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História mostra que favoritismo um ano antes da Copa do Mundo é pura ilusão
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André Rocha

Entre dezembro de 1981 e outubro de 1983, a Itália disputou 16 partidas. Nenhuma vitória nas seis primeiras, sem triunfos nas seis últimas. Venceu apenas quatro: Argentina, Brasil, Polônia e Alemanha. Exatamente as que lhe deram o terceiro título mundial na Copa da Espanha.

Favoritismo? Zero, mesmo com a manutenção de boa parte do grupo da Copa de 1978 que venceu a campeão e anfitriã Argentina e terminou em quarto perdendo dois jogos, para Holanda e Brasil, por detalhes. Mas nas Eliminatórias ficou atrás da antiga Iugoslávia. Não há dúvidas, era zebra. Até pelo escândalo de manipulação de resultados, o “Totonero”, que comprometeu o futebol do país.

Parecido com o de 2006 que rebaixou a campeã Juventus e também tirou qualquer favoritismo de uma Azzurra igualmente forte e talentosa comandada por Marcelo Lippi. Outro título inesperado, quando o Brasil era favorito.

Aliás, chegar como principal candidato só fez bem ao Brasil no Chile em 1962. Ainda assim, com superação da ausência de Pelé. Garrincha e o “apito amigo” contra a Espanha ajudaram a construir o bicampeonato. O último, sendo o outro em 1934/38 dos italianos.

A Alemanha pode repetir o feito na Rússia. A conquista da Copa das Confederações reforçou a impressão de que a renovação está sendo bem conduzida por Joachim Low. Com Kimmich no lugar de Lahm e Toni Kroos suprindo a aposentadoria de Schweinsteiger. Mais Draxler, Brant, Stindl, Werner, Hector se juntando a Ozil, Muller, Hummels, Neuer.

Se em 2014 a chegada de Pep Guardiola ao Bayern de Munique foi influência clara no modelo de jogo alemão, desta vez a inspiração, ou variação do estilo, parece vir da Inglaterra, mas de um treinador italiano: o 5-4-1/3-4-3 do Chelsea de Antonio Conte. Para propor o jogo ou reagir de acordo com as circunstâncias. Um time inteligente.

Como já era há três anos, mas foi um tanto menosprezado pelo revés na Eurocopa dois anos antes na semifinal contra a Itália de Balotelli. A ponto de transformar a final da Copa das Confederações entre Brasil e Espanha em uma espécie de “tira-teima” entre a campeã mundial e bi da Eurocopa e o anfitrião buscando recuperar protagonismo.

A seleção de Luiz Felipe Scolari venceu e foi mais uma a se iludir com a conquista. Como Dunga em 2009 e Parreira em 2005. A convicção de que o grupo estava fechado e o trabalho pronto só necessitando de manutenção foi ilusória. Porque o que define os rumos do Mundial é a temporada europeia que se encerra com a Copa.

Basta lembrar a queda de rendimento de Paulinho e Fred e o período de adaptação de Neymar no Barcelona que minaram as forças de um trabalho de um ano e meio, incompleto. Assim como o de Tite agora, que acabou de completar doze meses. Dois anos perdidos com Dunga que podem fazer falta.

Porque haverá menos testes e chances de observação. Ou tempo para o amadurecimento da proposta de jogo. É um processo que vai queimando etapas por necessidade. O treinador assumiu precisando de resultados e evolução rápida. Pelo próprio mérito, as nove vitórias seguidas nas Eliminatórias alçaram a equipe diretamente do risco de ficar de fora de sua primeira Copa do Mundo à condição de uma das favoritas.

Mais rápido que isso só em 1993, quando os 2 a 0 sobre o Uruguai com atuação antológica de Romário levaram o escrete canarinho do futuro incerto ao protagonismo. Em uma partida, por conta de um atacante genial que depois confirmou seu estrelato com a taça que não vinha há 24 anos e a Bola de Ouro como melhor do mundo.

