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City vence, mas ideias confusas de Guardiola sacrificam Gabriel Jesus
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André Rocha

Gabriel Jesus apareceu mais no primeiro tempo da estreia do Manchester City no Campeonato Inglês, fora de casa contra o Brighton, de volta à primeira divisão inglesa depois de 34 anos. Deu lençol, tocou a mão na bola em gol bem anulado que lhe rendeu um amarelo injusto. Depois não testou firme e permitiu bela defesa do goleiro Ryan completando cruzamento de Kun Aguero.

Na segunda etapa, só foi notado ao disputar com o zagueiro Dunk, que acabou marcando gol contra em um golpe de cabeça mais que estranho. O segundo gol, já que o primeiro foi de Aguero no primeiro contragolpe cedido pelo time da casa enquanto a partida estava empatada.

Assim como o Barcelona de Guayaquil na quarta feira contra o Palmeiras no Allianz Parque, o Brighton pagou por se empolgar com a atuação medíocre do adversário favorito, avançar suas linhas e ceder espaços entre as linhas.

Porque diante do 4-4-2 compacto armado pelo treinador Chris Hughton, que recuava os “wingers” como laterais e formava uma última linha defensiva com seis homens foi difícil entender a proposta de Pep Guardiola. Mandou a campo um 3-3-2-2, com Danilo improvisado na ala esquerda e Gabriel Jesus fazendo dupla de ataque com Aguero.

O resultado prática na maior parte do tempo foi uma posse de bola acima de 70%, porém estéril. Walker e Danilo bem abertos, David Silva e Kevin De Bruyne sacrificados na articulação, precisando de muita movimentação para dar opções de passe aos zagueiros Kompany, Stones e Otamendi e a Fernandinho, o único volante. Os que mais tocavam na bola.

O goleiro brasileiro Ederson assistiu ao jogo no primeiro tempo e teve um pouco mais trabalho depois do intervalo. Acabou falhando na saída da meta e foi apenas correto no trabalho com os pés. Vale observar a evolução na sequência da temporada.

Aguero e Jesus tentavam alternar na mobilidade e no trabalho de referência na frente, mas participavam pouco na zona de decisão porque os citizens tocavam, tocavam…até Danilo, isolado pela esquerda, cortar para o pé direito e jogar na área ou Walker buscar a linha de fundo. Ou as bolas frontais levantadas por De Bruyne, a maioria inócuas.

Contraproducente. Ainda que todos os princípios de jogo do treinador catalão estivessem lá. Difícil entender, ainda mais com Bernardo e Sané no banco de reservas. Aguero acabou se saindo melhor. Já Gabriel Jesus, mesmo finalizando quatro vezes, taticamente foi sacrificado, subaproveitado. Atuação apenas razoável. Não por sua culpa.

Guardiola segue indecifrável. Ao menos o seu City, na loucura que está sendo a primeira rodada da Premier League, conseguiu a vitória. Mas é preciso clarear as ideias na intenção de adaptar seu estilo ao futebol jogado na Inglaterra. O primeiro ato, apesar dos 2 a 0, pareceu bem confuso.


Fiasco do Brasil sub-20. A inteligência vale mais que “alegria nas pernas”
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André Rocha

O maior pecado do técnico Rogério Micale na eliminação brasileira do Sul-Americano no Equador com o empate sem gols contra a Colômbia foi tentar se manter fiel às suas convicções de jogo apoiado, valorizando a posse de bola, sem considerar o contexto: gramados ruins na primeira fase e, principalmente, as características dos jogadores – mais velocidade e força que técnica e raciocínio.

Talvez tenha faltado mais do rubro-negro Lucas Paquetá, maior esperança na organização e criação. Mas é bem provável que o fiasco brasileiro tenha sido novamente uma mera consequência de seu próprio ciclo nas divisões de base.

Desde sempre o que o menino bom de bola ouve é “filho, pega a bola, parte para cima e resolve o problema da sua família”. Depois de um tempo, se confirmar o potencial, o empresário é incluído no pacote de dependentes. O aprendizado inicial é tentar resolver na individualidade para se destacar na multidão.

A questão é que por mais que os profissionais da base estejam se qualificando na preparação dos garotos, a nossa mentalidade atrapalha. Olhamos para um time e sempre buscamos “o cara”, aquele que chama a responsabilidade, que faz a diferença, que decide sozinho. Não vale ser coadjuvante. A velha visão do “patrão” e “empregado”.

