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As lições para o Vasco e todos nós da noite de “San Martín” em Sucre
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André Rocha

Este que escreve é o primeiro a tirar um aprendizado, de uma vez por todas, da incrível virada do Jorge Wilstermann sobre o Vasco no confronto que só não terminou em tragédia para o time brasileiro porque Martín Silva garantiu nos pênaltis.

Com o jogo mais intenso e dinâmico de hoje, sem as muitas bolas recuadas para os goleiros segurarem com as mãos e retardarem o jogo e a reposição muito mais rápida por termos bolas em várias partes do campo, é possível reverter praticamente qualquer placar. Portanto, não convém bancar a classificação na ida, como o blogueiro fez aqui e no seu último comentário sobre os 4 a 0 em São Januário na semana passada pelo Placar Uol.

Tantos outros fizeram o mesmo. Porque o futebol e a vida ensinam e a gente se faz de bobo.

A maior virtude do time boliviano teve pouco a ver com questões técnicas e táticas. Foi acreditar. Ainda que em algo que sempre será questionável como essa vantagem de 2.800 metros que a Conmebol ainda aceita para fazer política e tentar forçar um equilíbrio que normalmente não existe.

Mas nada dessa epopeia teria acontecido se o Vasco não entrasse em campo para uma decisão na Libertadores tão desconcentrado. Como se fosse obrigado a aguentar um desconforto para respirar por pouco mais de 90 minutos para cumprir uma simples formalidade.

Quando acordou estava 3 a 0 em 20 minutos. Três assistências do brasileiro Serginho, sempre pelo lado de Pikachu mal assessorado por Wagner no setor. Ele também daria o passe para o quarto.

Agora é fácil dizer…mas se não havia nenhum compromisso no Brasil por que não viajar para a Bolívia na quinta, logo após o primeiro jogo? Ainda que houvesse os custos de hospedagem, deslocamento, além da turbulência política no país que dificultaria toda a logística, seria o planejamento correto para um disputa tão importante. Será que dimensionamos bem a relevância do torneio mais importante do continente?

O jovem Vasco sentiu o baque, reagiu e podia ter evitado o drama. Mas também podia ter levado o golpe final quando, já com 4 a 0 contra, Thiago Galhardo foi expulso por uma tolice inominável. Outra vez o brasileiro atrapalhando o time com seu despreparo emocional. Tudo quase ruiu no incrível gol perdido por Alex “Pirulito” Silva no último ataque.

Seria uma pancada dura, quase uma pá de cal, na carreira do promissor Zé Ricardo. Depois da eliminação traumática no ano passado com o Flamengo, o vexame colaria no treinador o rótulo de perdedor. Injusto e precoce. Mas se o rubro-negro tinha Muralha, o Vasco contava com Martín Silva.

Em noite de “San Martín”, um dos Libertadores da América do Sul, o goleiro uruguaio tirou o Vasco de uma cilada criada por si mesmo. Três defesas para colocar o time cruzmaltino onde parecia já estar há uma semana: no grupo 5 com Cruzeiro, Racing e Universidad de Chile. Como “zebra”, mas talvez seja melhor assim.

Porque ainda não entendemos muito bem que favoritismo não é garantia no esporte mais imprevisível e caótico. Nos apaixonamos por isto, mas não aprendemos. Que fiquem as lições.


Há tanta coisa errada no São Paulo que Dorival não pode ser o único culpado
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André Rocha

Um clube está errado em sua gestão de futebol quando aposta todas as fichas no maior ídolo recém aposentado para ser o treinador na fé de funcionar como um escudo para a instabilidade política ou o fenômeno que em sua primeira experiência na nova função vai reproduzir fora do campo a excelência e as conquistas que alcançou dentro;

Uma direção está mais que equivocada quando começa a tomar decisões políticas e populistas recrutando craques carismáticos de tempos gloriosos como se num passo de mágica estes transferissem a mentalidade vencedora e a qualidade como atleta. Pela simples presença;

Uma instituição se perde quando não se nota mais sua identidade, a imagem construída ao longo de décadas que faz todos os agentes atuarem dentro de uma linha de conduta sintonizada com os próprios valores. Organização e força competitiva.

