e tem momentos de lucidez. Assim como Pedro vai evoluindo e mostrando não ser apenas o tradicional centroavante rompedor.

Nada muito sofisticado, até porque o orçamento tricolor não permite. Mas a proposta é voltada para o ataque, sempre. Mesmo que seja reagindo à iniciativa do adversário. E fica mais fácil quando se sabe o que o oponente vai fazer. O grande risco das ideias de Diniz sem o modelo bem assimilado e jogadores capazes de surpreender na jogada individual é a previsibilidade. Não há surpresa. O time terá a bola, ocupará o campo de ataque e trocará passes até encontrar uma brecha.

Pior ainda com uma recomposição lenta e sem defensores rápidos nas coberturas. Se transforma num convite aos rivais. Não por acaso as cinco derrotas seguidas. Ajustes imediatos são necessários, sem abrir mão dos princípios. Insistir apenas por “filosofia inegociável” será pouco inteligente, para dizer o mínimo.

Assim como é obtuso não reconhecer os méritos de quem faz um jogo potencializando virtudes e explorando as deficiências do adversário. Questão de lógica pura e simples. Porque o objetivo deste esporte que tanto amamos não mudou: colocar a bola na rede e vencer fazendo mais gols que o outro time. Há maneiras e maneiras de conseguir este intuito. Tolo é quem acredita nos que vendem a ideia de que só há uma. Ou a mais “nobre”.

Até Guardiola, ícone e referência dos defensores do jogo de posse como o “Santo Graal” do esporte,  já entendeu que é preciso ser “camaleão”, jogar por demanda, de acordo com o que pede o confronto. A especialidade do Real Madrid de Zinedine Zidane que pode ser tricampeão europeu e do mundo. Que também não surgiu por mágica. Veio da semente de Carlo Ancelotti e da manutenção de uma base.

Diniz é jovem na função e vai aprender. Pode e deve tirar lições, inclusive de Abel Braga.  O veterano treinador é que foi o grande vencedor na noite da beleza do contra-ataque no Maracanã.

(Estatísticas: Footstats)

 


Qualquer projeção para o Brasileirão é chute, puro e simples
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André Rocha

Todo ano era a mesma tortura. Fim dos estaduais e logo aparecia alguém pedindo projeções para o Brasileirão. Título, vagas na Libertadores, rebaixados. Em maio. Para um campeonato que acaba no fim de novembro. Com uma janela de transferências que parece nunca fechar. Agora Libertadores, Sul-Americana e Copa do Brasil durando o ano todo.

E quem é pago para analisar tinha que recorrer ao tiro no escuro. Para ser cobrado depois porque para muita gente quem trabalha com futebol tem que ser adivinho e cravar o que vai acontecer, mesmo com tantas variáveis possíveis. Como se jornalistas de Economia ou Política tivessem que prever todas as oscilações de mercado ou diplomáticas e traçar um cenário preciso até o fim do ano para serem considerados minimamente competentes.

Na era dos memes e da zoeira que sempre carrega um pouco de covardia, mas dá para tirar de letra, o que é dito ou escrito tem que valer por seis meses. Se errar logo vêm os mantras “tá fácil ser jornalista”, “por isso não exigem diploma” e outras pérolas dos “jênios” da internet. Os profetas do acontecido que ficam calados no conforto do anonimato para garantirem que sabiam lá atrás e quem é pago para isso tinha que carregar a mesma certeza.

Mas como imaginar o que virá? Mesmo descontando toda a imprevisibilidade do esporte, no Brasil é ainda mais complicado. Imaginem os guias da competição já furados com as prováveis saídas de Everton do Flamengo para o São Paulo, de Maycon do Corinthians para o Shakhtar Donetsk e de Roger do Internacional para o Corinthians.

Sem contar que o time que joga o melhor futebol do país, o Grêmio, até por sua cultura copeira, deve novamente poupar jogadores na competição por pontos corridos e priorizar Libertadores e Copa do Brasil. E o Corinthians, atual campeão e favorito natural, desta vez não terá o respiro do ano passado e também dividirá esforços. Com elencos mexidos o tempo todo.

