Blog do André Rocha

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Balanço final da Copa (craque, seleção, surpresa, revelação…)
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André Rocha

Foto: AP

Seleção da Copa do Mundo 2018 para este blog:

Courtois (Bélgica)

Trippier (Inglaterra)

Thiago Silva (Brasil)

Umtiti (França)

Laxalt (Uruguai)

Kanté (França)

Modric (Croácia)

De Bruyne (Bélgica)

Mbappé (França)

Hazard (Bélgica)

Perisic (Croácia)

Treinador: Roberto Martínez (Bélgica)

 

Melhor jogo: Brasil 1×2 Bélgica

Pior jogo: França 0x0 Dinamarca

Surpresa: Rússia chegar até às quartas

Decepção: Alemanha, atual campeã, caindo na fase de grupos

Melhor atuação coletiva: Croácia, nos 3 a 0 sobre a Argentina

Pior atuação coletiva: Alemanha, na derrota por 2 a 0 para a Coréia do Sul

Melhor atuação individual: Mbappé, nos 4 a 3 da França sobre a Argentina

Pior atuação individual: Fernandinho, na derrota do Brasil para a Bélgica

Gol mais bonito: Pavard, na vitória da França sobre a Argentina

Craque e revelação: Kylian Mbappé

 


Campanha campeã é maior que a bola jogada pela França pragmática
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André Rocha

Como esperado, o início de jogo em Luzhniki foi marcado pela tensão costumeira de uma final de Copa do Mundo e também pelo encaixe previsto dos desenhos táticos. França e Croácia marcando por zona, porém com duelos bem definidos. Especialmente no meio-campo: Kanté x Modric, Pogba x Rakitic e Griezmann x Brozovic. No 4-2-3-1 “torto” de Didier Deschamps, Matuidi esperava as descidas de Vrsaljko e auxiliava no combate a Modric. No 4-1-4-1 de Zlatko Dalic, Strinic até descia pela esquerda, mas tinha como maior preocupação a velocidade de Mbappé.

Mas os franceses encontravam dificuldade para acionar seu principal atacante. Recuavam as linhas, mas não encontravam espaços para acelerar. Muito pelos méritos do oponente. A Croácia adiantou as linhas, marcou e ocupou o campo de ataque e rodou a bola em busca de espaços.

Até Griezmann cavar uma falta inexistente. Na cobrança, Pogba, em posição legal, disputou com Mandzukic, que desviou marcando o primeiro gol contra em finais de Copa do Mundo. Os croatas teriam que subir a ladeira novamente. Mas a bola parada novamente ajudou na recuperação. Golaço de Perisic depois de limpar Kanté.

De novo a França recuou, novamente sofreu para encaixar um contragolpe. Outra vez foi salva pela bola parada. Pênalti de Perisic. Marcável como praticamente qualquer toque no braço segundo as novas e confusas orientações da FIFA para a arbitragem. O VAR entrou em cena e ajudou na interpretação de Nestor Pitana. Cobrança precisa de Griezmann.

A única finalização francesa em 45 minutos. Os croatas que tiveram 61% de posse tentaram sete vezes, só uma na direção da meta de Lloris. Nas redes. Primeiro tempo de superioridade croata.

Mas a França mais uma vez foi pragmática e letal. Coordenando melhor os contragolpes com o avanço e os sinais de desgaste físico e mental do adversário, acelerou pela direita com Mbappé, que serviu Pobga, meio-campista que iniciou a jogada com belo lançamento.

Depois a revelação da Copa, e também o craque para este que escreve, fez um gol de “ilusionista”. Mbappé posicionou o corpo para bater com efeito no ângulo esquerdo e acertou um chute rasteiro no canto direito de Subasic. Poderia ter fechado 4 a 1 como o Brasil de 1970 sobre a Itália. No entanto, Lloris vacilou e Mandzukic desviou para as redes. Mas certamente o atacante croata trocaria seus três gols pelo título mundial.

Que também é de Giroud. Virou titular por suas funções em campo: estatura nas disputas pelo alto na defesa e no ataque. Fundamental na Copa da bola parada. Também um pivô facilitando o trabalho de Mbappé e Griezmann. Forte e alto, empurra a defesa para trás e cria espaços às costas dos volantes para seus companheiros. Uma lição para quem parou no tempo e acha que o camisa nove só presta se fizer gol. Giroud não marcou nenhum e é o campeão.

A Croácia foi até o limite. Terminou com 61% de posse, 83% de efetividade nos passes contra apenas 74% dos fraceses. Finalizou 15 vezes contra oito – seis a três no alvo. Modric eleito melhor da Copa. Na decisão, porém, a Copa também foi da bola parada e da precisão técnica. Em disputas tão parelhas, o futebol não perdoa o “arame liso”.

França absoluta, mas com campanha melhor que o desempenho em campo. Maior que a bola jogada. Invencibilidade, vitórias em confrontos com os campeões Argentina e Uruguai. Superando a talentosa geração belga e goleando os croatas por 4 a 2. Sem prorrogação nem decisão por pênaltis.

Fica a impressão de que a obsessão pelo título depois da decepção em casa na Eurocopa em 2016 engessou um pouco a equipe. Pouca mobilidade ao atacar para garantir a organização na perda da bola, não desguarnecendo nenhum setor. Solidez defensiva para aumentar a competitividade.

Deu certo. E consagrou Deschamps, agora se juntando a Zagallo e Beckenbauer como os únicos campeões como jogador e treinador. Mesmo sem espetáculo, a missão foi cumprida.

(Estatisticas: FIFA)

 

 

 


Carta a Paulo Cézar Lima: já pensou se houvesse um Caju para lhe avaliar?
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André Rocha

Foto: Arquivo/CBF

Sr. Paulo Cézar Lima,

O senhor certamente não me conhece. E uso da extrema formalidade na abertura da carta, sem usar o “Caju” que era apelido por conta de uma tintura de cabelo e foi anexado ao seu nome, porque sei que não gosta muito de jornalista. Como nunca chutei uma bola profissionalmente, o cuidado precisa ser maior ainda para lidar com o senhor.

Por isto relutei tanto em publicar este texto, que vem sendo guardado e atualizado há algum tempo. Já que acredita que só ex-profissionais da bola podem falar de futebol, que valor teria algo meu direcionado ao senhor? Resta a mim então pedir humildemente que reflita sobre o que alguém que lhe lê e ouve há muito tempo tem a dar de retorno sobre suas palavras e posicionamentos.

Acompanhei suas críticas à seleção de Tite em “O Globo”. Muitas pertinentes, obviamente. Até porque nenhum trabalho é perfeito, nem mesmo os mais vencedores e consagrados. Lembra que em 1970 o goleiro Félix falhou no gol do Uruguai e a firula de Clodoaldo terminou no empate italiano no final do primeiro tempo da decisão no Estádio Azteca?

