Blog do André Rocha

Arquivo : futebolinternacional

Bonucci é o pilar da reconstrução do Milan “novo rico chinês”
Comentários Comente

André Rocha

A grana farta que vem da China comprou 99,93% do Milan e mais à frente deve negociar a “flexibilização” do Fair Play financeiro da UEFA – contratar o que precisa, mais um excedente para depois ser punido com uma multa, que para tamanho investimento será “troco de bala,  e não poder trazer novos jogadores por uma ou duas temporadas.

Tudo muito questionável em termos éticos, mas são os novos tempos. Então vamos falar do que se pode esperar desta reconstrução rossonera no campo.

Vincenzo Montella foi mantido como treinador, até porque todas as grifes mundiais estão empregadas. Fez um trabalho relativamente bom na temporada dentro do contexto, recolocando o clube numa competição europeia. Em outros tempos, a vaga na fase preliminar da Liga Europa seria motivo de crise em uma camisa sete vezes campeã da Europa, mas agora tem a marca do retorno após três anos de “seca”.

Agora receberá um elenco promissor, mas heterogêneo, que terá que se entrosar na marra em uma pré-temporada mais comercial que esportiva na China, prática que vai se tornando cada vez mais comum em clubes que expandem seus tentáculos no mercado asiático.

O Milan conseguiu renovar com Gianluigi Donnarumma, o goleiraço de 18 anos que já despertou cobiça nos gigantes da Europa. Trouxe ainda os laterais Andrea Conti e Ricardo Rodríguez, o zagueiro Mateo Musacchio, os meio-campistas Kessié e Biglia, o meia Çalhanoglu e os atacantes Borini e André Silva. Há ainda a possibilidade de mais uma contratação para o ataque. Ambiciosa, para subir ainda mais o patamar da equipe no cenário do país e da Europa. Rumores de que o acerto com Belotti do Torino está bem encaminhado.

Mas mesmo que chegue uma estrela, a contratação que funciona como uma carta de intenções e pode em campo dar uma unidade a um projeto que antes dava a impressão de ser apenas torrar dinheiro para reunir bons jogadores – o que a rival Internazionale, em menor escala financeira, tem feito nos últimos anos sem muito sucesso – é Leonardo Bonucci.

Ainda que o zagueiro tenha deixado a Juventus mais por desavenças com o treinador Massimiliano Allegri que por convicção no projeto do Milan é alguém que chega com mentalidade vencedora, mesmo com duas derrotas em finais de Liga dos Campeões. Tem liderança e inteligência tática para ser um bom interlocutor de Montella. Alguém com personalidade para construir uma identidade futebolística com mais rapidez.

O novo Milan pode atuar no sistema com três zagueiros ou linha defensiva com quatro homens. Montella costuma trabalhar variando o desenho tático. Também a proposta de jogo, que pode ser de mais posse e ocupação do campo de ataque ou trabalhando em velocidade. Como pede o futebol atual.

O novo Milan pode atuar no 4-3-3, com laterais apoiando alternadamente, Biglia na proteção da retaguarda, Suso e Çalhanoglu nas pontas e André Silva no centro do ataque (Tactical Pad).

Musacchio pode fazer um trio com Bonucci e Romagnoli ou disputar posição com este último numa dupla. Conti e Rodríguez nas laterais defendendo e revezando no apoio. O meio com Biglia, Kessié ganha dinamismo e capacidade de recuperar a bola com o argentino, além da imposição física do marfinense. Podem se juntar a Bonaventura. Ou o trio disputar duas vagas.

Na frente, ponteiros que trabalham com os pés invertidos. Suso é canhoto e atua pela direita. Gosta do drible, da vitória pessoal e sabe alternar a busca pela diagonal para finalizar, mas também a linha de fundo, com o toque final de pé direito. Já o turco Çalhanoglu será o ponta articulador, criativo. Saindo da esquerda para ajudar o meio na organização com o pé direito. Sem contar a já conhecida eficiência na bola parada.

No centro do ataque, André Silva, o jovem e talentoso centroavante português que deve acelerar seu processo de amadurecimento como grande atacante no gigante italiano. Tem mobilidade e nas incursões de Çalhanoglu pelo centro, pode atacar o espaço à esquerda para infiltrar em diagonal em finalizar. Isso se não acabar eclipsado pela estrela pretendida para o ataque. E ainda há Borini e Bacca como opções.

Outra possibilidade é o 3-4-3, com Musacchio entrando no trio de zaga e Conti e Rodríguez atacando como alas e defendendo com laterais. No meio, Biglia e Kessié disputam duas posições com Bonaventura (Tactical Pad).

Este que escreve privilegiaria o 4-3-3 pela melhor combinação das características dos jogadores. Mas ter um time mutante, ou “camaleão”, sempre é interessante pela chance de surpreender os oponentes dentro de um futebol tão estudado. E este Milan certamente será dissecado pelos rivais preocupados com o retorno de uma camisa que entorta varal quando recheada com qualidade.

Não é elenco capaz de resgatar os tempos de Van Basten ou de Kaká, mas já é um começo. Com Bonucci, o pilar da reconstrução deste Milan “novo rico chinês” que tem sua marca explorada para desfrutar do dinheiro forasteiro. Sinal dos tempos. Que ao menos a resposta em campo traga um rival à altura para a ilha de excelência da Juventus na monocórdica Série A do Calcio.


Chelsea e Real Madrid: estratégias diferentes para inspirar times do Brasil
Comentários Comente

André Rocha

Antes de qualquer ponderação é preciso explicar o óbvio, quase desenhar: a intenção do texto não é comparar a qualidade dos elencos dos milionários clubes da Inglaterra e da Espanha. Apenas as estratégias na gestão dos elencos. Mas também entendendo que é possível fazer uma proporcionalidade entre a capacidade dos clubes brasileiros citados e o nível do futebol jogado no país.

O Chelsea fez uma temporada 2015/16 para esquecer e não se classificou sequer para a Liga Europa. A prioridade absoluta era a Premier League, com as copas nacionais em paralelo da forma como os ingleses as vêm tratando nos últimos anos: escala reservas e só busca o título se não tiver algo mais importante em disputa. Ou seja, o que o tem restado ao Arsenal de Arsene Wenger.