Só que no futebol atual, por mais que se tenha Messi, Cristiano Ronaldo, Suárez, Neymar, Ibrahimovich, Hazard e outros talentos desequilibrantes, “o cara” é cada vez mais o time. A ideia de jogo que vai potencializar e fazer aparecer o jogador diferente.

Por isso a necessidade de uma leitura de jogo cada vez mais precisa. A exata noção da importância de cada um no funcionamento do modelo de jogo. Saber que passar e se deslocar oferecendo opção ao companheiro vai ser mais importante que o drible em dois terços do campo. Só no último, mais próximo do gol, a vitória pessoal será essencial para furar as linhas de marcação cada vez mais compactas.

Saber o que fazer também ajuda a não se desesperar na hora da dificuldade. Era nítida a tensão dos meninos da seleção sub-20 por conta dos problemas graves na construção do jogo apoiado que Micale exige. Porque o garoto, culturalmente, é cobrado para decidir sozinho. Habilidade ou força e velocidade, rompendo as defesas. Vencendo as dificuldades na marra ou no jeitinho que é só nosso.

Tudo para conseguir um contrato na Europa e sair daqui jogando bola e aprender lá a fazer o jogo. Coletivo. Discurso comum entre os novos e os ex-boleiros. Às vezes surge um Gabriel Jesus, talentoso e inteligente praticamente na mesma proporção que se encaixa rápido em qualquer lugar – Palmeiras, seleção olímpica, principal, Manchester City. Mas é exceção.

Não é acaso a nossa maior carência em alto nível: os meio-campistas cerebrais, que jogam de área a área e ditam o ritmo. Fazem o jogo coletivo acontecer. Como estimular o menino se o mais rápido, o mais forte e o mais driblador é que vão ganhar os holofotes e as melhores oportunidades?

A visão do futuro não é apocalíptica e há avanços nos métodos de treinamento nas divisões de base do país. Também há mais competições para colocar tudo em prática. Não parece a hora de defenestrar Micale e voltar a encher a CBF de ex-boleiros sem formação e preparo.

O problema maior do processo segue sendo a transição e a afirmação dos mais promissores no profissional. Muito porque o empresário e a família querem que o craque sub chegue com banca entre os adultos. Ou só passe por lá em busca do sonho maior: a independência financeira nos centros mais rentáveis.

David Neres já entrou no time principal do São Paulo com status de estrela e, no meio do Sul-Americano, foi vendido ao Ajax. Difícil imaginar a cabeça do garoto para seguir no torneio de base com a primeira grande meta cumprida. Seleção principal, Copa do Mundo? Lá na frente e se for conveniente.

Uma busca individual em uma visão pouco coletiva. De mundo, que passa pela educação formal, em casa e entra no campo. Em um futebol de alto nível cada vez mais associativo, de união de forças, combinação de características. Um paradoxo.

Por isso a inconstância, a irregularidade de alternar um título mundial sub-2o em 2011, um vice em 2015 e duas eliminações no Sul-Americano, em 2013 e agora. Um sinal de que está na hora de começar a privilegiar a inteligência em campo. Ela vale bem mais que “alegria nas pernas”.


Como Guardiola pode aproveitar Gabriel Jesus no Manchester City
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André Rocha

Gabriel Jesus City apresentacao

Gabriel Jesus estreou no time profissional do Palmeiras com 17 anos. Como grande promessa e esperança. Era um jogo do Paulista de 2015, 1 a 0 no Bragantino em uma noite de sábado, a sexta vitória seguida da equipe de Oswaldo de Oliveira. Mas a torcida exigiu a presença da joia da base, o treinador atendeu e o garoto respondeu com personalidade.

Na seleção olímpica encarou a cobrança de uma torcida carente pós 7 a 1 e tratando como obrigação a medalha de ouro em casa. Sofreu no início complicado, mas encarou e terminou como um dos destaques, marcando três gols. Missão cumprida com o título.

Caminho aberto para se afirmar na seleção principal. Estreia no primeiro jogo sob o comando de Tite. Camisa nove diante do Equador em Quito com o país cinco vezes campeão mundial na sexta colocação das eliminatórias. Uma tremenda fria que Jesus aqueceu com dois gols e bela atuação nos 3 a 0.

