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Pedro salva o Fluminense e uma tradição carioca no Brasileiro
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André Rocha

Foto: Lucas Merçon/FFC

No clássico em São Januário, o Vasco pecou por não aproveitar uma atuação que chegou a ser constrangedora tecnicamente do Fluminense no segundo tempo da estreia sob o comando de Marcelo Oliveira. Principalmente depois do gol de Andrés Rios que parecia encaminhar a vitória cruzmaltina.

Mas a defesa vacilou nos minutos finais. Logo contra Pedro. Primeiro um golpe de cabeça que Martín Silva salvou e, no rebote, Pablo Dyego chutou na trave com o goleiro uruguaio caído. Mas logo depois Breno permitiu que o centroavante limpasse e tocasse na saída de Martín. Empate por 1 a 1.

De novo o camisa nove salvando um Fluminense que perdeu Abel Braga e muito de sua identidade. Como time e clube. Sem investimento e agora sem uma figura que o simbolize. Resta Pedro, produto do trabalho nas divisões de base.

O atacante de 21 anos não é apenas um jogador para atuar como referência apostando na estatura (1,85 m) e na presença física para definir no toque final. Sabe sair da área, abrir espaços, fazer pivô e trabalhar coletivamente. Inclusive com boa visão de jogo.

E o principal: decide. Em termos de precisão, é, com alguma folga, o melhor finalizador do futebol carioca. Muito se debateu sobre as funções táticas de um nove moderno durante a Copa do Mundo. Mas é preciso contextualizar: Giroud tinha Mbappé e Griezmann como protagonistas, Gabriel Jesus se sacrificava por Neymar e Philippe Coutinho. Se não há um jogador mais qualificado para colocar a bola nas redes, o centroavante tem que aparecer.

Pedro não se esconde. Já tem sete gols no Brasileiro, mesmo número que o consagrou como artilheiro do Campeonato Carioca em 13 jogos. Com mais um na Sul-Americana, totaliza 15 na temporada. Está empatado com Willian, do Palmeiras e atrás de Roger Guedes, com nove. Mas o Palmeiras negociou o atacante que estava no Atlético Mineiro com o Shandong Luneng, da China. A disputa fica ainda mais aberta.

Se Pedro mantiver o desempenho e a eficiência, é possível que o futebol carioca preserve sua tradição de contar com o goleador máximo na principal competição nacional. Como Henrique Dourado no próprio tricolor no ano passado, dividindo a artilharia com Jô, do Corinthians, com 18 gols.

Na lista de principais artilheiros da história do Brasileiro, os seis primeiros fizeram história única ou especialmente no Rio de Janeiro: Roberto Dinamite, Romário, Edmundo, Fred, Zico e Túlio Maravilha. Na era dos pontos corridos, a liderança é de Fred, que marcou 103 de seus 139 gols pelo Flu. Com a unificação das edições desde 1959, o Rio de Janeiro teve por 23 anos um representante na liderança absoluta ou dividindo o topo da lista de goleadores. Um a mais que São Paulo.

Sem nenhuma comparação técnica entre os artilheiros, Pedro pode repetir o feito. Caso fique por aqui até o fim do ano. Mas o jovem centroavante também precisa da ajuda do próprio time, que está apenas dois pontos acima da zona de rebaixamento. Não dá para salvar sempre.

 


São Paulo vence Flamengo pela melhor reposição das perdas
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André Rocha

A parada para a Copa do Mundo foi importante para recuperação física e um período mais longo de treinamentos. Mas era natural que na volta os times, mesmo descansados, sentissem a falta de ritmo de competição e a baixa intensidade.

A vantagem do São Paulo foi manter a base da boa campanha nas 12 primeiras rodadas e adicionar o equatoriano Joao Rojas, que teve ótima atuação na estreia. Fez todo o corredor pela direita, repondo as saídas de Marcos Guilherme e Valdívia, auxiliando Éder Militão sem a bola e no ataque dando trabalho a Renê, que não teve o devido auxílio de Marlos Moreno.

O colombiano foi a reposição possível no elenco disponível para a saída de Vinícius Júnior para o Real Madrid. Mas foi um elo fraco, caindo demais e não dando sequência às jogadas. Só apareceu em uma boa descida pela esquerda no segundo tempo, servindo Diego, que chutou e Guerrero completou de cabeça para fora.

O peruano entrou na vaga de Henrique Dourado, suspenso. Tecnicamente, um “upgrade” considerável. Mas estava claramente fora de sintonia em relação aos companheiros e ao modelo de jogo de Maurício Barbieri. Errou lances bobos e repetiu um problema que prejudicou o Fla tantas vezes e também o Peru na Copa do Mundo: precisa de muitas finalizações para ir às redes. Desta vez foram seis, duas no alvo. Nenhum gol. Um problema quando o time não tem outros bons finalizadores.

Para complicar, a ausência de Cuéllar, também suspenso. Com Jonas negociado, sobrou para Rômulo. O volante contratado como solução em 2017, mas que nunca rendeu o esperado, até que não jogou mal. Mas sozinho na proteção com o avanço de Lucas Paquetá na execução do 4-1-4-1 e com a falta da intensidade na pressão logo após a perda da bola que foi uma das armas do Fla nas vitórias que levaram o time à liderança do Brasileiro acabou penando.

Até dar lugar a Trauco. Com Matheus Sávio de volta ao time no lugar de Everton Ribeiro e a estreia do colombiano Fernando Uribe na vaga de Marlos, o Fla partiu para o ataque em um 4-4-2 engessado, abusando dos cruzamentos (42 no total). Podia ter empatado com Uribe em duas chances claras. Perdeu a primeira, livre, em um rebote de Sidão, e na segunda nitidamente “pipocou”: mesmo com liberdade para avançar e chutar, preferiu esperar Guerrero para transferir a responsabilidade.

Melhor para um São Paulo aguerrido, como exige o treinador Diego Aguirre. Com Anderson Martins absoluto na zaga e Liziero entrando bem no lugar do lesionado Jucilei, tornando o meio-campo mais dinâmico. Outra reposição para melhor no tricolor paulista. Nenê e Diego Souza contribuíram com luta e experiência para administrar a vantagem.

O destaque, porém, foi mesmo Rojas, que deu encaixe ao 4-2-3-1 de Aguirre e também a assistência para o gol de Everton. Valeu de novo a “lei do ex”. Um prêmio a quem se dedicou voltando com Rodinei na recomposição e acelerando os contragolpes. Ainda respeitou a massa rubro-negra no Maracanã cheio não comemorando o gol único da partida.

Mas decidiu. Na melhor das duas finalizações no alvo do São Paulo, no total de 14. O Fla concluiu 24, nove na direção da meta de Sidão. Terminou com 58% de posse de bola. Mais inteiro que um adversário extenuado e que perdeu força na transição ofensiva com Araruna, expulso nos acréscimos, e Tréllez na vaga de Everton.

De qualquer forma, não faltou apenas o gol ao ainda líder. O Fla precisa de qualidade no banco e contundência na frente, por isso está no mercado. O São Paulo parece mais pronto para a retomada do campeonato. Com apenas a Sul-Americana em paralelo, é time pra brigar pelo topo da tabela.

