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Real Madrid, a “Lei de Guardiola” e o risco de repetir fiasco com Mourinho
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André Rocha

Foto: Getty Images

Pep Guardiola teve sua primeira experiência em um time de primeira divisão com o Barcelona na temporada 2008/2009. De lá para cá disputou oito ligas nacionais: quatro na Espanha, três na Alemanha e uma na Inglaterra. Mais um ano sabático em 2012/13. Venceu seis. Ou três quartos.

Mesmo que seus detratores relativizem tudo que o treinador venceu pela qualidade dos jogadores – talentos que ele ajudou a desenvolver ou evoluir e o maior exemplo é Lionel Messi – é um retrospecto impressionante para um profissional que ainda não completou dez anos de rodagem.

Por isso merece respeito sua tese de que “o título (da liga) se ganha nas oito últimas rodadas e se perde nas oito primeiras”.  Ainda que em várias delas, especialmente com o Bayern de Munique, seu time tenha vencido praticamente de ponta a ponta.

O Real Madrid de Zinedine  Zidane iniciou a temporada de forma primorosa, vencendo Barcelona e Manchester United e conquistando as Supercopas da Espanha e da Europa com sobras e jogando um futebol que conciliou arte e competitividade. Teve a bola contra os ingleses e no superclássico em Madrid e matou o time catalão nos contragolpes no Camp Nou. Sinalizava uma manutenção do domínio do país e no continente.

No entanto, os resultados nas cinco primeiras rodadas do Espanhol são decepcionantes: duas vitórias, dois empates e uma derrota, para o Real Betis de Quique Setién no Santiago Bernabéu. Em termos de desempenho, ao menos no único revés com a equipe mais completa, não houve queda acentuada. Faltou eficiência nas finalizações – foram 27, 12 de Cristiano Ronaldo e pelo menos três chances que o português não costuma desperdiçar.

Certamente Zidane não contava com tantos pontos perdidos, mas talvez o início menos intenso para voar no final da temporada faça parte do planejamento, com em 2016/17. Ou na recuperação em sua temporada de estreia, quando ficou a um mísero ponto do campeão Barça. A diferença é que quando assumiu sucedendo Rafa Benítez estava apenas dois pontos atrás dos blaugranas e a quatro do então líder Atlético de Madrid.

Agora são sete pontos. Distância considerável, ainda que com um ponto a menos em relação à fatídica jornada de 2012/2013. O ano do fiasco por conta do desgaste de José Mourinho com o elenco merengue que fez a equipe derrapar e o Barcelona, comandado por Tito Vilanova depois da saída de Guardiola, aproveitou para disparar e não perder mais. Terminou com 100 pontos, 15 a mais que o Real.

Os mesmos 100% de aproveitamento em cinco partidas, com gols de Messi em profusão. A mesma fome culé depois de perder o título na temporada anterior. Agora talvez pese um certo relaxamento madridista após tantas conquistas. Ou o foco, até pela cultura do clube, no tricampeonato inédito da Liga dos Campeões.

Seja como for, o inicio é preocupante e precisa de recuperação já a partir do jogo contra o Alavés fora de casa neste sábado. Para não valer a “Lei de Guardiola” e o Barcelona nem precise das oito últimas rodadas para confirmar seu 25º título nacional e se aproximar mais do grande rival, que ostenta a marca de 33 troféus. A conferir.


Não foi só raça! River Plate dá aula monumental de “toco y me voy”
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André Rocha

O Jorge Wilstermann foi inocente no Monumental de Nuñez como os times e seleções bolivianos de quatro ou cinco décadas atrás. Levar o primeiro gol dos históricos 8 a 0 num contragolpe com Scocco pegando escancarada a linha de cinco na defesa comandada pelo brasileiro Alex “Pirulito” Silva beirou o patético.

Pior ainda: trouxe a torcida que já tinha feito uma bela festa na entrada do River Plate ainda mais para o jogo e o que se viu foi um massacre sem precedentes. Porque o gigante argentino teve fibra, sim. Raça. A camisa pesada também conta, mas não foi só isso. O time do treinador Marcelo Gallardo jogou futebol no ritmo certo para construir a virada do dobro do tamanho que precisava.

Já tinha criado ao menos três oportunidades cristalinas, duas com Scocco, na altitude de 2.570 metros em Cochabamba nos 3 a 0 que iludiram a Bolívia e até seu presidente Evo Morales. O River sabia que tinha condições de reverter.

