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A Copa não vai dar outra chance para o Brasil perder tantos gols
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André Rocha

O primeiro tempo foi de tensão e dificuldades diante do 5-4-1 da Costa Rica que lembrou 2014 contra Itália, Uruguai e Inglaterra. Muita pressão no adversário com a bola, última linha de defesa bem coordenada e saída rápida, especialmente pela direita nas costas de Marcelo.

O Brasil podia ter sofrido mais nos primeiros 45 minutos, não fosse a ineficiência ofensiva do adversário. Simplesmente nenhuma finalização na direção da meta de Alisson. Incluindo o chute de Borges pra fora na jogada mais bem concatenada. Exatamente o que faltou à seleção de Tite. Sem infiltração, sem abrir o jogo. A destacar apenas o passe em profundidade de Casemiro para a única diagonal de Neymar, mas Keylor Navas chegou antes.

Tudo mudou na volta do intervalo, não só pela entrada de Douglas Costa. Mas intensidade e mobilidade. Paulinho passou a encontrar espaços para infiltrar, Fagner chegou bem à frente e centrou para Gabriel Jesus cabecear no travessão. A primeira de uma série de chances que se convertidas descomplicariam o jogo.

Com Firmino no lugar de Paulinho, o desespero em busca do gol salvador. Número absurdo de cruzamentos: 42. O cenário ficou ainda mais complexo com o pênalti bem anulado pelo árbitro Bjorn Kuipers. Neymar, mais uma vez, tentou trocar a sequência do lance por uma falta. Houve toque de Gonzalez, sim, mas o camisa dez ao notar o braço no peito joga o corpo para trás. Se tentasse seguir haveria a chance de finalização. A confusão só aumentou a tensão, inclusive de Neymar, que levou amarelo.

Quando parecia que o Brasil repetiria 1978 com dois empates nas duas primeiras partidas e correria um sério risco de eliminação na fase de grupos como em 1966, valeu a presença na área dos dois centroavantes. Centro de Marcelo, Firmino ajeitou, a bola passou por Jesus e Coutinho acabou com a agonia. O gol de Neymar nos acréscimos completando assistência de Douglas Costa foi mera consequência do alívio.

Vitória fundamental. Mas é bem provável que a Copa do Mundo não dê outra chance de perder tantos gols. 23 finalizações. Nove no alvo, melhorando o aproveitamento em relação à estreia. Mas foram duas finalizações de Neymar à frente de Navas com liberdade. Uma de Coutinho.

Em um torneio marcado até aqui pelo equilíbrio e pela solidez defensiva das “zebras” é obrigatório ser mais preciso. No desempenho já há duas referências: os primeiros 20 minutos contra a Suíça e o início do segundo tempo contra a Costa Rica. Falta o acabamento.

Sem comparações técnicas e históricas, mas Peru e Marrocos já estão eliminados por conta dos ataques “arame liso”. É preciso fazer o ajuste fino. Com a primeira vitória, a ansiedade pode atrapalhar menos contra a Sérvia.

(Estatísticas: FIFA)


As boas respostas brasileiras no ótimo teste final contra a Áustria
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André Rocha

A seleção austríaca chamava atenção antes do amistoso em Viena pelas sete vitórias seguidas, inclusive sobre a Alemanha. E tinha a utilidade de ser mais uma experiência da seleção de Tite contra a linha de cinco na defesa.

Mas a Áustria apresentou mais que isto no primeiro tempo. Especialmente a pressão na saída de bola em vários momentos e uma jogada que não resultou em gols, mas mostrou que pode ser, ou continuar sendo, um problema para o Brasil: a jogada de Alaba buscando o fundo pela esquerda e cruzando na segunda trave procurando Arnautovic na zona de Marcelo, mais baixo e com suas habituais dificuldades de posicionamento. O ala Lainer também conseguiu algumas infiltrações nas costas do lateral esquerdo.

Defensivamente a resposta brasileira foi a concentração e a atuação segura de Thiago Silva, Miranda e Casemiro. Compensando também Danilo, ainda hesitante tanto no posicionamento atrás quanto no apoio por dentro, deixando Willian mais aberto. Assim como a pressão logo após a perda da bola. Com um pouco menos de intensidade por conta da proximidade da Copa do Mundo.

Na frente, a dificuldade para infiltrar com tabelas, triangulações e ultrapassagens diante de um sistema defensivo postado. Mesmo sem Fernandinho e com Coutinho por dentro na linha de meias do 4-1-4-1. O mérito foi trabalhar com paciência, sem se desorganizar. E encontrar nos chutes de fora da área e nas bolas paradas as soluções para furar o bloqueio. Tentou com Casemiro e Philippe Coutinho. Thiago Silva errou a cabeçada na cobrança de escanteio de Neymar.

Na jogada individual do camisa dez que sobrou para Paulinho, a melhor chance até Marcelo arriscar de longe no rebote de um escanteio e, na dúvida da arbitragem se a bola bateu em Sebastian Prödl ou o zagueiro interferiu no lance, Gabriel Jesus finalizou com estilo, marcando seu décimo gol com a camisa verde amarela.

Pronto. Problema resolvido. Com a vantagem, a Áustria se abriu e, com espaços, o Brasil é letal nas transições ofensivas. Ainda mais com Neymar solto, com fome e inspirado. Linda jogada pessoal no segundo gol, já na segunda etapa. Outro contragolpe e o terceiro com Coutinho.

Podia ter saído mais com o clima mais de amistoso depois das substituições e da Áustria jogando a toalha. Mas não era hora de forçar nada, mesmo para os reservas querendo mostrar serviço. Tite já tinha suas respostas. Dentro do contexto das favoritas evitarem se enfrentar tão próximo do Mundial, foi o melhor teste possível. Para efetuar as últimas correções e, principalmente, definir a maneira de enfrentar adversários fechados.