(Estatísticas: Footstats)


Carta a Paulo Cézar Lima: já pensou se houvesse um Caju para lhe avaliar?
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André Rocha

Foto: Arquivo/CBF

Sr. Paulo Cézar Lima,

O senhor certamente não me conhece. E uso da extrema formalidade na abertura da carta, sem usar o “Caju” que era apelido por conta de uma tintura de cabelo e foi anexado ao seu nome, porque sei que não gosta muito de jornalista. Como nunca chutei uma bola profissionalmente, o cuidado precisa ser maior ainda para lidar com o senhor.

Por isto relutei tanto em publicar este texto, que vem sendo guardado e atualizado há algum tempo. Já que acredita que só ex-profissionais da bola podem falar de futebol, que valor teria algo meu direcionado ao senhor? Resta a mim então pedir humildemente que reflita sobre o que alguém que lhe lê e ouve há muito tempo tem a dar de retorno sobre suas palavras e posicionamentos.

Acompanhei suas críticas à seleção de Tite em “O Globo”. Muitas pertinentes, obviamente. Até porque nenhum trabalho é perfeito, nem mesmo os mais vencedores e consagrados. Lembra que em 1970 o goleiro Félix falhou no gol do Uruguai e a firula de Clodoaldo terminou no empate italiano no final do primeiro tempo da decisão no Estádio Azteca?

Pois é justamente o que incomoda há tempos este que escreve. O senhor só critica, aponta defeitos. Sistematicamente. De forma impiedosa até. Desde Lazaroni em 1990, quando me lembro de começar a acompanhar a sua visão sobre o futebol brasileiro, até agora. Lá atrás cheguei a concordar muitas vezes com suas teses de resgate da essência do nosso jogo e do pecado em copiar os europeus.

Meu avô dizia que o senhor era uma craque de bola. Confesso que me decepcionei um pouco com seu desempenho na única partida que lhe vi em ação ao vivo: o Mundial Interclubes de 1983 pelo Grêmio contra o Hamburgo em Tóquio. O Mário Sérgio teve que jogar por ele e pelo senhor. Mas tudo bem, foi apenas uma partida, teve a questão do entrosamento e era reta final da carreira, com 34 anos. Eu só tinha dez.

Só que veio a internet. Com ela a banda larga e a possibilidade de hospedar e, consequentemente, assistir a vídeos mais longos. Jogos na íntegra foram disponibilizados. Todos da Copa do Mundo de 1974. Com 25 anos, era para ter sido o seu Mundial. Sem Gerson e com Rivelino na sua real posição desta vez não teria concorrência. E Zagallo lhe deu ainda mais liberdade, já que era Dirceu quem fazia o “falso ponta” pela esquerda e o senhor podia jogar mais livre como o antigo “ponta de lança”, se aproximando de Jairzinho, que jogou como centroavante e  Valdomiro do Internacional fazia a ponta direita.

Uma enorme decepção o futebol do que o senhor chama de “bons tempos”, “Era de ouro”. O mito não caiu, desabou. Entendo quando diz que o rendimento da seleção foi prejudicado pelo racha entre cariocas e paulistas, mas isto sempre aconteceu. E convenhamos que Zagallo sempre deu preferência aos cariocas. Tanto que mesmo com desempenho pífio da maioria em praticamente toda a campanha, Ademir da Guia só foi ter oportunidade na decisão do terceiro lugar, contra a Polônia. Também foi mal.

Por mais boa vontade que tivesse vendo os jogos foi impossível não me desapontar com seu rendimento. Nenhum gol, algumas jogadas individuais esporádicas. Quando o Brasil mais precisou do seu futebol ele não apareceu. Era aquele o estilo que o senhor exalta até hoje? Duas atuações enfadonhas contra Iugoslávia e Escócia – confesso que algumas vezes utilizei essas partidas para vencer a insônia – e o sufoco contra o Zaire para se classificar. Vitórias apertadas, mas até animadoras contra Alemanha Oriental e Argentina.

Para fechar com aquela vergonha contra a Holanda. A seleção tricampeã tentou intimidar os adversários com uma pancadaria lamentável. Liderados pelo esquentado Cruyff, os holandeses revidaram e o que vimos foi uma das páginas mais tristes da história das Copas. No segundo tempo, com os ânimos mais calmos e os europeus, com toda razão, respeitando menos a nossa tradição, a “Laranja Mecânica” passeou e fez 2 a 0 com tranquilidade para garantir vaga na grande decisão contra a anfitriã Alemanha.

A minha questão que propõe uma reflexão é simples: já pensou se houvesse um Caju naquela época avaliando o futebol da seleção e, particularmente, o seu? Consegue se imaginar sendo submetido à sua régua de exigência com todos que passaram pela seleção nos últimos anos?

Sim, o senhor foi vítima de racismo em um Brasil regido pela ditadura e com seu conservadorismo habitual. Naqueles tempos um negro bem sucedido incomodava muita gente mais do que hoje. E concordo que hoje a grande maioria dos jogadores de futebol é alienada. Também há muito a lamentar e protestar por não ter sido chamado por Cláudio Coutinho em 1978 – e desconfio que sua bronca com quem “nunca chutou uma bola” venha daí.

Mas nem tudo foi preconceito. O campeonato carioca de 1971 ficou marcado pelo gol polêmico de Lula, que deu o título ao Fluminense, depois do goleiro Ubirajara trombar com Marco Antônio. Mas também pela sua soberba de fazer embaixadas na frente dos rivais e, a partir daí, o Botafogo perder um campeonato ganho, no qual o senhor era o grande destaque e também artilheiro, com 11 gols. Imagine isto hoje, ainda que os estaduais tenham perdido seu valor ao longo dos anos. Tente vislumbrar o que um Paulo Cézar Lima diria do seu comportamento?

Aproveito para dizer que hoje o senhor se equivoca ao afirmar que atuar na Europa engessa o jogador brasileiro. Até foi assim há algum tempo. Mas agora treinadores como Pep Guardiola, Jurgen Klopp e até José Mourinho quando contratam brasileiros querem deles justamente o que o senhor tanto lamenta a ausência: o drible. Ele acontece, mas na zona do campo onde é mais produtivo: da intermediária para dentro da área do oponente. Neymar, Coutinho, Douglas Costa, Willian, David Neres, Malcom…O Real Madrid acabou de contratar dois muito promissores: Vinicius Júnior e Rodrygo. Não é o problema.

Nosso gargalo é outro, está no meio-campo. Aí, sim, o senhor tem razão. Mas Arthur está chegando ao Barcelona para começar a resolver este problema. E posso garantir: nas divisões de base tem gente trabalhando para formar jogadores mais qualificados para pensar e ditar o ritmo, de área a área.

Sim, muitos profissionais que não jogaram bola. Mas estudaram para a tarefa. Buscaram conhecimento através da literatura de Portugal e de outros países. Sabe a razão? Porque pessoas como o senhor e Vanderlei Luxemburgo, um dos que mais criticam a parte teórica vinda de Portugal e defende que o brasileiro nada tem a aprender com os lusitanos, nunca se preocuparam em deixar algo registrado sobre a nossa escola e o nosso jeito de jogar. Como os jovens treinadores vão trabalhar sem uma referência?

Aliás, o senhor também nunca treinou um time, mais de três décadas depois de se aposentar. Seria interessante ver uma equipe praticar sua visão de futebol na atualidade. Porque o jogo mudou, sim. Como tudo no mundo. Evolui e fica mais complexo. Gostar ou não vai de cada um. Lembra da dificuldade de jogar naquela partida decisiva em Dortmund quando a Holanda adiantava as linhas e marcava por pressão? Pois é o que acontece hoje, com muito mais velocidade e intensidade. Será que aquele jogo lento de outrora conseguiria se impor hoje?