A estratégia de Antonio Conte foi clara: depois de encontrar a formação com melhor relação desempenho/resultado, insistiu com ela e rodou bem pouco o elenco. Com a repetição de jogos e semanas livres para os treinos que funcionam mais como “polimento” após uma pré-temporada mais forte e longa que as do Brasil, a variação do 5-4-1 para o 3-4-3 ganhou ainda mais fluência. Os atletas passaram a executar as jogadas de memória, sem pensar muito e a equipe sobrou no Inglês.

Já vem sendo o trunfo do Corinthians na temporada. Equipe que ganhou corpo no Estadual, mas vacilou na Copa do Brasil com a eliminação para o Internacional. A arrancada espetacular no início do Brasileiro já sinaliza que a Sul-Americana, consequência da temporada irregular em 2016, ficará em segundo plano. A menos que abra uma vantagem na competição nacional tão confortável que permita inverter a lógica e poupar para um duelo decisivo no torneio continental.

O Real Madrid queria voltar a vencer o Espanhol depois de cinco anos e quebrar a hegemonia do rival Barcelona. Mas sem perder de vista a Liga dos Campeões, historicamente um alvo de conquista do maior campeão do torneio. A solução de Zinedine Zidane, depois de observar o desgaste de seus jogadores na temporada anterior, especialmente da estrela Cristiano Ronaldo foi simples, até um tanto antiquada: definir titulares e reservas. Treinar, condicionar e entrosar para que ambos estivessem prontos quando necessário.

Mas sem tapar os olhos para o desempenho e praticar a meritocracia. Tanto que Isco virou titular e Gareth Bale iniciou a decisão da Liga dos Campeões no seu País de Gales no banco. As partidas em que a equipe reserva seria utilizada foram definidas dentro de um planejamento, não necessariamente na partida do Espanhol que antecedia um duelo importante pela Champions.

O resultado: as duas taças em Madrid e todos voando no fim da temporada. Os titulares pelo descanso e os suplentes pela motivação e por conta do ritmo de competição. A dosagem certa para o futebol atual, que exige do atleta um enorme esforço mental – concentração absoluta para as tomadas de decisão corretas – e físico, com um aumento exponencial nas ações de alta intensidade – em especial os piques curtos para dar opção e receber a bola ou pressionar o adversário.

Flamengo, Palmeiras e Atlético Mineiro, pelo alto investimento em seus elencos e, por conta disso, não podendo descartar nenhuma competição na temporada, podem pensar em algo parecido. Envolvidos em três campeonatos, se tentarem insistir com os titulares em todos haverá esgotamento e desvantagem contra adversários que não estão na mesma maratona de jogos a cada três dias.

Já com equipes mistas, poupando apenas aqueles que os exames apontam próximos de estourar os músculos, o entrosamento sempre fica comprometido. Os famosos rodízios não têm dado muito resultado prático por conta da falta de sintonia entre os setores muito alterados.

Parece mais racional definir antes e escolher as partidas mais acessíveis. Não como o Grêmio fez, poupando contra Sport e Palmeiras fora de casa porque tinha jogos considerados prioritários no meio da semana. Pontos jogados fora que hoje fazem falta na luta para se aproximar do líder Corinthians.

É lógico que sempre é mais inteligente deixar alguns titulares no banco para alguma eventualidade. Mas mesmo concentrando e fazendo parte da logística da partida, não deixa de ser um repouso para pernas e mentes. Em clubes tão pressionados por conquistas é um alívio. Cobrar presença em todos os jogos para justificar os altos salários parece pouco inteligente. Porque o atleta não está cansado a ponto de não poder exercer seu ofício. A ausência é apenas para que ele mantenha o alto rendimento. Não são máquinas.

Já passou da hora dos clubes brasileiros deixarem de se preocupar tanto com decisões políticas, pautadas por reações de torcida e imprensa. Não há como controlar os resultados, por isso planejar para minimizar os equívocos parece sempre a melhor escolha. Inclusive surpresas agradáveis podem acontecer. Como os titulares do Real Madrid derrotados pelo Barcelona no Santiago Bernabéu, mas não deixando o rival se aproximar da liderança exatamente pelos pontos conquistados pelos reservas, inclusive em jogos longe de Madri.

Ninguém por aqui conta com uma seleção mundial no elenco. Mas o Brasileiro também não tem o nível do Espanhol – as competições internacionais mostram que Barça e Real não sobram por falta de rivais à altura, mas por estarem numa prateleira acima no futebol mundial pela competência dentro de campo.

Com a disputa ainda no primeiro turno é possível corrigir a rota e definir o planejamento. O Corinthians parece cada vez mais consciente que o “modo Chelsea” é o norte a seguir, mantendo a base e investindo em recuperação e treinamentos pensando no Brasileiro.

Já os que gastaram para rechear seus elencos precisam definir um caminho para não correrem o risco de terminar 2017 sem taças importantes para ostentar. O Real de Zidane ganhou a Espanha e a Europa com inteligência. É possível fazer parecido, mesmo sem tanto talento disponível.

 

 


“O problema é quando se tem a bola” – Futebol atual é jogo de espaços
Comentários Comente

André Rocha

A frase entre aspas do título deste post é de um treinador campeão brasileiro, cujo nome não será revelado para não criar qualquer estigma ou rótulo. Até porque havia um contexto dentro da entrevista. Mas a ideia era clara.

Ter a posse de bola é aumentar a probabilidade de errar e dar chances ao adversário. Na saída de bola, com zagueiros que não foram ensinados a iniciar a construção das jogadas e acabaram na posição pela estatura e vigor físico. Em um centro futebolístico que predomina financeiramente no continente, mas não conta com excelência técnica na maioria das posições e funções.

No qual a torcida não tem paciência para jogadas trabalhadas, vaia bola recuada para o goleiro com a proposta de criar espaços e, na ansiedade e imediatismo típicos da nossa cultura, exige que a ação ofensiva seja finalizada o quanto antes.