Deve ser a tônica na primeira fase. E o Brasil mostrou que não está no auge, nem é hora para isto. Mas está pronto para iniciar a trajetória na busca do hexa.


Mais importantes que os 23 são os 14 (ou 15) usados jogo a jogo na Copa
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André Rocha

A lista de Tite é boa e coerente. Embora, a rigor, não seja a definitiva. É tudo que a comissão técnica não quer, mas pode ser alterada até a estreia por alguma lesão ou qualquer outro problema, até particular. A expectativa criada, porém, é mais que compreensível no país cinco vezes campeão mundial.

Mas o fato é que os 23 não vão jogar. No máximo aquela terceira partida da fase de grupos com a seleção brasileira já classificada. Ou se vier o caos de uma sequência de lesões ou um desempenho tão ruim que obrigue o treinador a mexer profundamente na base durante o torneio. Improvável, ainda mais com Tite.

Por isso vale mesmo pensar nos 14 ou 15, no caso de prorrogação nos jogos eliminatórios que permitirá quatro substituições, que entrarão em campo jogo a jogo.

O universo neste momento inicial é de 17 atletas. Alisson no gol. Se foi titular sem sequência de jogos, imagine depois de uma fantástica temporada na Roma. Danilo ou Fagner disputando a vaga de Daniel Alves – e se um deles se afirmar talvez nem se alternem. Marquinhos, Thiago Silva e Miranda na zaga. Marcelo na lateral esquerda. No meio, o triângulo não deve fugir de Casemiro, Paulinho, Fernandinho, Renato Augusto e Philippe Coutinho.

Na primeira fase, a tendência contra equipes fechadas é Coutinho por dentro no mesmo 4-1-4-1 e Willian abrindo o campo pela direita. Com Danilo atacando naturalmente por dentro, podendo emular os movimentos de Daniel Alves. Até por ter atuado como volante e meia em momentos na carreira. Em jogos maiores e eliminatórios mais à frente, a possibilidade de entrar Fernandinho ou Renato Augusto, que perdeu terreno mas basta mostrar desempenho para voltar a concorrer. Tudo para dar liberdade ao infiltrador Paulinho.E aí Coutinho pode voltar ao lado direito para circular e buscar os espaços entre a defesa e o meio-campo do adversário.

Na frente, Gabriel Jesus e Neymar iniciando. Roberto Firmino e Douglas Costa como as prováveis primeiras opções. Ou podendo até estar juntos em campo num momento de necessidade. E aí entra uma questão primordial na preparação até a estreia.

Tite não é exatamente um comandante intuitivo e inovador. Quase impossível tentar algo inédito dentro da Copa do Mundo. Por isso precisa testar no período de treinamentos todas as opções nos mais variados contextos. Como jogar com um homem a mais, um a menos. Perdendo por um ou mais gols num jogo eliminatório necessitando de um “abafa” para buscar o placar. Ou uma formação para suportar pressão e se defender de sequência de cruzamentos com vantagem no placar.

É legítimo questionar ausências, como Luan e Arthur do Grêmio. Ou mesmo presenças. Mas o fato é que o contexto de menos dois anos de trabalho reduziu bastante o espectro de experiências e observações. E na prática cinco ou seis jogadores podem nem entrar em campo na Rússia. Tite certamente não vai externar essa visão, mas sua torcida é para não precisar. Ederson vai precisar de sorte. Cássio mais ainda. Assim como Geromel, Filipe Luís, Fred e Taison devem dar suas contribuições apenas nos treinos.

Agora é pensar na oportunidade de estar com os jogadores pelo período mais longo dentro da trajetória de Tite. Para aprimorar tudo. Compactar setores, trabalhar coberturas, combinar triangulações, ultrapassagens, jogadas em profundidade, viradas de jogo para surpreender, o melhor momento para utilizar o drible e desequilibrar. Entrosar, jogar sem pensar. Afinar também a gestão de grupo, consolidar lideranças.

Depois é competir. Jogo a jogo. Com a partida disputada influenciando a seguinte. Analisando e reavaliando o trabalho, considerando também o adversário. Preparando para as situações imprevisíveis do futebol. Buscando desempenho para construir resultado.

O que se espera é que a emoção e a razão conduzam ao hexa. Ou ao melhor resultado possível. Porque o Brasil é apenas um dos favoritos em um Mundial que deve atingir nível altíssimo na reta final e tudo pode ser resolvido num detalhe. O resto é jogo de dados. Sorte. Não dá para descartar o imponderável, a favor ou contra.

 


A noite simbólica dos fracassos de Guardiola e Messi na Champions
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André Rocha

O Barcelona e o Manchester City serão campeões na Espanha e na Inglaterra. Por isso seria exagero falar em “morte” da escola que valoriza a posse de bola e jogadores mais ágeis, técnicos e de menos imposição física. Ainda que Pep Guardiola e Ernesto Valverde venham buscando adaptar e adicionar intensidade e pragmatismo em suas propostas de jogo.

Mas na Liga dos Campeões as eliminações para Roma e Liverpool são duras e simbólicas demais para os dois. Principalmente pelos contextos e pelo que fizeram os vencedores.

Jogos eliminatórios são naturalmente tensos e exigem força mental, concentração e precisão. Principalmente porque quando os nervos estão à flor da pele, quanto mais naturalidade e “jogar de memória” melhor. Mas ligado, firme. Não é por acaso que o Real Madrid vem se impondo nos últimos anos no torneio. O time merengue se adapta a qualquer cenário. Com o feeling de Ancelotti e agora Zidane.