Questões que ouso deixar para o senhor refletir, evitando me alongar ainda mais. Eu até lhe entendo. A crítica pela crítica é sedutora. Na Copa são 32 seleções, em 2026 serão 48! Sete jogos, quatro deles eliminatórios. A chance de ser eliminado é estatisticamente bem maior que a de sair campeão. Então basta dar pancada a torto e a direito e no final, se o título não vier, dizer que avisou. Se for campeão, basta falar que não encanta.

A crítica quando construtiva é, sim, saudável. Mas é bom lembrar que a credibilidade de quem critica sempre é a mesma de quem elogia o tempo todo. E o acerto perde muito do mérito. Afinal, até um relógio antigo quebrado, com os ponteiros parados, acerta a hora duas vezes em um dia.

Me despeço pedindo perdão pelo longo relato. Mas havia muita coisa a dizer depois de tanto tempo. Torço para que não me interprete mal. Repare que não usei do jogo sujo de citar detalhes sofridos de sua vida pessoal já relatados corajosamente pelo senhor para desmerecê-lo profissionalmente. Muito menos criticar seu estilo ousado e extravagante de viver e se vestir nos tempos de jogador, como hoje fazem com Neymar. Não é este o meu perfil.

O intuito da carta é apenas fazer pensar. Como se fosse um espelho. Mesmo que partindo de um homem de 45 anos direcionada a alguém que tem idade para ser seu pai. A torcida é que sirva para algo útil, caso chegue ao senhor.

Saudações!


Croácia é um belo “case de caos”. Mas não deve ser exemplo mesmo que vença
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André Rocha

Foto: Yuri Cortez/AFP

O último título mundial do Brasil em 2002 foi um curioso caso, talvez único, no qual a conquista ficou parecendo a consolidação de um trabalho que vinha do título em 1994, passando pelo vice quatro anos depois. Mas a trajetória de fato foi caótica: Vanderlei Luxemburgo, Candinho e Emerson Leão até chegar a Luiz Felipe Scolari.

Sofrimento nas Eliminatórias, vergonha na Copa América contra Honduras. Tudo deu certo mesmo apenas na Ásia – com seus percalços, como a estreia contra a Turquia vencida no pênalti “mandrake” sobre Luisão e nas oitavas, quando a arbitragem também interferiu no triunfo sobre a Bélgica.

Curiosamente, depois do título veio um período de esperança e prosperidade. Amadurecimento de Kaká e Adriano Imperador, surgimento de Robinho e Diego no Santos campeão brasileiro ainda naquele ano. Com Parreira no comando, títulos da Copa América, Copa das Confederações e liderança nas Eliminatórias. A queda pós ascensão veio logo no Mundial na Alemanha.

Depois o Brasil não mais se impôs. Com ciclo completo de Dunga em 2010, os nas mudanças de Mano Menezes para Felipão em 2014 e agora saindo de Dunga para Tite. Pelas mais variadas circunstâncias, inclusive a aleatoriedade em jogos eliminatórios.

A classificação da Croácia para a final contra a França despertou aqui e ali uma tese bastante presente em nosso país: planejamento e organização não garantem sucesso, que se resume ao título. Ainda mais em tempos de Flamengo e Palmeiras equacionando dívidas e sem conseguir alcançar os troféus desejados justamente no momento em que os investimentos aumentaram.

Devia ser óbvio defender uma linha de trabalho com ideias claras e objetivos bem definidos. Que no futebol não pode ser atrelada tão diretamente a algo sem controle como o resultado final. Muito menos em uma Copa do Mundo. Torneio que conta com sorteio e chaveamentos. No qual a ordem de adversários e as circunstâncias são totalmente aleatórias. Premia o melhor daquele mês, não necessariamente o do ciclo inteiro.

O trabalho sério é para garantir a competitividade. Sair de um papel de coadjuvante, desclassificado na primeira fase, para brigar no topo ou no mais próximo disto. Assim foi com Espanha, França, Alemanha e Bélgica. Assim pensa o Brasil ao vislumbrar mais quatro anos com Tite.

Porque a Croácia pode até ser campeã mundial. Mas correu sérios riscos de ficar de fora da Copa. Quando contratou Zlatko Dalic às pressas depois de demitir Ante Cacic precisava vencer a Ucrânia fora de casa para ir à repescagem, já que a Islândia garantira o primeiro lugar do grupo na eliminatória. Conseguiu um 2 a 0. A ventura no sorteio com a Grécia. O resto é história.

Que podia nem ter chegado a Rússia. Como aconteceu com Itália e Holanda. Uma renegou a formação de talentos, a outra encontra-se presa numa escola de futebol que tanto ofereceu ao mundo, mas parou no tempo. Risco que o Brasil correu com Dunga. Agora é fácil dizer que independentemente do treinador o país sempre vai à Copa. Era sexto colocado, atrás do Chile, bicampeão da Copa América que não se repaginou após a saída de Jorge Sampaoli e o espasmo com Pizzi na conquista do torneio Centenário nos Estados Unidos e ficou fora.

A Croácia é um “case de caos” para virar filme. Admirar a força mental dos jogadores, invejar a presença de meio-campistas talentosos como Modric e Rakitic e reconhecer a capacidade de mobilização e trabalhar no improviso de Dalic, que chega a seu 14º jogo no comando da seleção em uma final. Mas não pode servir de exemplo.

Melhor a França, que manteve o contestado Didier Deschamps depois do decepcionante revés em casa na final da Eurocopa contra Portugal e, sem tantos tempos extras e sofrimento, também está na decisão de domingo. Com favoritismo pelo menor desgaste e por contar com um trabalho mais consolidado.

Carrega, porém, o peso da responsabilidade de vencer. Exatamente o que sangra tantas equipes. Os croatas não têm absolutamente nada a perder. A campanha já é histórica, superando a geração de 1998. O cansaço já é um álibi até em caso de derrota por goleada. Se num último esforço conseguirem a vitória serão heróis eternos de um país.

Posição cômoda na Copa do Mundo da força mental. Mas até chegar lá esbarrou em muitas variáveis que podiam fazer tudo dar errado. Sem contar que é uma geração que não deve deixar legado para 2022. Porque há talento, sorte e muita fibra. Mas pouco trabalho e estrutura pensando a longo prazo. É a exceção à regra, como o Brasil da “Família Scolari” há 16 anos. Não pode ser referência para ninguém.


O abismo de centímetros entre Romário e Neymar
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André Rocha

17 de julho de 1994. Rose Bowl, Pasadena, Estados Unidos. Brasil e Itália decidem a Copa do Mundo. Disputam o tetracampeonato, repetindo a final de 1970. Um tira-teima depois da vitória da Azzurra sobre a seleção de Telê Santana em 1982. Disputa direta entre Romário e Roberto Baggio pelo prêmio de melhor jogador da Copa e, consequentemente, do mundo naquele ano.

Arrigo Sacchi voltava a contar com Franco Baresi na defesa depois de uma milagrosa recuperação de uma lesão séria no joelho. Um extraordinário defensor, mas não deixava de ser incógnita quanto à sua condição física e ao ritmo de jogo para uma final de Copa. Ainda mais no calor sufocante de verão americano naquela tarde de domingo.

Era a chance de Romário brilhar, já que Roberto Baggio também sofria com desgaste físico, inclusive atuando com uma proteção na perna direita. Mas o Baixinho não repetiu o bom desempenho de toda a campanha brasileira. Cinco gols e uma assistência para Bebeto marcar o gol salvador contra os Estados Unidos em 4 de julho.