E aí entra a primeira aula dos Millonarios para brasileiro aprender: a “pilha” certa. Com a tensão natural de quem sabia que a obrigação de fazer três gols sem sofrer nenhum em uma partida eliminatória é mais que desconfortável. Mas transformando a adrenalina em fome. Até uma certa raiva, mas não para agredir fisicamente o adversário. Simplesmente mostrar quem é o mais forte.

A segunda, e monumental, foi a avalanche de futebol, com volume de jogo impressionante. Toque fácil, rápido, objetivo. A execução do 3-4-3 como deve ser: alas Fernández e Rojas abrindo o campo, Ponzio e, principalmente, Enzo Pérez empurrando o trio Auzqui-Scocco-Martínez para dentro da área do oponente. Todos se procurando para tabelas, triangulações e infiltrações em diagonal, no “funil”.

Bem diferente do festival de cruzamentos de Atlético Mineiro (43) e Palmeiras (32) nas partidas em casa contra os bolivianos. O River não se desfez da bola. Pelo contrário, deu um espetáculo de “toco y me voy” moderno, com a intensidade do futebol atual. Passa e desloca, passa ou se projeta para dar profundidade às manobras do ataque. Até cruzou muito – 26, com cinco acertos. Mas muitos da linha de fundo para trás, como deve ser.

Depois de três gols de Scocco um tanto aleatórios, o time da casa anotou outros três em jogadas trabalhadas. Trocas de passes verticais até chegar ao fundo e encontrar o companheiro mais bem colocado. Futebol simples, mas que só é viável quando há entendimento do jogo.

Também tempo de trabalho. Gallardo está no clube desde 2014. Venceu a Sul-Americana no ano da estreia e a Libertadores na temporada seguinte. As conquistas rarearam, mas o trabalho prossegue. Há uma linha, um estilo, uma ideia. Que encontrou sua melhor execução numa noite mágica.

A dos cinco gols de Scocco, maior beneficiado pelo futebol fluido e mortal do River Plate que gerou nada menos que 22 finalizações, 12 na direção da meta de Raul Olivares. O atacante marcou quatro gols em toda sua passagem pelo Internacional e superou em um jogo. De virtual eliminado ao grande favorito para alcançar seu quarto título do torneio. Primeiro tem a semifinal argentina contra o Lanús, que mandou para casa, também numa virada, o San Lorenzo campeão em 2014.

No início da competição, oito brasileiros e seis argentinos. Agora só teremos uma decisão entre os grandes rivais do continente, algo que não acontece desde o Corinthians x Boca Juniors de 2012, se o Grêmio superar o Barcelona. Sintomático como os dois titulos desde o fim da sequência de domínio do Brasil.

Que a lição não se resuma aos “cojones”, à questão anímica. O River Plate não foi só isso em Buenos Aires.

(Estatísticas: Footstats)


Botafogo: melhor história da Libertadores desta vez não pecou pela covardia
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André Rocha

O time que parecia fadado ao rebaixamento em 2016 depois de voltar da Série B invadiu o G-6 do Brasileiro, tomou a vaga na fase de grupos da Libertadores dos campeões Colo Colo e Olimpia. Encarou e terminou na liderança de um grupo com mais dois vencedores sul-americanos: Atlético Nacional, o atual, e o tradicional Estudiantes.

Ainda o Barcelona de Guayaquil, semifinalista desta edição após tirar a invencibilidade e eliminar o Santos na Vila Belmiro. Nas oitavas de final, a sina persistiu. O gigante Nacional foi outro a ficar pelo caminho. Duas vitórias que fizeram a torcida acreditar até em título.

Não foi possível. Mas, ainda assim, o Botafogo é a melhor história da edição 2017 da Libertadores – só será superada em caso de título do impressionante Jorge Wilstermann. A equipe de Jair Ventura. Organizada, forte mentalmente, jogando sempre no limite. Sem um grande destaque individual, um craque midiático. O clichê é inevitável: time de operários.

Caiu diante do Grêmio que, na média da temporada, joga o melhor futebol do país. E dentro da arena do favorito, o alvinegro fez sofrer. Obrigou Renato Gaúcho a fazer uma substituição ainda no primeiro tempo, tirando Leonardo Moura inócuo pela direita e colocando Everton para ganhar intensidade na frente.

Também mandar um recado ao oponente: posso estar desorganizado, mas não tenho medo. O mesmo que o Botafogo fez na ida no Estádio Nilton Santos. Com Leo Valencia no lugar de Rodrigo Lindoso deixou mais espaços para o Grêmio controlar o meio-campo com o ótimo Arthur. Deixava, porém, o Grêmio alerta. Na prática, uma formação é sempre uma espécie de carta de intenções. Nela estava escrita que o Botafogo não se acovardaria em nenhum momento.