Por isso a bola de segurança pelos lados. Porque se há a perda, o contragolpe do oponente não se inicia em uma zona perigosa. O ataque só passa pelo centro para virar o lado saindo da pressão ou procurando um pivô, mas já no último terço do campo. Muitos cruzamentos, com bola parada ou rolando. A margem de erro é menor.

Como cobrar mais de treinadores trocados a cada três meses, ameaçados a cada três derrotas? Responsabilizados por problemas técnicos de seus atletas desde a base e sem tempo para treiná-los com jogos a cada três dias? Neste cenário pragmático é melhor mesmo não ter a bola e esperar o vacilo do outro lado.

A vitória do Botafogo sobre o Nacional uruguaio no Parque Central foi simbólica. Porque a equipe da casa, que também se sente mais confortável jogando em transições velozes, precisava trabalhar as ações ofensivas para infiltrar, construir o resultado para administrar na partida de volta.

Encontrou, porém, uma equipe brasileira novamente bem coordenada defensivamente, com concentração e entrega. Também sorte, já que no toque de Victor Luís na própria área com o braço muito aberto, em lance duvidoso para as novas recomendações da FIFA, a arbitragem não se deixou levar pelo mando de campo. Sem contar a falha grotesca do zagueiro Emerson Silva que Silveira não aproveitou à frente de Gatito Fernández. O erro quando teve a bola.

No contragolpe, inversão de Pimpão para Bruno Silva e bola na rede com o toque meio sem querer de João Paulo, meia que deixou Camilo no banco pelo maior poder de marcação e dinâmica mais alinhada à proposta do treinador Jair Ventura. Triunfo com 40% de posse e oito finalizações, quatro no alvo. Contra 17 do Nacional, mas só duas na direção da meta de Gatito. Sem ideias, os uruguaios efetuaram 41 cruzamentos. O Bota cometeu 26 faltas contra 14 e acertou 17 desarmes, o Nacional só 12. Espírito de competição.

O resultado facilita o trabalho para a volta no Estádio Nílton Santos. Porque o Botafogo, mesmo em casa e provavelmente com a torcida apoiando, deve manter sua ideia pragmática de jogo. O questionamento inevitável é: como será quando a equipe precisar sair para o jogo por necessidade? As derrotas para Barcelona de Guayaquil e Avaí no Rio de Janeiro entregam respostas preocupantes.

Jogar como “azarão” é mais simples. O discurso motivacional do treinador vai na linha do “Davi x Golias”, os comandados entram mais concentrados e nenhuma pressão. Há espaços para atacar e menor cobrança sobre o erro.

Não só no Brasil. Nos grandes centros a lógica é a mesma. Com Leicester City e Chelsea vencendo as últimas edições da Premier League sem dar muita importância para a posse de bola. O Barcelona eliminado na Liga dos Campeões por Atlético de Madri e Juventus e ainda levando 4 a 0 do PSG. Os rivais sempre jogando a isca: “Me ataque, fique com a bola e te golpeio em seus pontos fracos”. Pep Guardiola no Manchester City também sofreu e vai tentando aprender e se adequar à dinâmica do futebol jogado na Inglaterra.

Na final da Liga Europa, José Mourinho armou seu Manchester United para aproveitar os espaços deixados pelo Ajax com seu ataque posicional típico do futebol holandês. Marcação encaixada, bote no zagueiro colombiano Davinson Sánchez, elo fraco nos passes, e contragolpe rápido. Força no jogo aéreo e mais uma taça continental para o treinador português.

O mundo é do Real Madrid comandado por Zidane porque é um time talentoso e inteligente. Sabe jogar com a bola pela qualidade individual que possui. Por ser um gigante, em 90% das partidas na temporada entra como favorito e precisa se arriscar. Mas faz por necessidade, não filosofia ou convicção. E se abre o placar o jogo reativo volta a ser a ideia principal. Assim como a Juventus, finalista derrotada na Champions, é um time “camaleão”, que muda de acordo com o que se apresenta. Para isso precisa de jogadores completos, inclusive na leitura de jogo. Saber acelerar e cadenciar, dosar a intensidade.

Não por acaso o predomínio recente de Cristiano Ronaldo sobre Messi nas premiações individuais. Consequência das conquistas coletivas. O português é mais prático, simples e vertical. Decide com um toque. Para brilhar, o argentino precisa construir em um Barcelona cada vez mais mapeado e estudado. Missão complicada.

Porque quem trata a posse como obsessão ou filosofia, dentro ou fora de casa e independentemente do contexto está sendo obrigado a mudar. No futebol tão estudado de hoje, a equipe abre mão do fator surpresa. Instala-se no campo de ataque, gira a bola em busca de espaços e os cede atrás, por consequência. Cabe ao rival negar as brechas para infiltrações, com o cada vez mais utilizado sistema com cinco homens na última linha de defesa, e explorar os pontos falhos, que sempre existem.

Na costumeira variação do 4-3-1-2 para duas linhas de quatro bem compactas, o Botafogo venceu em Montevidéu. Mais uma vez sem fazer questão da posse. No futebol, ela cada vez mais vai perdendo sua importância. A referência é o espaço. O “jogar sem bola” aproxima das vitórias.  Paradoxal, não?

E a frase do técnico, que soou absurda há alguns anos, mostra-se visionária. Mas qual será o impacto no futuro do esporte? Felizmente ele é cíclico, por isso tão apaixonante. Logo virá uma resposta. Tomara…

(Estatísticas: Footstats)

 


Palmeiras e Galo: oscilações que minam a confiança longe de casa
Comentários Comente

André Rocha

O Atlético Mineiro de Roger Machado encontrou há algum tempo uma estrutura com o quarteto ofensivo formado por Elias, Cazares, Robinho e Fred. Sofre, porém, com os desfalques na retaguarda. Especialmente Marcos Rocha, que nunca foi exímio defensor, mas encontra menos dificuldades que Alex Silva.

