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Neymar na ponta não é mais atacante como CR7, nem tem a genialidade de R10
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André Rocha

Tite divulgou os convocados da seleção brasileira para os amistosos contra Arábia Saudita e Argentina em outubro e, na coletiva, voltou a falar sobre Neymar.

“Acompanhei as atuações recentes dele no PSG. São possibilidades táticas para potencializar o talento do Neymar. Vejo ele desequilibrante na esquerda, onde tem decidido pela Seleção. É o DNA dele no Santos, no Barcelona e na Seleção. Mas sem fechar conceitos como no jogo contra o México, que foi diferente desse desenho.”

Importante o treinador abrir o leque de opções para aproveitar seu talento mais desequilibrante, como tenta fazer Thomas Tuchel no time francês. Mas ainda mais fundamental é notar uma transformação silenciosa no estilo de jogo do camisa dez.

No Santos e no Barcelona, Neymar era um ponteiro finalizador. Com habilidade, rapidez e visão de jogo, mas essencialmente mirando o gol. Com Messi, Iniesta e mesmo Xavi em fim de carreira para pensar o jogo no time catalão, o brasileiro se comportava como atacante. Recebia mais próximo da área adversária e partia para finalizar ou concluir. Na última temporada jogou aberto, quase como um típico ponta fazendo todo o corredor esquerdo.

Mesmo sem a companhia de um grande armador de jogadas na seleção, Neymar também era mais atacante. No 4-1-4-1 de Tite, até recuava um pouco para trabalhar com os meio-campistas, mas os movimentos principais eram de condução, drible ou infiltração para dar o passe ou o toque final.

Como Cristiano Ronaldo no Manchester United e no início de sua passagem pelo Real Madrid. Sem comparações, obviamente. Só no comportamento que foi mudando com o tempo até o português se transformar no gênio da grande área do século XXI com eficiência maior em menos toques na bola. Atacante puro.

A ida para o PSG mudou a dinâmica de Neymar. Na composição do trio ofensivo, ele é quem tem mais perfil de meia para acionar Mbappé e Cavani. Ou seja, tem que ser o que foi Messi para ele no Barça. Ou o que Ronaldinho Gaúcho foi para Messi no início da trajetória do argentino.

Neymar não tem a objetividade de Messi. É mais artístico, como Ronaldinho. Não por acaso, referência e ídolo. Inconscientemente ou não, repete alguns movimentos característicos do “Bruxo”: recebe pela esquerda, conduz com o pé direito e define se tenta o drible na ponta ou corta para dentro e busca o lançamento ou a inversão de lado. Como esquecer as “pifadas” do melhor do mundo em 2004 e 2005 para Giuly, Eto’o e Messi?

A diferença é que Ronaldinho, além de mais genial, era forte e acertava nas escolhas das jogadas com mais frequência. Não caía com qualquer choque e sabia o momento de prender a bola. Neymar muitas vezes fica encaixotado pela esquerda e toca para o lado, para trás ou tenta o drible e perde a bola. Ou sofre a falta.

Na seleção, o problema se agrava muitas vezes pela falta de um atacante de profundidade pela direita e por dentro. No início da Era Tite, Philippe Coutinho era o ponta armador do lado oposto, depois foi para o meio e Willian virou titular. Nenhum dos dois tem como característica infiltrar em velocidade na diagonal. Roberto Firmino também é um jogador de toque curto, não de bola longa.

Talvez por isso Tite tenha trazido Gabriel Jesus de volta, mesmo com imagem desgastada pela Copa do Mundo e sem viver um bom momento no Manchester City, e dado mais uma oportunidade a Richarlison. Ambos chamam lançamentos e podem ser úteis no entendimento com este Neymar mais pensador.

Este que escreve, porém, segue com a leitura de que a liberdade que ganhou de Rogerio Micale na conquista do ouro olímpico há dois anos é a melhor solução. Ou a que tinha na reta final do trabalho de Mano Menezes em 2012. Quem sabe repetindo a dinâmica da vitória sobre o México citada pelo próprio Tite, quando Neymar ficou mais solto na frente, alternando com Firmino o posicionamento mais adiantado ou recuando para buscar espaços entre a defesa e o meio-campo do adversário. Assim prende menos a bola e não chama tanto a falta. Cria e conclui na mesma proporção.

Pela esquerda, Neymar ficou “manjado”. Principalmente em grandes jogos. Na derrota para o Liverpool na Liga dos Campeões, o brasileiro cresceu quando saiu da ponta e colocou sua criatividade a serviço da equipe. Limitá-lo a uma zona do campo é desperdiçar talento.

Nem máquina, nem mágico. O melhor Neymar é o leve, solto. Mas com “anarquia” na dose certa.

 

 

 


Na abertura do Inglês, as demonstrações de força de City e Liverpool
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André Rocha

Na temporada 2017/18, Manchester City e Liverpool sobraram na Inglaterra. O time de Guardiola empilhando recordes na conquista da Premier League e ainda a Copa da Liga na carona. Já os Reds terminaram a liga na quarta colocação, não faturaram nenhum troféu, mas voaram na Liga dos Campeões só parando na final contra o tricampeão Real Madrid em jogo polêmico. Eliminando com sobras o próprio City nas quartas de final.

Com a manutenção das estrelas dos citizens e a vinda de Mahrez, melhor jogador do Leicester City campeão em 2015/16, além dos reforços para deixar a equipe de Jurgen Klopp ainda mais poderosa, natural que a dupla se destaque já na primeira rodada como os times a serem batidos na principal competição nacional.

A começar pelo Liverpool voando no Anfield para atropelar o West Ham por 4 a 0. Com Alisson estreando com pouco trabalho na meta e vendo seu time colocando muita intensidade e volume de jogo. Mantendo uma característica da temporada passada: o trio Salah-Firmino-Mané se aproximando para tabelas e entrando na área oferecendo aos companheiros as melhores opções de finalização. Não por acaso, dois gols de Mané, o de Salah abrindo o placar e o último de Sturridge, que entrou na vaga justamente do atacante egípcio.