E os grandes orçamentos, como Flamengo e Palmeiras, regidos pelos humores e arroubos de dirigentes-torcedores, embalados por redes sociais? Com escolhas mais políticas que técnicas. Sem ideias ou norte, ao menos por enquanto. Só agora começam a entender a importância de ter uma identidade, como o Cruzeiro de Mano Menezes vai tentando implementar, mas também muito condicionado a resultados, até pelo alto investimento na formação do elenco.

São Paulo, Vasco, Fluminense, Botafogo, Internacional, Atlético Mineiro, Bahia, Chapecoense, Vitória e o Atlético Paranaense de Fernando Diniz formam um “blocão” de incógnitas que podem circular entre zona de Libertadores e Z-4. Como de costume, Ceará, Paraná e América-MG, os times que subiram além do “gigante redimido”, são cantados como bolas da vez para cair pela famosa dificuldade de se manter depois do acesso. Ainda que Enderson Moreira e Marcelo Chamusca tenham trabalhos consolidados em seus clubes e possam, sim, tornar suas equipes competitivas. Quem vai saber?

Para completar, um campeonato com seus desequilíbrios por forças das circunstâncias. Como um time encarar os reservas do Grêmio e outro sofrer diante da equipe principal de Renato Gaúcho focada naquela rodada específica. Ou o time beneficiado pela perda do mando de campo do adversário. Três pontos que podem fazer toda diferença. Na tabela ou no estado de ânimo de uma equipe.

Por isso o equilíbrio que gera a emoção que muitos confundem como qualidade ou virtude. Será que nossos times vão usar a concentração e a organização não só para defender e teremos times atacando melhor? Ou será novamente o campeonato do futebol reativo, de contragolpe? Nenhum time vive e viverá mais este dilema do que o Santos do DNA ofensivo, mas agora comandado pelo pragmático Jair Ventura.

Com pressão por resultados, viagens e mais viagens e pouco tempo em campo para treinar é difícil imaginar algo mais elaborado. Por mais que os treinadores da nova safra tentem. E ainda tem o vestiário, ambiente sempre espinhoso e que diz muito da verdade do campo. Por isto a lacuna ainda não preenchida pelos jovens comandantes buscando afirmação para substituírem de vez os da “Velha Guarda”.

A sorte está lançada. Vejamos quem será o mais competente, contando também com a proteção tão bem-vinda do acaso. Palpites? Ainda bem que desta vez ninguém pediu nada ao blogueiro. Projeção a esta altura é chute, puro e simples. Melhor analisar rodada a rodada. Até porque quem pensa jogo a jogo sempre está mais perto da taça nesta loucura que é o Brasileirão.

 


A virada sobre virada do Vasco e os vários jogos dentro de uma partida
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André Rocha

Talvez influenciados pelo segundo tempo dos 3 a 0 sobre o Botafogo no qual se posicionou melhor defensivamente num 5-4-1, Abel Braga e seus comandados definiram desde o início do clássico no Maracanã que o Fluminense teria uma postura mais cuidadosa e baseada em contragolpes na semifinal do Carioca. Até pela vantagem do empate por ter conquistado a Taça Rio.

O Vasco se impôs em boa parte do primeiro tempo também pela nítida preocupação de evitar as jogadas pelos flancos do rival. Rafael Galhardo entrou na lateral direita, adiantando Yago Pikachu e mais Wellington para auxiliar no bloqueio a Ayrton Lucas, Richard e Sornoza. Do lado oposto, Fabrício, Wagner e Desábato tentavam negar espaços a Gilberto, Jadson e Marcos Júnior. Ou seja, impedir que o tricolor construísse seu volume de jogo.

Conseguiu e abriu o placar com Giovanni Augusto, outra surpresa de Zé Ricardo na formação que atuou novamente num 4-2-3-1 com Riascos mais adiantado. Bela jogada de Pikachu pela esquerda e vacilo de Renato Chaves. Mas logo que o Flu adiantou as linhas e se propôs a ser mais agressivo na frente, o lado esquerdo cruzmaltino falhou. Fabrício permitiu que Gilberto chegasse ao fundo e servisse Pedro. O sétimo gol do agora artilheiro isolado do estadual.