Porque o medo, ou a cautela excessiva, foi o grande pecado da doída eliminação para o Flamengo na Copa do Brasil. Mesmo descontando tudo que envolvia um clássico estadual valendo vaga num torneio nacional e o abismo de poder de investimento entre os clubes, foi incompreensível a postura diante de um rival que já havia demonstrado insegurança em outros momentos da temporada, especialmente na eliminação na fase de grupos da Libertadores.

A grande chance de vencer seria levar o duelo para o psicológico. Pressionar, acuar. Ainda que fosse em momentos chaves. Jair Ventura preferiu esperar. No Engenho de Dentro e no Maracanã. Aguardou tanto que o imponderável chegou no drible mágico de Berrío e no chute fraco de Diego que venceu Gatito Fernández.

Escaldado, não repetiu a atitude no torneio continental. Mesmo contra uma equipe superior à rubro-negra. A eliminação veio em gol único. Bola parada que é o ponto mais frágil de um sistema defensivo sólido. Mas em nenhum momento houve massacre do time mais forte. Segundo o Footstats, foram 57% de posse gremista e 15 finalizações, um terço no alvo. O Bota, porém, respondeu com 11, quatro na direção da meta de Marcelo Grohe. Barrios foi a diferença.

Mas desta vez não há do que se arrepender. A lamentar, talvez, a falta de contundência no ataque. O chute na trave de Bruno Silva. Podia ter vindo outro “milagre”. Mas Jair Ventura e seus comandados deixaram 100% em campo. Com a coragem dos grandes.

Agora é reunir forças para voltar ao G-6 no Brasileiro para quem sabe reescrever a história. Desta vez mais forte e respeitado. Mais glorioso. Mais Botafogo.

 


A melhor atuação do Flamengo com Rueda, mas Chapecoense não é parâmetro
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André Rocha

Reinaldo Rueda manteve Trauco e Everton Ribeiro fazendo a dupla pela esquerda no 4-2-3-1 habitual do Flamengo, depois da boa atuação na vitória por 2 a 0 sobre o Sport pelo Brasileiro. Também pelas ausências de René e Everton, mais a insegurança de Rodinei no trabalho defensivo pela direita.

Com o meia mais criativo pela esquerda e Berrío do lado oposto o quarteto ofensivo deu liga porque a movimentação do camisa sete para dentro procurando Diego na articulação abre espaço para o apoio do lateral e o deslocamento de Guerrero por ali, buscando a diagonal ou permitindo infiltrações de Diego, Willian Arão ou mesmo Cuéllar pelo centro.

Os volantes marcaram os dois primeiros gols no triunfo por 4 a 0 que valeu a classificação para as quartas-de-final da Copa Sul-Americana. Porque a Chapecoense era compacta no 4-1-4-1,  mas os meio-campistas não pressionavam os adversários e a última linha defensiva ficava exposta e, pior, mal posicionada, permitindo as infiltrações em diagonal.

Ofensivamente só incomodava com o equatoriano Penilla, inicialmente pela esquerda e depois procurando o lado direito. Aproximar Arthur Caike de Wellington Paulista não funcionou e deixou ainda mais espaços entre as intermediárias.

Por isso o Fla sobrou na Arena da Ilha na melhor atuação coletiva sob o comando de Rueda. Mesmo com Diego atrasando alguns contragolpes e Berrío se equivocando nas tomadas de decisão. Problemas compensados por belas atuações dos volantes e a perfeição de Juan na defesa e na frente, completando os 3 a 0 no rebote de cabeçada de Guerrero, outro destaque, mesmo não indo às redes. Lucas Paquetá entrou e completou a goleada, completando bela assistência de Everton Ribeiro.

Foram 57% de posse de bola e 14 finalizações do Fla – oito no alvo, bem diferente do “arame liso” de outros jogos. O dobro da Chape. Uma medida da distância entre as equipes no campo.

Um desempenho animador se o Fla pensar na sequência de Brasileiro e Sul-Americana, porque para a final da Copa do Brasil contra o Cruzeiro o time não terá Everton Ribeiro. Mas vale uma ressalva: a Chapecoense não tem sido um bom parâmetro para avaliar a evolução da equipe.