O São Paulo hoje é um clube morno. Não encontrou o fundo do poço para buscar a redenção, mas também não há uma força motriz para voltar a ser forte. Muito menos temido. Entrou no bloco médio do futebol brasileiro – aqueles que ora flertam com vaga na Libertadores, ora sofrem com a sombra do Z-4 e do rebaixamento.

Torcida, dirigentes, dirigentes-torcedores, imprensa, jornalistas-torcedores…todos olham para trás em busca de uma referência em um futebol que na prática não existe mais. Nem o de Telê Santana, nem o de Muricy Ramalho. O esporte evoluiu e é preciso se adequar, não buscar fórmulas que deram certo em outros contextos.

Mas é mais fácil descontar no treinador. Logo ele que sucedeu Rogério Ceni. Com imagem mais associada ao Santos pela carreira e ao Palmeiras pelo passado como jogador e laços familiares. Dorival Júnior recebeu um legado complexo. Há tanta coisa errada que ele não pode ser o único culpado.

Mas tem sua cota de responsabilidade. Inegável. Em 2018, particularmente, por abandonar o planejamento inicial de usar mais reservas e jovens da base no início do Paulista para buscar aos poucos o ajuste da equipe. Com a derrota na estreia para o São Bento cedeu às pressões dos que se contentam com o estadual para acabar com a seca de títulos desde a Sul-Americana de 2012 e queriam os titulares o mais rápido possível.

Depois Dorival errou ao virar as costas para sua essência. Em toda a sua trajetória conseguiu bons trabalhos com times jovens, rápidos e envolventes. O que se vê em campo é uma equipe lenta, que pena para abrigar Nenê e Diego Souza em um quarteto ofensivo. Jogadores que hoje precisam de uma dinâmica em função deles pois entregam pouca intensidade com e sem a bola. Com eles juntos o tricolor está vagaroso, apesar dos esforços de treinador e atletas para buscar o encaixe.

A proposta de Dorival de ter a bola não conta com o momento de aceleração no terço final do campo. Pior: defensivamente as falhas são grotescas de um conjunto frágil que expõe a retaguarda que joga adiantada. Sem pressionar o adversário com a bola é letal. E o São Paulo morreu em Itu nos 2 a 1 que não complicam a situação na tabela do Paulista, mas alimentam o clima bélico, de caça às bruxas.

Cueva fez o gol são-paulino, é um dos poucos a tentar colocar velocidade nas transições ofensivas. Mas pelos problemas disciplinares do começo do ano e pelo pênalti perdido no último lance em Itu deve ser o bode expiatório da vez. O vilão de uma história sem mocinho.

Péssimo retrospecto nos últimos clássicos estaduais, ver os rivais Palmeiras e Corinthians vencendo as principais competições do país e o Santos até o ano passado dominando o Paulista. Não é um cenário agradável para a autoestima do são-paulino. A pior notícia é que ele mesmo não se ajuda para sair de uma crise que parece ter feito o clube perder o norte.

Hoje os dedos apontam para só um culpado. Quem será o messias da vez para a missão inglória e quase impossível de consertar tantos erros acumulados?


United de Mourinho joga o futebol mais chato entre os gigantes europeus
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André Rocha

Jogar bonito ou feio é subjetivo, questão de visão de futebol, até cultura. Mas como é chato ver o Manchester United de José Mourinho.

Não tem a ver com ganhar ou perder ou a dicotomia bem brasileira espetáculo x resultado. É simplesmente insuportável. Porque quase sempre não deixa jogar, mas também não joga.

Impossível dizer que os Red Devils são mal treinados. Os movimentos coletivos são executados corretamente, é nítido que o adversário foi muito bem estudado e quando tem a bola a ideia de definir rapidamente a jogada para surpreender o oponente é clara.