Em Cochabamba, o ex-lateral do América-MG penou contra o brasileiro Serginho, depois Ruddy Cardozo. E ainda cometeu um pênalti, desses autorizados pelas novas orientações da FIFA, saltando com o braço aberto e a bola batendo em sua mão.

Uma atuação catastrófica. Pelo seu setor saiu a cobrança de lateral na área, não a usual dos últimos tempos, mas um lançamento para Bergese finalizar e Álvarez acertar de bicicleta no rebote do corte de Gabriel sobre a linha.

O 4-2-3-1 atleticano que está se tornando comum no futebol brasileiro, com um meio-campista (Elias) de um lado e um atacante (Robinho) do outro, consegue ter fluência na frente quando chega em bloco.

Mas na altitude de 2600 metros na Bolívia ficou mais complicado e muitas vezes se viu Elias mais preso para não ter que infiltrar na frente e Robinho nem sempre voltando e ficando na frente com Cazares e Fred, que também produziram pouco.

Foram 13 finalizações, uma a mais que o time da casa. Incluindo a cabeçada na trave de Rafael Moura, que entrou na vaga de Fred. Mas apenas uma na direção da meta de Olivares. O Galo deve ser mais eficiente em Belo Horizonte, ainda mais se forçar as jogada aéreas, ponto fraco dos bolivianos.

Deixou, no entanto, uma impressão de que um pouco mais de confiança, mesmo diante de um time que é reconhecidamente forte em seus domínios, com vitórias sobre Palmeiras, Tucumán e Peñarol, poderia ter rendido ao menos um ponto e serenidade para a volta.

Porque, apesar da melhor campanha geral na fase de grupos, este Atlético de Roger oscila demais. Não apresenta consistência para se impor independentemente do contexto, mesmo com a recuperação no Brasileiro, subindo seis posições com a vitória por 3 a 1 sobre o Cruzeiro no clássico e voltando à primeira página da tabela. Sem contar a vantagem construída em casa sobre o Botafogo nas quartas de final da Copa do Brasil.

Mesmo caso do Palmeiras, quarto colocado na competição nacional, ainda vivo na Copa do Brasil. Mas inconstante a ponto de cumprir boa atuação na primeira etapa em Guayaquil. Mesmo sem Guerra, que voltou ao Brasil para cuidar do filho hospitalizado por afogamento. A transição ofensiva ganhava qualidade com Dudu e encontrava Willian para finalizar. Como na melhor oportunidade dos primeiros 45 minutos em chute cruzado.

Cuca trocou Zé Roberto, escalado no meio-campo para Juninho cumprir a função de lateral-zagueiro pela esquerda tão prezada por Cuca, por Roger Guedes. Michel Bastos e Keno entraram nas vagas de Dudu e Borja. Ou seja, trocas em todo o ataque. Para se defender mais que o recomendável, permitindo que o time equatoriano rondasse a área, terminando a partida com 56% de posse.

Até achar o gol de Jonatan Alvez no chute que desviou em Thiago Santos, o volante “cão de guarda” que virou titular. Na oitava e última finalização do time mandante, o dobro do campeão brasileiro – três no alvo para cada lado.

A questão é que o jogo alviverde não flui, nem tem ao menos a capacidade competitiva do ano passado, apesar dos 24 desarmes certos contra apenas nove do Barcelona. E o contexto para o duelo final em São Paulo poderia ser pior, caso o árbitro houvesse marcado pênalti no toque de braço de Mina.

O que é preocupante para a volta no Allianz Parque é que, ao contrário do Jorge Wilstermann, o Barcelona mostrou força como visitante na fase de grupos. Inclusive vencendo o líder Botafogo no Estádio Nilton Santos. Exatamente quando o alvinegro tentou mudar sua maneira de jogar e saiu para propor o jogo. Acabou surpreendido como o Palmeiras não tem o direito de repetir por sua capacidade de investimento. Sair nas oitavas do torneio continental seria um fracasso para repensar tudo.

É possível virar no modo “Porco Doido” empurrado pela torcida pode fazer em 90 minutos o que alcançou em vinte ao buscar três gols  e o empate contra o Cruzeiro. Mas há o risco exatamente por Cuca ainda não ter construído uma equipe confiável. Intensa e constante. Sem Gabriel Jesus, Moisés, Vitor Hugo e tempo para treinar e ajustar o elenco muito heterogêneo fica bem mais complicado.

A missão é acessível para Palmeiras e Galo, apesar do calendário massacrante. Até agosto é obrigatório oscilar menos para que as equipes cheguem mais inteiras nos jogos que, no pior cenário, podem custar a temporada.

(Estatísticas: Footstats)


Sarrià, 35 anos: a velha mania brasileira de achar que perdeu pra si mesmo
Comentários Comente

André Rocha

 

As seleções brasileiras nas Copas de 1930 e 1934 foram “improvisadas”, não eram propriamente um grupo com os melhores jogadores do país. Em 1938 a Itália fascista de Mussolini venceu a semifinal por conta da ausência de Leônidas da Silva, “poupado” pelo treinador Ademar Pimenta. O “Maracanazo” de 1950 está eternamente na conta do goleiro Barbosa. Em 1954 e 1966 foi a desorganização. Na Copa da Alemanha depois do tri “amarelamos” contra a Holanda.

Em 1978 não houve derrota, então foi “campeão moral”. Mas se o Falcão tivesse sido convocado…Em 1986 a culpa foi do Zico com o joelho em frangalhos. Em 1990 e 2010 o responsável pelo fracasso foi o Dunga, dentro e fora de campo. A convulsão de Ronaldo impossibilitou a conquista em 1998 – para muitos foi a Copa “vendida” para a França. Há três anos, um simples “apagão” no Mineirão.

Para muitos brasileiros, em condições normais de temperatura e pressão, a seleção de Tite iria para o Mundial da Rússia apenas buscar sua 19ª taça. Porque o Brasil sempre perdeu apenas para si mesmo. Quando venceu foi por méritos totais. Ou não mais que a obrigação.