Bem assessorados pelo trio Wijnaldum-Milner-Keita. Este último vindo do Leipzig e se adaptando rapidamente ao jogo com o pé no acelerador de Klopp. Mais os laterais Alexander-Arnold e Robertson, que serviu a assistência para Salah. Com Van Dijk se afirmando, um goleiro mais confiável e as peças mais entrosadas, fica a impressão também de uma equipe mais sólida defensivamente.

Um vendaval de 65% de posse, mas com controle apenas na segunda etapa com a vitória já construída, e 18 finalizações contra cinco – oito a dois no alvo. Nítida demonstração de que o Liverpool nunca pareceu tão pronto para encerrar o período de 28 anos sem conquistar a liga, estacionando nos 18 e vendo o Manchester United ultrapassá-lo na Era Alex Ferguson.

Mas terá como grande obstáculo exatamente o time de Pep Guardiola, um treinador que vem se mostrando especialista nos campeonatos por pontos corridos. Porque seu time trabalha para se impor jogo a jogo. Mesmo fora de casa. No Emirates Stadium contra o Arsenal na primeira partida de liga sem Arsene Wenger, a equipe azul de Manchester se impôs contra os gunners hesitantes sob o comando de Unai Emery.

Sem David Silva, com De Bruyne no banco e num 4-2-3-1 dando liberdade a Bernardo Silva à frente de Fernandinho e Gundogan. Forte pela esquerda com o trator Mendy agora titular, ora atacando aberto, ora por dentro. Sempre voando. Nas combinações com Mahrez ou Sterling, os ponteiros que inverteram o posicionamento na maior parte do jogo.Trabalhando com os pés “bons” ou invertidos.

Como no primeiro gol, com Sterling cortando para dentro e, aproveitando que Mendy arrastou a marcação para o fundo, batendo no canto esquerdo de Petr Cech. Pelo setor também saiu a jogada do segundo, com Mendy servindo Bernardo Silva, já atuando pela ponta direita com a entrada do De Bruyne na vaga de Mahrez.

Muita pressão depois da perda da bola intimidando um Arsenal que parece ter se apequenado como instituição nos últimos anos e sente os jogos grandes. Ainda que seja muito cedo para qualquer avaliação mais profunda. Taticamente, o 4-2-3-1 com Ramsey atrás de Aubameyang, Ozil e Mkhitaryan nas pontas e o jovem francês Guendouzi como surpresa deixando o uruguaio Torreira no banco não foi tão funcional e só ameaçou na vitória pessoal do lateral Bellerín sobre Mendy e o chute perigoso que fez Ederson trabalhar.

Depois um 4-3-1-2 com Lacazette na vaga de Ramsey e Ozil como “enganche”. Mas deixou muitos espaços e não conseguiu duelar na consistência do jogo. Há muito a fazer, tanto dentro quanto fora de campo. É preciso recuperar confiança para render no mais alto nível.

Mesmo valorizando a bola, o City se mostra mais vertical, resolvendo a jogada o mais rápido possível quando rouba no campo de ataque. Foram “apenas” 58% de posse e 17 finalizações contra nove – oito a três no alvo. Na reta final, Guardiola trocou Aguero, que perdeu chance clara à frente de Cech pouco antes do segundo gol, por Gabriel Jesus e Sané entrou na vaga de Sterling. A prova de que há elenco para seguir dominando o cenário.

Mas terá um Liverpool mais “cascudo” e com elenco completo nas características pela frente. Se desta vez não priorizar o mata-mata poderemos ter o mais equilibrado duelo Guardiola x Klopp numa liga. Ainda é cedo para cravar qualquer coisa, mas se Manchester United e Tottenham não se cuidarem podem ficar pelo caminho.

(Estatísticas: BBC)


Tite merece as críticas justas e um ciclo completo até 2022
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André Rocha

Foto: Luis Acosta/AFP

Todo mundo já encontrou pela vida uma pessoa da qual se podia discordar e até se aborrecer com suas palavras e atos. Mas o respeito era obrigatório pela certeza de que, acertando ou errando, ela sabia o que estava fazendo.

Assim é Tite na seleção brasileira. Talvez o treinador mais preparado e bem informado a prestar serviços à camisa verde e amarela cinco vezes campeã do mundo. Também o mais atuante, criando uma rotina de observação e planejamento com sua comissão técnica nunca antes vista na CBF. Necessária pelo equilíbrio que o futebol no universo das seleções vem apresentando nesta Copa.

De 1970 para cá, o comando técnico sempre pareceu algo mais ligado à intuição, que também é importante. De Zagallo a Felipão e Parreira. Com ideias mais assentadas no futebol brasileiro, sem abrir muito os horizontes. Mas que atrelada ao conhecimento ficam bem mais sólidas. Inclusive para convencer os jogadores. As serpentes que precisam ser encantadas.

Como sempre acontece, Tite chamou atenção mais pela forma do que pelo conteúdo. A maneira quase messiânica de se comportar e comunicar foi vista por muitos como uma liderança que poderia até se arriscar na política. Foi bem aproveitada pela publicidade, inclusive. Para outros não passou de um discurso enfadonho, requentando estratégias de autoajuda, coaching e misturando com termos complexos.

De fato, em alguns momentos a linguagem poderia ter sido mais simples. Mas os jogadores, que, a rigor, são os que precisavam entender o que era dito por Tite sempre foram só elogios.

Escolhas são muito particulares. Sempre. Envolvem questões que vão muito além do desempenho puro e simples. Numa Copa do Mundo, fazer mudanças constantes pode gerar instabilidade na gestão do grupo. Desconfiança. A linha é muito tênue. Pegue qualquer documentário sobre um time campeão e sempre haverá aquele jogador contestado, mas que ganhou um voto de confiança e reescreveu sua história e a da equipe. Quando perde vira teimosia.

É óbvio que cada um pensa de um jeito. Este que escreve, para começar, não teria aceitado o convite e, consequentemente, a presença na coletiva de apresentação e muito menos o beijo de Marco Polo Del Nero em 2016. Sem escorregar na coerência.