Pois é justamente o que incomoda há tempos este que escreve. O senhor só critica, aponta defeitos. Sistematicamente. De forma impiedosa até. Desde Lazaroni em 1990, quando me lembro de começar a acompanhar a sua visão sobre o futebol brasileiro, até agora. Lá atrás cheguei a concordar muitas vezes com suas teses de resgate da essência do nosso jogo e do pecado em copiar os europeus.

Meu avô dizia que o senhor era uma craque de bola. Confesso que me decepcionei um pouco com seu desempenho na única partida que lhe vi em ação ao vivo: o Mundial Interclubes de 1983 pelo Grêmio contra o Hamburgo em Tóquio. O Mário Sérgio teve que jogar por ele e pelo senhor. Mas tudo bem, foi apenas uma partida, teve a questão do entrosamento e era reta final da carreira, com 34 anos. Eu só tinha dez.

Só que veio a internet. Com ela a banda larga e a possibilidade de hospedar e, consequentemente, assistir a vídeos mais longos. Jogos na íntegra foram disponibilizados. Todos da Copa do Mundo de 1974. Com 25 anos, era para ter sido o seu Mundial. Sem Gerson e com Rivelino na sua real posição desta vez não teria concorrência. E Zagallo lhe deu ainda mais liberdade, já que era Dirceu quem fazia o “falso ponta” pela esquerda e o senhor podia jogar mais livre como o antigo “ponta de lança”, se aproximando de Jairzinho, que jogou como centroavante e  Valdomiro do Internacional fazia a ponta direita.

Uma enorme decepção o futebol do que o senhor chama de “bons tempos”, “Era de ouro”. O mito não caiu, desabou. Entendo quando diz que o rendimento da seleção foi prejudicado pelo racha entre cariocas e paulistas, mas isto sempre aconteceu. E convenhamos que Zagallo sempre deu preferência aos cariocas. Tanto que mesmo com desempenho pífio da maioria em praticamente toda a campanha, Ademir da Guia só foi ter oportunidade na decisão do terceiro lugar, contra a Polônia. Também foi mal.

Por mais boa vontade que tivesse vendo os jogos foi impossível não me desapontar com seu rendimento. Nenhum gol, algumas jogadas individuais esporádicas. Quando o Brasil mais precisou do seu futebol ele não apareceu. Era aquele o estilo que o senhor exalta até hoje? Duas atuações enfadonhas contra Iugoslávia e Escócia – confesso que algumas vezes utilizei essas partidas para vencer a insônia – e o sufoco contra o Zaire para se classificar. Vitórias apertadas, mas até animadoras contra Alemanha Oriental e Argentina.

Para fechar com aquela vergonha contra a Holanda. A seleção tricampeã tentou intimidar os adversários com uma pancadaria lamentável. Liderados pelo esquentado Cruyff, os holandeses revidaram e o que vimos foi uma das páginas mais tristes da história das Copas. No segundo tempo, com os ânimos mais calmos e os europeus, com toda razão, respeitando menos a nossa tradição, a “Laranja Mecânica” passeou e fez 2 a 0 com tranquilidade para garantir vaga na grande decisão contra a anfitriã Alemanha.

A minha questão que propõe uma reflexão é simples: já pensou se houvesse um Caju naquela época avaliando o futebol da seleção e, particularmente, o seu? Consegue se imaginar sendo submetido à sua régua de exigência com todos que passaram pela seleção nos últimos anos?

Sim, o senhor foi vítima de racismo em um Brasil regido pela ditadura e com seu conservadorismo habitual. Naqueles tempos um negro bem sucedido incomodava muita gente mais do que hoje. E concordo que hoje a grande maioria dos jogadores de futebol é alienada. Também há muito a lamentar e protestar por não ter sido chamado por Cláudio Coutinho em 1978 – e desconfio que sua bronca com quem “nunca chutou uma bola” venha daí.

Mas nem tudo foi preconceito. O campeonato carioca de 1971 ficou marcado pelo gol polêmico de Lula, que deu o título ao Fluminense, depois do goleiro Ubirajara trombar com Marco Antônio. Mas também pela sua soberba de fazer embaixadas na frente dos rivais e, a partir daí, o Botafogo perder um campeonato ganho, no qual o senhor era o grande destaque e também artilheiro, com 11 gols. Imagine isto hoje, ainda que os estaduais tenham perdido seu valor ao longo dos anos. Tente vislumbrar o que um Paulo Cézar Lima diria do seu comportamento?

Aproveito para dizer que hoje o senhor se equivoca ao afirmar que atuar na Europa engessa o jogador brasileiro. Até foi assim há algum tempo. Mas agora treinadores como Pep Guardiola, Jurgen Klopp e até José Mourinho quando contratam brasileiros querem deles justamente o que o senhor tanto lamenta a ausência: o drible. Ele acontece, mas na zona do campo onde é mais produtivo: da intermediária para dentro da área do oponente. Neymar, Coutinho, Douglas Costa, Willian, David Neres, Malcom…O Real Madrid acabou de contratar dois muito promissores: Vinicius Júnior e Rodrygo. Não é o problema.

Nosso gargalo é outro, está no meio-campo. Aí, sim, o senhor tem razão. Mas Arthur está chegando ao Barcelona para começar a resolver este problema. E posso garantir: nas divisões de base tem gente trabalhando para formar jogadores mais qualificados para pensar e ditar o ritmo, de área a área.

Sim, muitos profissionais que não jogaram bola. Mas estudaram para a tarefa. Buscaram conhecimento através da literatura de Portugal e de outros países. Sabe a razão? Porque pessoas como o senhor e Vanderlei Luxemburgo, um dos que mais criticam a parte teórica vinda de Portugal e defende que o brasileiro nada tem a aprender com os lusitanos, nunca se preocuparam em deixar algo registrado sobre a nossa escola e o nosso jeito de jogar. Como os jovens treinadores vão trabalhar sem uma referência?

Aliás, o senhor também nunca treinou um time, mais de três décadas depois de se aposentar. Seria interessante ver uma equipe praticar sua visão de futebol na atualidade. Porque o jogo mudou, sim. Como tudo no mundo. Evolui e fica mais complexo. Gostar ou não vai de cada um. Lembra da dificuldade de jogar naquela partida decisiva em Dortmund quando a Holanda adiantava as linhas e marcava por pressão? Pois é o que acontece hoje, com muito mais velocidade e intensidade. Será que aquele jogo lento de outrora conseguiria se impor hoje?

Questões que ouso deixar para o senhor refletir, evitando me alongar ainda mais. Eu até lhe entendo. A crítica pela crítica é sedutora. Na Copa são 32 seleções, em 2026 serão 48! Sete jogos, quatro deles eliminatórios. A chance de ser eliminado é estatisticamente bem maior que a de sair campeão. Então basta dar pancada a torto e a direito e no final, se o título não vier, dizer que avisou. Se for campeão, basta falar que não encanta.