Ninguém lembra da dura semifinal contra a França em 1958 que acabou facilitada pela fratura do zagueiro Jonquet que deixou a forte seleção de Just Fontaine e Raymond Kopa fragilizada pela impossibilidade de fazer substituições. Nem dos apitos amigos em 1962 e 2002 contra Espanha e Bélgica, respectivamente. Em 1994, Branco nos tirou do sufoco nas quartas-de-final contra a Holanda numa falta cavada em que colocou a mão na cara do adversário. Mas aí é a velha “malandragem” tupiniquim.

Em 1982 foi culpa do Cerezo que entregou a bola para Paolo Rossi no segundo gol, do Telê Santana que não tinha um ponta pela direita e Cabrini desceu livre para cruzar na cabeça do algoz brasileiro no gol que abriu o placar . Junior vacilou não deixando Rossi impedido no tento derradeiro dos lendários 3 a 2 no Sarrià. Há 35 anos.

Esquecem, mais uma vez, que havia uma camisa bicampeã mundial vestindo a base da equipe, com o mesmo Enzo Bearzot no comando, que foi a única a vencer a anfitriã Argentina quatro anos antes. Que ficou em quarto no Mundial por detalhes, tanto na derrota para a Holanda que custou a vaga na final quanto nos gols de Nelinho e Dirceu na decisão do terceiro lugar. Em disputas equilibradíssimas.

Time do “regista” Antognioni, meio-campista que jogava com classe e marcou o quarto gol, anulado por impedimento inexistente. De Bruno Conti, ponta direita canhoto e articulador com técnica refinada. Do onipresente Tardelli no meio, indo e voltando. Do versátil Oriali, que foi atuar na lateral direita para que Gentile fosse perseguir Zico no campo todo, assim como fizera com Maradona.

De Gaetano Scirea, um dos melhores líberos de todos os tempos. De Cabrini, o lateral apoiador que apareceu bem no primeiro gol, mas depois sofreu com a movimentação brasileira pelo seu setor. Um dos motivos de críticas depois do revés, mas que confundiu e tirou o encaixe pensado por Bearzot. A ideia era que Cabrini cuidasse de Sócrates e Graziani, o ponta esquerda, voltasse com Leandro. Por ali saíram os gols de Sócrates e Falcão.

Porque a Azzurra também errou. Na defesa deixando Zico e Serginho livres para concluir à frente de Dino Zoff, mas o centroavante finalizou bisonhamente. O camisa dez brasileiro ainda sofreu pênalti tendo sua camisa rasgada. Marcação implacável? Só no segundo tempo. E Zico reclama até hoje que os companheiros pararam de procurá-lo, por estar sempre vigiado.

Rossi marcou três, porém o mais fácil ele perdeu, totalmente livre no segundo tempo, com a bola à feição no tradicional “contropiede” italiano. Com Bergomi no lugar de Collovati e a entrada de Paulo Isidoro na vaga de Serginho, Sócrates foi para o centro do ataque e a retaguarda italiana se confundiu para fazer a sobra com Scirea.

Jogaço duríssimo até a cabeçada de Oscar na cobrança de falta de Eder que Zoff pegou na maior defesa sem rebote da história das Copas. Mérito total do goleiro veterano. Assim como a Itália cumpriu sua melhor atuação naquela Copa na Espanha. Depois, com a confiança no topo, passou por cima da Polônia sem o craque Boniek na semifinal e atropelou na decisão no Santiago Bernabéu a Alemanha estropiada pelo esforço hercúleo diante da França.

Por isso a festa de título no apito final de Abraham Klein no dia 5 de julho. A Itália havia eliminado o melhor futebol daquele torneio até então. Que não é esquecido até hoje. Que provocou aplausos a Telê Santana na sala de imprensa e elogios do vencedor Bearzot. Também o prêmio de segundo melhor jogador da competição a Falcão.

Mas não perdeu para si mesmo. A Itália venceu. Talvez fosse derrotada em outros dez confrontos. Talvez não. Nunca saberemos. No Sarrià superou as desconfianças de uma primeira fase de empates contra Peru, Polônia e Camarões para alcançar um de seus mais celebrados êxitos. Porque foi melhor.

Como tantas outras seleções que nos superaram em Copas. Desde a Itália bicampeã nos anos 1930, passando pelo Uruguai de Obdulio Varela, a Hungria em 1954, mesmo sem Puskas. Portugal de Eusébio, Holanda de Cruyff e de Sneijder, Argentina de Menotti, a França de Platini e de Zidane, a Argentina de Maradona e Caniggia. A Alemanha dos 7 a 1. Com exceção de 1966 e 1986, todos que eliminaram o Brasil foram, no mínimo, finalistas.

Não é pouco, nem merece ser subestimado como a Itália. Não foi a vitória do pragmatismo sobre a arte irresponsável, o futebol “bailarino”. O Brasil de Telê tinha os dez homens na defesa quando sofreu o terceiro gol e foi buscar o empate na jogada aérea. Não houve catenaccio, retranca, futebol covarde. A Azzurra fez uma partida combinando seu estilo e a necessidade do resultado.

O Brasil não contrariou suas características, mas quando empatou pela segunda vez com Falcão percebeu que devia ser mais cuidadoso. E foi, não sofreu gol em contra-ataque. Telê podia ter trocado Waldir Peres por Paulo Sérgio, Luisinho por Edinho e Serginho por Dinamite ao longo do Mundial. Mas não foi derrotado apenas por conta de seus elos fracos.

Havia um rival valoroso, com entrega, técnica e estratégia. O Brasil perdeu para a melhor seleção daquele mês de verão na Espanha em 1982. O resto é nossa presunção de onipotência quando o assunto é futebol. Uma velha e tola mania.


Alemanha campeã é o resultado dando respaldo ao planejamento
Comentários Comente

André Rocha

Foto: Ivan Sekretarev (AP Photo)

Na final da Copa das Confederações, a Alemanha encarnou a máxima que já passou pela boca de José Mourinho e Rafael Nadal, dois pragmáticos até a medula: “Finais não são para ser jogadas, mas vencidas”. Já que “deixou chegar”…

Trabalhou em um 5-4-1 mais “duro” e menos fluido que em outras ocasiões no torneio. Jogou para controlar os espaços e sofreu mais do que deveria contra o Chile. Porque na execução deste sistema, o perigo é não conseguir sair da pressão adversária e nunca sair em bloco, perdendo a bola e vendo o adversário dominar com volume de jogo.