Mas a grande favorita era a Itália de Roberto Baggio, o grande jogador do ano anterior. Assim como em 2002 as apostas recaíam sobre Argentina e França, que em 1998 superou em casa o Brasil de Ronaldo, candidatíssimo ao bi. Sob o comando de Platini, os franceses eram os favoritos em 1986. Mas havia um Maradona pelo caminho. Gênio que colocou a Argentina na final em 1990, mas havia uma Alemanha na decisão para confirmar a alternância de poder.

Resumo da ópera: falar em favoritismo no ano anterior é puro chute. Até porque este Mundial tende a não repetir os dois últimos, com as vencedoras tendo como bases as melhores equipes do mundo à época. Espanha do Barcelona e Alemanha do Bayern de Munique. Com entrosamento, movimentos já executados de memória. Seleções maduras, com craques no esplendor.

Mesmo os espanhois em 2010 não chegaram com tal status. Nema conquista da Euro 2008 minimizou o fato de não fazer parte do seleto grupo de campeões. A derrota para os Estados Unidos que tirou a chance de um duelo contra o Brasil de Dunga no ano anterior fez da grande seleção daquele período uma incógnita. Talvez por isso tenha triunfado.

Agora a Alemanha titular, em tese, tem apenas Neuer, Kimmich, Hummels e Muller do time bávaro. Na Espanha,  Barcelona e Real Madrid dominam naturalmente, mas o time merengue bicampeão europeu também cede apenas quatro: Carvajal, Sergio Ramos, Isco e Asensio. A França poderia se basear em PSG e Monaco, mas as mudanças na janela de transferência pulverizaram qualquer chance de ter uma ou duas equipes como referências.

O Brasil, como bem disse Renato Augusto numa coletiva recente, está “no bolo”. É candidato, como foi até no fiasco de 1990. Um ano antes, vencera a Copa América e Itália e Holanda, outras favoritas. Mas sucumbiu no Mundial pela queda técnica e lesões de seus grandes destaques: Bebeto, Careca e Romário.

Contexto, circunstâncias, o imponderável.Tudo isso pesa em um ano. Por isso é tão difícil pensar em junho de 2018. O dinamismo do mundo atual já é absurdo. No futebol mais ainda. Mais prudente celebrar a evolução brasileira e evitar falar em grupo fechado, sistema definido ou qualquer coisa que sugira uma estabilidade que não se sustenta. Serve apenas como linha mestra para não se perder no planejamento.

A Copa não começa agora. Melhor segurar a ansiedade e respeitar a sequência e o tempo de cada seleção. A pressa, neste caso, é ainda mais inimiga.


Sarrià, 35 anos: a velha mania brasileira de achar que perdeu pra si mesmo
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André Rocha

 

As seleções brasileiras nas Copas de 1930 e 1934 foram “improvisadas”, não eram propriamente um grupo com os melhores jogadores do país. Em 1938 a Itália fascista de Mussolini venceu a semifinal por conta da ausência de Leônidas da Silva, “poupado” pelo treinador Ademar Pimenta. O “Maracanazo” de 1950 está eternamente na conta do goleiro Barbosa. Em 1954 e 1966 foi a desorganização. Na Copa da Alemanha depois do tri “amarelamos” contra a Holanda.

Em 1978 não houve derrota, então foi “campeão moral”. Mas se o Falcão tivesse sido convocado…Em 1986 a culpa foi do Zico com o joelho em frangalhos. Em 1990 e 2010 o responsável pelo fracasso foi o Dunga, dentro e fora de campo. A convulsão de Ronaldo impossibilitou a conquista em 1998 – para muitos foi a Copa “vendida” para a França. Há três anos, um simples “apagão” no Mineirão.

Para muitos brasileiros, em condições normais de temperatura e pressão, a seleção de Tite iria para o Mundial da Rússia apenas buscar sua 19ª taça. Porque o Brasil sempre perdeu apenas para si mesmo. Quando venceu foi por méritos totais. Ou não mais que a obrigação.

Ninguém lembra da dura semifinal contra a França em 1958 que acabou facilitada pela fratura do zagueiro Jonquet que deixou a forte seleção de Just Fontaine e Raymond Kopa fragilizada pela impossibilidade de fazer substituições. Nem dos apitos amigos em 1962 e 2002 contra Espanha e Bélgica, respectivamente. Em 1994, Branco nos tirou do sufoco nas quartas-de-final contra a Holanda numa falta cavada em que colocou a mão na cara do adversário. Mas aí é a velha “malandragem” tupiniquim.