Baresi controlou bem as arrancadas de Romário ao longo dos 90 minutos. Na prorrogação, com Viola e mais fôlego, os espaços apareceram. Surgiu a chance de se consagrar completando passe de Cafu. Mas o camisa onze perdeu na pequena área. Uma chance que não costumava desperdiçar. Decisão por pênaltis, a primeira da história das Copas. Com personalidade, pediu ao treinador Carlos Alberto Parreira para cobrar. Não bateu bem, mas deu sorte de Pagliuca saltar para o outro canto e a bola tocar na trave direita e cair dentro do gol. A última cobrança, de Baggio, entrou para a história e o Brasil comemorou o tetracampeonato.

Foi a consagração de Romário. Prometeu classificar o Brasil e fez dois gols no Uruguai na última partida das Eliminatórias. Garantiu a conquista do tetra e não decepcionou. Todos os méritos para ele.

Mas imaginemos que aquele chute, por um detalhe do futebol e da vida, tocasse na trave e fosse para fora. Pênalti perdido pelo melhor do time. Poderia abalar a seleção pressionada por críticas e 24 anos sem títulos. A Itália poderia ter se aproveitado e virado a história do avesso.

Centímetros que salvaram um Romário sempre polêmico. Criticado em 1990 por não ter cuidado bem de uma fratura na perna jogando pelo PSV. Disputou pelada com gesso, tratou com a sua rezadeira Dona Nazaré da Vila da Penha. Foi para o Mundial na Itália, mas não rendeu o esperado. Disputou apenas o jogo contra a Escócia. Já tinha perdido a vaga de titular no ano anterior para Careca por ter sido expulso contra o Chile em Santiago pela Eliminatória,  complicando a equipe de Sebastião Lazaroni que precisou vencer no Maracanã na famosa partida da farsa do goleiro Rojas e da “fogueteira”.

Romário que teve seus privilégios nos Estados Unidos. Não só a liberação de treinos físicos e outras atividades que entendiavam o Baixinho. Jornais da época publicaram fotos de uma “namorada” que o atacante teria levado para a concentração da seleção, mesmo em dias que não eram de folga. Segundo as fontes, Parreira e Zagallo sabiam, o capitão Dunga também. Tudo foi abafado para não perturbar a estrela máxima da seleção.

Não é difícil prever o que aconteceria caso o Brasil não fosse campeão do mundo. Na caça às bruxas de sempre, o maior alvo seria o centro das atenções. Alguma dúvida de que tudo que hoje é tratado como “folclórico” seria motivo para demonização, mesmo sendo decisivo nas partidas anteriores?

É bom lembrar que a capacidade e a personalidade de Ronaldo Fenômeno também foi questionada pela convulsão e atuação apática na final da Copa de 1998 até escrever uma das maiores histórias de redenção do esporte com o título e a artilharia em 2002. Até de “amarelão” foi chamado, em colunas e mesas redondas. Sem contar as vaias em 1997 e 1998 quando não rendia.

Ronaldinho virou vilão em 2006. Rivaldo foi perseguido em 1996 pelo desempenho pífio na seleção olímpica. Kaká já foi alvo de pipocas no São Paulo e também criticado pelo desempenho com a camisa verde e amarela em 2006. Todos Bolas de Ouro, como Romário. Até Pelé, que teria um busto em cada esquina em qualquer país do mundo que ama futebol, é criticado e ironizado no Brasil.

Todos tinham um outro craque para dividir um pouco os holofotes. Pelé teve Garrincha, Romário teve Bebeto, depois Ronaldo. Fenômeno que teve Rivaldo, mais tarde Ronaldinho Gaúcho que chegou a dividir o bastão com Kaká.

E chegamos a Neymar. Estrela única do futebol brasileiro atual. A referência na bola e na mídia. Com idiossincrasias e privilégios, como quase todo destaque. Como Messi na Argentina e no Barcelona, Cristiano Ronaldo em Portugal e no Real Madrid. Como Romário por onde passou.

Criticado no inicio da Copa por individualismo, simulações, irritação. A partir do jogo contra a Sérvia, até por estar pendurado com um cartão amarelo, focou no futebol e foi importante para a classificação brasileira. Diante do México, a melhor atuação com gol e o chute que Ochoa deu rebote e Firmino completou. Pisado por Layun, pode ter exagerado na reclamação, mas não a ponto de transformar o agressor em vítima como Juan Carlos Osorio tentou fazer parecer.

Com o camisa dez brasileiro mais concentrado e rendendo, as críticas ficaram mais discretas. Ou veladas. Afinal, a cobrança era para que ele jogasse futebol e esquecesse as polêmicas, os enroscos. Foi o que fez. Mas quem persegue fica à espreita esperando o momento do bote. Ele veio.

Contra a Bélgica, atuação irregular como todo time. Mal no primeiro tempo pela desvantagem de 2 a 0. Mesmo com 26 anos, não tem o perfil de liderança de pegar a bola e conduzir a equipe. Nem Romário tinha. Em 1994, esta era a função de Dunga.

Melhorou na etapa final como toda a equipe. No ataque derradeiro, o belo chute que parou na defesa ainda mais espetacular do goleiro Courtois. Tocou na bola o suficiente para desviá-la e impedir o empate. Centímetros. De braço. De história.

Imaginemos Neymar empatando o jogo no final. Deixando o Brasil com vantagem física e emocional para a prorrogação. Com chances de marcar pelo menos mais um que garantisse a vaga nas semifinais. Alguém imagina como seria o discurso? No mínimo, exaltando a personalidade no momento decisivo.

Certamente lembrariam do desempenho fantástico nas disputas de mata-mata do título do Barcelona na Liga dos Campeões 2014/15. Superior a Messi, inclusive. Artilheiro junto com os dois gênios da geração. Gol em final. Ou a conquista da Libertadores de 2011 também marcando na decisão contra o Peñarol. Ou quando assumiu a responsabilidade e conduziu o Barcelona aos 6 a 1 sobre o PSG em 2017, arbitragem à parte. Feitos que Romário, por exemplo, não ostenta em seu currículo. Na única final europeia, derrota do seu Barcelona por 4 a 0 para o Milan.

De certa forma, Neymar também ajudou a colocar o Brasil na Copa. Ausente de boa parte dos jogos da Era Dunga nas Eliminatórias, assumiu a responsabilidade no início do trabalho de Tite. Quando os resultados eram fundamentais para tirar da incômoda sexta posição, fez um gol de pênalti, deu assistência no terceiro e participou da jogada do segundo, ambos de Gabriel Jesus nos 3 a 0 sobre o Equador em Quito. Nos 2 a 1 sobre a Colômbia, cobrou escanteio na cabeça de Miranda e marcou o gol da vitória. Terminou com seis gols, um a menos que Gabriel Jesus. Hoje parece quase nada, mas teve seu peso naquele momento de dificuldade.

Não aconteceu para Neymar na Rússia. E veio a onda de dedos apontados. Piadas e memes. De todo o planeta. Reduzindo Neymar a um pseudocraque que rola pelos gramados. Um mero produto da mídia mimado e que engana os incautos e pachecos. Marrento e antipático. Como se outros talentos não fossem. Como Romário.