O jogo virou e o Flu ficou mais à vontade, ganhou confiança e espaços para arquitetar contragolpes. Na cobrança de falta com a barreira abrindo, Sornoza parecia encaminhar a classificação. A disputa chegou a parecer que penderia em definitivo para o lado de quem vencia e podia até ceder a igualdade no placar.

As substituições seguiram um roteiro óbvio. Vasco se jogando à frente com Andrés Rios, Thiago Galhardo e Paulinho, a joia vascaína que foi às redes no belo gol de empate em tabela rápida com Wellington. Fluminense trocando o trio ofensivo e mandando a campo Marlon, Douglas e Pablo Dyego. Seguir fechado e manter o fôlego na frente para explorar os espaços que apareciam cada vez mais generosos.

O Vasco tentou um abafa, o Flu ameaçou em contra-ataques. Equilíbrio na posse de bola (51% x 49%), 11 finalizações tricolores, 14 vascaínas – duas na direção da meta de Martín Silva, seis do Vasco no alvo. Na última da partida, a tentativa aleatória, na ligação direta desesperada. Todos cansados e guiados muito mais pelo instinto do que por um plano racional. Outro jogo à parte dentro do contexto. A bola encontrou o heroi improvável: Fabrício, substituto de Henrique que era vaiado pela torcida. 3 a 2.

Os tricolores lamentarão a cautela de Abel e as chances desperdiçadas, os vascaínos exaltarão a coragem de Zé Ricardo e a perseverança dos vencedores. Mas no fundo não passa de análise tomando como base apenas o resultado. Poderia ter acontecido qualquer coisa em mais um embate eletrizante no esvaziado Carioca.

O Vasco virou sobre a virada do Flu. Saiu vivo nos vários jogos dentro de uma mesma partida e vai à decisão contra o Botafogo. A terceira entre os clubes em quatro anos. De novo teremos um campeão sem vencer turno. Azar de quem assinou o regulamento e não se garantiu no campo.

(Estatísticas: Footstats)


Taça Rio é detalhe! Fluminense tem o melhor jogo coletivo do Carioca
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André Rocha

Flamengo e Vasco estão na Libertadores e o rubro-negro conta com elenco mais qualificado no papel, até pelo abismo que vai se criando no poder de investimento em relação aos demais grandes do Rio de Janeiro.

Mas o melhor jogo coletivo entre os times cariocas no momento é do Fluminense. Não só pelos 3 a 0 sobre o Botafogo na decisão da Taça Rio. Apesar da eliminação até vexatória da Copa do Brasil com duas derrotas para o Avaí – compreensível pelas oscilações de um elenco com muitos garotos dentro de um clube com sérios problemas financeiros que aproveita a garotada como única opção.

O campo mostra que é a equipe que apresenta mais soluções para resolver os jogos. A execução do 3-4-2-1/5-4-1 vai evoluindo jogo a jogo. Muita fluência pelos flancos com Gilberto, Jadson e Marcos Juníor à direita e Ayrton Lucas, Richard e Sornoza pela esquerda. Circula a bola com rapidez e objetividade pelo centro sempre procurando os lados.

Na referência do ataque, o jovem Pedro está cada vez mais à vontade. Fez o primeiro e serviu de peito Marcos Júnior no segundo. Ambos artilheiros do campeonato, com seis gols. Jadson fechou o placar no último ataque, atuando mais avançado dentro de um 5-4-1 bem organizado tirando espaços e negando oportunidades claras ao rival que partiu para cima com Pimpão, Renatinho e Luis Ricardo na segunda etapa.

O Flu aproveitou os muitos espaços deixados pelo Botafogo de Alberto Valentim que marca “com os olhos”, sem pressão no adversário com a bola. Teve 58% de posse e finalizou 18 vezes contra 16 do tricolor. Mas falhou nas finalizações e no trabalho defensivo. Algo a se corrigir com urgência até quarta para a semifinal contra o Flamengo.

No outro confronto há um favorito claro. O Flu pode até jogar mal na quinta contra o Vasco e, mesmo com vantagem do empate, ficar fora da grande decisão. É time jovem, com claras limitações e sujeito a uma noite ruim. Mas hoje no Rio de Janeiro ninguém joga um futebol mais consistente que a equipe de Abel Braga. A conquista do returno é apenas um detalhe. Ou mera consequência.