Foi o que aconteceu e só não causou maiores danos porque o Chile, assim como você já leu aqui sobre o Flamengo, é uma equipe “arame liso”. Ou seja, cerca mas não fura. Ou melhor, tem dificuldade para transformar em gols as oportunidades criadas dentro de uma proposta ofensiva no 4-3-1-2.

A partir da saída de bola “lavolpiana”: dois zagueiros abrem, um volante afunda para qualificar o toque com passe limpo. Mas Marcelo Díaz errou no domínio, e com Medel e Jara distantes, restou ao goleiro Bravo assistir ao toque de Werner para Stindl marcar o gol que seria do título.

O triunfo podia ter sido resolvido ainda na primeira etapa com o claro abatimento dos chilenos após o gol sofrido exatamente no período de maior domínio. Mas Goretzka não completou com precisão passe de Draxler. A Alemanha controlava sem a bola.

Na segunda etapa, atuação pragmática para conter o campeão sul-americano. Joachim Low trocou Werner por Can. Pizzi tirou Aranguiz e colocou Sagal. Substituições sintomáticas dentro das propostas. Sagal perdeu gol feito, Ter Stegen foi o melhor alemão na decisão com grandes defesas, inclusive no ato final em cobrança de falta de Sánchez.

A vitória dentro de um “estilo Mourinho” é curioso paradoxo para quem usou a Copa como laboratório e oportunidade para dar rodagem a quem deve ser titular no Mundial do ano que vem. Kimmich se afirmou como o jogador mais inteligente em termos táticos e de tomada de decisão de sua geração. Goretzka, Stindl e Werner foram aprovados. Ter Stegen é a sucessão de Neuer.

Draxler não foi o protagonista que se esperava, mesmo com a Bola de Ouro do torneio que costuma ser mais midiática do que por mérito.Mas o coletivo se impõe dentro de uma proposta atual, que se adapta às circunstâncias e às ideias do oponente. A decisão pedia cuidado e eficiência diante da melhor e mais vencedora geração chilena, faminta por mais uma conquista. Na provável despedida da Copa das Confederações.

O título, porém, não muda os planos da Alemanha. Mas é óbvio que dá ainda mais respaldo a Low e afirma o favoritismo que já existia da atual campeã mundial. Descansando os veteranos será possível voltar a Rússia acrescentando experiência à qualidade dos jovens que mantiveram a mentalidade vencedora.

E se chegar de novo…


O que a Alemanha tem a ensinar ao Flamengo
Comentários Comente

André Rocha

A Alemanha foi campeã mundial em 2014 no Maracanã com sua tradicional camisa branca. Mas na vitória mais emblemática e histórica, o uniforme era rubro-negro. Assumidamente inspirada no Flamengo, numa clara tentativa de conquistar a simpatia da maior torcida do país. Conseguiu, mesmo impondo a maior derrota do futebol cinco vezes campeão do mundo.

Agora é a vez do Fla se inspirar na Alemanha. País que com três títulos mundiais resolveu se transformar. Condicionada, sim, por resultados frustrantes nas Copas de 1994 e 1998 e na Eurocopa 2000. Mas entendendo que as eliminações eram consequência de um desempenho insatisfatório. Fruto de um estilo ultrapassado.

A mudança passou por clubes, desde a formação até o profissional. O vice-campeonato mundial em 2002 ainda seguindo a velha escola poderia ser tratado como um sinal de que era possível vencer da mesma forma. Não mudou em uma vírgula o planejamento a longo prazo.

Não é na reestruturação do futebol em campo que o Flamengo precisa ter a Alemanha como espelho, embora seja um ótimo modelo.  Mas sim na certeza de que a escolha de um caminho é essencialmente filosófica. Parte da ideia de que é a coisa certa a fazer. Mesmo que de 2005 a 2014 a seleção tenha convivido com eliminações seguidas nas semifinais. Da Copa das Confederações em casa até a Eurocopa 2012, caindo para a Itália.

A mudança no comando técnico, de Klinsmann para Joachim Low, foi absolutamente natural na manutenção do projeto. Na Eurocopa do ano passado, eliminação de novo na semifinal para a anfitriã França. Low segue e a perda do título não motivou nenhuma alteração no que estava projetado. Reservas na Copa das Confederações para dar férias aos mais experientes e rodagem aos mais jovens.

Com o mesmo propósito, mandou um grupo bastante jovem para a Olimpíada do Rio de Janeiro, até aproveitando o limite de 23 anos. Medalha de prata e mantendo a imagem para o mundo de prezar o bom futebol. Desde a vontade de privilegiar a técnica há mais de uma década, passando pela influência dos três anos de Pep Guardiola no Bayern de Munique para valorizar ainda mais a posse de bola. Mas também bebendo da fonte de Antonio Conte na execução do 5-4-1. Primeiro da Itália na Eurocopa e agora do Chelsea campeão inglês.

O principal: nenhuma derrota foi capaz de mudar as ideias e ideais dos alemães. Porque sabem que não há controle sobre resultados, nem garantia de títulos. Mas é saudável e também é possível fazer história pela bola jogada e não só pelas taças levantadas. Fazem porque acham o melhor caminho a seguir.

A diretoria encabeçada por Eduardo Bandeira de Mello equacionou dívidas, aumentou receitas e prometeu um Flamengo forte em três anos. A torcida comprou a ideia, mas agora começa a cobrar com mais intensidade os títulos relevantes na temporada brasileira e sul-americana.

Como se fosse uma equação exata, sem chances de equívoco: time popular + altas receitas = elenco qualificado, estádios lotados e hegemonia no país e no continente.