Guardiola pecou por novamente “ousar” na formação do City. Um 3-1-4-2 com Walker e Laporte como zagueiros-laterais, Fernandinho alternando como zagueiro e volante, De Bruyne mais recuado adiantando David Silva, Bernardo Silva pela direita e Sterling mais próximo de Gabriel Jesus. Até surpreendeu o Liverpool no primeiro tempo pela pressão logo após a perda da bola e a capacidade de ocupar o campo de ataque com oito ou nove homens.

Mas de novo falhou ao não transformar 66% de posse e 13 finalizações em um placar maior que o 1 a 0 no gol de Gabriel Jesus logo aos dois minutos. Arbitragem à parte no polêmico gol anulado de Sané que custou a expulsão do treinador catalão pelo “piti” na saída para o intervalo.

A pausa fez Jurgen Klopp acalmar e reagrupar seu time. Com Mané pela direita ajudando Alexander-Arnold para fechar as incursões de Sané, Salah no centro e Firmino à esquerda, além de serenidade para conter a pressão e ficar um pouco mais com a bola. Mas o gol que definiu a vaga saiu no jogo direto, vertical. Liberdade de Chamberlain para acionar Salah e deste para Mané. Disputa com a zaga e sobra para o toque com categoria do egípcio. No final, Firmino apenas selou a classificação dos Reds para a semifinal da Liga dos Campeões depois de dez anos.

O City construiu sua campanha quase perfeita na Premier League com um 4-3-3 executado com todos os conceitos aplicados por Guardiola. Laterais Walker e Delph ora apoiando por dentro, ora por fora se juntando aos ponteiros Sterling e Sané que são abastecidos por De Bruyne e David Silva e acionam Aguero ou Gabriel Jesus. Ideia bem assimilada, movimentos bem coordenados.

O obsessivo Guardiola desconstruiu tudo nos dois jogos das quartas-de-final e pela quinta temporada consecutiva sequer chega à decisão da Champions. Desta vez com duas derrotas. Sinal de que é preciso rever algumas ideias e práticas para suas equipes se tornarem mais competitivas nessas disputas mais imprevisíveis, condicionadas a mando de campo e definidos no placar agregado. Cenário bem diferente das ligas nacionais das quais o treinador caminha para o sétimo título em nove anos de carreira. Com jogos menos complicados de planejar e controlar.

Controle que foi o que o Barcelona não teve no Estádio Olímpico de Roma. Permitiu o jogo físico do time italiano bloqueando Messi e Suárez e forçando pelos lados e nos passes longos para Dzeko e Patrik Schick contra Piqué e Umtiti, sobrecarregado na cobertura de Jordi Alba. Duas esticadas para Dzeko, gol do bósnio no primeiro pênalti e pênalti sofrido e convertido por De Rossi. No “abafa”, o gol de Manolas no escanteio.

No final, Piqué de centroavante. Desde 2010 é a solução quando o time de jogadores mais baixos, técnicos e velozes não consegue jogar ao natural e criar espaços. A Roma travou as infiltrações com Manolas, Fazio e Juan Jesus mais De Rossi na proteção e Florenzi negou as ultrapassagens de Alba. O Barça parou. De novo. Foi assim contra Atlético de Madri e Juventus.

Foram 15 finalizações a seis, oito na direção da meta de Ter Stegen e apenas duas que fizeram Alisson trabalhar. Domínio absoluto de quem parecia eliminado por conta dos 4 a 1 no Camp Nou.

E Messi? De novo flanando em campo como se jogasse uma partida qualquer da liga espanhola, que o argentino conquistou seis vezes nos últimos nove anos. Natural até demais…Mais uma vez não se viu a indignação com a derrota. Ou a noção de que é a Liga dos Campeões que vem definindo o melhor do mundo e, por isso, Cristiano Ronaldo transformou um 4 a 2 em 5 a 5. Agora caminhando para o desempate a favor do português. A terceira eliminação sem gols de Messi nos confrontos. Sintomático.

Noites históricas para Liverpool e Roma, com muito a comemorar. Feitos memoráveis também por superarem o treinador e o jogador mais talentosos desta era. Que construíram juntos uma trajetória vencedora lá no início da década e, fora a epopeia do Barça em 2015 com o trio MSN sob o comando de Luis Enrique, ficaram devendo em conquistas na competição mais importante.

É preciso mais que regularidade e foco na qualidade do jogo. E o paradoxo: enquanto Guardiola fica pilhado demais e acaba “inventando”, Messi parece indiferente, serenidade que se transforma em letargia. Mais uma noite de fracasso para rever convicções e prioridades.

(Estatísticas: UEFA)

 

 


Brasil vai bem como “desafiante”. O problema é outro, ou o mesmo de sempre
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André Rocha

A última vez que a seleção brasileira entrou em campo como “zebra” diante de um adversário tido como mais poderoso e, portanto, favorito foi na final da Copa das Confederações 2013. A Espanha era campeã mundial e bi da Eurocopa. O time de Luiz Felipe Scolari entrou transpirando fogo no Maracanã e atropelou Xavi, Iniesta e seus companheiros. 3 a 0, gritos de “o campeão voltou” e, pouco depois, o coordenador Parreira assumindo o favoritismo para o Mundial no ano seguinte como anfitrião.

O erro de Felipão nos 7 a 1 foi não ter resgatado este espírito. Sem Thiago Silva e Neymar, diante de um adversário com trabalho mais consolidado. Bastava jogar o favoritismo para o outro lado e entrar como franco-atirador, pelo contexto. Mas era a Alemanha, “freguesa histórica”. O treinador acreditou na camisa, no Mineirão lotado, no Bernard ídolo do Atlético Mineiro e “alegria nas pernas”. Se achou mais forte e o tombo foi sem precedentes.