No Brasileiro, os 5 a 1 no mesmo estádio parecia um marco de recuperação do time comandado por Zé Ricardo, mas seguiu oscilando até a crise que culminou com a mudança no comando técnico. De qualquer forma, fica a impressão de que a combinação de características dos jogadores encontrou um melhor encaixe. Vale observar a sequência de jogos.

(Estatísticas: Footstats)


O que o Real de CR7 tem a ensinar ao PSG no caso Neymar x Cavani
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André Rocha

No dia 29 de agosto de 2009, Cristiano Ronaldo estreava oficialmente pelo Real Madrid. Na vitória por 3 a 2 sobre o Deportivo La Coruña, o craque português, então com 24 anos e já uma Bola de Ouro no curriculo pelo Manchester United, marcou seu primeiro gol com a camisa merengue.

Em cobrança de pênalti. Com a camisa nove, herança de Di Stéfano, ídolo eterno dos madridistas. Sem a sete, que pertencia a Raúl González, outra bandeira do time da capital espanhola. A oito era de Kaká e a onze de Karin Benzema. Quarteto ofensivo contratado para marcar a nova era galáctica do clube no retorno de Florentino Pérez à presidência. O treinador era Manuel Pellegrini.

Comando que deixou bem claro, desde o princípio, que Cristiano Ronaldo, então a mais cara contratação da história do esporte (94 milhões de euros), seria a estrela maior. Cobrador de pênaltis e faltas. A equipe jogaria para voltar a vencer no continente e fazer do português o protagonista do futebol mundial, superando Messi.

No Paris Saint-Germain, a impressão é de que houve algum ruído na comunicação. Neymar chegou com o pagamento da multa rescisória de 222 milhões de euros ao Barcelona e toda pompa e circunstância. Mas mesmo com os olhos do mundo voltados para o brasileiro, que recebeu a camisa dez e a promessa de protagonismo pelo dono do clube, o sheik do Catar Al-Kelaifi, já ficou claro que Cavani, artilheiro e grande destaque na última temporada, não cederá o posto de cobrador oficial de pênaltis.

Nem abrirá mão de se colocar como a referência no centro do ataque para seguir como o goleador máximo da equipe de Unai Emery. Pelo visto, a fase de se conformar com o papel de coadjuvante foi embora com a saída de Ibrahimovic para o Manchester United.

Na vitória por 2 a 0 sobre o Lyon no Parc des Princes, o pedido de Neymar, a recusa de Cavani e o chute do camisa nove defendido pelo goleiro Anthony Lopes antes de bater no travessão. Em uma cobrança de falta, o uruguaio quis tomar à frente e Daniel Alves precisou tirar a bola e entregá-la ao camisa dez. No vestiário, segundo o jornal L’Équipe, houve o desentendimento entre os dois atacantes.

A impressão é de que houve falha na gestão do elenco ou alguém está sendo insubordinado. Porque normalmente os cobradores são definidos pelo treinador no vestiário exatamente para evitar conflitos. Difícil entender.

Ou é bem simples: a fogueira de vaidades pode estar consumindo o projeto de poder do Paris Saint-Germain na Europa já no início desta nova etapa. Faltou jogar limpo. Deixar claro a divisão de funções e atribuições com os novos contratados.

Em comum com o Real de 2009, o excesso de peças ofensivas que parecem não encaixar: Draxler, Mbappé e a dupla sul-americana.  Raúl foi o primeiro a sair, depois Kaká. Ficaram Benzema e Cristiano Ronaldo que mais tarde formariam o trio “BBC” com Gareth Bale. Aí sim deu liga, mesmo com os atritos comuns entre estrelas milionárias.

O treinador também dá a impressão de que não tem o perfil, nem estofo para administrar um vestiário tão estelar e complexo. Depois de Pellegrini, o Real foi atrás do explosivo e midiático José Mourinho. Com o português conseguiu superar a barreira das oitavas de final da Liga dos Campeões depois de seis eliminações consecutivas e interromper a sequência de títulos espanhois do Barcelona de Pep Guardiola em 2012.

Mas só foi encontrar o equilíbrio e “La Decima”Liga dos Campeões com Carlo Ancelotti quase cinco anos depois da chegada de Cristiano Ronaldo e um time mais equilibrado que agora chega ao apogeu comandado por Zinedine Zidane. Com o português genial a meses de conquistar sua quinta Bola de Ouro.

O PSG vai precisar de ainda mais paciência porque não tem a história e o peso da camisa do Real Madrid. E, pelo menos por enquanto, Neymar não tem o tamanho de CR7. Mesmo com o sucesso no Sevilla, Unai Emery não parece ter o peso no comando para a ambição do clube. Neste primeiro atrito mais sério entre as estrelas pouco se ouviu falar do espanhol.