Agora o garoto que chega a Manchester como um talento a ser lapidado com calma por Pep Guardiola está pronto para estrear no City, logo no momento mais complicado na temporada. Tratado como solução aos 19 anos. Exatamente no confronto com a equipe que começou a situar o técnico catalão na Inglaterra: o ótimo Tottenham de Mauricio Pochettino, que encerrou a sequência de seis vitórias dos citizens no início da Premier League e está na vice-liderança.

É bem provável que Gabriel Jesus não inicie a partida no Etihad Stadium. Mas se o treinador precisar do brasileiro tem várias opções de posicionamento para o atacante.

A começar pela mais básica: no centro do ataque, como alternativa a Kun Aguero, que sofre com as oscilações da equipe. Jesus pode acrescentar mobilidade e visão de jogo. O passe para Neymar marcar o segundo gol brasileiro sobre a Argentina nos 3 a 0 do Mineirão é ótimo exemplo. O entendimento com Kevin De Bruyne, David Silva e ponteiros como Sterling, Sané e Nolito pode ser rápido.

É possível também fazer dupla com Aguero, circulando entre a defesa e o meio-campo, trocando com o argentino para confundir a retaguarda adversária. Mas Guardiola teria que abrir mão dos ponteiros para alargar o campo e usar De Bruyne e Silva como meias abertos e articuladores num 4-4-2.

A hipótese mais provável, ao menos para este início, é Jesus na ponta esquerda, como na Olimpíada, infiltrando em diagonal. O brasileiro também atuou assim com Marcelo Oliveira, antes da chegada de Cuca. Só necessitaria de uma adaptação às ideias de Guardiola para os pontas, inclusive na pressão no campo de ataque e na recomposição.

Difícil é entender por que Guardiola, sem Fernando, Fernandinho e Gundogan, não resgata a ideia do início da liga com Bruyne e Silva como meio-campistas de área a área. Marcando e jogando. Para acionar o ataque, inclusive Jesus.

Tudo questão de tempo, paciência e trabalho com um técnico que tem muito a acrescentar ao enorme potencial do jovem avante. A camisa 33 pode começar a fazer história em Manchester já neste sábado.

Pep Guardiola pode utilizar Gabriel Jesus atuando pela esquerda , como no Palmeiras antes de Cuca e na seleção olímpica. Infiltrando em diagonal e voltando para fechar espaços na recomposição (Tactical Pad).

Pep Guardiola pode utilizar Gabriel Jesus atuando pela esquerda , como no Palmeiras antes de Cuca e na seleção olímpica. Infiltrando em diagonal e voltando para fechar espaços na recomposição (Tactical Pad).

 


A Copinha e o “efeito Gabriel Jesus”
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André Rocha

Gabriel Jesus Copinha

Vai começar a Copa São Paulo de Futebol Junior, tradicional primeiro evento do ano no futebol brasileiro. 120 times inscritos em 30 grupos de quatro. Para uns o torneio é inchado, para outros democrático. Não é o ponto deste post.

Para saber mais da edição 2017 confira a volta do ótimo Gustavo Vargas e do não menos excelente Olheiros – antes site, agora blog. Leia AQUI.

O texto tem apenas o propósito de refletir sobre o efeito que um talento formado ou apenas revelado por um clube pode causar no time profissional.

Gabriel Jesus chegou ao Palmeiras em 2013. No ano seguinte explodiu como artilheiro na base a ponto de ser relacionado para os profissionais com 17 anos e chegou a ser tratado como solução para um time que lutava contra o rebaixamento. Depois acabou preservado.

Alexandre Mattos chegou, o cofre foi aberto por Paulo Nobre e o elenco foi totalmente reformulado. Nada menos que 25 contratações. Dudu foi a mais badalada, pelo “chapéu” nos rivais Corinthians e São Paulo. Mais outras tantas em 2016 e, mesmo com os títulos de Copa do Brasil e Brasileiro, o ano já começa com cinco negociações concluídas e outras em andamento.

Dos que entraram em campo, nenhum deu ao alviverde o retorno de Gabriel Jesus. Nenhum tem o talento e o potencial do jovem de 19 anos. Nenhum deu resposta tão importante e imediata por sua seleção. Ninguém foi a imagem da conquista que não vinha há 22 anos a rodar o mundo.