Goleada histórica que criou o clima para o Brasil de Tite entrar mais que concentrado em Berlim. Sim, contra um “mistão” de Joachim Low. Mas se a campeã mundial venceu a Copa das Confederações com reservas merecia respeito independentemente da formação. Objetivamente era o primeiro confronto com uma candidata ao título. E justificou tentando impor seu jogo no ritmo de Toni Kroos.

De novo um Brasil sem Neymar. Mas desta vez organizado e precavido, com Coutinho pela esquerda e Fernandinho no meio dando liberdade para Paulinho infiltrar. Uma equipe bem coordenada no 4-1-4-1 e condicionada a pressionar o adversário desde a perda da bola. Pronta para acelerar assim que a retomasse.

No espaço deixado pela proposta alemã de controlar com a bola e ocupar o campo de ataque. Tudo que o Brasil precisa. Nosso jogo forte é o de transições ofensivas rápidas, com condução, passe e definição. Na bola roubada na frente, cruzamento de Willian da direita e gol de Gabriel Jesus, que podia ter se consagrado se não andasse tão afobado nas finalizações. Mas decidiu jogo grande e garantiu titularidade na Copa.

Podia ter sido mais que 1 a 0. No segundo tempo a Alemanha só levantou bolas na área e Alisson, Thiago Silva, Miranda e Casemiro sobraram. No final, a luta para a manutenção do resultado. Não adianta, é nossa cultura e Tite sabia que era importante vencer para aumentar a autoestima. A convocação final e a viagem para a Rússia estão logo ali.

O problema, porém, continua o mesmo. Talvez a seleção leve de três a quatro jogos para encarar um cenário parecido, com o adversário saindo para o jogo. Poucos paises atacam a camisa cinco vezes campeã mundial. Na fase de grupos, a tendência é encarar linhas de cinco e no mínimo oito jogadores guardando a própria área.

E aí tudo muda. Os problemas para infiltrar aparecem. Os espaços somem e com eles a paciência para trabalhar a bola. Falta o ritmista que não foi necessário em Berlim porque a equipe só acelerava. Será preciso abrir o campo, girar a bola, construir o espaço e ser letal na finalização.

Contra Inglaterra em Wembley e na Rússia enquanto os anfitriões não se empolgaram e bloquearam a entrada da área ninguém entrou, Vejamos a combinação dos novos conceitos, tempo para treinamentos, volta de Neymar e moral pelo triunfo sobre o “fantasma”.

Só não pode transformar um feito relevante – a Alemanha não era derrotada desde a semifinal da Eurocopa – na ilusão da Copa das Confederações. Já sabemos como termina, mesmo faltando tão pouco tempo desta vez. Tite é vivido, os jogadores com uma casca de quatro anos.

É hora de afinar o discurso. A Alemanha é a campeã, a Espanha a favorita. Melhor seguir como “desafiante”.


Vá se preparando! Vem aí o Brasil de Tite com jogo de posição e no 2-3-5
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André Rocha

Foto: EPA

Tite concedeu as últimas entrevistas exclusivas antes da convocação para os amistosos contra Rússia e Alemanha em março. Depois vai se concentrar no trabalho e só ouviremos o treinador em coletivas até a Copa.

Em todas foi possível pescar algo das ideias do comandante da seleção. Está mais que clara sua obsessão por furar linhas de cinco depois de bater no muro da Inglaterra em Wembley. Este blog se dá o direito de recordar que foi o primeiro espaço a alertar para a dificuldade que seria enfrentar as retrancas “handebol”  – leia ou lembre AQUI.

A boa notícia é que Tite já tem um norte a seguir: o jogo de posição. Ou localização. Um conceito complexo de futebol que tem origem na escola holandesa e Pep Guardiola virou o grande expoente e disseminador atualizando o que lhe foi ensinado por Johan Cruyff quando foi seu técnico no Barcelona nas décadas de 1980/90.

É complexo, mas tem lógica. Desde que passou a existir o time grande e o pequeno no futebol surgiu o duelo ataque x defesa. A equipe com mais recursos e/ou tradição é obrigada a ocupar o campo adversário porque o menor, por opção ou instinto, vai se retrancar concentrando jogadores para proteger a própria meta.

O jogo de posição procura dar inteligência e ordem na hora de atacar. O que você precisa para enfrentar uma retranca?

Primeiro uma saída de bola com qualidade para se instalar no campo de ataque sem correr o risco de um erro de passe pegar o time saindo e, consequentemente, desarrumado e exposto. Para isso, o goleiro com técnica de passador é fundamental para auxiliar e ser um homem a mais na construção. Tite tem Alisson e Ederson, excepcionais.

Uma vez no campo adversário, qual a necessidade? Jogadores próximos, criar superioridade numérica no setor em que está a bola, iniciar a jogada de um lado e terminar do outro. Tudo para iludir um time com nove ou dez homens de linha em cerca de cinquenta metros.

O que é a amplitude? Ter jogadores bem abertos para que o oponente não fique confortável bloqueando a zona mais perigosa que é a central. Alargar o campo também abre mais brechas para infiltrar.

Aí entra a profundidade, que não é só chegar à linha de fundo pelos flancos. Mais importante é entrar no espaço às costas da defesa para finalizar. Pelo meio ou através das diagonais. Sem isso só restariam os chutes de média e longa distância, outra arma poderosa contra ferrolhos.

Para criar, o jogo entrelinhas. Nada mais do que os jogadores procurarem os espaços entre os setores do adversário para receber a bola com liberdade, sem pressão. Especialmente os meio-campistas mais criativos para encontrar liberdade e dar o passe qualificado para a assistência ou a finalização. Aquilo que Messi faz como ninguém e Neymar vem desenvolvendo no PSG.