Mas mesmo quando vence é algo monótono. Boring. No empate sem gols fora de casa contra o Sevilla pelas oitavas de final da Liga dos Campeões, a proposta novamente foi não jogar, administrar como visitante e buscar algo com Lukaku muito isolado, obrigado a disparar para receber lançamentos e  resolver sozinho ou esperar os companheiros.

Destaque para De Gea, com grandes defesas. Foram 17 finalizações do time espanhol contra seis, uma no alvo. Para a camisa e o poder de investimento é muito pouco. Ainda que não tenha estacionado um ônibus e deixado a bola para o oponente – terminou com 46% de posse. Mas com gol “qualificado” o 0 a 0 no Ramón Sanchéz Pizjuán não deixa de ser um risco.

É futebol. Se no Inglês é praticamente impossível alcançar o rival City, no mata-mata o United pode até vencer a Liga dos Campeões com esta estratégia e uma boa dose de ventura nos sorteios e nos jogos. Gol qualificado, pênaltis, De Gea, lances fortuitos, poder de fogo de Lukaku, jogada aérea e um ou outro lampejo de Alexis Sánchez, Martial, Rashford…

Mas nenhum dos gigantes da Europa joga um futebol tão chato quanto o time de José Mourinho.

(Estatísticas: UEFA)


Bayern de Heynckes merece respeito, mas será difícil repetir feito de 2013
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André Rocha

A expulsão de Domagoj Vida aos 16 minutos obviamente tornou ainda mais desigual o confronto na Allianz Arena e o Besiktas de Vágner Love não tinha como resistir. Com os 5 a 0 construídos com o primeiro gol, de Thomas Muller, no final do primeiro tempo e mais quatro no segundo  – outro do camisa 25, dois de Lewandowski e um de Coman – o Bayern de Munique encaminhou a vaga nas quartas de final da Liga dos Campeões.

Mais que isso, aumenta a série de vitórias para 14 desde a derrota por 2 a 1 para o Borussia Monchengladbach. A única de Jupp Heynckes desde que deixou a aposentadoria aos 72 anos para suceder Carlo Ancelotti até o final da temporada – até aqui sem chances de renovação de contrato.

No total, 22 triunfos, um único revés e só um empate , contra o Leipzig pela Copa da Alemanha, mas com classificação na disputa por pênaltis. 63 gols marcados, quase três por jogo, e 17 sofridos, menos de um por partida. Impressionantes 93% de aproveitamento que aumentam a esperança de repetir a tríplice coroa de 2012/2013. Com um time inesquecível para os bávaros e marcante para o futebol mundial, mesmo que por apenas uma temporada.

Porque foi o “pai” do futebol por demanda. O time alemão era um camaleão, perfeitamente adaptável às necessidades de cada jogo. Sabia jogar na paciência com posse ou na fúria com agressividade e muita velocidade. Atropelou o Barcelona na semifinal da Liga dos Campeões com 7 a 0 no agregado e menos de 40% de posse de bola na média.

A equipe atual também é fléxivel. Pode trocar passes no ritmo de James Rodríguez ou abusar das jogadas pelos flancos, como na segunda etapa para cansar e abrir o Besiktas: Robben e Coman nas pontas fazendo duplas com Kimmich e Alaba procurando Muller e Lewandowski na área.

Na Bundesliga sobra com 19 pontos de vantagem no topo da tabela e liderando em posse, acerto de passes e finalizações. No torneio continental é top 5 em tempo com a bola, aproveitamento nos passes e vitórias no jogo aéreo. Também lidera nas finalizações.

No duelo mais forte até aqui, impôs os mesmos 3 a 1 sobre o PSG que o Real aplicou na semana passada. Ainda que os dois estivessem classificados, o jogo foi tratado como teste importante e o time alemão mostrou força. Tolisso foi destaque e ontem começou no banco entrando na segunda etapa. O elenco é robusto.