É bem possível que o sonho da Champions não se realize nesta temporada. Cabe ao clube francês aprender a corrigir a rota, mas seguir avançando para vencer as principais competições e consagrar Neymar. Como o Real Madrid que não se arrepende do investimento que fez há oito anos e tem muito a ensinar ao “novo rico” na arte de administrar sua constelação.

 


Campeonato inglês com cheiro de volta para Manchester. Pep ou Mou?
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André Rocha

Fica claro a cada partida do campeão Chelsea, inclusive no empate sem gols contra o Arsenal no Stamford Bridge, que Antonio Conte não encontrou em Morata uma reposição para Diego Costa no que o brasileiro naturalizado espanhol fazia de melhor, além dos gols: a capacidade de reter na frente as ligações diretas e passes longos.

O 5-4-1 esvazia o meio-campo e não sustenta construção de jogo com posse de bola. Sem Hazard, que volta para ajudar na articulação, fica ainda mais complicado. Por isso a superioridade do Arsenal de Arsene Wenger, que emulou o desenho tático do rival londrino e teve em Xhaka e Ramsey meio-campistas que combinaram qualidade técnica e dinâmica melhor que Kanté e Fábregas – apesar do passe precioso do espanhol para o compatriota Pedro perder à frente de Cech na melhor chance do jogo, ainda no primeiro tempo.

Com Liverpool e Tottenham oscilando mais que o esperado e o Newcastle não mostrando força até aqui para repetir a surpresa do Leicester em 2016, a Premier League começa a ganhar um aroma bem conhecido da Premier League nos últimos dez anos. Mesmo com apenas cinco rodadas.

Desde 2007, quando o Chelsea não foi campeão a taça rumou para Manchester. O United de Alex Ferguson faturou cinco, o City conquistou dois. Agora, não é exatamente a tradição que parece pesar a favor das equipes da cidade, mas a força de seus elencos e, principalmente, a capacidade de seus treinadores.

Pep Guardiola já sinaliza que o “curso” de um ano de campeonato inglês foi útil para o aprendizado. Entender o ritmo, o jogo físico, o “bate-volta” e tentar se adaptar. Jogo a jogo, demanda a demanda. Por isso a variação no desenho tático com linha de quatro ou cinco defensores, porém mantendo a ideia de jogo.

Abrir o campo com os novos laterais/alas Walker e Mendy, controlar o jogo no meio-campo alternando posse e aceleração com De Bruyne e David Silva e garantindo presença de área e poder de finalização mantendo Aguero e Gabriel Jesus no ataque, ainda que o brasileiro parta da ponta para dentro.

Como nos 6 a 0 sobre o Watford fora de casa, mas protagonista em campo atacando com volume, mas sabendo usar as jogadas aéreas com bola parada ou rolando e também explorar os espaços às costas da retaguarda adversária. Um City híbrido e inteligente. Um Guardiola mais conectado à lógica da liga mais forte do mundo.

Algo que o tricampeão Mourinho conhece tão bem. Por isso os Red Devils sob seu comando iguala a campanha do rival local: quatro vitórias e um empate, dezesseis gols marcados e dois sofridos. Mas trajetória construída de maneira bem diferente.

Um estilo baseado na força física e nas jogadas aéreas, ao menos até abrir vantagem. Depois muita velocidade nas transições e fôlego nos minutos finais, como nos 3 a 0 sobre o Everton no reencontro com Wayne Rooney dentro do Old Trafford, matando o jogo com os gols de Mkhitaryan e Lukaku depois do golaço de Valencia logo no início da partida.

Sem grande preocupação com a posse de bola, apostando sempre nos ataques verticais. Na ausência de Pogba, lesionado, Fellaini é mais um para cortar ou completar cruzamentos. Juan Mata é o ponta articulador que garante mobilidade e criação de espaços diante de adversários fechados. Um 4-2-3-1 compacto, rápido, intenso.

A retaguarda ainda não inspira confiança, mas foi vazada apenas no empate contra o Southampton. Graças às intervenções do goleiro De Gea. A do City também precisa de ajustes e sofre menos porque consegue manter a bola mais longe da meta de Ederson.

É muito cedo para qualquer prognóstico, ainda mais com tanto equilíbrio de forças e as equipes mais poderosas envolvidas em torneios continentais, fora as copas nacionais sempre desgastantes. Mas já é possível sentir um cheiro de Manchester voltando ao domínio na Inglaterra.