E como se defender? Bem, se o time está com praticamente todos os jogadores no outro lado, bem longe da própria meta, você tem que matar a origem do contragolpe. Aí entra o “perde e pressiona” que começa com o jogador que perdeu a bola ou quem estiver mais próximo dela. Abafar para não ser surpreendido.

Se o time toca, roda a bola e pressiona para recuperá-la rapidamente, a tendência é ter mais posse que o adversário. Ou seja, é uma consequência natural e não um fim em si mesma. Por isso Guardiola disse detestar o “tiki-taka”. Porque no jogo de posição, como vimos, tudo tem um porquê.

Dito tudo isso, não deixa de ser irônico que tantos no Brasil acreditem que o treinador catalão copia o futebol brasileiro. Aquele que sempre abriu retrancas no drible, no improviso. Tudo que Guardiola não quer. Ou apenas no lugar certo.

A sofisticação no ato de atacar gerou como resposta a inteligência na hora de defender. José Mourinho tirou o estigma da vergonha da retranca. Para parar o Barça histórico, linhas praticamente chapadas com no mínimo oito jogadores bloqueando os espaços certos. Se o objetivo final do jogo de posição é infiltrar na área, nada mais lógico que distribuir jogadores na região mais perigosa para evitar. Por isso a linha de cinco.

Que pode virar até de sete quando essa linha fica mais estreita, com jogadores mais próximos, e os dois meias ou ponteiros voltam pelos lados como laterais. É a hora em que vira linha de handebol.

O Brasil voltou a figurar na lista de favoritos com a recuperação comandada por Tite. E exatamente por esse favoritismo que o treinador brasileiro precisou estudar e introduzir conceitos antes pouco explorados. Não é por acaso que antes Carlo Ancelotti fosse sua referência e hoje seja Guardiola e o Manchester City.

Está claro que o time base terá que ser alterado com essa mudança de paradigma. Daniel Alves e Marcelo são laterais construtores, palavras de Tite. Ou seja, organizam mais e tendem a procurar o centro, não atacam tão abertos. Paulinho infiltra por dentro. Philippe Coutinho sai da direita para o meio. Neymar pela esquerda também corta para o pé direito. Gabriel Jesus é atacante de infiltrar nos espaços às costas da defesa. Que espaço numa linha de cinco?

Foi o problema contra a Inglaterra. O antídoto, ao menos na primeira fase contra Suíça, Costa Rica e Sérvia? Um sistema ultraofensivo que remete aos primórdios do futebol: o 2-3-5. Ou “pirâmide”. A antítese da linha de cinco atrás. Ou melhor, a inversão. Cinco no ataque. Na prática, é o adiantar e reorganizar as linhas do 4-1-4-1/4-3-3. Guardiola aplicou em todas as suas equipes sempre que enfrentou defesas mais fechadas.

Funciona assim: os dois zagueiros ocupam a linha média. Mais à frente, laterais atacando mais por dentro, como meio-campistas. No Bayern de Munique, Lahm e Alaba. Tite terá os dois melhores do mundo: Daniel Alves e Marcelo. Criando e também sendo os primeiros a ajudar os zagueiros no caso da surpresa de um contra-ataque.

Fazendo companhia a um volante, ou médio, com papel fundamental: é o homem da distribuição das jogadas, da inversão de lado, do desafogo, da opção de volta da bola para concatenar outro ataque. O titular é Casemiro, mas pode vir a ser Fernandinho, mais habituado a executar o jogo de posição como primeiro articulador.

Na frente, cinco jogadores. Que não funcionam em linha, é claro. Dois ponteiros para dar a amplitude citada acima, já que os laterais atacarão por dentro. Na seleção pode ser um pouco diferente: pela direita, Willian, que dentro desta ideia parece cada vez mais titular, bem aberto e Daniel Alves por dentro. Do lado oposto, Marcelo pode aparecer pelo flanco porque será um desperdício Neymar ficar isolado como um ponta para participar menos do jogo e dar o último passe. Precisa ter liberdade.

Porque a ideia central desta proposta é a bola chegar ao jogador posicionado e não o contrário. Ainda que haja movimentos de ida e volta, como os meias por dentro. Philippe Coutinho parece certo como um desses homens buscando espaços entre as linhas. Aberto como ponta, sem procurar o centro, vai ficar ainda mais deslocado, desconfortável. Deve ficar com a vaga de Renato Augusto, que perdeu espaço e confiança de Tite. O outro seria Paulinho, mas a dificuldade para participar do controle do jogo com a bola que mostra no Barcelona tende a dificultar a manutenção da titularidade. A menos que Tite sacrifique a criatividade em nome da força e do timing para aparecer na frente.

Por isso a busca do “ritmista”. O outro meia que fará a bola chegar na frente com qualidade. Acelerando e desacelerando, ditando o ritmo. Se não tem alguém com as características de David Silva em alto nível, o treinador procura esse jogador em Diego, Lucas Lima, Fred (Shakhtar Donetsk) ou Jadson. Também pode ser Arthur do Grêmio. Por erros na nossa formação de meio-campistas este deve ser o nosso grande “gargalo” na Copa do Mundo.

No centro do ataque, Gabriel Jesus como jogador do último toque como funciona no City, e a adaptação ao estilo é uma vantagem, ou Firmino abrindo espaços, recuando para tabelar com os meio-campistas e permitindo as infiltrações em diagonal dos ponteiros. Ou mesmo os dois numa proposta ainda mais ousada para ter dois finalizadores.

Uma das formações possíveis no 2-3-5 para colocar em prática o jogo de posição: Willian e Neymar nas pontas para dar amplitude, mas com o camisa dez ganhando liberdade para circular e Marcelo atacando pelo flanco esquerdo. Fernandinho seria o titular como o volante por dominar os conceitos no Manchester City de Guardiola, grande referência de Tite na montagem da seleção para furar linha de cinco na defesa (Tactical Pad).