No entanto, mesmo com todos os predicados listados acima, a missão agora é mais complicada do que há cinco anos.

Primeiro porque não existe a “fome” daquela época. O Bayern havia perdido na temporada anterior a final da Champions em casa para o Chelsea nos pênaltis e sofreu com o Borussia Dortmund de Jurgen Klopp bicampeão alemão. Havia motivação também nos jogadores que formavam a base da seleção em busca da conquista que consagraria essa geração. No ano anterior, eliminação na semifinal da Eurocopa para a Itália.

Agora há um título mundial no currículo dos que seguem no clube, mais um pentacampeonato nacional caminhando para um inédito hexa. Heynckes também não conta com dois pilares fantásticos: Lahm e Schweinsteiger. Praticamente insubstituíveis. Sem contar a ausência do lesionado Neuer, mesmo com as boas atuações do goleiro Sven Ulreich.

Mas principalmente por não haver no país um rival tão forte como era o Dortmund. Vice alemão com 25 pontos a menos, mas finalista da Liga dos Campeões. Ou seja, alguém para medir forças e subir o nível. Agora não existe este opositor, tanto que não há outro alemão disputando o mata-mata. A falta de concorrência tem atrapalhado quando o principal torneio de clubes do planeta afunila.

Ainda assim é bom respeitar o velho Heynckes e sua química com a equipe de Munique. De novo sem alarde e o poder midiático dos tempos de Pep Guardiola, mas com camisa e qualidade para desafiar qualquer um na Europa. Quem sabe para consagrar de novo a aposentadoria do treinador?

(Estatísticas: WhoScored.com)

 


Gols de Willian e Messi mostram que planos de Chelsea e Barça deram errado
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André Rocha

Desde que as bolinhas apontaram mais um confronto Chelsea x Barcelona pela Liga dos Campeões, o cenário previsto era claro e lógico: time catalão com a bola e a equipe londrina fechada e saindo em velocidade explorando os espaços às costas da adiantada defesa do rival. Com a afirmação de um Barça mais pragmático na Espanha e a necessidade de uma vitória dos Blues no Stamford Bridge para resgatar a confiança abalada imaginou-se uma alteração nas propostas das equipes.

Ledo engano. Tão logo rolou a bola o Barcelona se instalou no campo de ataque, girando e tocando em busca de um espaço para Messi entre as linhas do 5-4-1 montado por Antonio Conte. Paulinho voltava pela direita no 4-4-1-1 habitual de Ernesto Valverde, mas atacava por dentro tentando criar superioridade numérica no meio e sobrecarregar Kante e Fábregas no cerco a Messi.

O volante-meia brasileiro só apareceu numa cabeçada completando centro de Messi pela esquerda. Uma das três finalizações do Barça na primeira etapa, nenhuma no alvo. Mesmo com 90% de aproveitamento nos passes. O Chelsea concluiu o dobro. Uma na direção da meta de Ter Stegen e dois chutes de Willian nas traves.

Tudo isso com 29% do tempo com a bola. E a curiosidade: mesmo com uma formação moldada para os contragolpes com Hazard no centro do ataque, Willian e Pedro nas pontas e sem uma referência na frente, o time de Conte foi mais envolvente e perigoso atacando em bloco.

Abriu o placar na segunda etapa com uma marca do Barça de outros tempos, principalmente da Era Guardiola: escanteio curto. Hazard encontrou Willian livre na entrada da área e na terceira tentativa ele não falhou. Falha primária do sistema defensivo do time visitante que é montado para atacar, ter a bola e roubá-la na pressão no campo adversário. Quando pressionado sempre sofre.

Então por que o time da casa não tentou se impor mais? Com 40% de posse e mais coragem poderia ter construído um placar para, aí sim, administrar no Camp Nou. Subiu um pouco a posse na segunda etapa (32%) e finalizou mais quatro vezes, uma no alvo – o gol de Willian. Podia ter se arriscado mais.

