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As lições para o Vasco e todos nós da noite de “San Martín” em Sucre
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André Rocha

Este que escreve é o primeiro a tirar um aprendizado, de uma vez por todas, da incrível virada do Jorge Wilstermann sobre o Vasco no confronto que só não terminou em tragédia para o time brasileiro porque Martín Silva garantiu nos pênaltis.

Com o jogo mais intenso e dinâmico de hoje, sem as muitas bolas recuadas para os goleiros segurarem com as mãos e retardarem o jogo e a reposição muito mais rápida por termos bolas em várias partes do campo, é possível reverter praticamente qualquer placar. Portanto, não convém bancar a classificação na ida, como o blogueiro fez aqui e no seu último comentário sobre os 4 a 0 em São Januário na semana passada pelo Placar Uol.

Tantos outros fizeram o mesmo. Porque o futebol e a vida ensinam e a gente se faz de bobo.

A maior virtude do time boliviano teve pouco a ver com questões técnicas e táticas. Foi acreditar. Ainda que em algo que sempre será questionável como essa vantagem de 2.800 metros que a Conmebol ainda aceita para fazer política e tentar forçar um equilíbrio que normalmente não existe.

Mas nada dessa epopeia teria acontecido se o Vasco não entrasse em campo para uma decisão na Libertadores tão desconcentrado. Como se fosse obrigado a aguentar um desconforto para respirar por pouco mais de 90 minutos para cumprir uma simples formalidade.

Quando acordou estava 3 a 0 em 20 minutos. Três assistências do brasileiro Serginho, sempre pelo lado de Pikachu mal assessorado por Wagner no setor. Ele também daria o passe para o quarto.

Agora é fácil dizer…mas se não havia nenhum compromisso no Brasil por que não viajar para a Bolívia na quinta, logo após o primeiro jogo? Ainda que houvesse os custos de hospedagem, deslocamento, além da turbulência política no país que dificultaria toda a logística, seria o planejamento correto para um disputa tão importante. Será que dimensionamos bem a relevância do torneio mais importante do continente?

O jovem Vasco sentiu o baque, reagiu e podia ter evitado o drama. Mas também podia ter levado o golpe final quando, já com 4 a 0 contra, Thiago Galhardo foi expulso por uma tolice inominável. Outra vez o brasileiro atrapalhando o time com seu despreparo emocional. Tudo quase ruiu no incrível gol perdido por Alex “Pirulito” Silva no último ataque.

Seria uma pancada dura, quase uma pá de cal, na carreira do promissor Zé Ricardo. Depois da eliminação traumática no ano passado com o Flamengo, o vexame colaria no treinador o rótulo de perdedor. Injusto e precoce. Mas se o rubro-negro tinha Muralha, o Vasco contava com Martín Silva.

Em noite de “San Martín”, um dos Libertadores da América do Sul, o goleiro uruguaio tirou o Vasco de uma cilada criada por si mesmo. Três defesas para colocar o time cruzmaltino onde parecia já estar há uma semana: no grupo 5 com Cruzeiro, Racing e Universidad de Chile. Como “zebra”, mas talvez seja melhor assim.

Porque ainda não entendemos muito bem que favoritismo não é garantia no esporte mais imprevisível e caótico. Nos apaixonamos por isto, mas não aprendemos. Que fiquem as lições.


Há tanta coisa errada no São Paulo que Dorival não pode ser o único culpado
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André Rocha

Um clube está errado em sua gestão de futebol quando aposta todas as fichas no maior ídolo recém aposentado para ser o treinador na fé de funcionar como um escudo para a instabilidade política ou o fenômeno que em sua primeira experiência na nova função vai reproduzir fora do campo a excelência e as conquistas que alcançou dentro;

Uma direção está mais que equivocada quando começa a tomar decisões políticas e populistas recrutando craques carismáticos de tempos gloriosos como se num passo de mágica estes transferissem a mentalidade vencedora e a qualidade como atleta. Pela simples presença;

Uma instituição se perde quando não se nota mais sua identidade, a imagem construída ao longo de décadas que faz todos os agentes atuarem dentro de uma linha de conduta sintonizada com os próprios valores. Organização e força competitiva.

O São Paulo hoje é um clube morno. Não encontrou o fundo do poço para buscar a redenção, mas também não há uma força motriz para voltar a ser forte. Muito menos temido. Entrou no bloco médio do futebol brasileiro – aqueles que ora flertam com vaga na Libertadores, ora sofrem com a sombra do Z-4 e do rebaixamento.