(Estatísticas: Footstats)

 


Fluminense está na final porque, acredite, tem mais repertório que o Fla
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André Rocha

Quem olha os números da semifinal da Taça Rio imagina um amplo domínio do Flamengo sobre o Fluminense no Estádio Nílton Santos: 58% de posse de bola, 21 finalizações rubro-negras contra 12. Se comparar os orçamentos no futebol a diferença aumenta ainda mais. Considerando que um disputa Libertadores e outro foi eliminado da Copa do Brasil pelo Avaí…

Mas nem tudo é como parece. Se no jogo da fase de grupos do returno do Carioca os reservas do Fla relativizam os 4 a 0 aplicados pelo tricolor, a verdade do campo desta vez mostrou uma dura realidade para Paulo César Carpegiani: o 3-5-2 simples, à moda antiga, montado por Abel Braga oferece um repertório ofensivo maior que o da equipe com elenco, em tese, mais qualificado.

O jogo tricolor flui, especialmente pelos flancos. Pela direita, Gilberto se aproxima de Jadson e Marcos Júnior para as triangulações. No lado oposto, o mesmo com Ayrton, grande revelação do campeonato, mais Richard e Sornoza. Repare no camisa dez equatoriano do Flu. A bola chega e sai com facilidade. Passe para a frente, objetivo, encontra o companheiro pronto para acelerar.

Já no Fla, Diego e Everton Ribeiro não conseguem construir o volume de jogo desejado. Erram passes, são burocráticos e pouco inventivos. Para complicar, Lucas Paquetá, um dos poucos que procuravam passar de primeira, agora sempre precisa dar um toque a mais na bola. Ainda assim, consegue ser o jogador capaz de tentar algo diferente na execução do 4-1-4-1 armado por Carpegiani.

O Flu ainda tem outra vantagem: os zagueiros Renato Chaves e Ibañez são opções de saída de bola com rapidez para fazer a bola chegar rapidamente nos alas. No lado rubro-negro, Rever, Juan e Jonas são mais lentos e os meias precisam recuar para ajudar. Sem contar as sérias limitações técnicas e de discernimento na tomada de decisão dos laterais Rodinei e Renê. E ainda tem Henrique Dourado acrescentando muito pouco. Não dá sequência aos ataques como pivô e no toque final não é contundente.

Em resume, o jogo do Flu acontece naturalmente e o do Fla sai a forceps, no abafa. Mais uma vez o “primo rico” do futebol carioca precisou apelar para os cruzamentos. 14 no primeiro tempo, 23 no segundo. Total de 37. O empate veio no abafa e na sequência de chutes de Rodinei e o definitivo de Everton, que produziu muito mais como lateral que meia pela esquerda.

O Flu cruzou 21 e contou com a ajuda de uma atuação constrangedora de Diego Alves na saída da meta. Muita hesitação que Gum aproveitou para abrir o placar no primeiro tempo e podia ter ampliado no segundo com o mesmo camisa três tricolor em outra falha do goleiro, mas na sequência é difícil avaliar se Gum está atrás da linha da bola ou se Diego Alves dava condição.

Não precisou. Foi sofrido. Vinícius Júnior, que entrou na vaga de Renê, teve a bola da classificação no pé direito em um contragolpe. O Flu perdeu chances de matar o clássico em contra-ataques bem engendrados. Mas o empate por 1 a 1 classificou para a final contra o Botafogo a melhor equipe do returno. Nada especial em um estadual de baixo nível técnico, públicos ridículos e um Rio de Janeiro em crise profunda.

De qualquer forma, é um alento para o Flu. Assim como o Botafogo, o outro finalista, não tem outra competição para disputar neste momento. O título da Taça Rio servirá para melhorar a autoestima no clube vencedor.

Para o Flamengo, duas más notícias: fim da chance de ganhar duas semanas para treinamentos e apenas uma partida para definir o Carioca. A pior é que objetivamente o time não evoluiu em relação à temporada passada. Na necessidade, ainda vive de cruzamentos e lampejos, especialmente de Paquetá e Vinicius Júnior. É muito pouco para quem investe tanto.

O Flu faz mais com menos e há muito mérito nisto.