Centímetros. Que salvaram Romário em 1994 na sua última Copa do Mundo. Em 1998, pelo temperamento complicado e por tudo que aprontou nos Estados Unidos e depois, não contou com a paciência de Zagallo para aguardar a recuperação de uma lesão na panturrilha. Em 2000, por conta de uma desavença com Vanderlei Luxemburgo no Flamengo em 1995, ficou de fora da Olimpíada. Dois anos depois, descartado por Luiz Felipe Scolari, viu o penta pela TV. Tudo porque era “difícil”. Também simulava faltas e pênaltis. Dobrava os joelhos e jogava o corpo para a frente. Mas aí entrava na cota da “malandragem”…

Como foi tetra virou mito. Com a fama de “jogar e decidir”, ainda que ostente poucos títulos para os 22 anos de carreira profissional. Merece o reconhecimento. Mas sabemos que um detalhe poderia ter jogado um dos maiores atacantes de todos os tempos no limbo da história.

Neymar corre este risco. Mesmo superando Romário na artilharia da seleção, agora com 57 gols – e homenageou o artilheiro aposentado na comemoração. Todos que não aceitam sua personalidade contraditória aproveitam o momento de baixa para a vingança. Ou apenas aproveitam para colocar em prática a crueldade de afirmar teses em cima da imagem dos outros.

Por centímetros do braço de Courtois. Com final diferente do efeito dos centímetros que levaram a bola da trave para dentro na cobrança de pênalti de Romário em 1994. Um chute não tão bom que entrou, outro perfeito interceptado na trajetória que parecia inevitável. Medida que cria um abismo entre dois dos maiores da história do futebol cinco vezes campeão do mundo.

No Brasil do pensamento binário, no qual quem não odeia é passador de pano, é bom deixar claro: este post não é uma crítica a Romário. Este que escreve viu ainda garoto, em 1984, marcando gols pelos então “juniores” (sub-20) do Vasco nas preliminares do Maracanã. E tantas vezes testemunhou no estádio o talento do gênio da grande área do século 20. Um ídolo.

Muito menos a intenção é blindar Neymar. Quem acompanha o blog sabe que este que escreve evita mencionar o nome do personagem que mais atrai cliques na internet. Oportunismo aqui passa longe. E para massacrar já há gente até demais. Mas não discordo de quem considera Neymar mal orientado e assessorado. Na bolha em que vive há quase uma década ele precisa de uma voz que o conecte à realidade para evitar certos desgastes desnecessários. Já passou da hora de amadurecer.

O texto e o “se” que o norteia propõem apenas uma reflexão sobre a nossa capacidade de idolatrar ou ridicularizar por um resultado. Definido por detalhe, pelo imponderável. Tão pouco. Centímetros.

 


Gol contra e “pane” de Fernandinho pesaram mais que a mudança de Martínez
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André Rocha

Tostão costuma dizer em suas colunas que o futebol muitas vezes é mais simples e tem seus desdobramentos movidos muito mais por aleatoriedades e acasos do que propriamente por algo planejado ou pela estratégia dos treinadores.

Este blogueiro já desconfiou mais desta tese, mas quanto mais vê o jogo acontecer mais passa a crer nesta visão de quem esteve lá dentro e tem inteligência e sensibilidade para perceber os detalhes que muitas vezes escapam aos nossos olhos.

Em todo mundo pululam análises da vitória da Bélgica sobre o Brasil que carregam como elemento central o fator surpresa da formação de Roberto Martínez num 4-3-3 com Lukaku pela direita, De Bruyne como “falso nove” e Hazard à esquerda. Um tridente ofensivo que não voltava na recomposição e ficava pronto para as saídas em velocidade. Sem dúvida algo incômodo e inesperado para Tite e seus comandados. Mas será que foi tão decisivo assim?

A dúvida ao rever a partida com mais serenidade e distanciamento nasce pelo fato de que até os 13 minutos de jogo em Kazan o que se via eram duas equipes tensas e ainda se adequando ao novo cenário. O Brasil saía do plano inicial, mas a Bélgica também tinha adaptações a fazer, como voltar a se defender com quatro homens atrás depois de vários jogos com linha de cinco. Mas principalmente se fechar apenas com sete jogadores e tendo Fellaini e Chadli como elementos novos e com funções diferentes das executadas na virada sobre o Japão.

O problema era o lado direito, com Meunier contando com o apoio de Fellaini e a cobertura de Alderweireld contra Marcelo, Philippe Coutinho e Neymar. Pouco. Por ali a seleção brasileira criou espaços e conseguiu o escanteio cobrado por Neymar aos oito minutos. Desvio de Miranda e Thiago Silva, meio no susto, acertando a trave direita de Courtois.

Até os 13, a Bélgica encontrou, sim, espaços às costas do meio-campo brasileiro que também tentava se ajeitar com a entrada de Fernandinho na vaga de Casemiro. Plantado à frente da defesa no 4-1-4-1 habitual de Tite. Desta maneira que saiu o escanteio. Passe do De Bruyne, chute de Fellaini.

Assim como ficou claro em outros momentos do jogo, Martínez trabalhou a cobrança na primeira trave. Sabia das fragilidades da retaguarda adversária na bola aérea. Mas Kompany não conseguiu desviar o centro de Chadli. O gol contra foi de Fernandinho.

Logo ele. Personagem central da sequência de gols alemães no 7 a 1 do Mineirão. Foi nítido o efeito devastador na força mental do volante. A concentração tão exigida por Tite havia caído por terra. Não só do jogador do Manchester City, mas da defesa que ficou desguarnecida. Que já tinha um ponto sensível com Fagner no mano a mano com Hazard. Neste cenário, a ausência de Casemiro se fez mais impactante. E a presença de Marcelo, retornando depois de duas partidas com Filipe Luís como titular, mais desnecessária pelos espaços que deixava às suas costas. O sistema de cobertura com Miranda saindo e o volante fechando a área se perdeu.

Abalado também por ficar em desvantagem pela primeira vez no torneio, o time verde e amarelo sofreu contragolpes seguidos, mas o do segundo gol, curiosamente, não teve Lukaku à direita e De Bruyne centralizado. O centroavante buscou a bola no centro e arrancou deixando Paulinho para trás. Sem confiança e força física para a disputa, Fernandinho ficou pelo caminho. Marcelo optou por fechar o “funil” e deixou todo o lado direito para Meunier e De Bruyne, que acertou um petardo na bochecha da rede.

O resto é história, inclusive a pressão brasileira que poderia ter resultado no empate ou até na virada. Com a Bélgica mantendo a estratégia e sofrendo demais para sustentar a vantagem. A equipe de Tite corrigiu o setor defensivo, Miranda ganhou todas de Lukaku e ofensivamente teve volume e espaços para criar e finalizar. Os europeus se reduziram à luta e às defesas de Courtois. A mais espetacular em chute com efeito de Neymar. Renato Augusto e Coutinho perderam chances com liberdade e de frente para o gol. Acabou sendo a diferença no placar das quartas de final.

Nada que tire os méritos da Bélgica semifinalista. Aproveitar as instabilidades do oponente também é virtude e decide jogos. Ainda mais os eliminatórios, tantas vezes definidos pelas individualidades e pelo componente emocional.

Por isso a dúvida que ficará para sempre. O que matou o Brasil: o gol contra de Fernandinho que tirou confiança do volante e escancarou a defesa ou a surpreendente mudança de Martínez? Pelo visto, a história das Copas do Mundo já escolheu a versão mais sedutora: o inesperado. Ou o “nó tático”.