A crítica quando construtiva é, sim, saudável. Mas é bom lembrar que a credibilidade de quem critica sempre é a mesma de quem elogia o tempo todo. E o acerto perde muito do mérito. Afinal, até um relógio antigo quebrado, com os ponteiros parados, acerta a hora duas vezes em um dia.

Me despeço pedindo perdão pelo longo relato. Mas havia muita coisa a dizer depois de tanto tempo. Torço para que não me interprete mal. Repare que não usei do jogo sujo de citar detalhes sofridos de sua vida pessoal já relatados corajosamente pelo senhor para desmerecê-lo profissionalmente. Muito menos criticar seu estilo ousado e extravagante de viver e se vestir nos tempos de jogador, como hoje fazem com Neymar. Não é este o meu perfil.

O intuito da carta é apenas fazer pensar. Como se fosse um espelho. Mesmo que partindo de um homem de 45 anos direcionada a alguém que tem idade para ser seu pai. A torcida é que sirva para algo útil, caso chegue ao senhor.

Saudações!


Prévia tática de França x Croácia: quem sairá do “encaixe perfeito”?
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André Rocha

Pelo esforço absurdo de três prorrogações seguidas é impossível saber se Zlatko Dalic vai manter a formação titular da Croácia para a grande final. Mas também é improvável que algum jogador, a menos que esteja com uma lesão muscular grave por conta do esforço, queira ficar de fora do “filé” depois de roer o osso em 360 minutos, mais duas decisões por pênaltis.

Partindo do 4-1-4-1 da semifinal e da melhor atuação da seleção na Copa, os 3 a 0 sobre a Argentina, e do 4-2-3-1 da França que ganhou corpo desde a vitória sobre o Peru com Matuidi pela esquerda mais compondo o meio que formando o quarteto ofensivo, temos uma espécie de “encaixe perfeito” das equipes. Tanto no desenho tático quanto nas características dos atletas.

Ainda que Kanté e Brozovic tenham perseguido Messi em muitos momentos dos jogos, o volante do Chelsea tenha feito o mesmo com De Bruyne e Pogba sofrido com Fellaini na semifinal, França e Croácia marcam essencialmente por zona. Mas, de acordo com o posicionamento básico, os jogadores de cada setor acabam se encontrando e duelando ao longo da partida.

Ambas contam com laterais que não são brilhantes, mas equilibram bem as funções de ataque e defesa e se adequam caso precisem guardar posição ou descer pelo corredor. No embate de domingo é bem provável que Strinic fique mais atento à movimentação de Mbappé e Vrsaljko apoie mais, já que não há um atacante agudo pelo seu setor.

No meio-campo, os duelos mais prováveis são Kanté x Modric, Pogba x Rakitic e Griezmann x Brozovic. Pavard espera Perisic e Hernández faz o mesmo contra Rébic. Os zagueiros Lovren e Vida cuidam de Giroud e Varane e Umtiti ficam atentos aos movimentos de Mandzukic.

É óbvio que o futebol não acontece numa imagem estática como no campinho abaixo. Mas mesmo com o dinamismo da disputa, uma palavra será chave para desequilibrar o oponente: mobilidade.

Os franceses têm guardado mais o posicionamento, talvez pelo temor de serem pegos com as linhas desorganizadas na perda da bola. Um desperdício, já que este 4-2-3-1 “torto” tem como principal arma ofensiva o deslocamento de outros jogadores para o lado em que há um volante ou meia e não um ponteiro. Ou seja, o espaço deixado por Matuidi poderia ser melhor explorado por Griezmann, Giroud ou até mesmo Mbappé invertendo o flanco. Nos jogos apenas o lateral Hernández se projeta pela esquerda. Uma inversão entre Griezmann e Mbappé também pode ser interessante para deixar o jovem atacante do PSG mais solto para aproveitar na velocidade o trabalho de pivô de Giroud.

Já a Croácia na execução de seu modelo permite apenas como surpresa a inversão dos pontas Rébic e Perisic que buscam as diagonais aproveitando o espaço deixado pelo móvel Mandzukic, que sabe atuar como referência ou pelo lado. Modric e Rakitic também costumam trocar o posicionamento por dentro, de acordo com as características dos volantes adversários.

As estatísticas apontam a Croácia com maior posse de bola e efetividade nos passes, mas é a quarta que mais utiliza os cruzamentos, média de 26 por jogo – potencializada, logicamente, pelas prorrogações que disputou. Luka Modric é o meia que mais acerta passes e vai encontrar Kanté, o líder absoluto de desarmes e interceptações. Mbappé é o finalista que mais acerta dribles, Griezmann o que mais finaliza. Rakitic está no topo entre os que mais acertam inversões de jogo, fundamentais para desarticular sistemas defensivos organizados como o do oponente.

A França sofreu apenas quatro gols em 540 minutos – três da Argentina e um, de pênalti, da Austrália na estreia. A Croácia cinco em 630 – um de pênalti da Islândia (com time repleto de reservas), Dinamarca, em cobrança de lateral na área, e Inglaterra (falta), dois da Rússia, o de Mário Fernandes na típica jogada de bola parada que gerou tantos gols neste Mundial. A previsão, não o desejo, é de uma final com poucos gols, definida no detalhe, na precisão técnica. Talvez até mais uma prorrogação para os croatas.

A resistência física deve ser um fator preponderante. Didier Deschamps pode optar por uma proposta de maior intensidade na pressão pós perda da bola, velocidade na transição ofensiva para desgastar ainda mais o adversário, que tende a aproveitar seus talentosos meio-campistas para adicionar pausas ao ritmo do jogo que façam a equipe respirar e acelerar no momento certo.

O palpite do blog é vitória francesa. Em 120 minutos. Porque a Croácia mentalmente é dura de se curvar, mesmo com os músculos extenuados. Só que desta vez encontrará um rival que foi implacável até aqui com as fragilidades e oscilações de quem cruzou o seu caminho. Na Copa da força mental é um trunfo para definir quem leva a taça para casa.

França no 4-2-3-1 que deve ter mais mobilidade de Griezmann, Mbappé e Giroud aproveitando o espaço à esquerda deixado pelo recuo de Matuidi; Croácia no 4-1-4-1 com os ponteiros Rebic e Perisic invertendo o posicionamento e Modric e Rakitic tentando ditar o ritmo contra Kanté e Pogba. Nos sistemas que encaixam, a mobilidade pode fazer a diferença (Tactical Pad).