(Estatísticas: Footstats)

 


Laterais são a incógnita no Flamengo para o primeiro grande teste do ano
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André Rocha

Para a estreia na Libertadores contra o River Plate, Paulo César Carpegiani deve manter o 4-1-4-1 utilizado desde o retorno dos titulares ao Flamengo em 2018. Também a base que vem jogando. As dúvidas ficam nas laterais, com jogadores que ainda não se firmaram, nem contam com a confiança do treinador e da torcida. E ainda tem um Fla-Flu com reservas no meio do caminho. Quem deve jogar? Confira o comentário completo no vídeo abaixo:

 


Ronaldinho: cabeça de artista esmagada pelo pragmatismo do futebol
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André Rocha

Ronaldinho, então apenas Ronaldo, chamou atenção deste blogueiro no Mundial Sub-17 em 1997. Talento, habilidade, aquela fagulha dos gênios. Confirmada mais nos dribles sobre Dunga no Grenal do que no golaço sobre uma Venezuela já entregue na Copa América em 1999. Aos 19 anos.

Saída polêmica e explosão do talento que ganhou força no Paris Saint-Germain. Coadjuvante de luxo no título mundial em 2002 e a fase de ouro no Barcelona. Sempre com sorriso no rosto, samba no pé além da magia quando uma bola se aproximava. Parecia viver num mundo de sonho, proporcionado por sua genialidade e viabilizada pelo irmão Assis, que cuidava das coisas práticas enquanto ele vivia o sonho.

Esta história tem seu momento chave em 2006. A questão no primeiro semestre deste ano era: até onde Ronaldinho Gaúcho pode chegar? Se vencesse a Copa do Mundo na Alemanha como protagonista de um Brasil estelar e favorito como nunca ao título seria bicampeão. Aos 26 anos. Para muitos, subiria ao topo do Olimpo com Pelé, Maradona e outros poucos.

Todos os olhos voltados para ele. Bicampeão espanhol e dando ao Barcelona a sua segunda Liga dos Campeões. O auge em um clube. Mas mal pôde comemorar. Sua alma de artista não teve como respirar de uma enorme pressão. Ele precisava de férias. Mais para a mente do que para o corpo. Como um cantor depois de gravar um disco genial ou cumprir uma turnê consagradora.

Ronaldinho partiu para Weggis. E para seu azar – talvez achasse sorte na época – o clima não era de concentração, mas de permissividade. O diagnóstico errado de que com tantos talentos reunidos e depois de vencer tanto bastava entrar em campo e cumprir o protocolo para levar o hexa.

Não foi. E ao notar as dificuldades, perceber que não tinha corpo nem mente para o tamanho do desafio ele viveu uma depressão. No campo. Sem reação. Com alguns espasmos, porque o futebol transbordava pelos pés. Parou na França. De um Zidane focado, adiando jogo a jogo o fim de sua carreira. Depois de uma temporada sem títulos e grande desgaste. O oposto.

Ali algo se quebrou. O gênio que havia chegado tão longe ao ver Cannavaro receber a Bola de Ouro percebeu que teria que escalar a montanha de novo. E aí faltou a disciplina, o foco na carreira para seguir adiante. Deixou de ser atleta, virou jogador.

Ainda com talento para ter momentos brilhantes em Milan, Flamengo e Atlético Mineiro, este em especial com o último título relevante: a Libertadores 2013. Nem tanto no Fluminense e no Querétaro. Porque o Pep Guardiola que o descartou no Barcelona em 2008 levou o futebol para um caminho de intensidade e espírito competitivo que empurrou Ronaldinho para fora do cenário no mais alto nível. Ele era de outro tempo.

Bons tempos, muitos dirão. Mas tudo passa. O Gaúcho passou e agora se despede oficialmente. Deixando mágica por onde caminhou. A cabeça de artista foi esmagada pelo pragmatismo do futebol. Mas paradoxalmente o esporte ficou marcado por ele. Dois prêmios de melhor do mundo e inspiração para Lionel Messi, um dos grandes da história.

Maior que Ronaldinho por encarar o esporte como trabalho, com a disciplina exigida. O mundo disse que o R10 tinha que ser o maior. Ele só queria ser feliz. Que seja agora, mais longe do nosso imediatismo e de nossas exigências muitas vezes descabidas. Só um superhomem para suportar o moedor de carne, cérebro e alma.