Uma vez lá, teria convocado Arthur, do Grêmio. Potencialmente nosso melhor jogador em um setor crucial e carente no futebol brasileiro. Não teria mantido Fred no grupo com uma contusão grave e sem poder contribuir em campo. Talvez retornasse ao time da Eliminatória, com Renato Augusto no meio-campo dando maior suporte a Marcelo, Coutinho com liberdade de movimentação e o espaço para Gabriel Jesus se movimentar e Paulinho infiltrar. Uma voz mais firme com Neymar seria bem-vinda no processo.

Faltou um pouco de sorte também. Quando Tite sinalizou que faria a mudança que poderia ajustar a seleção, como Mazinho na vaga de Raí em 1994 e Kléberson no lugar de Juninho Paulista em 2002, Douglas Costa se lesionou e fez o técnico recuar e manter Willian.

Trocar Gabriel Jesus por Firmino pura e simplesmente nunca se mostrou uma opção tão segura. No segundo tempo da derrota para a Bélgica, o atacante do Liverpool também teve erros técnicos e chegou atrasado na hora de finalizar. A jogada desequilibrante foi de Jesus, pouco antes de ser substituído: caneta em Vertonghen e uma disputa com Kompany que a arbitragem poderia ter interpretado como pênalti.

Não era para ser. Mas pode ser melhor no Qatar. Desta vez com um ciclo completo de quatro anos. Mais habituado à tarefa de selecionar e com mais vivência, inclusive de Copa do Mundo. Mas principalmente porque Tite é disparado o melhor treinador brasileiro. Abaixo dele há uma grande névoa de profissionais ainda buscando afirmação. Sem a combinação de conteúdo e experiência, inclusive como jogador. Domina a prancheta e o vestiário. É atualizado e acompanha obsessivamente a bola jogada no país e no mundo. Não há “plano B”.

A crítica pela crítica é bem fácil. Em qualquer tempo, porque a chance de ser derrotado é sempre maior do que vencer. Então basta procurar defeitos até onde não existem, insistir para marcar território e no momento do revés capitalizar vendendo a imagem do isento em meio ao “oba oba”. No Brasil do pensamento binário, o que não for pancada é “passar pano”.

Difícil é ser justo no tom para discordar, mas reconhecendo o valor quando desmerecer é mais simples por conta de um resultado. A CBF tem a oportunidade de fazer a coisa certa e dar sequência ao trabalho. Com os devidos ajustes e a “casca” e o aprendizado de uma derrota doída. Ela deve isso a Tite, inclusive. Afinal, roubou dois anos de trabalho com a aventura de resgatar Dunga.

Tite é humano e carrega suas falhas e idiossincrasias. Pode e deve ser questionado. Mas lança um desafio que só acrescenta: para discordar é preciso conhecer. O simplismo de “falta um camisa dez”, “centroavante só é bom quando faz gol” e outros clichês não cabe mais. Que sejamos todos melhores no próximo ciclo até 2022.

 


A maior ameaça da Bélgica é não saber o que esperar dela
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André Rocha

Pegue tudo que a Bélgica fez até aqui na Copa do Mundo e descarte. Sim, jogue fora! Panamá, Tunísia, reservas contra a Inglaterra no jogo do “tanto faz” e Japão. Todos os gols, estatísticas, desempenhos…

Nada valem como parâmetro para avaliar suas possibilidades em duelo de quartas de final contra o Brasil. Jogo único, experiência inédita. A rigor, tudo que a seleção fez sob o comando de Roberto Martínez desde 2016 tem pouco ou nenhum peso para a grande partida da história desta talentosa geração até aqui.

Sim, maior que o confronto com a Argentina de Lionel Messi no Mané Garrincha em 2014, também pelas quartas. Primeiro porque a albiceleste não carregava o status de favorita ao título mundial que o Brasil ostenta na Rússia depois de quatro jogos e Alemanha, Espanha, Messi e Cristiano Ronaldo eliminados. Depois porque os belgas ganharam maturidade. Não só por aquela eliminação, com 11 convocados dos 14 que entraram em campo em Brasília há quatro anos, mas também pela decepção na Eurocopa contra País de Gales. Também nas quartas. Ainda sob o comando de Marc Wilmots.

O sucessor no comando técnico é espanhol. Fã de Johan Cruyff. Mas radicado na Inglaterra desde 1995, ainda como jogador. Valoriza a posse de bola, mas também adapta facilmente suas convicções a um jogo mais físico e direto.

Versatilidade também é a marca de muitos de seus jogadores. Vertonghen pode ser zagueiro ou lateral esquerda. No mesmo lado, Carrasco é ala, mas também pode ser meia ou ponteiro. Hazard sabe jogar aberto ou por dentro, como um atacante atrás do centroavante. De Bruyne tem atuado na seleção e no Manchester City como o meia mais próximo do volante à frente da defesa, porém sabe jogar adiantado, centralizado ou no flanco em uma linha de meias. Fellaini é meio-campista, mas pela estatura não é raro vê-lo na área fazendo dupla com Lukaku. Chadli, heroi contra o Japão, entrou na vaga de Carrasco na ala e também sabe fazer todo o corredor esquerdo.

É simplesmente impossível tentar vislumbrar o que a Bélgica fará em campo. Nas eliminatórias europeias sobrou contra adversários frágeis e os amistosos, mesmo contra seleções grandes como Espanha, Portugal e Inglaterra, não podem ser tratados como uma referência segura.

O 3-4-3 com proposta ofensiva pode ser mantido, sim. Arrojado, com muita pressão no campo de ataque e volume de jogo empurrando o Brasil para a defesa, mas também deixando espaços atrás e entre os setores. Há qualidade e coragem para tal ousadia. Com os alas Meunier e Carrasco bem abertos e preocupando os laterais Filipe Luís ou Marcelo e Fagner e os ponteiros Mertens e Hazard dois passos para dentro, perto de Lukaku e criando instabilidade na proteção da área brasileira que terá mudança: Fernandinho na vaga do suspenso Casemiro.

O 3-4-3 da Bélgica em sua versão mais agressiva, com alas Meunier e Carrasco abrindo o campo e os ponteiros Mertens e Hazard se aproximando de Lukaku, com o suporte do meia De Bruyne na articulação (Tactical Pad).