Este que escreve, mesmo valorizando a tática e a estratégia, tende a seguir a lógica de Tostão desta vez, ainda que o campeão mundial em 1970 tenha colocado os dois fatores na balança em sua análise e dado ênfase à ausência de um talento como De Bruyne no meio-campo brasileiro, o que também é uma visão mais que respeitável.

É díficil, porém, não colocar a bola que bateu em Thiago Silva e não entrou e a que Fernandinho jogou contra a meta do companheiro Alisson como os verdadeiros momentos chaves de mais uma eliminação brasileira em Mundiais.

 


Tite merece as críticas justas e um ciclo completo até 2022
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André Rocha

Foto: Luis Acosta/AFP

Todo mundo já encontrou pela vida uma pessoa da qual se podia discordar e até se aborrecer com suas palavras e atos. Mas o respeito era obrigatório pela certeza de que, acertando ou errando, ela sabia o que estava fazendo.

Assim é Tite na seleção brasileira. Talvez o treinador mais preparado e bem informado a prestar serviços à camisa verde e amarela cinco vezes campeã do mundo. Também o mais atuante, criando uma rotina de observação e planejamento com sua comissão técnica nunca antes vista na CBF. Necessária pelo equilíbrio que o futebol no universo das seleções vem apresentando nesta Copa.

De 1970 para cá, o comando técnico sempre pareceu algo mais ligado à intuição, que também é importante. De Zagallo a Felipão e Parreira. Com ideias mais assentadas no futebol brasileiro, sem abrir muito os horizontes. Mas que atrelada ao conhecimento ficam bem mais sólidas. Inclusive para convencer os jogadores. As serpentes que precisam ser encantadas.

Como sempre acontece, Tite chamou atenção mais pela forma do que pelo conteúdo. A maneira quase messiânica de se comportar e comunicar foi vista por muitos como uma liderança que poderia até se arriscar na política. Foi bem aproveitada pela publicidade, inclusive. Para outros não passou de um discurso enfadonho, requentando estratégias de autoajuda, coaching e misturando com termos complexos.

De fato, em alguns momentos a linguagem poderia ter sido mais simples. Mas os jogadores, que, a rigor, são os que precisavam entender o que era dito por Tite sempre foram só elogios.

Escolhas são muito particulares. Sempre. Envolvem questões que vão muito além do desempenho puro e simples. Numa Copa do Mundo, fazer mudanças constantes pode gerar instabilidade na gestão do grupo. Desconfiança. A linha é muito tênue. Pegue qualquer documentário sobre um time campeão e sempre haverá aquele jogador contestado, mas que ganhou um voto de confiança e reescreveu sua história e a da equipe. Quando perde vira teimosia.

É óbvio que cada um pensa de um jeito. Este que escreve, para começar, não teria aceitado o convite e, consequentemente, a presença na coletiva de apresentação e muito menos o beijo de Marco Polo Del Nero em 2016. Sem escorregar na coerência.

Uma vez lá, teria convocado Arthur, do Grêmio. Potencialmente nosso melhor jogador em um setor crucial e carente no futebol brasileiro. Não teria mantido Fred no grupo com uma contusão grave e sem poder contribuir em campo. Talvez retornasse ao time da Eliminatória, com Renato Augusto no meio-campo dando maior suporte a Marcelo, Coutinho com liberdade de movimentação e o espaço para Gabriel Jesus se movimentar e Paulinho infiltrar. Uma voz mais firme com Neymar seria bem-vinda no processo.

Faltou um pouco de sorte também. Quando Tite sinalizou que faria a mudança que poderia ajustar a seleção, como Mazinho na vaga de Raí em 1994 e Kléberson no lugar de Juninho Paulista em 2002, Douglas Costa se lesionou e fez o técnico recuar e manter Willian.

Trocar Gabriel Jesus por Firmino pura e simplesmente nunca se mostrou uma opção tão segura. No segundo tempo da derrota para a Bélgica, o atacante do Liverpool também teve erros técnicos e chegou atrasado na hora de finalizar. A jogada desequilibrante foi de Jesus, pouco antes de ser substituído: caneta em Vertonghen e uma disputa com Kompany que a arbitragem poderia ter interpretado como pênalti.

Não era para ser. Mas pode ser melhor no Qatar. Desta vez com um ciclo completo de quatro anos. Mais habituado à tarefa de selecionar e com mais vivência, inclusive de Copa do Mundo. Mas principalmente porque Tite é disparado o melhor treinador brasileiro. Abaixo dele há uma grande névoa de profissionais ainda buscando afirmação. Sem a combinação de conteúdo e experiência, inclusive como jogador. Domina a prancheta e o vestiário. É atualizado e acompanha obsessivamente a bola jogada no país e no mundo. Não há “plano B”.

A crítica pela crítica é bem fácil. Em qualquer tempo, porque a chance de ser derrotado é sempre maior do que vencer. Então basta procurar defeitos até onde não existem, insistir para marcar território e no momento do revés capitalizar vendendo a imagem do isento em meio ao “oba oba”. No Brasil do pensamento binário, o que não for pancada é “passar pano”.

Difícil é ser justo no tom para discordar, mas reconhecendo o valor quando desmerecer é mais simples por conta de um resultado. A CBF tem a oportunidade de fazer a coisa certa e dar sequência ao trabalho. Com os devidos ajustes e a “casca” e o aprendizado de uma derrota doída. Ela deve isso a Tite, inclusive. Afinal, roubou dois anos de trabalho com a aventura de resgatar Dunga.

Tite é humano e carrega suas falhas e idiossincrasias. Pode e deve ser questionado. Mas lança um desafio que só acrescenta: para discordar é preciso conhecer. O simplismo de “falta um camisa dez”, “centroavante só é bom quando faz gol” e outros clichês não cabe mais. Que sejamos todos melhores no próximo ciclo até 2022.

 


A maior ameaça da Bélgica é não saber o que esperar dela
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André Rocha

Pegue tudo que a Bélgica fez até aqui na Copa do Mundo e descarte. Sim, jogue fora! Panamá, Tunísia, reservas contra a Inglaterra no jogo do “tanto faz” e Japão. Todos os gols, estatísticas, desempenhos…

Nada valem como parâmetro para avaliar suas possibilidades em duelo de quartas de final contra o Brasil. Jogo único, experiência inédita. A rigor, tudo que a seleção fez sob o comando de Roberto Martínez desde 2016 tem pouco ou nenhum peso para a grande partida da história desta talentosa geração até aqui.

Sim, maior que o confronto com a Argentina de Lionel Messi no Mané Garrincha em 2014, também pelas quartas. Primeiro porque a albiceleste não carregava o status de favorita ao título mundial que o Brasil ostenta na Rússia depois de quatro jogos e Alemanha, Espanha, Messi e Cristiano Ronaldo eliminados. Depois porque os belgas ganharam maturidade. Não só por aquela eliminação, com 11 convocados dos 14 que entraram em campo em Brasília há quatro anos, mas também pela decepção na Eurocopa contra País de Gales. Também nas quartas. Ainda sob o comando de Marc Wilmots.

O sucessor no comando técnico é espanhol. Fã de Johan Cruyff. Mas radicado na Inglaterra desde 1995, ainda como jogador. Valoriza a posse de bola, mas também adapta facilmente suas convicções a um jogo mais físico e direto.