Ronaldinho desistiu em 2006. Uma pena. Ou sorte dele. Vai saber…


Gustavo Scarpa é a peça que faltava ao quarteto ofensivo do Palmeiras
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André Rocha

Gustavo Scarpa é do Palmeiras por cinco anos. Se o imbróglio com o Fluminense podia ter sido conduzido de uma forma mais transparente, cobrando seus direitos mas dando uma satisfação ao clube que o projetou, a escolha do destino não podia ter sido melhor.

O meia é a peça que faltava ao 4-2-3-1 que Roger Machado vai ensaiando na curta pré-temporada. Vai formar o quarteto ofensivo com Lucas Lima, Dudu e Borja. Partindo da direita para ajudar na articulação e abrindo o corredor para o apoio de Marcos Rocha. Do lado oposto, Dudu será o ponta mais agudo, chamando lançamentos para os contragolpes e buscando as infiltrações em diagonal para se juntar ao centroavante, que terá três ótimos passadores a servi-lo.

No último Brasileiro, segundo o site Whoscored.com, o trio ficou entre os seis jogadores que mais criaram ocasiões de gol: Lucas Lima em primeiro com 82, Scarpa em segundo com 79 e Dudu em sexto com 57.

Fica a dúvida quanto à intensidade dentro da proposta de pressionar logo após a perda da bola, ainda mais se a dupla de volantes for Felipe Melo e Moisés. Todos terão que participar mais na transição defensiva. Talvez Tche Tche acabe virando titular, também pela velocidade na saída para o ataque.

Mas em termos de combinação de características o encaixe de Scarpa deve ser imediato. Dois ponteiros com pés “trocados”, um meia central que pensa correndo como Lucas Lima e um centroavante móvel e rápido abrindo espaços, inclusive para si mesmo, e mais focado na finalização. Sem contar as várias opções no banco, especialmente Keno e Willian Bigode.

Vejamos no campo se dá liga. Mas é impossível negar que a contratação foi certeira. O Palmeiras foi bem mais uma vez ao mercado. Sem tanta fome, porém fazendo as escolhas certas no cardápio.


Apesar da crise, estreia indica que Abel deve manter Flu rápido e ofensivo
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André Rocha

O pior de uma crise profunda é quando a falta de confiança internamente parece maior que a de quem está de fora. Quem observa o Fluminense perdendo alguns jogadores e abrindo mão de outros por não ter condições de arcar com os custos não vislumbra um 2018 promissor.

A estreia no Torneio da Flórida aumentou esta impressão, principalmente pela escolha inusitada de Abel Braga, montando sua equipe num 5-3-2. Temendo um PSV muito alterado por Phillip Cocu. Mesmo considerando que o time holandês está no meio da temporada, com mais ritmo de competição, pareceu uma cautela exagerada.

Talvez Abel estivesse correto, com uma visão realista. Mas o que se viu foi uma equipe descoordenada no trabalho sem a bola. Na transição ofensiva os laterais Gilberto e Marlon demoravam a recompor a última linha obrigando os zagueiros a ficarem mais espaçados. Na proteção, Douglas e Richard permitiam espaços às costas e sofriam com a habilidade do brasileiro Mauro Júnior.

Para piorar, a saída para o ataque que precisa ser rápida e intensa não encontrava o passe vertical de Sornoza, muito menos a velocidade de Henrique Dourado para acompanhar Marcos Júnior. O Flu roubava a bola, mas não conseguia sair da pressão do adversário logo após a perda da bola e surpreender a defesa mais adiantada do Ajax.

De tanto insistir, o PSV abriu o placar com lindo gol de Sam Lammers. 20 anos, um metro e noventa, mas habilidade para limpar a marcação e técnica para tirar do alcance do goleiro Júlio César. Consequência natural da produção das equipes nos primeiros 45 minutos.

Na segunda etapa, as muitas alterações que descaracterizam qualquer amistoso, mas úteis no trabalho de observação e para dar ritmo à maioria dos jogadores. Funciona melhor para análises de desempenho individual.