Sim, parece tarde para tamanha revolução. Muitos conceitos para poucos jogos e treinamentos. Mas é isto ou bater no muro como em Wembley. A boa notícia é que boa parte dos jogadores já praticou o jogo de posição nos seus clubes em algum momento. A questão é fazer juntos.

Arriscado demais? Tudo pode ruir numa saída rápida de contra-ataque? Claro, mas o Brasil sempre correu este risco em Copas. Quem se abre contra a camisa cinco vezes campeã mundial? A Holanda, que não estará na Rússia, a Argentina pela rivalidade e, talvez, Espanha e França. A grande maioria espera para surpreender. Então nenhum país precisa mais dominar o jogo de posição que o nosso.

Tite sabe disso e deve estar sendo duro se desapegar de certas convicções. Mas segue debruçado sobre os conceitos, os mais avançados na prática do esporte na atualidade, que já vêm sendo abordados nas entrevistas do técnico – e já há quem reclame dele estar “abrindo o jogo”, como se as outras seleções, ao menos as grandes, não tivessem equipes de análise de desempenho com softwares avançados para observar isso no campo, onde mais importa.

Até o início do Mundial serão transferidos para os debates sobre futebol na TV, no rádio, na internet. Já é possível vislumbrar, sem exageros, o maior embate ideológico da história do nosso jornalismo esportivo.

De um lado os que estão conectados ao futebol atual jogado nos principais centros do mundo, com seus excessos e preciosismos na maneira de comunicar ou não, e os que renegam tudo por saudosismo, pensamento conservador, preguiça ou seja lá o que for e menosprezam reduzindo tudo a modismos, neologismos, invenções, etc.

No final, como tudo no futebol brasileiro, o resultado é que vai falar mais alto. Se vier o hexa será a chance do país dar um salto conceitual com a valorização do estudo e da evolução. Se perder, e como perder, virá o discurso de sempre que ajuda a travar o desenvolvimento do esporte por aqui.

Portanto, vá se preparando! O Brasil de Tite, ainda que mais por necessidade que convicção, vai sacudir e virar do avesso as estruturas do nosso jogo.

 

 

 


O que o Cruzeiro ganha e perde com Fred
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André Rocha

Foto: Divulgação/Cruzeiro

A melhor versão da seleção brasileira com Mano Menezes foi sem um atacante na referência. Neymar abrindo espaços para Hulk, Kaká e Oscar. Fred foi preterido e agradeceu aos céus quando o treinador foi demitido e Luiz Felipe Scolari assumiu em 2013. Criticou publicamente o ex-comandante do escrete canarinho. Para terminar em quarto lugar na Copa do Mundo no Brasil no ano seguinte. Com Fred titular nos 7 a 1. A última partida dele com a camisa verde e amarela.

Se a polêmica que nasceu com o anúncio do retorno do centroavante ao clube depois de 13 anos para ser comandado por Mano Menezes já foi encerrada pelos dois em entrevistas, a questão no campo segue gerando dúvidas.

Porque o Cruzeiro ganha, mas também perde com a presença de Fred no ataque. Na temporada 2017, os melhores momentos do time celeste foram sem um típico camisa nove na frente. Na conquista da Copa do Brasil com Sóbis ou Raniel na reta final depois da saída de Ramón Ábila; no Brasileiro usando a dupla Thiago Neves-De Arrascaeta alternando no centro do ataque, mas com mobilidade, trocando com os ponteiros Rafinha, Alisson e Elber, além de Robinho, mais articulador.

Mano diz que seu time criava, mas não era contundente. No Brasileiro, a equipe mineira marcou 47 gols em 38 rodadas, foi apenas o 10º ataque mais efetivo. O artilheiro foi Thiago Neves com 11 gols em 33 partidas. Um a menos que Fred em 30. Atacante que precisou de menos que cinco tentativas para ir às redes. O Cruzeiro terminou com 11, a quinta pior equipe na relação gols/finalizações. Mesmo sendo o segundo colocado no total de conclusões, só atrás do Flamengo.

Portanto, na principal competição nacional, com números mais consistentes em 38 rodadas, mesmo considerando que o time priorizou a Copa do Brasil e teve um relaxamento natural depois do título, a necessidade de contratar um atacante mais definidor ficou clara. No popular, o time foi “arame liso”: cercava, porém não feria os rivais.

Mas a questão central é: a equipe vai seguir criando e tendo fluência ofensiva com um camisa nove mais fixo? Porque Fred será referência do ataque, mas também para a defesa adversária. Tem 34 anos e a mobilidade nunca foi sua maior virtude.

Mano sabe bem disso e já sinalizou a mudança no estilo de sua equipe: “Muitas vezes no ano passado, o Cruzeiro precisou de um jogador mais de movimentação porque precisa construir a jogada. Então, se nós contratamos um jogador que é um 9, vamos ter que construir a jogada diferente para esse jogador”, explicou o treinador na coletiva da reapresentação do elenco.

Mais do que nunca, futebol é um jogo de espaços. As equipes atuam em não mais que 25 metros. O atacante precisa se mexer para abrir brechas na retaguarda do oponente e dar opção para receber e finalizar com o time no ataque. Também necessita de velocidade para receber às costas da defesa em contragolpes. O Cruzeiro de Mano gosta de se fechar compacto guardando a própria área, com os ponteiros bastante recuados. Quando a bola é roubada e o adversário pressiona, a rapidez do jogador mais adiantado é fundamental.

Basta notar a dinâmica das referências da função nos principais clubes: Suárez, Cristiano Ronaldo, Cavani, Lewandowski, Diego Costa, Lukaku, Morata, Aguero, Gabriel Jesus, Roberto Firmino…Todos finalizadores, mas que chamam lançamentos. Assim como Jô, campeão e artilheiro no Corinthians. Também participativos com e sem a bola.