O clube tem estádio cheio, patrocínio forte, sócio-torcedor robusto. Mas os 76 milhões que recebeu do Manchester City pela negociação é que fazem o Palmeiras tão intenso no mercado. Ainda assim, é bem provável que o time sinta muita falta de seu artilheiro que vai para a Inglaterra trabalhar com Pepe Guardiola.

Goleador nos melhores momentos da equipe no primeiro turno do Brasileiro. Com o turbilhão negociação com a Europa-Olimpíada-Seleção principal, o ritmo caiu no returno, também influenciado pela proposta mais pragmática de Cuca.

Mas nos dois jogos mais complicados ele apareceu. Para evitar a derrota em casa para o Flamengo e abrir o placar no Independência quando o Atlético Mineiro massacrava com a intensidade habitual. Dois gols, dois pontos fundamentais para manter a vantagem no topo da tabela.

Não é todo dia que surge um Gabriel Jesus, que marcou cinco gols em seis jogos até ser eliminado pelo Botafogo-SP na Copinha de 2015. Mas vale ficar atento aos destaques do torneio e cobrar do seu time de coração a melhor transição para o profissional, ainda o grande gargalo das divisões de base pela falta de um trabalho de integração mais bem planejado.

O Flamengo, atual campeão, subiu o técnico Zé Ricardo, mas a utilização dos garotos foi tímida e mais emergencial, como Léo Duarte quando o elenco não tinha zagueiros e Filipe Vizeu na falta de uma reposição ao peruano Guerrero. Em 2017 precisa mudar.

Olhar para o mercado é necessário, mas quase sempre é o talento da base que desequilibra. O raciocínio é simples: se o Brasil não é atrativo para quem está no topo, a única chance de ter um craque na equipe, ainda que em formação, é revelando.

Neste ponto, não há melhor exemplo que o Santos e suas versões dos “Meninos da Vila”. Mas hoje a referência é o “efeito Gabriel Jesus” no Palmeiras. Quem será o próximo?


Viva o campeão! Agora é hora do Palmeiras pensar além do resultado
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André Rocha

Quando o Palmeiras empatou com o Atlético Paranaense no recém inaugurado Allianz Parque na última rodada do Brasileiro de 2014 e só não caiu porque o Santos, cumprindo tabela, venceu o Vitória no Bahia, era consenso que o clube precisava recuperar sua capacidade de competir em alto nível.

Os dois rebaixamentos, em especial o último em 2012, doíam muito numa geração de jovens torcedores que, a rigor, só tinham visto as conquistas do Paulista de 2008 e da Copa do Brasil manchada pelo descenso há quatro anos e um tanto desvalorizada por ter sido a última sem os times envolvidos na Libertadores.

Algo precisava ser feito e o presidente Paulo Nobre, como um mecenas, investiu o próprio dinheiro em um primeiro momento. Mas criando recursos para andar com as próprias pernas. Leia-se sócio-torcedor e receitas com o estádio. Alexandre Mattos veio do Cruzeiro, reformulou o elenco. Mais tarde, a contratação de Marcelo Oliveira, técnico bicampeão brasileiro.

O título da Copa do Brasil valeu para se impor na rivalidade recente com o Santos e, principalmente, para celebrar uma conquista relevante no novo estádio. Foi importante vencer. Ainda que com um futebol taticamente paupérrimo, que dependeu das individualidades e venceu na fibra e nas mãos de Fernando Prass o torneio nacional.

Com 2016 veio Cuca após Marcelo Oliveira não entregar resultado nem desempenho, mesmo com uma pré-temporada. Não deu tempo de recuperar no Paulista nem na Libertadores. O novo técnico, então, prometeu o título brasileiro. Afinal, havia elenco, estrutura e força em casa para isso.

Cuca fez sua equipe entregar bom futebol no primeiro turno, com Roger Guedes e Gabriel Jesus voando na frente. Mas quando o título pareceu de fato mais perto com a manutenção da liderança e a disputa ficou mais dura, ponto a ponto com os concorrentes, o Palmeiras aderiu a um pragmatismo focado no resultado poucas vezes visto. Mesmo na era dos pontos corridos.