(Estatísticas: Footstats)


Croácia é um belo “case de caos”. Mas não deve ser exemplo mesmo que vença
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André Rocha

Foto: Yuri Cortez/AFP

O último título mundial do Brasil em 2002 foi um curioso caso, talvez único, no qual a conquista ficou parecendo a consolidação de um trabalho que vinha do título em 1994, passando pelo vice quatro anos depois. Mas a trajetória de fato foi caótica: Vanderlei Luxemburgo, Candinho e Emerson Leão até chegar a Luiz Felipe Scolari.

Sofrimento nas Eliminatórias, vergonha na Copa América contra Honduras. Tudo deu certo mesmo apenas na Ásia – com seus percalços, como a estreia contra a Turquia vencida no pênalti “mandrake” sobre Luisão e nas oitavas, quando a arbitragem também interferiu no triunfo sobre a Bélgica.

Curiosamente, depois do título veio um período de esperança e prosperidade. Amadurecimento de Kaká e Adriano Imperador, surgimento de Robinho e Diego no Santos campeão brasileiro ainda naquele ano. Com Parreira no comando, títulos da Copa América, Copa das Confederações e liderança nas Eliminatórias. A queda pós ascensão veio logo no Mundial na Alemanha.

Depois o Brasil não mais se impôs. Com ciclo completo de Dunga em 2010, os nas mudanças de Mano Menezes para Felipão em 2014 e agora saindo de Dunga para Tite. Pelas mais variadas circunstâncias, inclusive a aleatoriedade em jogos eliminatórios.

A classificação da Croácia para a final contra a França despertou aqui e ali uma tese bastante presente em nosso país: planejamento e organização não garantem sucesso, que se resume ao título. Ainda mais em tempos de Flamengo e Palmeiras equacionando dívidas e sem conseguir alcançar os troféus desejados justamente no momento em que os investimentos aumentaram.

Devia ser óbvio defender uma linha de trabalho com ideias claras e objetivos bem definidos. Que no futebol não pode ser atrelada tão diretamente a algo sem controle como o resultado final. Muito menos em uma Copa do Mundo. Torneio que conta com sorteio e chaveamentos. No qual a ordem de adversários e as circunstâncias são totalmente aleatórias. Premia o melhor daquele mês, não necessariamente o do ciclo inteiro.

O trabalho sério é para garantir a competitividade. Sair de um papel de coadjuvante, desclassificado na primeira fase, para brigar no topo ou no mais próximo disto. Assim foi com Espanha, França, Alemanha e Bélgica. Assim pensa o Brasil ao vislumbrar mais quatro anos com Tite.

Porque a Croácia pode até ser campeã mundial. Mas correu sérios riscos de ficar de fora da Copa. Quando contratou Zlatko Dalic às pressas depois de demitir Ante Cacic precisava vencer a Ucrânia fora de casa para ir à repescagem, já que a Islândia garantira o primeiro lugar do grupo na eliminatória. Conseguiu um 2 a 0. A ventura no sorteio com a Grécia. O resto é história.

Que podia nem ter chegado a Rússia. Como aconteceu com Itália e Holanda. Uma renegou a formação de talentos, a outra encontra-se presa numa escola de futebol que tanto ofereceu ao mundo, mas parou no tempo. Risco que o Brasil correu com Dunga. Agora é fácil dizer que independentemente do treinador o país sempre vai à Copa. Era sexto colocado, atrás do Chile, bicampeão da Copa América que não se repaginou após a saída de Jorge Sampaoli e o espasmo com Pizzi na conquista do torneio Centenário nos Estados Unidos e ficou fora.

A Croácia é um “case de caos” para virar filme. Admirar a força mental dos jogadores, invejar a presença de meio-campistas talentosos como Modric e Rakitic e reconhecer a capacidade de mobilização e trabalhar no improviso de Dalic, que chega a seu 14º jogo no comando da seleção em uma final. Mas não pode servir de exemplo.

Melhor a França, que manteve o contestado Didier Deschamps depois do decepcionante revés em casa na final da Eurocopa contra Portugal e, sem tantos tempos extras e sofrimento, também está na decisão de domingo. Com favoritismo pelo menor desgaste e por contar com um trabalho mais consolidado.

Carrega, porém, o peso da responsabilidade de vencer. Exatamente o que sangra tantas equipes. Os croatas não têm absolutamente nada a perder. A campanha já é histórica, superando a geração de 1998. O cansaço já é um álibi até em caso de derrota por goleada. Se num último esforço conseguirem a vitória serão heróis eternos de um país.

Posição cômoda na Copa do Mundo da força mental. Mas até chegar lá esbarrou em muitas variáveis que podiam fazer tudo dar errado. Sem contar que é uma geração que não deve deixar legado para 2022. Porque há talento, sorte e muita fibra. Mas pouco trabalho e estrutura pensando a longo prazo. É a exceção à regra, como o Brasil da “Família Scolari” há 16 anos. Não pode ser referência para ninguém.


Croácia prova que jogo eliminatório se decide com talento e força mental
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André Rocha

O golaço de falta de Trippier logo aos quatro minutos podia ter desmanchado de vez a Croácia que vinha de duas prorrogações e teria que subir a ladeira em Moscou. Numa semifinal de Copa do Mundo e diante de uma Inglaterra com mais tradição, descanso e que costuma desgastar o adversário com seu jogo físico e de velocidade.

A primeira etapa teve a equipe de Zlatko Dalic com 52% de posse e seis finalizações contra quatro. Mas controle da Inglaterra com bom posicionamento da última linha de defesa do 5-3-2 e a movimentação de Kane, recuando para deixar Sterling mais avançado para os contragolpes e alternando com os meias Lingard e Dele Alli.

A dinâmica criava uma indefinição em Brozovic, o volante entre as duas linhas de quatro na volta do 4-1-4-1 que dá mais liberdade a Rakitic e Modric. Com um estilo vertical, a Inglaterra de Gareth Southgate teve a bola do segundo gol com Kane entrando pela esquerda e acertando a trave depois de finalizar e Subasic defender.

A impressão era de que não faria tanta falta, já que com a passagem do tempo o desgaste pesaria para os croatas. Os ingleses controlavam os espaços e tentavam acelerar nos contragolpes. Mas com muitos erros técnicos que não criavam a chance clara para finalizar. A Croácia foi adiantando as linhas e rodando a bola. Mas também não havia ideias ou a jogada diferente.

Até Perisic começar a encontrar brechas entre Trippier e Walker, logo o lateral que foi para a zaga com o intuito de deixar o trio de zagueiros mais móvel e rápido na cobertura. Walker hesitou, Perisic se antecipou e empatou, completando centro de Rakitic.

Os ingleses acusaram o golpe, passaram a errar além da conta e perder agressividade na marcação. Fizeram a Croácia acreditar e colocar o talento no jogo. Modric e Rakitic tomaram conta do meio-campo. Dalic não fez nenhuma substituição nos 90 minutos.