Mas Martínez também pode mudar tudo sem mexer na formação. Armando um 5-4-1 bastante cuidadoso guardando sua própria área. Em um jogo deste tamanho, que jogador se recusaria a uma função tática de maior sacrifício no trabalho defensivo e a humildade sem bola para buscar a vitória nos contragolpes? Basta reforçar a linha de cinco que já costuma ser formada com o recuo dos alas Meunier e Vertonghen alinhando De Bruyne a Witsel e os ponteiros Mertens e Hazard voltarem para esperar os laterais brasileiros. Compactação para evitar espaços entre os setores.

A linha de cinco na defesa belga quando os alas voltam como laterais e se juntam ao trio de defensores. Contra o Brasil, a missão é reduzir os espaços entre os setores, como os cedidos contra o Japão nas oitavas de final (Reprodução TV Globo).

Se quiser surpreender, novamente sem fazer alterações, o treinador espanhol ainda pode reagrupar o time em duas linhas de quatro: Vertonghen de lateral esquerdo, Carrasco adiantado como meia aberto, Mertens recuando à direita e Hazard mais solto para buscar espaços às costas dos volantes brasileiros mais próximo de Lukaku.

Uma possível surpresa de Martínez sem mexer na formação titular: duas linhas de quatro com Vertonghen na lateral, Carrasco adiantado como meia e Hazard no ataque com Lukaku (Tactical Pad).

Fellaini ou Dembele podem entrar para reforçar o meio-campo e dar liberdade a De Bruyne, Chadli ganhar a vaga de Carrasco para executar as mesmas funções pela esquerda. Martínez ainda conta com as opções de Januzaj, autor do golaço da vitória sobre a Inglaterra, Tielemans e Batshuayi.

Um vasto cardápio oferecido pelo grupo de jogadores mais homogêneo em termos de qualidade técnica deste Mundial. Mas uma incógnita também na força mental. Pode entrar na Arena Kazan sem nada a perder e arriscar tudo, com a confiança renovada depois de reverter uma desvantagem de dois gols contra o Japão em jogo eliminatório.  Para ultrapassar a barreira recente das quartas de final e repetir a geração semifinalista de 1986, só parando em uma tarde inspirada de Diego Maradona.

Mas também não é improvável temer a camisa cinco vezes campeã mundial e a equipe de Tite com sua solidez nos números e no desempenho. Ainda que todos se conheçam bem nos clubes – Fernandinho, Danilo e Gabriel Jesus jogam com Kompany e De Bruyne no Manchester City, Paulinho e Coutinho são companheiros de Vermaelen, Thiago Silva, Marquinhos e Neymar atuam ao lado de Meunier no PSG, Filipe Luís jogou com Carrasco no Atlético de Madri e Willian trabalha diariamente com Courtois e Hazard. O universo de seleções, porém, costuma carregar outra lógica e uma mística diferente.

Tudo isto torna a Bélgica um grande ponto de interrogação. A maior ameaça é justamente não saber o que esperar dela.


Gabriel Jesus é mais uma vítima do trauma de 1982: a crítica “preventiva”
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André Rocha

Carl Recine / Agência Reuters

Careca, Romário e Ronaldo. Grandes destaques individuais do Brasil nas Copas do Mundo de 1986 a 2002. Centroavantes, por coincidência. Canto do Cisne do Fenômeno e o início do ocaso de Adriano Imperador, em tese o sucessor, em 2006. Luís Fabiano em 2010 e Fred em 2014. Típicas referências na área. O jogador que fica no centro do ataque para finalizar.

Nos acostumamos com os fazedores de gols. Os mais talentosos não só por isto. Mas estão no imaginário popular. “O centroavante é o mais importante”, como diz a canção. Só que tudo muda. O futebol, o contexto, as necessidades.

Até Roberto Firmino calar boa parte da desconfiança habitual acerca de um jogador que faz sua carreira na Europa sem história em um grande clube brasileiro, Gabriel Jesus era quase unanimidade. Joia do Palmeiras contratada por Guardiola no Manchester City. Artilheiro da “Era Tite” ao lado de Neymar com dez gols, inclusive o da vitória sobre a Alemanha no amistoso em março tratado como decisão. Quando Diego Souza foi testado na função e Jô fazia seus gols pelo campeão brasileiro Corinthians, o questionado era Firmino.

Mas bastaram quatro jogos na Copa do Mundo sem gols e assistências, embora tenha tocado na bola antes de Philippe Coutinho colocar nas redes e aliviar a angústia contra a Costa Rica, para Jesus começar a ser criticado. Ou perseguido. Aos 21 anos, em sua primeira Copa do Mundo.

Até porque os alvos anteriores colocaram uma enorme pedra sobre as críticas. Thiago Silva, o “chorão”, com uma Copa perfeita até aqui, com exceção do erro de posicionamento no gol da Suíça na estreia. Inclusive e principalmente pela liderança com personalidade. E Neymar, o “mimado”,  optou por focar totalmente no futebol. Corte de cabelo discreto, sem reclamações e simulações. Muito pelo temor de levar o segundo cartão amarelo e ficar de fora de um jogo decisivo por suspensão. Dois gols e voltando a desequilibrar.

Então é Gabriel Jesus a bola da vez. Porque a seleção brasileira precisa ter um problema, uma deficiência para ser apontada. Uma espécie de defesa contra o “oba oba”. Ou o ufanismo associado a Galvão Bueno, a voz global que desde 1990 alimenta a empolgação em tempos de Copa do Mundo.

Mas o trauma vem de antes e é transferido de geração para geração. O registro histórico do Mundial na Espanha em 1982 é de uma torcida iludida, alimentada pela mídia na época. Inclusive radialistas cariocas estimulando o povo a organizar bolões em que as apostas focavam apenas no placar da vitória brasileira e quem faria os gols.