Pagou no erro na saída de bola do zagueiro Christensen, que pela esquerda cruzou uma bola em frente à própria área que, forte, passou por Fábregas, mas encontrou Iniesta antes de Azpilicueta. Resposta rápida do time da paciência com a bola e passe do meia para Messi empatar. Quarto gol na Liga dos Campões, primeiro na carreira contra os Blues.

Rara oportunidade em que o gênio argentino teve espaço. Ele depende disto para criar e finalizar. Com Alba, a válvula de escape pela esquerda, bem vigiado por Moses e Willian, além da cobertura de Azpilicueta, o camisa dez sofreu mais ainda. Porque ele é senhor, mas também “escravo” do jogo entrelinhas – relembre AQUI.

Então por que não recuar eventualmente as linhas para atrair o adversário em sua casa para dar a Messi as lacunas entre os setores do adversário que precisa para desequilibrar? Talvez a mudança de mentalidade faça a equipe até se defender melhor…

Ou seja, os gols e o jogo em si mostraram que os planos de jogo foram engessados e previsíveis. E deram errado. Quando o contexto do jogo apresentou situações diferentes, Willian e Messi colocaram nas redes. Lições que ficam para a volta de um confronto muito aberto.

Porque o Chelsea pode complicar muito a vida do adversário se sair mais para jogar. Assim como o Barça, com o placar inicial favorável, pode resgatar uma ideia mais cuidadosa que vem utilizando eventualmente na temporada e matar o duelo e o confronto nos contragolpes com Messi e Suárez.

Quem se adaptar melhor ao contexto sai na frente pela vaga nas quartas de final da Champions.

(Estatísticas: UEFA)


Livre, leve e solto. Gabigol encontra no Santos o que lhe negaram na Europa
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André Rocha

Foto: Rafael Arbex/Estadão

Gabriel Barbosa já foi às redes três vezes no seu retorno ao Santos. Uma por partida. Mais que as duas em um ano e meio da frustrada experiência no futebol europeu – um gol pela Internazionale em dez jogos e outro pelo Benfica nas cinco vezes em que esteve em campo.

O encaixe praticamente imediato no time de Jair Ventura na volta ao Brasil tem pouco ou nada a ver com a tradicional “saudade do feijão”. O fato é que ele reencontrou na Vila Belmiro o que lhe foi negado no Velho Continente, mesmo em ligas que não estão entre as mais qualificadas e competitivas: uma equipe que jogue em função dele.

Além de não lidar bem com a reserva, outra crítica, velada ou não, que o “Gabigol” recebia de treinadores e até companheiros era a deficiência na leitura de jogo. Sem contar a pouca dedicação no trabalho sem bola. Algo já notado nos Jogos Olímpicos, quando o atacante fazia o lado direito e falhava na recomposição. Não comprometeu na conquista da sonhada medalha de ouro, mas foi o que menos se destacou no quarteto com Gabriel Jesus, Neymar e Luan.

Diante de adversários com linhas compactas fechando a área, Gabriel não conseguia ler os espaços para atacar nem buscar o jogo associativo fazendo parede para seus companheiros. Seu estilo é de receber e já partir para a conclusão. Sem muito trabalho coletivo. Ou só da equipe para serví-lo.

Para isto precisa de liberdade total. Como é talentoso, mas não um fora de série, na Itália e em Portugal não aceitaram conceder a ele este “mimo”.  Mas por aqui pode fazer a diferença. Não por acaso, Jair Ventura deixa Gabriel solto na frente. Na vitória sobre o São Paulo por 1 a 0 no Morumbi, com Eduardo Sasha pela direita, Copete à esquerda e Vecchio centralizado na linha de meias do 4-2-3-1.  Para marcar o gol único do clássico em chute preciso no canto direito de Sidão.