Torcida, dirigentes, dirigentes-torcedores, imprensa, jornalistas-torcedores…todos olham para trás em busca de uma referência em um futebol que na prática não existe mais. Nem o de Telê Santana, nem o de Muricy Ramalho. O esporte evoluiu e é preciso se adequar, não buscar fórmulas que deram certo em outros contextos.

Mas é mais fácil descontar no treinador. Logo ele que sucedeu Rogério Ceni. Com imagem mais associada ao Santos pela carreira e ao Palmeiras pelo passado como jogador e laços familiares. Dorival Júnior recebeu um legado complexo. Há tanta coisa errada que ele não pode ser o único culpado.

Mas tem sua cota de responsabilidade. Inegável. Em 2018, particularmente, por abandonar o planejamento inicial de usar mais reservas e jovens da base no início do Paulista para buscar aos poucos o ajuste da equipe. Com a derrota na estreia para o São Bento cedeu às pressões dos que se contentam com o estadual para acabar com a seca de títulos desde a Sul-Americana de 2012 e queriam os titulares o mais rápido possível.

Depois Dorival errou ao virar as costas para sua essência. Em toda a sua trajetória conseguiu bons trabalhos com times jovens, rápidos e envolventes. O que se vê em campo é uma equipe lenta, que pena para abrigar Nenê e Diego Souza em um quarteto ofensivo. Jogadores que hoje precisam de uma dinâmica em função deles pois entregam pouca intensidade com e sem a bola. Com eles juntos o tricolor está vagaroso, apesar dos esforços de treinador e atletas para buscar o encaixe.

A proposta de Dorival de ter a bola não conta com o momento de aceleração no terço final do campo. Pior: defensivamente as falhas são grotescas de um conjunto frágil que expõe a retaguarda que joga adiantada. Sem pressionar o adversário com a bola é letal. E o São Paulo morreu em Itu nos 2 a 1 que não complicam a situação na tabela do Paulista, mas alimentam o clima bélico, de caça às bruxas.

Cueva fez o gol são-paulino, é um dos poucos a tentar colocar velocidade nas transições ofensivas. Mas pelos problemas disciplinares do começo do ano e pelo pênalti perdido no último lance em Itu deve ser o bode expiatório da vez. O vilão de uma história sem mocinho.

Péssimo retrospecto nos últimos clássicos estaduais, ver os rivais Palmeiras e Corinthians vencendo as principais competições do país e o Santos até o ano passado dominando o Paulista. Não é um cenário agradável para a autoestima do são-paulino. A pior notícia é que ele mesmo não se ajuda para sair de uma crise que parece ter feito o clube perder o norte.

Hoje os dedos apontam para só um culpado. Quem será o messias da vez para a missão inglória e quase impossível de consertar tantos erros acumulados?


Livre, leve e solto. Gabigol encontra no Santos o que lhe negaram na Europa
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André Rocha

Foto: Rafael Arbex/Estadão

Gabriel Barbosa já foi às redes três vezes no seu retorno ao Santos. Uma por partida. Mais que as duas em um ano e meio da frustrada experiência no futebol europeu – um gol pela Internazionale em dez jogos e outro pelo Benfica nas cinco vezes em que esteve em campo.

O encaixe praticamente imediato no time de Jair Ventura na volta ao Brasil tem pouco ou nada a ver com a tradicional “saudade do feijão”. O fato é que ele reencontrou na Vila Belmiro o que lhe foi negado no Velho Continente, mesmo em ligas que não estão entre as mais qualificadas e competitivas: uma equipe que jogue em função dele.

Além de não lidar bem com a reserva, outra crítica, velada ou não, que o “Gabigol” recebia de treinadores e até companheiros era a deficiência na leitura de jogo. Sem contar a pouca dedicação no trabalho sem bola. Algo já notado nos Jogos Olímpicos, quando o atacante fazia o lado direito e falhava na recomposição. Não comprometeu na conquista da sonhada medalha de ouro, mas foi o que menos se destacou no quarteto com Gabriel Jesus, Neymar e Luan.

Diante de adversários com linhas compactas fechando a área, Gabriel não conseguia ler os espaços para atacar nem buscar o jogo associativo fazendo parede para seus companheiros. Seu estilo é de receber e já partir para a conclusão. Sem muito trabalho coletivo. Ou só da equipe para serví-lo.