Como sempre, o mito é um pouco maior que os fatos. Havia críticas, sim. A Waldir Peres pela insegurança nas duas primeiras partidas, contra União Soviética e Escócia. A Serginho Chulapa, por marcar gol apenas contra a Nova Zelândia. Também a Telê Santana pela mudança de sistema, com Cerezo entrando na vaga de Paulo Isidoro  e abrindo um buraco pelo lado direito, sobrecarregando o lateral Leandro. Impossível esquecer de Zé da Galera, personagem de Jô Soares, bradando “Bota ponta, Telê!”

A euforia tomou conta mesmo depois dos 3 a 1 sobre a Argentina. Porque Waldir Peres fez grandes defesas, Serginho marcou o segundo gol de cabeça em uma jogada bem arquitetada pela direita, entre Zico e Falcão. Vitória sobre os então campeões do mundo com o reforço do jovem gênio Diego Maradona.

Veio a derrota para a Itália e duas figuras acabaram capitalizando com aquela decepção: João Saldanha e Zezé Moreira. O jornalista por apontar defeitos brasileiros em seus comentários no rádio e nas colunas em jornais e o treinador por elogiar a Itália como observador de Telê e ser até ironizado. Nada intencional, apenas opiniões embasadas em meio a um carnaval fora de época.

Junte a isso o “Maracanazo” em 1950 com a foto dos jogadores brasileiros na capa do jornal “O Mundo” na manhã da final contra o Uruguai já sagrando os campeões mundiais e pronto! Nascia ali um temor de elogiar a seleção e tratá-la como favorita. Favoritismo que não significa título conquistado.

O resultado é que há muita gente querendo ser João Saldanha ou radicalizar sendo uma espécie de “Profeta do Apocalipse”. Missão fácil e sedutora. Afinal, a chance de acerto é enorme – antes eram 31. Agora são sete contra uma (7 a 1!). Basta o Brasil perder para dizer “Eu avisei!”

Bem mais cômodo do que ter a opinião associada a Galvão Bueno, acusado de manipular o povo através do simplismo resultadista de elogiar sem limites na vitória e vilanizar e demonizar nos reveses. Ou, nas palavras do narrador, “vender emoções”.

Gabriel Jesus está no olho do furacão. Porque centroavante tem que fazer gol. Mesmo que desta vez a estrela do time seja o camisa dez e o nove também jogue em função dele. E do time. Como na movimentação abrindo espaços para o passe de Coutinho e a infiltração de Paulinho no primeiro gol sobre a Sérvia.

Contribuição para o time difícil de quantificar. Não é gol, nem assistência. Mas facilita a equipe. Como a volta pela esquerda fechando a inversão de bola para o lateral direito adversário. Ou a pressão no zagueiro que força o chutão e a bola retomada pela equipe de Tite. A solidez defensiva passa também por Gabriel Jesus. O futebol atual é assim, gostem ou não.

Não é “passar pano”. Nem garantir titularidade. Se Firmino entrar e melhorar o desempenho da equipe com e sem a bola, marcando gols ou não, ótimo para o Brasil. Talvez a mudança ensaiada contra o México, com Neymar solto e Jesus pela esquerda, como na reta final da Olimpíada, possa ser a melhor solução para incrementar o rendimento ofensivo.

E vale voltar novamente a 1982: Paolo Rossi era o centroavante contestado nos quatro primeiros jogos da Itália na Copa do Mundo. Nenhum gol. Até marcar três no Brasil, dois na Polônia e um na final contra a Alemanha para terminar como artilheiro e craque do Mundial.

O que se questiona, de fato, é a crítica “preventiva” e o foco apenas no aspecto negativo. O ponto branco no quadro escuro ou vice-versa. O tradicional “parece tudo bem, mas…” Seguindo a máxima de Millôr Fernandes: “Jornalismo é oposição, o resto é armazém de secos e molhados”. Princípio que esquece que quem critica sempre tem a mesma credibilidade de quem elogia sempre. Porque no futebol e na vida não há lugar para maniqueísmo.

Ainda que o extremismo esteja cada vez mais presente. E o ódio. As pessoas se unem mais nas redes sociais pelo que detestam do que pelo que amam. Se prefere Messi é preciso odiar Cristiano Ronaldo. Ou Neymar. E por aí vai. No esporte, na política, em tudo.

Gabriel Jesus é o vilão do momento. Mais uma vítima, no fim das contas. Antes o prodígio de origem humilde, agora o “amarelão”. Porque com a nove não pode errar. Ou com qualquer número da camisa verde e amarela, entidade que parece centralizar todas as paranoias de um país.

 


A Copa não vai dar outra chance para o Brasil perder tantos gols
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André Rocha

O primeiro tempo foi de tensão e dificuldades diante do 5-4-1 da Costa Rica que lembrou 2014 contra Itália, Uruguai e Inglaterra. Muita pressão no adversário com a bola, última linha de defesa bem coordenada e saída rápida, especialmente pela direita nas costas de Marcelo.

O Brasil podia ter sofrido mais nos primeiros 45 minutos, não fosse a ineficiência ofensiva do adversário. Simplesmente nenhuma finalização na direção da meta de Alisson. Incluindo o chute de Borges pra fora na jogada mais bem concatenada. Exatamente o que faltou à seleção de Tite. Sem infiltração, sem abrir o jogo. A destacar apenas o passe em profundidade de Casemiro para a única diagonal de Neymar, mas Keylor Navas chegou antes.

Tudo mudou na volta do intervalo, não só pela entrada de Douglas Costa. Mas intensidade e mobilidade. Paulinho passou a encontrar espaços para infiltrar, Fagner chegou bem à frente e centrou para Gabriel Jesus cabecear no travessão. A primeira de uma série de chances que se convertidas descomplicariam o jogo.

Com Firmino no lugar de Paulinho, o desespero em busca do gol salvador. Número absurdo de cruzamentos: 42. O cenário ficou ainda mais complexo com o pênalti bem anulado pelo árbitro Bjorn Kuipers. Neymar, mais uma vez, tentou trocar a sequência do lance por uma falta. Houve toque de Gonzalez, sim, mas o camisa dez ao notar o braço no peito joga o corpo para trás. Se tentasse seguir haveria a chance de finalização. A confusão só aumentou a tensão, inclusive de Neymar, que levou amarelo.