Ou um novo duelo Pep x Mou para atrair os olhos do mundo.


Uma convocação para questionar Tite: afinal, quais são os critérios?
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André Rocha

Tite fala em meritocracia, observar jogadores atentamente nos principais centros – não só jogos, mas também treinamentos. Avaliar potencial e desempenho nos clubes, mas também o lastro de experiência, inclusive na seleção.

Tudo muito justo. E o momento, de fato, é de testes, experiências e observações. Abrir o leque, deixar claro para os jogadores que não há nada fechado ou consolidado para o Mundial do ano que vem.

Mas nada, absolutamente nada justifica a convocação de Diego Ribas, do Flamengo. Vivendo uma fase de atuações pífias pelo Flamengo. Fez o gol da classificação para a final da Copa do Brasil e não mais que isso. Erros técnicos, o velho defeito de prender demais a bola e atrasar a tomada de decisão.

Convocar Diego é um tapa na cara de todos que esperam uma oportunidade. Até o redivivo, mas sempre contestado Paulo Henrique Ganso vive um melhor momento no Sevilla. Para não mencionar Lucas Lima, novamente destaque no Santos.

Diego Tardelli tem 32 anos, atua na China e, mesmo vivendo bom momento (11 gols em 13 partidas) soa absurdo. Se fosse alguém com amplo histórico na seleção, com conquistas e capacidade de impor respeito aos adversários seria compreensível. Neste momento é outro murro nas possibilidades de quem está brilhando em outros centros. Até Malcom, ex-Corinthians, voando no Bordeaux e que trabalhou com Tite no título brasileiro de 2015.

Mesmo Arthur pode ser questionado, apesar de todas as qualidades de meio-campista atual, que marca e joga. Porque dá a impressão de que um curto período de brilho jogando no futebol brasileiro vale mais do que atuações consistentes por mais tempo em ligas mais competitivas. Como, por exemplo, Allan do Napoli e Fabinho do Monaco. O mesmo vale para o retorno de Fred, do Shakhtar Donetsk.

E se Arthur é convocado pelo que fez no Grêmio, por que não Pedro Rocha, igualmente protagonista e que poderia ser chamado na vaga de Diego Tardelli? Se a ideia é testar uma alternativa ao Roberto Firmino, por que não Jô, que, inclusive, abriria a possibilidade de experimentar um centroavante com características de pivô? Se desempenho na China vale, por que não Ricardo Goulart na vaga de Diego?

Afinal, quais são os critérios, por mais subjetivos que sejam? As respostas na coletiva mais confundiram que esclareceram. E, infelizmente, a pergunta direta sobre a ausência, mais uma vez, do goleiro Vanderlei carregou uma ironia que deu a deixa para o desvio da questão central: o mérito.

No mais, a manutenção de uma base que formará o time titular é compreensível para enfrentar Bolívia na altitude e Chile campeão da Copa América e em busca de uma vaga na Copa. As novidades da lista é que foram mais que questionáveis.

Tite tem créditos. Muitos. Inegável seu trabalho abnegado de observação e estudo. Mas não pode ser blindado. O mais importante a partir de agora é experimentar. Nesta primeira lista, as escolhas não foram das mais felizes.

[Em tempo, para não ser injusto: Danilo é uma boa opção. Fagner vem mal no Corinthians e convém pensar em um outro nome para reposição ao Daniel Alves]


Como o Flamengo pode esperar resultados diferentes de escolhas semelhantes?
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André Rocha

O Flamengo do empate sem gols na Arena Condá não teve desta vez os elos fracos que costumam comprometer o desempenho coletivo com falhas individuais. A escalação foi bastante coerente, considerando as últimas partidas sob o comando de Reinaldo Rueda.

O problema não foi a falta de entrega em campo ou fibra. Até porque esse time costuma se abater quando sofre um gol e não foi o caso em Chapecó, apesar das boas oportunidades da equipe catarinense no segundo tempo. Principalmente depois da entrada do equatoriano Penilla que deitou e rolou sobre Rodinei.

O velho clichê “Queremos raça!” gritado nas arquibancadas nem sempre é a solução para todos os problemas. Muitas vezes o time não é “sem vergonha”, ainda que não seja um exemplo de superação ou garra. O jogo é que não flui, por uma série de fatores.