Não dá mais para contar com um centroavante que seja o responsável apenas pelo último toque. A tendência é que ele faça o time travar ou, no mínimo, ser mais previsível, principalmente nos jogos grandes. Os pontas e meias trabalham para ele finalizar, sem grandes variações. Até porque os companheiros muitas vezes se acomodam com a presença de alguém que assume a responsabilidade pelos gols. O Cruzeiro, assim como aconteceu com o Atlético Mineiro nas duas últimas temporadas, pode perder em dinâmica e trabalho coletivo. Mesmo com Bruno Silva e David, em tese, acrescentando força e rapidez ao setor ofensivo.

Mas ganha, além de um grande artilheiro, um rosto, uma liderança. O jogador midiático, o procurado para entrevistas depois dos jogos. O personagem que pode chamar o foco para si e poupar um companheiro menos calejado para suportar críticas. Com vivência em Libertadores. Para a gestão de vestiário é importante.

Obviamente se a sintonia com Mano seguir afinada como nas entrevistas antes de começar a rotina desgastante física e mentalmente na temporada. Fred deve ficar no banco ou até de fora em alguns jogos para administrar o fôlego e não estourar os músculos. Como será o diálogo como o treinador de personalidade forte para definir a dosagem? A conferir.

A parceria pode dar certo, é claro. Motivado, em paz e com uma equipe bem ajustada, Fred tem condições de ainda ser bem útil no futebol brasileiro. Mas o Cruzeiro de Mano terá que lidar com as perdas e ganhos dessa mudança importante em seu ataque para 2018.

(Estatísticas: Footstats)


Primeiro teste na Europa foi útil, mas não bom. Brasil titular foi lento
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André Rocha

Apesar da Inglaterra desfigurada com sete desfalques, o teste para a seleção de Tite foi útil pelo enfrentamento com uma seleção europeia. Mais ainda por encarar uma linha de cinco defensores, negando espaços para infiltrações pelo meio ou nas diagonais.

Mas não foi bom. O time considerado ideal e titular esbarrou na própria lentidão em Wembley. Não por falta de velocidade dos jogadores, mas da circulação da bola. Muito pelo comportamento dos jogadores, especialmente Neymar.

Quando Tite montou o trio ofensivo, pensou em Philippe Coutinho como articulador partindo do lado direito para circular às costas dos volantes e Neymar saindo da esquerda e infiltrando em diagonal para servir os companheiros ou finalizar. Como um atacante letal e vertical. Como era no Barcelona.

Mas agora, no PSG, Neymar é muito mais este ponta armador, conduzindo a bola para acionar Cavani e Mbappé. O problema de levar este comportamento para a seleção é que Coutinho, Neymar e Renato Augusto procuram a bola para o toque curto ou conduzir. Apenas Paulinho tenta infiltrar.

Para complicar, Daniel Alves e Marcelo, bloqueados pelos alas Walker e Bertrand, não buscavam o fundo. E Gabriel Jesus, atuando mais como pivô no Manchester City, também recuava para fazer a parede e não se deslocava para receber em velocidade. Até porque o trio de zagueiros Gomes, Stones e Maguire não deixava espaços às costas.

Por isso um primeiro tempo insosso. Também porque Marquinhos e Miranda, com o auxílio de Casemiro, controlou bem as investidas rápidas de Vardy e Rashford, o único a finalizar para a defesa de Alisson.

Melhorou na segunda etapa porque Neymar passou a guardar um pouco mais a posição pela esquerda. Mas ainda mais armador que atacante. De seus pés saíram os passes para Jesus que Coutinho, na sequência, concluiu sobre Hart, e Paulinho. As únicas jogadas em profundidade para finalização. Pouco.

Melhorou um pouco com Willian, Fernandinho e Roberto Firmino nas vagas de Coutinho, Renato Augusto – ainda o mais inteligente meio-campista, mas jogando uma rotação abaixo dos demais – e Jesus. Porque com Willian aberto à direita, Neymar ganhou espaço para articular por dentro. Firmino, inteligente, foi buscar a brecha deixada à esquerda. Faltou a jogada precisa, assistência e finalização para sair do empate sem gols.

Amistoso é para isso: observar e testar. O resultado é secundário. Tite viu o que não funcionou no teste tão esperado e vai levar as reflexões para as férias. Talvez mexa no time base para a volta em março. O certo é que vai precisar mudar a dinâmica. Porque a ideia inicial de trabalhar com seus jogadores como eles atuam em seus clubes não está mais casando as características.

A seleção ficou mais lenta, ou menos rápida. No futebol de mais alto nível entre as seleções vai sofrer.


Com Willian, Brasil ganha cara de Real Madrid de Ancelotti. Neymar é CR7
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André Rocha

O gol de Neymar na cobrança de pênalti sobre Fernandinho com ajuda do árbitro de vídeo (VAR) logo aos oito minutos descomplicou um início com Japão pressionando e tirando espaços de uma seleção com natural desentrosamento pelas seis mudanças em relação à base titular.

Mas o amistoso em Lille – sem estádio lotado por conta dos ingressos caros – teve sua utilidade exatamente porque a falta de tempo até o Mundial da Rússia faz com que Tite não trate como mais um compromisso e aproveite cada oportunidade de reunir os jogadores para fazer observações e experiências.

No primeiro tempo ficou bem claro que a equipe com Willian, que tem mais perfil de ponteiro que Philippe Coutinho, ganha uma cara mais de 4-3-3 do que 4-1-4-1. Em vários momentos foi possível notar os três atacantes bem adiantados em relação aos meio-campistas. Com uma variação: exatamente o recuo de Willian pela direita formando uma segunda linha de quatro.