Quando parecia que o Brasil repetiria 1978 com dois empates nas duas primeiras partidas e correria um sério risco de eliminação na fase de grupos como em 1966, valeu a presença na área dos dois centroavantes. Centro de Marcelo, Firmino ajeitou, a bola passou por Jesus e Coutinho acabou com a agonia. O gol de Neymar nos acréscimos completando assistência de Douglas Costa foi mera consequência do alívio.

Vitória fundamental. Mas é bem provável que a Copa do Mundo não dê outra chance de perder tantos gols. 23 finalizações. Nove no alvo, melhorando o aproveitamento em relação à estreia. Mas foram duas finalizações de Neymar à frente de Navas com liberdade. Uma de Coutinho.

Em um torneio marcado até aqui pelo equilíbrio e pela solidez defensiva das “zebras” é obrigatório ser mais preciso. No desempenho já há duas referências: os primeiros 20 minutos contra a Suíça e o início do segundo tempo contra a Costa Rica. Falta o acabamento.

Sem comparações técnicas e históricas, mas Peru e Marrocos já estão eliminados por conta dos ataques “arame liso”. É preciso fazer o ajuste fino. Com a primeira vitória, a ansiedade pode atrapalhar menos contra a Sérvia.

(Estatísticas: FIFA)


As boas respostas brasileiras no ótimo teste final contra a Áustria
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André Rocha

A seleção austríaca chamava atenção antes do amistoso em Viena pelas sete vitórias seguidas, inclusive sobre a Alemanha. E tinha a utilidade de ser mais uma experiência da seleção de Tite contra a linha de cinco na defesa.

Mas a Áustria apresentou mais que isto no primeiro tempo. Especialmente a pressão na saída de bola em vários momentos e uma jogada que não resultou em gols, mas mostrou que pode ser, ou continuar sendo, um problema para o Brasil: a jogada de Alaba buscando o fundo pela esquerda e cruzando na segunda trave procurando Arnautovic na zona de Marcelo, mais baixo e com suas habituais dificuldades de posicionamento. O ala Lainer também conseguiu algumas infiltrações nas costas do lateral esquerdo.

Defensivamente a resposta brasileira foi a concentração e a atuação segura de Thiago Silva, Miranda e Casemiro. Compensando também Danilo, ainda hesitante tanto no posicionamento atrás quanto no apoio por dentro, deixando Willian mais aberto. Assim como a pressão logo após a perda da bola. Com um pouco menos de intensidade por conta da proximidade da Copa do Mundo.

Na frente, a dificuldade para infiltrar com tabelas, triangulações e ultrapassagens diante de um sistema defensivo postado. Mesmo sem Fernandinho e com Coutinho por dentro na linha de meias do 4-1-4-1. O mérito foi trabalhar com paciência, sem se desorganizar. E encontrar nos chutes de fora da área e nas bolas paradas as soluções para furar o bloqueio. Tentou com Casemiro e Philippe Coutinho. Thiago Silva errou a cabeçada na cobrança de escanteio de Neymar.

Na jogada individual do camisa dez que sobrou para Paulinho, a melhor chance até Marcelo arriscar de longe no rebote de um escanteio e, na dúvida da arbitragem se a bola bateu em Sebastian Prödl ou o zagueiro interferiu no lance, Gabriel Jesus finalizou com estilo, marcando seu décimo gol com a camisa verde amarela.

Pronto. Problema resolvido. Com a vantagem, a Áustria se abriu e, com espaços, o Brasil é letal nas transições ofensivas. Ainda mais com Neymar solto, com fome e inspirado. Linda jogada pessoal no segundo gol, já na segunda etapa. Outro contragolpe e o terceiro com Coutinho.

Podia ter saído mais com o clima mais de amistoso depois das substituições e da Áustria jogando a toalha. Mas não era hora de forçar nada, mesmo para os reservas querendo mostrar serviço. Tite já tinha suas respostas. Dentro do contexto das favoritas evitarem se enfrentar tão próximo do Mundial, foi o melhor teste possível. Para efetuar as últimas correções e, principalmente, definir a maneira de enfrentar adversários fechados.

Deve ser a tônica na primeira fase. E o Brasil mostrou que não está no auge, nem é hora para isto. Mas está pronto para iniciar a trajetória na busca do hexa.


Mais importantes que os 23 são os 14 (ou 15) usados jogo a jogo na Copa
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André Rocha

A lista de Tite é boa e coerente. Embora, a rigor, não seja a definitiva. É tudo que a comissão técnica não quer, mas pode ser alterada até a estreia por alguma lesão ou qualquer outro problema, até particular. A expectativa criada, porém, é mais que compreensível no país cinco vezes campeão mundial.

Mas o fato é que os 23 não vão jogar. No máximo aquela terceira partida da fase de grupos com a seleção brasileira já classificada. Ou se vier o caos de uma sequência de lesões ou um desempenho tão ruim que obrigue o treinador a mexer profundamente na base durante o torneio. Improvável, ainda mais com Tite.

Por isso vale mesmo pensar nos 14 ou 15, no caso de prorrogação nos jogos eliminatórios que permitirá quatro substituições, que entrarão em campo jogo a jogo.

O universo neste momento inicial é de 17 atletas. Alisson no gol. Se foi titular sem sequência de jogos, imagine depois de uma fantástica temporada na Roma. Danilo ou Fagner disputando a vaga de Daniel Alves – e se um deles se afirmar talvez nem se alternem. Marquinhos, Thiago Silva e Miranda na zaga. Marcelo na lateral esquerda. No meio, o triângulo não deve fugir de Casemiro, Paulinho, Fernandinho, Renato Augusto e Philippe Coutinho.

Na primeira fase, a tendência contra equipes fechadas é Coutinho por dentro no mesmo 4-1-4-1 e Willian abrindo o campo pela direita. Com Danilo atacando naturalmente por dentro, podendo emular os movimentos de Daniel Alves. Até por ter atuado como volante e meia em momentos na carreira. Em jogos maiores e eliminatórios mais à frente, a possibilidade de entrar Fernandinho ou Renato Augusto, que perdeu terreno mas basta mostrar desempenho para voltar a concorrer. Tudo para dar liberdade ao infiltrador Paulinho.E aí Coutinho pode voltar ao lado direito para circular e buscar os espaços entre a defesa e o meio-campo do adversário.