Para isto precisa de liberdade total. Como é talentoso, mas não um fora de série, na Itália e em Portugal não aceitaram conceder a ele este “mimo”.  Mas por aqui pode fazer a diferença. Não por acaso, Jair Ventura deixa Gabriel solto na frente. Na vitória sobre o São Paulo por 1 a 0 no Morumbi, com Eduardo Sasha pela direita, Copete à esquerda e Vecchio centralizado na linha de meias do 4-2-3-1.  Para marcar o gol único do clássico em chute preciso no canto direito de Sidão.

São dez finalizações até agora. Oito dentro da área e duas fora. Todas com a canhota que ainda pode ficar mais calibrada com a sequência de jogos. Confiança do comandante não falta: “É o jogador que salva a vida do treinador”, exaltou Jair depois do “San-São”.  No  futebol brasileiro a tendência é desequilibrar mesmo.

Porque Gabriel está como quer. Livre, leve e solto.

 

 


Taça Guanabara não pode ser ilusão mais uma vez para o Flamengo
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André Rocha

Foram 33 cruzamentos em 90 minutos, mais os acréscimos. No vigésimo sétimo, o centro de Diego para Rever tocar e Kadu fazer contra. O gol para descomplicar um jogo em que o Boavista negou espaços com duas linhas de quatro  – Fellype Gabriel e Erick Flores voltando pelos lados com Pará e Renê.

O problema do Flamengo novamente foi a falta de jogadas mais criativas. Infiltrações em diagonal, tabelas por dentro. Difícil surpreender o adversário. Muito por causa de Diego. Parece perseguição, mas não é o caso. Inegável a importância do camisa dez pela liderança positiva, pela entrega absoluta, a concentração para auxiliar sem a bola na execução do 4-1-4-1. Em especial, a técnica nos cruzamentos e chutes, com bola rolando ou parada.

Mas repare que sempre que Diego recebe a bola e alguém se projeta para a jogada que vai furar as linhas de marcação o meia hesita. Domina, gira, dá mais um toque. Tempo suficiente para a marcação adversária se armar e só restar duas jogadas: abrir para um companheiro levantar a bola na área ou ele mesmo cruzar.

Para um time que planeja se instalar no campo de ataque e trabalhar a bola – terminou com 61,5% de posse – essa lentidão na circulação da bola na zona de decisão ou último terço atrapalha a criação de espaços. Não é o caso de barrar o camisa dez, mas tentar orientá-lo a soltar a bola mais rapidamente. Pode ajudá-lo, inclusive, na dura concorrência por uma vaga entre os 23 de Tite para a Copa do Mundo.

Em Cariacica, a tarde infeliz de Henrique Dourado até em jogadas simples complicou ainda mais. Mas pela disparidade entre as equipes , o time de Paulo César Carpegiani finalizou 20 vezes, cinco no alvo contra nenhuma do Boavista na direção da meta de César em um total de nove.

Com Rodinei e Vinícius Júnior, o time rubro-negro buscou mais o fundo na segunda etapa, ganhou velocidade pela direita e habilidade no um contra um do lado oposto. Com o cansaço do adversário a reta final foi de domínio absoluto e o segundo gol que definiu a conquista do primeiro turno do Carioca no lançamento de Everton Ribeiro que Vinícius Júnior raspou para tirar do goleiro Rafael.

21º título da Taça Guanabara e vaga garantida no quadrangular final do estadual. Mas não pode mais uma vez iludir pensando nas ambições do clube para a temporada, a começar pela disputa dura já na fase de grupos da Libertadores. Para a proposta de jogo de Carpegiani, nitidamente insatisfeito à beira do campo, há muito a evoluir. Na lógica do futebol brasileiro, os resultados ao menos ajudam a aumentar a confiança. Mas não bastam.

(Estatísticas: Footstats)

 


O Vasco organizado para ataque e contra-ataque vai cumprindo sua missão
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André Rocha

Nos últimos tempos os times brasileiros vêm aprimorando e atualizando o trabalho defensivo compactando setores, fechando espaços com a participação de todos, fazendo laterais se posicionarem primeiro como defensores e outras ações sem a bola.

O problema é que a parte ofensiva na maioria das vezes fica entregue à intuição dos jogadores, sem muito jogo associativo e mentalidade focada no coletivo para o individual desequilibrar. Por isso as muitas bolas levantadas na área adversária e poucas tabelas e infiltrações.