Há várias rodadas o mantra “jogo pra ganhar, não pra jogar” ganhou força. O projeto pessoal de Cuca e a vontade geral de encerrar o jejum de 22 anos, com os rivais paulistas vencendo nada menos que dez títulos, se transformaram em obsessão. Toda partida foi tratada como uma tensa decisão e instaurou-se uma espécie de surto coletivo.

Até compreensível pelo contexto e que aliviou contra Botafogo e na vitória sobre a Chapecoense por 1 a 0 que garantiu matematicamente a conquista com mais posse de bola e volume de jogo. A angústia chega ao fim e agora é momento da justa catarse pelo título.

O torcedor tem todo o direito de extravasar, encher a internet de memes e zoar os rivais. Levantar a cabeça, bater no peito e dizer que sempre foi grande e voltou a ser gigante. Disparado o mais regular do Brasileiro de 2016, sem vacilar nos momentos decisivos.

Mas para o ano que vem é preciso pensar além do resultado. A tradição do clube é de grandes times, que jogam bom futebol. Querer jogar, ser protagonista, dominar os adversários. A gestão seguirá a mesma com Mauricio Galiotte, sucessor de Nobre. Dinheiro não vai faltar. Da venda de Gabriel Jesus, do novo contrato de patrocínio master, o maior do Brasil, e das fontes de receita que já existem e tendem a crescer.

Por isso já sai na frente dos concorrentes e vai montando seu elenco, mesmo sem a confirmação da permanência de Cuca. O técnico acerta ao buscar conhecimento, ainda que a Itália não seja o principal centro da Europa. É preciso seguir evoluindo.

A equipe campeã brasileira já dá sinais dos progressos do treinador: meio-campo mais técnico, com Moisés e Tchê Tchê, sem o volante marcador que sempre caracterizou suas equipes. Menos ligações diretas como nos tempos de Jô no Atlético Mineiro. Até as jogadas aéreas diminuíram na média.

Para este que escreve ainda falta aderir à marcação por zona, que é mais inteligente por desgastar menos os jogadores. O time se defende posicionado e não correndo. Ainda funciona por aqui, mas já na competição sul-americana pode complicar.

Se Cuca não ficar, que chegue um técnico que preze mais o jogo. Porque se o objetivo é vencer além das fronteiras brasileiras vai ser preciso entregar mais. Jogar bem, não necessariamente bonito. Algo condizente com as ambições do clube.

É mais que possível. O Palmeiras precisa e o futebol brasileiro também. Primeiro os títulos da redenção, agora é ter o que celebrar além dos três pontos.

 


Ecos do bom primeiro turno na vitória do Palmeiras. Contagem regressiva
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André Rocha

De novo foi com sofrimento e pela vantagem mínima. Mas na análise além do placar foi possível perceber, especialmente no primeiro tempo, ecos do Palmeiras que mostrou bom futebol no primeiro turno no Brasileiro.

Começando pela vontade de jogar. Ainda com foco no resultado, mas controlando mais a bola – terminou com 64% de posse – e evitando as bolas levantadas na área. Muito por conta do meio técnico e leve: Tchê Tchê, Moisés e Cleiton Xavier. Com alguns efeitos colaterais, como espaços para Camilo articular as ações ofensivas do Botafogo.

Sofreu ainda mais com a saída de Mina no primeiro tempo. Mas tinha passe no meio, com o trio mais o apoio dos laterais Jean e Zé Roberto, que são meio-campistas e atacavam por dentro. Os pontas Roger Guedes e Dudu ficavam bem abertos para espaçar a marcação e Gabriel Jesus circulava por todo ataque. Como nos melhores momentos da campanha.

Criou, teve ótima chance com Moisés e também cedeu oportunidades ao Botafogo. Porque tentar propor o jogo impõe riscos. E o Bota de Jair Ventura é time forte e organizado, mesmo com os desfalques no meio de Aírton e Bruno Silva, além de Alemão que jogou como meia aberto à direita, que saiu lesionado no primeiro tempo após disputa com Zé Roberto.

Segunda etapa que continuou disputada com propostas ofensivas. Cuca trocou Cleiton Xavier por Alecsandro. Trouxe Dudu por dentro e abriu Gabriel Jesus à esquerda. Quando o Botafogo parecia um pouco mais encorpado e perigoso, o contragolpe que começou com Dudu acionando Jesus terminou com o camisa sete completando de cabeça.