São dez finalizações até agora. Oito dentro da área e duas fora. Todas com a canhota que ainda pode ficar mais calibrada com a sequência de jogos. Confiança do comandante não falta: “É o jogador que salva a vida do treinador”, exaltou Jair depois do “San-São”.  No  futebol brasileiro a tendência é desequilibrar mesmo.

Porque Gabriel está como quer. Livre, leve e solto.

 

 


Taça Guanabara não pode ser ilusão mais uma vez para o Flamengo
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André Rocha

Foram 33 cruzamentos em 90 minutos, mais os acréscimos. No vigésimo sétimo, o centro de Diego para Rever tocar e Kadu fazer contra. O gol para descomplicar um jogo em que o Boavista negou espaços com duas linhas de quatro  – Fellype Gabriel e Erick Flores voltando pelos lados com Pará e Renê.

O problema do Flamengo novamente foi a falta de jogadas mais criativas. Infiltrações em diagonal, tabelas por dentro. Difícil surpreender o adversário. Muito por causa de Diego. Parece perseguição, mas não é o caso. Inegável a importância do camisa dez pela liderança positiva, pela entrega absoluta, a concentração para auxiliar sem a bola na execução do 4-1-4-1. Em especial, a técnica nos cruzamentos e chutes, com bola rolando ou parada.

Mas repare que sempre que Diego recebe a bola e alguém se projeta para a jogada que vai furar as linhas de marcação o meia hesita. Domina, gira, dá mais um toque. Tempo suficiente para a marcação adversária se armar e só restar duas jogadas: abrir para um companheiro levantar a bola na área ou ele mesmo cruzar.

Para um time que planeja se instalar no campo de ataque e trabalhar a bola – terminou com 61,5% de posse – essa lentidão na circulação da bola na zona de decisão ou último terço atrapalha a criação de espaços. Não é o caso de barrar o camisa dez, mas tentar orientá-lo a soltar a bola mais rapidamente. Pode ajudá-lo, inclusive, na dura concorrência por uma vaga entre os 23 de Tite para a Copa do Mundo.

Em Cariacica, a tarde infeliz de Henrique Dourado até em jogadas simples complicou ainda mais. Mas pela disparidade entre as equipes , o time de Paulo César Carpegiani finalizou 20 vezes, cinco no alvo contra nenhuma do Boavista na direção da meta de César em um total de nove.

Com Rodinei e Vinícius Júnior, o time rubro-negro buscou mais o fundo na segunda etapa, ganhou velocidade pela direita e habilidade no um contra um do lado oposto. Com o cansaço do adversário a reta final foi de domínio absoluto e o segundo gol que definiu a conquista do primeiro turno do Carioca no lançamento de Everton Ribeiro que Vinícius Júnior raspou para tirar do goleiro Rafael.

21º título da Taça Guanabara e vaga garantida no quadrangular final do estadual. Mas não pode mais uma vez iludir pensando nas ambições do clube para a temporada, a começar pela disputa dura já na fase de grupos da Libertadores. Para a proposta de jogo de Carpegiani, nitidamente insatisfeito à beira do campo, há muito a evoluir. Na lógica do futebol brasileiro, os resultados ao menos ajudam a aumentar a confiança. Mas não bastam.

(Estatísticas: Footstats)

 


O Vasco organizado para ataque e contra-ataque vai cumprindo sua missão
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André Rocha

Nos últimos tempos os times brasileiros vêm aprimorando e atualizando o trabalho defensivo compactando setores, fechando espaços com a participação de todos, fazendo laterais se posicionarem primeiro como defensores e outras ações sem a bola.

O problema é que a parte ofensiva na maioria das vezes fica entregue à intuição dos jogadores, sem muito jogo associativo e mentalidade focada no coletivo para o individual desequilibrar. Por isso as muitas bolas levantadas na área adversária e poucas tabelas e infiltrações.

O Vasco de Zé Ricardo vem conseguindo as duas coisas nas etapas preliminares da Libertadores. A despeito da fragilidade dos adversários, o time se posiciona para atacar de forma coordenada, pelos dois lados do campo e aproveitando o melhor de cada jogador.