Versatilidade também é a marca de muitos de seus jogadores. Vertonghen pode ser zagueiro ou lateral esquerda. No mesmo lado, Carrasco é ala, mas também pode ser meia ou ponteiro. Hazard sabe jogar aberto ou por dentro, como um atacante atrás do centroavante. De Bruyne tem atuado na seleção e no Manchester City como o meia mais próximo do volante à frente da defesa, porém sabe jogar adiantado, centralizado ou no flanco em uma linha de meias. Fellaini é meio-campista, mas pela estatura não é raro vê-lo na área fazendo dupla com Lukaku. Chadli, heroi contra o Japão, entrou na vaga de Carrasco na ala e também sabe fazer todo o corredor esquerdo.

É simplesmente impossível tentar vislumbrar o que a Bélgica fará em campo. Nas eliminatórias europeias sobrou contra adversários frágeis e os amistosos, mesmo contra seleções grandes como Espanha, Portugal e Inglaterra, não podem ser tratados como uma referência segura.

O 3-4-3 com proposta ofensiva pode ser mantido, sim. Arrojado, com muita pressão no campo de ataque e volume de jogo empurrando o Brasil para a defesa, mas também deixando espaços atrás e entre os setores. Há qualidade e coragem para tal ousadia. Com os alas Meunier e Carrasco bem abertos e preocupando os laterais Filipe Luís ou Marcelo e Fagner e os ponteiros Mertens e Hazard dois passos para dentro, perto de Lukaku e criando instabilidade na proteção da área brasileira que terá mudança: Fernandinho na vaga do suspenso Casemiro.

O 3-4-3 da Bélgica em sua versão mais agressiva, com alas Meunier e Carrasco abrindo o campo e os ponteiros Mertens e Hazard se aproximando de Lukaku, com o suporte do meia De Bruyne na articulação (Tactical Pad).

Mas Martínez também pode mudar tudo sem mexer na formação. Armando um 5-4-1 bastante cuidadoso guardando sua própria área. Em um jogo deste tamanho, que jogador se recusaria a uma função tática de maior sacrifício no trabalho defensivo e a humildade sem bola para buscar a vitória nos contragolpes? Basta reforçar a linha de cinco que já costuma ser formada com o recuo dos alas Meunier e Vertonghen alinhando De Bruyne a Witsel e os ponteiros Mertens e Hazard voltarem para esperar os laterais brasileiros. Compactação para evitar espaços entre os setores.

A linha de cinco na defesa belga quando os alas voltam como laterais e se juntam ao trio de defensores. Contra o Brasil, a missão é reduzir os espaços entre os setores, como os cedidos contra o Japão nas oitavas de final (Reprodução TV Globo).

Se quiser surpreender, novamente sem fazer alterações, o treinador espanhol ainda pode reagrupar o time em duas linhas de quatro: Vertonghen de lateral esquerdo, Carrasco adiantado como meia aberto, Mertens recuando à direita e Hazard mais solto para buscar espaços às costas dos volantes brasileiros mais próximo de Lukaku.

Uma possível surpresa de Martínez sem mexer na formação titular: duas linhas de quatro com Vertonghen na lateral, Carrasco adiantado como meia e Hazard no ataque com Lukaku (Tactical Pad).

Fellaini ou Dembele podem entrar para reforçar o meio-campo e dar liberdade a De Bruyne, Chadli ganhar a vaga de Carrasco para executar as mesmas funções pela esquerda. Martínez ainda conta com as opções de Januzaj, autor do golaço da vitória sobre a Inglaterra, Tielemans e Batshuayi.

Um vasto cardápio oferecido pelo grupo de jogadores mais homogêneo em termos de qualidade técnica deste Mundial. Mas uma incógnita também na força mental. Pode entrar na Arena Kazan sem nada a perder e arriscar tudo, com a confiança renovada depois de reverter uma desvantagem de dois gols contra o Japão em jogo eliminatório.  Para ultrapassar a barreira recente das quartas de final e repetir a geração semifinalista de 1986, só parando em uma tarde inspirada de Diego Maradona.

Mas também não é improvável temer a camisa cinco vezes campeã mundial e a equipe de Tite com sua solidez nos números e no desempenho. Ainda que todos se conheçam bem nos clubes – Fernandinho, Danilo e Gabriel Jesus jogam com Kompany e De Bruyne no Manchester City, Paulinho e Coutinho são companheiros de Vermaelen, Thiago Silva, Marquinhos e Neymar atuam ao lado de Meunier no PSG, Filipe Luís jogou com Carrasco no Atlético de Madri e Willian trabalha diariamente com Courtois e Hazard. O universo de seleções, porém, costuma carregar outra lógica e uma mística diferente.

Tudo isto torna a Bélgica um grande ponto de interrogação. A maior ameaça é justamente não saber o que esperar dela.


Gabriel Jesus é mais uma vítima do trauma de 1982: a crítica “preventiva”
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André Rocha

Carl Recine / Agência Reuters

Careca, Romário e Ronaldo. Grandes destaques individuais do Brasil nas Copas do Mundo de 1986 a 2002. Centroavantes, por coincidência. Canto do Cisne do Fenômeno e o início do ocaso de Adriano Imperador, em tese o sucessor, em 2006. Luís Fabiano em 2010 e Fred em 2014. Típicas referências na área. O jogador que fica no centro do ataque para finalizar.

Nos acostumamos com os fazedores de gols. Os mais talentosos não só por isto. Mas estão no imaginário popular. “O centroavante é o mais importante”, como diz a canção. Só que tudo muda. O futebol, o contexto, as necessidades.

Até Roberto Firmino calar boa parte da desconfiança habitual acerca de um jogador que faz sua carreira na Europa sem história em um grande clube brasileiro, Gabriel Jesus era quase unanimidade. Joia do Palmeiras contratada por Guardiola no Manchester City. Artilheiro da “Era Tite” ao lado de Neymar com dez gols, inclusive o da vitória sobre a Alemanha no amistoso em março tratado como decisão. Quando Diego Souza foi testado na função e Jô fazia seus gols pelo campeão brasileiro Corinthians, o questionado era Firmino.

Mas bastaram quatro jogos na Copa do Mundo sem gols e assistências, embora tenha tocado na bola antes de Philippe Coutinho colocar nas redes e aliviar a angústia contra a Costa Rica, para Jesus começar a ser criticado. Ou perseguido. Aos 21 anos, em sua primeira Copa do Mundo.

Até porque os alvos anteriores colocaram uma enorme pedra sobre as críticas. Thiago Silva, o “chorão”, com uma Copa perfeita até aqui, com exceção do erro de posicionamento no gol da Suíça na estreia. Inclusive e principalmente pela liderança com personalidade. E Neymar, o “mimado”,  optou por focar totalmente no futebol. Corte de cabelo discreto, sem reclamações e simulações. Muito pelo temor de levar o segundo cartão amarelo e ficar de fora de um jogo decisivo por suspensão. Dois gols e voltando a desequilibrar.

Então é Gabriel Jesus a bola da vez. Porque a seleção brasileira precisa ter um problema, uma deficiência para ser apontada. Uma espécie de defesa contra o “oba oba”. Ou o ufanismo associado a Galvão Bueno, a voz global que desde 1990 alimenta a empolgação em tempos de Copa do Mundo.

Mas o trauma vem de antes e é transferido de geração para geração. O registro histórico do Mundial na Espanha em 1982 é de uma torcida iludida, alimentada pela mídia na época. Inclusive radialistas cariocas estimulando o povo a organizar bolões em que as apostas focavam apenas no placar da vitória brasileira e quem faria os gols.