Com Gabriel no lugar do lesionado Tchê Tchê, o Palmeiras foi só concentração e foco para evitar o empate do Bota ofensivo com Sassá, Pimpão, Neílton, Camilo e Leandrinho. Pressão no jogo eletrizante de 34 finalizações, 17 para cada lado.

E aí entrou em campo o Palmeiras do segundo turno: time que congela a bola quando tem a vantagem. Mesmo jogando mal, não vacila como seus concorrentes. Enquanto Santos e Flamengo cederam empates em 2 a 2 nos minutos finais para Cruzeiro e Coritiba, respectivamente, o alviverde sustentou mais uma vez o 1 a 0.

Por isso já é o campeão brasileiro. Contagem regressiva para a matemática apenas concretizar a conquista.

(Estatísticas: Footstats)

 


Só uma tragédia sem precedentes tira a taça do Palmeiras
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André Rocha

Com dez dias de preparação, o Atlético Mineiro tentou um último esforço no Brasileiro desafiando o líder. Colocou intensidade máxima no Independência, mas transformou em alguns momentos eletricidade em destempero e pecou um pouco pela afobação que gerava muitos erros técnicos no último terço do campo.

Na construção, muita mobilidade do quarteto ofensivo formado por Luan, Robinho, Maicosuel e Fred. Mais o apoio de Junior Urso e de um dos laterais – Carlos César ou Fabio Santos. O Palmeiras tentava marcar por encaixe e uma inversão ou drible descoordenava a marcação.

Só que o jogo foi o retrato do Palmeiras nesta reta final: uma equipe tensa, ansiosa, mas com incrível entrega sem a bola. Concentração absoluta para evitar a finalização mais confortável do adversário, mesmo se fosse preciso se atirar na frente do chutador.

Na frente, eficiência. No primeiro contragolpe bem engendrado, passe de Dudu e gol do Gabriel Jesus, novamente decisivo em um jogo chave – na última vez que foi às redes, salvou o time da derrota para o Flamengo em casa.

Na segunda etapa, mais pressão atleticana com um Palmeiras um pouco mais assentado, tentando trocar passes com Tchê Tchê e Moisés no meio, já que Thiago Santos era praticamente um zagueiro na perseguição a Robinho.

Até a entrada de Lucas Pratto no lugar de Maicosuel. No primeiro toque do argentino, o empate no Horto. Também pela precisão de Robinho no cruzamento. A senha para Cuca trocar os Thiagos: saiu o Santos, entrou o Martins. Zagueiro para nas perseguições individuais garantir a sobra contra a dupla de centroavantes.

O jogo aleatório, de “bate-volta” e sem muita preocupação com a posse e o controle, desgastou demais as equipes na reta final. O Palmeiras respondeu um pouco melhor com Erik e Alecsandro nas vagas de Dudu e Jesus. Cazares substituiu Luan, mas criou pouco. Clayton substituiu Robinho e mal tocou na bola.

Saldo final: 62% de posse de bola para o Galo, mas muito mais na pressão e no volume. Doze finalizações para cada lado, mas cinco do time da casa no alvo contra quatro dos visitantes, que cometeram 25 faltas contra 16 do Atlético que efetuou mais desarmes certos – 15 a 9.

Com vitórias de Flamengo e Santos, o time mineiro vai priorizar a Copa do Brasil contra o Grêmio. O Palmeiras novamente não se preocupou em jogar, apenas pontuar. Vai dando certo e, com dois jogos em casa faltando três rodadas e quatro pontos de vantagem sobre o Santos que ainda enfrenta o Flamengo no Rio de Janeiro, só uma tragédia sem precedentes tira a taça que não vem desde 1994.

(Estatísticas: Footstats)

 


Uma prova de maturidade para fechar 2016 como ninguém esperava
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André Rocha

Com a derrota do Uruguai por 3 a 1 para o Chile, o Brasil tinha a certeza da liderança nas eliminatórias sul-americanas mesmo com derrota em Lima. Depois de cinco vitórias seguidas com Tite e os 3 a 0 sobre a Argentina no jogo mais esperado neste final de ano, seria natural um relaxamento. Ao menos diminuir a intensidade.