O Vasco de Zé Ricardo vem conseguindo as duas coisas nas etapas preliminares da Libertadores. A despeito da fragilidade dos adversários, o time se posiciona para atacar de forma coordenada, pelos dois lados do campo e aproveitando o melhor de cada jogador.

Nos 4 a 0 sobre o Jorge Wilstermann em São Januário com clima de duelo continental, o time cruzmaltino de início abriu os laterais Yago Pikachu e Henrique para espaçar a marcação do oponente. Também movimentou Wagner, Evander e Paulinho, o trio de meias do 4-2-3-1, buscando os espaços entre os setores do 5-4-1 do time boliviano e Andrés Rios fazendo o pivô e abrindo espaços. Posse de bola, inversão do lado da jogada e pressão logo após a perda da bola.

Futebol atual. Ainda que com alguma dificuldade na saída de bola com Paulão no lugar do suspenso Erazo. O zagueiro, porém, compensou com a costumeira presença de área para abrir o placar. Depois um erro na tática de impedimento comandada por Alex “Pirulito” Silva terminou no gol de Paulinho para acabar de descomplicar o primeiro tempo.

Segunda etapa com o treinador Roberto Mosquera desmanchando a linha de cinco e mandando a campo os atacantes Chávez e Álvarez para se juntarem ao brasileiro Lucas Gaúcho. Mas em um “abafa” sem muita organização e qualidade para furar a defesa bem protegida por Desábato e com Ricardo Graça na zaga cada vez mais seguro.

Zé Ricardo colocou Riascos, Rildo e Thiago Galhardo para acelerar os contragolpes e matou o jogo no final com Pikachu mais que readaptado à lateral direita e Rildo. 4 a 0 para deixar a vaga mais que encaminhada. Em Sucre, o Jorge Wilstermann terá pouco mais que os 2.800 metros de altitude para buscar um milagre.

Improvável. O Vasco vai ganhando encaixe, não tem o Carioca para atrapalhar e é difícil imaginar um time de Zé Ricardo desconcentrado a ponto de facilitar tanto. O Vasco vai cumprindo a missão de chegar à fase de grupos, algo que parecia complicado pelo momento político do clube, mas em campo se resolve com organização. Para atacar e contra-atacar. Como deve ser.


Flamengo está mais móvel, mas com Diego e Dourado ainda vive de cruzamentos
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André Rocha

Foram praticamente 70 minutos de domínio absoluto do Flamengo na vitória por 3 a 1 sobre o Botafogo em Volta Redonda pela semifinal da Taça Guanabara. Aproveitando as limitações e a queda brusca de confiança do Botafogo depois de ser eliminado pela Aparecidense na Copa do Brasil.

Com titulares e a estreia de Henrique Dourado, o time de Paulo César Carpegiani repetiu a mobilidade do 4-1-4-1 da vitória por 1 a 0 sobre o Nova Iguaçu. Everton Ribeiro e Diego alternando à direita e por dentro, o mesmo com Lucas Paquetá e Everton do lado oposto. Cuéllar mais plantado e Dourado na referência.

A movimentação chama atenção porque não há inversões no posicionamento apenas quando a bola sai e os jogadores fazem a troca, mas também com o time em progressão. Em vários momentos envolveu com relativa facilidade o sistema defensivo do rival com bola no chão, tabelas, triangulações e ultrapassagens.

Apesar de mais móvel, fica nítido que o Fla ainda vive de cruzamentos, com bola parada ou rolando. Em especial de Diego, o jogador que mais levantou bolas na área no clássico: 13 dos 31. Recorde do Fla na temporada. Foram 21 contra Volta Redonda e Cabofriense e 22 contra o Bangu com a garotada. 23 diante do Vasco, 24 contra o Nova Iguaçu já com Diego. Mas sem uma típica referência com boa estatura na frente.

Porque o meia ainda é lento para fazer a bola circular. Domina, gira, dá mais um toque. Com isso o adversário tem tempo para se reorganizar defensivamente. Sem opções e segurança para um passe mais vertical, acaba jogando na área. Como é o responsável pelas bolas paradas, natural que seja o que mais cruza.

Com o “Ceifador”, só no primeiro tempo foram 18. Natural que se busque o centroavante eficiente no jogo aéreo, mas para um time que em 2017 basicamente viveu das jogadas aéreas e Carpegiani busca mudar esse perfil, o número não deixou de ser alto.