Como sempre, o mito é um pouco maior que os fatos. Havia críticas, sim. A Waldir Peres pela insegurança nas duas primeiras partidas, contra União Soviética e Escócia. A Serginho Chulapa, por marcar gol apenas contra a Nova Zelândia. Também a Telê Santana pela mudança de sistema, com Cerezo entrando na vaga de Paulo Isidoro  e abrindo um buraco pelo lado direito, sobrecarregando o lateral Leandro. Impossível esquecer de Zé da Galera, personagem de Jô Soares, bradando “Bota ponta, Telê!”

A euforia tomou conta mesmo depois dos 3 a 1 sobre a Argentina. Porque Waldir Peres fez grandes defesas, Serginho marcou o segundo gol de cabeça em uma jogada bem arquitetada pela direita, entre Zico e Falcão. Vitória sobre os então campeões do mundo com o reforço do jovem gênio Diego Maradona.

Veio a derrota para a Itália e duas figuras acabaram capitalizando com aquela decepção: João Saldanha e Zezé Moreira. O jornalista por apontar defeitos brasileiros em seus comentários no rádio e nas colunas em jornais e o treinador por elogiar a Itália como observador de Telê e ser até ironizado. Nada intencional, apenas opiniões embasadas em meio a um carnaval fora de época.

Junte a isso o “Maracanazo” em 1950 com a foto dos jogadores brasileiros na capa do jornal “O Mundo” na manhã da final contra o Uruguai já sagrando os campeões mundiais e pronto! Nascia ali um temor de elogiar a seleção e tratá-la como favorita. Favoritismo que não significa título conquistado.

O resultado é que há muita gente querendo ser João Saldanha ou radicalizar sendo uma espécie de “Profeta do Apocalipse”. Missão fácil e sedutora. Afinal, a chance de acerto é enorme – antes eram 31. Agora são sete contra uma (7 a 1!). Basta o Brasil perder para dizer “Eu avisei!”

Bem mais cômodo do que ter a opinião associada a Galvão Bueno, acusado de manipular o povo através do simplismo resultadista de elogiar sem limites na vitória e vilanizar e demonizar nos reveses. Ou, nas palavras do narrador, “vender emoções”.

Gabriel Jesus está no olho do furacão. Porque centroavante tem que fazer gol. Mesmo que desta vez a estrela do time seja o camisa dez e o nove também jogue em função dele. E do time. Como na movimentação abrindo espaços para o passe de Coutinho e a infiltração de Paulinho no primeiro gol sobre a Sérvia.

Contribuição para o time difícil de quantificar. Não é gol, nem assistência. Mas facilita a equipe. Como a volta pela esquerda fechando a inversão de bola para o lateral direito adversário. Ou a pressão no zagueiro que força o chutão e a bola retomada pela equipe de Tite. A solidez defensiva passa também por Gabriel Jesus. O futebol atual é assim, gostem ou não.

Não é “passar pano”. Nem garantir titularidade. Se Firmino entrar e melhorar o desempenho da equipe com e sem a bola, marcando gols ou não, ótimo para o Brasil. Talvez a mudança ensaiada contra o México, com Neymar solto e Jesus pela esquerda, como na reta final da Olimpíada, possa ser a melhor solução para incrementar o rendimento ofensivo.

E vale voltar novamente a 1982: Paolo Rossi era o centroavante contestado nos quatro primeiros jogos da Itália na Copa do Mundo. Nenhum gol. Até marcar três no Brasil, dois na Polônia e um na final contra a Alemanha para terminar como artilheiro e craque do Mundial.

O que se questiona, de fato, é a crítica “preventiva” e o foco apenas no aspecto negativo. O ponto branco no quadro escuro ou vice-versa. O tradicional “parece tudo bem, mas…” Seguindo a máxima de Millôr Fernandes: “Jornalismo é oposição, o resto é armazém de secos e molhados”. Princípio que esquece que quem critica sempre tem a mesma credibilidade de quem elogia sempre. Porque no futebol e na vida não há lugar para maniqueísmo.

Ainda que o extremismo esteja cada vez mais presente. E o ódio. As pessoas se unem mais nas redes sociais pelo que detestam do que pelo que amam. Se prefere Messi é preciso odiar Cristiano Ronaldo. Ou Neymar. E por aí vai. No esporte, na política, em tudo.

Gabriel Jesus é o vilão do momento. Mais uma vítima, no fim das contas. Antes o prodígio de origem humilde, agora o “amarelão”. Porque com a nove não pode errar. Ou com qualquer número da camisa verde e amarela, entidade que parece centralizar todas as paranoias de um país.

 


A fortaleza mental pode levar o Brasil de Tite ao hexa
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André Rocha

Mais uma vez a seleção brasileira sofreu no primeiro tempo. Muito pela intensidade máxima do México de Juan Carlos Osório, com Rafa Márquez como surpresa à frente da defesa dando volume ao meio-campo e Lozano e Carlos Vela alternando pelos flancos para cima de Fagner e Filipe Luís.

Mas sofreu com organização no 4-1-4-1 e, principalmente, uma força mental sem oscilações. Com a trinca Thiago Silva, Miranda e Casemiro minimizando erros, consertando falhas. Na saída de bola e na recomposição. Principalmente de Phillipe Coutinho, apertado por Herrera e só crescendo quando se aproximava de Neymar.

Concentrado defensivamente como todos. Paciente em busca dos espaços. Surgiram na segunda etapa quando Osorio arriscou Layún no lugar de Rafa Márquez. Mas sem voltar ao 4-2-3-1 da vitória sobre a Alemanha. Layún entrou na lateral, com Álvarez, já com amarelo, saindo do duelo com Neymar, indo para o meio e mantendo o tridente Lozano-Chicharito-Vela. Diminuiu a pressão na saída brasileira e descompactou as linhas mexicanas.

O calor em Samara foi minando as forças do time de Osorio. O crescimento de Willian e um Neymar focado apenas em jogar, mesmo apanhando demais, fizeram o serviço. Calcanhar do camisa dez, jogada de Willian pela esquerda e gol de centroavante de Neymar. Camisa dez que passou a jogar mais adiantado para poupar esforços e fugir das pancadas.

Gabriel Jesus, sem gols mas com imensa dedicação tática, foi ser o ponta esquerda. Tanto que Roberto Firmino entrou na vaga de Coutinho, que também melhorou na segunda etapa. Para jogar de meia, na função de Coutinho. E aproveitar o rebote de Ochoa na arrancada de Neymar e marcar seu primeiro gol na Copa. E garantir o Brasil nas quartas.

Sem Casemiro. Desfalque importante e preocupante contra Bélgica ou Japão. Mas Fernandinho entrou bem no lugar de Paulinho e deve manter a concentração. Basta lembrar dos 3 a 0 sobre a Argentina no Mineirão pela Eliminatória. É possível manter o desempenho.

Impressiona o equilíbrio da equipe de Tite. Terminou com 46% de posse, mas duelou pelo controle da bola na maior parte do jogo. Finalizou 21 vezes, 10 no alvo. Fez de Ochoa um dos melhores em campo. O México concluiu 13 vezes, mas apenas uma na direção da meta de Alisson. Nenhuma chance cristalina.

Segurança, solidez. O talento resolvendo na frente, como o “molho” do trabalho coletivo. Com Neymar só pensando em futebol. Em desequilibrar e ser o craque de cada jogo e do Mundial. Como deve ser. A fortaleza mental pode levar o Brasil ao hexa.

(Estatísticas: FIFA)