Guardou tudo para a prorrogação. Quatro substituições e toda a alma e personalidade. Alimentada a cada erro inglês, mesmo com Rashford, Rose, Dier e, no desespero, Vardy na vaga de Walker. Porque a Croácia tinha virado com Mandzukic. Mesmo exausto e com câimbras, aproveitou mais um vacilo da defesa inglesa na cobertura. Com participação de Perisic.

Nos minutos finais, os croatas sobraram fisicamente. Com Corluka, Badelj, Pivaric e Kramaric em campo. Estratégia arriscada que podia ter falhado na segunda etapa do tempo normal, mas que teve a chance de render mais um gol se Kramaric tivesse visto o inesgotável Perisic livre no contragolpe final. Foram 22 finalizações, o dobro dos ingleses, que só finalizaram no alvo com o gol de Trippier. Muito pouco em 12o minutos.

A Croácia teve qualidade e fé inquebrantável de que era possível. Armas poderosas em uma partida eliminatória com tanto em jogo. Por isto fará uma final histórica, consagrando a melhor e maior geração do país, superando 1998. Com 90 minutos a mais de futebol e suor na Copa em relação à França. Mas como duvidar de quem parece crer que tudo pode?

A Inglaterra pode e deve seguir investindo em um trabalho que tem tudo para dar frutos. Com esta e as próximas gerações, campeãs mundial sub-17 e sub-20. Só que agora é hora de Modric, Rakitic, Perisic, Mandzukic, Subasic e uma nação inteira.

(Estatísticas: FIFA)


Onde há fome de Champions, lá está Cristiano Ronaldo
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André Rocha

Foto: Divulgação/ Juventus

O fim da relação entre Cristiano Ronaldo e Real Madrid é a prova de que até os casamentos mais bem sucedidos passam por desgastes. Os mortais, os comuns normalmente aceitam uma vida sem o desafio da conquista diária. Colocam outras vantagens, inclusive a estabilidade e a ciência das virtudes e defeitos da parceria.

Não para Florentino Pérez, certamente incomodado pela falta de negociações nas últimas janelas de transferências por conta da sede de entrosamento e sintonia de Zinedine Zidane. Bi da Liga dos Campeões repetindo a escalação em duas finais, algo inédito. Mais ainda para um clube comprador e um presidente viciado em times galácticos.

Muito menos para o CR7. Competitivo em tudo. Quer sempre o topo. Dos prêmios individuais, da artilharia, entre os mais bem pagos. Também quer ser amado. E os aplausos da torcida na Arena Juventus depois de seu gol antológico de bicicleta certamente pesaram na hora de escolher a Juventus. Ainda que seja um negócio de 105 milhões de euros por um jogador de 33 anos.

Ou melhor, um atleta. De força inesgotável, foco inigualável. Treinamento, alimentação, repouso, força mental. Tudo cuidado com profissionalismo, sem concessões. Gestão de carreira impecável. Para seguir no mais alto nível até quando for possível – e como é difícil imaginar até quando isto vai durar com tamanha disciplina e uma estupenda mentalidade vencedora.

Acima de tudo, para continuar vencendo o principal torneio de clubes do planeta. O grande trunfo na disputa pelo prêmio de melhor do mundo. Está claro que Cristiano Ronaldo quer desenhar uma história única na Champions. Ser o maior vencedor e por clubes diferentes para que ninguém duvide que a força está com ele, não com o time. Ainda que o atacante cada vez mais dependa dos companheiros para decidir com sua ímpar capacidade de concluir as jogadas.

Mesmo para o gigante Real Madrid de 13 títulos será difícil manter o espírito competitivo depois de um tricampeonato. O tetra pode até vir, mas em um elenco renovado, com protagonistas querendo acrescentar a conquista no currículo. Com Ronaldo ficaria a impressão de uma fé no “piloto automático” que não existe no mais alto nível.

Foi assim na saída do Manchester United sem forças para rivalizar com o Barcelona de Guardiola e Messi e já caminhando para o fim da Era Alex Ferguson. Na época, o Real estava há sete temporadas sem vencer a Champions e encarava uma sequência de eliminações nas oitavas de final. Ele chegou e reescreveu a história.

Agora a escolha do português não podia ser melhor. A Juventus rica e estruturada, mas já saturada de conquistas nacionais com um hepta da Série A italiana vai focar tudo na Liga dos Campeões que não conquista desde 1996. A presença de Ronaldo e toda a visibilidade embutida aumentam o poder de atrair outros talentos, incluindo colegas de Real. Difícil até vislumbrar uma formação titular de Massimilano Allegri com a nova estrela.

É óbvio que é impossível prever se haverá química entre craque, clube e companheiros. Os títulos podem demorar um pouco, como aconteceu em Madri. A saída de Buffon é baixa importante, na história e no vestiário. Mas em tese a presença de alguém tão vencedor vai estimular o crescimento de todos, especialmente Dybala. Falta ao argentino de 24 anos a chama que sobra no maior artilheiro da história da seleção portuguesa e do Real Madrid.

Para quem ama o esporte, fica o “luto” pelo fim da maior rivalidade local de todos os tempos entre gênios de uma mesma época. Messi e Cristiano Ronaldo disputando a mesma liga nacional com dois duelos garantidos por temporada em gigantes como Barcelona e Real Madrid. Um roteiro de filme. Acabou. Pelo menos não haverá remorso de quem curtiu cada embate sem a preocupação de ficar desqualificando um para exaltar o outro.

Buffon partiu lamentando que o CR7 tivesse encerrado por duas vezes o sonho continental da Velha Senhora. Agora o gênio da grande área do século 21, de impressionantes 451 gols em 438 jogos no time merengue vai se testar em Turim. Porque onde há fome de Champions, lá está Cristiano Ronaldo.

 


A França difícil de bater e ser batida está na final
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André Rocha

A única vitória francesa por mais de um gol até aqui na Copa do Mundo foi sobre o Uruguai nas quartas. Dois a zero graças à fantástica defesa de Lloris no primeiro tempo e à falha grotesca de Muslera na segunda etapa aceitando chute de Griezmann.

Sim, o placar de 4 a 3 contra a Argentina foi um tanto mentiroso. Na melhor atuação da equipe de Didier Deschamps, a seleção de Messi virou para 2 a 1 sem controle do jogo e marcou no final diminuindo para um gol a grande distância na bola jogada. Graças a Mbappé na grande atuação individual da Copa.

A França é essencialmente competitiva. O 4-2-3-1 com Matuidi como “ponta volante” pela esquerda deu liga contra o Peru e foi se assentando em um modelo de jogo sem grande controle através da posse. Organização defensiva e paciência para acelerar com Pogba conduzindo, Griezmann tocando rápido e fácil e Mbappé disparando.