Nos 4 a 0 sobre o Jorge Wilstermann em São Januário com clima de duelo continental, o time cruzmaltino de início abriu os laterais Yago Pikachu e Henrique para espaçar a marcação do oponente. Também movimentou Wagner, Evander e Paulinho, o trio de meias do 4-2-3-1, buscando os espaços entre os setores do 5-4-1 do time boliviano e Andrés Rios fazendo o pivô e abrindo espaços. Posse de bola, inversão do lado da jogada e pressão logo após a perda da bola.

Futebol atual. Ainda que com alguma dificuldade na saída de bola com Paulão no lugar do suspenso Erazo. O zagueiro, porém, compensou com a costumeira presença de área para abrir o placar. Depois um erro na tática de impedimento comandada por Alex “Pirulito” Silva terminou no gol de Paulinho para acabar de descomplicar o primeiro tempo.

Segunda etapa com o treinador Roberto Mosquera desmanchando a linha de cinco e mandando a campo os atacantes Chávez e Álvarez para se juntarem ao brasileiro Lucas Gaúcho. Mas em um “abafa” sem muita organização e qualidade para furar a defesa bem protegida por Desábato e com Ricardo Graça na zaga cada vez mais seguro.

Zé Ricardo colocou Riascos, Rildo e Thiago Galhardo para acelerar os contragolpes e matou o jogo no final com Pikachu mais que readaptado à lateral direita e Rildo. 4 a 0 para deixar a vaga mais que encaminhada. Em Sucre, o Jorge Wilstermann terá pouco mais que os 2.800 metros de altitude para buscar um milagre.

Improvável. O Vasco vai ganhando encaixe, não tem o Carioca para atrapalhar e é difícil imaginar um time de Zé Ricardo desconcentrado a ponto de facilitar tanto. O Vasco vai cumprindo a missão de chegar à fase de grupos, algo que parecia complicado pelo momento político do clube, mas em campo se resolve com organização. Para atacar e contra-atacar. Como deve ser.


Real Madrid 3×1 PSG – Tamanho é documento! A virada de Zidane em Madri
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André Rocha

Zinedine Zidane começou acertando na escalação quando fez voltar Isco no lugar de Bale para buscar a supremacia no meio campo e tornar o Real Madrid mais móvel, menos engessado. Ainda que o meia espanhol tenha passado boa parte do jogo aberto pela direita.

Unai Emery mandou a campo Kimpembe na zaga e Thiago Silva ficou no banco. No meio, o trio Verratti, Lo Celso e Rabiot sem definir o jogador mais fixo à frente da defesa que tinha Berchiche na lateral esquerda.

Foi o pecado do PSG, deixando muitos espaços entre as linhas. Quase pagou caro na virada espetacular de Marcelo para Cristiano Ronaldo chutar no rosto do goleiro Areola. Sem contar que o duelo que atraiu os olhos do mundo ficou grande demais para alguns jogadores, especialmente Lo Celso. Verratti parecia inseguro também.

Rabiot compensava com onipresença, inclusive na área para aproveitar a sobra de um contragolpe puxado por Mbappé que Nacho evitou a finalização de Neymar, mas permitiu o rebote para o francês, que não foi acompanhado por ninguém do meio do Real.

Jogo igual, com o time merengue muito preocupado com Neymar cortando da esquerda para dentro, mas fechando espaços para a finalização, embora os passes também tenham criado perigo. A equipe de Unai Emery compensava os espaços no meio com boa atuação da última linha de defesa, inclusive Daniel Alves, concentradíssimo no posicionamento.

Mas Lo Celso fez pênalti tolo sobre Kroos e Cristiano Ronaldo empatou no fim do primeiro tempo. Fundamental mentalmente para um time buscando recuperação na temporada. Ainda mais pelo que viria na segunda etapa.