Fernandinho, escalado na vaga e na função de Renato Augusto, trabalhou sem bola como uma espécie de “guardião” de Marcelo, abrindo pela esquerda para fechar os espaços e liberar Neymar, cada vez mais atacante em dupla com Gabriel Jesus. Ainda assim nervoso, perdendo a segunda cobrança de pênalti e levando um amarelo desnecessário em nova intevenção do VAR.

Em 2014, o ano “sabático” de estudos, Tite foi a Madri acompanhar o Real do amigo Carlo Ancelotti. Campeão da Liga dos Campeões daquela temporada. Time montado num 4-3-3 que variava para o 4-4-2 com Bale voltando pela direita, Di María no meio abrindo pela esquerda para ajudar Marcelo e dar liberdade a Cristiano Ronaldo.

Qualquer semelhança não é mera coincidência. Na cabeça de Tite, Neymar é Cristiano Ronaldo. O talento desequilibrante. Sem comparações, obviamente. Apenas o posicionamento mais solto e a importância para o time.

Os 3 a 1 valeram para rodar o time, ver que a disputa pela última vaga na defesa está aberta com a atuação hesitante de Jemerson, que falhou no gol de Makino. Também que a equipe muito mexida, com Diego Souza, Alex Sandro, Renato Augusto, Taison e Douglas Costa, sofreu na segunda metade do segundo tempo para conter os ataques japoneses.

Principalmente pelo terceiro gol, de Gabriel Jesus em bela trama coletiva. Desde a pressão na perda da bola no lado esquerdo até a inversão, a ultrapassagem de Danilo e a assistência do lateral do Manchester City que vai ganhando de Fagner a vaga na reserva de Daniel Alves.

O golaço de Marcelo usando o pé direito num petardo também foi válido para o lateral do Real Madrid, tão criticado, recuperar confiança e mostrar que os problemas do clube não o abalam com a camisa verde e amarela. Melhor assim.

Contra a Inglaterra, Tite deve escalar todos os titulares para um teste de peso. Mesmo com as muitas baixas do adversário é a primeira chance de enfrentar a escola europeia. Com o retorno de Coutinho a dinâmica ofensiva muda. Vejamos se Tite revela alguma surpresa. Quem sabe com o meia do Liverpool mais por dentro, como Isco no time atual do Real Madrid, comandado por Zidane?

Se assim for, Neymar continuará sendo o CR7 da seleção.

 


City 2×1 Napoli – O “segredo” de Guardiola faz a diferença num grande jogo
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André Rocha

Nos primeiros 20 minutos do jogo no Etihad Stadium, o Manchester City conseguiu reproduzir a grande virtude do Barcelona e do Bayern de Munique comandados por Pep Guardiola: a dinâmica do “homem livre”.

Ou seja, a capacidade de ter superioridade numérica em todas as fases do jogo. Seja no início da construção das jogadas desde o goleiro Ederson, passando pelos laterais Walker e Delph ora descendo por dentro e deixando os pontas Sterling e Sané abrindo o campo, ora o inverso. Com Fernandinho recuando para auxiliar os zagueiros Stones e Otamendi.

A saída correta com passes limpos faz a equipe entrar na intermediária do oponente com mais jogadores no setor em que está a bola. Seja pelos flancos, com Walker, De Bruyne e Sterling à direita e Delph, David Silva e Sané do lado oposto, ou pelo centro com Fernandinho, De Bruyne, Silva, um dos laterais atacando por dentro e ainda o trabalho de pivô cada vez mais apurado de Gabriel Jesus. Sempre tem alguém livre dando opção para fazer o jogo fluir.

O resultado prático disso tudo contra o ótimo Napoli de Maurizio Sarri, líder da Série A italiana com 100% de aproveitamento em oito rodadas, foi um volume de jogo absurdo que criou pela esquerda com David Silva para encontrar Walker na área como atacante e Sterling abrindo o placar. Depois a jogada pela direita para mais uma assistência do meia De Bruyne como ponta para o toque simples e preciso de Jesus. 2 a 0 em 13 minutos.

Podia ter virado goleada num universo de onze finalizações e 63% de posse de bola. Mas os citizens não estavam jogando contra qualquer um e o Napoli, depois de compreender o que estava acontecendo, passou a se proteger melhor, vigiar os flancos, acertar a marcação por pressão no campo de ataque e, enfim, sair para jogar.

Teve a chance de equilibrar no placar com o pênalti de Walker sobre Albiol, mas Mertens bateu mal e Ederson pegou. Na segunda etapa de Napoli com seu 4-1-4-1 mais ajustado com Hamsik encontrando no brasileiro Allan, que entrou na vaga de Insigne, um companheiro mais qualificado para a articulação no meio. Até o pênalti tolo de Fernandinho sobre o lateral esquerdo Ghoulam que Diawara não desperdiçou.

Guardiola teve a humildade de reconhecer a qualidade do adversário e recuar linhas, compactar num 4-1-4-1 para buscar as transições em velocidade. Em seguida tentou recuperar posse e o controle de jogo com Gundogan e Bernardo Silva nas vagas de David Silva e Sterling. Depois tirou Jesus e colocou Danilo para administrar o resultado. Um pragmatismo mais que compreensível pelo contexto.

Reação do Napoli que se refletiu nos números. Chegou a oito finalizações. Metade das do City, mas muito melhor que na primeira etapa, assim como os 45% de posse. O início avassalador da equipe inglesa foi a diferença em um grande jogo, graças ao “segredo” de Guardiola que parece cada vez mais assimilado pelo time que no momento apresenta o melhor futebol da Europa.

(Estatísticas: UEFA)