A questão é que futebol e matemática ou lógica nem sempre combinam. Ainda mais nessas terras de tanta alternância de poder. Com um Palmeiras que quase caiu pela terceira vez em 2014, mas com o auxilio inicial do presidente milionário Paulo Nobre e depois a injeção da Crefisa, alcançou resultados mais rapidamente: uma Copa do Brasil, um Brasileiro. Ainda vivo na Libertadores, prioridade no ano.

Agora um Corinthians que em termos de gestão tem muitas lacunas, mas dentro do campo construiu uma identidade vencedora com Mano Menezes e Tite que Fabio Carille resgata e forma um time competitivo que abre nove pontos em relação ao terceiro colocado Flamengo. O vice é o Grêmio que construiu um modelo de jogo com Roger Machado e Renato herdou acrescentando seu carisma e ajustando o que não vinha dando certo. Faturou uma Copa do Brasil e encaminhou a vaga na semifinal do mesmo torneio com os 4 a o sobre o Atlético-PR.

Clubes que no momento estão na frente do Flamengo, que acerta nas finanças, mas nem tanto no futebol. Contratações, montagem de elenco. Ano passado se equivocaram ao não preparar um estádio no Rio de Janeiro para evitar o desgaste de viagens seguidas. Custou o fôlego na reta final da última temporada.

Corrigido em 2017 com a Arena da Ilha do Governador. Questão de tempo e aprendizado. Que deve seguir mesmo que não venham o Brasileiro, a Copa do Brasil e a Sul-Americana até dezembro. Sem a visão limitada de que é melhor voltar aos tempos de equipes vencedoras montadas sem compromisso com orçamento.

Porque mesmo que clubes vivam de glórias mais que as seleções, os títulos não podem ser um fim em si mesmo. A Alemanha começou a semear em 2000 e colheu 14 anos depois. Sem desvios. Porque havia convicção de que o resultado viria em algum momento. Porque era a coisa certa a fazer.

A seleção de Joachim Low está em mais uma decisão. Depois dos 4 a 1 na semifinal da Copa das Confederações contra o México. Mostrando ao mundo Goretzka, Werner e um futebol atualíssimo. Alternando linhas de quatro, cinco e até seis homens. Jogadores técnicos e inteligentes formados lá atrás e ganhando minutos e vivência com uma camisa pesada.

Mas se perderem a final para o Chile, país sem grande tradição com a sua melhor e maior geração da história, nada vai mudar. Nem um sinal de arrependimento de poupar os mais veteranos, nada de “tivemos a chance de ganhar mais uma taça”. O trabalho segue com seus processos. Sem imediatismo.

Um bom norte para o Flamengo não mirar o futuro querendo voltar a um passado que deixou conquistas, mas também caos e um enorme passivo que quase inviabilizaram a recuperação dos últimos anos. Manter as contas em dia e investir em estrutura é o básico, o correto. Não necessariamente uma receita de bolo para empilhar troféus.

 


Cristiano Ronaldo segue voando. Portugal deve agradecer ao Real Madrid
Comentários Comente

André Rocha

Foto: Ivan Sekretarev (AP Photo)

Na estreia da Copa das Confederações contra o México, Fernando Santos escalou a seleção portuguesa mais experiente, próxima à formação que venceu a Eurocopa.

Só que o futebol é dinâmico e hoje mandar a campo João Moutinho, Nani e Quaresma com Adrien, Bernardo e André Silva disponíveis é um crime lesa-pátria. Fernando efetuou a correção para a segunda partida, contra os anfitriões.

Rússia que respeitou o campeão continental e mandou para o banco as opções ofensivas Poloz e Erokhin, titulares na vitória sobre a Nova Zelândia na estreia por 2 a 0 para montar um 5-4-1/3-4-3 à la Chelsea de Conte para negar espaços com muita compactação defensiva e saída rápida pela direita com Samedov e Golovin.

Mas, do lado oposto, Kudryashov e Kombarov vacilaram na movimentação para fechar a diagonal de Cristiano Ronaldo, que fez o gol único da partida. Jogada iniciada com inversão de Bernardo Silva para o cruzamento de Raphael Guerreiro que encontrou a estrela máxima do torneio.

Infiltrando pela direita. Porque Cristiano convenceu Fernando Santos a repetir na seleção o que Zidane fez no Real Madrid: dar total liberdade ao seu melhor atacante. Antes, o camisa sete iniciava pela esquerda num 4-3-3 e se juntava ao centroavante em um movimento programado. Agora ele atua solto na frente, alternando com outro atacante. No time merengue, Benzema. Na seleção, o jovem e promissor André Silva.

Cristiano Ronaldo voou na reta final da temporada europeia e mantém o desempenho com a camisa de seu país. Antes, chegava esfalfado, destruído por jogar todas para duelar nas estatísticas e recordes com Messi. Agora está inteiro para buscar o que realmente importa: títulos. Não que ele precise da Copa das Confederações para confirmar a Bola de Ouro, que já é dele.

Na recomposição, duas linhas de quatro com André Gomes fazendo a compensação pela esquerda, Bernardo à direita como no Monaco – e como lembra Messi nos gestos técnicos! William e Adrien no centro, protegendo Cédric, Pepe, Bruno Alves e Guerreiro.

Portugal empilhou chances, teve 62% de posse e quatro finalizações a dois, três contra nenhuma no alvo, no primeiro tempo. Finalizou mais oito vezes na segunda etapa, Cristiano Ronaldo perdeu duas chances claras que podiam até ter encaminhado uma goleada.

Acabou sofrendo com uma Rússia sem ideias, mas presença ofensiva com Poloz e Erokhin, mais Bukharov. No abafa, bolas levantadas na área de Rui Patrício, finalizou seis vezes no segundo tempo, subiu a posse para 42% e fez o adversário correr o risco de novo empate no final, como os mexicanos conseguiram.

Ainda assim, a formação inicial é um bom norte para Fernando Santos, que deve agradecer ao Real Madrid. Não só pela “inspiração” no posicionamento de Cristiano Ronaldo, mas pelo planejamento de fazer o craque “fominha” descansar ao longo da temporada e chegar em junho ainda voando fisicamente. No auge, Cristiano pode comemorar mais uma conquista em 2017.