Valeu pelos gols, um em cada tempo. No primeiro, centro de Diego e Everton cabeceou livre em mais uma falha grotesca da defesa do Bota que vacilou pelo alto nos dois gols da Aparecidense. No segundo, novo cruzamento do camisa dez para Paquetá servir Dourado.

Destaque novamente para o jovem meia que terminou a temporada passada como o grande destaque do time. Dinâmica para ir e voltar, consciência, lucidez e intensidade tanto para articular por dentro ou buscar o fundo como ponteiro. Um recital até cansar e sair para dar lugar a Vinícius Júnior.

Mas paradoxalmente o gol do Botafogo, primeiro sofrido pelo Fla no ano, começou em um erro de passe de Paquetá. Contragolpe, Réver sentiu o desgaste em sua primeira partida na temporada e não acompanhou Kieza. Com o centroavante, Ezequiel e Renatinho, o alvinegro ensaiou uma reação na chuva e aproveitando o cansaço dos titulares rubro-negros no segundo jogo neste Carioca.

Vinícius Júnior resolveu no último contragolpe do jogo em bela finalização. Para deixar claro o abismo entre os rivais neste momento. Também tornar o Flamengo ainda mais favorito para a final contra o Boavista.

O mais importante, porém, foi sinalizar que o time rubro-negro busca um novo modelo de jogo com Carpegiani. Mais móvel, envolvente. Falta ser mais criativo e insistir menos nos cruzamentos. Algo a ser trabalhado até a Libertadores.

(Estatísticas: Footstats)


O que Vasco e São Paulo ganham e perdem com a transferência de Nenê
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André Rocha

Quatro minutos no Morumbi. Nenê arranca pela esquerda, chega antes na bola e é derrubado na área do Bragantino. Cobrança precisa de pênalti e vitória do São Paulo no Paulista em mais uma atuação inconsistente. Muito pela nova formação que ainda busca um ajuste com duas peças novas – Diego Souza também entrou no quarteto ofensivo fazendo companhia a Marcos Guilherme e Cueva.

O encaixe e a combinação de características são complicadas para Dorival Júnior. Também porque Nenê não entrega intensidade por muito tempo nas partidas. É importante pelo talento, a personalidade para definir jogos, a liderança e a precisão nas bolas paradas. Mas para ser titular e ainda atuando pelo lado, no caso o esquerdo, fica difícil para o camisa sete de 36 anos.

O Vasco não contava em perder sua referência técnica, fundamental em jogos que ajudaram a colocar o Vasco na Libertadores, ainda que nas etapas anteriores à fase de grupos. Eficiência em faltas, escanteios e penalidades máximas.

Mas Zé Ricardo vai encontrando aos poucos no elenco após as muitas baixas algumas soluções para tornar a equipe competitiva. Além do mais que promissor Ricardo Graça herdando a vaga na defesa de Anderson Martins e o volante argentino Desábato melhorando o passe na saída de bola em relação a Jean, Evander entrou muito bem na execução do 4-2-3-1 cruzmaltino.

Talvez a equipe sinta falta de um jogador no meio-campo para variar o ritmo – embora Wagner venha cumprindo essa função como um ponta armador preferencialmente pela direita. Mas o novo camisa dez entrega mais dinâmica, participação sem a bola muitas vezes alinhado a Wellington à frente de Desábato e eficiência nas finalizações. É meia que pisa na área adversária.

Mesmo considerando a fragilidade da Universidad de Concepción no primeiro desafio na Libertadores e a eliminação na Taça Guanabara em meio ao caos político e as saídas dos jogadores, a impressão que fica é de que com calma e tempo para trabalhar Zé Ricardo terá condições de entregar um Vasco competitivo. Ainda que possa faltar um Nenê.

Paradoxalmente, o São Paulo que agora tem o meia, uma solução individual,  recebe no “kit” também um problema coletivo. Perdas e ganhos de um futebol complexo, sem receita de bolo.


VAR, mando de campo, estaduais…é escrever só para dormir tranquilo
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André Rocha

Quando se diz que estadual é um atraso para o futebol brasileiro, prejudica o calendário, não resolve o problema dos pequenos e em dezembro ninguém se lembra quem foi o campeão em maio…é só para desencargo de consciência.