Na frente, Gabriel Jesus e Neymar iniciando. Roberto Firmino e Douglas Costa como as prováveis primeiras opções. Ou podendo até estar juntos em campo num momento de necessidade. E aí entra uma questão primordial na preparação até a estreia.

Tite não é exatamente um comandante intuitivo e inovador. Quase impossível tentar algo inédito dentro da Copa do Mundo. Por isso precisa testar no período de treinamentos todas as opções nos mais variados contextos. Como jogar com um homem a mais, um a menos. Perdendo por um ou mais gols num jogo eliminatório necessitando de um “abafa” para buscar o placar. Ou uma formação para suportar pressão e se defender de sequência de cruzamentos com vantagem no placar.

É legítimo questionar ausências, como Luan e Arthur do Grêmio. Ou mesmo presenças. Mas o fato é que o contexto de menos dois anos de trabalho reduziu bastante o espectro de experiências e observações. E na prática cinco ou seis jogadores podem nem entrar em campo na Rússia. Tite certamente não vai externar essa visão, mas sua torcida é para não precisar. Ederson vai precisar de sorte. Cássio mais ainda. Assim como Geromel, Filipe Luís, Fred e Taison devem dar suas contribuições apenas nos treinos.

Agora é pensar na oportunidade de estar com os jogadores pelo período mais longo dentro da trajetória de Tite. Para aprimorar tudo. Compactar setores, trabalhar coberturas, combinar triangulações, ultrapassagens, jogadas em profundidade, viradas de jogo para surpreender, o melhor momento para utilizar o drible e desequilibrar. Entrosar, jogar sem pensar. Afinar também a gestão de grupo, consolidar lideranças.

Depois é competir. Jogo a jogo. Com a partida disputada influenciando a seguinte. Analisando e reavaliando o trabalho, considerando também o adversário. Preparando para as situações imprevisíveis do futebol. Buscando desempenho para construir resultado.

O que se espera é que a emoção e a razão conduzam ao hexa. Ou ao melhor resultado possível. Porque o Brasil é apenas um dos favoritos em um Mundial que deve atingir nível altíssimo na reta final e tudo pode ser resolvido num detalhe. O resto é jogo de dados. Sorte. Não dá para descartar o imponderável, a favor ou contra.

 


A noite simbólica dos fracassos de Guardiola e Messi na Champions
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André Rocha

O Barcelona e o Manchester City serão campeões na Espanha e na Inglaterra. Por isso seria exagero falar em “morte” da escola que valoriza a posse de bola e jogadores mais ágeis, técnicos e de menos imposição física. Ainda que Pep Guardiola e Ernesto Valverde venham buscando adaptar e adicionar intensidade e pragmatismo em suas propostas de jogo.

Mas na Liga dos Campeões as eliminações para Roma e Liverpool são duras e simbólicas demais para os dois. Principalmente pelos contextos e pelo que fizeram os vencedores.

Jogos eliminatórios são naturalmente tensos e exigem força mental, concentração e precisão. Principalmente porque quando os nervos estão à flor da pele, quanto mais naturalidade e “jogar de memória” melhor. Mas ligado, firme. Não é por acaso que o Real Madrid vem se impondo nos últimos anos no torneio. O time merengue se adapta a qualquer cenário. Com o feeling de Ancelotti e agora Zidane.

Guardiola pecou por novamente “ousar” na formação do City. Um 3-1-4-2 com Walker e Laporte como zagueiros-laterais, Fernandinho alternando como zagueiro e volante, De Bruyne mais recuado adiantando David Silva, Bernardo Silva pela direita e Sterling mais próximo de Gabriel Jesus. Até surpreendeu o Liverpool no primeiro tempo pela pressão logo após a perda da bola e a capacidade de ocupar o campo de ataque com oito ou nove homens.

Mas de novo falhou ao não transformar 66% de posse e 13 finalizações em um placar maior que o 1 a 0 no gol de Gabriel Jesus logo aos dois minutos. Arbitragem à parte no polêmico gol anulado de Sané que custou a expulsão do treinador catalão pelo “piti” na saída para o intervalo.

A pausa fez Jurgen Klopp acalmar e reagrupar seu time. Com Mané pela direita ajudando Alexander-Arnold para fechar as incursões de Sané, Salah no centro e Firmino à esquerda, além de serenidade para conter a pressão e ficar um pouco mais com a bola. Mas o gol que definiu a vaga saiu no jogo direto, vertical. Liberdade de Chamberlain para acionar Salah e deste para Mané. Disputa com a zaga e sobra para o toque com categoria do egípcio. No final, Firmino apenas selou a classificação dos Reds para a semifinal da Liga dos Campeões depois de dez anos.

O City construiu sua campanha quase perfeita na Premier League com um 4-3-3 executado com todos os conceitos aplicados por Guardiola. Laterais Walker e Delph ora apoiando por dentro, ora por fora se juntando aos ponteiros Sterling e Sané que são abastecidos por De Bruyne e David Silva e acionam Aguero ou Gabriel Jesus. Ideia bem assimilada, movimentos bem coordenados.

O obsessivo Guardiola desconstruiu tudo nos dois jogos das quartas-de-final e pela quinta temporada consecutiva sequer chega à decisão da Champions. Desta vez com duas derrotas. Sinal de que é preciso rever algumas ideias e práticas para suas equipes se tornarem mais competitivas nessas disputas mais imprevisíveis, condicionadas a mando de campo e definidos no placar agregado. Cenário bem diferente das ligas nacionais das quais o treinador caminha para o sétimo título em nove anos de carreira. Com jogos menos complicados de planejar e controlar.