Emery deveria ter tirado Lo Celso no intervalo. Preferiu trocar Cavani por Meunier para liberar Daniel Alves como ponta e Mbappé no centro do ataque.  A troca fez Neymar sumir aos poucos do jogo. Outro equívoco do treinador foi manter sua equipe com linhas adiantadas e sem proteção, mesmo ganhando velocidade na frente, mas perdido Cavani como pivô.

Já Zidane foi certeiro: Bale na vaga de Benzema e o resgate da formação dos 5 a 2 sobre a Real Sociedad no fim de semana – Lucas Vázquez e Asensio pelos lados formando a linha de quatro no meio com Modric e Kroos. Marcelo ganhou com Asensio a companhia que faltava para voar pelo seu setor. Novamente o bicampeão europeu atropelou no segundo tempo de uma decisão.

Em duas ações pela esquerda, o gol de joelho de Cristiano Ronaldo, o 11º em sete jogos no torneio, e Marcelo para abrir uma vantagem bem mais complicada de ser revertida. Só com 2 a 1 contra, Unai tirou Lo Celso. Mas não colocou o veterano Lassana Diarra, mais habituado a jogos deste tamanho e a atuar mais fixo. Colocou Draxler e seguiu sem consistência.

Facilitou a virada com a marca de Zidane. No Bernabéu, mais uma vez o tamanho foi documento no jogo grande que sempre é mais mental que tático ou técnico. O PSG terá que ser gigante em Paris. Será que consegue?


Manchester City dá aula de como impor o favoritismo. Vaga garantida
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André Rocha

No destino das bolinhas para as oitavas de final da Liga dos Campeões o Manchester City foi considerado um dos “sortudos” por fugir de Chelsea, Juventus e Real Madrid e encarar o Basel. Mas depois da eliminação para o Monaco na temporada passada, era obrigação da equipe de Pep Guardiola levar o confronto muito a sério.

Foi o que aconteceu na Basiléia. Em 45 minutos, 73% de posse de bola e 85% de acerto num total de 465 passes contra apenas 150 do adversário. Cinco finalizações, quatro no alvo. Três nas redes.

Gols mostrando todo o repertório do líder e virtual campeão inglês. Começando com Gundogan completando na primeira trave cobrança de escanteio. Depois Sterling chegou ao fundo pela esquerda – problema durante a ausência de Sané e Mendy ao mesmo tempo – e Bernardo Silva, cada vez mais adaptado ao novo clube, não bateu forte. O goleiro tcheco Vaclik aceitou. Depois o arqueiro não pulou no chute de Kun Aguero de fora da área.

Um de cabeça, outro de fora da área. No Barcelona eram mais raros gols construídos desta forma. Uma mostra da evolução do treinador, que não se apega sequer à sua grande obra prima, um dos maiores times da história.  A prova de que os citizens entraram 100% ligados.

Uma aula de como deve se impor um favorito. Sem dar chances ao 5-4-1 montado pelo treinador Raphael Wicky que esperava negar espaços com setores compactos e uma bola nas costas da defesa adiantada do adversário para o único atacante Dimitri Oberlin. Só conseguiu uma vez, mas o atacante não conseguiu finalizar.

Gundogan justificou a opção de Guardiola por colocar David Silva no banco com um golaço na segunda etapa para consolidar a goleada. Atuação tão boa que ofuscou De Bruyne, o meia a dar lugar ao espanhol na segunda etapa que teve como ótima notícia o retorno de Sané muito antes da previsão quando lesionou o tornozelo. E ainda falta Gabriel Jesus…

Para confirmar a qualidade e versatilidade de um elenco curto como gosta o Guardiola, mas cada vez entregando mais futebol. Garantindo com 90 minutos de antecedência a vaga nas quartas de final da Champions. Se na matemática a vantagem é reversível, o melhor futebol praticado na Europa torna a volta no Etihad Stadium uma mera formalidade.

(Estatísticas: UEFA)