Porque as partes envolvidas, inclusive boa parte da imprensa, preferem valorizar e alimentar a rivalidade local, que é saudável, mas não paga o prejuízo dos clubes ao longo da temporada em todos os aspectos. Inclusive o produto campeonato brasileiro que é pouco valorizado no mundo todo, entre outras coisas, por seu período mais curto em relação a outras ligas.

O mais irônico é depois vilanizar presidente de federação ou da CBF, que só têm poderes acima dos clubes pela manutenção da estrutura federativa. Quem valoriza estadual apenas avaliza o status quo.

Quando a milionária CBF tenta impor aos clubes os custos do uso do VAR (árbitro de vídeo) e estes se limitam a votar contra a utilização no Brasileiro de 2018, negando a tentativa de minimizar os erros de arbitragem tão reclamados ao longo do ano…este blogueiro só se manifesta para dormir tranquilo.

Porque no fundo a maioria dos dirigentes quer mesmo é um “álibi” para os próprios erros de planejamento, desviar o foco e arranjar um vilão para as derrotas. Outros querem manter a insegurança da equipe de arbitragem para que esta, na dúvida e no temor de ser punido, marque a favor do mais poderoso e/ou popular. Muitos torcedores também apreciam esta “bengala” para criar as teorias de conspiração quando o rival é campeão. Sem contar que é um alívio para muita gente que trabalha falando de futebol e detesta abordar o jogo. Prefere as polêmicas para mascarar a falta de conteúdo.

Quando se critica a autorização do uso de cinco mandos de campo fora do estado de origem – ou seja, a venda do mando na maioria dos casos, o que causa um desequilíbrio técnico na competição – é só para ter a consciência limpa.

Porque por conta de outros equívocos, inclusive o abismo nas receitas de TV entre os clubes, os times de menor investimento desejam uma compensação com a chance de fazer barganha, mesmo se afastando da própria torcida. E alguns grandes, por não terem estádio próprio, querem a brecha para tentar faturar em outras praças, ainda que sacrifiquem o próprio time com mais viagens.

O blogueiro escreve apenas para deixar o registro de que não compactua com falta de profissionalismo, decisões políticas acima das técnicas, do provincianismo…do caos que é o futebol brasileiro.

Só para dormir tranquilo mesmo. Porque a esperança de que um dia tudo isto mude a curto/médio prazo não existe há um bom tempo. Seguimos pelo ofício, por amor ao jogo e ao futebol cinco vezes campeão do mundo. Mas sem deixar de lamentar.


Só os 100% garantem a paz de Roger Machado no Palmeiras?
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André Rocha

O Palmeiras precisou de oito minutos de pressão e alta intensidade no Allianz Parque para marcar os gols de Antônio Carlos, aos três do primeiro tempo, e Borja aos cinco do segundo, que garantiram a vitória por 2 a 1 sobre o Santos no primeiro clássico do time em 2018. Aos sete da primeira etapa ainda carimbou a trave de Vanderlei na cobrança de falta de Lucas Lima em sua primeira partida contra o ex-clube.

Mas depois o time de Roger Machado abdicou um pouco do seu jogo, permitindo que o Santos tivesse a bola – terminou com 52% de posse, segundo o Footstats –  e ocupasse o campo de ataque. Mesmo finalizando dez vezes contra sete do rival, a postura cautelosa parece muito focada no resultado, que tinha sua importância, mas neste início de temporada não deve ser tratado como prioridade.

Mais valia seguir exercitando a saída de bola com Felipe Melo, o grande destaque individual neste início de trabalho, se juntando aos zagueiros Antônio Carlos e Thiago Martins e liberando os laterais Marcos Rocha e Victor Luís. Ou a troca de Lucas Lima e Tche Tche, com o meia recuando para qualificar o passe e o volante se aproximando do trio de ataque para acelerar as ações no último terço do campo.

Só que Roger sabe que precisa dos resultados para ganhar confiança. O time necessita, mas ele principalmente. “Se as coisas não acontecerem serei cobrado”, disse na coletiva depois do jogo. Escaldado pelo que aconteceu com Eduardo Baptista, ainda que agora não tenha uma sombra do tamanho da de Cuca, que esmagou seu sucessor/antecessor em 2017.

Precisa ser assim sempre? Por mais que time grande, ainda mais com tamanho investimento, viva de vitórias, será que é tão fundamental assim jogar por resultado na quinta partida do ano? Só os 100% garantem a paz do treinador para trabalhar?