Em 1982 foi culpa do Cerezo que entregou a bola para Paolo Rossi no segundo gol, do Telê Santana que não tinha um ponta pela direita e Cabrini desceu livre para cruzar na cabeça do algoz brasileiro no gol que abriu o placar . Junior vacilou não deixando Rossi impedido no tento derradeiro dos lendários 3 a 2 no Sarrià. Há 35 anos.

Esquecem, mais uma vez, que havia uma camisa bicampeã mundial vestindo a base da equipe, com o mesmo Enzo Bearzot no comando, que foi a única a vencer a anfitriã Argentina quatro anos antes. Que ficou em quarto no Mundial por detalhes, tanto na derrota para a Holanda que custou a vaga na final quanto nos gols de Nelinho e Dirceu na decisão do terceiro lugar. Em disputas equilibradíssimas.

Time do “regista” Antognioni, meio-campista que jogava com classe e marcou o quarto gol, anulado por impedimento inexistente. De Bruno Conti, ponta direita canhoto e articulador com técnica refinada. Do onipresente Tardelli no meio, indo e voltando. Do versátil Oriali, que foi atuar na lateral direita para que Gentile fosse perseguir Zico no campo todo, assim como fizera com Maradona.

De Gaetano Scirea, um dos melhores líberos de todos os tempos. De Cabrini, o lateral apoiador que apareceu bem no primeiro gol, mas depois sofreu com a movimentação brasileira pelo seu setor. Um dos motivos de críticas depois do revés, mas que confundiu e tirou o encaixe pensado por Bearzot. A ideia era que Cabrini cuidasse de Sócrates e Graziani, o ponta esquerda, voltasse com Leandro. Por ali saíram os gols de Sócrates e Falcão.

Porque a Azzurra também errou. Na defesa deixando Zico e Serginho livres para concluir à frente de Dino Zoff, mas o centroavante finalizou bisonhamente. O camisa dez brasileiro ainda sofreu pênalti tendo sua camisa rasgada. Marcação implacável? Só no segundo tempo. E Zico reclama até hoje que os companheiros pararam de procurá-lo, por estar sempre vigiado.

Rossi marcou três, porém o mais fácil ele perdeu, totalmente livre no segundo tempo, com a bola à feição no tradicional “contropiede” italiano. Com Bergomi no lugar de Collovati e a entrada de Paulo Isidoro na vaga de Serginho, Sócrates foi para o centro do ataque e a retaguarda italiana se confundiu para fazer a sobra com Scirea.

Jogaço duríssimo até a cabeçada de Oscar na cobrança de falta de Eder que Zoff pegou na maior defesa sem rebote da história das Copas. Mérito total do goleiro veterano. Assim como a Itália cumpriu sua melhor atuação naquela Copa na Espanha. Depois, com a confiança no topo, passou por cima da Polônia sem o craque Boniek na semifinal e atropelou na decisão no Santiago Bernabéu a Alemanha estropiada pelo esforço hercúleo diante da França.

Por isso a festa de título no apito final de Abraham Klein no dia 5 de julho. A Itália havia eliminado o melhor futebol daquele torneio até então. Que não é esquecido até hoje. Que provocou aplausos a Telê Santana na sala de imprensa e elogios do vencedor Bearzot. Também o prêmio de segundo melhor jogador da competição a Falcão.

Mas não perdeu para si mesmo. A Itália venceu. Talvez fosse derrotada em outros dez confrontos. Talvez não. Nunca saberemos. No Sarrià superou as desconfianças de uma primeira fase de empates contra Peru, Polônia e Camarões para alcançar um de seus mais celebrados êxitos. Porque foi melhor.

Como tantas outras seleções que nos superaram em Copas. Desde a Itália bicampeã nos anos 1930, passando pelo Uruguai de Obdulio Varela, a Hungria em 1954, mesmo sem Puskas. Portugal de Eusébio, Holanda de Cruyff e de Sneijder, Argentina de Menotti, a França de Platini e de Zidane, a Argentina de Maradona e Caniggia. A Alemanha dos 7 a 1. Com exceção de 1966 e 1986, todos que eliminaram o Brasil foram, no mínimo, finalistas.