Giroud é o pivô, o facilitador para os demais. Com força e estatura empurra a linha de defesa para trás e cria espaços às costas dos volantes. Se desloca e trabalha sem bola. Reforça o jogo aéreo. Chega à final sem gols, mas com utilidade.

A França não tem tanta fluidez e parece se preocupar mais com a organização ofensiva. Se movimenta pouco quando desce para não se descoordenar na volta. O espaço deixado por Matuidi só vem sendo aproveitado pelas descidas do lateral Lucas Hernández. Griezmann flutua pouco por ali, Mbappé também podia aparecer mais.

A antítese da Bélgica versátil, móvel e mutante. Sem o suspenso Meunier, Roberto Martínez colocou Dembele no meio-campo e posicionou Chadli pela direita, defendendo como lateral e atacando bem aberto. Do lado oposto, Vertonghen era lateral sem a bola e o zagueiro pela esquerda em um trio quando a equipe descia em bloco. Hazard abria o campo como ponta esquerda.

Em números, um 3-2-4-1 atacando e um 4-2-3-1 na recomposição que se movia de acordo com a perseguição de Fellaini a Pogba. A França respondia com Kanté ligado em De Bruyne partindo da direita, mas com liberdade.

Desta vez Lukaku foi centroavante. E sofreu contra a melhor zaga do Mundial na Rússia: Varane impecável na técnica e posicionamento e Umtiti implacável no vigor e na velocidade. Também no deslocamento e no movimento de ataque à bola para completar escanteio de Griezmann. De novo a bola parada decidindo.

Gol único e decisivo. Apesar da luta de Hazard e da pressão belga. A França negou espaços, mas não foi fulminante nos contragolpes. Com apenas 40% de posse, finalizou 19 vezes. Só cinco no alvo. Porque não cria chances cristalinas. Falta a jogada diferente com mais frequência. Há potencial, mas na prática acontece poucas vezes.

Também não cede. Os belgas rodaram a bola, mas a concentração defensiva dos Bleus permitiu apenas nove conclusões. Três na direção da meta de Lloris. Sofrimento só no início da semifinal em São Petersburgo e na pressão final, incluindo a defesa do arqueiro francês em chute de Witsel.

Beleza só no giro com calcanhar de Mbappé para o chute de Giroud. A França encarnou o papel da favorita pragmática que não quer desperdiçar a chance do título, o segundo da história. Depois do vice da Eurocopa em casa.

É time duro de bater no rival, mas ainda mais difícil de ser batido. Por isto está na final. A terceira da França nos últimos seis mundiais. Uma potência que merece respeito.

(Estatísticas: FIFA)


O abismo de centímetros entre Romário e Neymar
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André Rocha

17 de julho de 1994. Rose Bowl, Pasadena, Estados Unidos. Brasil e Itália decidem a Copa do Mundo. Disputam o tetracampeonato, repetindo a final de 1970. Um tira-teima depois da vitória da Azzurra sobre a seleção de Telê Santana em 1982. Disputa direta entre Romário e Roberto Baggio pelo prêmio de melhor jogador da Copa e, consequentemente, do mundo naquele ano.

Arrigo Sacchi voltava a contar com Franco Baresi na defesa depois de uma milagrosa recuperação de uma lesão séria no joelho. Um extraordinário defensor, mas não deixava de ser incógnita quanto à sua condição física e ao ritmo de jogo para uma final de Copa. Ainda mais no calor sufocante de verão americano naquela tarde de domingo.

Era a chance de Romário brilhar, já que Roberto Baggio também sofria com desgaste físico, inclusive atuando com uma proteção na perna direita. Mas o Baixinho não repetiu o bom desempenho de toda a campanha brasileira. Cinco gols e uma assistência para Bebeto marcar o gol salvador contra os Estados Unidos em 4 de julho.

Baresi controlou bem as arrancadas de Romário ao longo dos 90 minutos. Na prorrogação, com Viola e mais fôlego, os espaços apareceram. Surgiu a chance de se consagrar completando passe de Cafu. Mas o camisa onze perdeu na pequena área. Uma chance que não costumava desperdiçar. Decisão por pênaltis, a primeira da história das Copas. Com personalidade, pediu ao treinador Carlos Alberto Parreira para cobrar. Não bateu bem, mas deu sorte de Pagliuca saltar para o outro canto e a bola tocar na trave direita e cair dentro do gol. A última cobrança, de Baggio, entrou para a história e o Brasil comemorou o tetracampeonato.

Foi a consagração de Romário. Prometeu classificar o Brasil e fez dois gols no Uruguai na última partida das Eliminatórias. Garantiu a conquista do tetra e não decepcionou. Todos os méritos para ele.

Mas imaginemos que aquele chute, por um detalhe do futebol e da vida, tocasse na trave e fosse para fora. Pênalti perdido pelo melhor do time. Poderia abalar a seleção pressionada por críticas e 24 anos sem títulos. A Itália poderia ter se aproveitado e virado a história do avesso.

Centímetros que salvaram um Romário sempre polêmico. Criticado em 1990 por não ter cuidado bem de uma fratura na perna jogando pelo PSV. Disputou pelada com gesso, tratou com a sua rezadeira Dona Nazaré da Vila da Penha. Foi para o Mundial na Itália, mas não rendeu o esperado. Disputou apenas o jogo contra a Escócia. Já tinha perdido a vaga de titular no ano anterior para Careca por ter sido expulso contra o Chile em Santiago pela Eliminatória,  complicando a equipe de Sebastião Lazaroni que precisou vencer no Maracanã na famosa partida da farsa do goleiro Rojas e da “fogueteira”.

Romário que teve seus privilégios nos Estados Unidos. Não só a liberação de treinos físicos e outras atividades que entendiavam o Baixinho. Jornais da época publicaram fotos de uma “namorada” que o atacante teria levado para a concentração da seleção, mesmo em dias que não eram de folga. Segundo as fontes, Parreira e Zagallo sabiam, o capitão Dunga também. Tudo foi abafado para não perturbar a estrela máxima da seleção.

Não é difícil prever o que aconteceria caso o Brasil não fosse campeão do mundo. Na caça às bruxas de sempre, o maior alvo seria o centro das atenções. Alguma dúvida de que tudo que hoje é tratado como “folclórico” seria motivo para demonização, mesmo sendo decisivo nas partidas anteriores?

É bom lembrar que a capacidade e a personalidade de Ronaldo Fenômeno também foi questionada pela convulsão e atuação apática na final da Copa de 1998 até escrever uma das maiores histórias de redenção do esporte com o título e a artilharia em 2002. Até de “amarelão” foi chamado, em colunas e mesas redondas. Sem contar as vaias em 1997 e 1998 quando não rendia.