Em março de 2015, o Santos venceu o Palmeiras pelos mesmos 2 a 1. Quem lembra deste primeiro clássico, ou mesmo da conquista do Paulista pelo alvinegro praiano nos pênaltis se na final mais importante, a da Copa do Brasil, o alviverde foi o campeão superando o rival? O mesmo vale para a semifinal do estadual em 2016. O Santos levou, mas o palmeirense não vai tratar como um fracasso no ano em que voltou a ser campeão brasileiro depois de 22 anos.

Será que vale dar ouvidos à histeria imediatista de torcedor e parte da imprensa sacrificando a oportunidade de exercitar o modelo de jogo que busca o protagonismo durante os noventa minutos e fazer experiências no estadual em nome dos três pontos que nem eram tão fundamentais assim, já que mesmo com derrota o time seguiria líder do Grupo C?

Impossível não lembrar de Dunga em sua segunda passagem pela CBF em 2014 como treinador. Vitórias em amistosos tratados como verdadeiras finais para “resgatar a imagem do futebol brasileiro” depois dos 7 a 1. De que valeu se no início da disputa das eliminatórias e nas edições da Copa América sua equipe fracassou em desempenho e resultados, fazendo a seleção brasileira perder dois anos de trabalho que podem custar caro a Tite na Rússia?

O próprio Roger teve experiência amarga no Atlético Mineiro. Campeão mineiro, melhor time da primeira fase da Libertadores. O treinador falou em “respaldo para trabalhar”. Mas bastou um começo hesitante no Brasileiro emendado com o vacilo contra o Jorge Wilstermann nas oitavas da Libertadores para vir a demissão. De que serviu o bom primeiro semestre se no dia 20 de julho estava desempregado?

O Palmeiras não precisa estar pronto agora. Pode dar mais minutos para Willian, Borja e Dudu afinarem a sintonia, com o camisa sete agora mais articulador acionando os dois companheiros finalizadores. E quando os ponteiros buscam a diagonal, Tche Tche aparece no espaço para buscar o fundo do campo, alternando com os laterais. Movimentos que precisam ganhar naturalidade até a estreia na Libertadores.

Sem essa urgência insana por vitórias. Quem vai lembrar no final do ano que o time era o único 100% da Série A nos cinco primeiros jogos da temporada se a equipe não for bem nas competições mais importantes?

Não é querer ser “parnasiano”, “romântico” ou “moderninho” por “desprezar” o resultado. Muito menos desrespeitar a história de um dos clássicos mais tradicionais do nosso futebol. Só uma questão de lógica. Estadual é sequência de pré-temporada. A evolução pensando no futuro vale mais que os pontos ganhos hoje. Ou deveria valer.

 


Cultura da vitória ajuda Corinthians quando falta futebol
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André Rocha

Não deixou de ser decepcionante que o Corinthians, logo quando escalou de início Júnior Dutra de início na vaga de Kazim junto à base titular, tenha apresentado um desempenho coletivo pouco satisfatório.

Muito por méritos do Novorizontino de Doriva, bem organizado, negando espaços a Rodriguinho e Jadson e atacando o setor de Fágner com a velocidade de Juninho, especialmente no primeiro tempo. Com Clayson errando até jogadas simples, Romero era o único escape pelo flanco na execução do 4-1-4-1. Mas quando o paraguaio serviu Rodriguinho na primeira jogada bem trabalhada, o meia perdeu gol feito.

Já Pedro Henrique não desperdiçou sua chance na bola parada. Típico gol da vitória sofrida, administrada com calma e, claro, a confiança adquirida com os títulos recentes. Quando falta futebol, o atual campeão brasileiro e paulista se impõe na mentalidade vencedora, na segurança que transmite e no respeito que desperta nos adversários.

Três pontos apesar dos 52% de posse e das oito finalizações do time da casa contra seis dos visitantes. Mesmo com a impressão durante boa parte dos 90 minutos que o gol do Novorizontino estava “maduro”. Ainda que Emerson Sheik pouco tenha contribuído quando entrou na segunda etapa. Virou moda dizer que o Corinthians “sabe sofrer”. Na prática, não passa de experiência em jogar controlando os espaços.

Ainda há muito a evoluir – clichê inevitável pelo ridículo período de pré-temporada. A equipe de Fabio Carille já mostra organização e movimentos assimilados desde o ano passado. Falta mais fluência, consistência, regularidade. Deve vir com o tempo.

Por ora, quando falta futebol a cultura da vitória ajuda a descomplicar jogos como em Novo Horizonte.