Não é pouco, nem merece ser subestimado como a Itália. Não foi a vitória do pragmatismo sobre a arte irresponsável, o futebol “bailarino”. O Brasil de Telê tinha os dez homens na defesa quando sofreu o terceiro gol e foi buscar o empate na jogada aérea. Não houve catenaccio, retranca, futebol covarde. A Azzurra fez uma partida combinando seu estilo e a necessidade do resultado.

O Brasil não contrariou suas características, mas quando empatou pela segunda vez com Falcão percebeu que devia ser mais cuidadoso. E foi, não sofreu gol em contra-ataque. Telê podia ter trocado Waldir Peres por Paulo Sérgio, Luisinho por Edinho e Serginho por Dinamite ao longo do Mundial. Mas não foi derrotado apenas por conta de seus elos fracos.

Havia um rival valoroso, com entrega, técnica e estratégia. O Brasil perdeu para a melhor seleção daquele mês de verão na Espanha em 1982. O resto é nossa presunção de onipotência quando o assunto é futebol. Uma velha e tola mania.


Na Euro do futebol coletivo, Portugal faz história sem sua estrela maior
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André Rocha

Só País de Gales foi derrotado pelos campeões nos 90 minutos, na semifinal. Mesmo com a estrela maior do futebol atual nascida na Europa, Portugal empatou seis vezes, venceu Croácia nas oitavas com o gol de Quaresma na prorrogação.

Símbolo de um torneio equilibrado, definido tantas vezes nos minutos finais. Não é difícil explicar. Todas as seleções meticulosamente estudadas, a grande maioria joga para o mundo todo assistir quase diariamente nas principais ligas do planeta.

Campeonatos que desgastam, física e mentalmente. O eixo central do esporte hoje são os clubes, não mais as seleções. Sugam toda a energia dos atletas no futebol da concentração na execução de planos de jogos complexos, com compactação, intensidade máxima, disputa por espaços e pressão em quem tem a bola.

É para pensar a longo prazo numa solução para que as disputas mais importantes do futebol de seleções não fique com o bagaço de seus astros.

Cristiano Ronaldo chegou à França no sacrifício. Recuperou-se, colocou seu país na decisão, mas não resistiu à entrada dura, não maldosa, de Payet. Vinte e quatro minutos em campo no Stade de France, dezesseis no sacrifício. Saiu às lágrimas numa cena tocante. Entrou Quaresma.

Depois restou ao camisa sete gritar, incentivar e torcer por seus companheiros, que negaram espaços à anfitriã e favorita com entrega total. Quando os comandados de Didier Deschamps conseguiram se livrar do cerco fortíssimo, Rui Patrício garantiu com defesas fantásticas. Nos acréscimos do tempo normal, o goleiro luso foi vencido, mas não a trave na bela jogada de Gignac sobre Pepe.

Estava escrito que só iria às redes o chute de Eder, que entrou na vaga da revelação Renato Sanches. Portugal foi intransponível como a Grécia de 2004 em terras lusitanas para frustrar a geração de Figo. O time de Felipão. Agora Fernando Santos foi quem emulou um outro treinador português: José Mourinho, o homem que organizou e tirou a vergonha da retranca para responder ao fenômeno Guardiola.

Com as linhas próximas que lembram o handebol, Portugal fez história. Para não deixar dúvidas, o destino se encarregou de não deixar em campo o craque maior para que ele não carregasse sozinho as glórias da conquista. Ainda que com a taça ele supere Eusébio e qualquer outro compatriota e também consiga o que Messi não alcançou com a Argentina. Além disso, garantiu a próxima Bola de Ouro, a quarta da carreira mais que vitoriosa. Exemplo de dedicação ao trabalho.

Mas o herói foi o time. A Eurocopa também aponta o norte do futebol mundial: jogo coletivo. Pode não agradar puristas e saudosistas, mas a entrega de cada português em campo construiu o maior feito do país.


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