Ronaldinho virou vilão em 2006. Rivaldo foi perseguido em 1996 pelo desempenho pífio na seleção olímpica. Kaká já foi alvo de pipocas no São Paulo e também criticado pelo desempenho com a camisa verde e amarela em 2006. Todos Bolas de Ouro, como Romário. Até Pelé, que teria um busto em cada esquina em qualquer país do mundo que ama futebol, é criticado e ironizado no Brasil.

Todos tinham um outro craque para dividir um pouco os holofotes. Pelé teve Garrincha, Romário teve Bebeto, depois Ronaldo. Fenômeno que teve Rivaldo, mais tarde Ronaldinho Gaúcho que chegou a dividir o bastão com Kaká.

E chegamos a Neymar. Estrela única do futebol brasileiro atual. A referência na bola e na mídia. Com idiossincrasias e privilégios, como quase todo destaque. Como Messi na Argentina e no Barcelona, Cristiano Ronaldo em Portugal e no Real Madrid. Como Romário por onde passou.

Criticado no inicio da Copa por individualismo, simulações, irritação. A partir do jogo contra a Sérvia, até por estar pendurado com um cartão amarelo, focou no futebol e foi importante para a classificação brasileira. Diante do México, a melhor atuação com gol e o chute que Ochoa deu rebote e Firmino completou. Pisado por Layun, pode ter exagerado na reclamação, mas não a ponto de transformar o agressor em vítima como Juan Carlos Osorio tentou fazer parecer.

Com o camisa dez brasileiro mais concentrado e rendendo, as críticas ficaram mais discretas. Ou veladas. Afinal, a cobrança era para que ele jogasse futebol e esquecesse as polêmicas, os enroscos. Foi o que fez. Mas quem persegue fica à espreita esperando o momento do bote. Ele veio.

Contra a Bélgica, atuação irregular como todo time. Mal no primeiro tempo pela desvantagem de 2 a 0. Mesmo com 26 anos, não tem o perfil de liderança de pegar a bola e conduzir a equipe. Nem Romário tinha. Em 1994, esta era a função de Dunga.

Melhorou na etapa final como toda a equipe. No ataque derradeiro, o belo chute que parou na defesa ainda mais espetacular do goleiro Courtois. Tocou na bola o suficiente para desviá-la e impedir o empate. Centímetros. De braço. De história.

Imaginemos Neymar empatando o jogo no final. Deixando o Brasil com vantagem física e emocional para a prorrogação. Com chances de marcar pelo menos mais um que garantisse a vaga nas semifinais. Alguém imagina como seria o discurso? No mínimo, exaltando a personalidade no momento decisivo.

Certamente lembrariam do desempenho fantástico nas disputas de mata-mata do título do Barcelona na Liga dos Campeões 2014/15. Superior a Messi, inclusive. Artilheiro junto com os dois gênios da geração. Gol em final. Ou a conquista da Libertadores de 2011 também marcando na decisão contra o Peñarol. Ou quando assumiu a responsabilidade e conduziu o Barcelona aos 6 a 1 sobre o PSG em 2017, arbitragem à parte. Feitos que Romário, por exemplo, não ostenta em seu currículo. Na única final europeia, derrota do seu Barcelona por 4 a 0 para o Milan.

De certa forma, Neymar também ajudou a colocar o Brasil na Copa. Ausente de boa parte dos jogos da Era Dunga nas Eliminatórias, assumiu a responsabilidade no início do trabalho de Tite. Quando os resultados eram fundamentais para tirar da incômoda sexta posição, fez um gol de pênalti, deu assistência no terceiro e participou da jogada do segundo, ambos de Gabriel Jesus nos 3 a 0 sobre o Equador em Quito. Nos 2 a 1 sobre a Colômbia, cobrou escanteio na cabeça de Miranda e marcou o gol da vitória. Terminou com seis gols, um a menos que Gabriel Jesus. Hoje parece quase nada, mas teve seu peso naquele momento de dificuldade.

Não aconteceu para Neymar na Rússia. E veio a onda de dedos apontados. Piadas e memes. De todo o planeta. Reduzindo Neymar a um pseudocraque que rola pelos gramados. Um mero produto da mídia mimado e que engana os incautos e pachecos. Marrento e antipático. Como se outros talentos não fossem. Como Romário.

Centímetros. Que salvaram Romário em 1994 na sua última Copa do Mundo. Em 1998, pelo temperamento complicado e por tudo que aprontou nos Estados Unidos e depois, não contou com a paciência de Zagallo para aguardar a recuperação de uma lesão na panturrilha. Em 2000, por conta de uma desavença com Vanderlei Luxemburgo no Flamengo em 1995, ficou de fora da Olimpíada. Dois anos depois, descartado por Luiz Felipe Scolari, viu o penta pela TV. Tudo porque era “difícil”. Também simulava faltas e pênaltis. Dobrava os joelhos e jogava o corpo para a frente. Mas aí entrava na cota da “malandragem”…

Como foi tetra virou mito. Com a fama de “jogar e decidir”, ainda que ostente poucos títulos para os 22 anos de carreira profissional. Merece o reconhecimento. Mas sabemos que um detalhe poderia ter jogado um dos maiores atacantes de todos os tempos no limbo da história.

Neymar corre este risco. Mesmo superando Romário na artilharia da seleção, agora com 57 gols – e homenageou o artilheiro aposentado na comemoração. Todos que não aceitam sua personalidade contraditória aproveitam o momento de baixa para a vingança. Ou apenas aproveitam para colocar em prática a crueldade de afirmar teses em cima da imagem dos outros.

Por centímetros do braço de Courtois. Com final diferente do efeito dos centímetros que levaram a bola da trave para dentro na cobrança de pênalti de Romário em 1994. Um chute não tão bom que entrou, outro perfeito interceptado na trajetória que parecia inevitável. Medida que cria um abismo entre dois dos maiores da história do futebol cinco vezes campeão do mundo.

No Brasil do pensamento binário, no qual quem não odeia é passador de pano, é bom deixar claro: este post não é uma crítica a Romário. Este que escreve viu ainda garoto, em 1984, marcando gols pelos então “juniores” (sub-20) do Vasco nas preliminares do Maracanã. E tantas vezes testemunhou no estádio o talento do gênio da grande área do século 20. Um ídolo.

Muito menos a intenção é blindar Neymar. Quem acompanha o blog sabe que este que escreve evita mencionar o nome do personagem que mais atrai cliques na internet. Oportunismo aqui passa longe. E para massacrar já há gente até demais. Mas não discordo de quem considera Neymar mal orientado e assessorado. Na bolha em que vive há quase uma década ele precisa de uma voz que o conecte à realidade para evitar certos desgastes desnecessários. Já passou da hora de amadurecer.

O texto e o “se” que o norteia propõem apenas uma reflexão sobre a nossa capacidade de idolatrar ou ridicularizar por um resultado. Definido por detalhe, pelo imponderável. Tão pouco. Centímetros.