(Estatísticas: FIFA)


Com Douglas Costa, Tite projeta uma seleção mais ofensiva
Comentários Comente

André Rocha

O gol aos 11 segundos de Diego Souza em bola roubada no campo de ataque condicionou toda a sequência do amistoso em Melbourne. Não virou goleada ainda no primeiro tempo pelo natural desentrosamento de uma seleção brasileira muito modificada e também pelo trabalho de pressão no campo de ataque e compactação defensiva da Austrália.

De positivo, a paciência e a vontade de qualificar a saída de bola, mesmo com a pressão adversária. Por isso a opção por David Luiz à frente da defesa. Este e mais Thiago Silva e Rodrigo Caio tiveram desempenho correto e ainda apareceram na jogada aérea que terminou no segundo gol, de Thiago. Interessante para transferir ainda mais confiança para o zagueiro em seu processo de retorno à seleção.

Mas, pensando no futuro, valeu a observação da movimentação do trio de meias atrás de Diego Souza. Variação natural do 4-1-4-1 para o 4-2-3-1 quando Philippe Coutinho avançava, Paulinho ficava mais próximo a David Luiz. Giuliano e Douglas Costa pelos flancos, alternando o posicionamento em alguns momentos para atuar com os pés trocados – o canhoto à direita, o destro pela esquerda.

Infelizmente Coutinho e Douglas não renderam o esperado, nitidamente sentindo na parte física o fim de temporada europeia. Porque Tite pensa mais à frente em uma proposta ofensiva reunindo Coutinho, Douglas Costa, Neymar e Gabriel Jesus. Com trocas de posição, tabelas e triangulações. O primeiro ensaio com Douglas, disponível depois de cortes por lesões, teve alguns bons momentos. Merece uma experiência mais à frente.

Assim como Diego Souza novamente correspondeu e fica como uma alternativa para quando faltar Jesus ou Roberto Firmino. Tem personalidade e rende na função de pivô, ainda que não jogue assim no Sport. Ainda marcou o quarto gol, de cabeça. Willian e Taison entraram e foram os protagonistas da jogada do terceiro gol, marcado pelo ponteiro do Shakhtar Donetsk.

Com auxílio luxuoso de Paulinho, titular nas duas partidas por sua consistência. Em técnica e fisicamente. Com leitura de jogo para ser volante e meia. Meio-campista. Aposta de Tite que pode seguir como titular até mesmo nesta variação mais ofensiva no futuro. Hoje está à frente de Renato Augusto.

Apesar da vibração do treinador nos gols, os 4 a 0 têm o mesmo peso da derrota para a Argentina. Nenhum. Importante foi fazer observações e notar que o modelo de jogo está bem assimilado, mantendo a competitividade mesmo com tantas alterações. O trabalho caminha bem. Basta seguir como está: atento e inquieto.


Nova Argentina de Sampaoli, um ótimo teste. Resultado é o que menos importa
Comentários Comente

André Rocha

Tite tinha dois problemas para o clássico sul-americano em Melbourne: a formação sem muito entrosamento em função da busca por novos testes e observações. Principalmente, a falta de parâmetros consistentes de observação para imaginar como viria a Argentina, agora comandada por Jorge Sampaoli.

E a albiceleste chegou bem diferente. Não só no sistema tático – um 3-4-3 com Di María bem espetado à esquerda e Messi e Dybala mais próximos de Higuaín – mas também na dinâmica, nos comportamentos, nas ideias de jogo.

O resultado foi uma disputa com altíssima intensidade: pressão sobre quem estava com a bola e muitos deslocamentos. Menos Messi, mantendo seu estilo de trotar em campo e só acelerar com a bola ou na possibilidade de recebê-la. Prejudica coletivamente, mas tem a peça capaz de desequilibrar.

O 3-4-3 de Sampaoli com intensidade e velocidade pela esquerda com Di María, mas ainda precisando aproveitar o melhor de Messi e Dybala e ajustar o posicionamento defensivo. Brasil com muitas mudanças, mas mantendo o 4-1-4-1 que se manteve competitivo, apesar do desempenho abaixo da média de Philippe Coutinho no primeiro tempo aberto à direita (Tactical Pad).

Até as muitas substituições – necessárias para fazer experiências, mas que descaracterizam o jogo em si – a partida foi equilibrada. A Argentina tinha Di María levando vantagem seguidamente sobre Fagner, que destoou e ainda tentou cavar pênalti de forma grotesca. O Brasil sempre rendia mais ofensivamente quando acelerava o passe e aproveitava um “ponto cego” das equipes de Sampaoli: os espaços entre os zagueiros abertos e os alas.

Philippe Coutinho teve duas boas oportunidades, mas novamente não se sentiu confortável pelo lado direito na execução do 4-1-4-1. Por isso a inversão com Willian na segunda etapa. Tite manteve a ideia de manter Renato Augusto mais recuado, defendendo e organizando, e Paulinho chegando mais à frente. A melhor chance, porém, foi no passe longo de Fernandinho e os chutes nas traves de Gabriel Jesus e Willian.

O amistoso foi decidido na bola parada, com Mercado. Mais uma arma dessa Argentina de Sampaoli que tende a crescer. Basta encaixar melhor Messi e Dybala na proposta de jogo. Questão de tempo.

Tempo também ótimo para Tite. Sem foco em resultados, até porque em um passado recente alimentou-se uma ilusão pelas vitórias em partidas sem valer três pontos. Importante foi observar a seleção se mantendo competitiva em alto nível, mesmo sem toda a defesa titular, Casemiro e Neymar. Thiago Silva teve boa atuação e Gabriel Jesus, mesmo apanhando bastante, retornou mantendo o nível de desempenho.

A perda da invencibilidade e dos 100% de aproveitamento é uma questão menor. O teste foi ótimo! Que contra a Austrália o treinador fique mais à vontade, sem a rivalidade continental para exigir um cuidado mínimo. Se a Argentina não tem margem de erro, o Brasil construiu um cenário para já pensar na Rússia.