Como as características dos jogadores que não combinam. Quem vê o lado direito com Rodinei e Berrío, dois velocistas sem grande leitura de jogo e senso coletivo, percebe que a presença de Everton Ribeiro como ponta articulador daria ao setor a qualidade no passe e o deslocamento para o lateral ultrapassar.

Mas para isso é necessário que Diego, o meia central do 4-2-3-1 rubro-negro, se apresente para tabelas rápidas ou infiltre no espaço certo. Como, por exemplo, Ricardo Goulart fazia com perfeição no Cruzeiro bicampeão brasileiro. Mas o camisa dez, ao menos na numeração da Copa Sul-Americana, prefere recuar para tentar organizar o jogo a usar o seu bom poder de finalização.

Mesmo com o meio-campo mais qualificado depois da efetivação de Cuéllar e Willian Arão à frente da defesa. A saída de bola ficou mais limpa e poderia encontrar Diego adiantado, perto da zona de decisão. Com essa dinâmica dos meias criativos o ataque podia, enfim, depender menos do trabalho de pivô de Paolo Guerrero.

O peruano precisa recuar sempre e aparece ou se desloca menos para buscar a finalização. Serve mais do que é abastecido. Abre na ponta e quando chega na área a jogada é previsivel. Porque os ponteiros Berrío e Everton não surpreendem, com exceção do drible do colombiano que resolveu a semifinal da Copa do Brasil.

Torneio, aliás, que há algum tempo vem norteando a montagem do time titular. Por isso Everton Ribeiro perdeu espaço. Mas Berrío não pode, por isto, ser considerado intocável, absoluto.

Uma jogada eventual que parece garantir uma sobrevida entre os que ganham mais minutos, além do fato de ter trabalhado com o treinador no Atlético Nacional. A produção, porém, não é consistente. Muitos erros técnicos ou na leitura das jogadas.

O resultado final é um time travado, com um ou outro lampejo. Porque parece pronto para os contragolpes, mas pelo peso da camisa e por conta da badalação  (exagerada) do  elenco, se coloca como protagonista nas partidas, se instala no campo de ataque e troca passes. Mas sem espaços não consegue acelerar. Um paradoxo.

Por isso o ataque “arame liso”, que cerca mas sofre para furar a defesa do oponente. Sem criatividade e contundência. Exatamente pela falta de ideias. Talvez intimidadas pela necessidade de vitórias e títulos. Era assim com Zé Ricardo, segue com Rueda, que sabia que precisava dar uma resposta imediata no desempenho para obter vitórias a curto prazo.

Mas como obter resultados diferentes com escolhas semelhantes? Com uma ou outra mudança, por necessidade ou convicção do novo treinador, a essência é a mesma, principalmente nas ações ofensivas. O fluxo de passes segue muito parecido quando se aproxima da área adversária. Ainda a bola que gira, perde tempo com Diego que sempre prende, no mínimo, um segundo a mais. Passa por Guerrero, chega a Arão até parar no flanco, mesmo que cruzando, na média, menos que nos tempos de Zé Ricardo.

Deficiências já conhecidas e não corrigidas. Hora de fugir das explicações de sempre e encontrar novas soluções a tempo de salvar o ano em que o orçamento permitiu mais investimentos no futebol. Fechar 2017 apenas com um título estadual será bem pouco para quem gasta tanto.


Botafogo 0x0 Grêmio: empate no conflito entre o possível e o desejado
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André Rocha

O Botafogo de Jair Ventura sabia que precisava adicionar um pouco de coragem e presença no campo de ataque no Nílton Santos para não repetir o erro da semifinal da Copa do Brasil contra o Flamengo e também pelos desfalques importantes do adversário que aumentavam as chances de vitória para levar vantagem para a volta. Mas também tinha noção de quem um jogo de controle de espaços seria viável pensando nos 180 minutos.

O Grêmio tinha noção de que precisava ter mais cuidados defensivos por não contar com Geromel, Michel e Luan, porém a ideia de ir às redes no Estádio Nilton Santos e encaminhar a classificação era sedutora, até pela proposta de jogo que automatiza movimentos independentemente da escalação. Trabalhar a bola, triangular, deslocar, atacar em bloco.

O resultado foi um conflito entre o possível e o esperado. Uma incerteza que até deu algum tempero à disputa.

Porque o jogo teve mais espaços entre as linhas de marcação, mais “trocação” que o esperado. Jair Ventura trocou Lindoso por Leo Valencia. Manteve a estrutura do 4-3-1-2 desmembrado em duas linhas de quatro sem a bola, porém bloqueando menos a entrada da área e chegando na frente com mais gente. O problema, novamente, foi a falta de criatividade e da eficiência nas conclusões – apenas cinco, nenhuma na direção da meta de Marcelo Grohe. Apesar da entrega de sempre de Rodrigo Pimpão e Roger.