 


Plano “alemão” da Inglaterra impede clima de final antecipada do outro lado
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André Rocha

Inglaterra e Bélgica viveram um cenário único na fase de grupos da Copa do Mundo na Rússia. Eram favoritas destacadas contra Tunísia e Panamá e cumpriram a missão matematicamente com duas vitórias. O confronto da última rodada, no penúltimo dia de disputa, permitiu que se olhasse para os chaveamentos a partir das oitavas de final e projetasse um caminho no torneio.

O Grupo H não apresentava nenhum favorito destacado, até porque a cabeça de chave Polônia já estava eliminada. O resultado prático foi um duelo entre ingleses e belgas repleto de jogadores reservas. Compreensível pela oportunidade de rodar o grupo, descansar titulares e evitar suspensões. Mas a partida mostrou claramente que nenhum dos dois fazia muita questão de vencer.

O golaço de Januzaj deu a liderança com 100% de aproveitamento aos belgas. Para as oitavas, um duelo teoricamente mais tranquilo contra o Japão. Mas depois Portugal de Cristiano Ronaldo e os campeões Argentina, França, Uruguai e Brasil poderiam cruzar o caminho até a grande decisão.

Já para os ingleses a tarefa era mais complicada por enfrentar a Colômbia, líder do grupo e que chegou às quartas de final em 2014 com o artilheiro James Rodríguez. Se conseguisse a vaga nas quartas, porém, na sequências os possíveis adversários seriam Suíça, Suécia, Rússia, Croácia, Dinamarca e a Espanha como única campeã mundial e, em tese, favorita.

Ambas estão nas semifinais. Com sofrimento e desgaste, ainda que a Bélgica não tenha disputado prorrogação, enquanto a Inglaterra viveu um drama até a disputa por penalidades contra os colombianos. Nas quartas, como esperado, triunfo mais tranquilo sobre a Suécia por 2 a 0.

Confirmando a força do jogo físico e a eficiência nas jogadas aéreas. São cinco gols neste tipo de ação dos 11 marcados até aqui. Com os zagueiros Stones e Maguire aparecendo na área adversária aproveitando a estatura. Mas também iniciando a construção desde a defesa, auxiliando Henderson e fazendo a bola chegar a Trippier e Ashley Young, os alas do 5-3-2 inglês. Ou diretamente a Dele Alli, Lingard e Sterling. O trio que se movimenta com rapidez e intensidade em torno de Harry Kane, artilheiro da Copa com seis gols, mas também um centroavante que recua para trabalhar com os meias e abre espaços para as infiltrações dos companheiros.

Chegou como candidata ao título, mas no segundo pelotão. Agora está a um jogo da final que não disputa desde a conquista do título em 1966 como anfitriã. Pegando um “atalho” que lembrou o pragmatismo alemão. Em 1974, mesmo jogando em casa e contando com a fantástica geração de Maier, Beckenbauer, Overath e Gerd Muller, preferiu ser derrotada pela Alemanha Oriental, num duelo com vários significados naqueles tempos de Muro de Berlim. Tudo para fugir de um grupo com o então campeão Brasil, a Argentina e a sensação Holanda, o Carrossel de Rinus Michels e Cruyff. Na disputa em outro grupo com Polônia, Suécia e Iugoslávia se classificou para a grande decisão. Com mais moral e em jogo único e decisivo, a vitória por 2 a 1 sobre os holandeses e a festa em casa.

A Inglaterra disputa a semifinal como favorita não pela tradição, que contou bem pouco nesta edição da Copa. Mas principalmente por chegar mais inteira que a Croácia sofrida e exaurida por duas prorrogações e disputas de pênaltis contra Dinamarca e Rússia que exigiram demais física e mentalmente. A maneira de jogar da seleção de Gareth Southgate exige concentração e vigor do oponente e, mesmo com a experiência e a capacidade de controlar o tempo e o espaço de Modric e Rakitic, os croatas devem sofrer. E se vencerem mais este obstáculo chegarão fortalecidos demais à decisão.

Por isso tratar o duelo entre França e Bélgica como uma espécie de final antecipada por serem os sobreviventes de uma disputa entre gigantes parece um tanto irreal. Até pelo cenário imprevisível desta semifinal, que pode se definir apenas nos penais e exaurir as equipes para a decisão.

A ausência do suspenso Meunier certamente será sentida por Roberto Martínez, mas o treinador espanhol pode transformar o desfalque numa chance de novamente surpreender o adversário. Pode enviar Chadli para o lado direito, fazer Carrasco retornar à ala esquerda e voltar ao 3-4-3 da primeira fase ou simplesmente deslocar Alderweireld para a lateral e colocar Vermaelen na zaga ao lado de Kompany mantendo o 4-3-3 da vitória sobre o Brasil.

Outra dúvida é se manterá o posicionamento de Lukaku pela direita e De Bruyne como “falso nove” fazendo companhia a Hazard no tridente ofensivo sem participar do trabalho sem a bola e apostar tudo no talento e na capacidade de desequilibrar na frente. Mesmo defendendo com apenas sete homens, cedendo espaços e obrigando o fantástico goleiro Courtois a trabalhar.

Um risco diante de uma França que se encontrou no 4-2-3-1 com um “ponta volante” pela esquerda. Aliás, é a única dúvida de Didier Deschamps: mantém Tolisso, que cumpriu bela atuação nos 2 a 0 sobre o Uruguai, ou faz Matuidi retornar naturalmente depois da suspensão. Quem entrar será a “liga” entre a dupla Kanté e Pogba e os três jogadores mais adiantados.

A “exterminadora de sul-americanos” vem mostrando maturidade no Mundial. Com a “casca” da derrota em casa para Portugal na final da Eurocopa há dois anos. Contra os uruguaios aproveitou bem os erros do adversário para se impor. Com Giroud atuando mais coletivamente, como um elemento a prender a defesa adversária, fazer pivô e abrir espaços para Mbappé e Griezmann, os grandes destaques individuais da nova favorita ao título. Um perigo nesta edição da Copa do Mundo.

Teremos uma final inédita e europeia. Emblemática. E justamente pelo equilíbrio é que não se pode garantir nada. Apenas alguma vantagem física da Inglaterra. Que executou seu plano “alemão” e encarou um chaveamento menos exigente. Pelo desempenho coletivo e de nomes surpreendentes como Trippier e o goleiro Pickford vem sendo consistente. Mesmo acusada de simular faltas e escolher adversários, algo distante da imagem ligada à fidalguia e elegância. Ao fair play.

Desta vez o English Team quer ganhar ou chegar o mais longe possível. A Croácia que se prepare e franceses ou belgas não celebrem tanto assim o triunfo amanhã. A final será dura.