O início foi de pressão peruana com chute de Carrillo na trave. Um tanto por erros de posicionamento no setor direito com Daniel Alves, Paulinho e Philippe Coutinho, muito por méritos da equipe do argentino Ricardo Gareca, que fazia pressão no campo do ataque e Cueva circulava à frente das linhas de quatro e atrás de Guerrero, criando superioridade numérica pelos flancos.

O meia atacante do São Paulo recebeu entrada dura de Renato Augusto, que com o amarelo foi jogar mais adiantado pela direita, alternando com Coutinho. Na base da troca de passes com calma, linhas compactas e transições ofensivas mais rápidas, teve a chance com Paulinho.

Terminou a primeira etapa com 56% de posse e cinco finalizações contra três, mas apenas uma no alvo contra duas. O mais importante, porém, era a capacidade de equilibrar as ações, manter a concentração e a capacidade de competir.

O Peru repetiu a pressão com linhas adiantadas e o Brasil seguiu com a consciência de suas dificuldades, mas com paciência para sofrer e esperar o momento da estocada, que veio na arrancada de Coutinho e a “assistência” de Aquino para Gabriel Jesus marcar seu quinto gol em seis jogos com Tite.

Os donos da casa nitidamente se desmancharam mentalmente e foi a vez de Gabriel Jesus servir Renato Augusto, o meio-campista que decidiu na ponta direita com um toque de técnica e inteligência. Ainda houve a chance de ampliar com Paulinho servido por Douglas Costa, que substituiu Coutinho. Willian entrara na vaga Jesus, com Neymar indo para o centro do ataque.

A seleção peruana ameaçou, rondou a área, mas, a rigor, a chance mais cristalina foi em lance fortuito que quase surpreendeu Alisson. O Brasil de Tite finalizou 12 vezes contra sete e terminou com 57% de posse. Alguns sustos, mas sem perder o controle.

Uma prova de maturidade de quem já sobra na rota para a Rússia. Quatro pontos à frente do Uruguai e oito da quinta colocada, a Argentina. Seis vitórias seguidas igualando “As Feras do Saldanha” em 1969. Quem diria?

Para quem sofria ou era indiferente a cada jogo do Brasil de Dunga, a má notícia é que a temporada 2016 chegou ao fim.

(Estatísticas: Footstats)


O surto coletivo verde tem um jogo a menos para sofrer
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André Rocha

Dirigente, treinador, jogador, torcedor, jornalista. O surto coletivo verde continua com seu mantra: “O importante é vencer!”

O que normalmente seria um lema para as duas rodadas finais já dura pelo menos um mês. Desculpas não faltam: cansaço, tensão, trauma de 2009, os dois rebaixamentos para a Série B e os 22 anos sem título brasileiro.

A realidade do campo é que o Palmeiras está tão ansioso para garantir matematicamente a taça que não quer mais jogar. O time entra em campo com a proposta de ser perfeito, 100% eficiente sem a bola e deixar o ataque com a qualidade individual ou as jogadas ensaiadas de bola parada.

O gramado encharcado do Allianz Parque foi o álibi para o jogo físico e direto nos primeiros minutos. Assim saiu o gol de Cleiton Xavier no “abafa” desde a disputa entre Geferson e Mina que ocasionou o escanteio.

Mas a chuva parou e o Palmeiras seguiu sofrendo. Se fosse possível a partida terminaria ali. O que se viu depois foi uma equipe muito atenta no trabalho defensivo. Entrega impressionante de todos na pressão sobre o oponente com a bola, poucas chances para as “bolas vadias” e chutões para afastar qualquer perigo. Erro zero. Mesmo que os acertos também sejam poucos.

Posse de bola dividida, sete finalizações contra 12 do Inter, que foi bem superior nos desarmes certos: 21 contra nove. Mas ameaçou de fato bem pouco. No contragolpe, Gabriel Jesus teve a bola dos 2 a 0, mas o chute colocado bateu na trave de Danilo Fernandes. O garoto não consegue render nesse estilo tão pragmático de Cuca.

Porque o Palmeiras não joga nem deixa jogar. Tem a convicção absoluta de que o sofrimento para arrancar os três pontos é a única saída para não deixar o título escapar. Como se 15 jogos de bom futebol, e nem sempre, compensassem 19 de um desempenho muito aquém para tamanho investimento.