O Grêmio com Bressan na zaga, Jailson à frente da defesa e Leonardo Moura, aos 39 anos, como meia central. No entanto, quem dominou o meio-campo foi Arthur. Marcando, jogando, apoiando e aparecendo sempre livre. O melhor em campo, embora Fernandinho também tenha desequilibrado o sistema defensivo do oponente com dribles e velocidade. Protagonistas de um domínio com 54% de posse e 11 finalizações, quatro no alvo. Consequentemente fazendo de Gatito Fernández mais uma vez o grande destaque da equipe carioca.

Faltou o básico, mas previsível pelo contexto: mais qualidade para a jogada diferente e a finalização precisa. Empate sem gols que inverte a lógica, ou a restabelece para os 90 minutos finais em Porto Alegre: Grêmio provavelmente completo e se instalando no campo do Botafogo, que vai fazer seu jogo de compactação, concentração absoluta e transições em velocidade em busca do golpe letal.

Um cenário mais confortável para os dois, mas que também trará mais armadilhas e menos tempo de recuperação. Nenhuma certeza, só a esperança de mais futebol por uma vaga na semifinal da Libertadores.

(Estatísticas: Footstats)

 

 


Um Messi ligado e intenso não dá chance para ninguém. Nem à Juve de Buffon
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André Rocha

A Juventus parecia mais ajustada no primeiro tempo no Camp Nou, mesmo com as mudanças na defesa e no meio-campo – De Sciglio, Matuidi, Bentancur e Douglas Costa na manutenção do 4-2-3-1 de Massimiliano Allegri que perdeu Bonucci para o Milan, Daniel Alves para o PSG e estava sem Chiellini, Khedira e Mandzukic. Linhas muito próximas sem bola e saída em velocidade para Dybala acionar Higuaín.

O Barcelona buscava se aprumar à troca de Neymar por Dembelé que inverteu o lado do ponteiro no trio ofensivo. Com isso, Iniesta e Suárez passaram a ocupar mais o setor esquerdo, porém abrindo o corredor para Jordi Alba. Liberado para apoiar e contando com a cobertura de Umtiti, mais rápido que Piqué. Este protegido por Busquets e Nelson Semedo com postura mais conservadora pela direita. Com Ernesto Valverde, o mesmo 4-3-3, porém com variações para equilibrar os setores.

No centro, com liberdade total…Messi. Meio “falso nove”, meio enganche. O mais importante: ligado, intenso, ciente de que não pode se entregar às marcações mais duras, que negam espaços. Também que este Barcelona precisa demais dele nesta transição e o argentino necessita de uma equipe forte para buscar através das conquistas coletivas a Bola de Ouro, depois do inevitável empate com Cristiano Ronaldo que deve se concretizar até o fim do ano. Cinco a cinco.

Primeiro cobrou falta por baixo acertando a barreira e Suárez fazendo Buffon trabalhar. Depois a arrancada, tabela com Suárez e o chute sem força, mas suficiente para tirar o “lacre” da meta do goleiro italiano no final do primeiro tempo. A senha para o time catalão ganhar confiança e sobrar na segunda etapa.

Finalização na trave antes de acelerar numa rara incursão à direita, rebote de Benatia e gol de Rakitic. Depois a jogada característica, cortando da meia direita para dentro limpando adversários até tirar de Buffon no canto esquerdo. Descomplicando e transformando jogo duro contra o grande rival no grupo em um 3 a 0 com autoridade.

Já são sete gols de Messi em quatro partidas depois da depressão pela saída de Neymar e a sova do Real Madrid na Supercopa da Espanha. 96 gols em 116 jogos pela Liga dos Campeões. Porque quando o camisa dez, maior artilheiro do clube e um dos gênios da história do esporte está 100% conectado e disposto a ser decisivo é difícil segurar. Até para o mito Buffon.

O 4-3-3 do Barcelona ganha nova dinâmica com Dembelé à direita, Iniesta e Suárez dando suporte ao apoio de Alba do lado oposto com a cobertura de Umtiti e Semedo e Busquets protegendo o lento Piqué. Messi com total liberdade destruiu a Juventus no mesmo 4-2-3-1 do vice da Champions da temporada passada, porém com ausências sentidas e sofrendo contra o argentino genial (Tactical Pad).