Ainda assim, serviu para Abel notar que, mesmo com o elenco despedaçado, sem Diego Cavalieri, Lucas, Henrique, Wendel, Orejuela, Gustavo Scarpa e Wellington Silva, vale mais seguir o instinto do treinador e dos jovens atletas: um estilo mais leve, rápido e com vocação ofensiva. O Flu correu riscos, porém ocupou o campo de ataque com mais volume, especialmente pela direita com Matheus Alessandro. O grande destaque  que acabou saindo contundido.

Robinho, outro que entrou na segunda etapa, compensou com mais um golaço no jogo. Saída em velocidade, troca de passes, mais gente na frente e a bela conclusão do ponteiro. Empate e derrota nos pênaltis por 5 a 4. Romarinho foi o único a desperdiçar sua cobrança.

O resultado foi o menos importante. Valeu mais para Abel iniciar o trabalho de reconstrução da equipe. Mesmo em meio ao caos e ao pessimismo pelas sérias dificuldades financeiras que devem fazer o clube perder também Henrique Dourado, o Flu sempre rende melhor tentando jogar. Mesmo correndo riscos. Ainda que falte confiança dentro e fora do campo.


Fred no Flamengo, Diego Souza no São Paulo? A mesma praça, o mesmo banco…
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André Rocha

Férias coletivas no futebol brasileiro, menos das especulações. O famoso “vai e vem” do mercado.

Fred no Flamengo…Segundo o noticiário, com salários de um milhão de reais. Para jogar num time reconhecidamente lento na articulação das jogadas. Que na última vez que venceu utilizando os contragolpes – 2 a 0 no Junior em Barranquilla pela semifinal da Sul-Americana – precisou da velocidade do seu centroavante, Filipe Vizeu. Mas quer um atacante de 34 anos que em 2017 demonstrou nítido declínio.

O Galo quer se livrar do alto salário do camisa nove para contratar…Ricardo Oliveira, 37 anos. Do Santos que pensa em repatriar Gabriel Barbosa, o Gabigol. Para oferecer a ele no retorno os mimos e paparicos que ajudaram o atacante imaturo a não vingar no futebol europeu. Alvinegro praiano, que se autointitula com “DNA ofensivo”, pensando em Jair Ventura como treinador. Pelo que fez no Botafogo…armando um time forte sem a bola, mas carente de ideias quando precisava atacar.

De novo a moda das negociações atuais: tudo certo entre jogador e clube, mas não com o time detentor dos direitos federativos e com contrato em vigor até o fim de 2018. Ou seja, nada certo. Desta vez a “novela” é entre São Paulo e Diego Souza, com o Sport como o suposto “marido traído”. Diego tem 32 anos.

Leilão por Gustavo Scarpa, do Fluminense. Líder em assistências do último Brasileiro, mas criticado por parte da torcida do Fluminense. É tratado por muitos como um camisa dez, sendo que em praticamente toda temporada atuou como um ponta articulador partindo da direita para criar ou finalizar usando o pé esquerdo. Com intensidade baixa, mesmo para os padrões do futebol jogado aqui. Será que viram  ou estão interessados apenas pelo hype criado?

Sorteio da Libertadores e os brasileiros preocupados apenas com os argentinos. Mais uma vez apontados como favoritos absolutos ao título e à liderança dos grupos. Talvez por isso o desdém ao mercado sul-americano, sem mapear contratações mais baratas de jogadores mais jovens e com potencial para entregar mais do que as grifes de sempre.

As negociações aventadas podem  dar certo na prática? Claro! O “fator Renato Gaúcho” está aí para contrariar previsões. Mas contar sempre com a sorte nessas contratações caras e feitas muito mais para jogar para a galera e dar satisfação para a torcida, que parece gostar de se iludir com medalhões,  é um risco desnecessário se houvesse um planejamento real para o ano todo. Mas pelo visto as decepções e derrotas ensinam pouco.

Para complicar, boa parte da mídia não questiona a intenção dos clubes porque os furos de reportagem nessas negociações atraem audiência e mantêm o torcedor conectado neste período sem jogos. Tudo como antes. Como sempre.

“A mesma praça, o mesmo banco, as mesmas flores, o mesmo jardim…”