É muito pouco para a grandeza do clube. Mas como na frieza dos números funciona vira uma “verdade” que reduz qualquer discordância a clubismo, bairrismo, perseguição, heresia. Ninguém mais raciocina ou questiona. “Siga o líder” virou resposta para tudo. No apito final, um grito uníssono de alívio.

A boa notícia é que agora falta menos um jogo para sofrer. E muito provavelmente não vai durar até a última rodada.

(Estatísticas: Footstats)


Cinco jogos para o Palmeiras não ser um campeão pela porta dos fundos
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André Rocha

O Palmeiras foi campeão brasileiro com o esquadrão de Ademir da Guia e com os timaços da Era Parmalat comandados por Vanderlei Luxemburgo. Dois bicampeonatos. Equipes históricas pelos craques e pela supremacia diante dos rivais.

Difícil um outro time vencedor do clube na principal competição nacional atingir o mesmo nível. Mas é possível ao menos ficar na memória de quem aprecia bom futebol e deixar algum legado.

O Palmeiras do primeiro turno, mesmo quando não esteve na ponta da tabela, teve momentos marcantes e grandes atuações. No auge de Roger Guedes e Gabriel Jesus, os comandados de Cuca chegaram a dar espetáculo, protagonizar grandes jogos. Provava ser o melhor, ainda que apenas rondasse a liderança.

O do segundo turno perdeu uma invencibilidade de 15 partidas na derrota para o Santos na Vila Belmiro. 1 a 0, gol de Copete. Jogo duro. Porque o alviverde compete muito e sempre. É time difícil de ser batido. A vantagem caiu de seis para cinco pontos. Mas segue com forte cheiro de título faltando cinco partidas.

Internacional, Botafogo e Chapecoense em casa, Atlético-MG e Vitória fora. Jogos que Cuca pode aproveitar a folga na liderança, a perda da invencibilidade que sempre induz um time a focar mais no resultado que no desempenho e as semanas cheia de trabalho, ainda que sem Gabriel Jesus na seleção, para tentar resgatar algo que ficou pelo caminho.

Um jogo mais fluido, com volume e criatividade. Menos pressa para definir o ataque e atalhos em jogadas verticais ensaiadas com bola no chão ou pelo alto. Mais protagonismo e menos especulação quando atuar fora de casa.

A bola passando por Moisés e Tchê Tchê, chegando a Dudu pelos flancos com o suporte dos laterais. Não é possível que a seca de Gabriel Jesus desde o empate com o Flamengo seja apenas um desvio de foco para a seleção brasileira e já pensando no futuro com Guardiola no City.

Com a camisa verde e amarela é óbvio que a companhia é mais qualificada. Nenhum clube brasileiro tem condições de dar ao jovem atacante as parcerias com Neymar e Coutinho. Mas não pode ser só isso. O trabalho de Tite colabora para que ele receba mais vezes em condições de ir às redes.

O torcedor mais apaixonado e pragmático olha a tabela e aponta o maior número de vitórias, o ataque mais positivo. Nas estatísticas, lidera apenas em finalizações. Natural para um time tão vertical e objetivo. Já deixou de ser a defesa menos vazada com o gol sofrido na Vila, Atlético-PR e o próprio Santos sofreram 28, um a menos que o líder.

Mas se a preocupação for apenas administrar a vantagem, o Atlético Mineiro, que já igualou os 56 gols marcados, pode ultrapassar. O que consolidaria Fred ou Robinho na artilharia da competição. E dependendo da combinação de resultados o Palmeiras pode levar a taça para casa sem ter o maior número de vitórias. Hoje são 20 contra 19 do Santos.

É muito pouco para a fantástica história do Alviverde Imponente. O time de Cuca pode e deve entregar mais futebol. Voltar a transformar um desempenho empolgante em resultados e consolidar a conquista sem sofrimento. A ansiedade do treinador que passa para o grupo não pode ser uma desculpa eterna. É possível fazer mais.

Para não se eternizar apenas pelo fim dos 22 anos sem títulos brasileiros e ser lembrado também pela bola jogada. Agora o torcedor quer a taça, esfregar na cara dos rivais e celebrar nas ruas. A longo prazo, porém, é frustrante entrar para a galeria de campeões apenas com números para apresentar. Sem brilho. Pela porta dos fundos.