Controle que foi o que o Barcelona não teve no Estádio Olímpico de Roma. Permitiu o jogo físico do time italiano bloqueando Messi e Suárez e forçando pelos lados e nos passes longos para Dzeko e Patrik Schick contra Piqué e Umtiti, sobrecarregado na cobertura de Jordi Alba. Duas esticadas para Dzeko, gol do bósnio no primeiro pênalti e pênalti sofrido e convertido por De Rossi. No “abafa”, o gol de Manolas no escanteio.

No final, Piqué de centroavante. Desde 2010 é a solução quando o time de jogadores mais baixos, técnicos e velozes não consegue jogar ao natural e criar espaços. A Roma travou as infiltrações com Manolas, Fazio e Juan Jesus mais De Rossi na proteção e Florenzi negou as ultrapassagens de Alba. O Barça parou. De novo. Foi assim contra Atlético de Madri e Juventus.

Foram 15 finalizações a seis, oito na direção da meta de Ter Stegen e apenas duas que fizeram Alisson trabalhar. Domínio absoluto de quem parecia eliminado por conta dos 4 a 1 no Camp Nou.

E Messi? De novo flanando em campo como se jogasse uma partida qualquer da liga espanhola, que o argentino conquistou seis vezes nos últimos nove anos. Natural até demais…Mais uma vez não se viu a indignação com a derrota. Ou a noção de que é a Liga dos Campeões que vem definindo o melhor do mundo e, por isso, Cristiano Ronaldo transformou um 4 a 2 em 5 a 5. Agora caminhando para o desempate a favor do português. A terceira eliminação sem gols de Messi nos confrontos. Sintomático.

Noites históricas para Liverpool e Roma, com muito a comemorar. Feitos memoráveis também por superarem o treinador e o jogador mais talentosos desta era. Que construíram juntos uma trajetória vencedora lá no início da década e, fora a epopeia do Barça em 2015 com o trio MSN sob o comando de Luis Enrique, ficaram devendo em conquistas na competição mais importante.

É preciso mais que regularidade e foco na qualidade do jogo. E o paradoxo: enquanto Guardiola fica pilhado demais e acaba “inventando”, Messi parece indiferente, serenidade que se transforma em letargia. Mais uma noite de fracasso para rever convicções e prioridades.

(Estatísticas: UEFA)

 

 


Brasil vai bem como “desafiante”. O problema é outro, ou o mesmo de sempre
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André Rocha

A última vez que a seleção brasileira entrou em campo como “zebra” diante de um adversário tido como mais poderoso e, portanto, favorito foi na final da Copa das Confederações 2013. A Espanha era campeã mundial e bi da Eurocopa. O time de Luiz Felipe Scolari entrou transpirando fogo no Maracanã e atropelou Xavi, Iniesta e seus companheiros. 3 a 0, gritos de “o campeão voltou” e, pouco depois, o coordenador Parreira assumindo o favoritismo para o Mundial no ano seguinte como anfitrião.

O erro de Felipão nos 7 a 1 foi não ter resgatado este espírito. Sem Thiago Silva e Neymar, diante de um adversário com trabalho mais consolidado. Bastava jogar o favoritismo para o outro lado e entrar como franco-atirador, pelo contexto. Mas era a Alemanha, “freguesa histórica”. O treinador acreditou na camisa, no Mineirão lotado, no Bernard ídolo do Atlético Mineiro e “alegria nas pernas”. Se achou mais forte e o tombo foi sem precedentes.

Goleada histórica que criou o clima para o Brasil de Tite entrar mais que concentrado em Berlim. Sim, contra um “mistão” de Joachim Low. Mas se a campeã mundial venceu a Copa das Confederações com reservas merecia respeito independentemente da formação. Objetivamente era o primeiro confronto com uma candidata ao título. E justificou tentando impor seu jogo no ritmo de Toni Kroos.

De novo um Brasil sem Neymar. Mas desta vez organizado e precavido, com Coutinho pela esquerda e Fernandinho no meio dando liberdade para Paulinho infiltrar. Uma equipe bem coordenada no 4-1-4-1 e condicionada a pressionar o adversário desde a perda da bola. Pronta para acelerar assim que a retomasse.

No espaço deixado pela proposta alemã de controlar com a bola e ocupar o campo de ataque. Tudo que o Brasil precisa. Nosso jogo forte é o de transições ofensivas rápidas, com condução, passe e definição. Na bola roubada na frente, cruzamento de Willian da direita e gol de Gabriel Jesus, que podia ter se consagrado se não andasse tão afobado nas finalizações. Mas decidiu jogo grande e garantiu titularidade na Copa.

Podia ter sido mais que 1 a 0. No segundo tempo a Alemanha só levantou bolas na área e Alisson, Thiago Silva, Miranda e Casemiro sobraram. No final, a luta para a manutenção do resultado. Não adianta, é nossa cultura e Tite sabia que era importante vencer para aumentar a autoestima. A convocação final e a viagem para a Rússia estão logo ali.

O problema, porém, continua o mesmo. Talvez a seleção leve de três a quatro jogos para encarar um cenário parecido, com o adversário saindo para o jogo. Poucos paises atacam a camisa cinco vezes campeã mundial. Na fase de grupos, a tendência é encarar linhas de cinco e no mínimo oito jogadores guardando a própria área.

E aí tudo muda. Os problemas para infiltrar aparecem. Os espaços somem e com eles a paciência para trabalhar a bola. Falta o ritmista que não foi necessário em Berlim porque a equipe só acelerava. Será preciso abrir o campo, girar a bola, construir o espaço e ser letal na finalização.

Contra Inglaterra em Wembley e na Rússia enquanto os anfitriões não se empolgaram e bloquearam a entrada da área ninguém entrou, Vejamos a combinação dos novos conceitos, tempo para treinamentos, volta de Neymar e moral pelo triunfo sobre o “fantasma”.

Só não pode transformar um feito relevante – a Alemanha não era derrotada desde a semifinal da Eurocopa – na ilusão da Copa das Confederações. Já sabemos como termina, mesmo faltando tão pouco tempo desta vez. Tite é vivido, os jogadores com uma casca de quatro anos.

É hora de afinar o discurso. A Alemanha é a campeã, a Espanha a favorita. Melhor seguir como “desafiante”.